Cúpula entre Xi e Trump terá na IA um tema estratégico
Por Editorial / O GLOBO
Quando os líderes das duas superpotências globais se reúnem, todo o planeta é afetado. Na agenda do encontro entre Donald Trump e Xi Jinping na China a partir de amanhã, estarão temas inescapáveis, como o tarifaço americano ou a reabertura do Estreito de Ormuz no Oriente Médio. Qualquer consenso em torno dessas pautas teria efeitos econômicos benéficos, em especial o arrefecimento das pressões inflacionárias mundiais. Há também temas de interesse específico para o Brasil, como a possibilidade de, em troca de alívio tarifário, os chineses comprarem mais soja e carne dos americanos, em prejuízo dos brasileiros. E há, por fim, temas estratégicos, com impacto talvez menor no presente imediato, mas relevância maior num futuro não tão distante. É o caso da inteligência artificial (IA).
Como os riscos da IA são superlativos, é fundamental que os dois países na vanguarda da tecnologia sejam capazes de mitigá-los por meio de uma cooperação produtiva. Está em aberto quanto Trump e Xi avançarão na questão. Ela abrange não apenas aspectos abstratos, como o perigo de armas autônomas ou o efeito insondável da tecnologia no mercado de trabalho. Há também questões concretas relativas à IA que opõem China e Estados Unidos.
É o caso das terras-raras e demais minerais críticos para a transição energética, hoje controlados pela China — sem uma matriz energética limpa, o processamento colossal de dados necessário para a IA terá efeitos ambientais intratáveis. Ou da soberania sobre Taiwan, ilha reivindicada pelos chineses onde são produzidos os chips essenciais para a IA funcionar. Não há discussão sobre terras-raras ou Taiwan que possa passar ao largo da tecnologia.
Os benefícios da IA já são palpáveis em inúmeras atividades e, à medida que empresas americanas e chinesas se aproximam do ideal (ainda teórico) de sistemas superinteligentes com capacidade superior à humana — estágio conhecido como IA Geral —, aumentarão ainda mais. Na mesma proporção, crescem também as preocupações. Os temores estão fundamentados num fato incontornável: a tecnologia é impenetrável, e é impossível prever quando tomará decisões nefastas.
As dúvidas têm despertado hesitação entre os pioneiros da IA. Depois de resistir a cooperar com usos militares da tecnologia, o CEO da Anthropic, Dario Amodei, restringiu o acesso a seu modelo mais avançado, o Mythos (sucessor do Claude), a poucas grandes corporações, entre elas até concorrentes. O Mythos demonstra enorme capacidade de identificar falhas em programas e poderia explorar como ninguém vulnerabilidades em sistemas de segurança. Amodei acredita que é preciso testá-lo à exaustão para evitar o pior.
Diante dos riscos da IA, a cooperação entre Estados Unidos e China seria bem-vinda. O ideal é haver um acordo que preveja testes de segurança dos modelos de IA. Outra meta desejável é uma instituição multilateral para lidar com os riscos, inspirada na Agência Internacional de Energia Atômica. Talvez seja exigir demais de Trump, que acabou com as tímidas salvaguardas instauradas pelo governo anterior. Os chineses tampouco têm mostrado interesse em medidas restritivas e apostam em modelos compactos, de baixo consumo.
Os dois países acreditam que quem chegar primeiro à IA Geral terá vantagem imbatível sobre o adversário. O perigo é a própria IA Geral se tornar um adversário imbatível.
Master: Diálogos entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro são prenúncio de carnificina eleitoral
Por Malu Gaspar / O GLOBO
A revelação de que Daniel Vorcaro negociou com Flávio Bolsonaro (PL) pagamentos de R$ 62 milhões para um filme sobre a vida de Jair Bolsonaro usando uma empresa laranja deixou toda a direita desnorteada. Na semana passada, o ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro, Ciro Nogueira (PP), recebeu a Polícia Federal em casa em virtude da apuração que liga sua “emenda Master” a contrapartidas generosas e milionárias.
Os dois episódios machucam a candidatura bolsonarista, reforçam o rótulo “BolsoMaster” que o PT bolou para martelar durante a campanha e dão um respiro aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) atingidos pelo escândalo. Mas não garantem que Lula terá sossego daqui para frente.
Um experiente observador de Brasília com quem conversei outro dia definiu bem a situação ao dizer que Vorcaro comprou todo mundo que estava à venda. Tinha “irmãos” e “amigos de vida” em todo o espectro ideológico e em todos os níveis hierárquicos que importam nos três Poderes. A investigação entrou no mundo político pela direita e pelo Centrão, mas há denúncias para todos os gostos, e tudo o que puder ser explorado politicamente será.
A dúvida do momento é sobre quanto os brasileiros se guiarão por essas revelações para decidir o voto. A Genial/Quaest divulgada ontem traz dois dados interessantes. O primeiro mostra que 54% não tomaram conhecimento das investigações sobre Ciro Nogueira. O segundo, que desde março subiu de 40% para 46% a quantidade de brasileiros para quem o escândalo do Banco Master afeta a todos — de Lula a Bolsonaro, passando pelo Congresso, pelo Supremo e pelo Banco Central.
Agora, porém, é o próprio candidato a presidente o afetado por uma denúncia. E, pelo menos por enquanto, sabe-se que, enquanto Lula recebeu Vorcaro no Palácio do Planalto numa reunião com testemunhas para uma discussão em que, pelos relatos, não se comprometeu com nada, Flávio se encontrou com ele a sós mais de uma vez, além de trocar mensagens cheias de intimidade cobrando repasses de recursos e chamando o banqueiro de “irmão”.
A reportagem do Intercept Brasil que revelou o caso ontem mostrou ainda que o dinheiro para o filme de Bolsonaro não foi aportado como patrocínio aberto e transparente, e sim por meio de uma empresa laranja. Não está claro como foram feitos os pagamentos, mas há nas mensagens conversas em que se discute o envio de dólares a uma conta no exterior cujo titular é o advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro.
Fornecer uma explicação convincente e limpa para tudo isso é bem difícil, mas a experiência mostra que os apoiadores fiéis da direita e da esquerda costumam aceitar qualquer história que venha de seus mitos, por mais furada que seja.
Só que a disputa deste ano tende a repetir a de 2022, fortemente polarizada e decidida pelos “independentes” — que preferiam não ter de votar nem em Lula e nem em Flávio, mas acabarão tendo de escolher entre um e outro. É por esses votos que se dará a batalha de 2026, e seria ingenuidade acreditar que o bolsonarismo não reagirá.
Prever quem vence a guerra é impossível a esta altura, mas é fácil ver o potencial do caso Master para transformar a eleição de outubro numa carnificina típica de Quentin Tarantino, para usar a metáfora cinematográfica. Nos filmes do diretor, é comum os personagens matarem uns aos outros no final, e quem fica vivo nem sempre é o herói da história.
Universidade sem censura
A polarização político-ideológica impactou de modo nefasto os princípios fundamentais que regem o ensino superior, por vezes criando um ambiente intelectual sufocado por práticas persecutórias. Como reação necessária, professores e pesquisadores lançaram o Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica —que já tem mais de mil assinaturas.
Interditos se dão seja por meio de notas de repúdio e campanhas em redes sociais contra docentes, pesquisadores e alunos, seja por meio de boicote a aulas, cancelamento de eventos e intimidação de palestrantes.
Exemplos não faltam. Pesquisa da Universidade Federal Fluminense compilou mais de cem casos nos últimos anos, entre eles o abaixo-assinado de estudantes da USP contra o retorno da professora Janaina Paschoal.
Em 2022, candidatos do Novo foram impedidos de dar palestra na Unicamp; no ano seguinte, ativistas e pesquisadores declararam Richard Miskolci, professor da Unifesp, persona non grata por sua crítica ao conceito de cisgeneridade; em 2024, a UnB cancelou o curso do professor Jorge Gordin, da Universidade Hebraica de Jerusalém, após protestos antissionitas do alunado.
Trata-se de condutas inaceitáveis no ambiente acadêmico. Afinal, o respeito a ideias divergentes, à liberdade de expressão e ao debate racional, baseado em dados e critérios técnicos, é condição essencial da produção de conhecimento. A universidade é, por natureza, antiautoritária.
Por isso, o manifesto demanda o comprometimento com três pilares. Primeiro, a neutralidade institucional: "universidades devem evitar adotar posições oficiais sobre questões políticas ou ideológicas". Já a liberdade acadêmica exige "uma cultura organizacional pró-dissenso" que impeça perseguição e interdição de professores, pesquisadores e alunos por suas opiniões.
Por fim, o pluralismo advoga a expansão dos currículos para que abarquem obras de referência de campos diversos em disputa, como liberalismo, conservadorismo e progressismo.
Pesquisa do Instituto Sivis de 2025 mostra que 48% dos universitários evitam emitir opinião sobre assuntos polêmicos, principalmente sobre política, enquanto outra realizada pela USP e pela UFBA no mesmo ano aponta que 61% dos professores já evitaram certos temas por medo de sanção moral, política ou jurídica.
Universidades precisam conter o autoritarismo que estimula tal autocensura. Só assim poderão cumprir sua missão institucional e garantir legitimidade.
Fim da 'taxa das blusinhas' é ponta do iceberg eleitoreiro
Por si só, a tal "taxa das blusinhas" tem impacto modesto na receita do governo e na economia, embora afete uma quantidade expressiva de consumidores. Sua revogação, porém, é uma amostra de como o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está disposto a sacrificar a prudência e a coerência administrativa em nome da corrida eleitoral.
A tributação de importações de pequeno valor, em especial provenientes da China, era uma demanda de varejistas nacionais que foi rapidamente encampada pela Fazenda petista, ansiosa por medidas capazes de elevar a arrecadação —e tentar, inutilmente, conter o déficit orçamentário impulsionado pela escalada contínua do gasto público.
É verdade que houve idas e vindas até a adoção da norma, pois Lula percebeu que haveria riscos para sua popularidade. No entanto, o presidente da República sancionou a norma —um imposto de 20% sobre importações até US$ 50, antes isentas— em junho de 2024, quando ela foi incluída pelo Congresso em mais um projeto do Executivo para auxílio à indústria automobilística.
Se o líder petista tomou a providência a contragosto, auxiliares importantes ficaram satisfeitos. O vice, Geraldo Alckmin, que ocupou também a pasta do Desenvolvimento, defendeu a proteção a empresas nacionais; o ex-ministro Fernando Haddad, da Fazenda, apontou a importância de evitar fraudes e contrabando —e a arrecadação federal ganhou cerca de R$ 5 bilhões anuais.
A decisão de revogar a taxa após menos de dois anos de vigência seria mais facilmente defendida por um governo preocupado em abrir a economia à competição externa, ou que não tivesse um déficit fiscal projetado em quase R$ 60 bilhões neste ano, sem contar gastos com juros.
Trata-se apenas, porém, de uma ponta de iceberg na ofensiva eleitoreira de Lula. Há apenas cinco dias, um levantamento da Folha apontou R$ 143,7 bilhões em benesses promovidas neste ano, entre gastos orçamentários e linhas de crédito.
De lá para cá, já se anunciaram R$ 11 bilhões para um novo plano de segurança pública, o fim da "taxa das blusinhas" e, nesta quarta-feira (13), mais subsídio para os combustíveis —desta vez, uma medida provisória para conter os preços da gasolina. Articula-se ainda no Congresso Nacional uma aprovação açodada da redução da jornada de trabalho.
Se, mesmo com esse ritmo frenético de uso da máquina pública, Lula permanece com baixos níveis de aprovação popular nas pesquisas de opinião, pode-se temer pelo que ainda virá nos quase cinco meses que restam até a abertura das urnas.
Recorde-se que, em 2022, Jair Bolsonaro (PL) chegou ao extremo de decretar um estado de emergência, aprovado com apoio da direita à esquerda, para viabilizar alta geral de gastos ao arrepio das leis fiscais e eleitorais. A polarização política, como se vê, vai incentivando heranças amargas para os governos seguintes.
A volta de Ciro: por que o Ceará virou teste decisivo na carreira do ex-presidenciável
Há dois desfechos antagônicos em teste na jornada de Ciro de volta às disputas estaduais: uma vitória dará fôlego político. Uma derrota dificilmente não sela o fim da sua carreira política.
O retorno ao ponto de partida
Desde a derrota nas urnas em 2022, quando obteve cerca de 3% dos votos no primeiro turno, Ciro acumulou reveses que fragilizaram sua posição no cenário nacional. Além do desempenho irrelevante nas urnas, o ex-presidenciável viu ruir o grupo político que construíra no Ceará. Nem a relação até então inabalável com o irmão Cid Gomes resistiu.
Em 2024, escapou o último reduto relevante sob sua liderança: José Sarto, então filiado ao PDT, perdeu a reeleição em Fortaleza, ainda no primeiro turno.
A filiação ao PSDB, sigla pela qual governou o Ceará nos anos 90, foi uma tentativa de se reapresentar ao eleitorado como o gestor técnico que um dia foi e que, na narrativa que tenta construir desde meados do ano passado, faz falta ao estado diante dos problemas de segurança pública e economia enfrentados na atual gestão petista.
A filiação ao PSDB, sigla pela qual governou o Ceará nos anos 90, foi uma tentativa de se reapresentar ao eleitorado como o gestor técnico que um dia foi e que, na narrativa que tenta construir desde meados do ano passado, faz falta ao estado diante dos problemas de segurança pública e economia enfrentados na atual gestão petista.
O PL, que abriga as lideranças alinhadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, está praticamente certo no palanque estadual do tucano. Para um político que construiu sua trajetória como alternativa tanto ao PT quanto à direita bolsonarista, aceitar esse flanco é uma contradição que precisará ser explicada ao eleitorado.
Os desfechos antagônicos
O que está em jogo em 2026 para Ciro vai além de uma disputa pelo Palácio da Abolição. Na prática, é um teste decisivo sobre sua própria relevância política.
Uma vitória no Ceará o mantém vivo como nome projetável para 2030. Uma derrota expressiva, após uma aliança que desafia sua própria base, pode representar o encerramento definitivo da carreira dele.
PF investiga esquema de fraudes em contratações públicas em Pindoretama e Ibiapina, no CE
A Polícia Federal deflagrou, na manhã desta terça-feira (12), a "Operação Papel em Branco", que investiga um suposto esquema de fraudes em contratações públicas envolvendo serviços de papelaria nos municípios de Pindoretama e Ibiapina, no Ceará.
Ao todo, foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão em Fortaleza e Pindoretama, por determinação da Justiça Federal. A ação conta com apoio da Controladoria-Geral da União (CGU).
Segundo a PF, a investigação apura possíveis irregularidades em dispensas de licitação realizadas por secretarias municipais, além de indícios de desvio de recursos públicos federais.
Durante a operação, os agentes buscam apreender documentos, aparelhos eletrônicos e outros materiais que possam auxiliar na identificação dos envolvidos e na análise da destinação do dinheiro público repassado aos municípios investigados.
Empresas movimentavam valores acima da capacidade operacional
As investigações começaram após um órgão de controle financeiro apontar movimentações consideradas incompatíveis com a capacidade operacional de empresas que participaram das contratações públicas. Também há suspeitas de repasses indevidos a agentes públicos.
De acordo com a Polícia Federal, os investigados poderão responder por crimes como corrupção, fraude em licitações e lavagem de dinheiro.
O material apreendido será analisado e as investigações seguem em andamento.


