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É inaceitável desvio de armamento da polícia e do Exército para o tráfico

Por Editorial / O GLOBO

 

 

É estarrecedor que armas e munições continuem a ser desviadas da polícia e das Forças Armadas para traficantes. Investigações a partir de cartuchos apreendidos em operação nos complexos da Penha e do Alemão comprovaram lotes desviados de diversas polícias estaduais e também do Exército, como revelou reportagem do GLOBO. A operação chegou a apreender um fuzil da PM desaparecido havia 15 anos de um batalhão local. A história recorrente de armamento desviado para o tráfico revela um misto de desleixo e indícios graves de corrupção. Em todo o Brasil há envolvidos no abastecimento do arsenal do Comando Vermelho em seu quartel-general.

 

Em junho de 2019, PMs interceptaram em Santa Maria, Distrito Federal, um carregamento destinado ao Complexo da Penha. Estava num carro que vinha de Cuiabá. Eram mil projéteis para fuzis. Havia munição das polícias de Rio de Janeiro, Mato Grosso, Distrito Federal, Bahia e até do Exército. Quatro projéteis eram de um lote comprado pelo Exército identificado nos cartuchos da maior chacina realizada em São Paulo, em agosto de 2015. O combinado era levar o carregamento para a rodoviária ou, caso ninguém aparecesse, procurar o chefe do tráfico no Complexo da Penha (até hoje foragido). Em junho de 2018, um casal foi preso ao chegar ao Rio de carro, transportando 1.390 balas para fuzil, oriundas de lotes do Exército. A Polícia Civil informou que a munição também seria entregue no Complexo da Penha.

 

Na ocasião, a Polícia Civil do DF abriu inquérito para apurar o desvio da munição. Identificou mensagens trocadas entre criminosos e um sargento do Corpo de Bombeiros, na época lotado no Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República. Ele admitiu ter “cedido gratuitamente” 12 caixas de munição a outro envolvido no esquema. Chegou a ser preso, mas foi absolvido. O Exército também fez sua investigação. Todos os acusados foram absolvidos pela Justiça Militar. Preso mesmo, só o casal apanhado com a munição, que recebeu pena de dez anos.

 

Tais investigações só foram possíveis porque, a partir do Estatuto do Desarmamento de 2003, passou a haver a obrigatoriedade de identificar munições destinadas às forças de segurança. Mesmo assim, as regras são falhas. Os lotes são amplos demais, impossibilitando o rastreamento preciso no caso de crimes. Tecnologicamente, seria viável cada munição ter um identificador único.

 

Falta também compreensão das autoridades — em especial da Justiça — para a gravidade das conexões subterrâneas de policiais e militares corruptos com o crime organizado. Por princípio, as instalações militares devem ter padrões máximos de segurança. Não tem cabimento que tolerem desvios de armamento. É inaceitável que munição ou armas do Estado sejam usados contra a população que deveriam defender.

 
 
Armamento apreendido em ação da Polícia Civil e do MPRJArmamento apreendido em ação da Polícia Civil e do MPRJ — Foto: Felipe Grinberg / Agência O Globo

Saúde em risco com má formação de médicos

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Os dados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), divulgados pelo Ministério da Educação na segunda (19), mostram que a preocupação de especialistas em relação à expansão indiscriminada de cursos de medicina tem razão de ser.

Dos 351 cursos de universidades federais, privadas, estaduais e municipais que participaram da prova em outubro, 107 (30,5%) tiveram desempenho insuficiente (notas 1 e 2); dos 304 regulados pelo MEC (instituições federais e privadas), também um terço (99) obteve resultado insatisfatório.

Numa escala de 1 a 5, os conceitos 1 e 2 indicam cursos em que menos de 60% dos formandos alcançaram proficiência mínima.

A situação é mais grave nas instituições municipais: 37,5% tiraram nota 1, e 50%, nota 2. Em seguida, vêm as privadas com fins lucrativos (11,5% e 46,9%, respectivamente). Mas quase 30 mil estudantes estão nas particulares, ante 944 em municipais.

Já as estaduais alcançaram a maior porcentagem com conceito 5 (46,2%), além de 38,5% com 4. Nas federais, foram 25,3% com nota máxima e 61,3% com 4.

Como é a primeira edição do exame, o MEC aplicará punições gradativas, que valerão até a próxima prova. Os cursos com conceito 1 e 2 podem ser proibidos de aumentar vagas, de formalizar financiamento por meio do Fies e do Prouni, ter número de vagas reduzidas ou ingresso suspenso e, no futuro, até ser desativados. As instituições têm prazo de 30 dias para apresentar defesa.

O Enamed foi uma resposta do governo a um projeto de lei, em tramitação no Congresso, que pretende criar uma avaliação específica —como a aplicada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)— vinculada não ao MEC, mas ao Conselho Federal de Medicina, que apoia a proposta.

O resultado do exame sinaliza riscos à saúde pública, mas o problema é complexo e, portanto, exige atuação em várias frentes.

Especialistas apontam que os dois exames, do MEC e do CFM, poderiam coexistir, mas que só avaliação teórica é insuficiente. Além de melhorar a formação, é preciso aumentar a participação dos egressos em residência médica, ainda mais considerando a expansão acelerada de cursos.

De 2012 a 2023, segundo o Censo da Educação Superior, as vagas em cursos privados de medicina passaram de 10.217 a 46.152. Como mostra o Enamed, porém, tal quantidade não foi acompanhada por qualidade, nem ampliou acesso num país permeado por desigualdades —a cobertura de médicos no Distrito Federal, por exemplo, é cinco vezes a do Pará.

 

Cunhado de Vorcaro doa apartamento de R$ 2,6 mi para nutricionista

Joana Cunha / Iran Alves / FOLHA DE SP

 

apartamento de R$ 4,4 milhões doado em dezembro de 2024 por uma empresa ligada ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para uma mulher que se definiu como "sugar baby" não foi a única doação de imóvel pela família no fim daquele ano.

Em 21 de novembro, o pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, doou um outro apartamento, de R$ 2,6 milhões, para a nutricionista Gabriela Amaral Rocha.

O imóvel de 94 metros quadrados de área privativa está localizado na alameda Franca, no bairro dos Jardins, área rica de São Paulo.

Em 16 de dezembro, ou seja, 25 dias depois, a empresa Super Empreendimentos doou o apartamento de R$ 4,4 milhões para Karolina Trainotti, que teve o nome citado em uma operação policial contra tráfico internacional de drogas em 2022. A defesa de Trainotti negou as acusações e afirmou que ela atuava como "sugar baby", tendo os seus gastos pessoais custeados no período do relacionamento amoroso que mantinha com um dos réus naquele caso.

Além de ser ligada a Vorcaro, a Super teve Zettel como diretor, e uma sócia do pastor permanece na direção.

Procurada pela reportagem, Gabriela Amaral Rocha disse que, no caso do apartamento de R$ 2,6 milhões, a doação fez parte de um investimento realizado por Zettel em sua empresa de marmitas, a Feed Me Up.

No entanto, os dados da firma registrados na Receita Federal e na Jucesp (Junta Comercial do Estado de São Paulo) não demonstram qualquer investimento realizado pelo pastor.

A Feed Me Up, com capital social de R$ 10 mil, foi constituída em abril de 2023, mas Gabriela só aparece nos registros da junta em 10 de dezembro de 2024, quando ela entrou com R$ 2.000 de participação na sociedade.

O registro formal da entrada da nutricionista como sócia pela Jucesp só aconteceu em março de 2025, ou seja, meses depois de ela ganhar o imóvel.

Em nota enviada à Folha, Gabriela diz que é "nutricionista, empreendedora e sócia da Feed Me Up, empresa regularmente constituída e em atividade, dedicada à produção e comercialização de refeições saudáveis, cujas operações sempre foram conduzidas de forma lícita e transparente".

Em conversa anterior com a reportagem por videochamada, ela disse que a empresa decretou falência em novembro de 2025. Dados da Receita apontam que a firma segue em atividade.

Sobre a doação do apartamento, a nota enviada por Gabriela afirma que "em 2024, houve investimento na Feed Me Up por parte do sr. Fabiano Zettel, realizado de maneira formal e regular, mediante a aquisição de 20% das cotas sociais por meio de fundo de investimento regularmente constituído".

"Como parte do ajuste, o investimento foi realizado mediante a transferência regular de um apartamento. Os fatos ocorreram antes de qualquer notícia pública ou investigação conhecida envolvendo o referido investidor", afirma a nota.

Zettel é fundador e CEO da Moriah Asset, que se define como uma empresa de private equity especializada em investimentos direcionados a negócios de bem-estar. A Feed Me Up aparece no site da Moriah, na lista de investidas, ao lado de nomes como a rede de açaí Oakberry e a academia Les Cinq, além de marcas como Desinchá e Super Nutrition, de suplementos e creatina.

O empresário foi um dos alvos da segunda fase da Operação Compliance Zero deflagrada na última quarta-feira (14) pela Polícia Federal. Ele foi preso ao tentar viajar para Dubai, mas foi liberado horas depois. Zettel foi afastado do posto de pastor da Igreja Batista da Lagoinha no dia seguinte.

Em 2024, Gabriela foi processada pela SulAmérica em um caso em que a operadora acusava um grupo de cerca de dez pessoas de participar de um esquema de fraude contra plano de saúde, no qual ela teria recebido aproximadamente R$ 20 mil em solicitações de reembolso falso, segundo a companhia.

A nutricionista firmou um acordo, extinguindo seu processo e ressarcindo a SulAmérica em maio de 2025.

Sobre o processo do plano de saúde, o comunicado enviado pela nutricionista diz que ela "foi excluída do polo passivo antes de qualquer decisão de mérito, não tendo integrado o julgamento da causa, inexistindo condenação ou imputação de responsabilidade judicial em seu desfavor".

Ela diz ainda que "não é investigada, não possui vínculo com o Banco Master e não teve qualquer participação ou conhecimento acerca dos fatos atualmente apurados, os quais não guardam relação com suas atividades profissionais ou empresariais".

Procurada pela reportagem, a assessoria de Zettel não respondeu.

Investimento estadual em segurança é insuficiente contra o crime organizado

Por Editorial / O GLOBO

 

É compreensível que, neste ano eleitoral, os governadores queiram dar publicidade a suas ações na área da segurança pública, até para contrastar com a omissão do governo federal no enfrentamento ao crime organizado. Multiplicam-se eventos e postagens em redes sociais sobre o tema, como mostrou reportagem do GLOBO.

 

Em São Paulo, nas redes sociais do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), a segurança foi o tema mais frequente em dezembro, com publicações sobre operações policiais, formatura de agentes e combate ao crime organizado. O governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), anunciou com estardalhaço investimentos de R$ 116 milhões na segurança pública. O pacote inclui helicópteros, 1,5 mil fuzis e 91 veículos para a polícia. “Não teremos nenhuma viatura sem um fuzil”, disse. Ronaldo Caiado (União), governador de Goiás, anunciou em dezembro R$ 81 milhões em armamentos e um helicóptero para a Polícia Militar.

 

O governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), costuma enfatizar em suas publicações os baixos índices de criminalidade no estado. Em setembro, anunciou a compra de 350 fuzis israelenses para a Polícia Civil, dizendo que eram semelhantes aos usados pelo Bope, no Rio, ou pelo Exército americano. “Se a polícia me pedir um tanque de guerra, eu vou autorizar”, disse. O petista Jerônimo Rodrigues, governador da Bahia, que tem na segurança um dos seus maiores desafios, rebateu críticas da esquerda à compra de armas. “Eu vou comprar mais armas, e armas potentes, para enfrentar o crime à altura que o crime merece”, afirmou.

 

Os governadores estão certos em equipar a polícia para que possa enfrentar o crime organizado em igualdade de condições. Não é segredo que as quadrilhas estão, com frequência, mais bem armadas que os policiais. Na operação contra o Comando Vermelho nos complexos do Alemão e da Penha no ano passado, traficantes usaram drones para lançar bombas contra os agentes. O lucro obtido com a atividade criminosa lhes permite comprar armamento potente de guerra para usar contra o Estado.

 

Mas o combate à violência precisa ir além disso. A realidade mostra que mesmo as polícias estaduais mais bem equipadas têm dificuldades para derrotar facções que se tornaram multinacionais do crime. Não se vislumbra sucesso contra o crime organizado sem um plano nacional abrangente, que uniformize procedimentos e bases de dados, reunindo governos federal, estaduais e municipais trabalhando de forma integrada. Os mesmos governadores que acertadamente investem na segurança deveriam apoiar maior participação federal na área. Esse é o tema da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança, que enfrenta no Congresso forte resistência justamente das bases ligadas a eles. Por mais bem armados que seus estados estejam, claramente não terão condição de enfrentar o crime sozinhos.

 

 

O governador do Paraná, Ratinho Junior (ao centro), entrega viaturas às polícias do estado

Um Nobel fora de lugar

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Quando o Nobel da Paz de 2025 foi concedido à líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, em outubro do ano passado, este jornal – assim como todos os democratas que não toleram autocratas corroendo por dentro os pilares da democracia – reconheceu o valor inequívoco da honraria. Mais do que uma distinção pessoal, tratava-se da reafirmação do compromisso do mundo civilizado com a democracia liberal, os direitos humanos e o Estado de Direito. Não era apenas María Corina a laureada, mas a coragem de todos os venezuelanos que ousaram resistir à tirania de Nicolás Maduro.

 

Passados apenas três meses, a líder venezuelana conseguiu a proeza de lançar na lata do lixo não só a distinção recebida, mas também a chance de ocupar um lugar à altura na História. Em sua passagem por Washington, a sra. Machado prestou-se a um papelão político. Em encontro na Casa Branca, entregou, “simbolicamente”, a medalha física do Nobel da Paz ao presidente dos EUA, Donald Trump, como “reconhecimento” por seu suposto compromisso com a liberdade venezuelana. Trump, previsivelmente, agradeceu nas redes sociais, descrevendo o gesto como “maravilhoso”.

 

Não se tratou de um mero presente protocolar. María Corina vulgarizou um dos prêmios mais respeitados do mundo como um objeto de decoração trumpista, transformando-o em um troféu à vaidade para um líder que há uma década sonha com o Nobel, mas jamais chegou perto de merecê-lo. Embora o Comitê do Nobel tenha reiterado que o prêmio é pessoal e intransferível, o estrago simbólico estava feito: a medalha passou a circular como peça de encenação política.

 

Com isso, a líder venezuelana prestou um desserviço à causa que encarnou com dignidade. O Nobel da Paz é símbolo de resistência e enfrentamento ao autoritarismo. Ao oferecê-lo a Trump, María Corina homenageou justamente um personagem de inequívoca vocação autoritária, protagonista de um dos ataques mais graves às instituições democráticas de seu país, alguém que governa como se fosse a própria lei e trata o Estado como extensão de sua vontade pessoal.

 

Não se trata de excentricidade passageira. Há vozes respeitáveis na Noruega classificando o gesto como “absurdo” e alertando para o risco de transformar uma das maiores honrarias internacionais em instrumento de barganha política e espetáculo – o oposto do espírito que Alfred Nobel pretendia consagrar. O que deveria permanecer como símbolo da resistência venezuelana passou a lembrar um prêmio de consolação entregue ao personagem errado.

 

Ao bajular Trump, María Corina, em vez de fortalecer sua legitimidade moral e reafirmar o significado internacional de sua luta por democracia na Venezuela, optou por uma performance que corrói simbolicamente o reconhecimento mais nobre que recebeu por suas ações e palavras contra a tirania chavista.

 

Se há algo a ser celebrado, que seja a bravura do povo venezuelano – não a encenação constrangedora de quem confundiu reconhecimento histórico com bajulação política. Porque, não raro, gestos que pretendem engrandecer alguém acabam apenas revelando, de forma cruel, a pequenez de quem os pratica.

A realidade se impôs

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

Levou 26 anos e 6 meses, mas União Europeia (UE) e Mercosul finalmente assinaram o acordo que cria a maior área de livre-comércio do mundo. As negociações haviam sido concluídas no início do mês, mas ainda faltava a formalização de seus termos, o que ocorreu no fim de semana passado em uma cerimônia marcada por críticas ao protecionismo, que tem sido a marca do segundo mandato de Donald Trump à frente do governo dos EUA.

 

Quando o acordo entre Mercosul e UE começou a ser negociado, em junho 1999, já se sabia que as negociações seriam difíceis e demoradas, mas o mundo era outro e avançava rumo à redução de barreiras tarifárias e não tarifárias e à adoção de regras comerciais mais claras entre os países. A Organização Mundial do Comércio (OMC) vivia seu auge, e o Brasil foi um dos países que mais souberam se posicionar no órgão para se defender de medidas protecionistas e ampliar suas exportações.

 

Forjado por Trump ainda em seu primeiro mandato, quando os EUA passaram a bloquear a nomeação de juízes para o Órgão de Apelação, o ocaso da OMC fez com que muitos países voltassem seus olhos para acordos bilaterais. No caso específico de União Europeia e Mercosul, havia muitas diferenças a serem superadas dentro dos próprios blocos antes que as negociações pudessem avançar.

A agressividade da política comercial norte-americana obrigou os países a serem mais pragmáticos em relação às suas ambições e demandas. Além de impor tarifas para reduzir o déficit comercial nos EUA indiscriminadamente, Trump tem usado do instrumento para forçar os países a negociarem concessões em áreas que nada têm a ver com o comércio internacional.

 

O Brasil mesmo, com que os EUA registram superávit comercial há anos, já havia sido alvo desse tipo de sanção por motivos políticos. Meses depois, o tarifaço acabou por ser parcialmente revertido para alguns dos produtos que causavam maior impacto na inflação norte-americana e, consequentemente, na popularidade de Trump.

 

Mas, no sábado passado, Trump disse que aplicará taxas adicionais de 10% sobre os produtos oriundos de países europeus que se opuserem a seus planos de anexação da Groenlândia, território autônomo da Dinamarca. A União Europeia pretende responder de maneira conjunta e ameaça retaliar com tarifas equivalentes a 93 bilhões de euros e restrições ao acesso de empresas norte-americanas ao mercado.

 

Fato é que o lobby contra o acordo capitaneado por agricultores franceses e poloneses receosos de perder espaço para o agronegócio brasileiro, a despeito dos pesados subsídios, perdeu importância frente às ameaças geopolíticas que a União Europeia tem tido de lidar nos últimos anos, como o avanço da Rússia sobre as fronteiras ucranianas e a posição dúbia dos EUA diante da guerra.

 

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ressaltou que o acordo entre os blocos representa uma “escolha clara” pelo comércio justo, parceria produtiva de longo prazo e intenção de entregar benefícios reais e tangíveis para a população e os negócios, em detrimento de tarifas e isolamento.

Anfitrião da cerimônia, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, afirmou que o pacto envia um sinal inequívoco do comércio internacional como fator de cooperação e crescimento em um contexto internacional marcado por tensões, unilateralismo, desconfianças e egoísmo.

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não foi a Assunção, mas conseguiu trazer Von der Leyen para o Rio de Janeiro um dia antes para celebrar o acordo que ele considera uma aliança positiva para o mundo democrático.

 

São discursos altissonantes para que ninguém tenha de admitir que a realidade, afinal, se impôs. O acordo, por óbvio, ainda enfrentará muitos desafios, a começar pelo aval do Parlamento Europeu, e, ainda que seja aprovado, eurodeputados não descartam judicializá-lo. A eliminação de tarifas de importação será gradual e ocorrerá em até 15 anos, no Mercosul, e 12 anos, na Europa, e uma parte dos produtos terá cotas de importação.

 

Ainda assim, trata-se de uma vitória do multilateralismo, da diplomacia profissional e da racionalidade econômica, o que não é pouco nos tempos turbulentos em que vivemos.

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