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Bolsonaro confronta ação de governadores, que reagem

Marlla Sabino e Emilly Behnke, O Estado de S.Paulo

 

BRASÍLIA, SÃO PAULO E RIO  – O presidente Jair Bolsonaro criticou nesta sexta-feira, 20, medidas adotadas por governadores para evitar a disseminação do coronavírus. Na visão dele, ações como o fechamento do comércio, adotado nas maiores cidades do País e defendido por especialistas, podem prejudicar a economia e serem usadas para enfraquecê-lo politicamente. O paulista João Doria (SP) afirmou que os chefes do Executivo estão tomando atitudes porque o presidente se omite. Wilson Witzel (PSC), do Rio, classificou como “passo de tartaruga” a velocidade do Planalto em dar respostas à crise. 

Presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta em coletiva na quarta-feira, 18
Presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta em coletiva na quarta-feira, 18 Foto: Dida Sampaio/Estadão

As críticas aos governadores foram feitas nas duas vezes em que Bolsonaro apareceu publicamente. “Tem certos governadores que estão tomando medidas extremas, que não competem a eles, como fechar aeroportos, rodovias, shoppings e feiras”, disse o presidente, pela manhã, ao deixar o Palácio da Alvorada. Mais tarde, numa entrevista coletiva, ele voltou ao assunto. “Tem um governo de Estado que só faltou declarar independência do mesmo”, afirmou, sem detalhar sobre a que se referia.

“Tem uns falando em liberar pedágio, energia. Aí cria expectativa. O governo federal e estadual não têm condições de bancar isso. Essas falsas expectativas não podem vir no bojo de uma campanha política”, declarou o presidente. Dois dos chefes de Executivo estadual que reagiram às falas de Bolsonaro já demonstraram pretensão de concorrer às eleições em 2022.

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Montadoras param e põem mais de 100 mil em férias coletivas ou banco de horas

Cleide Silva, O Estado de S. Paulo

 

A indústria automobilística saiu à frente no setor industrial e quase todas as montadoras já anunciaram fechamento temporário de fábricas a partir de segunda-feira para tentar evitar a disseminação do novo coronavírus. O número de funcionários que ficarão em casa já passa de 100 mil.

 

Até ontem, 14 marcas que administram 35 unidades produtivas de veículos e motores em vários Estados informaram a suspensão total da produção por períodos que variam de três semanas a um mês, mas com possibilidade de prorrogação, se necessário.

Montadoras
Freada das montadoras terá grande reflexo nos seus fornecedores de peças e matéria-prima; setor de autopeças acompanha o impacto  Foto: Tiago Queiroz/Estadão

As negociações das paradas foram feitas com os respectivos sindicatos de trabalhadores e envolvem, até agora, cerca de 104 mil funcionários, sendo uma parte pequena de filiais da Argentina. A maioria do pessoal do chão de fábrica entrará em férias coletivas ou terá banco de horas para futura compensação, enquanto o pessoal administrativo fará home office.

Só ontem confirmaram dispensa dos funcionários da área de produção de todas as fábricas locais as empresas ToyotaScaniaHondaBMWFCA Fiat ChryslerRenaultPSA Peugeot Citroën e MAN/Volkswagen Caminhões e Ônibus.

FordGeneral MotorsMercedes-BenzVolkswagen e Volvo já tinham anunciado a parada total da produção. Entre as maiores montadoras, apenas a Nissan ainda não decidiu pela parada total da fábrica no Rio de Janeiro, mas afirma que reduziu os riscos com menos trabalhadores na fábrica (os administrativos estão trabalhando em casa). “Mas estamos fazendo monitoramento constante para assegurar a saúde dos funcionários”, assinala a empresa.

Caoa Chery colocará os 540 funcionários da fábrica de Jacareí (SP) em lay-off (suspensão temporária de contratos). A empresa voltou atrás em 70 demissões anunciadas na quarta-feira, após greve de um dia na unidade. Esses operários ficarão em casa por três meses, enquanto os demais deverão retornar em maio.

Autopeças

A paralisação das montadoras terá grande reflexo nos fornecedores de peças e matéria-prima. O Sindicato Nacional das Indústrias de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças) informa que o setor está acompanhando o movimento das montadoras e os impactos no mercado local e internacional.

“Não é possível, neste momento, fazer estimativas quanto aos efeitos da pandemia no setor, assim como na economia em geral”, informou a entidade. Fornecedores ligados a outros segmentos estão se antecipando. A Pirelli vai suspender a produção de pneus nas três unidades locais a partir de segunda-feira. A Tupy já paralisou suas linhas na quinta-feira. 

O presidente da Federação dos Sindicatos dos Metalúrgicos da CUT de São PauloLuiz Carlos da Silva Dias, informa que tem se reunido constantemente com os sindicatos patronais, com o Sindipeças, e que na segunda-feira essas entidades vão apresentar propostas para enfrentar o momento de epidemia. O Estado concentra cerca de 190 mil metalúrgicos de vários setores, como autopeças e máquinas e equipamentos.

“As empresas estão preocupadas, pois várias têm compromissos e nem todas as montadoras vão parar”, afirma Dias. “Elas também querem garantir acordos para o futuro, como outras alternativas caso a epidemia se prolongue e também formas de recuperar a produção.”

Dias ressalta que, “o bom é que, até agora, nenhuma entidade patronal falou em demissões” e que a preocupação é buscar alternativas manter o quadro atual de trabalhadores.

Projeção de Mandetta para coronavírus não faz sentido

Vinicius Torres Freire / FOLHA DE SP
SÃO PAULO

Não faz sentido a projeção que o ministro da Saúde fez sobre o aumento do número de casos de Covid-19, nesta tarde.

Luiz Mandetta disse que abril deve ser de “subida rápida” e que isso vai durar até junho, quando começaria a “tendência de desaceleração”. Deve haver algum equívoco grave de comunicação aqui.

No ritmo atual do aumento do número de casos da doença, a população brasileira inteira teria ficado doente de Covid-19 entre os dias 28 e 29 de abril, daqui a cerca de 40 dias. Logo, a desaceleração deve ocorrer antes do fim desse mês. Certamente antes de junho. Mas essa projeção é mera aritmética.

Pensando um pouco mais em aspectos óbvios da evolução da epidemia, a afirmação de Mandetta faz ainda menos sentido. Há outros motivos que podem fundamentar a especulação razoável de que a desaceleração (a inflexão da curva para baixo) deve ocorrer antes do final de abril.

Pensando no limite algo absurdo: mantido o ritmo atual de contágio, a população brasileira inteira teria sido contaminada até antes do final de abril, pois pelo menos uma parte de nós teria morrido de Covid-19.

 

Além do mais, uma tal projeção teria de ter como premissa a ideia de que não há modo algum de deter a expansão do novo coronavírus. Isto é, teríamos de pressupor que as atuais medidas que favorecem o distanciamento social não façam efeito algum.

Seria preciso especular ainda que o vírus é capaz de alcançar todo e qualquer habitante do país, mesmo em populações isoladas. Mais ainda, seria preciso pressupor que o vírus fosse capaz de infectar qualquer pessoa —que não existiria ninguém com alguma imunidade natural por aí (pode ser raro, mas acontece).

Talvez o ministro estivesse se referindo à curva de novos casos diários da doença —chegou a fazer uma menção à China, onde o número de novas confirmações da doença caiu muito em março. Ainda assim, a desaceleração chinesa teve início no começo de fevereiro.

O Japão parece apenas ainda se aproximar de uma desaceleração. No entanto, o crescimento do número de casos é bem menor do que foi o chinês e está sendo o do Brasil (um quarto da velocidade). Os demais casos de desaceleração precoce ou de achatamento da curva de crescimento também ocorreram em países asiáticos.

Na Alemanha, o crescimento de número de casos confirmados ainda se acelera, a um ritmo maior que o do Brasil (a epidemia começou lá um pouco mais cedo).

Talvez o ministro tenha informação sobre o número de contágios originados por cada doente? Na verdade, um número europeu?

Pode ser que o atual ritmo do crescimento do número de infecções diminua em breve, mas permaneça veloz, fazendo muitas vítimas por um tempo mais longo. Mas essa é outra história. Há pelo menos um equívoco de comunicação no que disse o ministro.

Despreocupação com os panelaços é preocupante... - JOSIAS DE SOUZA

Josias de Souza

Colunista do UOL

20/03/2020 18h39

Nos últimos dias, as ruas e as janelas forneceram sinais valiosos. Mas Jair Bolsonaro, de posse das informações, tirou suas próprias confusões.

"Não tem preço", disse o presidente ao confraternizar com apoiadores, na frente do Planalto, na manifestação anti-Congresso e anti-STF.

"Não estou preocupado com panelaço", afirma agora Bolsonaro sobre o som estridente das panelas, que voltou a soar por trás das cortinas. A avaliação de Bolsonaro está errada nos dois casos.

A manifestação de domingo teve um preço político. E não saiu barato.

Ao estimular a aglomeração e confraternizar com apoiadores na quina do meio-fio, o presidente da República reforçou a impressão de que menospreza um fenômeno com potencial para descer ao verbete da enciclopédia como a maior e mais devastadora pandemia da história.

Bolsonaro parecia cutucar a sociedade com o pé para ver se ela ainda morde. Os panelaços representam os dentes de uma classe média que emite sinais de enfado com o comportamento do presidente.

Ao dizer que não está preocupado com o alarido das panelas, Bolsonaro afirma, com outras palavras, o seguinte: "Quem não está gostando que se dane."

O capitão parece supor que a fidelidade de sua tropa de apoiadores é suficiente para levá-lo ao segundo turno em 2022. Trata-se de uma aposta cada vez mais arriscada.

"Eu estou preocupado com o vírus, com a saúde e com o emprego do povo brasileiro", disse Bolsonaro. Admita-se que as palavras sejam sinceras. Nesse caso, o orador precisa parar de supervalorizar o "Messias" que carrega no sobrenome.

Se as panelas servem para alguma coisa é para informar que um pedaço da classe média brasileira enxerga evidências de que o "Messias" do Planalto precisa concluir que também está sujeito à condição humana. Um pouco de humildade faria bem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Coronavírus aumenta crise política entre Bolsonaro e Witzel

QUANDO ALIADOS ERA ASSIM

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), fez duras críticas ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) nesta sexta-feira, 20. Em entrevista à TV Globo, Witzel reclamou das dificuldades de conseguir apoio para combater a pandemia do coronavírus. Sem citar Bolsonaro, o ex-juiz federal afirmou que ele não pode fazer política diante da crise da doença no país. Segundo Witzel, falta diálogo não apenas com o estado, mas também com outros governadores. Ex-aliados, os dois são possíveis adversários na eleição presidencial de 2022.

“Estamos fazendo a nossa parte. Estamos regulamentando aquilo que entendemos que é fundamental para salvar vidas. O governo federal precisa fazer a sua parte. Nós não temos diálogo com o governo federal. Não só apenas eu. Os governadores, para se comunicarem com o governo federal, precisam mandar uma carta. Não há diálogo com os governadores. Estamos trabalhando a mil por hora tentando ajudar a população. As pessoas estão perdendo emprego, desesperadas, querem saber como vão comer. O governo federal precisa entender isso, precisa entender que é para ontem. Enquanto estamos tomando medidas aqui, o governo federal fica fazendo política. Não queremos ser uma Itália. Então, pelo amor de Deus! Precisamos parar com isso. Vamos trabalhar!”, atacou Witzel.

Na noite da última quinta-feira, Wilson Witzel divulgou, no Diário Oficial, um decreto determinando uma série de proibições a partir da meia-noite deste sábado por causa do coronavírus. Entre elas, o governador fechará as divisas do estado, e os aeroportos, inclusive a ponte-aérea Rio-São Paulo. No entanto, essas medidas ainda dependem do aval de agências reguladoras. À GloboNews, o ministro de Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, disse que o decreto de Witzel referente a essas suspensões não é válido. O governador rebateu:

“Temos que discutir como vamos proteger a nossa população. Recebemos, recentemente, um avião da Espanha sem nenhum controle, sem saber de onde vinham as pessoas e para onde iam. Agora, é hora de ter responsabilidade. O decreto, se tem validade ou se não tem validade… o que temos que fazer é ajudar as pessoas. O governo federal tem que assumir a sua responsabilidade”.

Mais cedo, no Palácio do Alvorada, Bolsonaro também criticou Witzel. De acordo com o presidente, “parece que o Rio de Janeiro é outro país”, porque o governador fluminense teria tomado medidas que não competem a ele. Para Bolsonaro, algumas determinações dos governadores “prejudicam os mais pobres e podem causar saques”.

“Estão tomando medidas, no meu entender, exageradas. Fecharam o aeroporto do Rio de Janeiro. Não compete a ele, meu Deus do céu! A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) está à disposição. É uma agência autônoma que está aberta para todo mundo, para conversas. Eu vi ontem um decreto do governador do Rio que, confesso, fiquei preocupado. Parece que o Rio de Janeiro é um outro país. Não é outro país. Você tem uma federação”, disparou Bolsonaro.

Mesmo com a pandemia do novo coronavírus no mundo, não há qualquer interlocução entre o Witzel e Bolsonaro. A falta de diálogo é decorrente de uma briga que já se arrasta desde o ano passado quando o político fluminense anunciou que iria concorrer à Presidência. Em novembro do ano passado, após trocarem acusações públicas envolvendo o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), o governador pediu uma audiência ao presidente, sendo ignorado. O desprezo presidencial acirrou mais os ânimos. VEJA

Carta ao Leitor: O papel do jornalismo

REPORTERES DA VEJA

Nos últimos anos, por horror à verdade e com claro projeto de manipulação da opinião pública, governantes populistas e suas hostes elegeram a “grande mídia” como inimiga e passaram a classificar de fake news as notícias que lhes desagradavam. O presidente americano Donald Trump foi quem acendeu o rastilho dos ataques ao trabalho da imprensa, ao deflagrar sua campanha, em 2016.

Em seguida, foi copiado em outros países e até no Brasil. Talvez fosse desnecessário reafirmar a relevância do papel do jornalismo sério e cuidadoso, ancorado em fontes de informações confiáveis, mas a preocupante pandemia de Covid-19 abre uma nova janela de oportunidade para reconhecer a importância dos profissionais comprometidos com a verdade.

A mentira e o diversionismo político, que se espraiavam como um vírus em tuítes presidenciais, precisam sair de cena. Cidadãos de todo o mundo, muitos já recolhidos em casa, em atitude adequada e esperada, buscam agora conhecimento por meio de revistas, jornais, emissoras de televisão e rádio, sites e podcasts de credibilidade. Não por acaso, mas por dever e em nome de um serviço de utilidade pública, VEJA, em consonância com a postura de outros veículos de comunicação, abriu gratuitamente a não assinantes, em seu portal, todas as postagens de sua equipe de reportagem sobre saúde.

Vivemos tempos difíceis, que pedem calma, clareza, grandeza e transparência. Assim, VEJA seguirá perseguindo neste momento uma meta que nunca abandonou, em seus mais de cinquenta anos de existência: a missão de informar corretamente os brasileiros. Entre as reportagens sobre a Covid-19 apresentadas na edição desta semana, a revista traz uma de conteúdo excepcional.

Durante dois dias, a editora Adriana Dias Lopes e o repórter fotográfico Egberto Nogueira estiveram nas dependências do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, um dos mais respeitados do país, que recebeu o paciente número 1 (já curado) dos casos de coronavírus no Brasil e rapidamente se tornou referência no combate à doença.

Ao mostrar o cotidiano de médicos, enfermeiros e toda a equipe de um hospital, legítimos heróis de nosso tempo, a dupla transporta o leitor para o coração da História, com H maiúsculo — sem exageros, sem acobertamentos, sem fake news, em suma. Movidos pela determinação do bom jornalista, algo que toda a redação de VEJA se orgulha de ostentar, Adriana e Nogueira se cercaram de cuidados em sua empreitada — ao ingressarem no front de batalha, as instalações do Einstein, vestiram macacões especiais, luvas e máscaras para circular por lá devidamente protegidos, como mandam as normas hospitalares internacionais. Depois do notável trabalho, entraram em quarentena.

É o que chamamos, no jargão da profissão, de “esforço de reportagem”. Esforço que VEJA não freará, como nunca freou, em nome da matéria-prima que alimenta a contribuição dos órgãos de imprensa à sociedade: o zelo pela correção, pelo rigor, pelos fatos (e não suas versões), pela orientação sensata — enfim, pela notícia.

Publicado em VEJA de 25 de março de 2020, edição nº 2679

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