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Um Congresso acima da lei

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), declarou em entrevista à GloboNews que há “um ambiente de discussão” para restabelecer a exigência de prévia autorização legislativa para a abertura de inquéritos envolvendo parlamentares. Se esse despautério prosperar, o Brasil dará um salto de 24 anos para trás, destruindo um dos avanços institucionais mais relevantes desde a redemocratização do País. O Congresso, ao fim e ao cabo, tornar-se-ia um Poder imune aos devidos controles republicanos, fazendo desta uma república capenga.

 

Em 2001, foi promulgada a Emenda Constitucional (EC) 35, que fixou parâmetros claros para a imunidade parlamentar. Desde então, a abertura de ações penais em face de deputados e senadores pelo Supremo Tribunal Federal (STF) – e, consequentemente, os inquéritos que as fundamentam – independe de autorização da respectiva Casa a que pertence o parlamentar investigado ou réu. A um só tempo, a EC 35 fortaleceu o princípio republicano fundamental, qual seja, a igualdade de todos perante a lei, e preservou a natureza da democracia representativa, garantindo aos parlamentares a inviolabilidade civil e penal apenas por suas opiniões, palavras e votos.

 

À época, os congressistas mantiveram certas prerrogativas que fazem sentido pela natureza de seu trabalho. Por exemplo: desde a diplomação, parlamentares não podem ser presos, “salvo em flagrante de crime inafiançável”. Também não estão obrigados a “testemunhar sobre informações recebidas ou prestadas em razão do exercício do mandato”. Estas, a rigor, são garantias da preservação da vontade livre e consciente dos eleitores, e não da pessoa do parlamentar.

 

O que o sr. Hugo Motta e muitos de seus pares têm defendido, porém, é a impunidade de deputados e senadores suspeitos de crimes comuns, alçando-os a uma classe especial de cidadãos, que passariam a estar imunes às leis. É o que pode acontecer, pois não é difícil imaginar que, diante da perspectiva de persecução criminal de um colega, o espírito de corpo haverá de prevalecer na maioria dos casos. Decerto vocalizando o desejo de muitos no Congresso, o que o presidente da Câmara propôs é reverter a lógica da imunidade parlamentar, criando uma casta intocável de cidadãos que apenas lograram ser eleitos para um mandato temporário. O efeito prático do eventual sucesso dessa monstruosidade legislativa será a legalização do compadrio.

 

A ameaça de retrocesso não se resume a esse ponto. Desde o momento em que uma malta de bolsonaristas tomou de assalto as Mesas Diretoras da Câmara e do Senado, começaram as tratativas desavergonhadas para restringir o alcance do foro especial por prerrogativa de função, o chamado foro privilegiado, além do conjunto de medidas que ficou conhecido como a “PEC da Blindagem”. Tudo, é claro, sob o pretexto de reparar injustiças, erros ou abusos cometidos pelo STF, especialmente contra Jair Bolsonaro e outros réus por tentativa de golpe de Estado. A anistia ao ex-presidente, porém, é apenas o verniz na cara de pau: o objetivo real de próceres do Congresso é blindar parlamentares acusados de crimes graves perante o Supremo, como o desvio de bilhões de reais em emendas ao Orçamento da União.

 

Foi por essa razão que Motta afirmou que há um “incômodo” no Congresso porque “muitos parlamentares”, segundo ele, estariam sendo investigados “por crimes de opinião”. Ora, isso não é verdade. O que há são investigações e processos relativos a crimes de corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e outros, ainda que a responsabilização da delinquência ordinária venha mal disfarçada de “perseguição política” para justificar essas alterações constitucionais voltadas à impunidade.

 

É legítimo questionar decisões do STF e pugnar pela correção de eventuais abusos que alguns ministros possam cometer. Mas instrumentalizar as críticas ao Judiciário para criar um Congresso acima da lei é corroer o próprio sistema de freios e contrapesos que sustenta a República. Se o Congresso se autoconceder o poder de autorizar ou não a investigação de seus membros, o Brasil passará a ter um Poder que não presta contas a ninguém, exatamente a acusação que hoje se faz ao Supremo.

Conversa bioquímica no milharal faz plantas resistirem a doenças

Reinaldo José Lopes

Jornalista especializado em biologia e arqueologia, autor de "1499: O Brasil Antes de Cabral" / FOLHA DE SP

 

Do nosso ponto de vista enviesado de primatas, mamíferos e animais, criaturas ambulantes e sociais por excelência, poucas coisas parecem mais passivas do que um vasto milharal. As aparências, porém, como você já devia saber, enganam.

Os indivíduos que compõem uma plantação, assim como quaisquer outros vegetais, reagem o tempo todo à presença uns dos outros, ao solo, aos insetos, vermes, fungos e vírus que estão tentando arrancar uma casquinha de seu organismo. E a complexidade dessa reação, que envolve até "conversas" entre as plantas, pode acabar fazendo a diferença inclusive para a agricultura intensiva e mecanizada.

É isso, em suma, o que mostra uma intrigante pesquisa publicada na semana que passou. Coordenado por uma dupla de pesquisadores chineses –Jianming Xu e Lingfei Hu, da Universidade de Zhejiang–, o trabalho investigou o que acontece quando se aumenta a densidade de plantas num milharal.

Tracemos aqui uma analogia com o que vemos numa população humana. Empacotar muita gente num espaço exíguo pode aumentar a competição por recursos e o nível de estresse, por exemplo. Também tende a facilitar a transmissão de patógenos (causadores de doenças), pelo simples fato de que o ajuntamento de indivíduos diminui a distância que eles têm a percorrer: um único espirro pode respingar em várias pessoas de uma vez só, por exemplo.

Bem, muitos desses fatores afetam um grande ajuntamento de plantas da mesma espécie. O que a equipe chinesa fez foi testar como os pés de milho acabavam interagindo entre si e com as pragas dessa lavoura dependendo da densidade de plantas no milharal.

Para isso, plantaram milho em duas densidades diferentes: 60 mil pés por hectare versus 120 mil pés por hectare. Primeiro resultado interessante: as plantas do "miolo" do milharal com alta densidade sofriam menos ataques de pragas do que as das bordas do milharal, embora também crescessem menos. Por outro lado, não havia esse efeito na plantação com menor densidade.

Os resultados se repetiram em novos testes, mostrando que danos por insetos, vermes, fungos e vírus eram sempre menores nas densidades mais altas. O "efeito miolo" sugeria que a causa estava ligada à própria proximidade entre as plantas. E isso levou a equipe a estudar os efeitos do linalol, a mais abundante molécula volátil (ou seja, que se evapora com facilidade) produzida pelos pés de milho.

Acontece que o linalol tende a se acumular no ambiente quando a densidade das plantas aumenta. E pés de milho geneticamente modificados para não produzir a molécula não contavam com o efeito protetor contra patógenos trazido por ele –mas era possível replicar esse feito simplesmente borrifando os vegetais com linalol sintético.

Mais análises mostraram que a molécula volátil, ao atingir as plantas vizinhas, desencadeava a ativação de hormônios vegetais que afetavam as raízes dos pés de milho. Isso, por sua vez, alterava a comunidade de micróbios associados às raízes e ativava as defesas naturais da planta contra pragas, ao mesmo tempo em que restringia um pouco seu crescimento.

As descobertas podem ajudar a enfrentar pragas da lavoura de forma mais inteligente no futuro, é claro. Desde já, porém, elas revelam que a complexidade das relações ecológicas não desaparece mesmo num ambiente criado pela agricultura mecanizada. Não dá para fugir da teia da vida.

MILHO NA CARROCERIA DE CAMINHÃO

Reinaldo José Lopes
Reinaldo José Lopes

Autor do blog Darwin e Deus, sobre ciência e religião, e especialista em história do catolicismo

Governo Lula atribui queda de lucro do BB a pauta-bomba do Congresso e mantém boa avaliação de Tarciana

Catia Seabra /  FOLHA DE SP

 

Integrantes do governo Lula responsabilizam o Congresso Nacional pela queda do lucro líquido do Banco do Brasil no segundo trimestre deste ano. Apesar dos números, a presidente da instituição, Tarciana Medeiros, segue bem avaliada no Palácio do Planalto, afirmam aliados do presidente.

Divulgado nesta quinta-feira (14), o resultado do BB (R$ 3,8 bilhões) foi 60% menor que o registrado no mesmo período do ano passado. A alta da inadimplência é apontada como uma das causas dessa queda.

Auxiliares de Lula, por sua vez, atribuem o aumento da inadimplência à expectativa que o agronegócio tem de renegociação de suas dívidas após aprovação de uma "pauta-bomba" na Câmara dos Deputados que autorizou o uso de até R$ 30 bilhões do Fundo Social do Pré-Sal para esse refinanciamento. Essa expectativa de repactuar as obrigações em condições mais favoráveis teria impactado o cronograma de quitação dos débitos.

 

Em julho, a Câmara aprovou esse crédito subsidiado para o agronegócio em uma retaliação orquestrada pelo presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB). A votação ocorreu após o veto do presidente ao aumento do número de deputados e a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), de validar o aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), contrariando decisão anterior do Congresso.

A proposta inicial era voltada apenas ao pequeno produtor rural, mas, com o apoio do centrão, foi reformada para autorizar o uso desses recursos —originalmente reservados a áreas como educação, saúde e habitação—, para refinanciar dívidas gerais do agronegócio com juros subsidiados.

O texto tramita no Senado, onde um requerimento de urgência está pronto para ir a plenário.

A queda no lucro do BB se deve a um aumento na provisão de perdas esperadas (PDD), que foi a R$ 15,9 bilhões, 104% maior que há 12 meses. Isso aconteceu por causa da alta na inadimplência e por uma nova resolução do Banco Central, que obriga os bancos a reservarem os valores que eles esperam não receber de volta, e não apenas o que já não receberam.

No cálculo, o BB considerou um fluxo de perda esperada de R$ 7,9 bilhões do agronegócio, de R$ 4,8 bilhões de pessoas físicas e de R$ 4,3 bilhões de pessoas jurídicas.

agro passa por uma onda de recuperações judiciais após revés na safra de grãos passada. Neste segmento, os atrasos acima de 90 dias representam 3,49% do total, um avanço de 0,45 ponto percentual no trimestre e de 2,17 pontos percentuais no ano.

Aliados de Lula minimizam a possibilidade desses números levarem à queda de Tarciana Medeiros do comando do banco. Apesar de reconhecerem uma pressão de senadores por sua substituição, afirmam que o mau resultado não foi debitado na conta dela.

Segundo congressistas, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), reivindica o cargo. Embora Alcolumbre tenha se aproximado de Lula, integrantes do governo afirmam que o desempenho financeiro do BB não deve acelerar essa fritura.

RAIO-X | BANCO DO BRASIL NO 2º TRI DE 2025

Fundação: 1808

Lucro: R$ 3,8 bilhões

Agências: 3.997

Funcionários: 85.959

Principais concorrentes: Itaú Unibanco, Bradesco, Santander, Nubank e Caixa Econômica Federal

Escândalo mergulha São Bernardo em incertezas

EDITORIAL DA FOLHA DE SP

Os moradores de São Bernardo do Campo, a maior cidade do ABC paulista, foram surpreendidos na quinta-feira (14) com a notícia de que os chefes do Executivo e do Legislativo municipais haviam sido afastados por um ano de seus cargos, por determinação judicial, em investigação da Polícia Federal por suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro.

Primos e filiados ao Podemos, o prefeito Marcelo Lima e o presidente da Câmara Municipal, Danilo Lima, foram alvos da Operação Estafeta, que também atingiu um outro vereador, um secretário do gabinete, um servidor público e outras dezenas de suspeitos, incluindo empresários da região.

Além dos afastamentos, a Justiça determinou a quebra de sigilos bancário e fiscal —a prisão do alcaide foi negada, mas impôs-se o uso de tornozeleira eletrônica como medida cautelar.

De acordo com o Ministério Público, a organização criminosa recebia recursos a partir de contratos da prefeitura nas áreas de obras, saúde, coleta e informática, entre outros. Apura-se, inclusive, se os desvios bancaram gastos pessoais do prefeito e da família, como cartões de crédito e viagens internacionais.

Como já é praxe em operações do tipo, surreais quantias de dinheiro em espécie foram apreendidas: cerca de R$ 14 milhões em julho, no apartamento de Paulo Iran Paulino Costa, servidor da Assembleia Legislativa apontado como operador financeiro do esquema, ainda foragido, e R$ 3,2 milhões na investida recente.

Se ainda é imperativo aguardar o devido andamento do inquérito da PF e garantir amplo direito de defesa aos envolvidos, também cumpre às autoridades ampliar o escopo das investigações.

Em 2022, Marcelo Lima, então secretário de Serviços Urbanos, já enfrentava medidas cautelares relacionadas a denúncias de irregularidades em licitações. À época, era também vice de Orlando Morando, atual secretário de Segurança Urbana do prefeito de São PauloRicardo Nunes (MDB).

Sob horizonte incerto, a gestão interina está nas mãos da vice Jessica Cormick (Avante), uma sargento da PM neófita na política.

Com mais de 800 mil habitantes, São Bernardo do Campo marcou a história do país como berço do novo sindicalismo, na esteira do avanço da indústria automobilística, que forjou lideranças políticas como o hoje presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

É lamentável, pois, que esteja agora engolfada em suspeitas de práticas ilícitas que teimam em incrustar-se no poder, pondo em risco o andamento da administração e perpetuando o atraso.

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O contra-editorial da ombudsman

Demétrio Magnoli

Sociólogo, autor de “Uma Gota de Sangue: História do Pensamento Racial”. É doutor em geografia humana pela USP  / folha de sp

 

Editorial é o espaço de opinião da direção dos veículos de imprensa. Coluna de ombudsman é o espaço de defesa dos interesses dos leitores, à luz dos princípios jornalísticos. Nos últimos anos, contudo, os ombudsmans da Folha o converteram em colunas opinativas. A atual ombudsman levou a prática ao extremo, escrevendo um contra-editorial. O procedimento reflete um fenômeno novo: a pregação da censura por jornalistas.

Na sua crítica ao editorial da Folha que defendeu a liberdade de expressão de Bolsonaro, a ombudsman simula expressar uma opinião quase universal dos leitores. No fundo, é outra coisa: guerrilha digital.

Atualmente, as correntes compactas de opinião política são fabricadas nos "gabinetes do ódio" controlados pelo bolsonarismo ou pelo lulismo. Na linha de montagem, dirigentes partidários definem alvos e argumentos que, depois, são viralizados pelos influenciadores associados. Por fim, simpatizantes reproduzem os discursos arquitetados lá no alto.

O contra-editorial organiza-se como colagem de comentários selecionados. Mensagem unívoca: a Folha trai seus leitores ao sustentar o princípio da liberdade de expressão até mesmo para Bolsonaro.

A ombudsman fala pela voz de um leitor: "Nenhuma democracia sobrevive se não souber se proteger de quem a usa como escada para destruí-la por dentro". É o álibi empregado ritualmente pelo STF, desde a proibição de entrevistas de Lula na prisão (2018), passando pela ordem de censura à revista Crusoé (2019) e pelos vetos a perfis do esgoto bolsonarista, até o embargo ao uso de redes sociais por Bolsonaro. Segundo os juízes-censores, vivemos em excepcionalidade permanente.

Não há hipocrisia maior que a retórica da extrema direita pela liberdade de expressão: os bolsonaristas, saudosistas da ditadura militar brasileira, aplaudem as ordens de prisão de Trump contra estudantes que criticam a política externa dos EUA. Se o golpe deles tivesse funcionado, empastelariam jornais.

Mas, nos dois polos do espectro político, o imperativo categórico é calar a boca do outro. A esquerda lulista, que defende as tiranias cubana e venezuelana, já pediu em coro a censura da imprensa (senha: "controle social da mídia") e, hoje, engaja-se na missão de censurar as redes (senha: "coibir o discurso antidemocrático").

A verdadeira novidade são os jornalistas-censores. Num passado recente, jornalista profissional capaz de clamar pela censura era algo mais raro que comida ruim na Itália. Nos dias que correm, formam multidões. Como decifrar o fenômeno?

Suspeito que suas raízes estejam fincadas tanto na economia como na cultura. Numa ponta, o enfraquecimento financeiro da imprensa profissional, na era das plataformas virtuais. Na outra, um declínio da lealdade aos princípios jornalísticos, nessa era da colonização ideológica das universidades.

Jornalistas formados em ambientes intoxicados pelo ativismo digital perderam o respeito pelo conceito de pluralidade. Aprenderam a subordinar qualquer princípio a suas simpatias ideológicas. Esqueceram que a liberdade, nas palavras de Rosa Luxemburgo, "é sempre, e unicamente, a liberdade dos que divergem de mim". Não se dão conta de que, amanhã, ventos políticos invertidos, serão eles as vítimas dos censores. O contra-editorial documenta uma época.

Parlamento despreza transparência com aprovação-relâmpago de emendas

Por  Editorial / o globo

 

 

Sai legislatura, entra legislatura, e os parlamentares continuam ignorando a necessidade de transparência no repasse de dinheiro público por meio das emendas parlamentares. Na quarta-feira, as comissões da Câmara levaram menos de um minuto para aprovar a destinação de verbas, sem deixar claro quem são os responsáveis pelas indicações, contrariando determinação do Supremo Tribunal Federal (STF).

 

Na Comissão de Saúde, uma das mais bem aquinhoadas, com R$ 3,8 bilhões para distribuir, as indicações foram aprovadas em 20 segundos. Como não se tornaram públicas, o país ficou sem saber a que se destinavam, quanto cada projeto receberia e quem o patrocinou, informações fundamentais para a sociedade e para os órgãos de controle e fiscalização. Na Comissão de Integração Nacional, bastaram oito segundos para a aprovação. Nem deputados que participaram dos encontros sabiam se suas indicações haviam sido contempladas, como revelou reportagem do GLOBO.

 

Antes das aprovações-relâmpago, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), se reuniu com presidentes das principais comissões permanentes para discutir um plano de aceleração na destinação das emendas. O governo fixou em R$ 42,8 bilhões o limite de pagamento das emendas para este ano. Dos R$ 7,6 bilhões previstos para as comissões da Câmara, nada havia sido ainda empenhado (o pagamento não é obrigatório e costuma ser feito por meio de acordos políticos). É legítimo querer destravar os repasses, mas não se pode perder de vista que se trata de dinheiro público, por isso tudo precisa ser feito com transparência e mediante justificativas razoáveis.

 

As emendas têm sido foco de embate intenso entre Legislativo e Judiciário. Mesmo com o fim das emendas do relator, julgadas inconstitucionais pelo Supremo, o “orçamento secreto” — indicações de gastos sem identificar o autor — persiste por meio das emendas de comissão. No fim do ano passado, o ministro Flávio Dino, do STF, mandou bloquear R$ 4,2 bilhões em pagamentos dessas emendas, gerando insatisfação no Congresso. Com razão, ele exigiu a documentação de todo o processo orçamentário “para atendimento das regras constitucionais de transparência e rastreabilidade”.

 

Já é questionável o sequestro de parcela tão grande do Orçamento pelo Congresso por meio das emendas parlamentares, cuja destinação segue critérios políticos, em vez de técnicos — os recursos são dirigidos a quem tem padrinhos poderosos, e não a quem precisa. A situação se agrava quando esses repasses são feitos de forma obscura, abrindo espaço a casos de corrupção nem sempre fáceis de detectar. Operações da Polícia Federal já flagraram valores desviados de emendas escondidos em sapatos, gavetas de armário, jogados pela janela ou em outras situações quem envergonham a classe política. O mínimo que se espera é saber quanto é destinado, a quem, para quê e por quem. Não é favor, mas obrigação.

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