Investida contra Banco Master deve ir até o fim
Por Editorial / O GLOBO
As autoridades não podem baixar a guarda nas investigações que apuram as suspeitas de fraudes que levaram à liquidação extrajudicial do Banco Master, de Daniel Vorcaro. Com autorização do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), a Polícia Federal (PF) deflagrou nesta quarta-feira a segunda fase da Operação Compliance Zero em endereços ligados a Vorcaro, a seus parentes e a outros empresários. Foram cumpridos 42 mandados de busca e apreensão e sequestrados ou bloqueados bens e valores de mais de R$ 5,7 bilhões. A investigação precisa ir até o fim — e deveria tramitar da forma mais transparente possível, e não sob sigilo.
Em seu despacho, Toffoli, relator do caso no Supremo, criticou a demora da PF para agir. Ele autorizou a operação no último dia 7. Na segunda-feira, dia 12, deu 24 horas para os federais saírem às ruas, mas levou perto de 40 horas. Como na ação que prendeu Vorcaro em novembro, desta vez outro suspeito foi detido prestes a deixar o país: Fabiano Zettel, cunhado e figura próxima ao banqueiro, tentava embarcar para Dubai. Ainda que isso possa alimentar especulações sobre vazamento, é essencial enfatizar que a PF não deixou de cumprir seu dever. E, sobretudo, que Toffoli não cedeu às pressões para dificultar a blitz contra o Master.
A PF investiga crimes de organização criminosa, gestão fraudulenta, manipulação de mercado e lavagem de capitais. Também foram alvos da operação o investidor Nelson Tanure (cujos fundos injetaram R$ 2,5 bilhões no Master) e o fundador da Reag Investimentos, João Carlos Mansur (a Reag gere fundos suspeitos e já fora alvo de operação contra o PCC). Investigadores se queixaram de que manter as provas lacradas no STF, como determinara Toffoli, traria riscos como a deterioração de dados digitais. Ele então autorizou que elas sejam encaminhadas à Procuradoria-Geral da República, mas não suspendeu o sigilo sobre o caso.
Desde a liquidação do Master, tem crescido a pressão sobre o Banco Central (BC), que tomou a medida com base em critérios técnicos para proteger o sistema financeiro. Em decisão que causou estranhamento, Toffoli determinou uma inusitada acareação às vésperas do Ano-Novo entre Vorcaro, o ex-presidente do Banco de Brasília envolvido numa tentativa de salvar o Master e o diretor de Fiscalização do BC. Parecia tentativa de intimidação. Diante das críticas, a acareação foi esvaziada.
Decisões do Tribunal de Contas da União (TCU) também causaram apreensão. O ministro Jhonatan de Jesus chegou a determinar uma inspeção no BC e admitiu até a possibilidade de reverter efeitos da liquidação. Nunca acontecera algo parecido. Depois recuou. O TCU reconheceu que a liquidação de instituições financeiras é competência exclusiva do BC. Paralelamente, houve campanha intensa contra o BC nas redes sociais. Influenciadores relataram ter recebido propostas milionárias para divulgar versões favoráveis a Vorcaro.
São conhecidas as relações de Vorcaro em Brasília. É previsível que haja tentativas de livrá-lo, mas isso não pode intimidar as investigações. O Master foi liquidado em meio a suspeitas graves de fraudes bilionárias. É, portanto, dever de todas as autoridades — do STF, da PF ou de qualquer braço do Estado — investigá-las a fundo. Mais que isso, Toffoli não pode continuar a manter sob sigilo processo sobre o qual pairam tantas dúvidas e especulações.
Emendas são usadas para abastecer ONGs sem sede nem funcionários
Por Patrik Camporez — Brasília / O GLOBO
Em uma sala comercial, em Volta Redonda, no Sul Fluminense, está registrado o Instituto Brasileiro de Responsabilidade Socioambiental, Ciência, Tecnologia e Inovação (Ibratec). Ainda que funcione no local, a entidade não reúne condições para prestar os serviços para os quais foi contratada, segundo investigação da Controladoria Geral da União (CGU). Em 2024 e 2025, a ONG recebeu R$ 11,5 milhões em emendas da deputada Dani Cunha (União-RJ) para desenvolver ações para pessoas em situação de vulnerabilidade. O objetivo era atender 7.200 mulheres na Baixada Fluminense, mas dados indicam que esse número não seria atingido, uma vez que a entidade não tinha capacidade “suficiente para executar as atividades”, diz o relatório.
O caso não é isolado. Levantamento do GLOBO mostra que o recorde de R$ 1,7 bilhão no repasse de emendas parlamentares em 2025 para Organizações Não-Governamentais (ONGs) beneficiou entidades sem funcionários, sede e capacidade técnica para executar os projetos para os quais foram contratadas. Na prática, apesar de serem as destinatárias formais do dinheiro, elas atuaram apenas como intermediárias para a liberação das verbas. O modelo contempla ONGs criadas ou acionadas para fornecer os dados cadastrais e viabilizar repasses a terceiros.
O Rio, onde a Ibratec atua, concentra as ONGs que mais receberam recursos entre 2019 e 2025, com R$ 951,9 milhões, seguido por Distrito Federal (R$ 606 milhões) e São Paulo (R$ 589,7 milhões).
Além de Dani Cunha, o deputado Juninho do Pneu (União-RJ) aportou R$ 6,4 milhões na entidade. Ao analisar os gastos, a CGU apontou “potencial prejuízo” de R$ 493 mil por “superfaturamento” e “inexecução do objeto” na compra de materiais como quimono infantil, bolas de pilates e apitos. Além disso, ao visitarem a entidade, técnicos não encontraram parte dos materiais supostamente adquiridos, apesar de já terem sido pagos. Alunos e professores ouvidos relataram que os equipamentos nunca foram distribuídos.
Procurados, Dani Cunha e Juninho do Pneu não se manifestaram. A ONG afirma que tem estrutura adequada e que a verba em que foi apontado superfaturamento foi devolvida. “As observações e recomendações apresentadas são vistas como oportunidades legítimas de aprimoramento da gestão e de fortalecimento do terceiro setor. O Ibratec implementou, a partir da assinatura dos termos de colaboração, um processo de fortalecimento estruturado de sua governança”, pontua a entidade.
Sala só com impressora
Em outra sala comercial em Fortaleza, está registrada uma ONG que recebeu R$ 15,2 milhões em emendas nos últimos cinco anos para viabilizar projetos sociais. O repasse de verbas para entidades está previsto em lei, mas um ponto chamou a atenção em uma fiscalização sobre o uso de recursos públicos: não havia identificação visual sobre o funcionamento da entidade, empregados trabalhando ou algum outro sinal de atividade. No espaço, só havia uma impressora, mas sem computador.
O Instituto Future de Juventude, Promoção, Turismo, Cultura e Desenvolvimento Sustentável recebeu, entre outros pagamentos, R$ 7,8 milhões do deputado Moses Rodrigues (União-CE), sendo o parlamentar que mais direcionou verbas para a entidade. A despeito das verbas milionárias, os auditores da CGU não constataram qualquer atividade.
“Não possui funcionários registrados e não apresenta registro de funcionamento em sua sede. Verificou-se que o Instituto não dispõe de estrutura operacional adequada para o desenvolvimento das atividades previstas nos instrumentos da amostra”, afirma o relatório enviado à Polícia Federal por determinação do ministro Flávio Dino, que está à frente, no Supremo Tribunal Federal (STF), de um pente-fino nas emendas parlamentares.
A análise identificou que a ONG contratava outras empresas para a realização dos serviços, atuando como intermediária. Parte das firmas subcontratadas, no entanto, não tinha estrutura ou funcionários para realizar os projetos, de acordo com a CGU. Numa das emendas de Moses Rodrigues, de R$ 481,9 mil, há a suspeita ainda de irregularidades nas contratações posteriores diante de cotações de preço idênticas.
Procurada, a presidente da ONG, Edna Câmara de Vasconcelos, disse que os apontamentos levantados na auditoria foram devidamente respondidos à CGU. — Temos uma história de 15 anos e nada a esconder. Organizamos eventos sazonais e não conseguimos manter uma equipe grande em folha. Contratamos pessoas e empresas para ajudar nas entregas — alega a responsável pela ONG.
Em nota, a entidade acrescenta que conta com contratação de “freelancers e equipes temporárias” e “todos os serviços foram devidamente executados e comprovados”, pontua. Procurado, Moses Rodrigues disse que não tinha conhecimento sobre irregularidades. “Após a conclusão da auditoria, adotaremos as medidas necessárias para que sejam dados os devidos esclarecimentos”, acrescentou.
Subcontratações em SP
Em Suzano, no ABC Paulista, o Instituto Mogiano de Pesquisa, Educação e Cultura (Impec) recebeu R$ 1,5 milhão em emendas. Deste montante, R$ 500 mil foram direcionados pelo deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) para a execução de projetos na cidade. O dinheiro foi enviado inicialmente para o município, que depois repassou a verba para a entidade. A entidade, no entanto, não possuía equipe própria nem estrutura física compatível. Toda a mão de obra foi subcontratada, e a ONG atuou apenas como intermediária.
— A opção da prefeitura foi fazer uma seleção pública para a realização dos eventos (esportivos), o que também é prática usual e legal. E descentralizou recursos para uma entidade não-governamental. Apurei a prestação de contas e conferi que houve questionamentos na execução da emenda e foi definida a devolução por parte dos executores nos termos definidos pela CGU — disse Orlando Silva.
A prefeitura de Suzano, por sua vez, disse que “apresentou documentação comprobatória de sua experiência prévia na execução de projetos culturais, inclusive com histórico de atuações anteriores”. O município acrescentou que a “subcontratação de serviços estava expressamente prevista e autorizada”. Procurados, a Câmara e o Senado afirmaram, em nota, que as regras para repasses de emendas para ONGs têm sido aprimoradas, com o objetivo de ampliar os instrumentos de transparência, rastreabilidade e controle dos recursos. Em julho de 2025, o Congresso promulgou uma resolução que estabelece alguns critérios para uma entidade receber a verba, como ter sede própria e capacidade gerencial e operacional.
Dani Cunha, com o pai Eduardo Cunha ao fundo, no plenário: deputada destinou R$ 11,5 milhões para o Ibratec — Foto: Reprodução
Master: Toffoli fala em ‘inércia’, mas PF solicitou cautelares à Justiça há três meses
Por Rafael Moraes Moura e Johanns Eller— Brasília e Rio / O GLOBO
As medidas cautelares cumpridas pela Polícia Federal (PF) na segunda fase da Operação Compliance Zero na última quarta-feira (14) contra o CEO do Banco Master, Daniel Vorcaro, familiares e suspeitos de integrar o esquema de fraudes na instituição já haviam sido solicitadas pelos investigadores à Justiça em outubro de 2025, um mês antes da megaoperação que prendeu o banqueiro e da liquidação do Master pelo Banco Central. As diligências, porém, não haviam sido autorizadas até ontem.
A cronologia, confirmada pela equipe do blog com três pessoas a par da investigação, põe em xeque as críticas do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, que acusou a PF de “inércia” e falou em “falta de empenho” por parte da corporação na decisão que autorizou a prisão preventiva do cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, e concedeu mandados de busca e apreensão contra o empresário Nelson Tanure e o investidor João Carlos Mansur, além de parentes do controlador do Master.
Além disso, a ordem dos fatores indica que Tanure, sócio de Vorcaro em diversos investimentos, e Mansur, um dos alvos da Operação Carbono Oculto em agosto passado, e Zettel estavam na mira da PF há muito mais tempo do que se tinha conhecimento até agora.
Segundo Toffoli, as medidas cautelares foram requeridas ao STF no último dia 6, autorizadas por ele no dia 7, com ordem para que fossem cumpridas em um prazo de 24 horas, a partir da última segunda-feira (12), "diante da gravidade dos fatos e necessidade de aprofundamento da investigação, com fartos indícios de práticas criminosas de todos os envolvidos".
“Causa espécie a esse relator não só o descumprimento do prazo por mim estabelecido para cumprimento das medidas cautelares ordenadas, posto que resta claro que outros envolvidos podem estar descaraterizando as provas essenciais ao deslinde da causa, como a falta de empenho no cumprimento da ordem judicial para a qual a Polícia Federal teve vários dias para planejamento e preparação, o que poderá resultar em prejuízo e ineficácia das providências ordenadas”, escreveu o ministro.
Como antecipamos no blog, as críticas do magistrado provocaram indignação entre investigadores, que rebateram as acusações alegando que um dos endereços dos alvos só foi conhecido na noite de terça-feira, véspera da operação.
Embora o magistrado tenha insinuado que a PF se atropelou no planejamento das diligências, investigadores do caso relataram à equipe da coluna sob reserva que as cautelares cumpridas na última quarta já haviam sido solicitadas à Justiça Federal há três meses, quando o caso ainda não havia sido puxado por Toffoli para o STF.
Àquela altura, a PF já investigava a pedido do Ministério Público Federal (MPF) se Tanure era o controlador oculto do Banco Master. Foi no âmbito desta frente de apuração que se deu a solicitação para avançar com diligências sobre os alvos da operação desta quarta.
O inquérito tramitava em São Paulo, onde o pedido foi protocolado. Mas, a contragosto da PF, a Justiça Federal paulista não decidiu imediatamente sobre as cautelares.
Segundo fontes familiarizadas com a investigação, “o caso era complexo” e o juiz responsável pelo caso pediu esclarecimentos antes de decidir sobre as medidas.
Em paralelo, corria outra investigação na Justiça Federal de Brasília que deu origem à primeira fase da Compliance Zero, deflagrada em 18 de novembro. Nesta data foram presos Vorcaro e quatro diretores do Master, e o banco foi liquidado pelo BC.
Tudo mudou quando, no início de dezembro, Toffoli atendeu a um pedido da defesa de Vorcaro para que fosse admitida a competência da Corte no caso em função da citação do deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA), detentor de foro privilegiado, nas investigações.
Antes, Toffoli havia colocado o caso sob sigilo na mesma data em que viajou de jatinho para a final da Copa Libertadores em Lima junto com o advogado de um dos investigados.
“Depois que o ministro determinou que o inquérito subisse para o Supremo, a PGR se manifestou favorável às cautelares. Toffoli determinou que a operação fosse executada no dia 12, mas tínhamos levantamentos pendentes e ontem solicitamos uma retificação e uma nova busca contra o principal alvo. Com a decisão e os endereços confirmados, cumprimos a ordem do STF hoje”, afirmou um dos investigadores à equipe da coluna.
Toffoli fez questão de destacar o horário em que os investigadores da Polícia Federal acionaram o Supremo para solicitar a prisão preventiva de Zettel e diligências de busca e apreensão contra ele e Nelson Tanure.
Segundo o ministro, a PF enviou o pedido às 19h13m da última terça-feira (13). A Procuradoria-Geral da República, por sua vez, se manifestou favoravelmente às solicitações pouco mais de uma hora e meia depois, às 20h49m.
Na petição enviada ao Supremo, a Polícia Federal informou Toffoli que o cunhado de Vorcaro viajaria para Dubai de jatinho a partir do Aeroporto Internacional de Guarulhos e que o embarque para o exterior representava uma “oportunidade única” para a “obtenção de elementos que corroborem, ainda mais, sua participação” nos fatos investigados, além de eventuais provas de outros crimes que os investigadores suspeitam que ele tenha cometido.
Após Fabiano Zettel ser preso preventivamente, a PF apreendeu celulares e outros materiais em posse do empresário, que foi liberado na sequência.
No caso de Tanure, abordado no embarque de um voo doméstico no Aeroporto Internacional do Galeão com destino para Curitiba (PR), a Polícia Federal argumentou ser necessário uma busca e apreensão no local em que o empresário fosse encontrado, e não em sua casa.
Isso porque, considerando a previsão de decolagem do voo, às 7h30m, ele poderia deixar sua residência no Rio antes do horário permitido por lei para cumprimentos de mandados judiciais, 5h da manhã.
A operação da última quarta-feira envolveu 40 equipes da Polícia Federal e cumpriu mandados em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, na Bahia e no Rio Grande do Sul.
Banco Master concedia empréstimos que não eram pagos e geravam receita apenas no papel, aponta investigação
Por Manoel Ventura e Thiago Bronzatto — Brasília / O GLOBO
O Banco Master concedia empréstimos para algumas empresas que não pagavam as parcelas, gerando assim uma receita somente no papel, aponta investigação do Ministério Público Federal (MPF). O valor dessas operações de crédito era repassado, em poucos minutos, quase que integralmente, a fundos administrados pela gestora de recursos Reag, que simulavam uma rentabilidade irreal. Ao final, o dinheiro voltava para a própria instituição financeira em aplicações. Esse fluxo financeiro entrou na mira da Polícia Federal, que deflagrou uma operação para apurar suspeitas de gestão fraudulenta, manipulação de mercado e lavagem de capitais.
De acordo com documentos da investigação, os prazos de carência para o pagamento das parcelas eram prorrogados às vésperas das datas previstas para o início da quitação. Na prática, segundo o inquérito, “não houve efetivo pagamento de juros nem amortizações”.
Para mapear o caminho do dinheiro, a área de supervisão do Banco Central (BC) pediu ao Master, em julho de 2024, a comprovação de que um dos fundos que receberam os recursos dos empréstimos tomados por empresas teria saldo suficiente em caso de necessidade de resgate.
Os técnicos da entidade monetária solicitaram também a apresentação dos controles implementados para monitoramento da evolução dos projetos que deveriam ser bancados com os empréstimos e o acompanhamento dos valores já liberados para cada cliente.
Em resposta ao BC, o Master disse que esses questionamentos deveriam ser dirigidos à Reag, administradora dos fundos. Esse posicionamento chamou a atenção de técnicos da entidade monetária, porque deixou clara a “falta de adequado acompanhamento das operações estruturadas”.
Já a Reag disse ao BC que os ativos dos fundos que receberam recursos oriundos do Master eram, em sua quase totalidade, compostos por papéis do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), considerados de baixo valor pelo mercado. Nessa mesma correspondência, a gestora afirmou garantir liquidez de até R$ 1 bilhão por mês para pagamento de resgates, caso necessário, utilizando-se de outro fundo, o Gold Style.
Porém, além dos problemas nos papéis do Besc, o BC identificou que não havia ativos líquidos na carteira do fundo Gold Style capazes de suportar os resgates. Para a entidade monetária, essas constatações evidenciam “o não atendimento de preceitos para o gerenciamento do risco de crédito das operações estruturadas”, com descumprimento da lei.
Procurada, a defesa de Daniel Vorcaro afirmou que as afirmações "não correspondem aos fatos". "O Banco Master era submetido a auditorias independentes, supervisão permanente e a rotinas de fiscalização contínua. A defesa segue colaborando integralmente com as autoridades competentes e confia que o avanço das apurações afastará premissas que não possuem sustentação técnica ou documental", diz a nota. A Reag não respondeu.
Rentabilidade extraordinária
Documento do Banco Central enviado ao MPF reforça que as operações entre Master e Reag envolviam uma “reavaliação indevida de ativos, que permitiu aos fundos de investimento auferir rentabilidade extraordinária”.
O caso mais ilustrativo é o empréstimo de R$ 459 milhões concedido pela instituição financeira de Vorcaro para a Brain Realty Consultoria e Participações Imobiliárias, dirigida por uma ex-funcionária da Reag. Conforme O GLOBO revelou na semana passada, tão logo esses recursos foram recebidos pela empresa, o dinheiro foi repassado para o Fundo Brain Cash, criado pela Reag 20 dias antes, com um patrimônio de R$ 15 mil.
A aplicação de R$ 450 milhões no fundo Brain Cash foi relâmpago. Uma hora e meia depois de receber esses recursos, o dinheiro foi repassado para o Fundo D Mais, também ligado à Reag e que tinha em sua carteira de investimentos papéis do Besc. Três minutos depois, o Fundo D Mais transferiu R$ 450 milhões ao FIDC High Tower para liquidar parte de uma aquisição de papéis do Besc.
Esse fundo, segundo a investigação, reavaliou esses ativos de baixa liquidez para R$ 10,8 bilhões, registrando uma rentabilidade de 10.502.205% em 2024. No mesmo ano, para efeito de comparação, a maior criptomoeda do mundo rendeu em torno de 120% de retorno em dólar, enquanto o ouro valorizou 61,6% em reais no mesmo período.
A PF também suspeita que, após circularem por estruturas administradas pela Reag, os recursos tenham retornado ao próprio Master por meio da aquisição de Certificados de Depósito Bancário (CDBs), principal forma de captação do banco no mercado.
Diante dessas suspeitas, investigadores deflagraram uma operação nesta quarta-feira para realizar buscas e apreensões de documentos em endereços ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, e a João Carlos Mansur, fundador da Reag.
A gestora de recursos também entrou na mira da Operação Carbono Oculto, realizada em setembro do ano passado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público para apurar um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo integrantes da facção Primeiro Comando da Capital (PCC).
Ao menos três fundos administrados pela Reag que fizeram negócios com o Master também constam da lista de investigados na Operação Carbono Oculto. Dentre eles, estão o Hans 95, Reag Growth e Anna FIC, que também realizavam repasses relâmpagos.
A gestora de recursos nega qualquer irregularidade e tem enfatizado que a associação “não consta de nenhum documento oficial, de nenhuma denúncia, relatório de análise ou manifestação das autoridades competentes”.
Revolta no Irã expõe dilema entre soberania e direitos
A situação no Irã é dramática. Os protestos contra a teocracia se intensificam, e o nível de repressão é inaudito. O bloqueio da internet dificulta as comunicações, mas organizações de direitos humanos já estimam mais de 2.000 mortos. Ademais, o Judiciário iraniano anunciou que dará início a julgamentos sumários e execuções
A insurreição também representa desafio para a comunidade internacional, cujos países precisam se equilibrar entre a defesa dos direitos humanos e o respeito à soberania. A solução encontrada pelo Brasil é constrangedora.
O Itamaraty divulgou na terça (13) uma nota que tergiversa entre obviedade e cinismo. Diz que cabe aos iranianos decidir sobre seu futuro e lamenta as mortes, mas as trata como se fossem um fenômeno espontâneo, não como resultado de ações violentas das forças de segurança do país.
Não é de hoje que governos e partidos de esquerda são refratários a condenar abusos de regimes que desafiam os Estados Unidos, como Rússia, Irã, Cuba e Venezuela. Washington muitas vezes comete infrações, mas antiamericanismo não é bússola geopolítica.
Até porque há situações em que seus governantes agem corretamente. O Brasil tem muito a agradecer à gestão de Jimmy Carter, por exemplo, que não hesitou em pressionar a ditadura militar na questão do respeito aos direitos humanos e da abertura política.
Não que o dilema seja de fácil solução. O respeito total à soberania permitiria a Adolf Hitler exterminar todos os judeus na Alemanha; e a defesa inegociável de direitos levaria a intervenções militares até por erros processuais. Trata-se de cálculo complexo que deve considerar a escala de violações e níveis de intervenção.
O rol de ações inclui pressão diplomática, apoio à oposição, sanções comerciais, embargos, sabotagem, ciberataques, bombardeios e ocupação militar —estas últimas, em tese, só deveriam ocorrer com autorização da ONU.
Outro fator a considerar são as consequências. Interromper um massacre para que uma guerra civil seja instalada também é nefasto para a população envolvida.
Em relação ao Irã, as opções não soam promissoras. O regime está firme no intuito de reprimir os protestos, que percebem como ameaça existencial, e o país carece de uma oposição organizada capaz de assumir o poder.
Nenhuma ação militar americana mudaria tal cenário, e não há razões para que a população local confie nos apelos de Donald Trump por mais protestos. Ele já demonstrou, na Venezuela, que restaurar a democracia não está entre seus objetivos.
Com ódio a Lula, mercado pode acabar indo de Flávio Bolsonaro
Marcos Augusto Gonçalves
Editor da Ilustríssima, formado em administração de empresas com mestrado em comunicação pela UFRJ. Foi editor de Opinião da Folha
O chamado mercado, ao que consta, não gostou que Flávio Bolsonaro tenha sido indicado por seu pai para a disputa presidencial de 2026. Tampouco que a recente pesquisa Quaest tenha mostrado o ungido à frente do governador Tarcísio de Freitas, o preferido da finança e seus pares.
Faz sentido. O mercado gostava de Jair Bolsonaro e de seu fabuloso Paulo Guedes, o mitômano que faria —diziam as cartomantes— uma revolução liberal no Brasil.
O chamado mercado, ao que consta, não gostou que Flávio Bolsonaro tenha sido indicado por seu pai para a disputa presidencial de 2026. Tampouco que a recente pesquisa Quaest tenha mostrado o ungido à frente do governador Tarcísio de Freitas, o preferido da finança e seus pares.
Faz sentido. O mercado gostava de Jair Bolsonaro e de seu fabuloso Paulo Guedes, o mitômano que faria —diziam as cartomantes— uma revolução liberal no Brasil.
Natural então que agora prefira-se o capitão do Bandeirantes, com a vantagem de ele governar o principal estado do país e respeitar certa institucionalidade. Não é tão despreparado e tosco quanto seu demiúrgo e não parece inclinado a aventuras antissistema.
Sabendo-se que o mercado rejeita qualquer coisa que cheire a Lula, social-democracia, distribuição de renda e programas sociais, Tarcísio parece, aos olhos dessa elite, uma boa promessa, um produto de direita que poderia ser vendido como "moderado". O desrespeito a direitos e a letalidade policial descontrolada não têm importância. A educação cívico-militar e os aspectos questionáveis do setor, também não. E do grande escândalo de corrupção na Fazenda estadual nem se fala mais.
O mercado na verdade está interessado em privatizações, desregulamentações e ausência de Estado para poder atuar com ampla liberdade. Tem muita gente, aliás, bastante interessada nessa agenda de afastamento do Estado para bem longe, especialmente quando representado pela Polícia Federal e pelo Judiciário.
Tarcísio já trocou juras com o mundo financeiro e apresenta-se como um defensor da ideia de que na esfera privada tudo funciona —em que pese a emergência de fraudes em série, como os casos das Americanas, do Master e do PCC lavando dinheiro na Faria Lima. Defende também o fim de medidas que ajudem a ajustar contas públicas por meio de cobrança de imposto e corte de benesses de ricos.
Parênteses: não deixa de ser curioso, diante dessa agenda liberal sem cabresto sempre repetida, que o mais espetacular caso de sucesso internacional na economia, na tecnologia e na redução da pobreza seja a República Popular da China, que segue um receituário antagônico ao laissez-faire. "Ah, mas aquilo lá é uma ditadura comunista" —eis o argumento simplório que sai logo da cartucheira, como se o êxito daquele país se devesse a isso. Fecha.
Voltando ao nosso trópico em transe, não é de se duvidar, com a incapacidade crônica da direita de construir e apresentar uma candidatura respeitável e viável ao Planalto, que todos acabem embarcando com Flávio Bolsonaro. Já que a aversão a Lula é visceral, as fichas deverão ir mesmo para "o bolsonarismo que toma vacina".
É verdade que a pesquisa Quaest apontou rejeição alta ao nome Bolsonaro, mas muita água vai rolar. Não se imagina, ao menos por ora, que Flávio possa sequer cogitar de se recolher.
Em todos os cenários, como se sabe, Lula é o favorito —e com méritos. Os desastres econômicos previstos não aconteceram, aprovou-se a Reforma Tributária, a renda subiu, a fome foi superada, o IR ficou mais justo, Trump fez elogios e a inflação voltou a se comportar. Nem tudo é uma maravilha, longe disso, mas o bastante para dar ao petista os melhores prognósticos para o ano eleitoral.

