Alta nas mortes em acidentes com motos exige política de prevenção
Por Editorial / O GLOBO
A motocicleta vem aumentando seu espaço nas cidades brasileiras à margem das regras de trânsito e sem fiscalização adequada. Como resultado, acidentes com motos se tornaram a principal causa de mortes no trânsito — elas chegaram a 34,9 mil em 2023, 3% acima das 33,9 mil de 2022, segundo o Atlas da Violência, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). É preciso que as autoridades lhes dediquem atenção especial.
Nos últimos 30 anos, a frota de motocicletas aumentou 40% — de 23,5 milhões para 33 milhões —, número compatível com o crescimento nos habilitados a dirigi-las. As mortes nos acidentes com motos, em contraste, se multiplicaram por dez. O pico havia sido 13 mil mortes em 2014. Elas caíram ligeiramente até 2019, mas de lá para cá — sem considerar 2020, ano da pandemia — dispararam. Chegaram a 6,3 por 100 mil habitantes em 2023, 12,5% mais que no ano anterior.
A moto é instrumento de trabalho para grande parcela da população de jovens de famílias desfavorecidas. Entregadores e motoboys estão presentes nas ruas, movidos por incentivos econômicos que premiam quem chegar mais rápido ao destino. Enquanto a prudência e o bom senso aconselham o respeito aos limites de velocidade e leis do trânsito, nem sempre esses itens estão no topo da lista de preocupações dos condutores. Falta treinamento e faltam campanhas robustas de conscientização sobre os riscos, voltadas tanto a quem dirige motos quanto aos motoristas de outros veículos que costumam provocar acidentes.
Há, é verdade, experiências bem-sucedidas. Em São Paulo, o prefeito Ricardo Nunes briga na Justiça contra os mototáxis — embora os demais motociclistas estejam livres para levar caronas — e criou uma faixa exclusiva para motos nas avenidas movimentadas, a faixa azul. Com isso, elas deixam de ziguezaguear entre os carros, reduzindo o risco de acidentes. Já há faixas azuis em quase 50 avenidas paulistanas, com mais de 220 quilômetros de extensão. Outras cidades, como o Rio de Janeiro, já copiaram o modelo.
Nas faixas azuis paulistanas, entre 2023 e 2024, caiu 47,2% o número de mortes de motociclistas (de 36 para 19), segundo estudo da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). A “taxa de severidade” (vítimas graves ou fatais a cada cem acidentes sérios) relativa a motos é 1,22 dentro da faixa azul e 24,72 fora dela na Avenida dos Bandeirantes, uma das mais movimentadas da cidade. Apesar disso, as mortes de motociclistas cresceram 19,8% — de 403 para 483 — no ano passado em relação a 2023. Não há, portanto, solução mágica. O governo precisa adotar diversas medidas articuladas, dentro de uma política de prevenção contra acidentes baseada em evidências científicas, e não em circunstâncias políticas ou inclinações ideológicas.
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