Sensatez deve prevalecer no PL da Dosimetria
Por Editorial / O GLOBO
A Câmara dos Deputados aprovou na semana passada o Projeto de Lei (PL) da Dosimetria, que altera o cálculo de penas para crimes contra o Estado Democrático de Direito e, na prática, abre caminho à redução do tempo de permanência na prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e dos demais condenados por tentativa de golpe de Estado e pelos ataques do 8 de Janeiro. A aprovação do PL, numa sessão que se estendeu pela madrugada, se deu por larga margem de votos (291 a 148).
Eram legítimas as críticas às penas aplicadas a alguns dos condenados pelo 8 de Janeiro, demasiadamente severas. Isso ficou patente no caso da cabeleireira Débora Rodrigues dos Santos, sentenciada a 14 anos de prisão por ter pichado a estátua na frente do Supremo Tribunal Federal (STF) — hoje ela está em prisão domiciliar. Mas é essencial que mentores, financiadores e organizadores, mesmo com penas menos severas, respondam pelos crimes graves que cometeram com punição proporcional à gravidade de seus atos. Seria inaceitável qualquer forma de anistia. Funcionaria como incentivo ao golpismo e seria uma afronta à Constituição. Por isso é necessário desde já repudiar os devaneios que rondam o Senado — para onde o projeto foi encaminhado — com o objetivo espúrio de anistiar os condenados, livrando-os de qualquer tipo de punição.
Pelas estimativas do deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), relator do PL, Bolsonaro — desde novembro, preso na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília — poderia cumprir apenas dois anos e três meses em regime fechado. O cálculo se baseia na unificação das penas pelos crimes de abolição do Estado Democrático de Direito e tentativa de golpe de Estado e na retomada da progressão de regime depois do cumprimento de um sexto da pena. Ainda segundo o relator, a pena total de 27 anos e três meses poderia cair para cerca de 21 anos. A aplicação das novas regras dependeria da avaliação dos ministros do Supremo e não ocorreria de forma automática.
Outros pontos no PL da Dosimetria merecem atenção dos senadores. Como mostrou reportagem do GLOBO, o projeto pode beneficiar condenados por certos tipos de crime que não envolvem atos contra a democracia ou o Estado Democrático de Direito. Juristas e integrantes do Ministério Público argumentam que o texto permite progressão de regime mais célere a condenados por crimes como coação no curso do processo, atentados contra meios de transporte, à soberania ou contra a segurança de serviços de utilidade pública. Os senadores precisam corrigir essas falhas.
No Senado, o PL deve ser relatado pelo senador Espiridião Amin (PP-SC), que já disse defender a inclusão da anistia na proposta. É fundamental rechaçar tal retrocesso e trabalhar para fechar as demais brechas do texto. Seria uma lástima se elas beneficiassem criminosos que nada têm a ver com o escopo do projeto. Especialmente neste momento, em que a sociedade, indignada com a inércia diante da violência, clama por mais justiça, enquanto o país discute mudanças na legislação para tornar as penas contra o crime organizado mais severas. Deve prevalecer a sensatez.
O plenário da Câmara dos Deputados — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo/09/12/2025
Privatizações mostram que, quando ideologia sai de cena, país avança
Por Editorial / O GLOBO
No episódio mais recente, o governo repactuou o contrato de concessão da Rodovia Fernão Dias (BR-381), que liga São Paulo a Belo Horizonte cortando 33 cidades. O leilão foi vencido pela Motiva (ex-CCR), que superou a Arteris, atual concessionária. Foi o quarto certame para otimizar contratos, e o primeiro em que a atual gestora não levou. A Fernão Dias deverá receber R$ 9,5 bilhões em investimentos, mais R$ 5,4 bilhões em custos operacionais ao longo da concessão. A estrada é um dos principais corredores logísticos do país e registra cerca de 250 mil veículos por dia. O ministro dos Transportes, Renan Filho, disse que ela receberá melhorias na pavimentação e novos acessos às cidades, entre outras intervenções. O atual governo já fez 22 leilões de rodovias e prevê mais 14 para 2026.
O mesmo ímpeto tem contribuído para a privatização dos aeroportos. Em novembro, a GRU Airport, dona da concessão de Guarulhos, em São Paulo, venceu o leilão de 12 terminais regionais, enquanto a alemã Fraport, que administra os aeroportos de Fortaleza e Porto Alegre, arrematou o de Jericoacoara (CE). O investimento previsto nesses locais é estimado em R$ 730 milhões. A intenção é conectá-los à malha nacional e fomentar o desenvolvimento das cidades.
Não menos importante será a licitação do Aeroporto Internacional Tom Jobim/Galeão, no Rio, que experimenta recuperação depois de longo esvaziamento decorrente de problemas no contrato e de desequilíbrio na coordenação com o terminal doméstico Santos Dumont. Na quinta-feira, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) aprovou o edital do leilão simplificado que ocorrerá em março, com lance mínimo de R$ 932,8 milhões. A intenção é corrigir problemas financeiros do contrato. O governo torce para que a atual concessionária RIOGaleão continue operando o aeroporto.
Quando a resistência ideológica sai de cena, o país avança. Para qualquer brasileiro que circula em rodovias administradas pelo governo federal, fica claro que o Estado não tem condições de mantê-las. É verdade que nem todas são passíveis de concessão à iniciativa privada, pois algumas não são atraentes financeiramente. Mas as que são viáveis devem ser transferidas. Ao menos no setor de infraestrutura, o governo tem se rendido ao óbvio: rodovias e aeroportos melhoram significativamente quando administrados por concessionárias privadas. Se tivesse adotado a mesma atitude diante dos Correios, certamente a empresa não atravessaria crise tão grave, e o contribuinte não teria de arcar com bilhões em mais uma tentativa desesperada de salvá-la.
O Aeroporto Tom Jobim/Galeão, no Rio — Foto: Guito Moreto - Agência O Globo/14/01/2025
Os Correios em um mundo sem cartas
Por Míriam Leitão / O GLOBO
Não haverá aporte de R$ 6 bilhões do Tesouro nos Correios. Menos mal. Essa seria a opção caso não fosse possível o empréstimo de R$ 12 bilhões de um consórcio de bancos, entre eles Banco do Brasil e Caixa, mas a operação está avançando. É muito dinheiro, com aval do Tesouro, e não há qualquer garantia de retorno. Emmanoel Rondon, novo presidente que assumiu em setembro, está preparando o plano de reestruturação da empresa e deve anunciar em breve. A falta de informação oficial sobre o futuro só piora a situação.
Os Correios perderam, nos primeiros meses do ano, R$ 2,2 bilhões em receita porque os clientes se irritaram com a qualidade dos serviços e passaram a fazer as entregas eles mesmos. A deterioração do caixa da estatal vem da piora da operação e acaba gerando mais perda de caixa. Virou um círculo vicioso.
A estatal perdeu também muita receita desde o início da “taxa das blusinhas”. Até 2024, a empresa tinha 100% das encomendas vindas do exterior, agora tem 24%. Como se tratava de falsas compras internacionais, com simulações de venda de pessoa a pessoa, a estatal tinha o monopólio. Quando acabou a simulação, lojas como a Shein e Shopee passaram a transportar até o Brasil e apenas o trecho interno é dos Correios. Funciona assim: outras empresas fazem a parte mais lucrativa e mais fácil, trazer até um grande centro de distribuição no país. Quem leva aos mais variados pontos dentro do vasto território brasileiro são os Correios.
Há muitas explicações para o que está acontecendo com a empresa. Este é um tempo em que sua principal função, a do serviço postal, está em irremediável declínio, mas não pode ser abandonada em um país do tamanho do Brasil. Em vários países do mundo, há subsídios ao serviço postal. Mas nada justifica uma estatal pedir R$ 20 bilhões sem mostrar o fim do túnel. O valor foi reduzido, mas continua inquietante o fato de não haver qualquer garantia que seja suficiente.
Marcus Pestana, da Instituição Fiscal Independente, que foi conselheiro dos Correios de 1999 até 2002, alerta que “se o Tesouro der aval a um empréstimo num cenário em que o mercado da empresa segue se deteriorando, isso vira um problema fiscal”.
O governo Jair Bolsonaro preparou durante anos um modelo de privatização, mas não o executou. Não foi aprovado pelo Congresso. Mas a partir do momento em que foi colocada no Programa Nacional de Desestatização, a empresa perdeu a autonomia para fazer investimento sem aprovação prévia do governo. Como seus concorrentes do setor privado investiram muito, ela perdeu competitividade e mercado rapidamente.
O salário médio da empresa é de R$ 6 mil, o que não é alto, mas o problema está no número de pessoas e a dificuldade de fazer uma reestruturação. Por exemplo, há muitos carteiros e muito menos cartas hoje. Há necessidade de haver mais gente trabalhando no gerenciamento de estoques. Atualmente, qualquer empresa postal é uma empresa de logística. Mas nos Correios quem é carteiro só pode ser carteiro, não pode ser realocado no setor de estoques.
A empresa está prisioneira de outros círculos viciosos. Teve perda de liquidez e por isso não consegue honrar o contrato, aí perde o contrato e mais liquidez. Qualquer programa de demissão voluntária precisa de caixa para fazer o desligamento. Não tem caixa para fazer PDV e continua com o quadro inchado.
Pestana alerta que é preciso entender que se a estatal receber esse empréstimo com aval do Tesouro será um valor alto. “Se a empresa está dando prejuízo, e deve fechar o ano com algo entre R$ 8 bilhões e R$ 10 bilhões, mesmo que venda ativos, desative unidades e promova programa de demissão voluntária, nada indica que a situação deficitária será superada.”
A empresa pediu aos bancos um prazo de carência de três anos para ter tempo de recuperação, mas a operação só se viabiliza com o aval da União. Isso que é conforto para o credor e o devedor, é risco para o avalista, ou seja, o contribuinte. A empresa pretende reduzir o número de funcionários em 15 mil, mesmo assim permanecerá com 65 mil. Tem um programa de eficiência de centros logísticos, que já foi testado em Goiânia e apresentou bons resultados. Planeja fechar cerca de mil pontos pouco rentáveis e redundantes. Há postos a 300 ou 400 metros de outro. A preocupação é nunca encerrar a operação em lugares onde os Correios são a única presença do Estado. Estes pontos são deficitários, porém imprescindíveis.
Difícil ganhar sempre
Por Merval Pereira / O GLOBO
.Está difícil acertar o “acordão” (grande acordo, não o acórdão do juridiquês) entre os Poderes da República quando se tem apenas quatro dias para montar uma equação em que todos saiam ganhando — menos o povo, que os colocou lá, mas isso é mero detalhe. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, garante que a proposta de dosimetria das penas vai a votação, como prometido. Em contrapartida, já ganhou alguns mimos, entre eles o poder único de manusear as informações que a Polícia Federal extraiu dos celulares do banqueiro Daniel Vorcaro.
Quem lhe concedeu a benesse foi o ministro do Supremo Dias Toffoli, que assumiu, por decisão própria, todas as ações sobre o escândalo do Banco Master, tornando sigiloso em alto grau tudo o que diz respeito às investigações do caso, exceção ao senador supracitado, cujo nome aparece nas investigações, com dirigentes políticos do Amapá postos por ele em postos-chave no serviço público de seu estado para investir no banco de Vorcaro.
Os bolsonaristas, por seu lado, temem que a dosimetria alterada para beneficiar com redução da pena o ex-presidente não seja votada até o fim do ano. É mais que provável algum parlamentar tentar atrasar a tramitação até o ano que vem. A maioria do Senado também está com a impressão de que o texto que veio da Câmara alivia outros crimes, não apenas os cometidos no 8 de Janeiro. Já apelidaram o PL de “projeto de facção”, por beneficiar bandidos presos por diversos outros crimes.
Alguns tentam encontrar uma maneira de mudar o texto no Senado para que não precise voltar à Câmara. Caso não seja possível, não haverá tempo de votar, pois estamos na última semana útil do ano legislativo antes do recesso parlamentar. E tentam retirar alguma parte do texto que possa sugerir favorecimento à interpretação ampliada do alcance da dosimetria, além de também negociar com o bolsonarismo para não insistir na anistia, que não tem número suficiente de apoiadores para entrar em discussão e que embolaria a votação do plenário.
Se demorar muito, fica para o Congresso votar na volta do recesso, lembrando que o mês de abril é o limite para o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, decidir se deixa o governo para se candidatar a presidente da República. Há ainda a possibilidade de o presidente Lula vetar o projeto que saia desse “acordão”, seja em que versão for, porque a esquerda considera o projeto de dosimetria praticamente uma anistia camuflada. As manifestações do fim de semana, embora não tão grandes quanto o esperado pelos organizadores, já mostram indignação de parte da sociedade, e Lula deve ficar atento a ela.
A programação de Tarcísio não combina com a do Congresso. A do Centrão não combina com a dos bolsonaristas. A do governo não combina com a possível adesão da direita conservadora. Os ventos políticos na América Latina levam à ascensão da direita, reforçada pela vitória no Chile. A dúvida é se a família Bolsonaro prefere perder com a candidatura de Flávio ou ganhar com Tarcísio. O PL não se importa de perder com Flávio, desde que amplie suas bancadas na Câmara e no Senado. Valdemar Costa Neto pensa em si, nos fundos eleitoral e partidário que controlará, e sabe que pode ter acesso fácil a Lula reeleito.
Acredito que a tendência é não aprovar nada agora. Não vejo como possam superar esses problemas para resolvê-los em uma semana. E haverá uma crise grande, de novo. O que parecia ser uma solução negociada com todas as partes agora está sob perigo. É difícil um acordo ganha-ganha nessas condições.
Davi Alcolumbre terá acesso às informações da investigação sobre Daniel Vorcaro — Foto: Brenno Carvalho / O Globo
O Congresso não é inimigo do povo
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
No domingo passado, milhares de cidadãos foram às ruas para protestar contra o Congresso, mais uma vez. O alvo principal das manifestações foi o chamado PL da Dosimetria, que propõe nova interpretação jurídica dos crimes contra o Estado Democrático de Direito pelos quais foram condenados Jair Bolsonaro e outros envolvidos no 8 de Janeiro, com o efeito prático de reduzir suas penas. Com menos ênfase, os atos também pugnaram pela criação de um código de conduta para os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), reforçada pela publicação de fatos perturbadores que ligam Dias Toffoli e Alexandre de Moraes ao Banco Master.
Promovidas pelo PT e por outros partidos de esquerda, além de movimentos sociais, centrais sindicais e artistas alinhados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, as manifestações vocalizaram ataques ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e ao Congresso em geral, classificado como “inimigo do povo” – mote criado pela máquina de propaganda petista instalada no governo. O tom, malgrado ser politicamente compreensível, merece uma reflexão mais serena – menos por seus excessos retóricos e mais pelos riscos institucionais que encerra.
Ao rotular o Congresso como “inimigo do povo”, a esquerda presta ao País o mesmo desserviço que a direita radical tem prestado ao tachar o STF como um reduto de “tiranos”, “psicopatas” ou “ditadores”. Nem uma coisa nem outra corresponde à realidade. E ambos os discursos corroem a confiança pública em instituições essenciais à República. Deslegitimar o Congresso implica minar os próprios alicerces do regime democrático que se pretende defender. Revela espírito autoritário.
O Congresso não é inimigo do povo, muito ao contrário. É a sua mais fiel representação institucional. É ali que os cidadãos se fazem representar, delegando a parlamentares eleitos a tarefa de deliberar sobre leis, políticas públicas e o Orçamento da União que dizem respeito a todos. Ver-se mais ou menos representado por uma dada legislatura é parte do jogo democrático; pressupor que seja “inimiga” da sociedade equivale a sugerir que haveria um Congresso “amigo” ou “aliado” do povo – como se houvesse uma instância iluminada capaz de arbitrar quais maiorias são aceitáveis e quais não são. Goste-se ou não, o Congresso é a face política da sociedade que o elegeu.
Isso não significa, evidentemente, absolver o Legislativo de suas muitas e graves deformações. A crítica à atuação do Congresso é não só legítima, como necessária. O busílis é quando a crítica se converte em demonização indistinta da instituição, abrindo espaço para saídas autoritárias ou messiânicas. A história recente do País mostra que esse caminho, à direita ou à esquerda, cobra um preço caro demais à democracia.
Ao mesmo tempo, seria desonesto de nossa parte ignorar que o atual Congresso, por sua vez, tem dado razões de sobra para esse mal-estar social. A percepção de que parlamentares são lenientes com colegas envolvidos em condutas reprováveis, para dizer o mínimo, alimenta a percepção de um Legislativo mais preocupado em se blindar do que em cumprir sua missão institucional. A aprovação, na Câmara, da chamada PEC da Blindagem, um evidente instrumento para dificultar investigações policiais contra parlamentares, reforçou ainda mais essa impressão.
Some-se a isso a corrupção do Orçamento da União por meio de emendas parlamentares distribuídas sem transparência, critérios técnicos ou coerência programática. A operação da Polícia Federal deflagrada na sexta-feira passada contra uma assessora parlamentar de Arthur Lira (PP-AL), suspeita de atuar como espécie de “secretária-geral” do orçamento secreto na Câmara, mostra quão vivo está o esquema a despeito dos honrosos esforços do STF para acabar com essa perversão antirrepublicana.
Diante de tudo isso, não surpreende que parcelas expressivas da sociedade se sintam ultrajadas. Há, de fato, uma crise de representatividade que as lideranças do Congresso precisam tratar com seriedade e autocrítica. Contudo, nada autoriza a retórica da esquerda que trata o Congresso como “inimigo”. Esse discurso irresponsável, mesmo travestido de virtude democrática, pavimenta o caminho para a desinstitucionalização da política, um enorme perigo para uma democracia ainda tão jovem como a nossa.
Qual o saldo da COP30 para a Caatinga?
DIARIONORDESTE
Financiamento, avanços simbólicos e perspectivas de reconhecimento da importância da Caatinga para o Brasil e o mundo foram encaminhamentos da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30) ocorrida no Brasil em novembro. Colocar o bioma exclusivamente brasileiro na roda de discussão demandou diferentes esforços, que mobilizaram desde a atuação independente e a sociedade civil organizada aos governadores da região onde a Caatinga é predominante: o Nordeste.
O que se espera, então, do desenrolar desse esforço para o bioma?
"Levamos três temas bem importantes que já venho pautando há muito tempo como representante da Câmara Temática do Consórcio Nordeste, que são o recaatingamento, os ativos ambientais e a transição energética justa", conta a Secretária do Meio Ambiente do Ceará e coordenadora técnica de Meio Ambiente do Consórcio Nordeste, Vilma Freire.
A articulação oriunda dos poderes Executivos estaduais resultou no lançamento, durante a COP30, do Plano Brasil Nordeste de Transformação Ecológica (PTE-NE), com eixos sobre combate à desertificação e valorização da bioeconomia sustentável da Caatinga, entre outros. A ideia é espelhar o Plano Nacional, lançado em 2023, e aprofundá-lo ao contexto local, a partir de contribuições do Ceará e de outros entes.
A peça prevê ações de recuperação florestal da Caatinga e investimentos em práticas de resiliência do semiárido, que dialogam com a meta geral da COP 30 de concretização do Acordo de Paris (2015).
Tangente ao PTE-NE e a iniciativas como o novo Programa de Ação Estadual de Prevenção e Combate à Desertificação (PAE-CE), o Ceará também lançou, na Conferência do Clima, o seu projeto de Recaatingamento. O objetivo é recuperar áreas degradadas do bioma e valorizar comunidades tradicionais.
O Governo do Estado ainda apresentou resultados de programas exitosos nessa área, como o Agente Jovem Ambiental (AJA) e o Cadastro Ambiental Rural (CAR), dando relevo à participação de entes subnacionais na luta contra as mudanças climáticas.
Na análise do Executivo, isso posicionou o Ceará como referência em governança ambiental, segurança jurídica, sustentabilidade de mercado, inclusão social e educação ambiental. O AJA foi o principal ativo levado à COP 30.
“É uma política que atende a mais de 10 mil jovens em 184 munícios do Ceará. Alguns estados do Nordeste já estão implementando essa política também, e o mundo precisava conhecer. Então foi um painel bastante frequentado, a gente tirou várias dúvidas das pessoas nesse espaço, porque elas realmente se interessaram em saber como funciona esse programa”, comentou Vilma Freire.

Esta reportagem compõe a série “É assunto de política? - Temporada Desertificação na Caatinga". O PontoPoder abordará diferentes discussões acerca do tema, como tributação ambiental, mudança de paradigmas sobre o combate e convivência com a seca no Ceará, atuação legislativa e a revisão do PAE em vigência.

Avanço simbólico
O semiárido brasileiro já é reconhecido internacionalmente como um território de vulnerabilidade climática e social, a exemplo da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (CNUCD), criada em 1994.
Na COP30, por sua vez, a região ganhou evidência diferente nas discussões, especialmente no que se refere à Caatinga, que foi reconhecida como floresta de alta potência ambiental e econômica. Esta é a avaliação de organizações sociais e de gestores públicos do Nordeste ouvidos pelo PontoPoder.
A sociedade civil mostrou que tem experiência concretas e estratégias claras de combate à desertificação. A gente conseguiu mostrar essa diversidade. Agricultores familiares, povos e comunidades tradicionais participaram ativamente, tanto é que foi a primeira COP a pautar a agricultura familiar, que já vem trabalhando a agroecologia e a convivência com semiárido nesse processo de barrar o desmatamento.
Para eles, o avanço simbólico é convertível em ações práticas num futuro próximo. Até lá, essas entidades estarão atentas aos movimentos do Poder Público e do mercado. Como painelista no pavilhão do Brasil na Blue Zone, a Associação Caatinga discutiu transição energética justa ao lado do governador Elmano de Freitas (PT).
O governo falou sobre hidrogênio verde e as potencialidades do Ceará para a transição energética e, nesse momento, a gente reforçou a nossa ideia de que o Estado somente fará uma transição energética justa se envolver as comunidades e promover a conservação da Caatinga, não o seu desmatamento", pontua o Diretor Executivo na Associação Caatinga, Daniel Fernandes.
O temor é que a expansão da tecnologia continue reduzindo as áreas cobertas por vegetação nativa para a instalação de polos de geração de energia – no caso cearense, “renovável” –, necessários ao processo de eletrólise que transformará a fórmula da água em hidrogênio verde.
É na Caatinga que estão, por exemplo, 62% das áreas de usinas fotovoltaicas do Brasil, conforme dados de 2024 divulgados pela rede MapBiomas. Quase 22 mil hectares do bioma já foram ocupados por essas instalações.
O levantamento ainda mostrou que 52,6% dos empreendimentos de energia solar, hoje, estão em áreas que já foram formações savânicas e florestais, enquanto 35% foram pastagens.

Certificação do carbono da Caatinga
Mesmo diante dessa e de outras ofensivas, o bioma demonstra a sua importância não só para a população local, como também para a regulação climática do Brasil e do mundo. Essa potencialidade se reverteu em debate sobre a necessidade de certificação do carbono da Caatinga, visando alavancar o Nordeste no mercado internacional de créditos de carbono. A conservação, então, resultaria em fonte de receita, investimento e inclusão produtiva.
Embora seja o único bioma exclusivamente brasileiro e o mais eficaz na captura de carbono na atmosfera, os seus ecossistemas são menosprezados nessa discussão porque as certificadoras internacionais ainda desconsideram o carbono subterrâneo.
Quase 50%De toda a captura de carbono do País entre 2015 e 2022 foi feita pela Caatinga, segundo estudo da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
“As metodologias globais medem o carbono apenas na biomassa aérea. Precisamos mostrar que a Caatinga é diferente, uma floresta que guarda sua força nas raízes. [...] Precisamos publicar mais estudos em revistas de alto impacto e ocupar espaços decisórios, como o IPCC, que define as metodologias aplicadas no mundo inteiro”, pontuou Carlos Gava, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
A declaração ocorreu durante o painel “Brasil Nordeste: Onde o Oxigênio se Renova”, realizado no Espaço Brasil Nordeste, na Zona Verde da COP30.
“Esta é a COP da ação, e para a Caatinga também precisa ser. Temos a ciência, o planejamento e as ideias. Agora é hora de agir”, ressaltou Pedro Lima, secretário de Desenvolvimento Regional do Consórcio Nordeste, que também participou da programação.
Financiamento ambiental
A atração de investimentos para viabilizar ações de preservação ambiental foi um dos grandes objetivos da conferência que aconteceu no mês passado, em Belém (PA), com ênfase ao inédito Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF).
A fonte de financiamento foi um dos principais projetos do presidente Lula (PT) para esta COP, em consonância com as discussões remanescentes do Acordo de Paris, firmado na COP 21, em 2015. Em síntese, o tratado buscava limitar o aumento da temperatura global em até 1.5°C até o fim do século – meta que depende, dentre outros fatores, de cobertura florestal – e garantir aporte de recursos de países ricos para nações menores, que são as mais impactadas pelas mudanças climáticas.
O TFFF promete recompensar países que investiram na manutenção da sua cobertura florestal, mas isso só vale para os biomas de clima tropical úmido, como a Amazônica e a Mata Atlântica.
Ou seja, o reflorestamento na Caatinga e no Cerrado não contam para a meta de cobertura vegetal, requisito para acessar o rateio de US$ 150 bilhões.
Alexandre Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação do Ministério do Meio Ambiente (MMA), lamenta a limitação, mas projeta um cenário diferente nos próximos anos, com a inclusão dos outros dois biomas no fundo.
O otimismo se deve a outros encaminhamentos feitos na COP30, que, mesmo em menor escala, ajudam a projetar a Caatinga.
Ele cita o investimento de R$ 100 milhões assinado pelo Banco do Nordeste (BNB) e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), visando fortalecer iniciativas de recuperação da vegetação e dos solos da região.
A cifra, articulada pelo Consórcio Nordeste com apoio do MMA, pode duplicar com a ajuda de outros parceiros, segundo Rafael Fonteles (PT), governador do Piauí e presidente do consórcio.
“Banco é banco, ele quer fazer empréstimo, essas coisas. Mas a adesão do BNB e do BNDES estimula outros agentes a financiarem esses projetos, já que não tem como produzir e se desenvolver em um solo degradado”, avalia Alexandre Pires.
Se para investidores o acordo desperta interesse, para atores locais, o entusiasmo é maior ainda. No Ceará, já há planos para parte desse dinheiro.
A coordenadora do projeto de Recaatingamento da Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace), Luciana Barreira, aguarda o lançamento de editais das duas instituições para começar a tocar as ações planejadas.
Já com maior protagonismo da sociedade civil nas negociações, a Caatinga receberá aportes do governo da Alemanha, via Iniciativa Internacional para o Clima (IKI na sigla em alemão). Organizações de todo o semiárido brasileiro (nove estados do Nordeste mais parte de Minas Gerais e do Espírito Santo) executarão atividades no âmbito do Programa Redes pela Conservação, lançado na COP 30.
Entre elas, a rede ASA, por meio de dez entidades parceiras. O financiamento servirá para ampliar ações em curso e tirar projetos inéditos do papel, no sentido de reduzir o desmatamento, reforçar a adoção de práticas sustentáveis de uso da terra e promover a resiliência climática nos territórios.
Apesar de ser executado independentemente ao Programa Estadual de Combate à Desertificação, o Redes pela Conservação fortalece as suas diretrizes, aponta Luis Eduardo Sobral. No Ceará, o Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador e à Trabalhadora (Cetra), membro da ASA, vai executar um projeto no núcleo de desertificação de Irauçuba, focado em sistemas agroflorestais.
Ceará com foco no Recaatingamento
Foi na COP30 também que o Grupo de Trabalho (GT) do Recaatingamento do Governo do Ceará apresentou o projeto elaborado ao longo de cinco meses. A ideia é restaurar áreas de preservação permanente (APPs) e de reserva legal (RL) degradadas em pequenas propriedades rurais familiares.
O grupo trabalhou de forma intersetorial, contando com servidores da Sema, da Semace, da Secretaria de Proteção Animal (Cepa), com a Academia e com ONGs como a Associação Caatinga e o Instituto Pró-Silvestre.
A gente se alinha às metas do Brasil no Acordo de Paris, de recuperar 12 milhões de hectares de florestas até 2030, e às metas previstas nos planos federais, como Planaveg e o PP Caatinga. As metas de recuperação de áreas degradadas e de promoção da agricultura sustentável são prioritárias.
Para isso, a Superintendência do Meio Ambiente se utiliza de dados do Cadastro Ambiental Rural, já que o Ceará é responsável por mais de 90% dos registros finalizados em todo o bioma Caatinga.
O projeto propõe identificar, dentre os mais de 65 mil cadastros aprovados, pelo menos 12 mil famílias de pequenos proprietários rurais instalados em Áreas de Preservação Permanente (APPs) e Reserva Legal, mas que apresentem áreas degradadas.
É esse público que receberá apoio prioritário, que consistirá no fornecimento de mudas, na prestação de assistência técnica e cercamentos para o "repouso" da área e na implantação de sistemas agroflorestais.
Além dos recursos do BNB e do BNDES, a Semace planeja direcionar a reposição florestal exigida nos processos de licenciamento (onde houve supressão vegetal legal) para a recuperação das áreas degradadas dos pequenos produtores.
“Com isso, nós teríamos um benefício para os pequenos produtores, os agricultores familiares, e talvez, em breve, tenhamos dados suficientes para incluir nesse benefício assentamentos e áreas de populações tradicionais”, explicou Luciana Barreira.

