Como refazer as contas para passar a quarentena sem prejuízos

(Lucas Baldez, E-Investidor) A preocupação primordial de todos nesses dias de pandemia é com a saúde. Mas os efeitos colaterais causados pela disseminação do novo coronavírus são muitos e um deles é a vida financeira de cada um, que mudou drasticamente com o momento de paralisia do País. Com a população em quarentena e a orientação das autoridades de só sair de casa para serviços essenciais, é preciso refazer as contas para não passar por mais sustos durante a crise.
O planejador financeiro da C6 Bank, Daniel Varajão, explica que o primeiro passo nessa situação é olhar para sua receita. Mesmo que sua renda não tenha se alterado – seja por você apenas ter trocado o escritório pelo home office ou por qualquer outro motivo -, será fundamental se programar para uma nova realidade por pelo menos quatro meses. Se sua renda tende a diminuir nesse período, uma reserva de emergência será muito útil agora.
“Muitos vão ter um impacto importante de receita. Por isso, se a pessoa conseguiu juntar dinheiro e investiu de maneira conservadora, o impacto será baixo”, aponta Varajão.
Dito isto, é hora de avaliar as despesas. Com cinemas, teatros e museus fechados, além das competições esportivas paralisadas, é normal que todos economizem com entretenimento.
Menos deslocamentos significam que você também não vai gastar com combustível ou passagens. Com boa parte do comércio e de bares e restaurantes sem funcionar, o menor consumo de bens e serviços ajudarão a poupar ainda mais.
“Ficar em casa geralmente custa menos do que fora”, confirma o educador financeiro da Academia do Dinheiro, Mauro Calil. Além de transporte e alimentação, o especialista diz que, sem sair, ficamos menos sujeitos aos impulsos de compra. “No dia a dia, a pessoa ao shopping, vê uma blusa e acaba comprando. Isso acontecerá menos. Esse tipo de gasto vai esperar”.
Varajão, da C6 Bank, diz que pode ser um bom momento até para se reavaliar o consumo: “Pensa se você precisa mesmo comprar aquela roupa ou trocar o carro. É uma oportunidade para rever alguns hábitos”.
Cuidado: as despesas fixas podem subir
Mesmo com toda essa economia, é preciso estar atento aos gastos que tendem a subir nesse momento. As primeiras despesas que vão aumentar são com água, luz e gás. Claro, com mais tempo em casa, é natural que isso ocorra. “Eu estimaria um aumento de 30% de energia elétrica em uma casa com três crianças e dois adultos”, diz Varajão.
As despesas que vão crescer com toda a certeza, dizem os especialistas, são com mercado e com delivery de comida. O consumo com itens básicos vão subir, mas eles lembram que não há necessidade de fazer estoque.
“Não existe hoje uma greve de caminhoneiros, quando não há reposição de mercadorias. Temos abastecimento e produção normal no campo. O transporte está funcionando com logística menor, mas funciona”, diz Mauro Calil, da Academia do Dinheiro.
Varajão, da C6 Bank, concorda: “Não é para se preparar para uma guerra nuclear”. O planejador financeiro afirma que é importante comprar o que for suficiente para cada família, sem exageros.
Também é preciso estar atento com o aumento de gastos na internet e com os serviços de streamming. Varajão alerta para que as pessoas não caiam em armadilhas de compras online desnecessárias. Mas aponta que esses gastos vão subir, tanto com comida, como com alternativas interessantes de entretenimento para cada um.
Outros gastos que possivelmente vão aumentar são com telefone móvel. Sem contato físico com amigos e familiares, todos devem usar mais o smartphone para se comunicar. Por isso, ter um wifi potente ou um bom pacote de dados vai ajudar bastante neste momento.
Para Mauro Calil, não há dúvidas de que o acesso à internet vai crescer como um todo. Na visão dele, os brasileiros devem mudar seu perfil de consumo online: “Vai cair a barreira de gente que tinha medo de comprar na internet”, diz. O ESTADO DE SP
Cuidado com as fórmulas prontas - Zeina Latif, O Estado de S.Paulo
As batalhas na defesa contra o Covid-19 foram perdidas e o rápido aumento do número de pessoas infectadas leva a um cenário de amplo confinamento social.
Na decisão de confinamento, os condutores de políticas públicas enfrentam um conhecido e difícil dilema: quanto maior ele for, menor o número de vítimas fatais, porém maior a contração da economia e do emprego. No Brasil, como a economia brasileira está ainda muito frágil, o custo associado será certamente elevado.
No estágio atual da epidemia, certamente a dúvida não é sobre promover ou não o isolamento, mas sim sua abrangência e duração. Não é uma avaliação simples, inclusive porque há uma dificuldade adicional. É preciso incluir nesse cálculo o drama social e suas consequências, que poderão, ao final, agravar o custo econômico da decisão.
Em um país com tantos desafios sociais, situações extremas de sofrimento e desespero das camadas mais populares terão reflexo na segurança das cidades – implicando mais custos para preservar a ordem -, prejudicando o abastecimento de alimentos e bens essenciais. Importante mencionar que os varejistas de pequeno porte trabalham com estoques baixos, o que poderá comprometer o abastecimento dessa população - fora o risco de remarcações abusivas de preços. Há relatos de falta de mercadorias em algumas regiões. Nesse cenário, o impacto na economia será maior do que o esperado pelo gestor público na sua tomada de decisão.
As fórmulas de países mais ricos para lidar com a epidemia precisam, portanto, ser adaptadas à realidade brasileira, principalmente na periferia dos centros urbanos.
Essa reflexão é particularmente pertinente na decisão de fechar escolas públicas de ensino fundamental de forma indiscriminada, abrangendo a todos, como realizado nos demais países afetados pela pandemia. Uma medida tomada diante do desastre iminente, mas com efeitos colaterais perversos em um país com parcela importante da população em situação vulnerável.
Para as camadas mais populares, onde a fertilidade das mulheres é mais elevada, é particularmente dramático as crianças ficarem em casa por período que poderá ser prolongado.
O impacto do fechamento de escolas tem sido grande. Interessante citar relatos de líderes comunitários com quem tive a oportunidade de conversar nestes últimos dias: “As famílias têm muita dificuldade em fazer isolamento, por questões estruturais: as casas são pequenas e sem ventilação, e as famílias numerosas.” “Muitas crianças ficam nas ruas.”
A elevada densidade demográfica em muitas comunidades e a falta de saneamento é combinação perigosa.
As escolas poderiam ser preparadas para cuidar das crianças, sendo um local mais seguro do que os próprios lares, muitos insalubres, e certamente, as ruas. Não é uma tarefa tão fácil, inclusive pelo treinamento dos funcionários e do corpo docente, mas possivelmente mais efetiva para conter a epidemia nas comunidades. As crianças, se bem cuidadas nas escolas, talvez sejam potencialmente menos transmissoras do vírus.
Não menos importante, as crianças ficariam menos vulneráveis à insegurança alimentar decorrente da queda brutal de renda de chefes de família, muitos em ocupações informais. Além disso, o maior estresse familiar poderá alimentar a violência doméstica contra crianças e mulheres - preocupação de líderes comunitários.
As comunidades nos centros urbanos são particularmente vulneráveis. Políticas focalizadas são urgentes para evitar situações extremas nesses grupos. Ocorre que a implementação de políticas de transferência de renda para aqueles que não estão no bolsa-família é difícil e leva tempo. Até lá - se é que essas políticas, se conduzidas, serão suficientes para a subsistência das famílias - a alimentação das crianças estará ameaçada. Crise social contratada.
Talvez seja necessário introduzir escolas em tempo integral para o ensino fundamental de regiões mais carentes. Garantir a continuidade das aulas seria algo importante, mas secundário neste momento. O objetivo é cuidar da saúde da comunidade e da alimentação das nossas crianças mais carentes.
O confinamento poderá ser prolongado. Convém repensar o papel das escolas públicas.
Ibope: Desaprovação da gestão Bolsonaro é de 48% na cidade de SP
23 de março de 2020 | 05h00
A administração do presidente Jair Bolsonaro é considerada ruim ou péssima por 48% dos moradores da capital paulista, segundo sondagem do Ibope resultante de parceria entre o instituto de pesquisas, o Estado e a Associação Comercial de São Paulo (ACSP). Os que consideram a gestão ótima ou boa são 25%, e os que optam pelo conceito regular são 26%.
O Ibope também mediu os níveis de satisfação e insatisfação dos paulistanos em relação às administrações do governador João Doria e do prefeito Bruno Covas, ambos do PSDB. No caso de Doria, as opiniões negativas chegam a 44%. Já o trabalho do prefeito é visto como regular pela maior parcela dos habitantes da cidade (45%) A desaprovação ao presidente não apenas é alta, mas também extremada: 40% dos paulistanos consideram a gestão péssima, e apenas 8% a veem como ruim. Ou seja, no universo dos eleitores insatisfeitos, oito em cada dez dão ao governo a pior avaliação possível.
O resultado da pesquisa foi colhido em meio à crise provocada pela pandemia do novo coronavírus, e já mede a reação dos paulistanos às primeiras medidas do presidente e de seus auxiliares no enfrentamento do problema.
O fato de a desaprovação ao governo estar alta em São Paulo deve ser preocupante para o presidente porque a cidade concentra parte significativa de seus eleitores, e porque o desgaste pode ser um indicador do que acontece em outros redutos. No primeiro turno da disputa presidencial de 2018, Bolsonaro teve 2,8 milhões de votos na capital paulista, quase 1,5 milhão a mais do que o segundo colocado, Fernando Haddad (PT). Em porcentuais, o resultado foi 45% a 20%. No segundo turno, Bolsonaro venceu com o voto de seis em cada dez paulistanos.
O Ibope não fez outras pesquisas recentemente sobre a avaliação do governo federal entre a população de São Paulo. Por isso não é possível saber exatamente o quanto o desgaste aumentou nos últimos meses.
Desaprovação mais concentrada entre as mulheres, os jovens e os mais pobres
A desaprovação à administração federal é mais concentrada entre as mulheres, os jovens e os mais pobres. A divisão do eleitorado por gênero revela uma grande disparidade na percepção sobre o desempenho do governo. Enquanto 47% do eleitorado feminino vê o governo como péssimo, a taxa é de apenas 31% entre os homens. Somadas as avaliações “péssima” e “ruim”, o resultado chega a 56% entre mulheres e 38% entre os homens – diferença de 18 pontos porcentuais.
Na segmentação por idade, a gestão é considerada péssima ou ruim por 55% dos eleitores de 16 a 24 anos, e por 39% dos que têm 55 anos ou mais. Em nenhuma faixa de idade a avaliação positiva supera a negativa.
Na base da pirâmide de renda, a maioria absoluta avalia o governo negativamente. Entre os eleitores que têm renda familiar de até um salário mínimo, 56% consideram a gestão péssima ou ruim, e apenas 15% a veem como boa ou ótima.
Até no eleitorado de renda mais alta, um reduto bolsonarista, a avaliação negativa supera a positiva – embora a distância entre as taxas seja menor. Dos que ganham mais de cinco salários mínimos, universo em que se encontram dois em cada dez moradores da cidade –, 32% consideram o governo bom ou ótimo, e 39% o veem como ruim ou péssimo.
A desaprovação ao governador João Doria está em nível similar à de Bolsonaro na capital (44%, em empate técnico com os 48% do governo federal). A diferença é que, no caso do governador, as opiniões não estão tão concentradas no quesito “péssimo” (29%), embora essa avaliação ainda fique à frente da opção “ruim” (17%).
A avaliação negativa de Doria é maior entre os mais escolarizados, abrangendo quase metade do contingente com curso superior. Não há diferenças significativas de opinião nos distintos segmentos de gênero, idade e renda.
Já a gestão do prefeito Bruno Covas é considerada boa ou ótima por 20%, regular por 45% e ruim ou péssima por 32%. Não há variações significativas conforme a segmentação do eleitorado.
O Ibope ouviu 1.001 eleitores de 16 anos ou mais entre os dias 17 e 19 de março. O nível de confiança utilizado é de 95% – ou seja, há 95% de chances de os resultados ficarem dentro da margem de erro, que é de três pontos porcentuais para mais ou para menos. O levantamento foi contratado pela Associação Comercial de São Paulo.
Maioria tem medo de coronavírus e apoia medidas de contenção, diz Datafolha
A chegada da pandemia do novo coronavírus assustou o brasileiro e mudou seu cotidiano.
Medidas recentes adotadas por diferentes governos modificaram a vida nas cidades. Já não se pode circular livremente, e diversos estabelecimentos —públicos e privados— tiveram que fechar suas portas nos últimos dias.
Ainda assim, a maioria dos entrevistados pelo Datafolha diz concordar com esse tipo de ação mais severa.
A percepção foi colhida por pesquisa do Datafolha de quarta (18) a sexta (20), feita por telefone devido à pandemia. Foram ouvidas 1.558 pessoas e a margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou menos.
As ações oficiais para tentar conter o vírus têm alta aceitação: 92% concordam com a suspensão de aulas, 94% aprovam a proibição de viagens internacionais e 91% são favoráveis à interrupção nos campeonatos de futebol do país, por exemplo.O fechamento de fronteiras é apoiado por 92%. O encerramento do comércio, em vigor em várias cidades, divide opiniões: 46% são a favor, 33% são contra e 21%, aprovam parcialmente.
A suspensão de celebrações religiosas, ponto contencioso com alguns líderes evangélicos, é aprovada por 82%.
Já a quarentena temporária, ou seja, o isolamento forçado em casa, tem apoio de 73%, ante 24% que a rejeitam e 2% que se dizem indiferentes.
Neste sábado (21), o governo paulista anunciou uma quarentena de 15 dias no estado, a partir da terça (23).
A população tem bastante conhecimento sobre o vírus e teme ser contagiada. Praticamente todos (99%) dizem saber da questão, 72% deles se considerando bem informados. Para 24%, o grau de informação é mediano, e 3% se veem desinformados.
O percentual daqueles que dizem ter adotado o trabalho em casa é mínimo: 1%.
A pandemia é vista com gravidade. Para 88%, trata-se de um problema sério, ante 11% que a relativizam e 1% que não sabem dizer.
E quem vai morrer? O Datafolha mostra que, para o brasileiro, serão os mais velhos (85% acham isso), os mais pobres (50%) e homens (40%, ante 13% de mulheres e 37% que creem em isonomia).
Há bastante homogeneidade nas opiniões segundo os diversos estratos da pesquisa.
No geral, os entrevistados consideram o Brasil um pouco preparado para a crise (54%), enquanto 34% acham que o país não está pronto. Acham que está muito 10%, índices que se assemelham na avaliação do brasileiro em si, do SUS, da rede privada de saúde e de empresas.
INSTITUTO EVITOU PESQUISA NA RUA DEVIDO AO VÍRUS
A pesquisa Datafolha realizada de quarta (18) a sexta-feira (20) utilizou o método telefônico para evitar o contato pessoal entre pesquisadores e entrevistados em meio à pandemia.
Os limites impostos pela técnica não prejudicaram as conclusões devido à amplitude dos resultados apurados e pelos cuidados adotados. A pesquisa procurou representar o total da população adulta do país.
Esse método não se compara à eficácia das pesquisas presenciais feitas nas ruas ou nos domicílios. É por isso que, apesar de aproximadamente 90% dos brasileiros possuírem acesso pelo menos à telefonia celular, o Datafolha não adota esse tipo de método em pesquisas eleitorais, por exemplo.
O método telefônico exige questionários rápidos, sem utilização de estímulos visuais, como cartão com nomes.
Além disso, torna mais difícil o contato com os que não podem atender ligações durante determinados períodos do dia, especialmente os de estratos de baixa classificação econômica.
Assim, mesmo com a distribuição da amostra seguindo cotas de sexo e de idade dentro de cada macrorregião, e da posterior ponderação dos resultados segundo escolaridade, dados com método telefônico não são comparáveis com os de pesquisa de rua anteriores.
Foram entrevistados 1.558 brasileiros adultos que possuem telefone celular em todas as regiões do país. A margem de erro da pesquisa é de três pontos percentuais, para mais ou para menos.
Os militares e o presidente - Antonio Carlos Will Ludwig, O Estado de S.Paulo
Com a eleição de Bolsonaro, muitos militares passaram a ocupar cargos na administração pública federal. Parece razoável supor que eles os assumiram por determinados motivos, como a afinidade profissional, o desejo de contribuir para o sucesso do governo e a conquista de prestígio pessoal e notoriedade, entre outros. Talvez possa existir um número extremamente reduzido de interessados em apoiar ações contrárias ao adequado funcionamento da democracia.
Provavelmente a atitude antidemocrática não mais exista no interior dos quartéis. Se há alguma, está internalizada na mente de um grupo insignificante. Diversos fatos que afloraram ao longo do tempo agiram no sentido de seu abafamento e superação. Presumivelmente o ponto de partida está no ano de 1964, quando emergiram sérias divergências entre os militares quanto à conveniência da intervenção e ao prazo de entrega do poder aos civis, que mostraram a inexistência da homogeneidade de tal atitude.
As condutas não democráticas que surgiram no decorrer dos 20 anos provocaram manifestações de repúdio no meio civil e a consequente perda de prestígio das Forças Armadas no âmbito social. Isso levou os militares a repensar e modificar seus comportamentos em função do novo cenário político emergente. Nos últimos anos de governança autoritária tiveram de aturar as manifestações pelas Diretas-Já. No final da década de 1990 foi criado o Ministério da Defesa, que pôs as Forças Armadas simbólica e realmente sob o comando de ministros civis. Desde esse período até mais recentemente tiveram de conviver com presidentes e partidos políticos de centro-esquerda. Sofreram, ainda, sérios constrangimentos com revelações que vieram à tona em relatório produzido pela Comissão Nacional da Verdade. Mais importante de tudo é o fato de a sociedade ter elegido as Forças Armadas como a instituição mais confiável do País na atualidade.
Por causa de sua atitude anti-intelectual, é presumível que o presidente da República desconheça as particularidades do perfil dos atuais servidores fardados. Além disso, e por sua predisposição corporativa, ele deve estar interessado em fazer agrados aos militares, particularmente aos oficiais superiores e oficiais-generais, que são os principais responsáveis pelo funcionamento das organizações bélicas. Convites para ocupar postos relevantes no governo, criação de colégios militares, institucionalização das escolas cívico-militares, afã pela aprovação da reestruturação da carreira militar, comparecimento frequente a solenidades em em quartéis, aceitação da greve realizada pelos policiais no Nordeste, destinação de mais de US$ 7 bilhões à Emgepron, envio de US$ 6 bilhões extras para o Ministério da Defesa e o acerto com o governo Trump para fomentar a indústria nacional de armamento autorizam a pensar que ele deve ter também a intenção de afagá-los para consolidar um forte estreitamento de relações, embora haja justificativas para esses atos.
No que diz respeito aos demais setores do Estado, a conduta dele tem sido bem diferente. Com efeito, acumula desavenças com a Câmara dos Deputados, com o Senado, com o partido que o elegeu e não lhe dá mais sustentação e com o Supremo Tribunal Federal. Além disso, maltrata diariamente jornalistas e sempre que tem oportunidade anatematiza os meios de comunicação. Sua mais recente atitude foi convocar o povo para passeata contra os Poderes legalmente constituídos. Tal atitude, ao lado do estímulo concedido às manifestações virtuais e reais solicitadoras da volta dos militares ao poder e vários outros comportamentos já manifestados que se mostram como um atentado à democracia, revela que não tem compromisso algum com o regime democrático.
Consequentemente, nada impede de supor que ele tenda a acreditar que essas ações favoráveis aos militares, ao lado da ausência de discordâncias e críticas dos que o cercam quanto às suas investidas antidemocráticas, reverterão em apoio não só destes, mas também dos demais integrantes das Forças Armadas, em termos da concretização de atos destinados a protegê-lo de qualquer tentativa de isolamento ou de possível afastamento do cargo e dotá-lo de superpoderes para governar o País. Felizmente, não há nenhuma garantia de que isso possa vir a acontecer. Parece inexistir dúvida, então, de que a melhor e talvez a única maneira de torná-lo um incondicional respeitador da democracia consiste em alijá-lo desse seu suposto e mais relevante apoio.
Assim, ela requer a progressiva e discreta saída dos militares que ocupam os postos mais relevantes no governo e a não substituição deles por outros dotados de qualificação semelhante e que nutrem o desejo de ocupá-los. O outro apoio que ainda deve ter, ou seja, o minoritário porcentual de votos obtidos na eleição, não se revela capaz de lhe prestar o socorro necessário para salvar os intentos que desde há bom tempo vem acalentando, haja vista a manifestação bastante acanhada de 15/3, mesmo levando em conta a ameaça do novo coronavírus. Ressalte-se que essa solução tende a ser a mais conveniente e eficaz para enquadrá-lo nas exigências da vida política democrática.
PROFESSOR APOSENTADO DA ACADEMIA DA FORÇA AÉREA, É AUTOR DE ‘DEMOCRACIA E ENSINO MILITAR’ (CORTEZ) E ‘A REFORMA DO ENSINO MÉDIO E A FORMAÇÃO PARA A CIDADANIA’ (PONTES)
Momento exige forte abordagem multissetorial
21 de março de 2020 | 03h00
À medida que a América Latina (AL) começa a lidar com o aumento dos casos de covid-19, há um fato marcante que vale a pena considerar. Embora não tenhamos sido capazes de prever detalhes exatos desta pandemia, sabemos há anos que os riscos de uma pandemia global vêm aumentando, com potencial para grandes repercussões em toda a economia global.
Então, por que parece que esta crise surgiu do nada?
A resposta é que os indivíduos geralmente identificam riscos facilmente perceptíveis – seja por exposição pessoal, pela cobertura da mídia, ou ambos – como os mais ameaçadores. Já os riscos que não estão diretamente à nossa frente tendem a passar despercebidos. E por muitos anos o risco de uma pandemia não foi o principal na lembrança dos indivíduos.
Dados da Pesquisa de Percepção Global de Riscos, do Fórum Econômico Mundial, com cerca de participantes, demonstraram isso. Na última década as doenças infecciosas classificaram-se entre os cinco principais riscos percebidos apenas uma vez, em 2015, logo após a epidemia de ebola, quando ficou em segundo lugar, considerando seu impacto. Embora a pesquisa solicite aos participantes que levem em consideração os últimos dez anos, no ano seguinte as doenças infecciosas não aparecem mais entre os principais riscos. Em vez disso, o que nossa pesquisa mostrou foi que, a partir de 2016, questões relacionadas ao clima começaram a dominar a percepção de riscos de nossos entrevistados. Não por acaso esse ano foi o mais quente já registrado.
O mesmo fenômeno pode ser visto em pesquisa separada realizada pelo Fórum em 2019 com líderes empresariais. Nela os entrevistados na AL classificaram a propagação de doenças infecciosas como risco menor que o de fazer negócios na região. O único país do mundo a considerar as doenças infecciosas em primeiro lugar foi a Guiné, que passara pela crise do ebola alguns anos antes. Mas os líderes empresariais na AL estavam mais preocupados com os desafios de governança, sociais e econômicos – o que não surpreende, dados os eventos recentes, incluída a onda de protestos que ocorriam então.
De fato, é da natureza humana sentir-se mais ameaçado pelo que parece mais próximo. Mas um perigo em potencial é que, quando um risco é excluído de nossas linhas de visão coletivas, ele pode não ser corrigido e podemos estar mal preparados para lidar com isso quando se manifestar.
O que podemos fazer para nos prepararmos melhor para os riscos no futuro?
Para começar, devemos estar cientes de nossos pontos cegos. Ainda que, com razão, tenha havido um aumento da preocupação com a mudança climática em muitos países nos últimos anos, não devemos deixar de considerar que outros riscos ainda persistem. Da mesma forma, à medida que a atenção do mundo agora se volta para o surto de covid-19, a comunidade global não pode deixar de lutar por ações mais ambiciosas quanto às mudanças climáticas, ou por soluções para os desafios de segurança cibernética e segurança internacional.
Com a pandemia do coronavírus, já vimos importantes cúpulas climáticas canceladas, como a Cúpula Mundial dos Oceanos, no Japão, e dificuldade em reagendar a Convenção sobre Diversidade Biológica. Embora precisemos dar conta de novos perigos e enfrentar a pandemia, é importante que não paremos o importante trabalho de organizar a comunidade global para aumentar a ambição relativa à ação climática.
Simultaneamente, devemos adotar medidas que tornem menos provável a ocorrência de pontos cegos coletivos. Nesse aspecto, é fundamental uma forte estrutura global multissetorial – uma em que governos, empresas e organizações internacionais cooperem, visto que diversos atores têm perspectivas diversas e tendem a ter pontos de contato diversos nas sociedades. Garantir que uma variedade de atores nas regiões e indústrias estejam em contínua comunicação oferece maior possibilidade de que os riscos que se distanciaram das linhas de visão diretas de uma parte ainda sejam contabilizados coletivamente.
Mas, sejamos claros, é impossível prever e ter uma vigilância constante relativamente a todos os riscos potenciais ao nosso redor.
Portanto, devemo-nos posicionar para estar prontos para lidar com os riscos que se materializam. Mais uma vez, relativamente a esse aspecto, é fundamental uma estrutura multissetorial. Basta olhar para 2009 para perceber a importância que teve uma estrutura multilateral pronta para encaminhar a economia global no sentido da recuperação. O G-20, por exemplo, por estar em posição de reunir rapidamente os governos, conseguiu lançar o Quadro para um Crescimento Forte, Sustentável e Equilibrado, que ajudou a evitar uma recessão mundial.
No momento em que o coronavírus está dominando a nossa atenção, é fundamental uma forte abordagem multissetorial – por meio de organizações internacionais e iniciativas globais – com vista à criação da resiliência e à preparação para futuras consequências econômicas, políticas e sociais. Mas, talvez tão importante quanto isso, também é fundamental para garantir que estejamos em posição resiliente relativamente aos riscos que não estão diretamente à nossa frente neste momento.
PRESIDENTE DO FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL



