STF está brincando com fogo e decisões de Gilmar e Toffoli respingam nos demais ministros
Por Eliane Cantanhêde / O ESTADÃO DE SP
O Supremo está brincando com fogo e com a sua própria credibilidade, ao tomar decisões monocráticas, uma atrás da outra, ora por auto blindagem, ora carregadas de suspeitas sobre motivações e interesses. O risco não é de um ministro ou outro, é da credibilidade da corte e das instituições brasileiras.
Gilmar Mendes “decretou” que só a PGR pode pedir impeachment de integrantes do STF e aumentou o quórum para a votação no Senado. Em seguida, Dias Toffoli avocou para a corte e para si o caso do Banco Master, transformando o segredo de justiça em sigilo total. Para proteger quem e o quê?
Ministros e ex-ministros do próprio Supremo acham, ou temem, que foram movimentos casados e essa percepção se tornou mais aguda com a avassaladora informação de que, dias antes de se autoconceder protagonismo na ação do Master, Toffoli voou para Lima num jatinho particular com... o advogado de um dos diretores do banco que já tinha sido preso.
É um escândalo de bom tamanho, que faz a festa de bolsonaristas e de não bolsonaristas críticos do Supremo, cada vez mais ativos, e não só na internet. Lembrando que o “núcleo crucial”, com Jair Bolsonaro e oficiais generais, já foram condenados e presos, mas o julgamento dos demais grupos do golpe continua, inclusive nesta semana.
Quem também faz a festa com o vôo de Toffoli, regado a drinks, são os senadores, e não apenas os de oposição. Se Gilmar enxugou as prerrogativas deles para decidir impeachment de ministros do STF, Toffoli dá motivos de sobra para que dêem o troco fazendo o oposto: facilitando a cassação desses ministros.
Gilmar é polêmico por natureza e gosto. Toffoli choca com decisões consideradas, mais do que polêmicas, suspeitas. Como a de favorecer a J&F com a revisão do acordo de leniência na Lava Jato, assimilada como “pagamento de dívida” para Lula, amigo dos irmãos Batista, que o premiou com a toga, contra tudo e todos, e se sentiu traído ao ser impedido por Toffoli de ir ao velório do irmão. Um eterno credor.
As polêmicas ou suspeitas não afetam só Gilmar e Toffoli, chegam aos demais gabinetes e desabam no plenário do STF, onde os onze ministros julgam as questões mais delicadas da República e onde se destacam Alexandre de Moraes e Flávio Dino, audaciosos, sim, mas fundamentais. Xandão entra para a história da defesa da democracia e Dino está em guerra contra emendas parlamentares criminosas.
Não se discute aqui se há ou não excessos, mas a obrigação dos ministros de seguir uma regra dos homens públicos: “À mulher de César, não basta ser honesta, precisa parecer honesta”. Os erros de uns respingam nas demais togas, dividem o plenário e fortalecem as críticas e a tese de impeachment contra ministros do STF. A quem interessa?
Redução da pobreza não significa vitória
Por Editorial / O GLOBO
Ao redor de 8,6 milhões de brasileiros deixaram de ser classificados como pobres em 2024 — o equivalente à soma das populações de Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Belém e Natal. Outro 1,9 milhão — população de uma capital como Curitiba — saiu da miséria. Ao longo dos últimos três anos, o Brasil registrou avanços contra pobreza e desigualdade, alcançando as menores marcas da série histórica iniciada em 2012. Os dados divulgados na quarta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) são sem dúvida motivo de celebração. Mas é preciso entender se as causas dessas conquistas são duradouras ou se o progresso será transitório.
Ainda resta muito por fazer. Há 48,9 milhões de pobres no país, população superior à do Estado de São Paulo. A desigualdade, medida pelo índice de Gini — que vai de zero (sociedade igualitária) a 1 (extremo oposto) —, melhorou, mas ainda está em 0,5. Na América do Sul, apenas a Colômbia se sai pior. No mundo, não são muitos os países mais desiguais que o Brasil.
Para entender o avanço recente, é preciso examinar o que aconteceu nos últimos cinco anos. Criado em 2020, o Auxílio Emergencial conteve o impacto da pandemia na renda dos mais pobres. Países em estágio de desenvolvimento similar ao brasileiro, como o México, não fizeram nada parecido. Aquilo que inicialmente tinha justificativa emergencial logo passou a ser definitivo, usado como alavanca política. O então presidente Jair Bolsonaro rebatizou o Bolsa Família como Auxílio Brasil e multiplicou o valor sem se preocupar em medir a eficácia do gasto. Ao assumir, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva retomou o nome antigo, mas, preocupado com a popularidade, voltou a aumentar o benefício.
Como proporção do PIB, o gasto com o Bolsa Família quadruplicou, de 0,4% em 2018 para 1,6% em 2023. O Benefício de Prestação Continuada (BPC), destinado a deficientes e idosos de baixa renda, alcançou o recorde de 6,5 milhões de pagamentos em setembro (ao custo de quase R$ 10 bilhões), ante 5,1 milhões no primeiro mês do governo (ao custo de R$ 6,7 bilhões). Com tanto dinheiro investido em programas sociais, as taxas de pobreza e extrema pobreza mantiveram queda contínua. Ao mesmo tempo, surgiram mais oportunidades de emprego, aumentando a renda do trabalho entre os pobres. A taxa de desocupação de outubro (5,4%) foi a mais baixa desde 2012, quando o IBGE adotou os critérios atuais.
Não têm faltado denúncias de fraudes ou desvios nos programas sociais. Com a ampliação, o Bolsa Família perdeu o foco nos miseráveis que garantia sua eficácia no passado. Olhando para a frente, é irreal acreditar que será mantido nas condições atuais. É também improvável que o desemprego continue caindo no mesmo ritmo.
Daqui em diante, para progredir no combate à miséria e à pobreza, o governo terá de aperfeiçoar os programas existentes. As políticas sociais estão “desbalanceadas em termos intergeracionais”, diz a economista do Insper Laura Machado. Quatro em dez brasileiros entre zero e 14 anos estão em situação de pobreza. Entre os idosos, 8%. É preciso corrigir essa distorção. No caso do Bolsa Família, há espaço para ajustar o foco nos necessitados, tornar o benefício mais equitativo em termos per capita e melhorar regras de saída. Por fim, a derrota da pobreza só será duradoura quando programas dessa natureza não forem mais necessários.
Superpensões acima do teto constitucional: 10 mil aposentados e pensionistas do setor público custam R$ 4 bi por ano ao país
Por Bruna Lessa — Brasília / O GLOBO
Praça dos Três Poderes, em Brasília — Foto: Cristiano Mariz
Um seleto grupo de 10,7 mil funcionários públicos inativos e pensionistas de servidores ganha benefícios em valores acima do limite constitucional, segundo estudo das ONGs República.org e Movimento Pessoas à Frente.
O custo total para os cofres públicos com esses benefícios é de R$ 3,98 bilhões ao ano.
Aposentados e pensionistas desse grupo já têm regras de aposentadoria mais vantajosas do que a maioria dos trabalhadores, que está no sistema do INSS. Isso porque boa parte deles se aposenta pelo Regime Próprio de Previdência Social (RPPS), cujo teto de benefício deveria ser de R$ 46,3 mil ao mês, o equivalente à remuneração de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
É uma condição melhor do que a dos beneficiários do INSS, cujo teto de remuneração é de R$ 8.157,41 ao mês.
Mesmo assim, por causa das mesmas brechas legais que permitem os supersalários do funcionalismo — como gratificações que se somam ao salário básico —, alguns funcionários inativos e pensionistas de servidores conseguem receber além do limite constitucional. Alguns benefícios chegam, na média, a dez vezes mais do que o teto dos aposentados do INSS.
Os R$ 3,98 bilhões ao ano seriam suficientes para cobrir o custo anual de 34,8 mil aposentadorias no teto do INSS.
Gasto total de R$ 20 bi
Procurado, o Ministério da Gestão e Inovação dos Serviços Públicos (MGI) não comentou os dados. Em ocasiões anteriores, a pasta argumentou ser baixo o total de servidores públicos do Executivo federal recebendo acima do teto — cerca de 1% de um total de 1,2 milhão de funcionários, entre ativos e inativos.
O estudo das ONGs revelou, no fim do mês passado, que o Brasil é destaque global em salários elevados para funcionários públicos, com um gasto anual de R$ 20 bilhões. Para chegar à cifra, foram analisados subsídios recebidos por 4 milhões de servidores públicos, ativos e inativos, de um total estimado de 11 milhões no país, considerando todas as esferas de governo e poderes.
O estudo identificou 53,5 mil funcionários públicos recebendo acima do máximo legal. Nesse grupo, 10,7 mil estavam identificados como inativos, aposentados ou pensionistas.
Segundo o estudo, nos gastos totais com salários e benefícios de servidores acima do teto do STF, incluindo os ativos, o Poder Judiciário “se destaca com a maior contribuição”. Dos 53,5 mil servidores que recebem acima do teto constitucional, 21,1 mil são magistrados.
Em nota, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) afirma que o Poder Judiciário tem independência sobre seu orçamento: “a Corregedoria Nacional de Justiça é responsável por acompanhar, apurar e determinar a suspensão de casos irregulares de pagamento a magistrados e servidores do Judiciário”.
O estudo mostra que os pagamentos acima do limite acontecem por brechas na lei e por mecanismos como as Verbas de Exercícios Anteriores (VEAs), pagamentos retroativos que corrigem salários de anos anteriores. Outra brecha é a regra de paridade e integralidade, garantidas a servidores que ingressaram no serviço público antes das reformas da Previdência de 2003 e 2019.
Pela norma da paridade e integralidade, ao se aposentar, o servidor segue recebendo o mesmo salário que recebia na ativa, incluindo os “penduricalhos”, como o Adicional por Tempo de Serviço (ATS). E os reajustes concedidos aos da ativa são replicados para os inativos.
No caso dos pensionistas, um tipo de benefício que foi identificado pelo estudo com valores acima do teto constitucional são as pensões por morte, pagas a dependentes do servidor público falecido. De forma geral, os beneficiários são cônjuges, companheiros(as), filhos(as) menores de 21 anos ou inválidos.
Três pensões de uma vez
Em regimes específicos de aposentadoria, como o dos militares — em que se concentra a maior parte dos pagamentos acima do teto —, a legislação permite que o benefício seja estendido a filhas e filhos solteiros e maiores de idade, sob certas condições.
Um caso que ilustra pagamentos acima do teto para inativos é o de uma pensionista do Rio que, segundo dados do Portal da Transparência, recebeu mensalmente, de abril a setembro, R$ 71.512,39, após deduções (R$ 82.349,63 de remuneração bruta).
Xerife sem munição
EDITORIAL DA FOLHA DE SP
A poucos dias do fim deste 2025, persiste a incerteza sobre a recomposição do colegiado da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A autarquia, essencial para a regulação do mercado de capitais, corre o risco de iniciar o próximo ano paralisada, pois o mandato do presidente interino, Otto Lobo, termina neste mês e o governo ainda não indicou novos nomes.
Sem quórum, com apenas mais 2 diretores em exercício num colegiado que deveria ter 5 membros, decisões estratégicas e processos podem ficar suspensos, gerando insegurança jurídica e atrasos em ofertas públicas e julgamentos administrativos.
O impasse ocorre em meio a relações estremecidas entre o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), devido à indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal. Essa tensão política, com razões mesquinhas dos dois lados, dificulta nomeações para órgãos reguladores, que também são submetidas ao Senado.
Nos últimos anos, o mercado financeiro brasileiro ganhou sofisticação e complexidade e é cada vez mais relevante para o financiamento da economia, mas permanece supervisionado por instituições fragilizadas. Trata-se de crise silenciosa que afeta diretamente a credibilidade do país —e não apenas porque abre brechas para casos de lavagem de dinheiro pelo crime organizado.
Enquanto o volume de negócios no mercado de capitais explodiu, com transações envolvendo novas estruturas de fundos de investimento, operações de securitização, criptoativos e ativos digitais, a estrutura da CVM esteve longe de acompanhar esse processo de crescimento.
Soma-se a isso a morosidade recorrente do governo em nomear integrantes para sua diretoria. Para piorar, esses postos —historicamente ocupados por nomes escolhidos por critérios técnicos— passaram a despertar a cobiça do mundo político.
Quando o regulador não tem capacidade plena de fazer cumprir a legislação, fiscalizar, padronizar regras e inovar, o investidor percebe maior risco, e isso tem um custo elevado para o país.
Num ambiente global em que mercados competem por capital e projetos, a percepção dos investidores sobre a governança faz toda a diferença nas decisões de alocação dos recursos.
O Brasil tem uma escolha entre manter reguladores fragilizados diante de um mercado em rápida expansão ou fortalecê-los com autonomia, equipes qualificadas e comando estável. Um mercado saudável depende de confiança.
Abertura comercial terá efeito imediato na produtividade
Por Editorial / O GLOBO
Aprovação do acordo Mercosul-União Europeia está prevista para este mês — Foto: Nicolas TUCAT / AFP
Nos últimos cinco anos, a renda per capita cresceu 1,7% ao ano no Brasil. O principal motor do avanço foi a queda no desemprego. Em outubro, ele caiu a 5,4%, nível mais baixo da série histórica iniciada em 2012. Mas é impossível o desemprego seguir caindo de forma indefinida sem gerar pressão inflacionária. A situação atual da economia expõe, ao mesmo tempo, o limite das políticas de estímulo ao consumo e a dificuldade crônica do Brasil de enfrentar sua maior deficiência— a improdutividade.
A competição no Brasil é baixa, e isso é um problema. O tamanho médio das empresas é muito menor que no Chile ou na China. Companhias antigas não são maiores que as iniciantes, e sua produtividade não cresce. Tudo isso decorre de uma economia que permite a sobrevivência dos incompetentes, por isso roda abaixo da capacidade. “Empresas mais produtivas não crescem, e as empresas de baixa produtividade permanecem no mercado”, diz Fernando Veloso, diretor de pesquisa do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS). Não é surpresa que a produtividade por hora trabalhada avance a passos de tartaruga. De 1981 a 2024, cresceu ridículo 0,5% ao ano. Nos últimos cinco anos, a situação piorou: o crescimento caiu a 0,3%, segundo o Observatório da Produtividade Regis Bonelli. A melhora se deve basicamente ao agronegócio. No setor industrial, o valor gerado por hora trabalhada caiu 23% em 30 anos. Além do atraso de uma indústria protegida por subsídios e barreiras comerciais, a informalidade — que emprega quatro em dez brasileiros — favorece produtividade baixa.
Uma economia improdutiva não tem como produzir riqueza na proporção necessária para combater miséria e desigualdade. Os remédios são conhecidos, mas custosos. O mais óbvio é pôr mais gente para trabalhar. Infelizmente, o Brasil já não pode mais contar com o bônus demográfico, período em que a população em idade produtiva supera crianças e idosos. À medida que o país envelhece, é preciso achar alternativas. A educação é a resposta mais duradoura. Se ainda somos um país onde proliferam ocupações que não geram riqueza, como flanelinhas, porteiros de prédio, cobradores de ônibus ou até ascensoristas, é porque não temos uma população bem formada, preparada para trabalho produtivo. É verdade que tem havido melhora, mas esse é um desafio que só pode ser superado no longo prazo — e não temos tempo para esperar.
Outra saída, defendida por Veloso e outros autores no estudo “Integração comercial internacional do Brasil”, é a abertura econômica. O fim de barreiras comerciais resultaria em benefícios imediatos: ampliaria o acesso a máquinas e insumos importados, aumentaria a competição e inibiria a informalidade. Nos setores expostos, empresas informais pouco produtivas cederiam lugar àquelas com chance de conquistar novos clientes no exterior.
Por isso são tão relevantes as negociações entre Brasil e Estados Unidos para reduzir o tarifaço de Donald Trump. A abertura do mercado brasileiro a produtos americanos pode destravar as negociações e, ao mesmo tempo, aumentar a competição por aqui. Outra contribuição poderá vir da aprovação do acordo Mercosul-União Europeia, prevista para este mês. É alvissareiro que uma gestão do PT — em geral afeito a dogmas protecionistas — pareça enfim ter descoberto as vantagens do livre-comércio, crucial para combater a pobreza e a desigualdade.
Heineken fecha fábrica no Ceará e demite funcionários um dia após treinamento
O trabalhador tinha 15 anos de empresa, tendo sido desligado juntamente com 97 colegas, contratados diretos do grupo cervejeiro. Além deles, é estimado que cerca de 250 trabalhadores terceirizados também perderam seus empregos. Ao todo, teriam sido demitidos cerca de 350 pessoas.
O número de empregos diretos foi confirmado pelo Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Águas Minerais, Cervejas e Bebidas em Geral do Estado do Ceará (Sindibebidas).
“Ao todo, 98 trabalhadores serão atingidos. O sindicato já realizou a negociação de benefícios para esses empregados. A empresa também apresentará propostas de transferência para Pernambuco e São Paulo”, diz Fernando Matos, representante do sindicato.
A Heineken não informou à reportagem quantos trabalhadores diretos e terceirizados mantinha na fábrica do Ceará. A Prefeitura de Pacatuba afirmou que não tem o número oficial. Além disso, a empresa não deu mais detalhes sobre o processo de demissão dos trabalhadores.
Matos lembra que na última reforma das leis trabalhistas a homologação de rescisão não é mais obrigatória. “Os trabalhadores vão ter essa oportunidade de transferência e, por terem uma boa qualificação, é bem provável que o mercado absorva todos, rapidamente”, completa Matos.
Desmobilização silenciosa
O sinal de alerta para os colaboradores soou com o fim da linha de garrafas em julho deste ano. Com o encerramento, na planta de Pacatuba só funcionava a linha de latas.
Antes do fim da linha de garrafas, o Grupo Heineken só engarrafava as marcas Kaiser, Tiger, Skin, Amstel e Devassa em cascos de vidro de 600 ml e 300 ml.
“A gente estava na indecisão de saber como seria o futuro da fábrica. Estávamos esperando que a linha (de garrafas) reabrisse, talvez em setembro, mas isso não veio”, lembra o colaborador demitido.
Ele relata que em outubro foi iniciado o processo de “esvaziamento de insumos”. “Não veio mais malte de cevada, para fabricar cerveja, outros insumos foram cessando e alguns fornecedores foram deixando de fornecer serviços”.
O técnico eletricista revela, ainda, que a “última pá de cal” na produção ocorreu no mês passado, com o esvaziamento dos tanques. “Os tanques começaram a ser esvaziados e, mesmo assim, a gente não acreditava que a fábrica fosse de fato fechar”, comenta.
“Os esperançosos acreditavam que esvaziaria e recomeçaria. Esperávamos até umas férias coletivas, mesmo que nunca tivessem feito isso. Logicamente, já tinha colegas com convicção de que a fábrica fecharia. Mas eu, particularmente, não queria acreditar”, reforça o colaborador que se dedicou 15 anos à empresa.
O dia do encerramento das atividades
A Heineken comunicou o encerramento das atividades para os colaboradores na última terça-feira (2). No dia anterior, os trabalhadores ainda foram reunidos para um treinamento e dinâmica em grupo, conforme relato do colaborador demitido.
“Quando entramos na planta, já tinha muita gente de fora, gente do RH de fora, gente de outras unidades fabris. Aí, veio o comunicado do gerente que a cervejaria de Pacatuba estava encerrando as operações”, conta.
Depois disso, uma parte dos trabalhadores já teria sido encaminhada para fazer os exames demissionais, na fábrica mesmo, e a outra parte, em menor quantidade, foi separada para fazer o descomissionamento (conjunto de atividades associadas à interrupção definitiva das operações de um sistema de produção).
“Eles farão a desmobilização da fábrica em si, que vai desde o maquinário até outras coisas, como gás, produtos químicos que continuam na fábrica, e serão transferidos para outras unidades. Além da destinação de produtos acabados que ainda existem na fábrica, no caso, cerveja enlatada”, explica o demitido.
Ele ainda recorda que estão sendo oferecidas cartas de recomendação aos colaboradores e a extensão do plano de saúde, para aqueles que necessitam.
Questionada sobre o suporte oferecido aos colaboradores, a Heineken, por meio da sua assessoria de comunicação, afirma que "além dos esforços de realocação interna, que permitiram preservar 25 postos de trabalho ao direcionar colaboradores para outras operações, estruturamos um pacote de suporte ampliado para os profissionais desligados". Porém, o pacote não foi especificado.
“Eu amava trabalhar nessa fábrica. Morava ali perto, vou deixar amigos e sonhos que plantei. É uma tristeza para a cidade. No dia, quando a ficha caiu que tudo tinha acabado, minha pressão até subiu”, relata o ex-funcionário com tristeza.
Planta de Pacatuba estaria defasada
Ainda conforme o ex-colaborador, no dia do anúncio, a Heineken informou que a ação faz parte da “estratégia da companhia”. Teriam ainda citado sobre a recente modernização da planta em Igarassu (Pernambuco), com investimento de R$ 1,2 bilhão.
Em Minas Gerais, o grupo também inaugurou, em novembro deste ano, a primeira planta construída do zero em território brasileiro. O local, que teve investimento de R$ 2,5 bilhões, é a primeira cervejaria inaugurada globalmente pelo Grupo Heineken nos últimos cinco anos.
“Lá eles vão diversificar o portfólio. Além da Heineken, terão as marcas premium. Talvez a Heineken zero álcool também, outras marcas de long neck (cerca de 300ml). Então é uma produção mais diversificada e (a planta de) Pacatuba estava um pouco atrasada nesse aspecto de modernização”, revela ainda o ex-colaborador.
Município foi pego de surpresa
A Prefeitura de Pacatuba foi comunicada oficialmente do encerramento das atividades produtivas da cervejaria também na terça-feira (2). No ofício, a empresa diz que a decisão está “em linha com a estratégia de transformação, eficiência operacional e crescimento sustentável”.
O texto também cita os investimentos em Minas Gerais e Pernambuco como reflexo da “visão de crescimento sustentável e eficiência operacional”. “Dentro dessa visão de crescimento e eficiência, a unidade de Pacatuba deixa de exercer um papel estratégico”.
O documento ainda afirma que a empresa reconhece “a contribuição de cada colaborador”. “Estamos oferecendo suporte, seja por meio de realocação profissional ou pacotes específicos, para que a transição ocorra com todo o respeito e cuidado”.
A nota encerra com o Grupo Heineken agradecendo a parceria do município ao longo dos anos e se colocando à disposição “para esclarecimentos e para garantir que esta transição ocorra de forma transparente, responsável e com toda atenção às pessoas”.
Segundo o secretário de Desenvolvimento Econômico de Pacatuba, João José Pinto, desde que ficou sabendo, o município tem buscado alternativas para essa perda. “A prefeita, inclusive, já esteve reunida com o governador Elmano para falar sobre isso. É uma grande perda para a cidade”, diz.
Ele comenta também que a gestão municipal entende que essa é uma decisão estratégica do Grupo Heineken, mas que precisa ser revertida rapidamente, com a articulação de uma nova fábrica que assuma o espaço e os postos de trabalho.
Arrecadação de impostos e incentivos
Questionada, a Prefeitura de Pacatuba não informou sobre o percentual de arrecadação que a planta da cervejaria representava ao orçamento do município e lembrou que “o quadro de funcionários não era em sua totalidade de Pacatuba”. “Como se trata de uma multinacional, muitos funcionários de outras cidades e estados eram designados à unidade”.
Ainda sobre incentivos, a reportagem demandou a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e a Secretaria da Fazenda do Ceará (Sefaz). A primeira informou que a “unidade da Heineken em Pacatuba, na Grande Fortaleza, não contava com incentivos fiscais da Sudene, de acordo com a coordenação-geral de Incentivos e Benefícios Fiscais e Financeiros”.
Em nota, a Sefaz informou que "a multinacional Heineken possui redução de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) através do Fundo de Desenvolvimento Industrial (FDI)".
"Com o encerramento da operação, o benefício é suspenso automaticamente", completou a pasta.
Força-tarefa para atração de novo investimento
A Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece) afirmou em nota que não foi comunicada previamente sobre o encerramento das atividades da Heineken no Ceará, mas “iniciará uma força-tarefa a fim de atrair uma nova indústria para ocupar a área”.
Em reunião realizada na manhã desta sexta-feira (5) com o Governo do Ceará, executivos da empresa teriam afirmado que a decisão não teve como base “qualquer insatisfação com o Estado, mas exclusivamente as mudanças no mercado de cervejas do Brasil e avaliação técnica relacionada a investimentos”.
Por ser uma área de propriedade da Heineken, a Adece diz que, tanto a Agência quanto a empresa devem fazer o trabalho de atração de nova indústria para ocupar o local. A empresa, porém, afirma que estão sendo estudadas "oportunidades para a utilização e ainda não há definição sobre o futuro uso".
No encontro, ainda foi reforçado que o Grupo Heineken deve manter as atividades de logística, centros de distribuição e presença comercial no Ceará. Já em resposta à reportagem, a empresa destaca que "o Ceará segue sendo um mercado consumidor importante no Nordeste e continuaremos atuando para atender clientes, consumidores e parceiros locais".
Sobre a indústria de bebidas do Ceará, a Adece afirma registrar crescimento em 2025, com mais de 7,6 mil pessoas empregadas atualmente.
Sindicatos não foram informados de descontinuação das atividades
A reportagem procurou o Sindicato das Indústrias de Águas Minerais, Cervejas e Bebidas em Geral do Estado do Ceará (Sindbebidas-CE), mas foi informada que o grupo não comunicou e não era associado à entidade regional.
Já o Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv), por meio de sua assessoria de imprensa, afirmou que não foi informado sobre o assunto e esclarece que “não há obrigatoriedade ou protocolo que determine a comunicação prévia ao sindicato nacional em decisões estratégicas de operação tomadas individualmente pelas empresas”.


