Busque abaixo o que você precisa!

Com emboscada e até tiros, avanço do crime organizado coloca agentes do Ibama em risco na Amazônia

Por  Lucas Altino / O GLOBO

 

 

Foto de 2025 mostra fiscais do Ibama em Terra Indígena onde ataque aconteceuFoto de 2025 mostra fiscais do Ibama em Terra Indígena onde ataque aconteceu — Foto: Reprodução

 

Uma operação contra exploração ilegal de madeira no último sábado, no Amazonas, evidenciou o risco crescente a que estão submetidos agentes do Ibama que atuam na região. Ao tentar apreender um caminhão usado na prática clandestina dentro da Terra Indígena (TI) Tenharim-Marmelos, no município de Manicoré, cinco fiscais foram atacados por homens armados e precisaram se esconder na mata, enquanto a viatura da equipe era incendiada. Episódios como esse vêm se tornando cada vez mais comuns na Amazônia, em um fenômeno associado ao aumento da presença de facções no bioma, segundo o próprio órgão ambiental.

 

Nos últimos anos, atentados similares repetiram-se em diferentes pontos amazônicos, sobretudo em operações contra garimpo ilegal e exploração de madeira, atividades com forte presença dessas organizações criminosas. O caso em Manicoré ocorreu durante fiscalização em ramais clandestinos de escoamento de madeira ilegal na TI. O material é posteriormente comercializado na região da Vila Santo Antônio do Matupi, na rodovia Transamazônica.

 

Durante a ação, os agentes flagraram dois caminhões transportando madeira, e conseguiram abordar um deles. Antes de o veículo ser apreendido, contudo, um grupo com cerca de 30 homens armados chegou ao local e iniciou agressões físicas contra os fiscais.

Mesmo em inferioridade numérica e de armamento, os servidores conseguiram fugir para a floresta. Horas depois, retornaram à cidade de Humaitá (AM) e seguiram à sede da Polícia Federal (PF), onde denunciaram o ocorrido. De acordo com o Ibama, parte dos autores do ataque já foi identificada a partir de relatos e imagens registradas pelas vítimas.

 

Um estudo do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), de dezembro passado, mostrou que, entre 2023 e 2024, 42 mil dos 68 mil hectares de terra usados para extração de madeira no Amazonas não tinham autorização, 62% do total. Em um esquema de “lavagem de madeira”, grupos usam autorizações de outros lotes para validar, ilegalmente, a comercialização de vegetação retirada de áreas proibidas, como as terras indígenas. Embora nem toda a cadeia clandestina tenha participação direta de facções do narcotráfico, esses grupos vêm investindo cada vez mais nesse tipo de atividade por conta da alta lucratividade e da facilidade para lavar dinheiro obtido com outras práticas criminosas.

 

Agentes expostos

Procurado pelo GLOBO, o Ibama informou que não possui estatísticas específicas sobre ataques a seus servidores. A escalada da violência, entretanto, é confirmado pelo diretor de Proteção Ambiental do instituto, Jair Schmitt: — Estou há 24 anos no Ibama, conheço bem a Amazônia, e hoje o perfil criminal é totalmente diferente. Em momentos do passado a gente nem precisava trabalhar armado, mas isso agora é impensável. Aumentou o número de ataques, qualquer servidor confirma. O ambiente está mais violento, e os agentes públicos mais expostos.

 

Schmitt destaca justamente a chegada das facções à região como um dos fatores determinantes para o fenômeno. Para lidar com o novo panorama, cada operação passou a ser feita com um levantamento de áreas de risco, além do estabelecimento de protocolos e planejamento específicos junto aos fiscais. — O crime organizado tem se arvorado na Amazônia, principalmente na mineração e exploração madeireira — diz o diretor, que elenca ainda como causas o aumento da circulação de armas no país e a desestruturação do Ibama e das ações de fiscalização na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o que teria “empoderado” os criminosos. — Essas pessoas estão formando pequenas resistências ao poder do Estado, e as invasões em Terras Indígenas viraram prática rotineira.

 

A hostilidade na Amazônia também ficou visível durante as operações na TI Yanomami contra o garimpo. Ao longo de 2023, quando a missão especial começou, fiscais do Ibama foram atacados com armas de fogo pelo menos dez vezes.  Retirada do território Yanomami, parte dos envolvidos na atividade ilegal migrou para a TI Sararé, em Mato Grosso, que se transformou na Terra Indígena mais desmatada entre 2024 e 2025. Em setembro do ano passado, cinco garimpeiros ligados ao Comando Vermelho (CV) atiraram, com fuzil, em agentes do Ibama. Após o confronto, eles abandonaram a arma, carregador, munições, celular e um kit de internet por satélite antes de escapar.

Outra TI com episódios de violência é a Terra Apyterewa, no Pará. Em dezembro último, equipes do Ibama e da Funai, além da Força Nacional de Segurança e das polícias Civil e Militar, foram atacadas durante uma ação de desintrusão e apreensão de gado. Um colaborador que prestava apoio ao trabalho morreu após ser emboscado e atingido por disparos de arma de fogo.

 

A Floresta Nacional do Jamari, em Rondônia, também se tornou um local de ameaças. Só no ano passado, foram contabilizados ao menos sete confrontos armados em ações contra o garimpo, com 12 suspeitos presos.Na semana passada, quatro pessoas foram condenadas pelo incêndio, em Manaus, de dois helicópteros utilizados em operações de fiscalização do Ibama, em um prejuízo de mais de R$10 milhões. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), a motivação foi retaliar as fiscalizações ambientais na região.

 

‘Guerra na floresta’

Binho Zavaski, diretor da Associação dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente do Distrito Federal (Asibama-DF) e ex-presidente da associação nacional, também avalia que, na última década, houve a ascensão, na Amazônia, de grupos como CV, Primeiro Comando da Capital (PCC) e Família do Norte. Além da atuação tradicional no tráfico de drogas e de armas, eles passaram a investir no garimpo clandestino e na exploração de madeira: — É uma guerra na floresta, uma guerra contra o crime ambiental praticado por grupos extremamente poderosos e organizados, do Brasil e de fora — alerta.

 

Em meio a esse cenário, servidores negociam o pagamento de uma Gratificação de Atividade de Risco (GAR). Além disso, Zavaski cobra a integração das diferentes forças de segurança nessas operações e o investimento em equipamentos de proteção. — Além dessa sensação de impunibilidade, de que o crime ambiental compensa, ainda tem a constante pressão desses grupos pela mudança da legislação, para que essas atividades ilícitas possam, ali na frente, ser regularizadas rendendo, muitas vezes, o que já rende hoje através dessa condição ilegal — acrescenta.

 

Histórico da violência

  • Fevereiro de 2023: Quatro garimpeiros ilegais morreram em troca de tiros com agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Ibama na Terra Indígena Yanomami. Na ação, armas foram apreendidas, incluindo um fuzil (foto). Segundo suspeita da PRF à época, os suspeitos seriam membros do PCC. Agosto de 2023: Uma equipe do Ibama foi atacada a tiros durante fiscalização contra o garimpo ilegal na Área de Proteção Ambiental (APA) do Tapajós, no Pará. Um criminoso, que portava uma pistola, foi baleado e, apesar de socorrido, não resistiu ao ferimento (foto).
  • Setembro de 2023: Fiscais do ICMBio e policiais da Força Nacional foram atacados e tiveram os carros queimados durante fiscalização na Floresta Nacional de Aripuanã, no Sul do Amazonas. No local, foram encontrados armas, equipamentos e veículos usados para desmatamento ilegal. Junho de 2025: Agentes do ICMBio que atuavam na Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, passaram a ser regularmente atacados. Ofensiva incluiu bloqueio de estradas com fogo, destruição de pontes, cortes de cerca e até tentativa de incêndio no acampamento da equipe de fiscalização.
  • Setembro de 2025: Cinco garimpeiros ligados ao CV trocaram tiros de fuzil com agentes do Ibama durante operação na Terra Indígena Sararé, um dos territórios mais devastados do país. Após o confronto, eles abandonaram arma, carregador, munições, celular e um kit de internet (foto). Dezembro de 2025: Um colaborador do Ibama que apoiava as equipes que atuavam na desintrusão da Terra Indígena Apyterewa, no Pará, morreu após ser atingido por disparos de arma de fogo. A operação havia sido determinada pelo STF, com retirada de invasores e a apreensão de gado.



 

Habermas e a imprensa

Por  Merval Pereira / O GLOBO

 

Esfera pública é um conceito difundido pelo filósofo alemão Jürgen Habermas (falecido no sábado aos 96 anos). Define o espaço em que os assuntos públicos são discutidos pelos atores, públicos e privados, levando à formação da opinião pública, que reflete os anseios da sociedade civil, pressionando os governos. Esse conceito é fundamental para compreendermos o papel do jornalismo, que Habermas entendia como mediação entre Estado e sociedade civil. Ele definia como dupla função do que chamava de “imprensa de qualidade” atender à demanda por informação e formação.

 

No texto “O valor da notícia”, ressalta que estudo sobre fluxos de comunicação mostra que, ao menos no âmbito da comunicação política, a imprensa de qualidade desempenha papel de “liderança”. O noticiário político de rádio e TV depende dos temas e das contribuições provenientes do que chama de jornalismo “argumentativo”. Sem o impulso de uma imprensa voltada à formação de opinião, capaz de fornecer informação confiável e comentário preciso, a esfera pública não tem como produzir essa energia, dizia Habermas.

 

O tema, sempre central em sua obra, levou-o a escrever um último livro intitulado “Uma nova mudança estrutural da esfera pública”, em que se dedica a analisar as consequências da comunicação digital na sociedade moderna. O filósofo francês Jean Baudrillard já advertia que “a desinformação vem da profusão da informação, de seu encantamento, de sua repetição em círculos”. Pois Habermas registrou que as redes geram “ruídos incessantes em bolhas de opinião autossustentáveis”, levando a esfera pública a se fragmentar sob o domínio das big techs, que têm compromisso apenas com o lucro, provocando degeneração da democracia.

 

Para Habermas, a legitimidade da democracia depende da comunicação entre a sociedade civil e o centro de poder, deteriorada pelos ruídos da polarização estimulada pelas redes sociais. A importância de uma imprensa livre e profissional na produção de informação confiável é essencial para o funcionamento da esfera pública e da democracia, afirmava Habermas. O conceito de degradação da esfera pública pode ser aplicado a cenários como o uso indevido de canais de comunicação por figuras públicas para misturar interesses pessoais e privados, como acesso de familiares de políticos a redes sociais oficiais, ou os casos de corrupção como acompanhamos com o Banco Master, com diversas figuras públicas envolvidas.

 

Frequentemente o ambiente político brasileiro é afetado por ações estratégicas (focadas apenas no poder/sucesso individual ou partidário) em detrimento de uma ação comunicativa voltada para o entendimento mútuo, conceito central na obra de Habermas, referência para defender o jornalismo profissional e a democracia contra investidas populistas ou autoritárias. O filósofo alemão revelou, em artigos, seu temor de que os mercados não façam justiça à dupla função que a imprensa de qualidade, segundo ele, até hoje desempenhou.

 

A tal ponto que Habermas chegou a sugerir que os governos democráticos deveriam subsidiar os jornais “de qualidade” para garantir que se encarreguem de continuar alimentando a esfera pública para o debate das grandes questões. A proposta tinha por base a tese de que uma imprensa livre é vital para uma sociedade democrática. A ideia não foi adiante, e o próprio Habermas admitiu que a possibilidade de manipulação desse estímulo oficial poderia interferir nesse debate, o deslegitimando.

 

A asfixia do setor produtivo

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O esforço de renegociação de R$ 65,1 bilhões em dívidas da Raízen, gigante formada da parceria entre Cosan e Shell há 15 anos, voltou os holofotes para os números recordes de processos de recuperação extrajudicial, movimento que parece andar na contramão dos bons indicadores econômicos atuais. O anúncio da Raízen, feito com apenas algumas horas de diferença de processo semelhante aberto pelo Grupo Pão de Açúcar, líder histórico do setor supermercadista que tenta equalizar uma dívida de R$ 4,5 bilhões, acabou virando referência para o complicado ambiente de negócios nacional.

 

Entre recuperações judiciais (supervisionadas formalmente pela Justiça) e extrajudiciais (estruturadas diretamente entre empresa e credores), o ano de 2025 contou 5.680 processos, um recorde histórico, como mostrou recente reportagem do Estadão com dados do Monitor RGF de Recuperação Judicial. O ano de 2026, segundo especialistas, segue a mesma toada. Somente os processos extrajudiciais – instrumento legal criado no Brasil há apenas duas décadas – foram 68 no ano passado, volume também recorde, de acordo com levantamento do Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial publicado pelo jornal Valor.

 

São diversos os motivos que deixam empresas incapacitadas de pagar suas dívidas. Crises financeiras podem ser causadas por má gestão, planejamento comercial mal dimensionado, negócios de risco que não deram o retorno esperado, dificuldades na captação de financiamento e capital de giro, queda severa na demanda, disputas societárias ruinosas e até fraudes corporativas. Enfim, não há como desprezar que boa parcela da responsabilidade pelas crises corporativas cabe à própria condução das empresas.

 

Mas há, nos casos recentes, um denominador comum: a taxa básica de juros (Selic), que em quatro anos e meio – de janeiro de 2021 a junho de 2025 – passou de 2% para 15%, patamar em que se mantém até o momento e que contribui para multiplicar o saldo de dívidas financeiras. A disparada não foi acidental ou arbitrária, mas uma necessidade monetária para controlar a inflação e preservar o valor de compra do real diante de uma economia superaquecida por políticas oficiais de incentivo ao crédito e ao consumo.

 

O aumento da inadimplência e, em último estágio, a insolvência são o saldo deletério de uma política econômica que só atende aos interesses demagógicos do governo, em detrimento do controle da inflação. No afã de acelerar o giro do dinheiro, fabricando uma imagem da economia que não condiz com a realidade para dizer que está colocando “dinheiro no bolso do povo”, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva joga as consequências de sua irresponsabilidade no colo tanto de empresas quanto de pessoas físicas. Está aí a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) para comprovar: em fevereiro, a proporção de endividamento das famílias brasileiras bateu 80,2%, o maior nível de toda a série histórica do levantamento, feito mensalmente pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) desde 2010.

 

Remar contra uma maré de instabilidade econômica e políticas públicas ineficientes não é fácil. E é esse o resultado da desconexão entre as decisões de empresas e indivíduos (microeconomia) e a condução da macroeconomia (inflação, juros, PIB, etc.). É o tipo de desordem que costuma, cedo ou tarde, levar a crises econômicas mais sérias e recessão.

 

De acordo com o Monitor RGF, das 5.680 empresas em processo de reestruturação em 2025, o setor com maior aumento de insolvência foi o agronegócio, com 493 empresas, justamente o que mais tem contribuído positivamente para o Produto Interno Bruto (PIB). Fatores como mudanças climáticas e quebras de safra tendem a desequilibrar as contas, mas não há como desconsiderar a forte dependência da Selic, em razão da necessidade intensiva de capital do agronegócio.

A queda dos juros, alívio esperado por empresas e famílias, não depende exclusivamente do Banco Central. O governo tem de fazer sua parte.

‘Operação abafa’ em ação

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O escândalo do Banco Master reúne ingredientes exorbitantes para justificar escrutínio rigoroso: fraudes bilionárias e uma teia de influências que atravessa Brasília. O povo exige repostas e, em situações assim, a Constituição oferece à Casa do Povo um instrumento clássico de esclarecimento: a comissão parlamentar de inquérito (CPI). Ainda assim, a CPI do Master continua parada, e uma decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin contribuiu para mantê-la nesse limbo.

Zanin rejeitou um pedido para obrigar o presidente da Câmara, Hugo Motta, a instalar a comissão, argumentando que a abertura constitui assunto interno do Poder Legislativo. À primeira vista, soa prudente. Ninguém – muito menos este jornal – deseja um Supremo transformado em diretor de pauta do Congresso. Mas o raciocínio desmorona ao primeiro contato com a Constituição. O artigo 58 estabelece critérios objetivos para a criação de CPIs: apoio de um terço dos parlamentares, fato determinado e prazo certo – condições presentes no requerimento da CPI do Master. A regra existe justamente para impedir que a maioria – ou, pior, a presidência da Casa – asfixie investigações incômodas.

 

O próprio Supremo já reconheceu isso em diferentes ocasiões – notadamente na CPI da Covid, em uma decisão no plenário de 10 contra 1, em 2021. A decisão de Zanin, portanto, exprime não prudência institucional, mas uma jurisprudência gelatinosa. Os casuísmos de Zanin incomodam ainda mais à luz da atmosfera política em torno do escândalo Master. No Congresso, a abertura da CPI enfrenta obstáculos conhecidos do manual brasiliense de abafamento: controle rígido da pauta, critérios procedimentais improvisados e sessões convenientemente esvaziadas. A condução do tema por Motta e pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, tem produzido exatamente o efeito desejado por quem prefere ver o assunto esfriar: tempo.

 

No próprio Supremo, a liminar do ministro Gilmar Mendes que anulou medidas investigativas da CPI do Crime Organizado sobre a empresa do colega Dias Toffoli, que manteve negócios com fundos ligados ao Master, desarticulou uma linha de apuração relevante. A trajetória do caso no STF, inicialmente sob a relatoria do próprio Toffoli – agora confessadamente suspeito –, criou uma zona cinzenta onde se acumulam indícios de obstrução. Explicações do escritório da mulher do ministro Alexandre de Moraes sobre um contrato multimilionário com o Master suscitaram mais perguntas do que respostas. O procurador-geral Paulo Gonet retardou a análise de medidas urgentes e arquivou representações relacionadas ao caso, como se estivesse disposto a disputar com seu antecessor o título de “engavetador-geral da República”.

 

A CPI foi concebida para dar às minorias parlamentares um instrumento para escrutinar escândalos que as maiorias prefeririam esquecer. Quando esse instrumento é retardado por manobras políticas, neutralizado por decisões judiciais ou cercado por explicações opacas, a mensagem transmitida ao País é de que, em Brasília, a investigação avança apenas até o ponto em que se torna inconveniente.

Como esquema de corrupção eleitoral e narcofinanciamento alterou rotina da Câmara de Morada Nova

Junto à prisão de cinco vereadores de Morada Nova, a 170 km de Fortaleza, a 93ª Zona Eleitoral do Ceará também determinou o afastamento dos parlamentares investigados por 180 dias. Durante esse período, eles continuarão recebendo salários pela Câmara Municipal. A informação consta na decisão que autorizou o cumprimento de mandados de prisão e de busca e apreensão no âmbito da Operação Traditori, deflagrada nessa quinta-feira (12) pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (FICCO/CE). 

Os parlamentares são suspeitos de receber dinheiro da facção criminosa Guardiões do Estado (GDE) para o financiamento das suas campanhas nas eleições de 2024, com promessas de ajuda na estratégia de infiltração do grupo na política do município. No mesmo processo, um 6° parlamentar é investigado.

Segundo o juiz Adriano Ribeiro Furtado Barbosa, titular da 93ª ZE, o afastamento foi necessário porque os vínculos não se exauriram com a vitória eleitoral e continuaram repercutindo na atividade parlamentar, que passou a funcionar como contrapartida política ao financiamento recebido. 

Exemplo disso é a nomeação de uma mulher apontada como membro do núcleo financeiro-operacional da facção ao cargo de assessoria de cerimonial na Câmara Municipal. O responsável pelo provimento foi o presidente da Casa, Hilmar Sérgio (PT), preso na operação da quinta-feira. 

A decisão, contudo, não estendeu o afastamento à mulher suspeita. Em busca aos atos oficiais no site da Câmara Municipal de Morada Nova, também não foi possível constatar exoneração ou procedimento similar vinculado ao seu nome.

A 93ª ZE ainda estabeleceu que a vice-presidente da Casa, Jane Martins (PDT), fosse oficiada sobre a decisão, a fim de dar andamento à convocação de suplentes. O PontoPoder procurou a vereadora e a Câmara nessa sexta-feira (13), mas não houve resposta. Até essa quinta-feira, o 2º secretário do Parlamento, Davi Sousa (PT), havia informado à reportagem que ainda não havia sido feita a notificação. 

Um 6º vereador é investigado

Embora não tenha sido alvo de mandado na Operação Traditori, o vereador Weder Basílio, titular de uma vaga do PP na Câmara, é investigado no mesmo processo. Foram identificadas sucessivas operações financeiras entre ele e um intermediário financeiro da facção, algumas das quais já haviam sido objeto de comunicações de operações suspeitas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). 

Além disso, empresas ligadas a Weder aparecem como contrapartes em transações que envolvem o núcleo financeiro da organização criminosa. Os indícios, contudo, não se mostram suficientes para amparar uma prisão preventiva.

"As movimentações financeiras atribuídas a José Weder, ainda que expressivas, não se apresentam, neste momento, desvinculadas de sua condição patrimonial, uma vez que se trata de pessoa com elevado poder aquisitivo, titular de diversas empresas, o que, em tese, pode justificar a circulação de valores de maior vulto", ponderou a decisão.

Com a saída provisória de Régis Rumão, ainda não há informações sobre um eventual retorno de Weder à Câmara. Cabe destacar que ele se licenciou do Parlamento em setembro do ano passado para assumir a Secretaria de Desenvolvimento Econômico da cidade. 

PontoPoder não conseguiu localizar o vereador Weder Basílio e tentou contato pela pasta municipal. O espaço segue aberto para manifestações. 

Como era a participação dos vereadores no esquema ilícito?

Segundo o relatório citado na decisão, o esquema funcionava por meio do diálogo entre três núcleos da facção criminosa: o de comando, o financeiro-operacional e o político, este composto por vereadores do município. São eles:

  • Hilmar Sérgio (PT) - presidente da Câmara Municipal;
  • Gleide Rabelo (PT) - secretária na Mesa Diretora da Câmara;
  • Régis Rumão (PP) - vereador da Câmara Municipal;
  • Júnior do Dedé (PSB) - vereador licenciado e secretário de Administração do município;
  • Cláudio Maroca (PT) - vereador da Câmara Municipal.

A participação dos parlamentares na engrenagem criminosa foi selada ainda na pré-campanha, quando estabeleceram contato com o homem identificado como operador financeiro da GDE, Saul Sales Farias, ou intermediários, em busca de financiamento eleitoral. 

“O agente político que aceita receber recursos da facção, ainda que não integre o núcleo operacional, passa a desempenhar papel relevante no projeto criminoso, aderindo conscientemente à finalidade de consolidação territorial e política da organização”, observou o juiz Adriano Barbosa.

Câmara foi alvo de mandado

Nessa quinta-feira, o prédio da Câmara Municipal foi um dos endereços vistoriados por agentes da Polícia Federal (PF) e da Polícia Civil do Ceará (PCCE) no início da manhã. Foram cumpridos 30 mandados de busca e apreensão nos municípios de Fortaleza, Chorozinho, Morada Nova, Limoeiro do Norte e Pedra Branca, no Ceará, além da cidade de São Paulo (SP).

O acesso ao Parlamento local ficou bloqueado aos servidores durante esse período. Por isso, as atividades legislativas e administrativas da Casa foram suspensas na data. A resolução foi anunciada pelo órgão via redes sociais, sem comentar os termos das diligências policiais. 

Ainda segundo o vereador Davi Sousa, Jane Martins chegou a abrir sessão plenária após o espaço ser liberado pelos agentes policiais, mas os trabalhos foram encerrados por falta de quórum. Apesar de contar com 15 vereadores, incluindo os que foram alvo de mandado de prisão, registraram presença apenas quatro parlamentares.

PontoPoder buscou o Legislativo novamente, nesta sexta-feira (13), para entender se os trabalhos foram retomados, mas não houve sucesso em obter a informação. 

Repercussão no Município

Após o cumprimento dos mandados, ainda na quinta-feira, a prefeita Naiara Castro se reuniu com alguns vereadores da base, incluindo o líder do governo, Elesbão Filho (PSB), e o parlamentar Roberto Andrade (PSB). Ela fez um registro do momento pela ferramenta Stories do Instagram.

Indagada a respeito disso, a Prefeitura não especificou se o encontro teria a operação como pauta. A reportagem não conseguiu contato com os outros vereadores.

Apesar de não ser alvo da investigação nem possuir "qualquer envolvimento com os fatos apurados", como afirmou em nota, a gestão municipal é diretamente afetada pelas diligências. Isso porque Júnior do Dedé, além de ser titular de mandato legislativo, era secretário de Administração de Morada Nova. Nesta sexta-feira, o Executivo confirmou ao PontoPoder a exoneração do político, após a operação. 

Candidato a prefeito é investigado

Não só os então candidatos a vereadores se envolveram no esquema, segundo a investigação. Marco Bica (PT) ou "Marquinha da Ana", como também é conhecido, foi candidato a prefeito em 2024, e também teria contado com ajuda da facção. Derrotado pela prefeita Naiara Castro (PSB), ele foi nomeado como superintendente de Obras Hidráulicas do Estado (Sohidra), cargo do qual se despediu nessa quinta-feira, após a operação.

"Para preservar a Superintendência de Obras Hidráulicas do Ceará (Sohidra) e garantir a tranquilidade das investigações, tomei a decisão de me afastar do cargo de superintendente enquanto os fatos são apurados. Reitero que estou à disposição das autoridades para quaisquer esclarecimentos e confio que a Justiça será feita", comunicou pelas redes sociais.

Apesar da "relevante proximidade política e pessoal" com integrantes da organização criminosa, o juiz indeferiu o pedido de prisão preventiva contra ele por considerar que, no atual estágio da investigação, não há provas concretas da atuação ativa em prol da facção. Além disso, entendeu que a sua liberdade não representa um risco atual à ordem pública ou à instrução criminal, diferentemente dos vereadores. Entretanto, ele permanece no polo dos investigados para o aprofundamento das diligências.

Escrito por 
e

  / DIARIONORDESTE

 


 

Debate sobre jornada de trabalho precisa explicitar custos

Em ano eleitoral, tudo indica que a pauta da redução da jornada de trabalho e do fim da escala 6x1 deve avançar no Congresso Nacional, onde tramitam propostas de emenda constitucional nesse sentido. Nova pesquisa do Datafolha mostra, sem surpresas, apoio à proposta de 71% dos brasileiros aptos a votar.

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que encampou a iniciativa antes mesmo de análises técnicas de custos e impactos, indica que deve enviar um projeto de lei com urgência para assumir o protagonismo e mobilizar suas bases políticas.

Estudos sobre o efeito da redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, como o realizado por Daniel Duque para o Ibre/FGV, apontam para efeitos moderados na economia brasileira.

Haveria queda de 0,7% na produtividade por trabalhador e de 1,1% no emprego formal, o equivalente a uma perda de aproximadamente 640 mil postos e uma redução de cerca de R$ 88 bilhões no Produto Interno Bruto.

Por setor, os impactos variam: aqueles com mais horas trabalhadas, como comércio e outros serviços, enfrentariam altas de custos de até 6,5%, enquanto os com jornadas já menores, como a indústria, pouco sofreriam.

Em prazos mais longos, há potencial para ganhos em produtividade, mas o ajuste inicial poderia pressionar margens de lucro e elevar a informalidade.

Evidências internacionais sugerem que reduções da jornada de trabalho não geram impactos marcantes na geração de emprego: em alguns casos, há pequena criação de postos, mas, em outros, perdas marginais devido a adaptações empresariais.

No geral, a menor jornada é mais presente em países com maior produtividade e riqueza acumulada. Países em desenvolvimento, como o Brasil, enfrentam riscos maiores de informalidade e perdas iniciais no PIB.

Os argumentos a favor da proposta incluem maior bem-estar dos trabalhadores e diminuição de estresse, além de indícios de que jornadas menores podem elevar a produtividade individual. Contra, destacam-se os riscos de aumento nos custos quando não há redução salarial, possível queda no emprego formal e impactos negativos na produção.

O tema deveria ser tratado em um debate fundamentado sobre preferências dos trabalhadores —que priorizam um balanço entre maior renda e qualidade de vida— e das empresas, que precisam buscar competitividade.

É preciso que os impactos sejam esmiuçados e explicitados para a sociedade —se depender das dos candidatos, apenas os benefícios serão apregoados.

Uma redução mais drástica para 36 horas, como propõem textos no Congresso, não é realista nesta conjuntura, pois poderia elevar perdas no PIB para até 7,4% e agravar desequilíbrios.

E não deve, em nenhuma hipótese, haver compensações com recursos públicos para mitigar custos privados, dadas as contas depauperadas do governo.

O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Compartilhar Conteúdo

444