Coronavírus: Bolsonaro inclui salão, barbearia e academia como 'atividades essenciais'
Por Guilherme Mazui e Pedro Henrique Gomes, G1 — Brasília
O presidente Jair Bolsonaro incluiu nesta segunda-feira (11) as atividades de salões de beleza, barbearias e academias de esportes na lista de "serviços essenciais". Isso significa que, no entendimento do governo federal, as atividades podem ser mantidas mesmo durante a pandemia do coronavírus.
O decreto foi publicado em uma edição extra do "Diário Oficial da União" no fim da tarde. Com essa inclusão, o número de atividades consideradas essenciais chegou a 57.
Liberação não é automática
Ainda que o governo federal estabeleça quais atividades podem continuar em meio à pandemia, o Supremo Tribunal Federal (STF) já decidiu que cabe aos estados e municípios o poder de estabelecer políticas de saúde – inclusive questões de quarentena e a classificação dos serviços essenciais.
Ou seja, na prática, os decretos presidenciais não são uma liberação automática para o funcionamento de serviços e atividades.
No último dia 29, ao incluir outros 14 setores como serviços essenciais, o governo federal afirmou no decreto que a lista "não afasta a competência ou a tomada de providências normativas e administrativas pelos Estados, pelo Distrito Federal ou pelos Municípios, no âmbito de suas competências e de seus respectivos territórios".
Sem participação de Teich
Nos três novos itens, o texto do decreto afirma que precisam ser "obedecidas as determinações do Ministério da Saúde".
Questionado sobre o tema no mesmo instante em que o texto foi publicado, entretanto, o ministro Nelson Teich disse não ter relação com a autorização.
"Isso não é atribuição nossa, é decisão do presidente. A decisão de atividades essenciais é uma coisa a ser definida pelo Ministério da Economia. O que eu realmente acredito é que qualquer decisão que envolva a definição, de uma atividade ser essencial ou não, passa pela tua capacidade de fazer isso de uma forma que proteja as pessoas", afirmou.
Teich foi questionado, em seguida, se não seria recomendável que o Ministério da Saúde participasse desse debate. O ministro ficou em silêncio por alguns segundos e, depois, disse que precisaria "pensar melhor" sobre o tema.
"Honestamente, tenho que pensar melhor nesta pergunta. Neste momento, a resposta seria não, porque é uma atribuição do Ministério da Economia. Vejo a Saúde participando sempre, a partir do instante que ela ajuda a definir formas de fazer que possam proteger as pessoas", disse.
O ministro não detalhou quais seriam essas "determinações do Ministério da Saúde', citadas no decreto presidencial, para garantir a segurança de clientes e funcionários em academias, salões e barbearias.
'Um milhão de empregos'
Antes da publicação oficial, Bolsonaro adiantou a liberação das categorias durante conversa com jornalistas na porta do Palácio da Alvorada, residência oficial da presidência.
“Essas três categorias juntas dão mais de um milhão de empregos. Pessoal, vou repetir aqui, vou apanhar de novo. A questão da vida tem que ser tratada paralelamente a questão do emprego”, disse o presidente.
Questionado, o presidente negou que as sucessivas inclusões na lista de serviços essenciais sejam uma tentativa de burlar as regras locais.
“Eu não burlo nada. Se você está me acusando disso, você me desculpa, você se equivocou aí. Saúde é vida. Quem está em casa, agora como sedentário, por exemplo, está aumentando o colesterol dele, problema de estresse, um monte de problema acontece. Se ele puder ir numa academia, logicamente, de acordo com as normas do Ministério da Saúde, ele vai ter uma vida mais saudável”, argumentou.
Bolsonaro também foi questionado se deseja incluir outros serviços no rol de atividades essenciais.
“Se eu tenho na cabeça? Tenho. Vamos esperar o que acontece nessas de hoje para a gente publicar esse demais aí”, afirmou, sem especificar quais seriam as atividades em estudo.
Bolsonaro promove corrupção brasileira do furto para o assalto à mão armada
O ex-deputado Roberto Jefferson postou uma foto em que carrega um fuzil e se diz pronto para defender o Brasil do comunismo sob as ordens de Jair Bolsonaro.
Sem querer, produziu a melhor síntese do bolsonarismo até agora: o bolsonarismo é o momento em que a corrupção brasileira passou do furto ao assalto à mão armada.
Não foi, a propósito, o primeiro contato do ex-deputado com a extrema direita. Vamos lá, tente adivinhar, o que foi que Roberto Jefferson fez antes com a extrema direita? Resposta no próximo parágrafo.
Você acertou, ele roubou da extrema direita. Em 19 de março de 2010, Jefferson publicou um artigo na seção Tendências/Debates deste jornal, em que argumentava que era a ideologia esquerdista que fazia o PT roubar. Não se sabe que ideologia o inspirou nesse caso, mas o fato é que o artigo era roubado: era plágio de um artigo de Olavo de Carvalho, que escreveu à Folha no dia seguinte reclamando. Jefferson colocou a culpa em “um antigo colaborador”.
O centrão, a propósito, sempre teve uma facção armada, a bancada da bala.
O sujeito ouve “bancada da bala” e pensa, “nossa, deve ser tudo capitão Nascimento, tudo sujeito violento, mas honesto”. Não, filho. O chefe da bancada da bala, deputado Alberto Fraga, foi gravado em 2009 reclamando que um de seus assessores, Júlio Urnau, estaria, supostamente, recebendo mais suborno do que ele. Ao fim da conversa, concluía: “E eu com cara de babaca aqui, entendeu?”.
Jair Bolsonaro sonha em dar um ministério para Fraga. Pensou em entregar-lhe o Ministério da Segurança Pública como forma de enfraquecer Sergio Moro. E nós com cara de babaca, aqui, entendeu?
Mas se engana quem pensa que tudo isso faz do bolsonarismo “mais do mesmo”.
Bolsonaro é muito pior do que “o mesmo”. Os outros governos compravam o centrão burlando as regras da democracia, mas preservavam a democracia.
Ao contrário do PT, por exemplo, Bolsonaro poderia, se quisesse, ter construído uma maioria parlamentar ideologicamente coesa. A esquerda sempre foi muito minoritária no Parlamento, mesmo quando vencia a eleição presidencial. Mas o atual Congresso Nacional é o mais conservador de todos os tempos.
O PSL poderia ter facilmente se tornado um partido grande, se o próprio Bolsonaro não o tivesse rachado ao meio. Partidos como o DEM poderiam ter fornecido quadros liberais para uma coalizão que se contentasse em ser conservadora dentro da democracia.
Se quisesse, Bolsonaro poderia ter montado um governo mais limpo, não por ser mais honesto –nunca, em hipótese alguma– mas porque há muitos deputados que defendem pautas conservadoras mais ou menos de graça.
Bolsonaro não quis compor uma maioria conservadora dentro da democracia.
Fez guerra ao DEM e ao PSDB o tempo todo, e ainda faz, mesmo quando eles defendem propostas do governo. Se Bolsonaro topou entregar todos os cargos que o centrão quis, mas não os que o DEM quis, é porque não está comprando votos para aprovar reformas liberais.
Bolsonaro está comprando o centrão para aprovar pautas autoritárias e, sobretudo, para evitar o impeachment. Ele sabe que a República qualquer dia desses acorda. E que, quando acordar, vai querer saber por que tem dez mil filhos a menos.
'Quem dará habeas corpus ao Supremo?', questiona general

11 de maio de 2020 | 08h30
Caro leitor,
Horas depois de o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), ameaçar buscar debaixo de vara os ministros e generais Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Walter Braga Netto (Casa Civil) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) uma tempestade desencadeou-se em grupos de WhatsApp e em conversas privadas de militares. Ela chegou aos ouvidos civis, na maioria das vezes, por meio de entrevistas ou pelo texto de repúdio do Clube Militar, a chamada Casa da República, no Rio.
Uns poucos escreveram sobre o episódio. O general Luiz Eduardo Rocha Paiva, que tem cargo de assessor no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, distribuiu aos amigos um artigo. Após afirmar que a crise entre os Poderes ruma "em direção à ruptura" em meio a uma emergência sanitária, ele adverte: se tudo desaguar "em convulsão social e anomia", os militares vão intervir. "Essa indesejável presença irá acontecer para salvar o próprio Estado de Direito, a democracia e a paz interna."
Rocha Paiva continua. Enxerga excessos nas ações dos Supremo para conter os ímpetos de Jair Bolsonaro. "Quem tem certeza da própria autoridade moral não precisa decidir com ameaças provocativas e inúteis. Serenidade e bom senso é o que se espera das autoridades da República, ao invés de egolatria nociva e disruptiva em momento tão delicado." Ocorreu ao general lembrar a famosa indagação atribuída ao marechal Floriano Peixoto, quando este soube da hipótese de ministros do Supremo soltarem os envolvidos na Revolta da Armada. "Não sei amanhã quem lhes dará o habeas corpus de que, por sua vez, necessitarão."
A exemplo dos generais – como Ajax Pinheiro, hoje no STF – que enxergavam uma conspiração no Brasil para tornar o País em uma Venezuela – plano que o governo parece executar –, Rocha Paiva e seu texto foram vistos como uma ameaça. "Os generais precisam ler o Código de Processo Penal. Nele está o artigo 218, que autoriza, no caso de a testemunha deixar de comparecer sem motivo justificado, o juiz a requisitar que ela seja conduzida por oficial de Justiça, que poderá solicitar o auxílio da Força Pública", diz o procurador de Justiça João Benedito de Azevedo Marques. Ele prossegue: "Generais não são imperadores. São cidadãos e, como todos os demais, devem se submeter ao texto da lei."
É conhecido o fato de que a República nasceu sob o signo do soldado-cidadão. Era ele que reivindicava o direito de ser ouvido e respeitado no Império, bem como contribuir para a progresso da Nação. Se então se acumulavam os agravos aos homens das armas, também incomodava à mocidade militar o privilégio, em todas as suas relações com a sociedade, como se dizia à época. E entre os privilégios, o maior de todos eles: o monástico, que se afirmava inviolável e irresponsável. A defesa da honra militar era usada ainda pelos republicanos para galvanizar a guarnição do Rio.
Oliveiros Ferreira, em sua obra Elos Partido, aborda o tema que alguns pretendem pôr na mesa da atual crise: o papel da honra, em vez da legalidade, na vida militar. É ela que fez o general e deputado federal Roberto Peternelli (PSL-SP) considerar que o agravo de Celso de Mello aos três generais-ministros atingia a todos do estamento. Um colega seu, também general de divisão, afirmou que "cabe ao comandante do Exército, como chefe de fato e de direito de todos os militares da ativa e da reserva do Exército Brasileiro, exigir respeito, rejeitar os termos da convocação e, se assim for, fazê-la cumprir pelos meios julgados adequados".
A República, assim, parece se transformar em um grande Conselho de Justificação, o tribunal de honra cuja decisão final deve ser homologada pelo comandante da Força. E as questões do Direito – nas palavras de Azevedo Marques – seriam apenas um problema dos paisanos, dos civis, reduzidos à condição de cidadãos de segunda categoria, aos quais se obriga o cumprimento da lei. É verdade –e assim enxergam criminalistas ouvidos pela coluna – que a citação à condução debaixo de vara não era obrigatória. Chegou-se a um limite? Àquele pretendido por Bolsonaro para mostrar que a vara do Supremo é curta? "Onde o ministro quer chegar? Vai prender o Exército?" questionou Peternelli.
O que uns poucos militares – sob a condição de anonimato – se perguntam é por que os generais-ministros não pensaram, antes de aceitarem o convite para participar deste governo, que a vida pública reserva esse tipo de dissabor aos que nela se aventuram. Nada mais longínquo das situações resolvidas pela ordem, pela disciplina e hierarquia do que o ambiente dos embates parlamentares. Não calcularam os três que a relação com um presidente como Bolsonaro – com sua personalidade errática, impulsiva e indisciplinada –poderia lhes render intimações e o envolvimento em ações judiciais? Quem preza pela sua honra, deve zelar pela suas escolhas.
Atribuir ao Supremo e ao Congresso os dissabores proporcionados pelo descontrole de Bolsonaro em meio à pandemia e ao deboche presidencial diante de 11 mil mortes no País, é enxergar os problemas no telhado do vizinho de forma estranhamente nítida, sem perceber que a própria vidraça está quebrada. E quem jogou a pedra não tinha braço forte o suficiente para arremessá-la desde o outro lado da Praça dos Três Poderes. Foi a mão amiga do presidente que fez o estrago. "Como dizer que se defende a democracia e os poderes constituídos quando se comparece à manifestação pedindo um golpe?" pergunta-se o procurador Azevedo Marques.
Um dos generais que se revoltara com o despacho do Supremo, lamentou: "Uma pena que falte a Bolsonaro tato político, que ele não tem, e se comporta como um macaco na casa de louças". Sabem, portanto, os militares as fontes dessa crise. E é sob o signo dos princípios da República que os generais-ministros de Bolsonaro vão depor amanhã. Trata-se da igualdade perante à lei, aquela que inexistia no Império e, assim, vedava ao Judiciário alcançar a figura de dom Pedro II. É este o princípio que aqueles que buscaram no passado fugir do exame dos tribunais por meio de infindáveis recursos sempre quiseram driblar. E aqui, cada vez mais, o governo atual não só parece emular seus antecessores. Pior, segundo Sérgio Moro, ele os ultrapassa.
Peternelli diz que amanhã será um dia de escolhas difíceis para os generais em Brasília. Eles não têm nada contra a intimação – diz –, mas têm a honra a preservar. Há três semanas, foi a vez de Moro. Em 2002, fora a vez de Azevedo Marques, que se demitira da Secretaria Nacional de Justiça, porque o governo não quis intervir no Espírito Santo para combater o crime organizado. Cumprir a ordem do Supremo será mais um lance no xadrez dessa crise. E ele será dado por um governo que não conta mais com o consenso que manteve na caserna, desde seu primeiro dia. Os últimos acontecimentos, da queda de Moro à entrega de cargos e verbas ao Centrão, romperam sua imagem de moralidade aos olhos verde-oliva. Mas não só. As críticas se multiplicaram.
Uns se ofenderam com as insinuações golpistas do presidente. Duas dezenas de oficiais da ativa compartilharam em suas redes sociais a nota do Ministério da Defesa desmentindo que as Forças Armadas fossem um instrumento de governo. Um general mudou o nome de seu perfil e o protegeu antes de compartilhar crítica ao comportamento do presidente na pandemia. Outro oficial, um tenente-coronel de Cavalaria, escreveu ao lado da foto de Moro: "A minha melhor continência a esse Patriota!" E repetiu sua frase: "Faça a coisa certa, sempre". Um slogan que, em 2022, pode dizimar Bolsonaro e seu governo, cada vez mais entregue ao deboche de ministros, como o dançarino Weintraub. Os militares voltaram à política. E não parecem dispostos a deixá-la.
Seis meses após deixar prisão, Lula não assume protagonismo na oposição a Bolsonaro
10 de maio de 2020 | 13h10
Quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou a carceragem da Polícia Federal, em Curitiba, em 8 de novembro do ano passado, lideranças partidárias avaliavam que, fora da prisão, ele poderia ajudar a organizar a oposição contra o presidente Jair Bolsonaro. Seis meses depois de deixar a prisão, porém, o petista não encontrou o protagonismo político que tinha no passado, mantém pouca interlocução com outros setores da oposição e praticamente não tem diálogo com segmentos da sociedade fora do campo da esquerda. Acostumado a tomar algumas das principais decisões do partido, Lula foi confrontado recentemente em uma escolha do PT em Pernambuco e não atuou para resolver impasse em torno da candidatura para a prefeitura de São Paulo.
“Foi paradoxal. O PT conquistou o que mais almejava, mas a libertação de Lula não despertou qualquer nova energia no partido. Para quem esperava um Lula capaz de articular-se com outras forças políticas, ampliando sua interlocução com a centro-esquerda e até com o centro, foi uma decepção. Ele não conseguiu - ou não quis”, avalia o cientista político Carlos Melo, do Insper. “Lula preso tensionava muito mais com a política do Brasil do que, agora, livre”, disse.
De novembro para cá, Lula não se reuniu nem com antigos aliados, como os presidentes do PDT, Carlos Lupi, e do PSB, Carlos Siqueira. O deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), chegou a publicar um texto no qual acusava Lula de dar uma canelada na sigla aliada. O ex-presidente José Sarney (MDB) e outros antigos parceiros políticos já reclamaram a interlocutores do que chamam de isolamento de Lula. Presidentes de centrais sindicais que não são ligadas ao PT também divulgaram texto reclamando da postura estreita do ex-presidente.
“Ele está bastante recluso, bastante contido, acho até que por orientação dos advogados. Não está aquele Lula de antigamente. Acho que ele está tentanto salvar a biografia e o principal instrumento que ele tem que é o PT. Ao mesmo tempo que faz isso, se isola”, disse Lupi, que foi ministro do Trabalho de Lula.
Para Siqueira, os sinais de que Lula teria uma atuação menos ampla foram dadas logo em seu primeiro discurso após deixar a prisão, quando defendeu que o PT lance candidatos próprios em todas as grandes cidades brasileiras este ano. “Podia ter sido um discurso de unidade das forças de esquerda mas foi um discurso exclusivista, pensando no PT, como se estivéssemos vivendo a normalidade democrática”, disse ele.
A presidente nacional do PT, deputada Gleisi Hoffmann, disse que começou a articular encontros de Lula com os presidentes das outras siglas de oposição antes da pandemia e deve retomar as conversas depois da quarentena.
Exceções nas agendas de Lula são encontros com Guilherme Boulos (PSOL), líderes de movimentos sociais e acadêmicos, intelectuais e especialistas em diversas áreas para debater questões como economia e saúde.
Lula passou um ano e meio preso, após ser condenado em segunda instância a 12 anos e um mês de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá. O processo já chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), que reduziu a pena a 8 anos e 10 meses. A análise de um recurso, marcada para a última terça-feira, foi adiada pela Corte. No dia 6, o Tribunal Regional Federal da 4ª. Região (TRF-4), a segunda instância da Lava Jato manteve a condenação do petista a 17 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro em outra investigação, a do sítio de Atibaia.
Depois que deixou a prisão, o ex-presidente se dedicou a resolver questões familiares e ao novo relacionamento com a socióloga Rosângela da Silva, a Janja. Os dois alugaram uma casa onde vivem juntos em São Paulo. No final de ano, o casal viajou em férias.
Tambem têm tomado tempo de Lula as disputas internas do PT. No início do ano, ele participou de uma reunião para arbitrar a disputa entre o setor do PT de Pernambuco que defende o apoio a João Campos (PSB) e os que advogam pela candidatura própria da deputada Marília Arraes (PT-PE) para a prefeitura do Recife. Segundo relatos, Lula tentou impor o nome de Marília mas foi confrontado pelo senador Humberto Costa (PT-PE), que defende a aliança com o PSB. A postura de Costa era inimaginável no PT dois anos atrás.
Além disso, o ex-presidente evitou tomar lado na disputa interna da corrente interna CNB pela tesouraria do partido, que durou meses, e também não tem se esforçado para evitar a virtual indicação de Jilmar Tatto como candidato a prefeito de São Paulo, embora já tenha dito mais de uma vez que o PT vai ser “esmagado” entre as duas candidaturas de esquerda (Boulos e Luiza Erundina pelo PSOL e Márcio França pelo PSB) caso Tatto seja o candidato.
Para lideranças petistas, são sinais de que Lula hoje depende mais do PT do que o partido depende dele, ao contrário do que ocorreu nos últimos 40 anos.
Na tentativa de ganhar protagonismo, Lula tem intensificado as transmissões ao vivo pela internet e entrevistas a rádios e jornais regionais e veículos do exterior. Segundo o ex-ministro Aloizio Mercadante, presidente da Fundação Perseu Abramo, o ex-presidente relutou muito em aceitar as novas tecnologias de videoconferências e reuniões on-line. “Ele resistiu mas agora está vendo que é imprescindível”, disse o ex-ministro.
Petistas avaliam que Lula tem fora do Brasil o protagonismo que ainda não conseguiu alcançar na política nacional. Em fevereiro, ele viajou para o Vaticano, onde se encontrou com o Papa Francisco. No mês seguinte, recebeu o título de cidadão parisiense na França. Gleisi afirma que não vê a atitude de Lula como isolamento, mas, sim, um novo posicionamento político, dadas as circunstâncias do momento.
Com relação às próximas eleições, auxiliares dizem Lula não descarta novas alianças para fora da esquerda, mas não está disposto e não vê condições para repetir a ampla conciliação com empresários e partidos políticos que o ajudou a se eleger em 2002. Os termos seriam outros. Um dos motivos é a adesão de grande parte da elite ao bolsonarismo. “Acho muito importante reestabelecer este debate mas uma parte do empresariado aderiu ao bolsonarismo, fez campanha para o Bolsonaro”, disse Mercadante.
Embora diga sempre que uma possível candidatura não é o centro de suas preocupações, amigos apostam que Lula pensa em voltar à Presidência da República. Mas para isso precisa, antes, recuperar seus direitos políticos. O ex-presidente foi enquadrado na lei da Ficha Limpa ao ser condenado em segunda instância por corrupção passiva e lavagem de dinheiro nos casos do tríplex do Guarujá e do sítio em Atibaia.
Justiça bloqueia bens de sócios que venderam respiradores com 'problemas técnicos' no Pará
Ana Paula Niederauer, O Estado de S.Paulo
O governador do Estado do Pará, Helder Barbalho (MDB), anunciou em vídeo, na tarde deste domingo, 10, que o Tribunal de Justiça paraense bloqueou os bens dos sócios da SKN do Brasil Importação e Exportação Eletroeletrônicos LTDA, empresa que vendeu os respiradores com problemas técnicos para o Estado, além da retenção dos passaportes para que eles não possam sair do Brasil.
Os Ministérios Público Federal e Estadual e a Polícia Federal investigam a compra de 400 equipamentos, que foi feita sem licitação, para o tratamento de pacientes com o estado mais grave do novo coronavírus.
O primeiro lote com 152 respiradores apresentou falhas técnicas durante o processo de instalação e ainda não pode ser usado. A remessa dos aparelhos chegou na última segunda-feira, 4, junto com mais 1.580 bombas de infusão. Cada respirador custou R$126 mil aos cofres do governo estadual.
O governador Helder Barbalho garante que já entrou em contato com a fornecedora chinesa para que o problema seja solucionado.
“Só há dois caminhos: ou [os sócios] nos entregam os respiradores como nós compramos, funcionando com qualidade para salvar a vida das pessoas ou irão ter que ressarcir o Estado do prejuízo causado. Aqui estamos tratando com seriedade e transparência”, declarou Helder Barbalho.
“Se lesarem o Estado, irão sofrer as devidas repreensões e ações judiciais. Quero agradecer a justiça do Estado do Pará, que, em plantão, neste domingo, decidiu a favor do Estado”, disse Barbalho.
'Que fazer?' J.R. Guzzo, O Estado de S.Paulo
É curioso o que está acontecendo hoje no Brasil. A cada dia que passa, o presidente da República faz alguma coisa que parece desenhada sob medida para tumultuar o seu próprio governo, como se tivesse certeza de que o pior desastre que pode lhe acontecer é viver quinze minutos de paz. (Neste momento de confusão extrema, acredite se quiser, conseguiu achar espaço para arrumar uma briga com a sua ministra-secretária da Cultura, a atriz Regina Duarte, cuja relevância no meio das calamidades atuais oscila ao redor do zero. Justo agora? Não poderia ficar para um pouco mais tarde? Não: ninguém aqui vai perder uma oportunidade para sair no braço.) Ao mesmo tempo, as forças que querem tirá-lo de lá antes da hora prevista na Constituição parecem cada vez mais incapazes de armar uma ação coerente, lógica e eficaz para conseguir isso.
É a velha história da vida política: quando todo mundo diz que “agora não dá mais” e, ao mesmo tempo, não se faz nada de concreto além de falar, é sinal de que ninguém está conseguindo agir no mundo das coisas práticas. Se realmente não “dá mais”, então por que continua dando? Não se trata de falta de vontade – é falta de meios. Como tantas vezes ao longo da História, a questão se resume na inesquecível pergunta de Lenin: “Que fazer?” O Revolucionário Número 1 de todos os tempos sabia muito bem que, sem responder a essa pergunta, o Czar continuaria sentado até hoje no trono da Rússia. Em sua volta, todos faziam os discursos mais devastadores, ano após ano - e continuavam no exílio. Lenin, em vez disso, só pensava em sair do exílio e ir para o governo. Não queria ficar indignado. Queria agir.
É o que está faltando hoje para as múltiplas camadas de opositores do presidente Jair Bolsonaro: saber com precisão o que devem fazer para ele sair do Palácio do Planalto antes de 1º. de janeiro de 2023, quando acaba o seu mandato legal na presidência. Nada parece funcionar. Havia muita esperança, por exemplo, no depoimento do ex-ministro Sergio Moro no inquérito que apura as circunstâncias de sua demissão. Mas depois de oito horas de declarações, o que realmente sobrou de concreto foi a afirmação de que ele, Moro, nunca disse que Bolsonaro cometeu algum crime nos quinze meses de relacionamento que tiveram no governo. Um ministro do STF proibiu Bolsonaro de nomear um diretor para a Polícia Federal; ele nomeou outro, igual ao primeiro, e ficou por isso mesmo, pois não dá para continuar vetando todos os nomes que o presidente escolher. Esperava-se que o Supremo se unisse para acertar alguma maneira legal de deter ou depor Bolsonaro; mas os ministros não estão de acordo entre si.
A questão, no fim das contas, não é estabelecer, numa escala de zero a dez, o quanto Bolsonaro é um mau presidente; seus inimigos acham que é onze. A questão é saber quantos dos 513 deputados federais e 81 senadores, exatamente, vão votar a favor de um impeachment – o único caminho disponível para depor o chefe de Estado sem violar a Constituição, coisa que requer força armada e não é possível neste momento no reino das realidades. A “sociedade” não tem voto aí. Ninguém mais, além dos parlamentares, está autorizado a julgar o presidente: ou dois terços dos membros do Congresso concordam em depor o homem, ou ele não sai.
Para quem não quer mais a situação que está aí, a prioridade talvez devesse ser outra - em vez de ficar tentando tirar Bolsonaro agora, que tal começar a trabalhar de verdade para que ele não seja reeleito? O fato é que vai ser preciso ganhar uma eleição em 2022. Se vierem com candidatos parecidos com os de 2018, vamos continuar na mesma.




