Com Master, BC tem oportunidade de refinar controles
Por Editorial / O GLOBO
A sede do Banco Master, em São Paulo — Foto: Maria Isabel Oliveira / Agência O Globo
O caso Master tem oferecido ao Banco Central (BC) uma oportunidade única de aperfeiçoar o sistema de supervisão das instituições financeiras. Não é a primeira vez que um banco comete fraudes, nem a primeira liquidação extrajudicial em que diversos investidores perdem patrimônio. O fato preocupante é que esta é a primeira vez, em todas as ondas de intervenção e liquidação de bancos desde a redemocratização, em que dois altos funcionários do BC são acusados de corrupção.
Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Fiscalização Bancária, e Paulo Souza, ex-diretor de Fiscalização, se tornaram, de acordo com as investigações, “consultores pessoais” do banqueiro Daniel Vorcaro. Depois de auditoria interna ter constatado um aumento de patrimônio dos dois que só poderia ser explicado pelo recebimento de vantagens indevidas, o BC os afastou do cargo e comunicou à Polícia Federal (PF). O ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), os afastou do próprio BC.
São medidas corretas, mas chegam tarde. Só foram tomadas depois que a falta de controles internos no BC permitiu que um esquema de fraudes em torno de um pequeno banco causasse um rombo estimado em mais de R$ 52 bilhões no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), entidade privada que ressarce investidores em casos de insolvência bancária. Melhor que ter de combater o incêndio teria sido tomar providências para que não tivesse ocorrido. O caso Master mostrou que o BC, conhecido pela qualidade de seu corpo técnico, está vulnerável a esquemas insidiosos como o de Vorcaro.
Há boas ideias em discussão. Uma delas é estabelecer mandatos para cargos sensíveis. Seria uma forma de evitar que supervisores do sistema financeiro, depois de muito tempo no posto, acabem se aproximando dos supervisionados. É tradição no BC haver chefias quase vitalícias. Ela precisa ser quebrada. A proposta chegou a ser discutida internamente, inspirada no que já acontece com o presidente e com os diretores da autoridade monetária desde a aprovação de sua autonomia em 2021. Mas, diante de resistências internas, houve recuo. Agora, depois do Master, é preciso avançar para reforçar a blindagem. Outra iniciativa em sentido correto é criar comitês em instâncias inferiores à diretoria, para sancionar decisões de chefes de departamento. Se eles já existissem, a infiltração de Vorcaro na área de fiscalização e supervisão poderia ter sido detectada. Ou, ao menos, um alarme teria soado.
A quebra do Master também expõe a necessidade de o BC ser fortalecido para recalibrar seu sistema de supervisão. O banco usou uma rede de fundos de investimentos para inflar ativos artificialmente. Cabe à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) supervisionar a área, mas o BC deveria ter detectado a fraude. Pode ser que a infiltração de Vorcaro explique a inércia.
Não há dúvida, porém, que o BC necessita de apoio do Executivo e do Legislativo para exercer com eficiência sua autonomia. A PEC que tramita no Senado para lhe dar também autonomia administrativa, permitindo que se financie com receitas próprias, seria um avanço. E o Projeto de Lei Complementar que moderniza o sistema de fiscalização bancária representaria outro progresso. O caso Master mostra que ambas as medidas se tornaram mais urgentes.
Um dia antes de ser preso, Vorcaro pesquisou quem era juiz responsável por investigação
Por Rafael Moraes Moura — Brasília / O GLOBO
Um dia antes de ser preso em novembro do ano passado no aeroporto internacional de Guarulhos, o executivo Daniel Vorcaro pesquisou no Google quem era o juiz da 10ª Vara Federal de Brasília, onde tramitava na época o inquérito sigiloso que o levou à cadeia. O print com a pesquisa faz parte do acervo de informações extraídas do celular do banqueiro, apreendido por policiais federais quando Vorcaro tentava embarcar em um jatinho sob a suspeita de fugir do país.
Esse material foi compartilhado pela Polícia Federal com os parlamentares da CPI do INSS e reforçou entre investigadores as suspeitas de vazamento das apurações que fecharam o cerco contra o dono do Banco Master. Segundo a equipe da coluna apurou, o print com a consulta no Google sobre o juiz foi feito em 16 de novembro de 2025. Vorcaro foi preso um dia depois, por volta das 22h, quando tentava viajar para Dubai, com escala em Malta.
A investigação apontou que o ex-banqueiro e seus comparsas invadiram os sistemas do Ministério Público e da Polícia Federal e tiveram acesso a procedimentos dos procuradores e informações do inquérito mantidas sob sigilo. No dia 17, ele deu sinais de que já sabia que seria alvo de uma ordem de prisão.
No mesmo dia da busca no Google, Vorcaro criou no seu bloco de notas uma anotação “Vocês são próximos? Ricardo Soares Leite, 10 vara criminal federal”, conforme revelou o Estadão. A anotação teria sido enviada a um destinatário não identificado como mensagem de visualização única, conforme o esquema de comunicação adotado por Vorcaro para tentar apagar rastros de suas conversas.
No dia seguinte, às 17h26, o dono do Master enviou uma mensagem ao ministro do Supremo Alexandre de Moraes em que pergunta: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?"
Foi uma das nove mensagens trocadas pela dupla, em que Vorcaro escreveu para o ministro prestando contas das providências que estava tomando naquele dia para tentar “salvar” o Master. Moraes respondeu com emoticons em concordância e mensagens com imagens de visualização única.
O juiz titular da 10ª Vara é Antonio Claudio Macedo da Silva. Seu substituto é Ricardo Augusto Soares Leite. Os dois dividem o acervo de processos — um fica com os de número par, outro com os de número ímpar.
Leite foi quem efetivamente assinou a ordem de prisão no dia 17 às 15h29. ao analisar uma representação do Ministério Público Federal (MPF) com o pedido de prisão do banqueiro – medida preventiva que havia sido solicitada um mês antes, em 16 de outubro.
Já Antonio Claudio ficou famoso por “ressuscitar” em 2024 o polêmico desconto de R$ 6,8 bilhões na multa do acordo de leniência da J&F, concedido unilateralmente por um subprocurador-geral da República e que havia sido cancelado por um conselho do próprio Ministério Público Federal.
Vazamento
Os investigadores descobriram que Vorcaro tinha acesso indevido aos sistemas internos da Polícia Federal, do MPF e até mesmo do FBI, além de planejar e executar ações de intimidação contra pessoas consideradas adversárias, ex-empregados e jornalistas.
Quatro meses antes de ser alvo da primeira ordem de prisão, o banqueiro teve acesso a três procedimentos que tramitavam sob sigilo no MPF – inclusive aquele que apurava irregularidades na compra do Master pelo BRB e que resultou no seu encarceramento.
Conforme revelou o blog, os arquivos foram enviados a um comparsa do executivo, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como o “Sicário”, em 24 de julho de 2025, entre 16h28 e 16h31. Mas o pedido de prisão só seria encaminhado pelo MPF à 10ª Vara Federal três meses depois.
Informação
Outro ponto que tem sido levantado pelos investigadores para reforçar as suspeitas do vazamento de informações sigilosas é uma nota publicada pelo site O Bastidor, do jornalista Diego Escosteguy.
De acordo com os investigadores, o jornalista “esquentou” uma informação de que Vorcaro era alvo de um processo criminal em tramitação na 10ª Vara da Justiça Federal de Brasília.
A reportagem foi usada pela defesa de Vorcaro em uma petição endereçada à vara 18 minutos depois da prisão ter sido decretada por Leite. Os advogados do banqueiro se posicionaram contra “medidas cautelares eventualmente requeridas”, que poderiam provocar “impacto relevante” e causar “prejuízo irreversível a todo o conglomerado Master”.
O texto do Bastidor, intitulado “BRB-Master sem fim”, foi publicado às 11h08 de 17 de novembro. Segundo a PF, logo após a publicação, o jornalista enviou a reportagem para Vorcaro e para o advogado Walfrido Warde, que acionaram a 10ª Vara às 15h47.
De acordo com a PF, mensagens obtidas do aparelho de Vorcaro mostram que o banqueiro tratou diretamente com o Escosteguy o pagamento de quantias que serviam para a publicação de informações “de interesse do banqueiro”. Em 14 de novembro, ou seja, três dias antes da publicação da nota do Bastidor e da prisão de Vorcaro, Escosteguy enviou ao dono do Master dados bancários de uma conta do Nubank para que um pagamento fosse efetuado.
‘Infernizando’
Antes de ser executada pela PF, a ordem de prisão de Vorcaro deveria ser de conhecimento apenas do gabinete do juiz federal, além dos próprios investigadores.
Conforme revelou o Estadão, às 18h08m de 17 de novembro, Warde disse a Vorcaro que estava “infernizando o cara”, em referência a Ricardo Leite. O advogado encaminhou a Vorcaro print de mensagem que havia mandado a Leite – no print obtido pelo Estadão, não há registro de resposta do juiz.
O pedido dos advogados de Vorcaro, junto com a decisão de viajar para o exterior — segundo fontes da investigação, às pressas –, reforçaram as suspeitas em torno de um possível vazamento da decisão da Justiça Federal de Brasília, onde as investigações tramitavam, até serem remetidas ao Supremo Tribunal Federal (STF) por determinação do ministro Dias Toffoli.
Outro lado
Procurada, a assessoria de Vorcaro informou que não se manifestaria. Já Warde alegou que cumpriu “seu dever de ofício” e reiterou que, junto dos demais advogados que integravam a defesa do executivo, buscou “audiência com os magistrados que inferiam potencialmente competentes para o caso, tudo no exercício regular da advocacia”.
À época da divulgação do teor das mensagens trocadas com Vorcaro, Escosteguy afirmou que os “valores mencionados referem-se a contratos de patrocínio e publicidade, prática regular no mercado de comunicação”.
“Assim como qualquer veículo de imprensa, O Bastidor mantém parcerias comerciais que não interferem na linha editorial nem no conteúdo das reportagens”, disse o jornalista.
Não há segurança sem combate à corrupção policial
Não existe política séria em segurança pública quando parte de sua estrutura se converte em sócia ou protetora das organizações criminosas que deveria combater. Nas situações mais graves, a corrupção policial conecta-se a esquemas que alcançam setores dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.
Trata-se de um problema histórico do país, que o noticiário recente evidencia com o estopim de novos casos. Mesmo assim, a PEC da Segurança e o projeto Antifacção, recém-aprovados, passam ao largo da corrupção policial.
Em São Paulo, a Operação Bazaar, deflagrada no início de março pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, revelou um esquema de pagamento de vantagens indevidas a agentes públicos para proteger uma organização criminosa ligada à lavagem de dinheiro, com manipulação de procedimentos, fraude processual e destruição de provas.
Entre os investigados, estão dois investigadores, um delegado e um escrivão da Polícia Civil do estado. Mais grave, relatórios sigilosos de inteligência financeira do Coaf teriam sido desviados de sua finalidade legal para constranger pessoas, pressionar alvos e sustentar extorsões.
No Rio de Janeiro, ainda neste mês, a Operação Anomalia expôs policiais civis e militares utilizando a estrutura do Estado para extorquir integrantes da facção criminosa Comando Vermelho, além de corrupção e lavagem de capitais. Há indícios de facilitação logística para o tráfico e milícias, blindagem de criminosos e ocultação de patrimônio ilícito.
Diante desse cenário, insistir exclusivamente no endurecimento penal é não compreender —ou não querer enfrentar— um dos principais fatores que impulsionam a atividade criminosa. Elevar penas sem desmontar redes de corrupção é mero punitivismo que não produz efeito estrutural.
A prioridade precisa mudar. Corregedorias não podem continuar burocráticas, frágeis e subordinadas. Devem atuar com autonomia, inteligência, controle de conflitos de interesse e capacidade efetiva de interromper ciclos de contaminação do aparato institucional.
É necessário rastrear enriquecimento incompatível e garantir independência funcional para investigar e punir desvios dentro das próprias corporações.
Segurança pública não se faz apenas com polícia na rua e punições mais duras. Sobretudo, faz-se com polícia íntegra. Quando a proteção ao crime se instala no Estado, não é só a ordem pública que entra em colapso. A democracia, os direitos e as garantias também passam a correr risco.
Não se deve politizar o preço do diesel
Após zerar impostos federais sobre o diesel, adotar uma subvenção para o preço do produto e reforçar a fiscalização do frete mínimo para evitar uma paralisação dos caminhoneiros, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) propôs que os estados suspendam temporariamente o ICMS sobre a importação do óleo até o fim de maio.
Metade do custo, estimado em R$ 3 bilhões, seria bancada pela União. A intenção do Planalto é viabilizar algum alinhamento dos preços domésticos às cotações internacionais, catapultadas pela guerra entre Estados Unidos e Irã, sem que haja necessidade de repasses na bomba que castiguem o consumidor.
Até agora, a proposta não foi atendida de forma coletiva pelos governadores, que apontam —corretamente— dificuldades técnicas e riscos fiscais.
O problema básico é que o Brasil precisa importar cerca de 30% do diesel consumido internamente. As medidas podem conter preços por algum tempo, mas não são sustentáveis se a defasagem ante as cotações globais persistir. Importadores privados simplesmente param de comprar no exterior nesse caso.
Nos primeiros 17 dias de março, as importações despencaram quase 60% em relação ao mesmo período de 2025. A Agência Nacional do Petróleo (ANP) e entidades do setor veem risco de desabastecimento a partir de abril.
A subvenção e a isenção federal não substituem o ajuste necessário de paridade. Prova disso é que, mesmo antes de qualquer aumento para as distribuidoras por parte da Petrobras, o diesel já subiu 20,4% nos postos desde o início do conflito (de R$ 6,03 para R$ 7,26 por litro).
A pressão federal sobre os estados, incluída em discursos recentes de Lula, é um remendo temerário. As finanças públicas já estão combalidas —o resultado orçamentário estadual vem piorando desde o ano passado.
Governadores apontam riscos de inconstitucionalidade (benefício seletivo ao diesel importado), a necessidade de compensações exigida pela Lei de Responsabilidade Fiscal, prejuízos para outras políticas públicas e dificuldade de fiscalização, com possibilidade de fraude (declarar produto nacional como importado).
O ano eleitoral intensifica a ansiedade do governo, que ensaia emular o populismo de Jair Bolsonaro (PL) em 2022. Manter o diesel artificialmente mais barato é tentador politicamente.
Algumas ações paliativas como as já adotadas para adiar o impacto na economia até fazem sentido no curto prazo, diante da própria incerteza sobre a duração do conflito. Mas uma continuidade da guerra no Oriente Médio tornará inevitável, em algum momento, o realinhamento dos preços domésticos. Cotações globais não se curvam a decretos de Brasília.
A transparência com a população é o melhor caminho. Transformar o tema em objeto de disputa política resultará em demagogia e heranças fiscais amargas.
Brasil perde 37% das agências bancárias em dez anos
Júlia Moura / FOLHA DE SP
O número de agências bancárias caiu 37% em dez anos no Brasil, indo para pouco mais de 14 mil, em meio ao avanço da tecnologia para realizar transações e à decisão dos bancos de cortar custos, muitas vezes deixando uma parcela da população sem atendimento.
Desde 2015, 638 municípios ficaram sem agência
bancária, o que desassistiu 6,9 milhões de pessoas, segundo cálculos do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), com base em dados do Banco Central. São 2.649 municípios sem agências, o equivalente a 48% do total, ante 36% dez anos atrás. Em termos populacionais, isso afeta 9% dos brasileiros (19,7 milhões) atualmente, ante 3,4% na década passada.
O fechamento se intensificou com a pandemia e o lançamento do Pix, e quase 6.000 agências tradicionais foram encerradas. Enquanto isso, os bancos investiram mais no atendimento remoto de gerentes e na criação de agências-conceito, com serviços como consultoria de investimentos.
"Funcionários são desligados e a população é impactada. Sabemos que a tendência é digital, mas até chegar ao ponto de todas as pessoas serem digitais, é preciso dar condições de atendimento a quem não tem afinidade", diz Edilson Julian, presidente do Sindicato dos Bancários de Marília e Região, no interior de São Paulo.
O sindicalista diz que, no início de cada mês, há filas antes da abertura das agências da região. Marília, que chegou a ter 50 unidades, hoje conta com 20. A entidade cita o exemplo da rural Oscar Bressane (SP), com 2.470 habitantes, que ficou sem ponto de atendimento físico e seus moradores precisam viajar cerca de 40 km até Marília para encontrar um banco.
"Os bancos estão ganhando cada vez mais dinheiro e deixando a população desassistida. Não é como se eles estivessem em dificuldade financeira" afirma Julian.
No Ceará, o fechamento está acelerado. Foram encerrados 117 locais desde 2022, aponta o Sindicato dos Bancários do estado. Só em 2025 foram 62.
De acordo com o presidente do sindicato, José Eduardo Rodrigues, há moradores que, além da falta de aptidão digital, carecem de um pacote de dados de internet que dê conta das transações pelo aplicativo.
"As economias locais sucumbem com a inexistência de um posto de atendimento bancário", diz.
Para Tiago Couto, sócio-diretor da Peers Consulting + Technology, o fechamento de agências não é simplesmente uma redução de gastos dos bancos em tempos de juros e inadimplência em alta e competição com fintechs, cuja operação é mais rentável.
DIGITALIZAÇÃO
Segundo a Febraban (Federação Brasileira de Bancos), as instituições estão adequando suas estruturas à nova realidade do mercado, em que os canais digitais são preferidos pelo novo perfil do consumidor. "Atualmente, praticamente todas as operações bancárias podem ser feitas de forma eletrônica", diz a entidade.
Na direção contrária estão os Estados Unidos, cujos maiores bancos seguem em expansão física dada a falta de tração das transações digitais. Em fevereiro, o JPMorgan Chase anunciou planos para abrir mais de 160 agências em mais de 30 estados, além de reformar outras 600 unidades neste ano. O objetivo é ir a novos mercados, "incluindo comunidades rurais e de baixa a moderada renda".
Já no Brasil, com o Pix, ir ao banco pode parecer obsoleto. Porém, muitas transações e contratações ainda são feitas presencialmente. Em 2024, 27% dos pagamentos de contas, 14% das contratações de investimento e 5% das transações foram feitos por canais físicos, aponta levantamento da Deloitte em parceria com a Febraban.
Todo mês, Célia Moura, 60, leva seu pai de 89 anos ao banco para sacar a aposentadoria. "Ele prefere gastar em dinheiro porque não tem cartão de crédito, não tem Pix, nada dessas coisas de celular, internet, computador. É só na agência física."
Há ainda serviços cujo volume aumentou nas agências em relação ao ano anterior. A contratação de crédito subiu 11%, indo a 45 milhões de operações, e a de seguros teve alta de 6%, para 55,5 milhões.
Segundo a Deloitte, a procura pelo atendimento presencial se deve à complexidade de alguns produtos, o que reforça o papel consultivo das agências. "Para muitos clientes, a possibilidade de esclarecer dúvidas, obter orientações claras e estabelecer uma relação mais próxima com um especialista permanece como algo essencial."
Outro fator é o medo de golpes e fraudes, especialmente envolvendo altos valores, e a dificuldade com a tecnologia.
"Não sei lidar muito bem com aplicativos, internet. Na agência, retiro dinheiro no caixa, pago algum boleto que não posso deixar em débito automático e faço a prova de vida da pensão que recebo", diz Débora Bordoni, 80. A professora aposentada conta que resolve muitas pendências via WhatsApp, conversando com sua gerente.
Apesar disso, a maior parte das operações migra para os canais digitais. Em 2024, 75% das transações bancárias foram via celular.
Essa demanda pelo aplicativo e fuga das agências levaram os bancos a aumentar o investimento em tecnologia e acelerar o fechamento dos postos físicos. Somando aluguel, segurança, funcionários e manutenção, a maioria das agências não se paga.
"Transportar dinheiro custa uma fortuna. Tínhamos receita com conta-corrente e anuidade de cartão [de crédito], que hoje caiu. Na hora de fazer todo esse processo, você deixa de pagar a conta. Por isso que tem de afunilar no digital, não tem alternativa. E tem tecnologia para isso", disse Marcelo Noronha, CEO do Bradesco, à Folha em fevereiro. Segundo Noronha, é difícil uma agência ser rentável em cidades abaixo de 20 mil habitantes.
"É inegável que o fechamento de agências é um dos componentes mais interessantes para a redução de custo dos bancos. Não é algo que deve desacelerar, mas é preciso ter cuidado na velocidade para não desatender", diz Eduardo Carlier, codiretor da Azimut Brasil, gestora de patrimônio, que avalia ativos, como ações de bancos, para investimento.
Para Rosângela Vieira, economista do Dieese que atua no Sindicato dos Bancários de São Paulo, a política de fechamento de agências afeta sobretudo a população idosa e periférica, "ao ampliar dificuldades de acesso ao crédito e potencialmente aumentar a exposição a golpes e fraudes em ambientes digitais".
Os bancos têm preferido abrir pontos de atendimento mais especializados, para atrair a parcela da população que tem investimentos e faz negócios rentáveis.
"Mais do que gestão de custo, é uma mudança que reflete o hábito dos consumidores. Grandes bancos já estão na transformação digital há um tempo e têm agência mais como ambiente de construção de negócios e menos de transação, com pagamento de conta e saque. Fechar agência não é necessariamente a alavanca para competir com banco digital, e sim ter a jornada centralizada no cliente", afirma Tiago Couto.
IMÓVEIS FICAM VAZIOS
O mercado imobiliário é impactado, pois geralmente são imóveis comerciais grandes, de baixa demanda. Fechados por meses e até anos, podem ser alvos de vandalismo e invasões.
"São agências com mais de 1.000 metros quadrados desativadas, especialmente de bancos privados, no centro histórico. Dificilmente há empresas que ocupam espaços tão grandes", afirma Adriano Leocadio, secretário de Finanças e Gestão de Santos, um dos municípios que mais perdeu postos em 2025, com 14 fechamentos.
Agora, são 80 agências e postos de atendimentos em Santos, que tem a maior concentração de idosos entre as grandes cidades. "Há reclamação por parte considerável dos idosos, mas eles estão se adequando a essa nova realidade", diz Leocadio.
Em São José do Rio Preto (SP), que perdeu 11 agências no ano passado, a prefeitura trabalha em um plano de revitalização do centro, com isenção de IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) e ITBI (Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis) para proprietários que reformarem e derem destinação a imóveis fechados ou abandonados.
"No geral, somando as duas principais avenidas da área central da cidade, temos mais de cem imóveis fechados, entre agências bancárias e comércios em geral", afirma Mario Welber, secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo de São José do Rio Preto.
BANCOS INVESTEM EM AGÊNCIA-CONCEITO, E CAIXA NÃO TEM REDUÇÃO
BRADESCO
Muitos gerentes de agências que fecham são realocados e recapacitados para seguir atendendo clientes, mas de forma remota. O Bradesco investe para transformar pontos estratégicos em unidades do Principal, nova linha voltada à alta renda, com atendimento semelhante ao de uma butique de investimentos. Esse cliente paga anuidade no cartão de crédito e taxas sobre investimentos.
SANTANDER
No Santander, há dois anos, alguns funcionários que atendem pequenas empresas foram deslocados para ir atrás dos clientes, o que, segundo o banco, tem gerado melhores resultados e mais receita.
"Essa turma não tem mesinha e cadeirinha na agência. Essa turma tem um laptop, um iPad e fica o dia inteiro fazendo visita. Com isso, eu tenho o banco que sai do banco e está na rua, na casa do cliente, que tem uma potência muito maior", disse Mario Leão, CEO do Santander, ao comentar o balanço do banco de 2025.
Dos grandes bancos, a instituição é a que tem menos presença física: 17 das agências mantidas são WorkCafé, coworking misturado com escritório de investimento, em que clientes e não clientes podem trabalhar e aproveitar a cafeteria.
BANCO DO BRASIL
O Banco do Brasil tem estratégia semelhante com o .BB (Ponto BB). Em 2024, transformou a agência Marco Zero do Recife (PE). Com robô como recepcionista, tablets, atendentes presenciais e online, caixas eletrônicos, loja e área para palestras e eventos, o local perdeu a cara de agência. O BB é a instituição com mais agências físicas (3.955) e prepara um Ponto BB em Belém (PA).
"Só em 2025 foram 504 obras, melhorando a ambiência e o conforto da rede de agências naquelas praças em que o cliente ainda vai muito ao banco", disse Tarciana Medeiros, CEO do BB, ao comentar o resultado da instituição.
ITAÚ UNIBANCO
O Itaú Unibanco inaugurou neste ano o Espaço Uniclass, voltado a clientes do varejo, na avenida Paulista, em São Paulo. Aberto ao público em geral, há atendimento especializado e orientação financeira, espaço para eventos, loja com produtos Itaú, Stanley e Decolar, além de um café da Biscoitê.
Diferente das agências tradicionais, que funcionam das 10h às 16h, os serviços bancários da unidade vão até 19h. Já a loja também funciona aos sábados, domingos e feriados, das 10h às 16h.
"O varejo bancário está passando por uma grande transformação, em que as pessoas buscam por mais simplificação, autonomia digital e orientação qualificada com apoio humano para decisões complexas", afirma Beatriz Couto, diretora do Itaú Uniclass.
CAIXA
A Caixa Econômica Federal teve a menor redução dentre os grandes bancos. Desde 2019, a rede de atendimento caiu 5%. Com programas governamentais para a baixa renda e financiamento imobiliário, o banco não fala em reduzir a presença física.
A instituição diz investir no digital e em modelos de atendimento especializado. Para este ano, o foco é estruturar a Plataforma Empresas, unidades para pessoas jurídicas. "A Caixa atua continuamente na otimização da rede de atendimento, tendo como foco adequar a estrutura à demanda dos clientes, assegurando atendimento presencial onde é essencial, mantendo a capilaridade em todas as regiões do país."
Em novo aumento, gasolina comum em Fortaleza chega a R$ 6,99
Os motoristas devem se deparar com um novo preço da gasolina em Fortaleza. O Diário do Nordeste registrou o aumento no preço do combustível em postos da Capital, alguns inclusive realizando a mudança do preço nesta quinta-feira (19).
Os preços variam de R$ 6,70 e chegam a R$ 6,99, um aumento expressivo no valor de venda do combustível segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
Entre os dias 8 e 14 de março, a ANP registrou que o preço médio de revenda da gasolina comum em Fortaleza era de R$ 6,47. O que significa que, em apenas quatro dias, houve um aumento de até 8% em alguns postos.
Mesmo se for tomado como referência o maior preço registrado pela ANP no dia 14 de março, que foi de R$ 6,69, o aumento pode chegar R$ 0,30 por litro de combustível vendido a depender do posto.
Já quando se pega o menor preço registrado, que foi de R$ 6,19, a diferença pode ser ainda maior: um aumento de R$ 0,80 – equivalente a 12% de aumento.
O Sindpostos Ceará foi acionado para saber se o aumento no preço da gasolina em Fortaleza deve atingir todos os postos da capital e também o motivo para isso. Quando houver resposta, a matéria será atualizada.
Aumento da gasolina no Ceará
O Diário do Nordeste já havia mostrado o crescimento no preço da gasolina e do diesel no Ceará. Em uma semana, o litro da gasolina comum ficou R$ 0,11 mais caro, e o diesel, R$ 0,51. Os dados compararam os preços entre as duas primeiras semanas de março, segundo a ANP. Barbalha, Crato e Juazeiro do Norte registraram aumentos expressivos no litro do combustível, próximo de R$ 1 em uma só semana.
Em Fortaleza, o preço da gasolina tinha se mantido estável nas duas primeiras semanas de março.
Na primeira semana do mês, o combustível foi vendido a R$ 6,48. Entre os dias 8 e 14 de março, houve uma mínima redução, com valor médio do litro da gasolina comum comercializado a R$ 6,47.
Veja os preços da gasolina em alguns postos de Fortaleza:





Aumento da gasolina no Ceará
O Diário do Nordeste já havia mostrado o crescimento no preço da gasolina e do diesel no Ceará. Em uma semana, o litro da gasolina comum ficou R$ 0,11 mais caro, e o diesel, R$ 0,51.

