Ceará tem 34 cidades em situação de emergência por seca ou estiagem
Os dados são do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD), do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR). A mais recente portaria, publicada no último dia 14 de janeiro, confirmou o contexto de estiagem e seca, respectivamente, em Itapajé e Quixeramobim.
Ao todo, são mais de 1,3 milhão de pessoas afetadas pelas situações de desastres no Ceará. Em oito cidades, a vigência do decreto termina ainda em janeiro. Nas demais, a data de encerramento ocorre entre fevereiro e julho de 2026.
- Estiagem: período prolongado de baixa ou nenhuma pluviosidade em que a perda de umidade do solo é superior à sua reposição;
- Seca: estiagem prolongada durante período de tempo suficiente para que a falta de precipitação provoque grave desequilíbrio hidrológico.
Veja as cidades em situação de emergência no CE:
Estiagem:
- Tabuleiro do Norte;
- Acopiara;
- Itatira;
- Pedra Branca;
- Salitre;
- Boa Viagem;
- Deputado Irapuan Pinheiro;
- Paramoti;
- Assaré;
- Catunda;
- Milhã;
- Campos Sales;
- Iracema;
- Parambu;
- Ibaretama;
- Tauá;
- Alto Santo;
- Mombaça;
- Aiuaba;
- Caucaia;
- Independência;
- Itapajé.
Seca:
- Quiterianópolis;
- Saboeiro;
- Quixadá;
- Arneiroz;
- Choró;
- Piquet Carneiro;
- Ibicuitinga;
- Jaguaretama;
- Morada Nova;
- Madalena;
- Potiretama;
- Quixeramobim.
Com a condição oficializada, as gestões municipais podem solicitar apoio, consultar e acompanhar processos de transferências de recursos pelo sistema do MIDR.
Entre as ações da União para minimizar os impactos estão a compra de cestas básicas, água mineral, refeição para trabalhadores e voluntários, kits de limpeza de residência, higiene pessoal e dormitório.
No caso da seca ou estiagem, esse procedimento é necessário para a inclusão na Operação Carro-Pipa, por exemplo.
A equipe técnica da Defesa Civil Nacional avalia as metas e os valores solicitados com base nas informações enviadas nos planos de trabalho. Com a aprovação, é publicada portaria no Diário Oficial da União (DOU) com o valor a ser liberado.
Seca grave avança
Dados mais recentes do Monitor das Secas, ferramenta coordenada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) indicam que mais de 90 municípios cearenses apresentaram seca grave em dezembro de 2025.
Esse número cresceu, em um mês, cerca de 38%. Em novembro, eram 65 municípios nessa condição, ou seja, 26,73% do território nessa categoria.
No mesmo período, o Ceará já registrava 100% da extensão sob condição de seca relativa. O avanço da seca grave diminui a predominância da seca moderada no Estado, condição que abrangia 55,8% do território cearense.

A dura tarefa de disciplinar as emendas parlamentares
Por meio de emendas, deputados federais e senadores podem hoje decidir o destino de pelo menos um quarto do Orçamento não destinado a despesas obrigatórias. A depender da evolução das receitas, a parcela neste 2026 pode passar de um terço do gasto discricionário.
A responsabilidade pela determinação de tamanho volume de recursos seria já em si enorme e controversa. O caso se torna mais grave devido ao fato de que o montante seja manipulado sem que existam projetos de aplicação, verificação de resultados e punições por ineficiências.
Pior, não é raro que tais verbas sejam desencaminhadas, em aplicações que beneficiam negócios e propriedades de parlamentares, ou simples objeto de corrupção.
Desde 2024, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), dedica-se a limitar a falta de transparência na elaboração e execução de emendas. Conteve a transferência opaca de recursos para governos municipais e estabeleceu critérios técnicos de elaboração de projetos. Acabou, assim, por forçar o Congresso a promover normas mínimas para o uso desse dinheiro.
Em uma nova investida, Dino acaba de proibir que um parlamentar destine verbas para ONGs administradas por parentes. É mais uma tentativa de circunscrever a privatização de recursos públicos, embora limitada —há emendas de autoria coletiva pelas quais parlamentares podem encaminhar dinheiro a uma entidade da família de um colega, em troca do mesmo favor.
Levantamento do jornal O Globo mostrou que repasses de emendas para ONGs se multiplicam desde 2019, atingindo o recorde de R$ 1,7 bilhão em 2025. Tudo indica, pois, que se trata de um mecanismo de apropriação quase direta de verbas.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também procura conter o arbítrio do Legislativo. Vetou R$ 400 milhões, travou a execução de mais de R$ 3 bilhões e pretende remanejar outros R$ 7 bilhões em emendas no Orçamento de 2026 —aprovado com cerca de R$ 60 bilhões em despesas fixadas por deputados e senadores.
São remendos em um tecido institucional roto pela expansão do poder congressista sem o equivalente aumento da responsabilização, da capacidade técnica e da lisura. O uso de emenda como instrumento paroquial e ineficiente de gasto público entranha-se no sistema político, forma currais, financia aliados regionais e diminui a concorrência eleitoral. Tornou-se vital para a corporação parlamentar.
Reverter esse processo —que se intensificou ao longo de uma sequência de presidentes politicamente fragilizados desde o segundo mandato de Dilma Rousseff (PT)— exigirá um complexo entendimento institucional.
Chegar a ele dependerá da força do Palácio do Planalto, de compromissos políticos e pressões da sociedade. Nas piores hipóteses, a mudança será forçada por escândalos incontornáveis ou por uma crise fiscal aguda.
Impessoalidade em prática
Por Notas & Informações / o estadão de sp
A prisão de Janaina Reis Miron, irmã do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), por força de mandados judiciais em aberto, lançou luz sobre uma das principais vitrines da atual gestão municipal: o programa Smart Sampa, sistema de monitoramento e reconhecimento facial espalhado por ruas e avenidas da capital paulista. O episódio, por envolver um familiar direto do chefe do Poder Executivo paulistano, exigia da Prefeitura uma postura inequívoca de respeito à ordem jurídica e às instituições – e foi isso o que se viu.
Identificada por câmeras do sistema e detida na zona sul de São Paulo, Janaina era considerada foragida da Justiça depois de descumprir pena alternativa após condenações por desacato, lesão corporal e embriaguez ao volante. Os fatos que deram origem ao processo ocorreram em 2022, quando, abordada por policiais em Botucatu (SP), a sra. Miron se recusou a cooperar, ofendeu e ameaçou agentes públicos e ignorou as sanções que lhe foram impostas pela Justiça. A conversão da pena em prisão decorreu de seu próprio desdém às determinações judiciais.
Diante disso, a reação de Nunes foi correta: objetiva e impessoal. Em nota, a Prefeitura afirmou que “a prisão está amparada em mandados judiciais, obedeceu ao rigor da lei e foi executada seguindo os critérios de identificação do Smart Sampa”. Ao fazê-lo, a administração municipal reafirmou um princípio elementar do Estado de Direito: decisões judiciais não podem ser relativizadas em função dos vínculos pessoais dos sentenciados.
O caso, ademais, reforça a natureza impessoal de uma política pública que vem apresentando resultados concretos. Assim como o Muralha Paulista, do governo estadual, o Smart Sampa acumula números auspiciosos: milhares de foragidos da Justiça capturados, prisões em flagrante e pessoas desaparecidas localizadas, reunindo famílias que antes viviam a angústia da separação de seus entes queridos. São dados que explicam por que o programa Smart Sampa se tornou peça central da estratégia de segurança urbana da capital paulista.
Nada disso, porém, autoriza exaltação. Afinal, o prefeito não fez mais do que cumprir seu dever constitucional. Agir de forma impessoal não é uma escolha do administrador público, mas uma obrigação inscrita no artigo 37 da Constituição, que rege a administração pública. Ao não interferir, não condescender e não personalizar o episódio da prisão de sua irmã, Nunes apenas se submeteu ao que a lei exige de qualquer governante.
Dito isso, em um país no qual a mixórdia entre interesses públicos e privados e o tratamento privilegiado que é dispensado a familiares de autoridades, lamentavelmente, não são raros, a normalidade institucional é digna de nota deste jornal. Não como um elogio pessoal a Nunes, mas como parâmetro de conduta a ser observado por todos os servidores públicos. A reação republicana à prisão de sua irmã, por si só, não engrandece a gestão do prefeito da maior cidade do País. Apenas demonstra que, nesse caso, as instituições funcionaram como devem funcionar. E é exatamente isso – nada mais, nada menos – que se espera de uma democracia madura.
O Brasil não é refém de Lula e Bolsonaro
Por Notas & Informações / o estadão de sp
As primeiras pesquisas eleitorais de 2026, divulgadas nos últimos dias pelos institutos Genial/Quaest e Meio/Ideia, ajudam a organizar o debate sobre a sucessão presidencial deste ano. Lidas em conjunto, evidenciam o quanto o Brasil ainda permanece dividido e revelam, ao mesmo tempo, um presidente competitivo, alternativas moderadas sendo travadas e o avanço de uma candidatura que vive, sobretudo, da herança política do bolsonarismo. Como toda pesquisa eleitoral, esses levantamentos apenas retratam o momento. Num cenário ainda em formação, com candidaturas não oficializadas e estratégias em disputa, os ventos políticos mudam com maior rapidez.
Feita essa ressalva, convém registrar que a Quaest confirma um ponto central já indicado pela pesquisa Ideia. Entre os nomes hoje testados, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, segue como o adversário mais competitivo contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um eventual segundo turno. No confronto direto, Lula aparece com 44% das intenções de voto, contra 39% de Tarcísio – uma diferença estreita, dentro da margem de erro, que não se repete quando o petista enfrenta outros governadores da direita ou candidatos de menor projeção nacional. O governador do Paraná, Ratinho Junior, que acaba de se apresentar como pré-candidato à Presidência, aparece como o terceiro nome mais competitivo da direita.
Tarcísio ainda é o nome mais capaz de ameaçar a tentativa de reeleição de Lula. No primeiro turno, contudo, o governador paulista permanece travado. Nos cenários testados pela Quaest, Lula lidera com porcentuais que variam de 40% a 35%, enquanto Tarcísio aparece em patamares mais baixos (27%, na melhor hipótese), atrás do senador Flávio Bolsonaro (32% no melhor cenário para ele). É aí que se impõe o lamento da direita democrática: uma candidatura com maior potencial eleitoral e perfil mais institucional segue desperdiçada, refém de um campo político sequestrado pelo bolsonarismo na fase pré-eleitoral. O custo dessa captura é elevado – não apenas para a direita, mas para a qualidade do debate público.
Por outro lado, a mesma pesquisa mostra a consolidação de Flávio Bolsonaro como principal adversário de Lula no campo da direita. No primeiro turno, o “zero um” aparece com intenções de voto entre 23% e 32%, conforme o cenário, superando Tarcísio e os demais governadores da direita. No segundo turno contra Lula, o senador ainda perde – 45% a 38% –, mas com desempenho suficiente para se apresentar como candidato competitivo. Esse avanço não decorre de trajetória própria nem de um projeto nacional consistente, mas, em grande medida, da incorporação quase automática do eleitorado fiel a Jair Bolsonaro, fenômeno que este jornal já apontou (ver editorial O nome do pai, 19/12/2025).
Com essa consolidação, torna-se difícil imaginar que Flávio desista da disputa, salvo em um cenário de racha explícito na família. O contraste é eloquente: enquanto Flávio ocupa redes sociais e espaços na mídia como candidato declarado, Tarcísio segue equilibrando pratos de forma cuidadosa, quase silenciosa, preso a um cálculo que combina cautela institucional, lealdade política e receio de confrontar o bolsonarismo mais radical.
As pesquisas ainda acrescentam um pano de fundo decisivo: o País segue dividido sobre a permanência de Lula no poder. Segundo o Instituto Ideia, 46,9% avaliam que o presidente merece continuar no cargo, enquanto 50% defendem o contrário. Na Quaest, 56% afirmam que Lula não merece um novo mandato. A margem é estreita, e a disputa, aberta.
Não está escrito nas estrelas que o Brasil está condenado a um duelo empobrecido e reciclado entre lulismo e bolsonarismo. O País não é prisioneiro desse cenário. A democracia brasileira é mais ampla do que essa dicotomia estéril. Há espaço – e necessidade – para lideranças que saibam disputar o poder sem sequestrar campos inteiros do espectro político, que ofereçam projetos em vez de heranças e que compreendam que vencer eleições é apenas o começo. Superar esses limites é uma urgência nacional.
Transferência de Bolsonaro foi uma concessão sensata
Por Editorial / O GLOBO
Foi sensata a transferência do ex-presidente Jair Bolsonaro da Superintendência da Polícia Federal (PF) para a instalação do quartel da Polícia Militar do Distrito Federal conhecida como Papudinha, onde ficará em condições melhores. A mudança foi determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Advogados e a família defendiam prisão domiciliar, alegando problemas de saúde e más condições da prisão. Mas na PF ele já recebia tratamento digno e tinha acompanhamento médico em tempo integral, como acentuou Moraes em sua decisão. A transferência foi uma concessão a Bolsonaro. Voltar à prisão domiciliar não se justificaria, pois ele tentou romper a tornozeleira quando estava detido em casa.
A nova cela de quase 65 metros quadrados — cinco vezes a área da anterior — dispõe de banheiro com chuveiro de água quente, cozinha equipada com geladeira, lavanderia, quarto, sala e área externa, onde Bolsonaro poderá tomar banho de sol e fazer exercícios físicos com privacidade. Há possibilidade de instalar equipamentos como esteira ou bicicleta. As condições de alimentação também foram incrementadas — as refeições diárias passaram de três a cinco, com lanche e ceia. Ele ficará isolado dos demais presos, e o tempo de visitas será ampliado. O espaço concedido a Bolsonaro é bem maior do que o local onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi mantido na Superintendência da PF em Curitiba (a sala adaptada para receber Lula tinha 15 metros quadrados).
Como já acontecia na PF, Bolsonaro contará com assistência médica 24 horas por dia, e o número de profissionais foi ampliado. Moraes determinou que ele passe pelo exame de médicos peritos da PF, que avaliarão a necessidade de transferência a hospital penitenciário. Depois da perícia, ele voltará a avaliar o pedido de prisão domiciliar humanitária por motivo de saúde. O cuidado com a saúde de Bolsonaro deve ser preocupação primordial e constante. Desde a facada sofrida durante a campanha em 2018, seu estado tem se mostrado frágil. Recentemente, passou por mais uma cirurgia, para tratar uma crise de soluços. As decisões de Moraes precisam levar em conta sua condição física, desde que estejam apoiadas em evidências médicas.
Uma das queixas de Bolsonaro sobre a Superintendência da PF era o ruído “contínuo e permanente” do ar-condicionado. Moraes contestou o argumento, afirmando que o aparelho era uma “excepcionalidade e benefício totalmente inexistente para os demais 384.586 presos em regime fechado no Brasil”. Também agiu acertadamente ao vetar pedido da defesa para uso de SmartTV e acesso ao YouTube. Segundo Moraes, o aparelho poderia “viabilizar comunicações indevidas com o meio externo, prática de ilícitos, obtenção de informações não autorizadas e burla aos mecanismos de controle”.
Por mais que seja aceitável oferecer a Bolsonaro condições melhores na cadeia, mesmo quando as anteriores já eram generosas, é preciso ficar claro que ele não está num hotel, mas numa prisão, onde cumpre pena de 27 anos e três meses por liderar uma tentativa de golpe de Estado que só não se consumou porque não obteve apoio militar. A despeito das reclamações de familiares e aliados, não há dúvida de que na Papudinha ele estará muito melhor que a maioria dos presos do país, inclusive os condenados a penas menores por crimes menos graves.
O ex-presidente Jair Bolsonaro — Foto: Sergio Lima / AFP/ 25/11/2025
Facções criminosas avançam no Ceará, expulsam famílias e impõem terror na periferia
João Pedro Pitombo / FOLHA DE SP
É início da noite de uma sexta-feira de novembro e ao menos 50 viaturas com o giroflex ligado se posicionam no centro de uma praça no bairro Pirambu, orla de Fortaleza. A cúpula da Segurança Pública está presente, discursa para motivar a tropa e os carros partem fazendo barulho rumo aos bairros periféricos da cidade.
Parte das viaturas patrulha a Barra do Ceará, bairro onde quatro jovens foram mortos em um campo de futebol em maio de 2025. No mesmo mês, duas irmãs foram assassinadas na praia em um crime com contornos cinematográficos, baleadas por homens que chegaram pelo mar em uma moto aquática.
Oitavo estado brasileiro em população e quarto com mais mortes violentas em 2025, o Ceará está no centro de uma disputa entre duas das maiores facções criminosas do país, cenário que fez da segurança o principal desafio do governador Elmano de Freitas (PT).
O Comando Vermelho, facção com origem no Rio de Janeiro, avançou sobre áreas dominadas pelo cearense GDE (Guardiões do Estado) nos últimos anos. Para fazer frente ao inimigo externo, a facção local se aliou ao TCP (Terceiro Comando Puro), outra facção originária do Rio.
A chegada dos grupos criminosos com atuação nacional veio acompanhada de práticas como a exploração ilegal dos serviços de internet, a extorsão de moradores e comerciantes e até mesmo expulsão de famílias de suas casas.
"Há um movimento de disputa entre as facções muito violento, que aumenta muito a letalidade, porque eles têm métodos de dominação na base da violência. Isso está acontecendo no Brasil todo. Não é uma peculiaridade do Ceará", afirma o secretário estadual de Segurança Pública, Roberto Sá.
O estado, contudo, ganhou uma centralidade para os grupos criminosos por sua posição estratégica para a rota do tráfico internacional, com portos e aeroportos próximos da Europa e dos Estados Unidos.
Em fevereiro de 2025, a Polícia Federal apreendeu cerca de 450 quilos de cocaína nos portos de Pecém e Mucuripe, escondidos em contêineres para exportação de cera de carnaúba e polpa de manga congelada.
O resultado desta disputa foi uma escalada da violência. Ao todo, foram registradas 3.361 mortes violentas no Ceará em 2024. Metade das pessoas mortas tinha até 29 anos, incluindo 304 crianças e adolescentes.
De janeiro a novembro de 2025, foram 2.973 assassinatos, número que coloca o Ceará atrás apenas da Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo em números absolutos de mortes violentas —que incluem homicídio, feminicídio, morte decorrente de ação policial, lesão corporal seguida de morte, roubo seguido de morte.
Fortaleza, maior metrópole do Nordeste com 2,4 milhões de habitantes, é peça central nessa disputa entre os criminosos, com impacto direto em cidades do entorno como Caucaia, Maracanaú e Maranguape.
Em 2024, as três estiveram entre os 20 municípios brasileiros com maior taxa proporcional de mortes violentas, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Maranguape encabeçou a lista como cidade mais violenta do país, com uma taxa de 79,9 assassinatos a cada 100 mil habitantes.
Com uma geografia plana, diferente de capitais como Rio e Salvador, a periferia das cidades da Grande Fortaleza se organiza em grandes conjuntos habitacionais, que chegam a reunir dezenas de milhares de moradores.
Os números maiúsculos dos conjuntos, contudo, não se refletem em uma prestação de serviços públicos eficiente. Em muitos deles não há coleta de lixo, presença de agentes de saúde, serviços postais, além de não terem escolas e creches suficientes para atender a demanda local.
Um dos maiores conjuntos é o José Euclides, no bairro Jangurussu, onde vivem cerca de 3.000 famílias. Inaugurado em 2017 para receber famílias que viviam no do entorno dos rios Maranguapinho e Cocó, o conjunto foi tomado por facções criminosas. Em agosto, dezenas de famílias abandonaram seus apartamentos e deixaram o residencial após ameaças.
Em Maracanaú, um conjunto habitacional no bairro Boa Esperança teve os seus muros marcados com siglas de uma fação. A polícia cobriu as marcas com tinta preta e mensagens como "Ceará contra o Crime", mas os criminosos voltaram a deixar suas marcas, desta vez com tinta branca.
As extorsões e o domínio da prestação de serviços públicos pelos criminosos se tornaram um desafio adicional para as forças de segurança. Um dos principais alvos foram empresas provedoras de internet, cujos donos foram ameaçados e tiveram a infraestrutura de prestação do serviço destruída.
Em dezembro, criminosos incendiaram uma embarcação de pesca avaliada em R$ 1,8 milhão na cidade de Itarema, litoral do estado. O proprietário teria se recusado a pagar uma taxa ilegal cobrada pelos bandidos para manter o barco no local. Um homem foi preso por suspeita de ordenar o incêndio.
Casos como estes fizeram crescer o clima de tensão e medo nas cidades cearenses. Os mais ricos buscaram reforçar a segurança de suas famílias. Dados da Associação Brasileira de Blindagem apontam que o Ceará foi o terceiro estado que mais blindou veículos no primeiro semestre de 2025.
As famílias mais pobres, por outro lado, se veem apartadas em meio a territórios dominados por grupos criminosos, limitações para circular em bairros vizinhos e desalento entre os mais jovens.
"Ser uma mãe na periferia de Fortaleza é estar entre o crime que avança por um lado e a polícia que entra muitas vezes sem respeitar a comunidade. É ter a certeza que a gente vai ver nosso filho saindo, mas não saber ele vai voltar", desabafa Edna Carla, representante do Movimento Mães da Periferia.
O secretário de Segurança Pública Roberto Sá afirma que o governo tem atuado com rigor e estratégia no enfrentamento ao crime organizado, com aumento expressivo nas apreensões de armas e nas prisões – entre janeiro e outubro de 2025, foram mais de 2.400 suspeitos de homicídio detidos.
Para combater crimes como a extorsão a provedores de internet e deslocamentos forçados de famílias, afirma que gestão implementou protocolos de resposta integrada e rápida, envolvendo Polícia Militar, Civil, e órgãos de inteligência.
O secretário ainda destaca que, apesar do avanço do número de mortes violentas, o estado teve redução de crimes como roubos e latrocínios. Também destaca a realização de concursos públicos para reforçar o efetivo e a aquisição de viaturas blindadas para proteção dos policiais.
"É óbvio que a polícia pode melhorar muito. Mas estruturalmente o problema está em termos uma sociedade violenta e política criminal que não trata aqueles que praticam crimes muito violentos com rigor que deveria", avalia.

