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O troco de aliados de Bolsonaro no STF

COLUNA DA MALU GASPAR COM Por Rafael Moraes Moura— Brasília / O GLOBO

 

Após a polêmica decisão do ministro Gilmar Mendes, que dificultou o avanço de pedidos de impeachment contra integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF), aliados de Jair Bolsonaro passaram a discutir no bastidores do Senado Federal a elaboração de uma PEC para dar o troco na Corte. O objetivo é aumentar o número mínimo de votos exigidos para aprovar os indicados para assumir uma vaga no STF – dos atuais 41 para 54, o equivalente a ⅔ da Casa.

 

O assunto foi discutido em um almoço no mês passado em Brasília, segundo relataram ao blog quatro parlamentares ouvidos em caráter reservado, mas com o recesso parlamentar ainda não houve avanços nas tratativas.

De acordo com eles, a ofensiva não está diretamente relacionada às dificuldades do governo Lula em garantir a aprovação para o STF do advogado-geral da União, Jorge Messias, que enfrenta resistência entre alguns parlamentares da oposição que o veem como “quadro ideológico do PT” e “homem de confiança do Lula e da Dilma”.

 

A proposta seria mais uma forma de o Senado “retaliar” o Supremo, após o ministro Gilmar Mendes dar uma decisão, há um mês, em que esvaziava o poder de parlamentares e de cidadãos comuns de pedirem a cassação de magistrados, deixando essa prerrogativa apenas nas mãos da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Após forte pressão da opinião pública e do Congresso, Gilmar voltou atrás nesse ponto, mas manteve um outro trecho da decisão em que determinava que são exigidos 54 votos para abrir um pedido de impeachment contra ministros do STF, e não mais maioria simples.

 

“Se for aumentar [o número de votos exigidos] para [abrir] impeachment [contra ministro do STF], tem que aumentar para aprovação da indicação. Essa é a lógica, mas não está relacionada ao Messias”, disse ao blog um dos senadores envolvidos nas discussões.

“Se é 54 votos pra tirar [cassar um ministro do STF], é 54 votos para entrar [no STF] também”, concorda outro parlamentar.

 

A decisão de Gilmar foi interpretada nos bastidores da Corte como uma espécie de vacina para as eleições de outubro deste ano, quando aliados de Bolsonaro planejam formar maioria no Senado e desengavetar os mais de 80 pedidos de impeachment contra ministros do STF que aguardam análise do plenário.

 

Segundo Gilmar, “a intimidação do Poder Judiciário por meio do impeachment abusivo cria um ambiente de insegurança jurídica, buscando o enfraquecimento desse poder, o que, ao final, pode abalar a sua capacidade de atuação”.

 

Rejeição

Dos atuais 10 ministros que atuam no STF, dois poderiam ter tido a indicação ameaçada se essas regras já estivessem em vigor: André Mendonça e Flávio Dino, indicados respectivamente por Jair Bolsonaro e Lula.

Os dois atraíram rejeição de parte do Senado e foram aprovados com 47 votos, apenas seis a mais que o mínimo atualmente exigido.

 

Para um senador da oposição, conhecido pelo perfil moderado, a medida pode se voltar contra a direita e dificultar eventuais indicações ao STF desse campo, caso Lula seja derrotado nas próximas eleições.

 

“Eu particularmente prefiro deixar tudo do jeito que está”, afirmou.

A tramitação de uma PEC exige aprovação em dois turnos nas duas Casas (Câmara dos Deputados e Senado), com apoio de ⅗ dos membros de cada uma, ou seja, o endosso de 308 deputados federais e de 49 senadores.

 

Retrospecto

O histórico do Senado mostra que não é tão fácil assim derrubar uma indicação ao STF.

Na história da República, apenas o presidente Floriano Peixoto teve indicações rejeitadas pelo Senado — cinco ao todo, todas em 1894, entre elas a do médico Barata Ribeiro, que batiza rua no bairro de Copacabana, no Rio.

Conversas vãs

Por  Merval Pereira / o globo

 

– Bem que o Ministro dizia que estamos numa cleptocracia. 

– Mas ele disse isso quando apoiava a Lava-Jato.

– Mas, pelo jeito, tinha razão. Tá todo mundo envolvido nos Três Poderes.

– No Legislativo também?

– Você não viu aquele deputado que apresentou um projeto para colocar o limite do Fundo Garantidor de 250 mil para 1 milhão de reais? Do nada.

– Já era para prevenir. Sabia o que ia acontecer.

– Mas o caso de agora tem a ver com a Lava-Jato?

– Não diretamente. Mas o Ministro que acabou com a Lava Jato abriu a porteira.

– No julgamento do Mensalão, o advogado que fora ministro do governo que estava sendo julgado queria levar o caso para a primeira instância. Agora, querem ficar na última.

– Como as coisas mudam, não é? Os ministros que acusavam o governo de ser uma cleptocracia são os mesmos que agora defendem um banqueiro acusado de corrupção?

– Alguns dos principais ainda estão lá. O ministro que dizia que a cleptocracia era o problema, depois acabou com a Lava-Jato? O que deu nele?

– Dizem que os procuradores começaram a procurar muito sobre a mulher dele. E a do outro ministro.

– Ex-mulher. Eles se separaram.

– O que houve?

– Medo da Lei Magnitsky.

– Alguém acreditou nessa separação?

– Quem vai desacreditar de um ministro tão sério?

– E o outro ministro?

– Foi nomeado pelo governo que montava a cleptocracia. E não se sentiu impedido de julgar os casos que envolviam o partido.

– Assim como não se sente impedido de ser o relator do processo contra aquele banco que estava envolvido com seus parentes.

– Só soube que fora sorteado relator quando desceu do jatinho.

– Que jatinho?

– Pois ele não viajou de jatinho de um empresário amigo para ver o jogo do Palmeiras na final da Libertadores? Ao lado de um advogado do tal banco liquidado.

– Mas ele garante que não sabia, e que só conversaram sobre futebol .

– Mas ele podia se considerar impedido, pela coincidência.

– Aí sim iam pensar que ele estava comprometido. Quem vai duvidar de um ministro?

– Mas não precisava chamar para si o controle do caso, pois nenhum dos envolvidos tinha instância privilegiada.

– Não tinha um deputado federal metido na história?

– Nada. O deputado estava metido em outro negócio com o dono do banco, mas não estava sendo investigado. Aliás, não está sendo investigado, não tem nada a ver com a quebra do banco.

– E por que o ministro decretou sigilo no mais alto grau?

– Deve ter sido um engano. Ele voltou atrás, e permitiu que a Polícia Federal investigasse o caso.

– Médio, né? Agora encurtou o prazo dos interrogatórios, aumentou o prazo da investigação, e escolheu os próprios peritos da Polícia Federal. Parece até que quer controlar a investigação.

– O outro ministro resolveu incluir no inquérito das fake News as notícias sobre o contrato de advocacia do banco com o escritório da sua mulher e a compra de um resort de parentes do outro ministro por um fundo ligado ao banco que está sendo investigado.

– Quer dizer que são mentirosas essas notícias?

– Não, o contrato da mulher do ministro já foi avalizado pelo procurador-mor, está tudo legal.

– Mas o pagamento de mais de cem milhões de reais não é muito exagerado?

– Tá tudo legal, a princípio, pois o plenário já decidiu que parentes podem advogar em causas que o Tribunal está julgando.

– E o resort. Era mentira?

– Não, mas eles desconfiam que gente das internas andou vazando as informações para a imprensa.

– Mas será que é verdade?

– Se não fosse, o mais fácil seria desmentir.

– Mas você acha que um Ministro tem que desmentir alguma coisa? Desconfiar de um ministro, era só o que faltava.

– Mas por que o ministro está tão interessado nesse banco?

Ceará tem 34 cidades em situação de emergência por seca ou estiagem

Escrito por Clarice Nascimento / DIARIONORDESTE
 
 

Os dados são do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD), do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR). A mais recente portaria, publicada no último dia 14 de janeiro, confirmou o contexto de estiagem e seca, respectivamente, em Itapajé e Quixeramobim

Ao todo, são mais de 1,3 milhão de pessoas afetadas pelas situações de desastres no Ceará. Em oito cidades, a vigência do decreto termina ainda em janeiro. Nas demais, a data de encerramento ocorre entre fevereiro e julho de 2026. 

  • Estiagem: período prolongado de baixa ou nenhuma pluviosidade em que a perda de umidade do solo é superior à sua reposição;
  • Seca: estiagem prolongada durante período de tempo suficiente para que a falta de precipitação provoque grave desequilíbrio hidrológico.

Veja as cidades em situação de emergência no CE:

Estiagem:

  • Tabuleiro do Norte;
  • Acopiara;
  • Itatira;
  • Pedra Branca;
  • Salitre;
  • Boa Viagem;
  • Deputado Irapuan Pinheiro;
  • Paramoti;
  • Assaré;
  • Catunda;
  • Milhã;
  • Campos Sales;
  • Iracema;
  • Parambu;
  • Ibaretama;
  • Tauá;
  • Alto Santo;
  • Mombaça;
  • Aiuaba;
  • Caucaia;
  • Independência;
  • Itapajé.

Seca:

  • Quiterianópolis;
  • Saboeiro;
  • Quixadá;
  • Arneiroz;
  • Choró;
  • Piquet Carneiro;
  • Ibicuitinga;
  • Jaguaretama;
  • Morada Nova;
  • Madalena;
  • Potiretama;
  • Quixeramobim.

Com a condição oficializada, as gestões municipais podem solicitar apoio, consultar e acompanhar processos de transferências de recursos pelo sistema do MIDR.

Entre as ações da União para minimizar os impactos estão a compra de cestas básicas, água mineral, refeição para trabalhadores e voluntários, kits de limpeza de residência, higiene pessoal e dormitório. 

No caso da seca ou estiagem, esse procedimento é necessário para a inclusão na Operação Carro-Pipa, por exemplo.

A equipe técnica da Defesa Civil Nacional avalia as metas e os valores solicitados com base nas informações enviadas nos planos de trabalho. Com a aprovação, é publicada portaria no Diário Oficial da União (DOU) com o valor a ser liberado. 

Seca grave avança

Dados mais recentes do Monitor das Secas, ferramenta coordenada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) indicam que mais de 90 municípios cearenses apresentaram seca grave em dezembro de 2025. 

Esse número cresceu, em um mês, cerca de 38%. Em novembro, eram 65 municípios nessa condição, ou seja, 26,73% do território nessa categoria. 

No mesmo período, o Ceará já registrava 100% da extensão sob condição de seca relativa. O avanço da seca grave diminui a predominância da seca moderada no Estado, condição que abrangia 55,8% do território cearense. 

quixeramobim PONTE

 

A dura tarefa de disciplinar as emendas parlamentares

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Por meio de emendas, deputados federais e senadores podem hoje decidir o destino de pelo menos um quarto do Orçamento não destinado a despesas obrigatórias. A depender da evolução das receitas, a parcela neste 2026 pode passar de um terço do gasto discricionário.

A responsabilidade pela determinação de tamanho volume de recursos seria já em si enorme e controversa. O caso se torna mais grave devido ao fato de que o montante seja manipulado sem que existam projetos de aplicação, verificação de resultados e punições por ineficiências.

Pior, não é raro que tais verbas sejam desencaminhadas, em aplicações que beneficiam negócios e propriedades de parlamentares, ou simples objeto de corrupção.

Desde 2024, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), dedica-se a limitar a falta de transparência na elaboração e execução de emendas. Conteve a transferência opaca de recursos para governos municipais e estabeleceu critérios técnicos de elaboração de projetos. Acabou, assim, por forçar o Congresso a promover normas mínimas para o uso desse dinheiro.

Em uma nova investida, Dino acaba de proibir que um parlamentar destine verbas para ONGs administradas por parentes. É mais uma tentativa de circunscrever a privatização de recursos públicos, embora limitada —há emendas de autoria coletiva pelas quais parlamentares podem encaminhar dinheiro a uma entidade da família de um colega, em troca do mesmo favor.

Levantamento do jornal O Globo mostrou que repasses de emendas para ONGs se multiplicam desde 2019, atingindo o recorde de R$ 1,7 bilhão em 2025. Tudo indica, pois, que se trata de um mecanismo de apropriação quase direta de verbas.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também procura conter o arbítrio do Legislativo. Vetou R$ 400 milhões, travou a execução de mais de R$ 3 bilhões e pretende remanejar outros R$ 7 bilhões em emendas no Orçamento de 2026 —aprovado com cerca de R$ 60 bilhões em despesas fixadas por deputados e senadores.

São remendos em um tecido institucional roto pela expansão do poder congressista sem o equivalente aumento da responsabilização, da capacidade técnica e da lisura. O uso de emenda como instrumento paroquial e ineficiente de gasto público entranha-se no sistema político, forma currais, financia aliados regionais e diminui a concorrência eleitoral. Tornou-se vital para a corporação parlamentar.

Reverter esse processo —que se intensificou ao longo de uma sequência de presidentes politicamente fragilizados desde o segundo mandato de Dilma Rousseff (PT)— exigirá um complexo entendimento institucional.

Chegar a ele dependerá da força do Palácio do Planalto, de compromissos políticos e pressões da sociedade. Nas piores hipóteses, a mudança será forçada por escândalos incontornáveis ou por uma crise fiscal aguda.

Impessoalidade em prática

Por Notas & Informações / o estadão de sp

 

A prisão de Janaina Reis Miron, irmã do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), por força de mandados judiciais em aberto, lançou luz sobre uma das principais vitrines da atual gestão municipal: o programa Smart Sampa, sistema de monitoramento e reconhecimento facial espalhado por ruas e avenidas da capital paulista. O episódio, por envolver um familiar direto do chefe do Poder Executivo paulistano, exigia da Prefeitura uma postura inequívoca de respeito à ordem jurídica e às instituições – e foi isso o que se viu.

 

Identificada por câmeras do sistema e detida na zona sul de São Paulo, Janaina era considerada foragida da Justiça depois de descumprir pena alternativa após condenações por desacato, lesão corporal e embriaguez ao volante. Os fatos que deram origem ao processo ocorreram em 2022, quando, abordada por policiais em Botucatu (SP), a sra. Miron se recusou a cooperar, ofendeu e ameaçou agentes públicos e ignorou as sanções que lhe foram impostas pela Justiça. A conversão da pena em prisão decorreu de seu próprio desdém às determinações judiciais.

 

Diante disso, a reação de Nunes foi correta: objetiva e impessoal. Em nota, a Prefeitura afirmou que “a prisão está amparada em mandados judiciais, obedeceu ao rigor da lei e foi executada seguindo os critérios de identificação do Smart Sampa”. Ao fazê-lo, a administração municipal reafirmou um princípio elementar do Estado de Direito: decisões judiciais não podem ser relativizadas em função dos vínculos pessoais dos sentenciados.

 

O caso, ademais, reforça a natureza impessoal de uma política pública que vem apresentando resultados concretos. Assim como o Muralha Paulista, do governo estadual, o Smart Sampa acumula números auspiciosos: milhares de foragidos da Justiça capturados, prisões em flagrante e pessoas desaparecidas localizadas, reunindo famílias que antes viviam a angústia da separação de seus entes queridos. São dados que explicam por que o programa Smart Sampa se tornou peça central da estratégia de segurança urbana da capital paulista.

 

Nada disso, porém, autoriza exaltação. Afinal, o prefeito não fez mais do que cumprir seu dever constitucional. Agir de forma impessoal não é uma escolha do administrador público, mas uma obrigação inscrita no artigo 37 da Constituição, que rege a administração pública. Ao não interferir, não condescender e não personalizar o episódio da prisão de sua irmã, Nunes apenas se submeteu ao que a lei exige de qualquer governante.

 

Dito isso, em um país no qual a mixórdia entre interesses públicos e privados e o tratamento privilegiado que é dispensado a familiares de autoridades, lamentavelmente, não são raros, a normalidade institucional é digna de nota deste jornal. Não como um elogio pessoal a Nunes, mas como parâmetro de conduta a ser observado por todos os servidores públicos. A reação republicana à prisão de sua irmã, por si só, não engrandece a gestão do prefeito da maior cidade do País. Apenas demonstra que, nesse caso, as instituições funcionaram como devem funcionar. E é exatamente isso – nada mais, nada menos – que se espera de uma democracia madura.

O Brasil não é refém de Lula e Bolsonaro

Por Notas & Informações / o estadão de sp

 

 

As primeiras pesquisas eleitorais de 2026, divulgadas nos últimos dias pelos institutos Genial/Quaest e Meio/Ideia, ajudam a organizar o debate sobre a sucessão presidencial deste ano. Lidas em conjunto, evidenciam o quanto o Brasil ainda permanece dividido e revelam, ao mesmo tempo, um presidente competitivo, alternativas moderadas sendo travadas e o avanço de uma candidatura que vive, sobretudo, da herança política do bolsonarismo. Como toda pesquisa eleitoral, esses levantamentos apenas retratam o momento. Num cenário ainda em formação, com candidaturas não oficializadas e estratégias em disputa, os ventos políticos mudam com maior rapidez.

Feita essa ressalva, convém registrar que a Quaest confirma um ponto central já indicado pela pesquisa Ideia. Entre os nomes hoje testados, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, segue como o adversário mais competitivo contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um eventual segundo turno. No confronto direto, Lula aparece com 44% das intenções de voto, contra 39% de Tarcísio – uma diferença estreita, dentro da margem de erro, que não se repete quando o petista enfrenta outros governadores da direita ou candidatos de menor projeção nacional. O governador do Paraná, Ratinho Junior, que acaba de se apresentar como pré-candidato à Presidência, aparece como o terceiro nome mais competitivo da direita.

Tarcísio ainda é o nome mais capaz de ameaçar a tentativa de reeleição de Lula. No primeiro turno, contudo, o governador paulista permanece travado. Nos cenários testados pela Quaest, Lula lidera com porcentuais que variam de 40% a 35%, enquanto Tarcísio aparece em patamares mais baixos (27%, na melhor hipótese), atrás do senador Flávio Bolsonaro (32% no melhor cenário para ele). É aí que se impõe o lamento da direita democrática: uma candidatura com maior potencial eleitoral e perfil mais institucional segue desperdiçada, refém de um campo político sequestrado pelo bolsonarismo na fase pré-eleitoral. O custo dessa captura é elevado – não apenas para a direita, mas para a qualidade do debate público.

 

Por outro lado, a mesma pesquisa mostra a consolidação de Flávio Bolsonaro como principal adversário de Lula no campo da direita. No primeiro turno, o “zero um” aparece com intenções de voto entre 23% e 32%, conforme o cenário, superando Tarcísio e os demais governadores da direita. No segundo turno contra Lula, o senador ainda perde – 45% a 38% –, mas com desempenho suficiente para se apresentar como candidato competitivo. Esse avanço não decorre de trajetória própria nem de um projeto nacional consistente, mas, em grande medida, da incorporação quase automática do eleitorado fiel a Jair Bolsonaro, fenômeno que este jornal já apontou (ver editorial O nome do pai, 19/12/2025).

 

Com essa consolidação, torna-se difícil imaginar que Flávio desista da disputa, salvo em um cenário de racha explícito na família. O contraste é eloquente: enquanto Flávio ocupa redes sociais e espaços na mídia como candidato declarado, Tarcísio segue equilibrando pratos de forma cuidadosa, quase silenciosa, preso a um cálculo que combina cautela institucional, lealdade política e receio de confrontar o bolsonarismo mais radical.

 

As pesquisas ainda acrescentam um pano de fundo decisivo: o País segue dividido sobre a permanência de Lula no poder. Segundo o Instituto Ideia, 46,9% avaliam que o presidente merece continuar no cargo, enquanto 50% defendem o contrário. Na Quaest, 56% afirmam que Lula não merece um novo mandato. A margem é estreita, e a disputa, aberta.

 

Não está escrito nas estrelas que o Brasil está condenado a um duelo empobrecido e reciclado entre lulismo e bolsonarismo. O País não é prisioneiro desse cenário. A democracia brasileira é mais ampla do que essa dicotomia estéril. Há espaço – e necessidade – para lideranças que saibam disputar o poder sem sequestrar campos inteiros do espectro político, que ofereçam projetos em vez de heranças e que compreendam que vencer eleições é apenas o começo. Superar esses limites é uma urgência nacional.

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