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Falta liderança e sobra oportunismo

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

A Câmara mostrou ao Palácio do Planalto o tamanho da base com a qual o presidente Lula da Silva pode contar e, à sociedade, quem determina de fato os rumos da política nacional. Pelo humilhante placar de 346 votos a 97, a Casa aprovou o regime de urgência para o projeto de decreto legislativo que altera as alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) determinadas pelo governo. Seja qual for o resultado final desse movimento político, uma coisa é certa: Lula da Silva perdeu uma parte substancial de sua capacidade para liderar o País como chefe de governo.

 

O Brasil claramente entrou em mais um período de estagnação, evidenciada por esse nítido descompasso entre Executivo e Legislativo. É possível antever que, de agora até as eleições de 2026, pouco ou nada de relevante para o País sairá do Palácio do Planalto ou avançará no Congresso, pois ambos os Poderes, cada um do seu jeito, têm emitido sinais diários de que estão ocupados com tudo, menos com o melhor interesse público.

 

A responsabilidade por essa paralisia é, em primeiro lugar, do presidente da República. No passado, Lula da Silva já demonstrou habilidade para construir coalizões e liderar o processo político, mas agora se mostra incapaz de organizar minimamente sua base no Congresso e de articular uma agenda que mobilize o País em torno de objetivos comuns. A bem da verdade, o petista já não tinha um projeto de governo digno do nome quando candidato em 2022, tendo sido eleito por margem ínfima de votos, convém recordar, não por ter uma suposta agenda programática, mas porque a maioria dos eleitores não quis correr o risco de conceder mais quatro anos de governo a Jair Bolsonaro.

 

Agora, é ainda mais remota a possibilidade de o presidente da República se ocupar das medidas estruturantes de que tanto o País precisa. O único plano que interessa a Lula da Silva é o de sua sucessão, além da busca sôfrega por adornos internacionais à sua biografia no crepúsculo de sua vida política.

 

Dito isso, também recai sobre o Congresso uma parcela da responsabilidade pelo fato de o Brasil ora patinar sobre gelo fino. Como sublinhamos há poucos dias, nada mais parece sensibilizar deputados e senadores do que a manutenção do esquema do “orçamento secreto” em suas múltiplas facetas. Para o País fora de Brasília, é péssimo este quadro de desvirtuação do regime presidencialista consagrado pela Constituição. Um Congresso hipertrofiado pelo sequestro de recursos orçamentários já seria uma aberração, fossem boas as intenções dos parlamentares para dispor de bilhões de reais em recursos públicos sem o devido escrutínio.

 

A perda da capacidade de Lula da Silva para propor e conduzir uma agenda nacional – o que não implica dizer que o petista esteja enfraquecido do ponto de vista estritamente eleitoral –, somada à miopia seletiva do Congresso, que só tem olhos para as emendas, cristalizou esse modelo de governança bastardo, em que o chefe do Executivo perdeu a iniciativa política e o Legislativo passou a legislar em benefício de interesses paroquiais, com pouca ou nenhuma preocupação com as necessidades estruturais do País.

 

Enquanto o governo se debate para conter crises sucessivas e aumentar a popularidade do presidente na base do marketing eleitoreiro, temas fundamentais seguem relegados a segundo plano. A reforma administrativa, que poderia modernizar o Estado e melhorar a qualidade do gasto público, permanece no campo dos desejos. A regulamentação da reforma tributária, essencial para garantir segurança jurídica e incentivar investimentos, avança a passos lentos. Questões centrais como a regulação das big techs, a adaptação do Brasil à nova realidade da inteligência artificial e os marcos legais para a nova realidade do trabalho e o enfrentamento do crime organizado também patinam. O resultado concreto é este vácuo de liderança que abre espaço para a consolidação de um modelo político dominado por interesses fisiológicos.

 

Não há saída para a crise política e institucional sem liderança. E, por ora, o que se vê em Brasília é a perigosa combinação entre o vazio de comando do Executivo e o avanço desmedido de um Legislativo que age com os olhos fixados no curto prazo e nas suas próprias conveniências.

 

Proliferação de ‘gatos’ de energia deve ser encarada como caso de polícia

Por  Editorial / O GLOBO

 

 

É paisagem corriqueira nas metrópoles brasileiras o impressionante emaranhado de fios pendendo dos postes, grande parte puxando energia da rede sem pagar e gerando riscos para a segurança. São inúmeros os “gatos”, apelido popular dos furtos de energia. Pode parecer problema menor, diante de tantas outras mazelas. Mas não é. Um relatório da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) mostrou que perdas não técnicas — causadas por furtos, fraudes ou erros operacionais — impuseram prejuízo de R$ 10,3 bilhões ao setor de distribuição no ano passado. Esse valor representa quase o custo previsto do programa federal Pé-de-Meia (R$ 12 bilhões), incentivo à permanência de alunos no ensino médio.

 

Pelos dados da Aneel, o problema está concentrado. Apenas duas concessionárias — Light, no Rio de Janeiro, e Amazonas Energia — respondem por mais de um terço dessas perdas (34,1%). Elas ocorrem sobretudo na rede de baixa tensão, onde o controle é mais difícil. Contribuem para a distorção ligações clandestinas, adulterações em medidores, desvios da rede e falhas na medição ou no faturamento.

 

A Aneel não aplica penalidade às concessionárias quando metas de redução de perdas não são alcançadas, mas limita o repasse desses valores às tarifas. Portanto as empresas que não conseguem controlá-las absorvem prejuízo. A ideia é que isso funcione como incentivo para que invistam em medidas de combate às fraudes. Mesmo assim, a conta sobra para o consumidor, uma vez que as perdas em níveis considerados “eficientes” são incorporadas às tarifas.

 

No caso dos “gatos”, parece evidente que a solução não depende só do setor de energia. Trata-se de um caso de polícia, e como tal deve ser encarado. De acordo com o artigo 155 do Código Penal, constitui crime “subtrair para si ou para outrem coisa alheia móvel” — “equipara-se à coisa móvel a energia elétrica ou qualquer outra que tenha valor econômico”. A pena prevista é de um a quatro anos de reclusão e multa.

 

Não é, sem dúvida, questão simples de resolver. Em geral, funcionários de concessionárias não conseguem entrar em áreas conflagradas nem para fazer reparos, quanto mais para desfazer conexões ilegais. A própria polícia encontra dificuldades nas incursões, pois os bandidos costumam erguer barricadas nas comunidades. Territórios são controlados por organizações criminosas que impõem ali suas próprias leis. Furtam energia, sinal de TV, internet, depois cobram taxas dos moradores pelos serviços ilegais. O achaque é hoje uma das principais fontes de renda tanto das quadrilhas de traficantes quanto de milicianos.

 

Mas não se pode ter leniência com o crime, porque direta ou indiretamente quem acaba punido é o consumidor, obrigado a pagar mais pelo serviço. As autoridades de segurança têm o dever de coibir furtos de energia, até porque eles ajudam as quadrilhas a se capitalizar. Não fazer nada ou tratar o problema como algo menor só estimula a proliferação dos “gatos”.

Datafolha: Orgulho de ser brasileiro cai, e sentimento de pessimismo segue em alta

Angela Boldrini / FOLHA DE SP

 

O sentimento de orgulho de ser brasileiro diminuiu, e o pessimismo em relação ao país aumentou, mostra pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (12).

De acordo com o instituto, 74% dos entrevistados declararam ter mais orgulho do que vergonha de ser brasileiro —em 2023, o mesmo índice estava em 83%. Já os brasileiros que dizem ter mais vergonha do que orgulho da nacionalidade aumentaram de 16% em 2023 para 24% na pesquisa desta semana.

O sentimento de pessimismo em relação ao Brasil atual passou de 47% em setembro de 2023 para 50% em junho de 2025. O índice era de 41% em 2020, o que indica a curva de alta. Já os otimistas diminuíram de 35%, em 2023, para 31% agora.

O Datafolha realizou 2.004 entrevistas em 136 municípios na terça (10) e quarta (11). A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

O menor índice de orgulho de ser brasileiro da série histórica foi registrado em junho de 2017, quando 50% dos entrevistados se declararam orgulhosos, contra 47% que disseram ter vergonha. Aquele período ainda estava quente diante dos protestos recentes pelo país ligados ao impeachment de Dilma Rousseff (PT) e escândalos ligados à Operação Lava Jato.

Já o pico de orgulho foi registrado em novembro de 2010, quando 89% se declararam orgulhosos da nacionalidade. Era a reta final do segundo governo Lula, quando deixou o Planalto com forte aprovação e promovendo a sucessão para a aliada Dilma.

Em 2025, a taxa de orgulhosos é maior entre os eleitores do presidente Lula (PT). Entre os que declararam ter votado no petista em 2022, 85% afirmaram ter mais orgulho que vergonha de ser brasileiro. Esse índice fica ainda maior entre os que afirmam que votarão em Lula em 2026, atingindo índice de 88% de orgulho, contra apenas 10% de vergonha.

Entre os eleitores declarados de Jair Bolsonaro (PL), 65% se declaram mais orgulhosos do que envergonhados, e o sentimento de vergonha fica em 33%. O número se mantém estável entre aqueles que têm intenção de voto no ex-presidente, atualmente inelegível por decisão do STF (Supremo Tribunal Federal): 64% se declaram orgulhosos, contra 35% envergonhados.

Os números também variam de acordo com a região do país: o Sul tem o menor índice de orgulhosos, com 68%, seguido pelo Sudeste, com 71%. As demais regiões (Norte, Nordeste e Centro-Oeste) aparecem empatadas com 78% de sentimento de orgulho.

O Datafolha também mediu o sentimento de orgulho em relação ao presidente Lula. Os números apontam para um resultado negativo para Lula: 56% dizem ter mais vergonha do mandatário, e 40% mais orgulho.

Na avaliação de 2025, o índice de vergonha em relação ao presidente é maior entre os evangélicos, com 69%. Já entre os católicos a sensação é dividida, com 50% se declarando com vergonha e 47% com orgulho do petista.

Os números são bem piores para o presidente do que na última vez em que a mesma pergunta foi realizada pelo Datafolha, em 2005. Naquele ano, apesar da proximidade com o escândalo do mensalão, que estourou apenas um mês antes de a pesquisa ser realizada, 54% dos brasileiros diziam ter orgulho do petista como presidente, enquanto 36% declaravam ter vergonha.

O sentimento em relação a Lula é substancialmente mais positivo entre os brasileiros com escolaridade até o ensino fundamental, com 55% se declarando orgulhosos, contra 34% daqueles com ensino médio e 36% dos que têm ensino superior.

De acordo com o Datafolha, também subiu o pessimismo em relação ao Brasil atual. O pico de pessimismo registrado ocorreu em outubro de 2018, logo antes do primeiro turno das eleições presidenciais, batendo em 58%.

Em 2025, os dados mostram um país polarizado, com a sensação de otimismo e pessimismo atrelada à preferência entre Lula e Bolsonaro. Entre os eleitores declarados do atual presidente, 47% têm sentimentos otimistas em relação ao país, índice que cai para 18% entre os apoiadores de Bolsonaro.

Já 68% daqueles que declaram intenção de voto em Bolsonaro em 2026 afirmaram sentir raiva quando pensam no Brasil, contra 37% dos potenciais eleitores de Lula.

Os sentimentos que predominaram entre as respostas dos brasileiros em relação à situação atual do país são os negativos. A insegurança foi a campeã, com 73% declarando esse sentimento, contra apenas 26% que se dizem seguros.

O desânimo também aparece em taxas maiores (64%) do que a animação (35%), e a tristeza (63%) sobre a felicidade (34%). Mais divididos estão os números de esperança (45%) e medo (54%), e os de raiva (55%) e tranquilidade (42%).

O medo do futuro, em especial, atingiu seu maior patamar na série histórica, chegando a 63%. O índice vem aumentando desde 2020, quando estava em 57%. Já os confiantes com o que está por vir decaíram, indo de 41% há cinco anos para 35% na nova pesquisa.

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Estado de Direito rejeita inquéritos eternos

É preocupante a perspectiva de que o Supremo Tribunal Federal renove mais uma vez o inquérito das milícias digitais. A investigação, capitaneada pelo ministro Alexandre de Moraes e que tem como alvo figuras de proa do bolsonarismo, foi iniciada em julho de 2021.

Reportagem da Folha, que ouviu 7 dos 11 ministros do STF, além de advogados próximos a eles, mostra que a tendência da corte é manter o inquérito aberto ao longo de 2026. Na visão do próprio Moraes, a investigação seria útil para evitar conturbações políticas num ano eleitoral.

Não é que a análise sociológica do ministro esteja errada. O problema é que cortes constitucionais, embora tenham sempre uma dimensão política, precisam se pautar por razões jurídicas.
Nesse quesito, é longa a lista, talvez não de irregularidades, mas ao menos de heterodoxias que esse e outros inquéritos semelhantes acumulam.

Para início de conversa, o Estado de Direito rejeita investigações eternas. Inquéritos precisam ter um objeto claro. O desse é por demais amplo, já tendo abarcado vários eixos, que vão da falsificação de certificados de vacinas à importação irregular de joias, passando por ameaças a ministros do Supremo.

Ou as autoridades reúnem indícios suficientes para apresentar uma denúncia com acusação concreta, ou as investigações devem ser encerradas. No caso específico, a Procuradoria-Geral da República já descartou abrir processos nos casos de vacinas e joias, mas o inquérito segue a pleno vapor, mudando de objeto conforme o tempo passa.

Não seria prudente estabelecer um limite temporal máximo objetivo para a permanência de inquéritos, já que a complexidade de cada investigação pode variar muito, mas é seguro afirmar que em nenhuma hipótese as apurações deveriam se tornar ferramenta de controle político.

Diga-se, em favor do Supremo, que até um passado recente havia justificativa para algumas das heterodoxias. Ela se chamava Augusto Aras —em cuja passagem pela PGR nada que contrariasse Jair Bolsonaro (PL) prosperava.

Sob essas circunstâncias, o STF fez bem ao encontrar um caminho, ainda que incomum, para superar a inércia do procurador. Não parece exagero afirmar que a firmeza da corte foi relevante para impedir que Bolsonaro intensificasse seus ataques às instituições democráticas.

A questão é que essas circunstâncias especiais não perduram mais. Aras concluiu seu termo, e a PGR, sob a direção de Paulo Gonet, voltou a ser um órgão funcional. O STF precisa voltar a operar em modo ortodoxo.

Está em jogo a própria credibilidade do Supremo. Se suas decisões são percebidas por uma parcela não desprezível da população como motivadas mais pela política do que pela técnica, o Judiciário deixará de ser visto como o órgão legítimo para a resolução de conflitos. E isso seria praticamente um suicídio institucional.

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Lula atrás nas pesquisas para um futuro condenado por golpe é humilhação

Por Fabiano Lana / O ESTADÃO DE SP

 

Expectativa: Consagrado internamente, o presidente Lula chega ao encontro do G7 esta semana no Canadá como um grande jogador capaz de influenciar os rumos do atual conflito no Oriente Médio entre Israel e Irã. Realidade: Com baixa popularidade, o presidente fará mais uma viagem internacional como um líder café-com-leite, sem grande importância estratégica para os demais, acuado por um Congresso que não quer aprovar seu pacote fiscal, e ameaçado nas pesquisas por qualquer um que seu maior adversário político – um notório golpista, prestes a ser preso – queira apoiar.

 

Uma teoria é que Lula não ganhou em 2022, mas Bolsonaro perdeu para si mesmo. Agora podemos inverter. Se a tendência continuar, qualquer político – mesmo pouco conhecido – que apareça nas cartelas de pesquisa, pode vencer o atual presidente. Isso deve ser bastante constrangedor para os ocupantes do Palácio do Planalto. E nem dizer que não se acredita mais em pesquisas tem sido possível – pois esse tipo de comportamento avestruz ficou ligado ao bolsonarismo.

 

Essa situação de fato humilhante ainda possui um tempero que intriga: os índices da economia brasileira não estão de mal a pior, ao contrário. A taxa de desemprego está entre as melhores da história. A renda das famílias encontra-se em elevação. A inflação deu um suspiro. O PIB cresceu mais de 3%. O déficit público segue a ameaçar todas as conquistas citadas, mas não é algo que a população sinta neste momento.

 

Nesta conjuntura, querem apontar o dedo em direção ao culpado para o principal suspeito de sempre: a comunicação. O ministro responsável pela área, Sidônio Palmeira, poderia alegar que algumas intercorrências, como a crise do INSS ou o problema da taxação do Pix, interromperam uma recuperação virtuosa. Que o governo é vítima das fake news, dos algoritmos manipulados das grandes empresas de tecnologia.

 

Daí que a resposta para o baixo apoio é tão simples? Ou seja, o brasileiro, que se beneficia da melhora dos índices, não consegue aprovar o governo devido à enxurrada de mentiras que recebe no celular? Será que, como povo, somos tão manipuláveis? A depender de certas pessoa que apoiam o petismo, sim. Um Congresso autônomo, com forte controle sob suas emendas e com ideologia diversa da praticada pelo governo, é de fato um agravante. Mesmo assim não é possível apostar em análises ingênuas e superficiais.

 

Não seria melhor imaginar que, de alguma maneira, Lula e o petismo estão se tornando um produto político anacrônico, pouco aderente às demandas da sociedade atual? Que o discurso de um Estado forte a auxiliar diretamente um gigantesco contingente que não consegue arrumar emprego ficou de alguma maneira anacrônico? É possível que, pouco a pouco, o brasileiro tenha se tornado mais liberal no sentido de que o que vale precisa ser conquistado como fruto de seu próprio trabalho, e não de eventuais bolsas e auxílios? Valeria a pena estudar a hipótese antes de culpar big techs, a “extrema-direita” ou o setor financeiro pela má-fase.

 

Do ponto de vista da imagem, é evidente que o “produto” Lula cansou. Os longos discursos nos quais o presidente anda de um lado para outro, em geral, se elogiando, se dizendo predestinado, atacando os adversários, parece que cansou. Disso só vai sobrar um corte feito por algum não simpatizante com alguma sequência de frases comprometedoras. Esse vídeo que prejudica Lula irá rodar nos grupos de WhatsApp com uma repercussão que vai deixar a comunicação oficial comendo poeira.

 

Um efeito das redes sociais foi o fim de certa hegemonia discursiva da esquerda no Brasil. Antes, o apoio do PT nas universidades, entre os intelectuais, entre os artistas de elite, eram bastante decisivos. Hoje, esse pessoal pode ser eclipsado por um “reaça”, antes anônimo das redes, com mais seguidores do que todos somados a reagir com agressividade contra qualquer ação do petismo. Controlar as redes não vai solucionar a questão.

 

Lula pode se recuperar? Sim. Já saiu de situações muito mais difíceis na vida. Mas a diferença é que a cada dia ele próprio e seu grupo político parecem se encontrar desadaptados com os valores da sociedade. Não serão apenas mudanças cosméticas que farão o jogo virar.

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Opinião por Fabiano Lana

Fabiano Lana é formado em Comunicação Social pela UFMG e em Filosofia pela UnB, onde também tem mestrado na área. Foi repórter do Jornal do Brasil, entre outros veículos. Atua como consultor de comunicação. É autor do livro “Riobaldo agarra sua morte”, em que discute interseções entre jornalismo, política e ética.

Lula vai arriscar em 2026? Congresso, pesquisas e a realidade dizem que não deveria

Por Eliane Cantanhêde / O ESTADÃO DE SP

 

Além de agir como se o mundo, o Brasil e ele próprio fossem os mesmos do primeiro e do segundo mandatos, o presidente Lula parece ter a ilusão de que, assim como superou o escândalo do mensalão e se reelegeu em 2006, vai dar a volta por cima da montanha de problemas atuais e conquistar o quarto mandato em 2026, vinte anos depois. As pesquisas, a realidade e o Congresso mostram que não será fácil.

 

O mundo empurrou a ONU para o seu ocaso e trouxe à tona Trump, Netanyahu, Putin e agora o aiatolá Ali Khamenei, com o norte coreano Kim Jong-un à espreita. Há dúvidas sobre o estágio atual do programa nuclear do Irã, mas todos os demais têm a bomba atômica —além de personalidades tirânicas e imperialistas. Lula, que teve seus 15 minutos de glória nos primeiros mandatos, virou pó nessa nova realidade.

 

O Brasil também não é o mesmo, com o avanço espantoso do crime organizado, um Congresso raso, sem líderes, bases, propostas e compromissos, em meio a uma polarização entre Lula e Bolsonaro que nada tem a ver com PT versus PSDB – o original, não este fantasma que não assusta, nem anima, mais ninguém.

E a economia mundial foi sacudida pelas guerras, a tecnologia, o efeito Trump e a ausência de organismos de mediação. Governante que pensa a economia com a cabeça de duas décadas atrás e acha que populismo e gastança bastam para se reeleger tende a dar com os burros n’água.

 

Essa é a moldura de 2026, mas um grande problema de Lula está nele mesmo, com suas brincadeirinhas ultrapassadas, seus equívocos na agenda e alianças internacionais, a velha megalomania do “deixa comigo” e a falta de consultores à altura dos desafios e dos tempos, para trazê-lo à razão. Assim como nem chegou perto de mediar as guerras na Ucrânia e em Gaza, Lula não entendeu o atual Congresso, não sabe como enfrentar a oposição nem seu maior inimigo: os aliados.

 

Seria fácil se o governo estivesse de vento em popa e Lula fosse um timoneiro ágil para levar o barco em segurança até 2026. Mas, do jeito que a coisa vai, os “aliados” desfrutam de ministérios e cargos sem pagar em apoio e, na hora dos votos, pulam para a oposição, de armas e emendas nas mãos.

 

A debandada e o preço aumentam a cada pesquisa sobre perdas no Nordeste e nos de menos renda e escolaridade — base sólida do PT. No DataFolha, Lula mantém 36% a 38% no primeiro turno, mas sua vantagem vai minguando no segundo turno contra Tarcísio de Freitas e até Jair, Michele e Eduardo Bolsonaro. E seus 46% de rejeição projetam a união dos adversários — e seus eleitores — contra ele na reta final. Lula vai arriscar?

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Opinião por Eliane Cantanhêde

Comentarista da Rádio Eldorado, Rádio Jornal (PE) e da GloboNews

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