Crime avança sobre a política e se infiltra em eleições no Ceará com ameaças a eleitores e candidatos
João Pedro Pitombo / folha de sp
José Braga Barroso, o Braguinha (PSB), subiu ao palco, colocou no rosto os óculos tipo juliet e dançou um de seus jingles fazendo um coração com as mãos. Reeleito prefeito de Santa Quitéria (220 km de Fortaleza) em outubro de 2024, ele fez uma grande festa para celebrar a vitória, com participação de três bandas de forró.
Dois meses e meio depois, Braguinha tomaria posse para iniciar seu segundo mandato após uma campanha marcada por tensões, denúncias e um clima de violência política. Mas horas antes da cerimônia o prefeito foi detido pela Polícia Federal, que cumpria um pedido de prisão preventiva.
A suspeita era de envolvimento da facção Comando Vermelho nas eleições do município cearense de 40 mil habitantes.
A atuação da facção, que tem origem no Rio de Janeiro e vem ganhando espaço no comércio de drogas no Ceará, vinha sendo monitorada pela Polícia Civil. A investigação apontou para uma suposta influência do grupo criminoso nas eleições, por meio de ameaças a opositores. A defesa do prefeito nega.
Não foi um caso isolado. Em ao menos seis cidades do Ceará foram registradas suspeitas de infiltração de facções nas eleições de 2024, com casos de coação a eleitores e ameaças. O cenário acendeu o alerta das autoridades para o avanço do crime organizado sobre a política institucional.
"Essa é uma das nossas maiores ameaças democráticas porque significa a tomada do aparato de Estado para rentabilidade das organizações criminosas", avalia o deputado Renato Roseno (PSOL), presidente do Comitê de Prevenção e Combate à Violência da Assembleia Legislativa do Ceará.
As investigações em Santa Quitéria indicaram que um membro do Comando Vermelho teria atuado em favor da campanha de Braguinha, com ameaças a apoiadores da oposição. A orientação era pichar casas, destruir carros e motos que tivessem adesivos do adversário. No mesmo período, servidores da Justiça Eleitoral da cidade foram ameaçados.
O prefeito reeleito foi solto, mas acabou cassado em maio de 2025. Os quiterienses voltaram às urnas em outubro em eleição suplementar e elegeram o filho de Braguinha, Joel Madeira Barroso (PSB), em uma disputa que mobilizou os principais caciques políticos do estado.
Na época da cassação, em maio de 2025, a defesa do prefeito emitiu uma nota na qual negou qualquer ligação de Braguinha com o crime organizado: "A defesa mantém plena confiança na Justiça Eleitoral e acredita, com firmeza, na improcedência das acusações."
Em Potiretama (282 km da capital), o então prefeito Luan Dantas (PP) foi preso preventivamente em maio sob suspeita de ter encomendado um incêndio criminoso contra a propriedade de um desafeto.
O crime teria sido executado por homem ligado ao PCC (Primeiro Comando da Capital), facção com origem em São Paulo. Na época, a defesa de Dantas negou as acusações e falou em "insuficiência de fundamentos" para decretar a prisão e em ilegalidades na investigação.
Dantas e sua vice foram cassados em outubro pela Justiça Eleitoral, mas por abuso de poder político nas eleições, caso sem relação com o crime pelo qual o prefeito foi preso e é investigado. Uma eleição suplementar está prevista para março.
Na cidade de Iguatu, o prefeito Roberto Filho (PSDB) foi indiciado e chegou a ser cassado por abuso de poder político e econômico com o suposto apoio de um chefe de facção. Ele sempre negou as acusações e conseguiu reverter a cassação na Justiça Eleitoral.
A Polícia Federal ainda investiga um vereador em Martinópole (208 km de Fortaleza) por suspeita de compra de votos e associação a facção criminosa.
Em outros casos, não houve suspeitas sobre os candidatos, mas a campanha foi marcada por violência e intimidação associada às facções. Foi o caso de Sobral, cidade tida como modelo para o país em alfabetização e primeiros anos do ensino fundamental.
Na disputa pela prefeitura em 2024, Oscar Rodrigues (União Brasil) e Izolda Cela (PSB) reclamam de não terem conseguido entrar em bairros após recados de supostos intermediários de facções. Cela, que foi governadora do Ceará em 2022, chegou a receber ameaças pela internet.
Casos semelhantes de coação eleitoral foram registrados em Fortaleza, onde um suplente de vereador foi cassado em agosto após ameaças a adversários. Em Caucaia, na região metropolitana, uma investigação resultou na prisão de 40 pessoas por ameaças e intimidações na campanha.
Em algumas cidades, as pressões de grupos criminosos aconteceram durante a gestão, em episódios que beiram o inverossímil. Em Santa do Acaraú, a prefeitura recebeu mensagens com supostas ameaças de uma facção criminosa por meio do site oficial da Ouvidoria.
Secretário defende combate rigoroso e célere
O secretário estadual de Segurança Pública, Roberto Sá, avalia que a influência do crime organizado nas eleições precisa ser combatida de forma rigorosa e célere por todos os poderes. Sá defende que sejam estabelecidos mecanismos para prevenir candidaturas ligadas ao crime.
"A presença desses grupos criminosos atuando no tráfico de drogas ou nas extorsões já é nefasta por si só. Mas quando eles conseguem essa penetração em ambientes formais, tudo fica muito mais nebuloso e perigoso. Você não consegue saber quem são as pessoas, em quem você pode confiar", afirma.
Para afastar as facções da política, o deputado Renato Roseno defende ações de transparência partidária, incluindo maior publicidade na gestão dos fundos partidário e eleitoral, regras claras para distribuição das vagas nas chapas proporcionais e filtros mais rigorosos para filiações aos partidos.
O PSB do Ceará instaurou uma investigação no Conselho de Ética para apurar a conduta do ex-prefeito Braguinha.
Diretor do BC pediu a presidente do BRB que comprasse carteiras fraudadas do Master
Por Malu Gaspar / O GLOBO
O Banco Master teve ajuda extra na venda das carteiras de crédito consignado fraudadas para o BRB que levaram à prisão de Daniel Vorcaro e de outros seis executivos: o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton Aquino. De acordo com fontes e documentos obtidos pela equipe da coluna, Aquino enviou mensagens ao então presidente do banco estatal de Brasília, Paulo Henrique Costa, pedindo que adquirisse os créditos para ajudar o Master a resolver seus problemas de liquidez.
Em pelo menos uma vez, as mensagens de Aquino a Ailton foram apresentadas aos conselheiros do BRB. Foi durante a reunião do conselho de 25 de março de 2025, que também aprovou a oferta de compra de 58% das ações do Master por R$ 2 bilhões.
Nos meses seguintes, a oferta do BRB seria reduzida a 22% do Master, mas mesmo assim o BC vetou a operação e, em novembro, a Polícia Federal prendeu Vorcaro e outros seis executivos e o BC liquidou o Master. O motivo foi a fraude de R$ 12 bilhões nos contratos de crédito vendidos ao BRB. A investigação conjunta do BC, da PF e do Ministério Público Federal (MPF) concluiu que os contratos tinham sido falsificados.
Esses créditos foram um dos pontos de debate da reunião de 25 de março, que só seria concluída no dia 28. Dois conselheiros, os representantes dos funcionários e dos minoritários Ricardo José Duarte Rodrigues e Kátia do Carmo Peixoto de Queiroz, propuseram suspender as compras de carteira, já que o índice de liquidez do BRB estava abaixo do mínimo determinado pela política de risco.
Àquela altura, já fazia oito meses que o banco de Brasília vinha comprando lotes de créditos consignados do Master. Só que, segundo o relato de três fontes a par do assunto ouvidas pela equipe da coluna, neste momento o presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, que estava na reunião, mostrou aos conselheiros mensagens de WhatsApp do diretor do BC Ailton Aquino que tinham acabado de ser enviadas.
Nelas, Ailton pedia a Costa para comprar mais R$ 300 milhões de créditos do Master. O presidente do BRB, porém, disse que só teria R$ 270 milhões disponíveis. As mensagens foram mostradas pelo próprio presidente do BRB aos conselheiros, inclusive a tela do celular em que se constatava que Ailton era o contato que enviava as mensagens. Houve algum espanto e constrangimento. A conclusão geral, porém, foi de que se tratava de um pedido do “regulador”, ou seja, do Banco Central. Assim, por decisão unânime, os conselheiros abriram uma exceção registrada em ata como um “waiver” de 15 dias para a compra de R$ 270 milhões em créditos do Master.
Nos bastidores, ao ser questionado por conselheiros e executivos sobre a atitude do diretor do BC, o então presidente do BRB disse que Aquino mandava mensagens frequentes pedindo que o banco de Brasília comprasse os créditos do Master. Procurado pela reportagem, Paulo Henrique Costa disse que não vai se manifestar. O BRB também informou que não se pronunciará. O Banco Central não respondeu aos nossos questionamentos sobre o episódio até o fechamento desta reportagem. O espaço está aberto.
Autonomia
As decisões de compra das carteiras do banco de Daniel Vorcaro não eram submetidas rotineiramente ao conselho. Em geral, elas se davam dentro do limite da autonomia da diretoria do banco, e portanto passavam abaixo do radar dos conselheiros.
Nesse caso, a operação foi discutida porque havia sobre a mesa uma proposta de suspender as compras de carteira.
De acordo com a Polícia Federal, entre julho de 2024 e outubro de 2025, o BRB transferiu ao Master R$ 16,7 bilhões. Desse valor, R$ 12,2 bilhões foram alvo de falsificação. Após a operação da PF, parte das garantias foi trocada. Ainda assim, o BC já comunicou ao BRB que o banco vai necessitar de uma capitalização de R$ 4 bilhões, que o governo do Distrito Federal ainda não informou se, quando e como será feita.
‘Medidas prudenciais preventivas’
Antes da reunião do conselho do BRB em que Costa recebeu mensagens de Aquino defendendo a aquisição de créditos para ajudar o Master, o Banco Central já havia enviado alertas ao banco de Daniel Vorcaro sobre a possibilidade de aplicar sanções por falta de liquidez.
Os alertas começaram em novembro de 2024 e se repetiram até setembro de 2025, de acordo com a Unidade de Auditoria Especializada em Bancos Públicos e Reguladores Financeiros do TCU.
Em novembro de 2024, ou seja, um ano antes da liquidação – e quatro meses da reunião de março de 2025 do conselho do BRB –, os dirigentes do banco de Vorcaro foram comunicados pelo Banco Central que a situação do Master poderia levar à aplicação de medidas prudenciais preventivas, conforme previsto em uma resolução do Conselho Monetário Nacional de 2011.
A resolução diz que o BC pode determinar a adoção de medidas como a recomposição de níveis de liquidez, redução do grau de risco das exposições e “observância de limites operacionais mais restritivos”, por exemplo, em um esforço para “assegurar a solidez, a estabilidade e o regular funcionamento” do Sistema Financeiro Nacional.
Após realizar testes, consórcio Beira-Mar inicia obras do Píer Ideal;
Concedido à iniciativa privada para compor um complexo de entretenimento e lazer, o local já passou pelo processo de testes de carga para receber a construção de lojas e restaurantes.
Segundo a Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma), a intervenção ainda depende de uma licença do Comando da Aeronáutica (Comaer) para iniciar.
O Consórcio SPE Píer Beira Mar S.A., responsável pelo projeto e formado pelas empresas Beach Park e Social Clube, não esclareceu o motivo da pendência. Porém, conforme a Seuma, a autorização militar é necessária para liberar algumas fases da construção.
O documento em questão, segundo a pasta, avalia se a edificação representa risco ao tráfego aéreo, analisando rotas de voo, zonas de proteção de aeródromos e helipontos. O parecer do Comaer é acatado por órgãos municipais e estaduais no licenciamento.
Na solicitação, são informadas coordenadas, altitude e altura do projeto. Na fase de pré-análise, se não houver impacto, (o que é mais provável, por se tratar de uma edificação de baixa altitude, com prédios de até 2 andares), um documento é emitido, dispensando a necessidade de processo formal.
"Esse documento é fundamental para a liberação de outras fases da obra. A previsão de emissão deve ser apresentada pelo Comaer", afirma a Seuma em nota.
Processo não é encontrado pela Aeronáutica
Procurada pela reportagem do Diário do Nordeste, a Força Aérea Brasileira (FAB), por meio do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), afirma que "até o momento, não foi localizado nem identificado processo de análise de Objeto Projetado no Espaço Aéreo (Opea) relacionado ao empreendimento Píer Ideal (ou denominação equivalente)".
Assim, o órgão diz que sem os dados, "não é possível afirmar que existe uma licença do Comaer pendente, nem que essa suposta pendência seja o último requisito para a execução da obra".
A FAB ainda esclarece que o tipo de autorização aplicável a obras civis é conduzida pelo Decea, via Portal AGA (sistema SysAGA). A autorização é exigida quando uma estrutura — fixa ou temporária — pode impactar a segurança da navegação aérea devido à sua altura, localização ou potencial interferência em superfícies de proteção e procedimentos aeronáuticos, conforme as normas do Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro (SISCEAB).
Espigão do Náutico sem previsão de início
Porém, o processo do Píer do Náutico, na altura da Avenida Desembargador Moreira, ainda conforme a Seuma, "encontra-se em reavaliação junto à SDE (Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico) e à SPU (Superintendência do Patrimônio da União no Ceará), em razão de alterações no projeto".
A pasta reforça que "as licenças ambientais dos dois empreendimentos (Píer do Náutico e Píer do Ideal), emitidas em 2024, permanecem válidas".
A secretaria ainda lembrou que os processos de licenciamento das obras foram aprovados pela Comissão Permanente do Plano Diretor (CPPD), composta por representantes da sociedade civil e do poder público, de forma unânime, em 30 de outubro de 2025.
Ao todo, o investimento previsto para os dois espigões é de R$ 23 milhões. Nesta primeira etapa, o píer terá um perfil gastronômico, conforme o projeto apresentado ainda em 2023.
Veja fotos de como o espigão do Ideal deve ficar
O Píer Ideal deve oferecer 11 lojas, 5 quiosques, corredor gastronômico e espaço de entretenimento infantil; três restaurantes, sendo dois de praia (para 150 e 200 pessoas) e um principal com dois andares (400 lugares), que proporcionará aos visitantes a sensação de estarem a bordo de um cruzeiro marítimo.
Antes que seja tarde
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O governo de São Paulo já fez as contas: para evitar o colapso do sistema integrado de abastecimento de água da Grande São Paulo, as represas que atendem a 22 milhões de habitantes precisarão atingir 47% de sua capacidade em abril deste ano, quando começa a seca. E, no fim da estiagem, em setembro, o patamar de segurança esperado é de 30%. Os ciclos da natureza até autorizariam uma certa tranquilidade: entre outubro e março, costuma chover mais, com precipitação mais volumosa sobre os reservatórios, que são recarregados para enfrentarem os meses de pouca chuva que virão depois. Mas, em tempos de mudanças climáticas, nada mais é tão estável assim.
Para piorar, como ocorreu há dez anos, o abastecimento de água da região metropolitana encontra-se em uma situação delicada. O nível do sistema integrado, hoje, está em cerca de 30%. Já o Cantareira oscila em torno de 20%, e recentemente ficou abaixo disso, o que é considerado estado crítico. Choveu e chove pouco, e não há previsão de chuva forte sobre os sete mananciais da Grande São Paulo: Alto Tietê, Cantareira, Cotia, Guarapiranga, Rio Claro, Rio Grande e São Lourenço.
A secretária estadual de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, Natália Resende, está otimista de que não faltará água, mas ao Estadão reconheceu que a chuva está “inconsistente” na área do Cantareira, o que preocupa, haja vista que esse manancial abastece nada menos do que 46% da população. Definitivamente, não se pode contar apenas com o céu.
Não à toa, desde agosto do ano passado, a Sabesp reduziu a pressão à noite: a princípio, eram oito horas por dia, e depois, dez horas, causando transtornos a quem não tem caixa ou mora em regiões altas. Mas, mesmo impopular, essa medida não tem sido suficiente: a população de São Paulo não economizou nada; pelo contrário, nunca consumiu tanto. Houve recorde de captação de água dos reservatórios em 2025, com a retirada de 71 mil litros de água por segundo, num movimento semelhante ao registrado na crise hídrica de 2014 e 2015, quando, no ano anterior ao colapso, foram captados 70 mil litros de água por segundo dos mananciais.
O cenário é alarmante, mas não é irreversível. Há campanhas de esclarecimento em curso atualmente e investimentos de mais de R$ 5 bilhões, no longo prazo, com obras para acrescentar ao sistema a oferta de até 8 mil litros de água por segundo. Mas, para garantir a segurança hídrica, seria muito bem-vindo o reforço nas ações de conscientização.
A população, ao que tudo indica, ainda não está ciente da gravidade. Urge alertar os paulistanos, com total transparência, sobre a necessidade de redução do consumo de água. Mas não só isso: talvez tenha chegado a hora de não só pedir por economia, mas estimulá-la. Seria bastante eficaz o oferecimento de bônus para clientes que de fato reduzam seu gasto com água. E, infelizmente, não se deve descartar nem mesmo o temido racionamento. As medidas mais enérgicas devem ser tomadas agora, enquanto ainda há água nos reservatórios e nas torneiras. Depois, pode ser tarde demais.
A aula de civilidade de Eduardo Leite
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Para surpresa de rigorosamente ninguém, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), foi vaiado por militantes do PT durante um evento institucional realizado nesta semana ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A reação do governador à violência retórica lulopetista no ato, no entanto, ofereceu a um país cansado de vandalismo político e analfabetismo cívico uma valiosa aula de civilidade e espírito público.
O episódio ocorreu em Rio Grande, no sul do Estado, durante cerimônia oficial do governo federal destinada à assinatura de contratos ligados à construção de navios para a Petrobras. As vaias começaram quando o nome de Leite foi mencionado pelo cerimonial, prosseguiram durante o discurso da prefeita da cidade, a petista Darlene Pereira, e se intensificaram quando o governador foi chamado ao microfone. Como se viu, Leite teve dificuldade para iniciar sua fala. E protestou conjugando serenidade e firmeza: “Este é o amor que venceu o medo? Não, né? Vamos respeitar, por favor. Estou aqui cumprindo meu dever institucional. Eu e o presidente fomos eleitos pelo mesmo povo. Somos diferentes. Mas a gente não precisa pensar igual”.
As manifestações hostis partiram de apoiadores do presidente e se repetiram ao longo da fala do governador, interrompendo seu discurso e constrangendo o ambiente – hostilidade dirigida a um chefe de Executivo estadual legitimamente eleito e convidado a participar de um ato que, em tese, deveria se ater aos limites republicanos da institucionalidade. A atitude de Leite, marcada pelo autocontrole e pela defesa do respeito às diferenças e à etiqueta republicana, contrastou com o mau comportamento de parte da plateia.
O episódio diz menos sobre o governador gaúcho do que sobre o estado de degradação cívica a que chegou parcela expressiva da militância política no Brasil, sobretudo a petista. O governador não foi vaiado por ter cometido um desvio administrativo, por afrontar a democracia ou por atacar adversários. Foi hostilizado simplesmente por existir politicamente fora do universo lulopetista, por representar uma alternativa que não se submete à liturgia do governismo militante. O constrangimento não foi do governador, mas de quem confundiu um ato oficial da República com um comício partidário.
O comportamento da militância do PT foi revelador. Ao hostilizar um governador em pleno exercício do cargo, num evento oficial, repetiu exatamente o padrão que o próprio partido diz combater: intolerância política, patrulhamento ideológico e tentativa de silenciar vozes dissonantes. Na prática, trata-se do mesmo impulso autoritário travestido de virtude moral, legitimado pela sensação de pertencimento ao campo “do bem”. Para o PT, democracia só vale quando se presta a aplaudir Lula.
Não deixa de ser sintomático que o próprio presidente tenha convertido o evento em palanque, exatamente o que Eduardo Leite disse que não deveria acontecer numa cerimônia estritamente institucional. Mas aí não tem jeito: trata-se da natureza de Lula. O presidente, ao contrário do governador, discursou em tom de campanha, recorreu a slogans eleitorais e falou diretamente à base militante. Fez, afinal, o seu comício de sempre. É verdade que o petista tentou contemporizar, fazendo algumas mesuras ao governador. E, não raro, tenta pregar a ideia de que a democracia exige convivência com quem pensa diferente. Seus gestos são protocolares diante de um discurso claramente eleitoral. Não se pode estimular a polarização como método e depois surpreender-se com seus efeitos colaterais. O tribalismo militante aprende pelo exemplo dos seus morubixabas, não pelas notas de rodapé.
O contraste entre os protagonistas é eloquente. De um lado, um governador que reafirma o valor das instituições, da civilidade e do pluralismo. De outro, uma militância que age como se a democracia fosse propriedade privada de um campo político.
Num Brasil exausto da política do grito e da permanente guerra moral, a atitude de Eduardo Leite aponta para uma alternativa cada vez mais rara: a de que é possível discordar sem destruir, competir sem desumanizar e fazer política sem transformar o adversário em inimigo. A lição está dada. Resta saber quem está disposto a aprendê-la.
Não há recorde de receita que chegue
O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cumpriu seu objetivo de elevar sensivelmente a arrecadação tributária. Em 2025, ingressaram nos cofres federais R$ 2,887 trilhões, maior montante já registrado, com alta de 3,65% acima da inflação ante o ano anterior.
Desde o início deste mandato presidencial, o aumento real acumulado de uma carga já excessiva para um país de renda média é de portentosos 13,5% —e isso na comparação com um resultado excepcional em 2022, inflado pela alta dos preços do petróleo.
O impulso veio de medidas adotadas sobretudo nos últimos dois anos, como a reoneração gradual da folha de pagamentos, o aumento do IOF em junho de 2025 —a receita do imposto saltou 20,5%, para R$ 86,5 bilhões— e os efeitos continuados da tributação de fundos exclusivos e offshores a partir do ano passado.
A contribuição previdenciária mostrou ganho de 4,5%, beneficiada pelo crescimento da massa salarial, enquanto PIS e Cofins avançaram 5,5%, apesar da estagnação nas vendas de bens.
Parte do resultado também reflete a expansão da economia, mas esse motor já está mais fraco. A produção industrial recuou, e os juros altos, necessários para conter a inflação, começaram a frear o crédito e a demanda, cuja perspectiva é de desaceleração também neste 2026.
As contas federais do ano passado reafirmam o que deveria ser uma obviedade desde o início: a estratégia petista de tentar equilibrar o Orçamento apenas com mais receitas, sem conter a alta galopante de gastos, está fadada a um fracasso capaz de pôr em risco a estabilidade econômica.
Mesmo com o recorde de arrecadação, o Tesouro Nacional fechou o ano com um déficit estimado entre R$ 60 bilhões e R$ 70 bilhões —sem contar encargos com juros na casa dos R$ 870 bilhões no âmbito federal.
Os resultados podem estar dentro das metas oficiais fixadas, porque o governo Lula muda as metas e cria exceções aos limites orçamentários a todo momento. Não chegam perto, entretanto, do necessário para deter a escalada da dívida pública, hoje em torno de 80% do Produto Interno Bruto e com alta contínua projetada nos próximos anos.
Algumas medidas adotadas para elevar a arrecadação, se tomadas isoladamente, foram corretas ao eliminar privilégios de estratos mais ricos; outras, como o aumento do IOF, são prejudiciais ao mais pobres. Mais importante, o equívoco está em pretender ampliar a carga como um todo, que já consome um terço do PIB, em vez de concentrar esforços na melhora de sua distribuição.
Cúmplice de Lula na gastança irresponsável, o Congresso Nacional aprovou boa parte dos projetos de aumentos de impostos, mas há limites políticos e econômicos à oneração contínua dos contribuintes. O próximo governo, qualquer que seja, terá de reconhecer tardiamente que, com a atual política perdulária, não haverá recorde de receita que chegue.

