Depois do Master, a Reag
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Um dia após a deflagração da segunda fase da Operação Compliance Zero pela Polícia Federal (PF), o Banco Central (BC) decretou a liquidação da antiga Reag Investimentos. A gestora de fundos foi rebatizada como CBSF depois de ter sido implicada na Operação Carbono Oculto, que, em agosto de 2025, uniu diferentes órgãos dos governos federal e de São Paulo no combate à infiltração do crime organizado no sistema financeiro nacional.
A suspeita, à época, é de que fundos administrados pela empresa teriam sido usados para lavar dinheiro do PCC no setor de combustíveis e no mercado financeiro, o que a empresa nega. Agora, investigações apontam que esquema semelhante envolvendo uma ciranda financeira foi utilizado para aumentar artificialmente o patrimônio do Banco Master, liquidado pelo BC em novembro do ano passado.
Tanto o Master quanto a Reag tiveram um crescimento vertiginoso nos últimos anos, algo que gerou desconfiança no mercado financeiro. Criada em 2012 por João Carlos Mansur, a Reag rapidamente se tornou a maior gestora independente do País e chegou a ter R$ 341,5 bilhões sob sua administração.
Já o Master multiplicou patrimônio e carteira de crédito desde 2017, quando o empresário Daniel Vorcaro assumiu seu controle. Desde então, adotou uma estratégia agressiva, baseada na compra de ativos de baixa liquidez e na captação de recursos por meio de CDBs com rentabilidade muito superior à média do mercado.
Durante a análise da tentativa de compra do Master pelo BRB, o Banco Central descobriu não apenas a existência de carteiras de crédito consignado falsas repassadas ao banco do Distrito Federal, mas também indícios de que o Master teria inflado seus ativos por meio de um esquema envolvendo empréstimos a empresas e fundos administrados pela Reag que pertenceriam, na verdade, a laranjas ligados a Vorcaro.
A liquidação extrajudicial da Reag não causou turbulência alguma no mercado. Em primeiro lugar, porque a decisão já era esperada. O simples fato de ter sido citada nas investigações da Operação Carbono Oculto gerou um abalo de imagem praticamente impossível de ser revertido. E, em segundo lugar, porque o Banco Central não hesitou em cumprir sua função e decretar o fechamento da gestora, fazendo jus à sua autonomia. Isso ocorreu a despeito de toda a pressão a que o BC tem sido submetido desde a crise do Banco Master envolvendo membros do Congresso, do Tribunal de Contas da União (TCU) e do Supremo Tribunal Federal (STF).
Com a liquidação extrajudicial da Reag, fica ainda mais frágil a tese segundo a qual a decisão do BC sobre o Master teria sido precipitada e, portanto, poderia ser transformada em liquidação ordinária, modalidade mais benéfica para Vorcaro e danosa para os clientes e credores da instituição financeira.
Pelo contrário. O esquema montado pela Reag reforça a tese de que o caso Master precisa ser tratado de maneira exemplar e com transparência, a fim de que brechas sejam corrigidas e que fraudes grosseiras não se repitam nem arrisquem comprometer a credibilidade do sistema financeiro nacional.
O Supremo deve respostas ao País
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O sistema financeiro nacional é reconhecidamente um dos mais seguros e bem regulados do mundo. A arquitetura institucional formada pelo Conselho Monetário Nacional, pelo Banco Central e pela Comissão de Valores Mobiliários construiu uma rede de fiscalização e controle que se mostrou capaz de conter abusos, mitigar riscos e preservar a confiança de correntistas e investidores. Nesse contexto, a liquidação extrajudicial de instituições financeiras, conduzida pelo Banco Central com base em critérios técnicos rigorosos, nunca foi alvo de grande controvérsia.
Desde a redemocratização, o País assistiu a dezenas de liquidações bancárias, algumas delas, inclusive, envolvendo banqueiros com livre acesso aos governos de turno. Houve ruído, disputas judiciais e reações políticas, mas nada que ameaçasse a estabilidade do sistema ou justificasse a mobilização extraordinária dos mais altos escalões da República. Ao contrário: fossem mais e ou menos ruidosas, essas liquidações só fortaleceram a credibilidade do sistema financeiro nacional.
É justamente por isso que causa perplexidade o alvoroço em torno da liquidação do Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro. Por que esse caso, em particular, provoca tamanha comoção em Brasília? Por que o Supremo Tribunal Federal (STF), o Tribunal de Contas da União (TCU) e parte do Congresso passaram a atuar de forma tão intensa contra uma decisão técnica do Banco Central e, ademais, previsível à luz das desconfianças que as operações do banco sempre despertaram no mercado e nos órgãos de fiscalização?
A estranheza não é só deste jornal. Como observou o economista Marcos Lisboa em entrevista recente ao Estadão, o Brasil lidou com o descontrole de bancos privados com absoluto sucesso nos últimos 30 anos, sem que Lisboa jamais tenha testemunhado reação semelhante a uma decisão do BC. Ainda assim, iniciou-se uma campanha de descrédito contra a autoridade monetária que ecoou em instituições que, em tese, deveriam zelar pela estabilidade da ordem jurídica do País, e não contribuir para sua degradação.
No Supremo, a heterodoxia é particularmente inquietante. O caso foi parar na Corte sem que haja investigados com foro por prerrogativa de função, o que desafia a Constituição, a jurisprudência e o princípio do juiz natural. Some-se a isso o elevado grau de sigilo imposto às investigações pelo ministro relator, Dias Toffoli, e o vaivém de suas decisões sobre a custódia de provas – inicialmente posta a cargo do próprio STF – e a perícia em equipamentos e documentos relacionadas ao caso Master, atividades que, em condições normais, cabem à autoridade policial e ao Ministério Público.
Mais grave é o ambiente marcado por conflitos de interesses que cerca o caso Master. Negócios privados envolvendo parentes de Dias Toffoli e pessoas diretamente ligadas a Vorcaro, bem como a contratação milionária do escritório de advocacia da mulher do ministro Alexandre de Moraes, não são, a priori, provas de ilegalidades. Mas impõem o afastamento de ambos. Em um Estado de Direito, a aparência de imparcialidade é tão essencial quanto a imparcialidade em si.
A decisão de Moraes de instaurar inquérito de ofício para apurar supostos vazamentos, sem provocação da Polícia Federal (PF) ou do parquet, levanta dúvidas legítimas quanto às suas intenções. Ao Estadão, juristas de diferentes trajetórias alertaram para o risco a garantias fundamentais, como o devido processo legal, e a vedação à atuação investigativa do magistrado. Não se trata, por óbvio, de condescender com vazamentos ilegais, mas de perguntar se o caminho escolhido pelo STF tem sido compatível com a Constituição e com a própria autoridade moral da Corte.
Se nada disso autoriza conclusões precipitadas, suscita, sim, perguntas a serem respondidas pelo Supremo. Por que o caso Master recebe tratamento tão heterodoxo? O que explica a mobilização incomum de órgãos e autoridades que, em episódios anteriores semelhantes, mantiveram distância respeitosa das decisões técnicas do Banco Central? Que interesses ou temores justificam as excepcionalidades deste caso?
O Supremo é o guardião da Constituição. Justamente por isso, deve explicações ao País sempre que sua atuação se afasta do padrão de autocontenção, previsibilidade e rigor jurídico que dele se espera.
Executivo suspeito de elo com PCC representou fundo na compra de fatia de família Toffoli em resort
Por Luiz Vassallo, Aguirre Talento, Jenne Andrade e Pedro Augusto Figueiredo / O ESTADÃO DE SP
SÃO PAULO E BRASÍLIA - O executivo da Reag Silvano Gersztel foi o representante de um fundo da gestora do mercado financeiro na compra de uma parcela da participação dos irmãos do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)Dias Toffoli no resort Tayayá, no Paraná. Ele é investigado por suposta lavagem de dinheiro para empresários do setor do combustível ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
Procurado, Gersztel não foi localizado. A Reag, o ministro Dias Toffoli e seus irmãos, José Eugênio e José Carlos Dias Toffoli, não se manifestaram.
Gersztel foi sócio e executivo da Reag por nove anos. Ele renunciou aos cargos de diretor-presidente (CEO) e financeiro (CFO) de uma administradora de fundos da Reag no início de janeiro. Sua saída fez parte de uma reestruturação da empresa, que foi adquirida pela Planner.
empresa esteve em alta e teve mais de R$ 340 bilhões sob gestão. Ambos foram alvo de investigações da Polícia Federal e deixaram a empresa em meio às apurações. Gersztel é investigado por sua atuação nos fundos para clientes enrolados e esteve envolvido na transação do resort da família do ministro.
Como revelou o Estadão, o pastor Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, é o cotista dos fundos de investimentos Leal e Arleen, administrados pela Reag. Eles foram usados para investir R$ 20 milhões no resort. O fundo Arleen também se tornou formalmente sócio das empresas de familiares do ministro que controlam o Tayayá.
Documentos da Junta Comercial do Paraná mostram que Gerztel foi o representante do fundo Arleen na sociedade com empresas dos irmãos e um primo do ministro. O fundo comprou, em setembro de 2021, metade da participação de R$ 6,6 milhões de José Eugenio e José Carlos Dias Toffoli, irmãos do ministro.
O fundo e a família Toffoli foram sócios das duas empresas até 2025. Entre os meses de fevereiro e julho, os irmãos e o primo do ministro e o fundo de investimentos se retiraram da sociedade para vender suas participações nas empresas ao advogado Paulo Humberto Barbosa. Hoje, ele é o único sócio e dono do empreendimento.
A Reag, barões dos combustíveis e o PCC
Silvano Gersztel foi alvo de buscas e apreensões no âmbito da Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, deflagrada em agosto de 2025, para investigar o uso de fundos da Reag Investimentos para lavagem de dinheiro dos controladores das distribuidoras de combustíveis Copape e Aster, suspeitos de ligação com o PCC. A gestora nega qualquer ligação com atividades ilícitas da facção crimonosa.
Nas investigações, os donos das empresas, Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, e Mohamad Huissein Murad, ambos foragidos da Justiça, são apontados como sonegadores bilionários. Os fundos da Reag teriam sido usados por eles para adquirir usinas e postos de gasolina, além de imóveis pessoais de valor milionário. Tudo para driblar a arrecadação de impostos pela Receita Federal e esconder quem eram os donos desses imóveis e empresas.
Os investigadores suspeitam de Gersztel porque ele foi representante desses fundos nessas transações. Uma delas diz respeito à aquisição da Usina Itajobi, produtora de etanol, em Marapoama, no interior de São Paulo. Ela foi adquirida pelo fundo Mabruk II. O Ministério Público afirma que Beto Louco e Mouhamad usavam o fundo para não aparecerem como verdadeiros donos da Usina.
Segundo o MP, a “aquisição das usinas sucroalcooleiras foi instrumentalizada com fundos de investimento” e executivos da Reag, como Gersztel, “atuam em consonância com as dinâmicas fraudulentas da organização criminosa”.
Após ser alvo da Operação Carbono Oculto, a Reag também passou a ser investigada por abrigar fundos ligados às fraudes bilionárias do banco Master. Nessas investigações, hoje sob relatoria do ministro Dias Toffoli, o banqueiro Daniel Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, foram presos e, depois, soltos.
Operações da PF
Embora Gersztel não seja alvo da Operação Compliance Zero, que está sob relatoria de Toffoli, ele representa mais um nome da cúpula da Reag Investimentos sob escrutínio da Polícia Federal que teve relação com o empreendimento da família do ministro.
Mesmo que o banqueiro não seja investigado, Daniel Vorcaro tem se preocupado com a Carbono Oculto. Sua defesa pediu à Justiça Estadual de São Paulo para que envie o caso ao Supremo Tribunal Federal (STF) para que fique no gabinete de Toffoli.
Como mostrou o portal UOL, foi na Operação Quasar, deflagrada em conjunto com a Carbono Oculto, para investigar os mesmos empresários, que acabaram sendo encontradas mensagens relacionadas ao Master e Vorcaro.
Suspeição de Toffoli
Toffoli tem enfrentado questionamentos em razão das revelações do Estadão sobre a relação de seus familiares com fundos da Reag e personagens do caso Master. Senadores e deputados federais afirmaram que o ministro deveria se declarar impedido ou suspeito para ser relator do inquérito.
Como mostrou o Estadão, a Procuradoria-Geral da República (PGR) só deve avaliar a possibilidade provocar uma análise da suspeição de Toffoli na condução do inquérito do Master caso seja provocada. Até o momento, a PGR não recebeu nenhuma representação formal com esse objetivo.
O que diz a defesa de Vorcaro
A defesa de Daniel Vorcaro afirmou que não tem “qualquer conhecimento a respeito dos negócios dos referidos fundos”. Diz ainda que nunca foi cotista ou “participou de sua gestão”.
A defesa afirma “não tem nem nunca teve informação ou participação em negócios relacionados ao resort ou quaisquer outros investimentos realizados por esses veículos”. “A defesa permanece colaborando com as autoridades e reitera que associações entre essas estruturas e o Sr. Vorcaro não correspondem à realidade”, diz.
Procurados, Dias Toffoli e seus irmãos, José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli, não se manifestaram. Silvano Gersztel não foi localizado. A Reag não se manifestou.
Corte de R$ 11 bilhões em emendas segue caminho da moralização
Por Editorial / O GLOBO
Fez bem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em barrar ao redor de R$ 11 bilhões em emendas parlamentares no Orçamento de 2026. Ele decidiu fazer isso de duas formas: vetando parte das emendas alocadas pelo Congresso na Lei Orçamentária e também bloqueando ou remanejando verbas ministeriais usadas pelo Parlamento para disfarçar como gastos do Executivo a destinação de recursos pelo Legislativo — modalidade apelidada “emenda paralela”.
De acordo com o ministro da Casa Civil, Rui Costa, o corte atende a um acordo feito com os congressistas para que a correção no valor das emendas respeite, neste ano eleitoral, os limites estabelecidos pelo arcabouço fiscal. “Algo em torno de R$ 11 bilhões está acima do previsto legalmente e do pactuado”, afirmou Costa. “Há uma regra definida, por julgamento do Supremo, que define o volume de emendas e como podem crescer. Tudo aquilo que está fora do pactuado não será executado.”
Com o corte, o total de emendas parlamentares previstas no Orçamento deste ano alcançará perto de R$ 50 bilhões, mais que o triplo do valor destinado há dez anos (cerca de R$ 15 bilhões em valores atualizados). Ainda se trata de uma aberração, que corresponde a aproximadamente um quarto dos gastos livres do governo, num Orçamento quase 95% engessado por despesas obrigatórias como folha do funcionalismo ou Previdência. Mesmo assim, a decisão de Lula contribui para trazer as despesas com emendas para perto do patamar dos últimos cinco anos e para evitar uma explosão ainda maior.
As despesas com emendas parlamentares são nocivas por dois motivos. Primeiro, atendem a critérios paroquiais, não técnicos. O dinheiro vai para localidades com as melhores conexões em Brasília, não necessariamente para as mais necessitadas. E deixa de ser usado em projetos ou investimentos estratégicos do governo. Segundo, o mecanismo das emendas abre brechas a desvios, irregularidades e corrupção.
Um exemplo recente foi exposto pelo levantamento do GLOBO de repasses a ONGs. O valor transferido ao terceiro setor saltou de R$ 170 milhões em 2019 para R$ 1,8 bilhão em 2025. Para efeito de comparação, o total destinado a entidades privadas na atual legislatura alcançou R$ 3,5 bilhões entre 2023 e 2025 — ante R$ 729 milhões de 2019 a 2022. Auditorias da Controladoria-Geral da União (CGU) demonstram que boa parte do dinheiro enviado às ONGs acaba em entidades controladas por parentes ou ex-assessores dos parlamentares responsáveis pela indicação.
O próprio Congresso reconhece a necessidade de aumentar a transparência. Depois da reportagem do GLOBO, o ministro Flávio Dino, relator dos casos sobre as emendas no Supremo, proibiu repasses a ONGs de parentes de parlamentares. É esperado que, uma vez julgadas essas ações, haja regras sensatas e definitivas para evitar os abusos. Enquanto isso não acontece, o corte promovido por Lula vai no caminho desejável da moralização.
Previsões oficiais desacreditadas são parte da farra fiscal
O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. / FOLHA DE SP
Uma condição fundamental para uma boa política econômica é se valer de previsões realistas, ou mesmo conservadoras, dado que é preciso manter margens de segurança para eventos imprevistos. Quando os cálculos do governo se mostram confiáveis, passam a orientar investidores, empresas e consumidores, facilitando o cumprimento das metas fixadas.
O contrário disso se dá na política fiscal do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em que o aumento irresponsável de gastos associa-se a projeções que, no mais das vezes, subestimam suas consequências —e, portanto, encorajam mais despesas.
Em julho do ano passado, o Tesouro Nacional divulgou relatório que estimava, no cenário tido como principal, uma trajetória de alta da dívida pública de 76,6% do Produto Interno Bruto, patamar de então, para 84,3% ao final de 2028. A partir daí, se mantidas as atuais regras orçamentárias, a cifra começaria a cair.
Apenas seis meses depois, documento recém-divulgado pelo Tesouro apresenta um panorama substancialmente pior. Calcula-se agora que o endividamento subirá até 88,6% do PIB em 2032, e só no ano seguinte teria início o ciclo de queda. Em outras palavras, se nada for feito, não se verá melhora no próximo governo.
Os dados são alarmantes, como os anteriores já eram, mas ainda parecem por demais otimistas se comparados aos de analistas de mercado. Pelo ponto médio das expectativas coletadas em pesquisa do Banco Central, a dívida pública subirá até 94,3% em 2033.
É evidente que previsões econômicas têm um grau elevado de imprecisão, ainda mais em períodos tão longos —as projeções de mercado para o PIB, por exemplo, revelaram-se subestimadas de 2021 a 2024. Mas sucessivas revisões das contas orçamentárias do governo Lula mostram um padrão que mina sua credibilidade.
Recorde-se que, em julho de 2023, quando já estava proposto o tal novo arcabouço fiscal, o Tesouro estimava que o pico da dívida seria de 76% em 2024, e este 2026 fecharia com 74,7%.
Por óbvio, uma projeção tão rósea encoraja manter o ritmo de alta dos gastos públicos —ou busca justificá-lo. Espantoso é que, depois de constatados os erros graves, permaneça a prática de fazer as contas com hipóteses sistematicamente otimistas para o crescimento da economia, os juros e a arrecadação.
No mais recente relatório oficial, o governo supõe que despesas como Previdência Social, pessoal e Bolsa Família cairão como proporção do PIB a partir da próxima administração. Com as regras atuais, isso dependeria de um desempenho milagroso do PIB.
A dívida pública é, há pelo menos uma década, o indicador mais importante da política fiscal. Deter sua expansão é imperativo para evitar uma crise de solvência que levará, como em 2015-16 sob Dilma Rousseff (PT), a recessão e empobrecimento. Subestimar seus riscos é rumar de novo ao desastre.
O Voa Brasil não saiu do chão
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O Programa Voa Brasil, que prometia deslocar das rodoviárias para os aeroportos uma massa de viajantes, sobretudo aposentados e pensionistas do INSS, parecia fadado ao fracasso desde a concepção. Seu vezo populista mal era disfarçado. Publicamente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu “fazer o pobre andar de avião de novo” por meio da oferta de passagens aéreas para grupos específicos por módicos R$ 200.
Para surpresa de rigorosamente ninguém, o Voa Brasil jamais decolou e chegou a seu 17.º mês com um volume acumulado de vendas de apenas 1,7% dos 3 milhões de bilhetes anunciados como meta para o primeiro ano de vigência do programa federal.
Em março de 2023, com o alegado propósito de democratizar o acesso ao transporte aéreo, o então ministro de Portos e Aeroportos, Márcio França, anunciou o programa de redução do valor das passagens no mais puro estilo lulopetista: não apresentou o custo do programa, não indicou de onde viriam os recursos para bancá-lo, não divulgou se estudos de demanda foram realizados nem apresentou os benefícios para os usuários e as empresas do setor. França disse apenas que não haveria subsídios e que o programa estaria baseado na ocupação de assentos ociosos em época de baixa temporada.
A bravata de França deu azo à primeira bronca pública de Lula em toda a equipe. Na reunião ministerial preparatória para o balanço de cem dias de governo, o presidente ordenou que qualquer “genialidade” de seus ministros teria de passar antes pela Casa Civil. Ora, se nem Lula, com sua notória propensão à cortesia com chapéu alheio, acreditava na capacidade de o Voa Brasil decolar, seria mais prudente ter abandonado a ideia.
Um levantamento do Estadão/Broadcast, com base em dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), mostrou que, no transporte aéreo nacional, cerca de 30 milhões de assentos ficaram ociosos desde julho de 2024, quando o programa entrou em vigor após muitas rodadas de negociação com companhias aéreas. Mas, apesar da sobra de assentos, só 52 mil bilhetes foram vendidos pelo Programa Voa Brasil, que, em sua versão final, terminou por oferecer possibilidade de compra apenas a aposentados que não tivessem viajado de avião nos 12 meses anteriores. Antes, prometia atender também a servidores públicos e estudantes.
Entre o anúncio da ideia “genial” e sua concretização, o programa serviu de barganha para as demandas não atendidas do setor aéreo, como mostrou a reportagem deste jornal. Ademais, na campanha em 2022, Lula tomou para si láureas que não lhe cabiam ao fazer a promessa de repovoar os aeroportos com seu populismo inconsequente.
Na verdade, a partir dos anos 2000, o País assistiu a uma significativa transferência de passageiros das rodoviárias para os aeroportos por fatores ligados à estabilização econômica iniciada em 1994, com o advento do Plano Real. A partir daí, o setor aéreo passou por desregulamentação, a concorrência aumentou e companhias de baixo custo foram criadas.
São políticas estruturantes que têm o condão de alterar a realidade de um setor econômico. Programas pretensamente geniais podem fazer barulho, mas não dão resultado.

