Decepção com Lula 3 ameaça hegemonia petista no Nordeste: 'Tinha certeza que minha vida ia melhorar, mas não aconteceu'
Por Eduardo Graça — Salvador (BA) / O GLOBO
Garçom de um restaurante tradicional do bairro Dois de Julho, na região central de Salvador, Cleber Silva, de 44 anos, votou há três anos, e pela terceira vez, em Luiz Inácio Lula da Silva para presidente. Apostou, conta, que sua vida iria melhorar após a dureza da pandemia. Dois anos e meio depois da posse do petista, porém, a expectativa não foi correspondida. Cleber se arrependeu e agora diz que votará na direita em 2026.
O morador de Vista Alegre, no Subúrbio Ferroviário da capital baiana, engorda o número de eleitores nordestinos, fortaleza eleitoral petista, que hoje torcem o nariz para o terceiro governo Lula, tendência detectada pelas pesquisas de opinião e reforçada ao GLOBO por dezenas de moradores do maior colégio eleitoral da região. Feitas antes da guinada no discurso do presidente e de aliados sobre a taxação dos mais ricos, as entrevistas revelam a percepção de que o petista se desconectou de quem o elegeu.
Entre as queixas de Cleber estão a falta de ação no escândalo do INSS, a piora na segurança, e a “gastança pública, sem resultado concreto para o povo, bancada pelo aumento de impostos”. A decepção do garçom e da maior parte dos entrevistados é sintetizada pela sensação de que a distância de suas casas para o Palácio do Planalto é hoje muito maior do que era entre 2003 e 2010, quando o mesmo político comandava o país.
— Tinha a crença de que minha vida iria melhorar, como aconteceu nos outros mandatos dele. Mas, nestes dois anos e meio, foi o contrário, meu dinheiro não dá para nada, passo dias à base de remédio para dormir, por conta do tiroteio constante na favela, e só assim consigo trabalhar. E a gente nem o vê, né? Cadê o Lula? Ele sumiu — disse Cleber ao GLOBO.
Na última quarta-feira, poucas semanas após o desabafo, Lula esteve justamente em Salvador, para a Independência baiana, celebrada na mesma data que batiza o bairro onde o garçom trabalha. Estava acompanhado pelo governador Jerônimo Rodrigues, o ministro-chefe da Casa Civil e ex-governador do estado Rui Costa, o ministro da Secom, o baiano Sidônio Palmeira, a ministra da Cultura, Margareth Menezes, e o líder do governo no Senado e primeiro petista eleito para o Palácio de Ondina, Jaques Wagner. O PT comanda a Bahia há 18 anos.
A visita de Lula à capital que lhe deu a maior votação no segundo turno do pleito de 2022 (72% dos votos válidos) foi a primeira desde que sua gestão passou a ser mais rejeitada que aprovada nas pesquisas e que o petista viu sua popularidade despencar no Nordeste. Na região, que garante vantagem expressiva ao PT em pleitos presidenciais há mais de duas décadas, a Genial/Quaest contabilizou queda de 13 pontos percentuais no índice de aprovação do governo entre dezembro e junho, embora o aval a Lula 3 ainda prevaleça (54% a 44%).
Razões para as críticas
As dezenas de baianos que se identificam com o lulismo ouvidos pelo GLOBO apontam, entre as razões de seu desgosto com o terceiro mandato do presidente, o aumento, ainda que anterior à posse do petista, dos preços dos alimentos, a “taxa das blusinhas”, que ceifou-lhes a percepção de maior inclusão social através do consumo, a crise do INSS, com o retorno da associação do PT à corrupção, a inexistência de uma nova ação social do peso do Bolsa Família e a percepção de que se passará a pagar, de forma generalizada, mais impostos, tanto por conta da falsa taxação do Pix quanto do decreto, posteriormente derrubado pelo Congresso e suspenso pelo Supremo Tribunal Federal (STF), de aumento do IOF.
Trocadora de ônibus desempregada e vivendo de um bico de boleira, Giselle Improta, de 37 anos, conta que em Lula não vota mais, por ele não ter cumprido promessas e ter “desaparecido” do seu celular.
— Acreditei que o Bolsa Família iria aumentar, mas o (ministro da Fazenda, Fernando) Haddad só fala em corte de gastos e aumento de impostos. Não voto mais no Lula nem a pau. Cadê ele quando a gente precisou nestes três anos e meio? — reclama.
Pesquisador da PUC-RJ e coautor de um dos capítulos do livro recém-lançado “Governo Lula 3 — Reconstrução democrática e impasses políticos” — organizado pelos professores Fábio Kerche, da Unirio, e Marjorie Marona, da UFMG —, Arthur Ituassu enumera prováveis razões para a insatisfação dos eleitores nordestinos com o atual governo. Entre elas, uma ligada diretamente ao celular de Giselle.
— A organização da insatisfação mudou. Ela hoje é autônoma, difusa e permanente nas redes sociais e demais mídias digitais. Como no caso do Pix, respostas simples para problemas complexos, mesmo se forem mentiras descaradas, são mais palatáveis para o eleitor e exitosas no campo do marketing político — pondera o especialista. — O governo Lula demorou muito para disputar esse campo da comunicação, instituir uma campanha política permanente, assim como faz a oposição.
A pouco mais de um ano do pleito geral do ano que vem, o eleitor lulista de Salvador insatisfeito com o governo não se move de modo uniforme. Muitos se dizem prontos, apesar do pesares, para repetir o voto do presidente, se ele se decidir pela reeleição.
— Sou lulista, mas não sou cego. Olho para o Planalto e de fato não vejo pertencimento. Nem sei se é justo querer que o Lula, aos 79 anos, tenha presença constante nas redes sociais, compre e use um celular, mas poderia ter alguém lá editando, postando, para nos sentirmos parte deste governo, e não só na hora do voto — diz Rafael Cabanãs, de 25 anos.
O gestor comercial de uma clínica de estética da capital baiana frisa que votará novamente em Lula contra qualquer adversário oriundo do campo bolsonarista. Posição bisada por outra eleitora do petista em 2022, a obstetra Bruna Villas Boas, de 28 anos, que trabalha na saúde pública:
— Está puxado, né? Na minha área, seguiram os problemas de gestão e abastecimento, com sucateamento salarial e filas para os pacientes. Mas a sensação é de filme repetido, votarei no Lula de novo para impedir a volta da extrema-direita. Ainda mais depois da vitória de Donald Trump nos Estados Unidos. Repetirei meu voto, ainda que sem entusiasmo.
Distante da esquerda
Pensa parecido o estudante de Medicina da Universidade Federal da Bahia Geraldo Ramos, de 27 anos, que pretende se especializar em cirurgia plástica voltada para pessoas transgênero. Como as colegas de turma Lara Garrido, de 23, e Alana Reis, de 29, ele não enxerga em Lula 3 um governo de esquerda. Mas eles ponderam até mesmo a pertinência de se falar em satisfação com uma gestão sucessora do “desastre de Jair Bolsonaro”:
— Era de se imaginar que seria um governo que cata as migalhas do que sobrou do país. Precisamos avaliar o desempenho a partir dessa ótica. No campo da esquerda, vejo outro patamar, por exemplo, na visibilidade da deputada Erika Hilton (PSOL-SP). Sei tudo o que ela faz e o que defende. Mas a eleição do ano que vem é para não se arriscar. Basta olhar para os EUA e detectar a fragilidade democrática hoje.
Há também os que, como Sílvio Carvalho, dono de uma loja de lembranças turísticas no Pelourinho, se dizem insatisfeitos não apenas com o Lula 3, mas com o cenário político do país. Petroquímico aposentado, ele participou da ascensão do PT no estado a partir dos anos 1990 e hoje lamenta “o deserto de ideias novas”.
— Tive esperança com o PT, votei em Lula, trabalhador como eu, mas há três anos já foi muito difícil acompanhar a briga raivosa e baixa entre os dois lados. Anulei meu voto no segundo turno. Hoje estou em busca de um candidato de expressão nacional que não venha nem do lulismo nem do bolsonarismo, mas não consigo encontrar — lamenta.
A cristalização da polarização ideológica, reduz, sublinha o cientista político Cláudio Couto, da FGV, a possibilidade de migração imediata de um eleitor de Lula em 2022 desanimado com o atual governo para o campo oposto. Desde 2018, constata, “vivemos o curioso caso do país que, sob demanda por uma terceira via, como atestam as pesquisas, tem, no entanto, oferta incapaz de satisfazer a procura”.
Ao GLOBO, os insatisfeitos com Lula 3 já viam inserido no bolsonarismo os governadores de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), do Paraná, Ratinho Jr. (PSD), e de Goiás, Ronaldo Caiado (União), distantes de um mais palatável centro.
Apaixonados pelo presidente segue uma parcela de lulistas soteropolitanos que afirmaram não enxergar razão alguma para o descontentamento com o terceiro governo de Lula. Entre eles, o ambulante Matusalém Abbade, de 58 anos, que vende balangandãs na Barra:
— O que vale mais na minha cabeça segue sendo algo concreto, o número de pessoas que via passar fome e, com Lula, não mais. É o que seguirá guiando meu voto.
Voto 'nem-nem'
Gerente de uma loja de roupas localizada em uma área dominada pelo dinâmico comércio popular do Centro Histórico de Salvador, Maria Aparecida dos Santos, de 56 anos, é militante política arraigada, mas do inexistente partido do voto nulo. Foi a mais incisiva dos muitos soteropolitanos que, ao GLOBO, se disseram adeptos do “nem-nem” — nem bolsonarista, nem lulista. Alguns adotam a prática desde 2018, mas a maior parte é recém-convertida.
— Cresci no interior da Bahia e, lá atrás, vi algum avanço nos primeiros governos de Lula. Depois, só retrocesso. O Bolsonaro não fez nada e mente muito. Já o atual governo não me fez voltar a acreditar na política, longe disso — diz a moradora do Ribeira, bairro da Cidade Baixa da capital baiana. — Ao contrário dos lulistas insatisfeitos, dos bolsonaristas à espera de um candidato e dos indecisos, estou desde já comprometida com meu voto. Em novembro do ano que vem cumprirei meu dever cívico e irei às urnas, para anular meu voto. Se não me oferecem opção, é o que me resta.
“Profundamente insatisfeito” com o governo Lula, o dono de banca de jornais Jantonio Grassi Junior, de 56 anos, votou em Ciro Gomes (PDT) em 2022 e anulou o voto no segundo turno:
— Se for Lula e um Bolsonaro ano que vem, tendo a fazer o mesmo. Não vou votar para o outro perder, preciso acreditar no candidato.
Sem vontade de participar
Além do voto nulo, há os que anunciam desde já a intenção de pagar a multa de R$ 3,51 por turno da eleição para não ter de sair de casa e votar “no petismo ou no bolsonarismo”, como afirmou o porteiro Luiz Claudio Jesuíno, de 36 anos, descrente “do cardápio político apresentado para as eleições presidenciais”. A ênfase no Executivo federal é porque ele vê, especialmente nos pleitos locais, opções além da polarização.
— Não era preciso ser bolsonarista para votar no Bruno Reis (União) para prefeito aqui de Salvador em 2020 e 2024, ou no ACM Neto (União) antes dele. Mas na disputa para presidente vira uma espécie de Ba-Vi (referência aos dois principais times da capital, Bahia e Vitória), uma guerra de torcida de clubes em que um lado prefere apontar os absurdos do outro do que dizer se vai fazer algo novo para beneficiar pessoas como eu — diz o morador da periferia da capital, que sonha em se formar em Administração e abrir seu próprio negócio.
Com a ponderação de que a amostra do GLOBO é aleatória e não científica, Cláudio Couto, da FGV, lembra que os depoimentos de soteropolitanos decididos a se abster do processo eleitoral presidencial e o aumento gradual, ainda que pequeno, da abstenção em pleitos recentes podem indicar uma mudança no comportamento do eleitor capaz de influenciar o resultado final em disputas especialmente acirradas, como a de Lula contra Bolsonaro em 2022.
Naquele pleito, 20,49% dos eleitores baianos não compareceram às urnas no segundo turno, patamar semelhante ao registrado a nível nacional.
Em todo o país, o petista teve 50,9% dos votos válidos, contra 49,1% do candidato à reeleição. As pesquisas mostram hoje que há possibilidade de divisão similar no ano que vem.
— O sentimento de decepção com os dois governos, o de Bolsonaro e o de Lula 3, faz da abstenção e do voto nulo reações não só de raiva, mas pensadas, com lógica. Há, sim, a possibilidade desse fenômeno para 2026, está posto. O que não sabemos ainda é o peso disso; precisamos mensurar de forma abrangente para nos preparar para a possibilidade do aumento significativo— analisa Couto.
O pesquisador também afirma que a tendência pode estar relacionada diretamente ao momento de mau humor dos eleitores, com a insatisfação em alta com um ou os dois campos polarizados. De qualquer modo, pontua, revela o desejo de parte do eleitorado de se encarar logo o primeiro turno como se ele já fosse a etapa final do pleito, sem considerar crível qualquer opção além do lulismo e do bolsonarismo. (Eduardo Graça)
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/H/z/LgfDPgSIiSX6bGllWTYQ/111395238-salvador-bahia-brasil-12-06-2025-reportagem-especial-sobre-as-eleicoes-presidenciais-em-2.jpg)
OS Ataques ao Congresso são inaceitáveis
Por Editorial / O GLOBO
Não é possível ficar inerte ante os ataques ao Congresso que partem de hostes governistas. Depois que os parlamentares derrubaram a alta no Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), o governo entrou em modo de combate. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recorreu ao Supremo e chamou a decisão de “absurda”. O PT ampliou a propaganda em prol da taxação dos “super-ricos”. Tomaram conta das redes sociais de inclinação petista vídeos alvejando o Parlamento, em particular o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Num deles, Motta é exibido como defensor de menos imposto para ricos e de “congelar” o salário mínimo. Noutro, mais agressivo, o Congresso é tachado de “inimigo do povo”.
Nem todos os vídeos foram endossados pelo governo ou pelo PT. A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, desautorizou ataques a Motta: “Não é assim que vamos construir saídas para o Brasil, dentre as quais se destaca a justiça tributária”. Apesar da tentativa de apaziguar ânimos, militantes atenderam ao apelo pela radicalização ocupando um banco na Avenida Faria Lima, em São Paulo. Depois do primeiro vídeo, e antes dos demais, a oposição reagiu com uma paródia. Ninguém deve cair na armadilha de ser arrastado a uma batalha em que o país só perde. O “nós contra eles” aponta um caminho perturbador.
Não é anódino o emprego da expressão “inimigo do povo”. Usada contra cristãos no Império Romano, ela foi gravada em lei pela Revolução Francesa como justificativa para arbítrios que acabavam na guilhotina. Soviéticos a empregavam para estigmatizar dissidentes. Mais recentemente, foi adotada pela extrema direita para intimidar jornalistas e a imprensa profissional.
O ataque se torna mais grave quando voltado ao Parlamento, instituição fundamental em toda democracia. É evidente que o Congresso não está imune a críticas — basta lembrar as emendas parlamentares ou os “jabutis” da conta de luz. Mas tem evitado desvios à direita e à esquerda ao longo da História. E todos os avanços do Brasil passam pelo Congresso, como as reformas da Previdência e tributária. Motta, alvo dos petistas, tem o mérito de ter criado um grupo de trabalho para debater a próxima reforma de fôlego, a administrativa.
É meritória a tentativa do governo de rever a regressividade tributária. Mas não com o aumento do IOF, que o Congresso fez bem em derrubar. Também é absurdo acreditar que a solução se resume a “taxar os super-ricos”. O slogan das redes sociais não resiste à análise técnica. A reforma do IR sugerida pelo governo traria ganho anual estimado em R$ 25 bilhões, mas sem acabar com as distorções (pois não mexe em regimes especiais, como Simples e Lucro Presumido). Enquanto isso, o Orçamento prevê R$ 544 bilhões em isenções e subsídios tributários que só crescem desde o primeiro mandato de Lula. Mas só agora, diante da pressão, o Ministério da Fazenda tomou a iniciativa de promover corte de 10% — o projeto, diga-se, recebeu apoio de Motta.
Acuados pelas pesquisas, Lula e o PT apostam numa campanha polarizadora e mendaz — ninguém defende congelar o salário mínimo, apenas corrigi-lo pela inflação ou desvinculá-lo do reajuste de benefícios previdenciários. No passado, o “nós contra eles” trouxe ganhos eleitorais, mas se revelou uma irresponsabilidade com o país. O Congresso tem legitimidade e papel essencial na solução dos nossos problemas.
O Congresso Nacional — Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo
'Nós contra eles' é tiro no alvo ou no pé?
O limiar que separa um tiro em direção ao alvo e um que acerta o próprio pé na política é bem mais tênue que noutros momentos da vida, literais ou metafóricos. No caso da efetividade da nova versão do discurso do “nós contra eles” adotada pelo governo Lula, o sucesso ou o fracasso da estratégia mora em detalhes que não são descartáveis nem parecem fáceis de calibrar diante da profunda cizânia entre o Executivo e o Congresso.
O primeiro fator essencial que poderia levar a que se desse um tiro n’água foi notado pelos responsáveis por colocar a campanha na rua: não adiantava o “nós” serem apenas os pobres beneficiários de políticas sociais, e “eles” serem todo o resto da sociedade. Por uma questão de matemática básica, Lula perderia o embate ao dividir a sociedade assim.
Daí por que a classe média, fatia maior e mais heterogênea do bolo demográfico (e eleitoral), foi rapidamente colocada do lado de Lula no cabo de guerra, tradução escolhida por uma das muitas peças publicitárias lançadas para martelar a ideia.
Projetos como o que amplia a isenção do pagamento de Imposto de Renda da Pessoa Física para quem ganha até R$ 5 mil têm a capacidade de demonstrar que Lula governa também para essa classe média, da qual a cada rodada de pesquisa parece estar mais afastado.
Se conseguir trazer para puxar sua corda os profissionais liberais, os tais empreendedores que trabalham por aplicativos, os profissionais da saúde e outros incluídos no novo esforço de comunicação, o presidente pode, sim, lograr algum êxito em sair das cordas na disputa com um Congresso que foi com muita sede ao pote na ânsia de tentar vencer o governo por nocaute. O combate dá toda a pinta de que será decidido por pontos, com cada um dos lados encaixando golpes mais ou menos efetivos ao longo dos próximos 15 meses.
Que alguma coisa se moveu, é nítido. Nas palavras de especialistas em marketing político e pesquisas que ouvi a respeito da eficácia da nova estratégia, ao partir para o contra-ataque, o governo e o PT ao menos deram um argumento a seus militantes, que andavam meio desnorteados e acuados pela sucessão de derrotas e de falta de rumo do presidente e de seus ministros.
Contribuiu para isso que, pela primeira vez desde a posse, os vários feudos dentro do governo falam a mesma língua. Pelo menos por um tempo, o alvo do PT deixou de ser a política econômica de Fernando Haddad, e o ministro também fez um ajuste em seu discurso para soar “mais petista”, na definição de um observador.
Ter gente disposta a defender seu ponto é um pressuposto da era em que a política se faz na arena digital, mais que na praça pública literal. Mas aqui está um dos limiares tênues de que falei na abertura do texto: se o discurso do “nós contra eles” descambar para atos de invasão de bancos e outros espaços dos “ricos”, como se viu em São Paulo ontem, o que poderia ser um argumento capaz de sensibilizar uma fatia ampla da sociedade — que as últimas ações do Congresso foram todas em causa própria ou em benefício de lobbies poderosos — virará prova de que está de volta o PT radical. E o que poderia ser uma virada de jogo virará do dia para a noite nova queda de avaliação.
Da mesma forma, num momento de tantos embates no front interno, parece desprovida de sentido a decisão do presidente de visitar Cristina Kirchner. Aliados dizem que o gesto tem motivações pessoais, por Lula ter enfrentado uma prisão que também classifica como injusta. Só que a política cada vez menos tem espaço para arroubos voluntaristas, e a associação do PT à esquerda de países como Argentina e Venezuela é um dos pratos favoritos da extrema direita. Dar de bandeja um tema para a oposição num momento desses é, aí sim, meter uma bala no próprio pé.
Lula levanta placa pedindo taxação dos super ricos durante caminhada em Salvador — Foto: Ricardo Stuckert / PR
PT posa de paladino da justiça social
Quando a reforma do IR foi proposta, o foco da resistência não foi a tributação obrigatória para quem ganha acima de R$ 600 mil por ano. Foi a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês, como o debate público da época claramente mostra. Os entes subnacionais, estados, mas sobretudo prefeituras, exigiram um sistema claro de compensação para a perda de recursos. Quase um quarto da arrecadação líquida do IR é repassado a elas pelo Fundo de Participação dos Municípios. Além disso, ficam com o IR retido na fonte sobre salários de servidores e pagamentos a fornecedores. Como mais de 70% dos servidores municipais ganham até R$ 5 mil, a nova faixa de isenção praticamente zeraria essa retenção.
Não foi diferente com o aumento do IOF. Na sociedade, o principal argumento foi que oneraria o crédito, aumentando o custo de capital num momento de juros elevados. Mas mesmo isso foi o que menos se discutiu no Parlamento. Na votação acelerada nas duas Casas, o recado era contra o atropelo do governo, que não negociava com o Parlamento e atrasava o cronograma de pagamento das emendas. Ninguém ali supôs que julgava o mérito da questão. Até PDT e PSB votaram majoritariamente contra.
É pouco crível supor que medidas tão moderadas na progressividade tributária provocariam reação feroz das elites econômicas contra o governo. Mas o governo prefere se enganar — e enganar a sociedade — a reconhecer que está perdido e não sabe administrar o Congresso com a nova configuração de forças trazida pelas emendas impositivas.
Naturalmente, o fato de enfrentar dificuldades políticas para aprovar suas medidas não significa que, sem essa provocação do Executivo, o Congresso faria qualquer outra coisa para corrigir as iniquidades tributárias. Aquilo é um antro de interesses paroquiais, movido a emendas e fundo partidário — com as conhecidas exceções.
Ao tratar suas dificuldades como fruto de resistência de classe, e não da sua inabilidade política, o governo quer se apresentar como paladino da justiça social, apostando na cegueira ideológica da militância. Olhando sobriamente para o Brasil, quem poderia aceitar essa imagem? Com o intervalo do período Temer-Bolsonaro, o país é governado pelo PT há 16 anos e segue com uma das piores desigualdades da América Latina, comparável à de um país africano.
Se pegarmos a redução da desigualdade no período que vai de Lula 1 a Dilma 2 e a projetarmos no futuro, ainda faltariam 15 anos para atingir a desigualdade da Argentina — isso se os ganhos dos anos iniciais se mantiverem no mesmo ritmo no futuro e não houver qualquer tipo de sobressalto.
O PT espera que o Brasil vote num discurso militante de combate à desigualdade por 32 anos — quase duas gerações! — para entregar, no melhor cenário, a desigualdade da Argentina? E se mesmo isso der errado, a culpa é da resistência das elites e não da inépcia do partido?
Esse é o discurso que o governo quer vender. Compra quem quiser.
As idades de Lula
Demétrio Magnoli
Sociólogo, autor de “Uma Gota de Sangue: História do Pensamento Racial”. É doutor em geografia humana pela USP/FOLHA DE SP
Lula terá 81 nas eleições de 2026, quase o mesmo que Biden na desastrosa campanha do ano passado. Já é o mais idoso presidente brasileiro no cargo. Sua queda doméstica, junto com os recentes sintomas de labirintite, sinalizam o óbvio: a "terceira idade" não é a "melhor idade". Contudo, há um inimigo maior de uma nova candidatura presidencial que a idade biológica: a idade política.
Desde Vargas, nenhum líder político exerceu tanta influência no Brasil quanto Lula. Nem JK, o construtor de Brasília, nem FHC, o arquiteto da estabilidade monetária. Mas Lula, um gênio político, só passou no teste dos grandes estadistas uma vez, 23 anos atrás, falhando nos desafios seguintes, em 2010 e 2023.
O estadista notável muda a história por sua coragem e inspiração de fazer o inesperado –ou seja, romper com seus próprios discursos, desafiar seus adeptos e indicar um rumo novo. Pense em Mandela e na reconciliação que fundou a África do Sul democrática. Ou em Menachem Begin e na retirada do Sinai que propiciou a paz de Israel com o Egito. Guardadas as proporções, foi o que fez Lula em 2002, com a Carta ao Povo Brasileiro que abriu-lhe o caminho ao Planalto.
De lá para cá, porém, Lula estagnou. Em 2010, tocado pela soberba, ungiu Dilma Rousseff, que nos conduziu à maior recessão do pós-guerra. Em 2023, de volta ao Planalto, resolveu governar como se o Brasil –e o mundo– estivesse em 2003.
A tragédia chamada Bolsonaro, em parte gerada pelo equívoco histórico de 2010, deu-lhe uma nova chance de fazer o inesperado. A oportunidade estava em aliança eleitoral com o centro democrático propiciada pela resistência ao golpismo, mas ele a desperdiçou.
Lula podia romper com o "gasto é vida", ajustando a bússola fiscal para o norte da redução sustentada dos juros, mas preferiu a artimanha populista dos estímulos ao consumo. Podia, ainda, surpreender seu próprio partido, apontando as similaridades entre os autoritarismos de direita (Bolsonaro) e de esquerda (Maduro), mas escolheu persistir nos dogmas anacrônicos, afundando-se na duplicidade moral.
Nos mandatos anteriores, Lula tinha rumo. No atual, carece de estratégia. A opção pela aliança com o centrão baseou-se num pacto de aumento dos gastos públicos. Os constrangimentos macroeconômicos inevitáveis impuseram um precário controle fiscal manejado pelo estoico Haddad. Resultados: taxas crônicas de juros estratosféricos e o confronto dramático com o Congresso precipitado pelo decreto do IOF.
A saída pela demagogia, sedução perene, escancara as ambivalências discursivas. O governo culpou Campos Neto pelos juros escorchantes, apontando-o como agente da ganância dos financistas, inimigo do povo. Depois, quando o BC passou a Galípolo, o indicado de Lula que prosseguiu a política monetária do antecessor, a lagoa dos insultos secou. Sem o antigo bode expiatório, a mira volta-se para o centrão, reciclando-se a narrativa dos "ricos versus pobres".
De Dilma a Bolsonaro, o Congresso adquiriu poderes extraordinários. Na aliança assimétrica com o centrão, o lado fraco é o Executivo, submetido a chantagens sem fim. O recurso desesperado ao STF assinala o declínio da autoridade política de Lula. A economia cresce, mas não resgata a popularidade do presidente. Lula enfrenta a pior idade, mais na política que na biologia.
Agruras da política externa de Lula
FOLHA DE SP
A esquiva de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao diálogo com o argentino Javier Milei, como se viu na reunião de cúpula do Mercosul na quinta (3), não é de interesse do país.
Tal comportamento não é um ponto fora da curva da política externa brasileira, que agora tem pela frente um encontro do Brics esvaziado de lideranças neste final de semana no Rio de Janeiro.
Seria difícil imaginar diretriz coerente para a diplomacia do país após os dois mandatos problemáticos de Lula na seara internacional. A reedição da política "ativa e altiva" poderia ao menos levar em conta a conjuntura mundial diversa e munir-se de prudência. Não é o que acontece.
Lula deixou Buenos Aires sem ao menos uma conversa reservada com Milei, sabidamente resistente ao diálogo. Preferiu afrontar o anfitrião com uma visita a sua aliada de longa data, a ex-presidente Cristina Kirchner, ícone da oposição peronista que cumpre pena em prisão domiciliar após ser condenada por gestão fraudulenta em novembro.
A afonia bilateral só fomenta a discórdia entre as duas economias mais integradas da região. Na cúpula, o Brasil pode ter contentado a Casa Rosada ao acatar a ampliação da lista de exceções da união aduaneira. Mas faltou entendimento sobre a incerta preservação da Argentina no bloco.
Na condição de presidente do Mercosul neste semestre, Lula não facilita o cumprimento da promessa de efetivar o acordo comercial com a União Europeia. A fragilidade da união aduaneira e a ameaça de debandada de Buenos Aires podem municiar os europeus contrários ao tratado.
Menos promissora mesmo parece a reunião do Brics, fórum criado com ajuda do empenho do petista a partir de uma perspectiva ideológica obsoleta baseada em antiamericanismo. Não à toa, o grupo é visto como antagonista ao Ocidente.
O cenário convulsivo no Oriente Médio e descompassos nas agendas podem justificar o esvaziamento —além, é claro, da ordem internacional de prisão contra o russo Vladimir Putin. Não explicam, porém, a ausência de Xi Jinping. A China, maior economia do bloco, prioriza neste momento a contenção de atritos comerciais com os Estados Unidos.
Não passa despercebida a complacência do Brasil com Moscou —incoerente com sua condenação à invasão russa da Ucrânia— e com o Irã, teocracia que desafia a aversão brasileira à proliferação de armas nucleares.
Tampouco são ignoradas a crescente diluição do diálogo com os EUA e a resistência em recompor relações com Israel, canal indispensável até mesmo para atuar em favor dos palestinos.
Não deixa de ser sintomático que o Itamaraty tenha caído no ridículo, nesta semana, de contestar formalmente um texto da revista britânica The Economist sobre a distância entre as ambições da política externa de Lula e sua real importância no mundo. É exatamente o que está sendo demonstrado agora.

