Padre Kelmon pode ter tirado vitória de Lula no primeiro turno
Por Merval Pereira / O GLOBO
O debate de ontem não teve vencedores, o que não é bom para Bolsonaro, mas principalmente para Lula, que poderia ter selado a vitória no primeiro turno se não tivesse batido boca com o padre Kelmon, que estava ali como agente provocador, claramente. E Lula deveria ter entendido isso logo no primeiro momento e ter deixado o falso padre de lado.
Se perdeu em bate boca com um candidato que tem zero ponto. Ele respondeu bem, dentro das possibilidades, porque as acusações de corrupção tomaram conta do debate e é um tema muito difícil para ele e para o PT, desde que resolveram não assumir a culpa no grande esquema de corrupção que foi implantado no Brasil.
Entrei no debate com a sensação de que Lula ganharia no primeiro turno e sai dele coma sensação de que não vai dar. Ele mesmo, depois do debate, em conversas com jornalistas, tentou fazer de conta que é normal ir para o segundo turno e que não tem problema se acontecer. Mas é claro que ficará frustrado. Se tiver mesmo um segundo turno será preocupante; o debate mostrou como Bolsonaro está desesperado atrás de uma vitória que parece impossível.
Nenhum dos dois líderes conseguiu ir além do que foi até agora e, ao levar o caso de Celso Daniel para o debate, foi ao extremo e esgotou todas as suas fichas. Vai passar o segundo turno repetindo o que fala de Lula e do PT desde o início. Talvez isso enfraqueça a campanha dele.
Se Lula não perder voto, nem aumentou sua rejeição, que é o objetivo de Bolsonaro, depois de todas as acusações do debate de ontem, não vejo como mudar o quadro eleitoral. Simone Tebet foi a melhor candidata em todos os debates. É uma figura muito interessante na política, torço para que tenha continuidade, se torne ministra de um futuro governo porque é uma liderança ascendente. É desse tipo de político que o Brasil precisa: sério, que leva a sério as questões do dia a dia, sabe fazer política, inteligente, com senso de oportunidade.
Debate na Globo: Bolsonaro cumpre missão e Lula cai em armadilhas, aponta levantamento
Por Fernanda Alves — Rio de Janeiro O GLOBO
O candidato do PT Luiz Inácio Lula da Silva foi quem se saiu pior no debate da Globo desta quinta-feira entre os quatro principais candidatos à Presidência, segundo levantamento da consultoria Quaest. Dados coletados mostram que Ciro Gomes (PDT) teve mais menções positivas na internet, seguido por Jair Bolsonaro (PL) e Simone Tebet (MDB). A avaliação é de que o petista se mostrou irritado com as provocações dos adversários, enquanto Ciro e Tebet se mantiveram estáveis e Bolsonaro não aumentou sua rejeição.
Segundo o diretor da Quaest Felipe Nunes, o ex-presidente perdeu pontos ao cair nas armadilhas dos adversários. Lula se irritou com questionamentos do atual presidente e do candidato do PTB, Padre Kelmon. Em um dos embates, após o padre vincular o petista a escândalos de corrupção e ao governo da Nicarágua, ele respondeu o chamando de “impostor” e candidato “laranja”. Os dois tiveram que ser interrompidos mais de uma vez pelo apresentador, William Bonner.
— Lula caiu na armadilha da estratégia bolsonarista e, irritado, não fez um bom debate. Bolsonaro jogou para não aumentar sua rejeição e saiu do debate com a missão cumprida. Ciro e Tebet precisavam segurar seus eleitores. Os dados coletados pela Quaest mostram que foram bem sucedidos nessa empreitada— explica.
Quem teve mais menções positivas nas redes durante o debate foi Ciro Gomes, com 49,2%, contra 50% de posts negativos. Jair Bolsonaro aparece em segundo lugar, com 49% de comentários favoráveis, seguido por Simone Tebet, com 45,2%. Lula aparece em quarto lugar, com 43,5 %.
O levantamento mediu também as palavras mais comentadas na internet durante os blocos do debate. Termos como "direito de resposta", "padre de festa junina", "candidato laranja" e "leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc" estão entre as expressões mais populares.
Felipe Nunes ressalta ainda o impacto eleitoral que o debate pode causar nos votos, principalmente nos eleitores indecisos. Dados da pesquisa Quaest divulgada na quarta-feira mostravam que 21% dos eleitores diziam poder mudar de voto após o embate entre os presidenciáveis.
— Foi um debate com grande impacto na sociedade. Para efeito de comparação, o debate da Band teve alcance de 134 milhões de contas, já o debate da Globo chegou a um alcance de 204 milhões — avaliou Nunes.
O QUE FALTA A LULA
ROGERIO WERNECK / O ESTADÃO
Bem mais de 60% dos eleitores não querem manter Jair Bolsonaro na Presidência. Quase 50% declaram-se dispostos a votar em Lula da Silva. E pouco menos de 15% preferem outros candidatos, como Ciro Gomes e Simone Tebet.
Lula já mostrou que só ele poderá impedir que Bolsonaro seja reeleito. O que ainda lhe falta é convencer a maioria do eleitorado de que, além de ser capaz de derrotar Bolsonaro, poderá conduzir o País com sucesso no enfrentamento dos desafios com que terá de lidar nos próximos quatro anos.
A chave desse sucesso é ter um plano de jogo coerente que viabilize a retomada do crescimento sustentado da economia, com geração de empregos, equilíbrio fiscal e inflação sob controle. Sem isso, todas as demais políticas públicas estarão fadadas a ter eficácia muito limitada, qualquer que seja o empenho do governo em implementá-las.
E qual é o plano de jogo de Lula? Até agora, ninguém sabe, ninguém viu. Na verdade, a cúpula da campanha de Lula anunciou há poucos dias que, para facilitar a ampliação da aliança que apoia o candidato, seu prometido plano de governo não seria mais anunciado. O que não chegou a ser uma surpresa. Já em maio, em entrevista à revista Time, Lula deixara claro que seu plano era não ter plano. “Nós não discutimos política econômica antes de ganhar as eleições. Em primeiro lugar, você tem de ganhar as eleições.”
Tirando bom proveito da enorme aversão a Bolsonaro, Lula quer extrair do eleitorado carta branca para conduzir a política econômica como bem lhe aprouver, a despeito do deplorável desempenho de governos petistas nessa área.
Não falta quem alegue agora que, dos problemas do governo Lula, o País cuidará depois. E que, por ora, o que importa mesmo é impedir que Bolsonaro seja reeleito. Não é tão simples. De uma perspectiva menos imediatista, é fácil ver que um novo governo petista com gestão destrambelhada da política econômica pavimentará o caminho para a volta do bolsonarismo em 2026.
A oportunidade de reduzir a chance de que isso ocorra é agora, no segundo turno, quando, diante da urgência de conquistar votos de centro, Lula se veja compelido a se comprometer, afinal, com uma condução consequente da política econômica.
Será lamentável se, aterrorizado pelos arreganhos golpistas do bolsonarismo, o País se privar das vantagens do realinhamento de forças políticas, bancadas parlamentares e programas de governo que a eleição presidencial em segundo turno propicia. Vantagens que poderão fazer muita diferença nos próximos quatro anos. E em 2026.
Carro e casa de ex de Bolsonaro são vandalizados em Brasília
O carro da ex-mulher do presidente Jair Bolsonaro (PL), a candidata a deputada distrital Ana Cristina Valle (PP-DF), foi depredado e a casa dela foi pichada na noite desta quinta-feira (29), em Brasília.
Ela e o filho, Jair Renan Bolsonaro, publicaram vídeos curtos nas redes sociais sobre o ocorrido.
"Pixaram a porta da minha casa em represália não só a minha mãe que é candidata a deputada distrital, que automaticamente se percebe o ódio entregue gratuito a família Bolsonaro", afirmou o quarto filho do presidente.
"Morte ao Bolsonaro", escreveram, com tinta vermelha, no muro da casa.
O carro depredado, com vidros quebrados, foi mostrado pela própria Ana Cristina. "Olha o que fizeram comigo. Querem me pegar", ela disse, chorando.
Segundo a assessoria da candidata, ela, uma irmã e um assessor estavam no veículo, na porta da casa de Ana Cristina, quando houve o ataque. Saíam para um comício quando perceberam pancadas no carro, que pareciam vindas de um taco ou barra de ferro.
Os ocupantes do veículo sofreram pequenos cortes provocados por estilhaços.
A mansão da candidata é alvo de um pedido de abertura de inquérito da Polícia Federal à Justiça Federal. O pedido é baseado em dados do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) que apontam incompatibilidade dos valores da transação imobiliária com a função de assessora parlamentar exercida por Ana Cristina à época da compra do imóvel.
Ela informou à Justiça Eleitoral ser proprietária da mansão no Lago Sul, área nobre de Brasília. Segundo a declaração, o valor do imóvel é de R$ 829 mil.
A declaração contrasta com afirmação anterior da própria candidata, que negou no ano passado a o UOL ser dona do imóvel onde mora com o filho 04 de Bolsonaro.
Ana Cristina disputa a eleição usando o sobrenome e fotos do ex-marido, o que provocou críticas indiretas da primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Michelle disse que existem "alpinistas que estão tentando subir na vida" e declarou que o irmão, Eduardo Torres (PL), é o "nosso" único candidato a deputado distrital pelo DF.
Em publicação nos stories, no Instagram, Jair Renan, o 04, defendeu a mãe e disse que apoia sua candidatura. O filho do presidente afirmou ainda que a "fala de terceiros" sobre o termo "alpinista não reflete a realidade".
"Minha mãe Cristina Bolsonaro teve uma história de vida com o atual presidente Jair Messias Bolsonaro, onde foram casados por 16 anos, e sou fruto desta relação; onde houve parceria e muito amor", escreveu.
Para ele, a mãe contribuiu para a eleição de Bolsonaro à Presidência da República e tem o direito de usar o sobrenome.

VITÓRIA NO PERIMEIRO TURNOÉ TÃO INCERTA QUANTO AO TERCIERO LUGAR
Eliane Cantanhêde / O ESTADÃO
As eleições chegam ao seu dia D com os dois principais candidatos, Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, procurando ganhar no grito, ou na narrativa, ou no imaginário popular, produzindo demonstrações de força, sejam elas reais ou apenas para inglês, ops!, eleitor ver. É a derradeira busca pelo voto, especialmente pelos 13% de eleitores indecisos ou pelos que podem mudar de candidato na última hora. No caso de Ciro Gomes, 46%. No de Simone Tebet, 38%.
Lula ostenta troféus, com listas diárias de adesões em setores-chave, que influenciam eleitores e podem puxar votos, como artistas, atletas, intelectuais, economistas, ex-candidatos à Presidência, ex-ministros principalmente do tucano Fernando Henrique Cardoso e ex-presidentes do Supremo.
São eles Joaquim Barbosa, Celso de Mello, Ayres Britto, Nelson Jobim (que foi ministro de Lula) e, sem necessidade de notas ou declarações, Sepúlveda Pertence. Só Ellen Gracie, consultada pela campanha petista, preferiu não manifestar voto. E, mais uma vez, já fora do STF, Marco Aurélio Mello, é voto vencido: é o único pró-Bolsonaro.
Já Bolsonaro coleciona imagens de comícios e motociatas com multidões, quando a velha militância aguerrida do PT não pareceu muito animada. E, além das fotos e vídeos reais, a campanha do presidente distribui descrédito contra as pesquisas mais respeitadas do País.
A ansiedade no QG lulista é para fechar a eleição no primeiro turno, temendo um adversário poderoso, a abstenção, que atinge os segmentos em que o petista é mais forte: mais pobres, menos escolarizados, mulheres, Nordeste. O foco é convencer esse eleitor a ir votar.
No QG bolsonarista, o esforço é para garantir a realização do segundo turno, quando seus estrategistas acham que haverá tempo e material suficiente para reverter a desvantagem para Lula. Citam que a população poderá então saber e usufruir da melhora da economia, com recuo do desemprego e da inflação abaixo dos 10% e gasolina mais barata.
Além da guerra entre Lula e Bolsonaro, que se enfrentaram ontem no debate da TV Globo, até a madrugada de hoje, há também uma disputa, ponto a ponto, pelo terceiro lugar. Ou pelo pódio. Na reta final, há expectativa de Tebet ultrapassar Ciro, como já começou a acontecer dias antes do pleito em São Paulo. Além disso, Tebet poderá ser a candidata mais votada à Presidência da história do MDB.
Se houve uma sólida estabilidade ao longo de toda a campanha, uma coisa é certa: emoção irá até o último minuto. Assim como o Datafolha deixou o debate de ontem ainda mais eletrizante, também jogou uma grande interrogação no domingo: vai ter ou não segundo turno?

