Pacto democrático pela vida das crianças
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A taxa de mortalidade infantil no Brasil está no seu nível mais baixo em mais de três décadas, segundo um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). O número de crianças que morriam antes de completar 28 dias de vida a cada mil nascimentos caiu de 25,1 em 1990 para 7,1 em 2024. Já o número de crianças que não chegavam ao quinto ano de vida a cada mil nascimentos recuou, no mesmo período, de 62,8 para 14,2.
Não são nada triviais essas conquistas do Brasil: houve uma queda de 72% na taxa de mortalidade neonatal e de 77% na taxa de mortalidade entre os menores de 5 anos de idade. E o País registrou ainda taxas abaixo das médias mundiais, de 17,2, no caso de mortalidade neonatal, e de 37,4, entre os menores de 5 anos.
Ou seja, além de apresentar um desempenho positivo em relação ao seu próprio passado, o Brasil também obteve êxito diante dos indicadores globais. Não à toa, o País já bateu a meta de redução da mortalidade infantil traçada pela ONU para 2030 pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), de 12 mortes a cada mil nascidos vivos no caso de mortalidade neonatal e de 25 por mil no caso de mortalidade entre os menores de 5 anos.
Nada disso é fruto do acaso. A queda da mortalidade infantil no Brasil decorre de uma acertada decisão das famílias, da sociedade e do Estado brasileiro de elegerem a proteção da infância como uma prioridade absoluta. Isso significa que a questão foi tratada mais ou menos com a mesma seriedade por vários governos de diferentes colorações ideológicas, tornando-se efetiva política de Estado. Não à toa, os bons indicadores coincidem com as transformações recentes do País.
A Constituição federal, de 1988, e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de 1990, expressam muito bem essa escolha política. E, com base nas diretrizes dos dois principais marcos legais de proteção da infância, pode-se dizer que os avanços do Brasil são fruto da democracia.
Foi principalmente a partir do governo Fernando Henrique Cardoso que o Brasil abraçou a missão de cuidar das crianças desde a gestação. Ao longo dos anos, esse compromisso foi mantido nos governos do PT, de Michel Temer e de Jair Bolsonaro. Foram as políticas de Estado que permitiram ao Brasil colher tantos feitos hoje.
São todas políticas públicas bem desenhadas e executadas que atravessaram gestões. Entre elas estão a universalização da saúde, o acesso ao pré-natal, as campanhas de vacinação e o estímulo à amamentação. Além disso, houve a universalização da educação, com a obrigação dos pais de matricularem seus filhos na escola, onde as crianças aprendem e se alimentam. Não menos importante, houve o efeito de programas sociais de transferência de renda que exigem frequência escolar e caderneta de vacinação em dia.
Apesar de poder comemorar, o Brasil não pode baixar a guarda. A chefe de Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, Luciana Phebo, afirmou ao Estadão que o País é um exemplo positivo para o mundo, mas precisa ainda fazer muito mais, haja vista que as desigualdades regionais persistem. Para se ter uma ideia, a taxa de mortalidade neonatal no Norte é de 19,7 crianças a cada mil bebês nascidos vivos.
Ainda continuam morrendo crianças com idade neonatal em decorrência de prematuridade, anomalias congênitas e complicações no parto. E isso poderia ser mitigado com um acompanhamento pré-natal com mais consultas. Até os 5 anos de idade, as doenças infecciosas ainda matam: ou seja, é preciso melhorar a cobertura vacinal, após um período de disseminação irresponsável de discursos antivacinas.
As vitórias já acumuladas e os desafios persistentes indicam que o Brasil salvou e pode salvar ainda muito mais vidas. Prova disso é que o número de mortes de recém-nascidos caiu de cerca de 92 mil, em 1990, para menos de 19 mil, em 2024. O País tem expertise para acelerar a queda da mortalidade neonatal e entre as crianças com até 5 anos, dissipando, assim, as desigualdades regionais.
O PT não gosta de autonomia
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), apresentou um projeto de lei complementar para limitar a autonomia do Banco Central (BC) e submetê-lo ao Ministério da Fazenda. O pretexto é ampliar o poder de fiscalização da autarquia sobre fundos de investimento e instituições financeiras após o escândalo do Banco Master, mas o texto apresentado evidencia que sua intenção é obrigar a autoridade monetária a baixar a taxa básica de juros na marra.O projeto altera a Lei Complementar 179/2021, por meio da qual o Congresso deu autonomia operacional ao Banco Central, para estabelecer um conceito de “autonomia relativa”, alinhada à política econômica do governo federal. Pela proposta, além de cumprir as metas de inflação definidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), o BC passaria a ter como funções “manter o pleno emprego e suavizar as flutuações do nível da atividade econômica”.
O texto também altera o início do mandato do presidente do Banco Central para que ele coincida com o do presidente da República, para “corrigir o isolamento institucional” do BC e um modelo de “significativo déficit democrático”. “Com efeito, o Banco Central hoje possui autonomia absoluta em relação ao poder eleito e ao programa de governo legitimado nas urnas”, diz a justificativa do projeto.
É uma tentativa descarada de atribuir os juros elevados ao ex-presidente do BC Roberto Campos Neto, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e que esteve no comando do BC nos dois primeiros anos do mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Ora, o argumento é simplório e não resiste à realidade. Sob Campos Neto, a Selic caiu de 13,75% para 10,5% ao ano entre o segundo semestre de 2023 e o primeiro de 2024. Sob Gabriel Galípolo, no comando do BC desde janeiro de 2025 e indicado por Lula, a taxa subiu a 15% e só foi cortada na semana passada, para 14,75% ao ano.
Ademais, as decisões do Comitê de Política Monetária são colegiadas, ou seja, dependem da obtenção de maioria entre seus nove integrantes, e não apenas do voto do presidente. A inflação é projetada a partir de uma ampla análise de diversos indicadores da economia brasileira e do cenário global.
Ninguém gosta de manter juros elevados, mas tampouco é possível ignorar sinais de uma economia que cresce acima de sua capacidade e menosprezar esse risco. Para a sorte de Lula, o Banco Central tem agido com tanta responsabilidade que conseguiu não apenas reduzir a inflação como abrir espaço para cortar os juros em meio a uma guerra no Oriente Médio e a meses da disputa eleitoral.
O PT finge não ter memória e quer que todos esqueçam os efeitos trágicos da frouxidão da política monetária sob o governo Dilma Rousseff. À época, um BC sem autonomia manteve juros incompatíveis com as metas de inflação e interveio no câmbio, o IPCA chegou a 10,67% em 2015, mesmo com o governo segurando as tarifas de energia elétrica e os preços dos combustíveis, e a economia enfrentou dois anos consecutivos de recessão.
Parece inacreditável que o partido seja incapaz de aprender com seus próprios erros, mas é apenas o PT sendo o PT.
O valor da preservação da memória
NOTAS E INFORMAÇÕES / O ESTADÃO DE SP
A morte de Carlos de Almeida Prado Bacellar, no dia 15 passado, suscita uma reflexão além da justa homenagem ao historiador da Universidade de São Paulo (USP). Neste espaço, portanto, vai mais do que um necrológio. Não se trata apenas de registrar a trajetória de um acadêmico respeitado em seu campo nem de louvar o gestor público que o professor Bacellar foi. Trata-se também de lançar luz, a partir de seu trabalho, sobre o valor da preservação da memória e do acesso à informação como bases para a construção de um futuro mais auspicioso para o País.
À frente do Arquivo Público do Estado de São Paulo (Apesp) entre 2007 e 2013, Bacellar contribuiu decisivamente para que a instituição deixasse de ser tratada como uma repartição burocrática qualquer, como de resto sói acontecer com quase todos os órgãos dedicados à guarda documental. Sob sua gestão, o Apesp ganhou posição destacada entre os interesses do Estado. Dotado da rara capacidade de materializar o espírito público, Bacellar demonstrou, na prática, que arquivos não são colônias de traças, mas centros de cidadania, transparência e memória.
Essa compreensão já estava enraizada em seu trabalho antes de ele assumir a coordenação do Apesp. Bacellar foi supervisor técnico-científico do Museu Republicano Convenção de Itu, da USP, entre 2004 e 2007. Ou seja, como gestor, o historiador acumulou experiência em lidar com o acervo da história política paulista, sobretudo em uma instituição que guarda estreita relação com os valores republicanos que inspiraram a criação deste jornal, há mais de 15o anos. Ali, como depois no Apesp, Bacellar provou que preservar a memória é condição indispensável para a vivacidade de uma sociedade democrática.
Ao promover a modernização do Arquivo Público, com a transferência para uma sede mais condizente com seu propósito, e ao impulsionar a digitalização de acervos, Bacellar materializou, como já dito, a ideia segundo a qual a informação pública deve ser, de fato, acessível. A abertura de documentos sensíveis, como os do antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), por exemplo, não só ampliou o acesso de pesquisadores a páginas cruciais de nossa história, como reavivou o compromisso democrático com a verdade factual. A relevância disso em um país que até hoje peleja para lidar com as cicatrizes de seu passado autoritário é imensurável.
Bacellar compreendia, como demonstrou em uma de suas muitas entrevistas ao Estadão, os limites da tecnologia e quão ilusória pode ser a garantia formal do acesso à informação. Uma advertência sua, feita em 2012, permanece atual: “Não adianta você querer dar acesso à informação se você não acha a informação”, disse o professor, lamentando o fato de, à época, órgãos públicos escolherem “os piores lugares” para armazenar documentos, não raro de forma “caótica”.
Nesse sentido, sua gestão teve uma dimensão institucional decisiva. Foi no período em que Bacellar esteve à frente do Apesp, como oportunamente notou este jornal, que o órgão deixou a Secretaria de Cultura e passou para a alçada da Casa Civil. O que poderia ser uma mudança administrativa banal, na prática, revelou-se um ato de elevação da memória paulista à condição de requisito para a eficiência governamental e para a devida prestação de contas do poder público à sociedade.
Brasil afora, lamentavelmente, ainda se convive com arquivos precários e políticas de gestão documental erráticas, quando não erradas ou inexistentes. O risco dessa incúria não é apenas de esquecimento, o que já é grave por si só, mas de distorção oportunista da verdade factual, a depender das vontades dos poderosos de ocasião. Não formam uma nação os cidadãos que são incapazes de chegar a consensos mínimos sobre sua história e objetivos comuns, baseados em fatos reconhecidos como tais por todos.
Em tempos de revisionismos convenientes e ampla disseminação de desinformação, a existência de órgãos como o Arquivo Público do Estado de São Paulo, que Bacellar ajudou a modernizar, são fundamentais para assegurar a integridade e a acessibilidade dos registros históricos. O futuro de uma sociedade que maltrata sua própria memória jamais será promissor.
Oferta de canetas emagrecedoras em ano eleitoral desperta preocupação
Por Editorial / O GLOBO
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Com Master, BC tem oportunidade de refinar controles
Por Editorial / O GLOBO
A sede do Banco Master, em São Paulo — Foto: Maria Isabel Oliveira / Agência O Globo
O caso Master tem oferecido ao Banco Central (BC) uma oportunidade única de aperfeiçoar o sistema de supervisão das instituições financeiras. Não é a primeira vez que um banco comete fraudes, nem a primeira liquidação extrajudicial em que diversos investidores perdem patrimônio. O fato preocupante é que esta é a primeira vez, em todas as ondas de intervenção e liquidação de bancos desde a redemocratização, em que dois altos funcionários do BC são acusados de corrupção.
Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Fiscalização Bancária, e Paulo Souza, ex-diretor de Fiscalização, se tornaram, de acordo com as investigações, “consultores pessoais” do banqueiro Daniel Vorcaro. Depois de auditoria interna ter constatado um aumento de patrimônio dos dois que só poderia ser explicado pelo recebimento de vantagens indevidas, o BC os afastou do cargo e comunicou à Polícia Federal (PF). O ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), os afastou do próprio BC.
São medidas corretas, mas chegam tarde. Só foram tomadas depois que a falta de controles internos no BC permitiu que um esquema de fraudes em torno de um pequeno banco causasse um rombo estimado em mais de R$ 52 bilhões no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), entidade privada que ressarce investidores em casos de insolvência bancária. Melhor que ter de combater o incêndio teria sido tomar providências para que não tivesse ocorrido. O caso Master mostrou que o BC, conhecido pela qualidade de seu corpo técnico, está vulnerável a esquemas insidiosos como o de Vorcaro.
Há boas ideias em discussão. Uma delas é estabelecer mandatos para cargos sensíveis. Seria uma forma de evitar que supervisores do sistema financeiro, depois de muito tempo no posto, acabem se aproximando dos supervisionados. É tradição no BC haver chefias quase vitalícias. Ela precisa ser quebrada. A proposta chegou a ser discutida internamente, inspirada no que já acontece com o presidente e com os diretores da autoridade monetária desde a aprovação de sua autonomia em 2021. Mas, diante de resistências internas, houve recuo. Agora, depois do Master, é preciso avançar para reforçar a blindagem. Outra iniciativa em sentido correto é criar comitês em instâncias inferiores à diretoria, para sancionar decisões de chefes de departamento. Se eles já existissem, a infiltração de Vorcaro na área de fiscalização e supervisão poderia ter sido detectada. Ou, ao menos, um alarme teria soado.
A quebra do Master também expõe a necessidade de o BC ser fortalecido para recalibrar seu sistema de supervisão. O banco usou uma rede de fundos de investimentos para inflar ativos artificialmente. Cabe à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) supervisionar a área, mas o BC deveria ter detectado a fraude. Pode ser que a infiltração de Vorcaro explique a inércia.
Não há dúvida, porém, que o BC necessita de apoio do Executivo e do Legislativo para exercer com eficiência sua autonomia. A PEC que tramita no Senado para lhe dar também autonomia administrativa, permitindo que se financie com receitas próprias, seria um avanço. E o Projeto de Lei Complementar que moderniza o sistema de fiscalização bancária representaria outro progresso. O caso Master mostra que ambas as medidas se tornaram mais urgentes.
Um dia antes de ser preso, Vorcaro pesquisou quem era juiz responsável por investigação
Por Rafael Moraes Moura — Brasília / O GLOBO
Um dia antes de ser preso em novembro do ano passado no aeroporto internacional de Guarulhos, o executivo Daniel Vorcaro pesquisou no Google quem era o juiz da 10ª Vara Federal de Brasília, onde tramitava na época o inquérito sigiloso que o levou à cadeia. O print com a pesquisa faz parte do acervo de informações extraídas do celular do banqueiro, apreendido por policiais federais quando Vorcaro tentava embarcar em um jatinho sob a suspeita de fugir do país.
Esse material foi compartilhado pela Polícia Federal com os parlamentares da CPI do INSS e reforçou entre investigadores as suspeitas de vazamento das apurações que fecharam o cerco contra o dono do Banco Master. Segundo a equipe da coluna apurou, o print com a consulta no Google sobre o juiz foi feito em 16 de novembro de 2025. Vorcaro foi preso um dia depois, por volta das 22h, quando tentava viajar para Dubai, com escala em Malta.
A investigação apontou que o ex-banqueiro e seus comparsas invadiram os sistemas do Ministério Público e da Polícia Federal e tiveram acesso a procedimentos dos procuradores e informações do inquérito mantidas sob sigilo. No dia 17, ele deu sinais de que já sabia que seria alvo de uma ordem de prisão.
No mesmo dia da busca no Google, Vorcaro criou no seu bloco de notas uma anotação “Vocês são próximos? Ricardo Soares Leite, 10 vara criminal federal”, conforme revelou o Estadão. A anotação teria sido enviada a um destinatário não identificado como mensagem de visualização única, conforme o esquema de comunicação adotado por Vorcaro para tentar apagar rastros de suas conversas.
No dia seguinte, às 17h26, o dono do Master enviou uma mensagem ao ministro do Supremo Alexandre de Moraes em que pergunta: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?"
Foi uma das nove mensagens trocadas pela dupla, em que Vorcaro escreveu para o ministro prestando contas das providências que estava tomando naquele dia para tentar “salvar” o Master. Moraes respondeu com emoticons em concordância e mensagens com imagens de visualização única.
O juiz titular da 10ª Vara é Antonio Claudio Macedo da Silva. Seu substituto é Ricardo Augusto Soares Leite. Os dois dividem o acervo de processos — um fica com os de número par, outro com os de número ímpar.
Leite foi quem efetivamente assinou a ordem de prisão no dia 17 às 15h29. ao analisar uma representação do Ministério Público Federal (MPF) com o pedido de prisão do banqueiro – medida preventiva que havia sido solicitada um mês antes, em 16 de outubro.
Já Antonio Claudio ficou famoso por “ressuscitar” em 2024 o polêmico desconto de R$ 6,8 bilhões na multa do acordo de leniência da J&F, concedido unilateralmente por um subprocurador-geral da República e que havia sido cancelado por um conselho do próprio Ministério Público Federal.
Vazamento
Os investigadores descobriram que Vorcaro tinha acesso indevido aos sistemas internos da Polícia Federal, do MPF e até mesmo do FBI, além de planejar e executar ações de intimidação contra pessoas consideradas adversárias, ex-empregados e jornalistas.
Quatro meses antes de ser alvo da primeira ordem de prisão, o banqueiro teve acesso a três procedimentos que tramitavam sob sigilo no MPF – inclusive aquele que apurava irregularidades na compra do Master pelo BRB e que resultou no seu encarceramento.
Conforme revelou o blog, os arquivos foram enviados a um comparsa do executivo, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como o “Sicário”, em 24 de julho de 2025, entre 16h28 e 16h31. Mas o pedido de prisão só seria encaminhado pelo MPF à 10ª Vara Federal três meses depois.
Informação
Outro ponto que tem sido levantado pelos investigadores para reforçar as suspeitas do vazamento de informações sigilosas é uma nota publicada pelo site O Bastidor, do jornalista Diego Escosteguy.
De acordo com os investigadores, o jornalista “esquentou” uma informação de que Vorcaro era alvo de um processo criminal em tramitação na 10ª Vara da Justiça Federal de Brasília.
A reportagem foi usada pela defesa de Vorcaro em uma petição endereçada à vara 18 minutos depois da prisão ter sido decretada por Leite. Os advogados do banqueiro se posicionaram contra “medidas cautelares eventualmente requeridas”, que poderiam provocar “impacto relevante” e causar “prejuízo irreversível a todo o conglomerado Master”.
O texto do Bastidor, intitulado “BRB-Master sem fim”, foi publicado às 11h08 de 17 de novembro. Segundo a PF, logo após a publicação, o jornalista enviou a reportagem para Vorcaro e para o advogado Walfrido Warde, que acionaram a 10ª Vara às 15h47.
De acordo com a PF, mensagens obtidas do aparelho de Vorcaro mostram que o banqueiro tratou diretamente com o Escosteguy o pagamento de quantias que serviam para a publicação de informações “de interesse do banqueiro”. Em 14 de novembro, ou seja, três dias antes da publicação da nota do Bastidor e da prisão de Vorcaro, Escosteguy enviou ao dono do Master dados bancários de uma conta do Nubank para que um pagamento fosse efetuado.
‘Infernizando’
Antes de ser executada pela PF, a ordem de prisão de Vorcaro deveria ser de conhecimento apenas do gabinete do juiz federal, além dos próprios investigadores.
Conforme revelou o Estadão, às 18h08m de 17 de novembro, Warde disse a Vorcaro que estava “infernizando o cara”, em referência a Ricardo Leite. O advogado encaminhou a Vorcaro print de mensagem que havia mandado a Leite – no print obtido pelo Estadão, não há registro de resposta do juiz.
O pedido dos advogados de Vorcaro, junto com a decisão de viajar para o exterior — segundo fontes da investigação, às pressas –, reforçaram as suspeitas em torno de um possível vazamento da decisão da Justiça Federal de Brasília, onde as investigações tramitavam, até serem remetidas ao Supremo Tribunal Federal (STF) por determinação do ministro Dias Toffoli.
Outro lado
Procurada, a assessoria de Vorcaro informou que não se manifestaria. Já Warde alegou que cumpriu “seu dever de ofício” e reiterou que, junto dos demais advogados que integravam a defesa do executivo, buscou “audiência com os magistrados que inferiam potencialmente competentes para o caso, tudo no exercício regular da advocacia”.
À época da divulgação do teor das mensagens trocadas com Vorcaro, Escosteguy afirmou que os “valores mencionados referem-se a contratos de patrocínio e publicidade, prática regular no mercado de comunicação”.
“Assim como qualquer veículo de imprensa, O Bastidor mantém parcerias comerciais que não interferem na linha editorial nem no conteúdo das reportagens”, disse o jornalista.

