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Prisão de Bolsonaro deixou esquerda e direita sem foco

Marcos Augusto Gonçalves

Editor da Ilustríssima, formado em administração de empresas com mestrado em comunicação pela UFRJ. Foi editor de Opinião da Folha

 

Como se sabe, a prisão de Jair Bolsonaro foi o ponto culminante da polarização entre esquerda e direita que se seguiu à eleição de Lula em 2022. Os sinais de uma trama golpista, que se avolumaram e ganharam mais evidência com a barbárie do 8/1, foram alvo da Polícia Federal, com posterior denúncia da Procuradoria-Geral da República e julgamento do Supremo Tribunal Federal.

Foram anos de enfrentamento em todas as frentes políticas, com acirrada guerra de posições nas redes sociais, na mídia e nas ruas. Nâo preciso rememorar aqui, todos assistimos ao show.

Agora que o capitão golpista, seus generais e outros menos votados foram sentenciados, a direita, desorientada, ainda tenta emplacar uma anistia que sabe que não virá e já vai se concentrando na mais provável redução de penas, apesar do veto cinematográfico de Lula.

Por seu turno, a esquerda, ao ganhar o jogo, perdeu o brinquedo. Saiu do embate épico com a faixa de campeã, mas agora está naquele limbo à espera da eleição.

Na tentativa de manter a chama viva nesse interregno, começou a cometer erros primários: atacar o jornalismo para defender o ministro Alexandre de Moraes, que ao ser associado ao Master (não adianta fingir que não está) poderia ser alvo de um imaginário impeachment.

Atacar Xandão seria abrir alas para a anulação do processo contra os golpistas. Uma mobilização, convenhamos, rocambólica e delirante, além de negacionista: a advocatícia família do magistrado indicado por Temer tinha um contrato com o banco para defendê-lo e abocanhar R$ 129 milhões. Agora, com o surgimento em cena de Fabiano Zettel, o cunhado de Daniel Vorcaro, pastor e doador milionário de Bolsonaro e Tarcísio, as coisas prometem esquentar no mundo Master.

As redes de esquerda também derraparam em temas candentes, como o banho de sangue no Irã. Depois do estúpido e duradouro apoio do PT a Maduro, que acabou solapou a moral do governo brasileiro para exercer alguma liderança nessa crise, reluta-se agora em condenar a teocracia do Irã. Ah, vai ser pior com o Trump, pontificam.

Bem, é dessa maneira, com essa lógica de promover grande investimento emocional e pouca racionalidade —basta um isso é nós e aquilo é eles—, que a máquina dos embates polarizados se move. São tsunamis na profundidade de um pires.

Enquanto isso, a direita dedicou-se nos últimos dias a atacar o "O Agente Secreto", seu diretor Kleber Mendonça Filho e o ator Wagner Moura, pelo pecado de terem feito um grande filme, recebido prêmios e alertado para riscos de aventureiros fascistóides como Bolsonaro e Trump. Até a múmia Mario Frias saiu das catacumbas para se manifestar seu ódio espumante.

Já conformados com a condenação do líder, bolsonaristas tentam realçar as agruras do prisioneiro, com seus problemas de saúde. Querem prisão domiciliar —o que seria, aliás, razoável. Grande parte da esquerda prefere, para não explorar o assunto, responder com piadinhas sádicas punitivistas. Discutem-se ainda escaramuças eleitorais arespeito da ex-primeira dama Michelle, do governador Tarcísio de Freitas e do até aqui candidato Flávio Bolsonaro.

Há no ar uma nostalgia de tempos em que tudo era golpismo, Xandão, tornezeleira e cadeia. Mas essa fase, graças a Deus, passou.

michele em visista a bolsonaro na prisão

Armarinho de R$ 100 passou a R$ 31 bi em 4 anos em fundo que integra a ciranda bilionária do Master

Lucas MarchesiniAndré BorgesAdriana Fernandes / FOLHA DE SP

 

A estrutura financeira formada pelos fundos investigados por integrar o esquema do Banco Master tinha como etapa um processo acelerado de reavaliação de ativos, feito muitas vezes sem comprovação. Uma das empresas que integrava esse arranjo foi um armarinho paulista, cujo capital social passou de R$ 100 para R$ 31 bilhões em quatro anos.

De 2020 a 2024, o Pereira e Silva Comércio de Armarinho S.A. mudou de nome e passou a atuar no mercado de créditos de carbono. Nesse período, ele foi adquirido por dois fundos administrados pela Reag, gestora investigada por participar de suposta ciranda financeira que inflava artificialmente ativos no caso Master. A transformação da companhia foi noticiada em dezembro pelo UOL.

A estimativa do valor da nova empresa, rebatizada de Global Carbon, foi feita com base numa avaliação de ativos realizada pela Horbia, contratada para reestimar o capital da companhia.

 

Responsável técnico pelas avaliações, o economista Marco Aurelio Hardt afirmou à Folha que a avaliação se baseia no balanço —que, segundo ele, havia sido auditado. Hardt não informou, no entanto, o nome da empresa que fez a auditoria.

"Não tenho que investigar a história da empresa. Eu recebo balanço auditado da Global Carbon de 31 de dezembro de 2024 e assumo isso como dado", disse.

A avaliação colocou o antigo armarinho Pereira e Silva entre as 50 maiores empresas do Brasil de acordo com o site Companies Market Cap, que lista o valor de mercado das companhias abertas no mundo. O escritório também mudou de endereço do bairro Cidade Monções, na zona oeste da capital paulista, para um edifício luxuoso no Itaim Bibi.

 

Um dos fundos que se tornaram donos do armarinho, o New Jade 2, está na ponta de uma cadeia de controle de fundos que se inicia no Hans 95, um dos seis apontados como fraudulentos pelo Banco Central, conforme mostrou reportagem da Folha.

A prática de inflar ativos teria sido usada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro para desviar recursos do Master a partir de empréstimos a empresas que aplicavam em fundos geridos pela Reag, de acordo com investigação da Polícia Federal e do Banco Central. Os recursos eram repassados para outros fundos, numa cadeia que levava à valorização desses ativos, irrigando o que os investigadores apuram ser "laranjas do Vorcaro".

Com a reavaliação, os dois fundos que detêm as ações da Global Carbon tiveram uma valorização bilionária. Os R$ 6,64 bilhões detidos pelo New Jade 2, em ações da Global Carbon passaram a valer R$ 7,75 bilhões. No Regia, os R$ 19,8 bilhões registrados nas demonstrações no fim de 2023 passaram para R$ 23,3 bilhões no fim do ano passado.

A informação sobre a transformação do armarinho surgiu no contexto da operação Carbono Oculto da Receita Federal, que também investiga a Reag por, segundo os investigadores, lavar dinheiro do PCC. O que se sabe agora é que a empresa virou ativo em um fundo que participa da intrincada cadeia financeira montada pelo Master.

Procurado, o Master não respondeu aos questionamentos feitos pela Folha. A Reag informou que atua como gestora e administradora de fundos regulados e fiscalizados pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários), com demonstrações financeiras auditadas e publicadas e que suas avaliações seguem "metodologia técnico-científica desenvolvida pela Unesp e auditada por terceiros independentes, sem interferência da Reag".

O Pereira e Silva Comércio de Armarinho foi criado em agosto de 2020 em São Paulo. Ele contava com dois sócios, e sua sede ficava no bairro Cidade Monções. Sua finalidade, de acordo com a ata de criação do empreendimento, era a venda de artigos de armarinho no varejo.

 

Tudo mudou em março de 2023 com a entrada dos dois fundos da Reag, gestora que atua do mercado financeiro e administrava fundos do Master.

Os dois fundos se chamam New Jade 2 e Regia. Com a entrada deles no negócio, o capital social da Pereira e Silva Comércio de Armarinho subiu de R$ 100 para R$ 26,6 bilhões.

Não foi a única mudança. Com a chegada dos fundos, o nome da empresa mudou para Sião, e seu objeto social —a descrição detalhada das atividades que desempenha— foi alterado para a venda de créditos de carbono.

Em setembro de 2024, a Sião mudou novamente de nome e passou a se chamar Global Carbon. Neste momento, sua diretoria também mudou. Silvano Gertzel, que era diretor da Reag e executivo sem designação específica da Global Carbon desde abril de 2023, deixou a companhia. No lugar dele, entrou o advogado mineiro Thiago Assumpção Henriques.

Thiago Henriques aparece em um negócio imobiliário de R$ 70 milhões do pai de Daniel Vorcaro, Henrique Vorcaro, na Bahia. Como a Folha mostrou, um dos terrenos comprados pela família Vorcaro foi transferido para uma empresa chamada AFC Holdings.

 

O diretor-presidente da AFC é Thiago Henriques. Foi ele quem representou a empresa na escritura do imóvel. Henriques não respondeu aos questionamentos da reportagem.

A AFC Holding faz parte de uma teia empresarial da família Vorcaro que inclui dezenas de companhias, sendo a principal delas a Multipar, da qual Henrique, pai de Daniel, é fundador e presidente, e Natalia, irmã, é diretora.

As fraudes envolvendo fundos fazem parte das diversas denúncias feitas pelo BC ao MPF apontando indícios de irregularidades na atuação do Master. A primeira foi a revenda ao BRB (Banco de Brasília) de R$ 12,2 bilhões em créditos inexistentes, segundo os investigadores.

A segunda trata da sobreposição de fundos de investimentos, que tiveram o patrimônio inflado tendo como pontapé recursos oriundos de empréstimos simulados do Master.

Veja o passo a passo do esquema descoberto pelos investigadores

 
  1. O Master emprestava dinheiro para uma empresa, que tinha outro dono não relacionado diretamente com o banco, mas que também fazia parte do esquema de fraudes.

  2. A empresa pegava o dinheiro do empréstimo e aplicava os recursos em fundos da Reag.

  3. O que aparecia nos sistemas monitorados pelo BC era que o empréstimo tinha sido feito dentro dos limites que a legislação bancária exige (regra de Basileia).

  4. O gestor do fundo da Reag, que recebeu o dinheiro cuja origem inicial era o empréstimo do Master, comprava um ativo podre com baixa liquidez pagando um preço muito acima do que ele vale. Ele então registrava no patrimônio do fundo o ativo adquirido com preço supervalorizado.

  5. O vendedor, por outro lado, ficava com lucro de um ativo de pouco valor que foi adquirido por um preço elevado.

     
  6. Em seguida, o vendedor usava o dinheiro recebido pelo ativo também em outro fundo. Dessa forma, os valores passavam de fundo em fundo até desaguar em carteiras que tinham titularidades de laranjas ligadas ao grupo Master.

 

 

Lula e Putin falam sobre Venezuela e defendem 'garantia da soberania'

Mariana Brasil / FOLHA DE SP

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conversou nesta quarta-feira (14) com o líder da RússiaVladimir Putin, acerca da situação da Venezuela. O país sul-americano foi atacado pelos Estados Unidos no início deste ano, também com captura de Nicolás Maduro.

 

Em nota publicada pelo governo russo, a conversa teria destacado uma convergência das "abordagens de princípio da Rússia e do Brasil" no que diz respeito à "garantia da soberania estatal" e dos interesses nacionais da Venezuela.

Apesar da menção à soberania, a Rússia iniciou, em 2022, bombardeios contra a Ucrânia e desencadeou uma guerra com o país, que também faz parte das nações membro da ONU (Organização das Nações Unidas).

Na semana passada, esses ataques foram intensificados, quando as forças russas usaram o supermíssil Orechnik, modelo balístico de alcance intermediário russo desenhado para guerras nucleares. O recurso bélico havia sido testado contra o país em novembro de 2024.

Na conversa com Lula, ficou acordado que os dois líderes coordenariam esforços, inclusive no âmbito da ONU, bem como no marco do Brics, para desescalar a situação na América Latina e em outras regiões do mundo.

No contexto da próxima reunião da Comissão de Alto Nível Russo-Brasileira, marcada para o dia 5 de fevereiro, foram discutidas questões relativas ao desenvolvimento futuro da cooperação bilateral nas mais diversas áreas.

O evento será copresidido pelo vice-presidente Geraldo Alckmin e pelo primeiro-ministro Mikhail Mishustin, em formato híbrido, virtual e presencial em Brasília.

"Os presidentes concordaram que a reunião bilateral será oportunidade para dinamizar áreas prioritárias como comércio, agricultura, defesa, energia, ciência e tecnologia, educação e cultura. A pedido do presidente Lula, o presidente Putin comprometeu-se a enviar delegação de alto nível para participar presencialmente do encontro em Brasília", diz nota do governo brasileiro.

A ligação desta quarta-feira vem na sequência de outros telefonemas feitos por Lula com líderes de outros países para tratar do tema.

Desde o episódio no país vizinho, Lula recebeu ligações do presidente da Colômbia, Gustavo Petro, do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, e da presidente do México, Cláudia Sheinbaum, para falar sobre a crise venezuelana.

 

Telhado de vidro

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Emendas parlamentares enviadas a Roraima pelo então deputado federal Jhonatan de Jesus (Republicanos) entre os anos de 2020 e 2023 tiveram um final infeliz, mas que se tornou bastante previsível nos últimos anos. O Estadão foi até o local e encontrou obras inacabadas e asfalto de má qualidade, além de descobrir que uma parte dos recursos que deveria ter custeado projetos no Estado se perdeu sem que se soubesse seu destino.

 

Hoje ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Jhonatan de Jesus indicou R$ 42 milhões a municípios de Roraima. Desse total, R$ 25,8 milhões não tiveram prestação de contas apresentada, inclusive a verba destinada a Iracema, que alega ter investido em pavimentação em paralelepípedos, eletrificação rural, locação de máquinas para manutenção de estradas vicinais, construção de calçadas e de unidades habitacionais.

 

A reportagem deste jornal esteve lá para apurar o que foi feito do dinheiro. Um conjunto de habitações populares que deveria ter 300 moradias, desde 2024, tem apenas uma unidade construída – hoje abandonada. Nossos repórteres percorreram mais de 60 quilômetros de estradas da zona rural do município que deveriam ter sido recuperadas ou asfaltadas, mas que estão esburacadas e acumulam lama em períodos chuvosos.

 

O ministro Jhonatan de Jesus confirmou ter enviado os recursos por meio de emendas, mas negou desvio de finalidade e afirmou que a execução das obras custeadas com essas indicações, bem como a fiscalização, a transparência e a prestação de contas, são responsabilidade do município. “A indicação de emendas não se confunde com a execução dos recursos”, disse ele ao Estadão.

 

Em outras palavras: Jhonatan de Jesus lavou as mãos, tanto como autor da emenda parlamentar quanto como ministro do TCU. Essa desídia não passou despercebida. Afinal, se há algo com o que o ministro e a Corte de Contas deveriam se preocupar é com a disposição de recursos de emendas parlamentares. Basta lembrar que, há quase 30 anos, o TCU divulga um extenso relatório sobre a situação das obras públicas em todo o País, conhecido como Fiscobras.

 

Parte dos problemas que o relatório destaca, como obras paradas ou de má qualidade, se repetem ano a ano e se devem justamente à dinâmica de execução das emendas parlamentares. Seja por falta de transparência em relação ao uso dos recursos, seja pela ausência de planejamento integrado com políticas setoriais, as emendas, muitas vezes, geram uma pulverização de investimentos correntes que resulta em baixa efetividade de execução.

 

As emendas do então deputado Jhonatan de Jesus são uma fração de um volume de recursos que deve atingir R$ 61 bilhões neste ano. São tantos os escândalos envolvendo essas indicações que, em outros tempos, a incúria que o ministro demonstrou com o destino dos recursos que ele mesmo indicou enquanto parlamentar talvez passasse despercebida.

 

Mas o fato é que essa postura contrasta frontalmente com o ativismo do ministro em questionar a atuação do Banco Central (BC) na liquidação de uma instituição privada como o Banco Master – atividade que faz parte das atribuições do BC enquanto órgão regulador e supervisor do Sistema Financeiro Nacional, mas que passa longe das prerrogativas do TCU.

 

Aos 42 anos de idade, o ministro é médico de formação, exerceu três mandatos como deputado federal e foi o parlamentar mais votado em seu Estado em 2022, com um total de 19,8 mil votos. É filho do senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR) e conquistou o cargo vitalício no TCU, em março de 2023, com o apoio explícito do então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).

Mal se ouvia falar dele como deputado e como ministro, como é típico dos representantes do amorfo Centrão – publicamente apagados, mas muito influentes nos bastidores. E assim seria por décadas não fosse a extravagância de suas decisões relacionadas ao Banco Master, no qual calhou de ser o relator na Corte de Contas.

 

A fiscalização do setor financeiro, felizmente, está em boas mãos. Logo, o ministro serviria melhor ao País se exercitasse a autocrítica e dedicasse seu mandato a propor regras para aprimorar a execução das bilionárias emendas parlamentares e evitar desperdício de dinheiro público.

Lula tenta se eximir de responsabilidade na segurança

Por  Editorial / O GLOBO

 

 

São frustrantes os sinais de que o Palácio do Planalto pretende desistir da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, um dos dois principais projetos do governo federal na área (o outro é a legislação antifacção). A ideia de engavetar a PEC passou a ser cogitada devido a dificuldades para aprová-la no Congresso, diante de divergências com parlamentares e governadores, especialmente do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. O governo considera que o texto em tramitação, relatado pelo deputado Mendonça Filho (União-PE), foi desfigurado e se afastou do propósito original.

 

A ideia de não levá-lo adiante já é admitida abertamente por lideranças petistas. “Se for para aprovar o relatório do Mendonça [Filho], melhor nem votar”, afirma o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE). Embora essa visão não seja unânime no governo, a desistência é cogitada. Não deveria. Elaborada pelo então ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, que entregou o cargo na semana passada e será substituído pelo advogado-geral da Petrobras Wellington César Lima e Silva, a PEC tem muitos méritos. O principal é aumentar o protagonismo do governo federal na segurança, setor historicamente negligenciado pelos petistas. A proposta amplia as atribuições da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal, fortalece o Sistema Único de Segurança Pública (Susp), estabelece o compartilhamento de bancos de dados e incentiva a integração entre as diversas forças da lei.

 

Um dos pontos de impasse é o desenho do Fundo Nacional de Segurança Pública. No relatório apresentado, os recursos seriam divididos apenas entre estados e Distrito Federal, não havendo previsão para bancar ações nacionais conduzidas pelo governo federal. Outras divergências dizem respeito ao papel da Polícia Federal na investigação de organizações criminosas e às regras para as guardas municipais.

 

Há sinais também de que o governo não pretende criar o Ministério da Segurança Pública, como prometera o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na campanha eleitoral. A avaliação do comando petista é que o novo ministério poderia se transformar em armadilha no ano eleitoral. Pode haver bons motivos para não criar mais um ministério, de todo modo essa questão não deveria ser definida segundo a conveniência política.

 

Enfrentar a grave crise na segurança pública precisa ser política de Estado. Por isso o governo deveria insistir na aprovação da PEC da Segurança. É natural que projetos do Executivo sejam modificados no Legislativo. É preciso buscar consenso em torno dos pontos principais. Está demonstrado que os estados sozinhos não têm condições de combater organizações criminosas que atuam até no exterior. É imprescindível maior participação federal para enfrentá-las. Somente ações integradas de todas as forças de segurança serão capazes de derrotá-las. E é evidente que o modelo atual não funciona.

 

Maior preocupação dos brasileiros, a segurança é o ponto fraco do atual governo. Em três anos de mandato, Lula se revelou incapaz de conter o alarmante avanço do crime organizado, refletido não só nas guerras diárias entre facções, mas também na contaminação de setores da economia formal e até de instituições da República. Ele não pode continuar a se eximir de fazer o que precisa ser feito.

 

 

Barricada do tráfico em via do Complexo do Alemão, na Zona Norte do RioBarricada do tráfico em via do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo/28/10/2025

Mais que de ministério, segurança precisa de plano

A criação do Ministério da Segurança Pública é dessas ideias recorrentes na política brasileira como solução mágica para problemas complexos, mas ao menos não é tão radical e temerária quanto a convocação de uma nova Assembleia Constituinte ou a mudança do sistema de governo.

O maior risco da proposta, que voltou à tona com a saída de Ricardo Lewandowski da Justiça, seria ela se mostrar inócua.

Não seria a primeira vez. O tal ministério chegou a ser instituído em 2018, sob Michel Temer (MDB), mas não sobreviveu à troca de presidente no ano seguinte. Poucos parecem se lembrar disso —e por boas razões.

A tradicional pasta ora em troca de comando já se chama, não por acaso, da Justiça e Segurança Pública. A segunda parte do nome respondeu por mais de 90% de seus gastos de R$ 22,3 bilhões no ano passado.

Sua estrutura abriga a Polícia Federal (R$ 10,2 bilhões em 2025), a Polícia Rodoviária Federal (R$ 6,8 bilhões), o Fundo Nacional de Segurança Pública (R$ 3,4 bilhões), o Fundo Penitenciário Nacional (R$ 0,9 bilhão) e o Fundo Nacional Antidrogas (R$ 0,2 bilhão).

Os defensores do desmembramento do ministério argumentam que hoje seu titular precisa dividir a atenção com outros temas, como direitos do consumidor, defesa da concorrência, proteção de dados e acesso à Justiça, entre outros. Aponta-se ainda o aspecto simbólico de demonstrar prioridade à segurança pública, setor que cresce entre as maiores preocupações da sociedade.

São argumentos questionáveis, dado que todas essas áreas já contam com secretarias e repartições especializadas. Nada impede, formalmente, que se nomeie um ministro mais dedicado à segurança e que ele delegue outras responsabilidades a um segundo escalão qualificado.

Os reais obstáculos são políticos e programáticos. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) elevou de 23 para 38 o número de pastas na Esplanada brasiliense, mas ainda não se animou a criar a da Segurança, prometida na campanha eleitoral —opção mantida nesta terça-feira (13) com a escolha de Welington Lima e Silva para o lugar de Lewandowski.

O assunto nunca figurou entre as principais pautas da esquerda, que ademais evita correr o risco eleitoral de defender teses meritórias como a descriminalização de drogas leves. Teme-se ainda, com razão, que propostas do Planalto sejam desvirtuadas pelo populismo de direita influente no Congresso, cujo ideário não vai muito além de elevar penas e favorecer a brutalidade policial.

Será desafio para qualquer governo, qualquer que seja o nome do ministério encarregado, livrar o debate de disputas ideológicas e buscar um consenso mínimo em torno de um programa crível que una esforços federais e estaduais. O avanço alarmante do crime organizado não permite que a agenda se limite a uma providência cosmética.

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