Infiltração mafiosa
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Por ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, a Polícia Federal (PF) prendeu na terça-feira passada o desembargador Macário Judice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2.ª Região (TRF-2), com sede no Rio. O magistrado é suspeito de ter vazado informações sigilosas da Operação Zargun, que levou à prisão do ex-deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva (expulso do MDB), vulgo “TH Joias”, acusado de ter colocado o mandato na Assembleia Legislativa a serviço do Comando Vermelho.
A prisão de um desembargador federal é, por si só, um fato de extrema gravidade em qualquer democracia. No contexto de uma investigação policial sobre o vazamento de informações sigilosas para beneficiar uma das mais poderosas organizações criminosas em atividade no País, o fato ultrapassa o escândalo individual e assume contornos sistêmicos. É nesse sentido que a prisão de Judice Neto deve ser recebida, isto é, como um sintoma do grau de infiltração das organizações criminosas no Estado e dos riscos que isso representa para a sociedade fluminense e, por extensão, brasileira.
A Operação Zargun, deflagrada pela PF em setembro, visa justamente a apurar a nefasta interseção entre o crime organizado e o poder público no Rio. Já não restam dúvidas de que o Comando Vermelho, outras facções e milícias têm seus braços políticos, financeiros e judiciais espraiados pelo Estado para garantir uma proteção institucional que lhes permita expandir seus negócios ilícitos.
O crime organizado não se resume a traficantes ou milicianos armados até os dentes dominando territórios, aterrorizando cidadãos e corrompendo servidores públicos. Há uma rede sofisticada que opera nos bastidores do Executivo, do Legislativo e, agora sob suspeita, também do Judiciário. Isso não chega a ser novidade. Há décadas, o Rio convive com a corrosão progressiva de suas estruturas estatais. O que espanta é quão à vontade facções e milícias se sentem para se entranhar cada vez mais fundo nas instâncias do poder institucional.
A captura do Estado, ainda que parcial, é o grande objetivo de organizações criminosas de contornos mafiosos cada vez mais nítidos. É isso que lhes garante impunidade, previsibilidade – haja vista o vazamento de informações – e poder virtualmente ilimitado para combater seus inimigos, dentro e fora do Estado. Nesse cenário, a eventual cooptação de agentes públicos de alto escalão, como um desembargador federal, representa um salto qualitativo, digamos assim, no processo de sequestro institucional a que tem se dedicado o crime organizado.
O dano é particularmente mais severo quando as suspeitas recaem sobre a magistratura. Juízes são garantidores da legalidade, pilares da confiança social no Estado de Direito. Do ponto de vista simbólico, a simples percepção de que decisões judiciais ou informações sensíveis possam ser manipuladas em favor de criminosos, por óbvio, mina a credibilidade do sistema de Justiça e alimenta o ceticismo da população em relação às instituições. Na prática, enfraquece a capacidade do Estado de combater as organizações criminosas. E sem a força do Estado, o que resta à sociedade?
PF diz que publicitária de campanhas do PT era ‘sócia de Portugal’ de Careca do INSS e movimentava recursos dele no exterior
Por Eduardo Gonçalves— Brasília / O GLOBO
A Polícia Federal apontou que uma publicitária de campanhas passadas do PT seria responsável por movimentar recursos no exterior do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como "Careca do INSS". Ele é apontado como pivô no suposto esquema de fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social. De acordo com as investigações, Antunes se referia a ela como "sócia de Portugal".
De acordo com a PF, Danielle Miranda Fonteles, ex-sócia da agência Pepper, recebia do Careca uma renumeração de 4 mil euros por mês e atuava numa operação "transnacional, conectando o núcleo brasileiro às estruturas europeias utilizadas pelo grupo, em especial em Portugal e Alemanha".
"Era DANIELLE quem formulava propostas para aquisição de imóveis em nome do grupo criminoso, bem como era quem cuidava dos projetos e investimentos no exterior", diz a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, citando as conclusões da PF. No despacho, o ministro determinou que ela passasse a usar tornozeleira eletrônica e entregasse o seu passaporte para evitar uma eventual fuga do país.
"A PF demonstra que DANIELLE recebe mensalmente valores enviados por ANTÔNIO e atua como intermediária em aquisições internacionais de ativos", acrescentou o ministro.
Conforme relatórios de inteligência financeira, Fonteles foi beneficiária de uma quantia de 13,1 milhões de empresas de Antunes.
A defesa dela chegou a dizer que o valor se referia à negociação da venda de um imóvel, em Trancoso, na Bahia, que seria pago em 13 parcelas de R$ 1 milhão. Os advogados disseram que os valores foram declarados à Receita Federal e "os impostos pertinentes devidamente recolhidos".
A PF, no entanto, considerou "inconsistente" a documentação apresentada pelos defensores da publicitária.
"Neste contexto, os valores movimentados não se mostram compatíveis com a documentação apresentada, sobretudo porque o negócio jurídico não foi efetivamente concluído, resultando em um montante recebido aparentemente superior ao valor do imóvel", diz a representação da PF.
De acordo com os investigadores, a publicitária exercia um "papel sofisticado de lavagem de dinheiro" para o "Careca do INSS". "Esses elementos indicam que Danielle operava as estruturas externas destinadas à circulação internacional de capitais", diz trecho da decisão de Mendonça.
Campanhas petistas
Fonteles já prestou serviços a campanhas do PT, como a eleição da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2010. A Pepper, agência que tinha a publicitária como sócia, foi alvo da Operação Acrônimo,. A investigação foi deflagrada em 2015 e investigou um esquema de repasse de caixa dois a campanhas políticas.
No inquérito em questão, a Polícia Federal concluiu que a agência dela foi usada para captar ilegalmente R$ 1,5 milhão via caixa dois para a campanha do ex-governador Fernando Pimentel (PT) ao Senado, em 2010. Na ocasião, ele negou as acusações. Fonteles fechou uma delação premiada no âmbito da Operação e, em sua colaboração, declarou que pagou comissões para obter contratos de publicidade em ministérios.
Em nota divulgada em outubro, a defesa de Fonteles destacou que ela não tem relações comerciais com o Partido dos Trabalhadores (PT) desde 2015, "portanto há pelo menos 10 anos".
Se tiver filho meu metido nisso será investigado, diz Lula sobre apuração de desvios do INSS
O presidente Lula (PT) afirmou nesta quinta-feira (18) que caso seu filho estiver envolvido nas fraudes no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) , ele será investigado. Ele foi questionado sobre possíveis ligações de Fábio Luis Lula da Silva, o Lulinha, com o Careca do INSS, que é um dos principais alvos de investigação da PF (Polícia Federal) que apura fraudes nos descontos associativos do INSS.
"Ninguém ficará livre. Se tiver filho meu metido nisso será investigado. Se tiver o [ministro da Fazenda Fernando] Haddad vai ser investigado, o [ministro-chefe da Casa Civil] Rui Costa com essa seriedade vai ser investigado", afirmou.
"Não é possível admitir em país que milhões de aposentados ganham salário mínimo alguém tentando expropriar dinheiro de aposentado com promessas falsas. O que eu posso dizer é que naquilo que depender da Presidência da República tudo será feito para que a gente dê lição para esse país", continuou.
O nome de Lulinha apareceu na CPMI do INSS após reportagem do portal Poder360 mostrar que uma testemunha contou em depoimento à Polícia Federal que o filho do presidente recebia mesada de R$ 300 mil do Careca do INSS. Este é o apelido do empresário e lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, preso desde setembro, após a investigação indicar que ele teria pagado propina a servidores do INSS e do Ministério da Previdência para facilitar os descontos indevidos nas contas dos aposentados.
Lulinha também teria recebido, segundo essa mesma testemunha, a quantia de 25 milhões (não se sabe em qual moeda) do Careca do INSS e feito viagens com o empresário para Portugal. A testemunha é Edson Claro, ex-funcionário do Careca.
Nesta semana, o portal Metrópoles mostrou que Lulinha e o Careca do INSS voaram no mesmo avião para Portugal, na primeira classe.
A investigação da PF teve uma nova operação nesta quinta-feira (18). Ela fez buscas contra o senador Weverton Rocha (PDT-MA) nesta quinta em uma nova fase da Operação Sem Desconto, que investiga fraudes em descontos sobre aposentadorias e pensões de beneficiários do INSS.
Weverton é líder do PDT (Partido Democrático Trabalhista) no Senado e um dos vice-líderes do governo.
Ele entrou na mira de integrantes da CPI do INSS, que investiga os desvios nos benefícios, depois que pessoas ligadas a ele apareceram nas investigações sobre o esquema de fraudes.
O escândalo do INSS foi uma das principais crises do governo neste ano, e levou Lula a demitir Carlos Lupi do Ministério da Previdência.
A ação também prendeu o secretário-executivo do ministério, Adroaldo da Cunha Portal, que já foi assessor de Weverton. Ele ficará preso preventivamente em regime domiciliar.
O atual ministro da Previdência, Wolney Queiroz, comunicou que determinou a exoneração de Adroaldo após a operação. O procurador-federal Felipe Cavalcante e Silva, atual consultor jurídico do ministério, assumirá a função de secretário-executivo.A casa de Weverton em Brasília é um dos endereços de busca e apreensão. Não houve ações no gabinete do parlamentar no Senado.
A assessoria da pasta também afirmou que o órgão e o INSS "permanecerão contribuindo ativamente com as investigações e atuando para recuperar os recursos desviados por esse esquema que começou no governo anterior, mas foi interrompido neste governo".
Acusado de ser um dos operadores do esquema, Antunes declarou à CPI do INSS que foi a um churrasco de costela na casa do senador, quando teria falado com ele sobre a regulação da venda de derivados de cannabis –ou seja, uma atividade de representação empresarial sem ligação com descontos em aposentadorias.Weverton também é o relator da sabatina de Jorge Messias, indicado de Lula ao STF (Supremo Tribunal Federal), no Senado.
A aprovação de Messias para o cargo depende da avaliação dos senadores, e a figura de Weverton era relevante para a articulação do governo na sabatina.
O senador foi uma ponte de Lula com o Congresso neste caso, uma vez que a relação com o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP) estava estremecida com a indicação do advogado. A opção de Alcolumbre, com apoio de outros parlamentares, era Rodrigo Pacheco (PSD-MG), descartado por Lula.
Lucas Marchesini , Mariana Brasil , Catia Seabra , Isadora Albernaz e Raquel Lopes / FOLHA DE SP
Calote recorde: Inadimplência alcança 8,7 milhões de empresas brasileiras, número nunca visto
Por Caroline Aragaki (Broadcast) / O GLOBO
A inadimplência alcançou 8,7 milhões de companhias brasileiras em outubro, recorde da série histórica iniciada em março de 2016, totalizando R$ 204,8 bilhões em dívidas, aponta o Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian, compartilhado com exclusividade com o Estadão/Broadcast.
O indicador — segmentado por unidade federativa, porte e setor das empresas — contempla a quantidade de empresas brasileiras em situação de inadimplência, ou seja, têm pelo menos um compromisso vencido e não pago, apurado no último dia do mês de referência.
A economista Camila Abdelmalack, da Serasa Experian, avalia que a desaceleração na concessão de crédito tem limitado a capacidade das empresas de renegociar dívidas e reorganizar suas obrigações financeiras, aumentando a pressão sobre o caixa. “Paralelamente, o esfriamento da atividade econômica reduz a geração de receita, criando um cenário desafiador para a manutenção da liquidez e para a sustentabilidade das operações, especialmente entre micro e pequenas empresas”, acrescenta.
A dívida média das companhias em outubro de 2025 foi de R$ 23.658,74 e cada negócio inadimplente acumulou, em média, 7,1 contas em atraso, entre as quais o ticket médio por compromisso vencido foi de R$ 3.329,5.
Do total de empresas inadimplentes em outubro de 2025, 54,9% eram do setor de serviços; 33%, comércio; 8%, indústria; 3,1%, outros; e 0,9%, segmento primário. Já em relação aos setores das dívidas negativadas no período, o maior volume ficou em serviços (32,2%), seguido por bancos e cartões (19,3%).
Do total de 8,7 milhões de companhias inadimplentes em outubro de 2025, a maioria (8,2 milhões) eram micro, pequenas e médias empresas, concentrando, juntas, o volume de 56,8 milhões de dívidas negativadas e somando R$ 184,6 bilhões em contas inadimplidas. “As micro, pequenas e médias empresas sentem mais rapidamente os impactos dos juros altos e das incertezas do cenário internacional”, comenta Camila.
Já as companhias maiores têm mais estrutura para honrar as suas dívidas, mesmo com o giro de capital impactado pela retração diante dos desafios atuais do cenário econômico brasileiro. Os Estados do Sudeste concentraram o maior volume de CNPJs inadimplidos (mais de 4,6 milhões), seguidos pelo Sul (mais de 1,4 milhão) e do Nordeste (mais de 1,3 milhão). O Centro-Oeste (755 mil) e o Norte (516 mil) foram os com menor volume de companhias no vermelho.
Protestos
O registro em cartório de dívidas judiciais cresceu 22% neste ano no País, segundo um levantamento do Cartórios de Protesto do Brasil. Foram 77,9 mil protestos em 2025, ante 63,9 mil no ano passado. De janeiro de 2024 a setembro de 2025, R$ 338,5 milhões foram recuperados por meio do protesto de decisões judiciais, de acordo com a entidade.
A prática tende a crescer ainda mais no próximo ano, após uma recomendação aprovada por todos os corregedores dos Tribunais de Justiça do País. O texto permite que a solução seja usada de forma eletrônica assim que termine o prazo de pagamento. /COLABOROU EDUARDO BARRETO
Dom Odilo proíbe padre Julio de transmitir missas, ordena que saia das redes e pode afastá-lo de paróquia
Mônica Bergamo / FOLHA DE SP
O cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, 76, determinou que o padre Júlio Lancelotti não transmita mais missas ao vivo, suspenda todas as suas atividades em redes sociais e pode retirá-lo da paróquia de São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca, em SP, onde ele atua há mais de 40 anos.
Lancelotti comunicou que as missas não seriam mais transmitidas no domingo (14), justamente durante uma das transmissões. A informação incendiou grupos de padres e religiosos que se comunicam por WhatsApp.
As celebrações eram transmitidas ao vivo pela Rede TVT (TV dos Trabalhadores), mantida por sindicatos, pelo portal ICL e pelo YouTube.
Lancelotti confirmou a decisão de dom Odilo à coluna e, na sequência, divulgou uma nota em que diz reafirmar "minha pertença e obediência à Arquidiocese de São Paulo" (ler a íntegra no fim do texto).
"Dom Odilo me pediu para dar um tempo. Ele acha que é uma forma de recolhimento e de proteção", diz o religioso à Folha. Questionado se concordava com a decisão, ele respondeu que tem "apenas que obedecer".
Lancelotti, que se dedica especialmente à população de rua de São Paulo, é alvo comum de parlamentares e políticos de direita, especialmente de integrantes do MBL (Movimento Brasil Livre).
Na última investida, o deputado federal Junio Amaral (PL-MG) publicou um vídeo no Instagram afirmando que levou um abaixo-assinado com mais de mil assinaturas à Embaixada do Vaticano pedindo o afastamento do padre de suas atividades religiosas.
Dom Odilo Scherer pode retirá-lo da paróquia em que atua ainda neste ano.
Sobre essa questão, Lancelotti afirma que isso "ainda não aconteceu", ao contrário do que começou a ser disseminado em grupos de WhatsApp ligados à igreja.
Ele explica que, pela regra, padres que completam 75 anos podem ser removidos das localidades em que atuam para se aposentar. Lancelotti completará 77 anos no dia 27.
Há padres, no entanto, que permanecem em suas funções por muito mais tempo, alguns depois de completar "80, 90 anos", diz Lancelotti. "Depende da necessidade da igreja", explica ele. A decisão de afastá-lo, no entanto, ainda não foi oficalizada pelo cardeal.
Em nota divulgada nesta terça (16), o padre afirma o seguinte:
"Conforme informado no último domingo (14/dez), as transmissões estão temporariamente suspensas, porém as missas dominicais continuam sendo celebradas normalmente às 10h, na Capela da Universidade São Judas - Mooca.
As redes sociais não estão sendo movimentadas por um período de recolhimento temporário.
Não procede a informação sobre a transferência da Paróquia São Miguel Arcanjo.
Reafirmo minha pertença e obediência à Arquidiocese de São Paulo".
Chile polarizado agora dá guinada à direita
FOLHA DE SP
Democracia acostumada por décadas à alternância do poder entre centro-direita e a centro-esquerda, o Chile consagrou no domingo (14) o ultraconservador José Antonio Kast, do Partido Republicano, que derrotou na eleição presidencial a governista Jeannette Jara, do Partido Comunista.
Kast obteve 58,1% dos votos válidos, segundo o Serviço Eleitoral do Chile, enquanto a ex-ministra do Trabalho do atual presidente, Gabriel Boric, ficou com 41,8%, mesmo contando com o apoio da máquina governamental e de todos os setores da esquerda.
Mais do que se sobrepor, nas urnas, a um governo desgastado na opinião pública, Kast soube capturar a percepção de insegurança da população e sua contrariedade com o aumento da imigração, trazer tais temas ao centro do debate e apresentar-se como liderança capaz de equacioná-los.
Aprendeu com seus fracassos nas duas eleições presidenciais anteriores ao esquivar-se de promessas caras ao conservadorismo chileno, como o veto ao casamento homoafetivo e às brechas ao direito de aborto, limitadoras de seu potencial de inserção no eleitorado de centro.
Mesmo entusiasta declarado da ditadura militar de Augusto Pinochet, Kast manteve distância de discursos autoritários, disruptivos e antissistema observados na ultradireita ocidental.
Até por pragmatismo, Kast mantém um compromisso com o mesmo Estado de Direito que avalizou sua vitória eleitoral e o investirá na liderança do Poder Executivo em março. Compor-se com setores de centro-direita do Congresso será chave para o êxito de sua gestão.
Ao propor controles imigratórios, distanciou-se do modelo persecutório de Donald Trump, nos Estados Unidos. Ao prometer um corte de US$ 6 bilhões nos gastos públicos em 18 meses e a redução do tamanho do Estado, mostrou intenção de preservar os atuais programas sociais.
Num país com bons fundamentos macroeconômicos, reformas liberais bruscas e agressivas, ao estilo do argentino Javier Milei, mostram-se desnecessárias. O Chile tem o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da América do Sul e mantém contas públicas e inflação sob controle.
Sua dívida pública está pouco acima dos 40% do PIB (são 90% no Brasil, pelos critérios do FMI), pagando juros em torno de 5% anuais (15% aqui).
A vitória da direita se soma a outras recentes no continente. Assim foi na Argentina, onde Milei, eleito em 2023, voltou a mostrar força no pleito legislativo deste ano; na Bolívia, onde o centro-direitista Rodrigo Paz Pereira venceu o pleito presidencial em outubro; e no Equador, com a reeleição de Daniel Noboa em abril.
As instituições chilenas se fortaleceram no período de estabilidade política e econômica a partir da redemocratização, em 1990, e resistiram à turbulência iniciada com os protestos populares de 2019. Kast, felizmente, parece ter compreendido isso.

