POR QUE A FALTA DE SANEAMENTO REFORÇA DESIGUALDADES
Não é só a distância que separa Santos, no litoral paulista, e Ananindeua, na região metropolitana de Belém (PA). Há um abismo entre as duas cidades, que estão em lados opostos em termos de qualidade de vida. Uma apostou nos investimentos para universalizar os serviços de água e esgoto e hoje é considerada uma das melhores cidades para morar no País. A outra conseguiu fazer muito pouco nessa área e tem graves problemas sociais. Em Ananindeua, apenas 2% da população tem esgoto, o que lhe dá o título de cidade com pior saneamento do País.
Um dos objetivos do novo marco regulatório do setor do saneamento básico, aprovado em junho, é reduzir essas disparidades no Brasil, atraindo grandes investidores para melhorar o desenvolvimento econômico e humano das regiões. Além dos ganhos na área da saúde, a maior cobertura dos serviços de água e esgoto é capaz de dar impulso à economia local, com impacto sobre produtividade, renda e valorização imobiliária das cidades.
“O saneamento básico é a infraestrutura mais transversal na cidade, uma vez que os serviços ajudam em várias frentes, começando pela redução das doenças e dos gastos em saúde. Essa melhoria na saúde ajuda em ganhos na educação e na produtividade do trabalho, valor dos imóveis e turismo”, afirma o presidente do Instituto Trata Brasil, Édison Carlos.
Segundo ele, investimento em saneamento gera, também, empregos e boa parte da renda desses trabalhadores acaba ficando no município. “Movimenta desde o mercadinho e a padaria, até escritórios, imóveis e impostos que alimentam os cofres públicos."
Exemplo disso, pode ser verificado entre Ananindeua e Santos, que têm população semelhante. O salário médio do trabalhador santista é quase o dobro do de Ananindeua: 3,4 salários mínimos ante 1,9 salário da cidade paraense. O PIB per capita, que mede a riqueza da população, é três vezes maior: R$ 51.829,99 na cidade paulista ante R$ 13.523,96 no município do Pará.
Na área da saúde, a falta de saneamento tem impacto devastador para a população. Em Ananindeua, cujos índices de saneamento são ruins, são 2,7 internações por mil habitantes devido à diarreia; em Santos esse número é de apenas 0,1. “O mais importante do novo marco de saneamento é o impacto sobre a saúde da população, o aprendizado das crianças – quem aprende vivendo doente? – e os enormes custos que impõe ao SUS (Sistema Único de Saúde) e INSS, por conta de internações e afastamentos do trabalho”, afirma o presidente da consultoria Inter.B, Claudio Frischtak.
RENÉ PEREIRA / O ESTADÃO
QUAL O INTERESSE DOS INVESTIDORES PELO SETOR MAIS ATRASADO DO PAÍS?
Texto: Renée Pereira / O ESTADO DE SP.
Setor com maior perspectiva de investimento e potencial para ajudar na retomada econômica do Brasil, o saneamento básico enfrenta seu primeiro teste desde a aprovação do novo marco regulatório, em junho. Quatro leilões de concessão e Parcerias Público-Privadas (PPP), marcados para setembro, vão medir o apetite dos investidores em negócios que levarão à universalização dos serviços de água e esgoto no País.
Hoje 100 milhões de brasileiros não têm acesso à coleta de esgoto e 35 milhões não são abastecidos com água potável – números que refletem a falta de prioridade que o setor teve nos últimos anos e explicam a proliferação de epidemias, como dengue e zika, além de doenças gastrointestinais no País. Esses indicadores colocam o País em posição pior que Iraque, Jordânia e Marrocos.
O pontapé para mudar essa situação começará no mês que vem com a concessão dos serviços da região metropolitana de Maceió (R$ 2,6 bilhões de investimentos); PPP de Cariacica, no Espírito Santo (R$ 580 milhões); PPP Sanesul, em Mato Grosso do Sul (R$ 3,8 bilhões); e a PPP de dessalinização de Fortaleza (R$ 500 milhões). Esses projetos, na avaliação de especialistas, serão um termômetro do interesse dos investidores – que vivem hoje num cenário de grandes transformações do ponto de vista social e ambiental.
“Pelas informações que temos, há uma grande movimentação no mercado, seja pela concessão de Alagoas ou pela Cedae (RJ), que ainda não tem data para o leilão”, afirma Cleverson Aroeira da Silva, superintendente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
A instituição está tendo papel fundamental na modelagem dos projetos a serem licitados. Hoje o banco tem, em carteira, R$ 50 bilhões em projetos, envolvendo oito Estados brasileiros, e está em conversas com outros três para iniciar estudos.
Com a aprovação do novo marco regulatório, empresas de outros setores começaram a estudar possibilidades em saneamento, como é o caso das companhias CCR (concessões de transporte) e Equatorial (energia elétrica) e dos fundos de investimento Vinci Partners e Pátria. Na avaliação do presidente da BF Capital, Renato Sucupira, hoje o setor é a melhor alternativa de investimento dentro da infraestrutura. “Não tenho dúvida de que haverá grande concorrência nas licitações.”
Com negócios na área de energia, transporte, logística e telecomunicações, a gestora Pátria está de olho nas oportunidades que o novo marco regulatório trará para o setor.

A empresa tem investimentos em soluções ambientais e num projeto de dessalinização no Chile. O sócio da gestora, Otavio Castello Branco, cofundador e responsável pela área de Infraestrutura, afirma que só não investiu até agora em saneamento no País por falta de oportunidade. “Já avaliamos aquisições no passado, mas sempre esbarramos em alguns entraves, como a falta de legislação.” Mas agora, diz ele, os ventos mudaram com o novo marco regulatório.
Nesse primeiro momento, a expectativa do mercado é que os novos investidores, sobretudo o financeiro (como fundos de investimento), façam parceria com outras empresas que já estão no setor. Isso porque algumas licitações exigem atestação técnica, afirma o diretor executivo da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon), Percy Soares Neto.
Além disso, destaca ele, alguns ativos são tão grandes que exigirão uma estrutura de capital reforçada. É o caso dos serviços de água e esgoto do Rio, hoje administrados pela Cedae. O BNDES espera lançar o edital de licitação em outubro e trabalha para fazer um leilão até o fim deste ano. Pelo tamanho do investimento, de R$ 33,6 bilhões, a concessão será feita em quatro lotes. O ativo é um dos mais cobiçados no mercado, especialmente pelos fundos de investimentos.

Na avaliação de Paulo Mattos, presidente e cofundador da gestora IG4, acionista da Iguá (empresa de saneamento), o novo marco regulatório trará grandes avanços para a população e muitas oportunidades para investidores. Além disso, a pressão ambiental em curso no mundo será positivo para o setor, que terá mais abertura no mercado de capitais.
Ele cita como exemplo a emissão de debêntures que a Iguá acaba de fazer em plena pandemia da covid-19. A empresa conseguiu no mercado quase R$ 900 milhões investir na infraestrutura de saneamento em suas concessões de Cuiabá e Paranaguá, além de refinanciar a dívida. “Esse mercado para capitais financeiros vai bombar. Todos querem ter um selo de qualidade.”
Servidores no Brasil concentram 6 das 10 ocupações mais bem pagas
Entre as 10 ocupações mais bem pagas no Brasil, 6 estão no setor público –4 delas entre as "top 5".
No agregado de atividades de uma mesma área, a renda média de servidores praticamente empata com a de investidores e rentistas –e ganha dos empresários. Nesse quesito, 3 dos 5 maiores rendimentos médios são de funcionários do Estado.
Levantamento da FGV Social com base nas declarações do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) de 2018 revela a preponderância dos empregos públicos como os mais bem pagos do país.
Membros do Poder Judiciário, como ministros, desembargadores, juízes e procuradores, além de diplomatas, só perdem em remuneração para donos de cartórios, com renda média mensal acima de R$ 100 mil.
Os dados embasam a discussão sobre o peso da folha estatal diante da necessidade de controlar as contas públicas e ampliar a ajuda aos mais vulneráveis no pós-pandemia.
Segundo especialistas, a vantagem salarial e a estabilidade dos servidores tornam legítima a aplicação de mecanismos temporários de redução de carga horária e remuneração em caso de ameaça de descumprimento do chamado teto de gastos.
O mecanismo que limita a despesa ao Orçamento do ano anterior, corrigido pela inflação, originalmente previa a redução de 25% dos vencimentos e do trabalho de servidores, nas três esferas de governo, quando o gasto obrigatório ultrapassasse 95% da despesa.
Mas, por um erro do governo Michel Temer, os chamados gatilhos do teto não podem ser acionados; e demandam a aprovação de outra PEC (proposta de emenda Constitucional), o que requer 3/5 dos votos na Câmara e no Senado.
Apenas no plano federal, a redução na remuneração e na carga horária de servidores poderia abrir espaço anual de R$ 15 bilhões no Orçamento –valor equivalente a meio Bolsa Família.
No ano passado, governo federal, estados e municípios e seus Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário gastaram R$ 920 bilhões com pessoal.
"A pandemia abre uma oportunidade política, e com mérito, para mexer na folha do setor público. O problema é a ligação do presidente Jair Bolsonaro com essas corporações", afirma o especialista em finanças públicas Manoel Pires, pesquisador associado do Ibre FGV.
Em 2019, apesar da intenção da equipe econômica, Bolsonaro recuou no envio de projeto de reforma administrativa ao Congresso. Mesmo a proposta de limitar a estabilidade só para futuros servidores foi abandonada.
Segundo a FGV Social, por causa dos funcionários públicos, a capital federal, onde Bolsonaro atua politicamente desde 1991, é a unidade da Federação com a maior renda média mensal do país (R$ 2.981, ante R$ 1.228).
Na chamada Classe A1 no país (renda domiciliar acima de R$ 16.019), os servidores são 14%, ante 4,2% dos empregados formais privados. Eles também trabalham menos, cerca de 7,3 horas diárias, ante 8,2 horas dos empregados formais privados, segundo dados de 2019 da PnadC (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua).
Durante a pandemia, enquanto o funcionalismo foi preservado, cerca de 14 milhões de brasileiros foram demitidos e mais de 16 milhões tiveram cortes de 25% nos salários.
Nesse cenário, a contenção das despesas com o funcionalismo (atrás somente da Previdência) é vista como uma das únicas alternativas, além do aumento da carga tributária, para o Brasil continuar cumprindo o teto de gastos até que o país consiga aprovar reformas que acelerem a economia.
Para o economista Armando Castelar Pinheiro, pesquisador do Ibre FGV, o momento é "dramático"; e os agentes econômicos só não cobraram um preço mais alto até agora (via queda da Bolsa, mais valorização do dólar e exigência por juros maiores para financiar o governo) porque há excesso de liquidez no cenário internacional.
"Mas o risco é absurdo", diz. Ele lembra que, a partir da instituição do teto, em dezembro de 2016, a despesa primária (sem contar juros) do governo central (União, INSS e Banco Central) cresceu apenas 1,2% ao ano em termos reais, ou 1/5 do que ocorria entre 1997 e 2014 (6,3% ao ano).
Foi isso o que permitiu a queda da taxa Selic de uma média de 14% em 2016 para 5,9% em 2019 e a diminuição do custo de rolagem da dívida pública. Hoje, a Selic está em 2% ao ano, com a inflação sob controle.
O teto de gastos tem funcionado com uma âncora para as expectativas dos agentes econômicos, pois ele evita que a dívida pública saia do controle ao limitar o aumento das despesas à inflação. Com os gastos extras na pandemia, porém, o endividamento se aproximará de 100% como proporção do PIB neste ano (um salto de 20 pontos em relação a 2019).
Sem medidas para proteger o teto, como os gatilhos para a contenção das despesas com servidores, sua manutenção pode tornar-se impossível nos próximos anos, levando a reações negativas nos mercados de câmbio (o dólar em alta já seria sintoma disso), juros e na inflação.
Mas, como mostrou a votação da semana passada no Senado que garantiu reajustes aos servidores em 2021, será muito difícil o caminho do corte de rendimentos e horas do funcionalismo –embora, um dia depois, a Câmara tenha derrubado a decisão.
Além de verificar o espaço orçamentário que a redução dos vencimentos dos servidores proporcionaria, economistas vêm analisando outros gastos estatais em busca de alternativas permanentes para a criação do chamado Renda Brasil, que o governo estuda para substituir o Bolsa Família.
Com a previsão de um valor médio de R$ 300 (maior que os R$ 190 atuais) e a incorporação de cerca de 7 milhões de famílias às 14 milhões hoje atendidas, o Renda Brasil poderá dobrar o custo do Bolsa Família, para cerca de R$ 60 bilhões anuais.
Para financiar o programa, o governo estuda extinguir o seguro-defeso (R$ 2,4 bilhões/ano, pagos a pescadores) e o abono salarial (R$ 18 bilhões/ano em um salário mínimo anual pago a quem ganha em média até dois pisos no mercado formal). Mas isso também requer a aprovação de uma PEC no Congresso.
Felipe Salto, diretor-executivo da IFI (Instituição Fiscal Independente), diz que há outras alternativas, como o reexame de R$ 26,9 bilhões oferecidos pelo governo anualmente em subsídios, como os créditos mais baratos para o setor agropecuário e linhas do BNDES.
Outra alternativa seria o desmonte de parte dos R$ 320 bilhões concedidos a dezenas de setores em benefícios fiscais.
Em sua primeira fase, a reforma tributária proposta pelo governo planeja eliminar quase R$ 70 bilhões desses benefícios, o que representa cerca de 1% do PIB.
O ministro Paulo Guedes (Economia) também persegue o que vem chamando de três "Ds", desindexação, desvinculação e desobrigação que existem hoje no Orçamento.
Com a inflação deste ano projetada em 1,67%, sua equipe tem a avaliação de que essa é uma chance histórica de desindexar, por exemplo, despesas vinculadas ao salário mínimo.
Hoje, 70% do Orçamento tem algum tipo de indexação. O fim do mecanismo, no primeiro ano, abriria espaço de R$ 16 bilhões na despesa.
Para Marcelo Neri, diretor da FGV Social, o governo criou uma espécie de "armadilha" para si com o auxílio emergencial mensal de R$ 600, que custa R$ 50 bilhões/mês e não se sustenta do ponto de vista das contas públicas.
Com base nos resultados do Datafolha, boa parte do aumento recente da popularidade de Bolsonaro, agora com 37% de ótimo/bom, tem relação com as 67 milhões de pessoas que passaram a receber a ajuda.
O fim do auxílio deverá ter impacto não só na popularidade do presidente como também sobre os mais vulneráveis, sobretudo informais e desempregados.
Segundo análise do economista do Insper Naercio Menezes, com base nas PnadC e na Pnad-Covid, ambas do IBGE, sem o auxílio emergencial, a taxa de pobreza entre os negros no país teria passado de 17% para 30% –mas o programa fez com que ela se estabilizasse em torno de 20%.
Entre os brancos, a pobreza teria mais do que dobrado sem o auxílio, passando de 7% para 16%, mas foi mantida em torno de 12% com o programa.
Mesmo com o auxílio, portanto, a pobreza hoje é maior do que antes da pandemia.
Para Neri, da FGV Social, uma das alternativas mais baratas seria o país adotar, passada a crise, um programa focalizado que trouxesse todos os 12% dos brasileiros (23 milhões) na pobreza para um patamar mínimo de renda mensal de R$ 250.
Os economistas temem, no entanto, que, entusiasmado com sua popularidade, Bolsonaro desequilibre ainda mais o teto de gastos com o pagamento de benefícios insustentáveis do ponto de vista fiscal. Até agora, os sinais do presidente sobre isso têm sido muito contraditórios.
Governos gastaram ao menos R$ 18 milhões em remédios sem eficácia comprovada contra a Covid-19
Natália Portinari, Renata Mariz e Naira Trindade / O GLOBO
BRASÍLIA — Desde o início da pandemia, o Estado brasileiro gastou no mínimo R$ 18 milhões adquirindo ou produzindo remédios sem eficácia comprovada contra o coronavírus. Levantamento do GLOBO mostra que estados, cidades e a União compraram hidroxicloroquina, cloroquina, ivermectina e azitromicina, sem comprovação científica de que esses remédios auxiliem no combate ao vírus.
Só o Ministério da Saúde distribuiu 5,2 milhões de comprimidos de cloroquina a estados e municípios. A pasta informou um gasto de R$ 207 mil para adquirir 3 milhões de unidades do remédio produzidos pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Já o Exército, que tem laboratório próprio e repassa o produto para a pasta da Saúde fazer a distribuição, desembolsou mais R$ 1,1 milhão para produzir 3 milhões de cápsulas de cloroquina, quantidade suficiente para 18 anos, considerando o uso do medicamento no Brasil em anos anteriores.
A Força ainda tem em estoque 400 mil comprimidos, segundo dados do último dia 20. A pasta da Saúde tem mais 3 milhões de comprimidos armazenados: 2 milhões de unidades doadas pelos Estados Unidos e 1 milhão por uma multinacional farmacêutica. A apresentação do remédio estocado na Saúde é de 200 mg — o dobro da unidade usada no país, de 100 mg, o que tem inviabilizado o uso.
Ausência de protocolo padronizado motivou gastos, diz infectologista
O levantamento do GLOBO mostra que oito estados tiveram despesas próprias com drogas sem eficácia comprovada. Mato Grosso do Sul, Pará, Tocantins e Acre adquiriram hidroxicloroquina. Já Pará, Tocantins, Roraima, Maranhão e Acre compraram azitromicina, droga que chegou a ser indicada como complementar à cloroquina em tratamentos experimentais, também sem evidências científicas. Dezenove estados responderam aos questionamentos da reportagem.
A soma incluiu também os gastos com ivermectina, remédio antiparasitário e vermífugo cujo uso se popularizou nos últimos meses contra a Covid-19, apesar de não haver comprovação de sua eficácia. Tocantins, Distrito Federal, Maranhão, Acre e Amazonas adquiram quantidades expressivas do remédio, com um gasto declarado de mais de R$ 80 mil aos cofres públicos.
Para o infectologista Julival Ribeiro, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o motivo desse tipo de gasto é a ausência de um protocolo padronizado imposto pelo governo federal de combate à doença — o governo orientou, inclusive, para que hospitais usassem a cloroquina, mesmo sem haver estudos embasando essa decisão.
— As evidências científicas não mostram a eficácia de nenhum desses remédios. Infelizmente não houve uma gestão eficiente por parte do governo federal e cada um fez os seus próprios protocolos, cada colega dando opiniões diferentes sobre uso de drogas — diz Julival.
O Ministério da Saúde não respondeu sobre se considera um desperdício de dinheiro a produção de uma quantidade tão grande de cloroquina, considerando que diversos estudos científicos já indicaram sua ineficácia e apontaram, inclusive, efeitos colaterais potencialmente perigosos no seu uso em infectados pelo Covid-19.
Gastos de prefeituras
Além do governo federal e dos estados, a reportagem encontrou diversos exemplos de prefeituras que compraram medicamentos ineficazes. Manaus (AM) gastou R$ 850 mil com azitromicina e R$ 30,1 mil com ivermectina, por exemplo. “Não há protocolo instituído para o tratamento da Covid-19, uma vez que os tratamentos praticados são experimentais e sob responsabilidade da conduta médica com base nos sinais e sintomas”, esclarece a prefeitura.
Outras cidades também compraram ivermectina para combater a Covid-19, como Itajaí (SC) — onde houve um gasto estimado de R$ 4,6 milhões —, Betim (MG), Itagi (BA) — cidade em que foi distribuído um “kit covid” com hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina —, Tocantinópolis (TO), Rio da Conceição (TO), Paranaguá (PR), Rio Preto (SP), Cuiabá (MS), Boa Vista (RR), Apiacás (MT) e Tangará da Serra (MT). Azitromicina também foi a droga de escolha de Recife, que desembolsou R$ 74.345.
Já outros municípios compraram hidroxicloroquina ou cloroquina, como Passo Fundo (RS), Bento Gonçalves (RS), Brusque (SC), Caxias do Sul (RS) e Uberlândia (MG). Ao todo, a reportagem identificou 18 prefeituras com gastos em drogas ineficazes.
As prefeituras do Rio de Janeiro e de São Paulo declararam que não compraram esse tipo de medicamento para o combate à pandemia, mas ambas utilizaram a cloroquina do governo federal.
Em diversos casos, o Ministério Público Federal (MPF) e os Ministérios Públicos estaduais abriram investigações para apurar o uso de dinheiro público em medicamentos ineficazes. O Tribunal de Contas do Estado (TCE) do Paraná determinou que Paranaguá parasse de distribuir o vermífugo a seus habitantes, por exemplo.
O levantamento, com base em prefeituras que divulgaram publicamente seus gastos com esses medicamentos, encontrou R$ 11,4 milhões em gastos de prefeituras com drogas ineficazes.
Excesso de cloroquina em estoque
O Ministério da Saúde não respondeu ao GLOBO sobre os custos com o armazenamento e a conservação dos remédios.
"O medicamento deve ser enviado nas próximas semanas aos estados e municípios que solicitarem à pasta e que apresentarem condições de fracionar e distribuir as unidades, conforme orientações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)", informou em nota.
A pasta foi alertada para o risco de um excesso de cloroquina em estoque. Em 25 de maio, o Comitê de Operações de Emergência (COE), segundo ata de reunião, fez a advertência: "Devido a atual situação não é aconselhável trazer uma quantidade muito grande, pois caso o protocolo venha a mudar, podemos ficar com um número em estoque parado para prestar contas".
Cinco dias antes, o Ministério da Saúde, por pressão direta de Bolsonaro, havia atualizado as orientações sobre o uso da cloroquina para recomendar o remédio até mesmo em caso de pacientes com sintomas leves. Entidades médicas e cientistas criticaram a decisão.
No início de julho, mais uma vez o COE demonstrou preocupação com a situação, registrando que o Ministério da Saúde tinha mais de 4 milhões de comprimidos de cloroquina em estoque. Parte disso porque alguns estados recusaram o medicamento, registrou o comitê na reunião.
Na contramão da corrida do governo federal pela droga, diversos países, baseados em pesquisas e com o aval da OMS, passaram a não recomendar o medicamento, que provocou efeitos colaterais graves, como arritmias.
Enquanto priorizava a cloroquina, o governo ignorou e omitiu ainda alerta sobre a falta de medicamentos para sedação usados em UTIs para tratar de pacientes graves da Covid-19, conforme revelou o GLOBO. Em reunião no dia 29 de maio, o COE apontou que havia 267 insumos com risco de desabastecimento, dos quais muitos tinham origem fora do país. A ata da reunião registra: "IMPRTANTE (sic): Não fazer divulgação dos dados".
A reunião em que ficou registrada a orientação de não se divulgar os dados de desabastecimento de remédios importantes no tratamento dos doentes ocorreu cinco dias antes do estopim da crise envolvendo a falta de transparência do Ministério da Saúde em relação ao número de casos e óbitos por Covid-19.
centro de testagem da Fiocruz é inaugurado no Ceará e pode realizar 10 mil testes por dia
A Unidade de Apoio ao Diagnóstico da Covid-19, localizada na cidade do Eusébio, iniciou oficialmente suas operações nesta segunda-feira (24). O equipamento da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) terá capacidade para liberar, por dia, até 10 mil resultados de testes RT-PCR, considerados os mais confiáveis para o diagnóstico da doença. As amostras serão encaminhadas pelo Ministério da Saúde.
O lançamento da Unidade - que teve um minuto de silêncio em respeito às quase 115 mil vítimas da doença em todo o Brasil - foi acompanhado pelo ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello. Ele destaca que o aparelho vai ampliar a capacidade nacional de processamento de testes moleculares para detecção da Covid-19. Segundo a Fiocruz, os resultados devem ser liberados em, no máximo, 48 horas.
“A testagem ampara um diagnóstico quando necessário, mas ela é muito mais importante para a avaliação de estratégias de Governo. Por isso, os números precisam ser altíssimos, e essa capacidade de processamento, desde captar o material até ter o resultado na ponta da linha, vem sendo construída a muitas mãos, públicas e privadas”, avalia Pazuello.
O governador do Ceará, Camilo Santana, ressaltou que o Sistema Único de Saúde (SUS) precisa ser fortalecido, cooperado e integrado. “Essa unidade é um exemplo de que há um esforço conjunto com o único objetivo de ajudar a mitigar e investir em algo fundamental. Ela vai permitir o que há de mais moderno e fazer mais de 10 mil testagens por dia, não só para o Ceará, mas para outros estados do Nordeste”, informa.
Atualmente, de acordo com a plataforma IntegraSUS, da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), 13.035 exames seguem em análise no Ceará. A secretária-executiva de Vigilância e Regulação da Pasta, Magda Almeida, destacou que a nova unidade deve aumentar em cinco vezes a capacidade atual de testagem no Estado, que é de cerca de 2,5 mil testes ao dia.
Dos 593.230 exames de detecção já realizados no Ceará, 163.130 utilizaram o método RT-PCR. O número representa 27% do total. A maioria (70%) foi de testes rápidos, com 415.211 aplicações. Conforme o IntegraSUS, a média é de 69 testes realizados para cada grupo de mil habitantes.
Expansão
A Unidade do Eusébio, equipada com plataformas automatizadas, foi construída em pouco mais de dois meses. O Ministério da Saúde custeará a operação, que, em seu pleno funcionamento, terá cerca de 200 profissionais, entre biologistas e técnicos de laboratório capacitados, se revezando em três turnos de trabalho.
A presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, destacou que, após a pandemia do coronavírus, a estrutura cearense vai permanecer como “legado" para o sistema de vigilância epidemiológica do SUS.
"O Brasil precisará avançar, sem dúvida, no campo da vigilância e da preparação para emergências sanitárias”, aponta Nísia.
Para o coordenador da Fiocruz Ceará, Carlile Lavor, o equipamento “representa uma grande contribuição na luta contra a Covid-19”, sobretudo no Nordeste brasileiro.
O Ceará foi o quarto Estado, após Rio de Janeiro, Paraná e São Paulo, a receber infraestrutura tecnológica disponível na implantação de Unidades de Apoio ao Diagnóstico da Covid-19 da Fiocruz. Juntas, elas podem processar até 1 milhão de testes por mês, segundo estimativa da Fundação. DIARIONORDESTE
Covid-19: centro de testagem da Fiocruz é inaugurado no Ceará e pode realizar 10 mil testes por dia
A Unidade de Apoio ao Diagnóstico da Covid-19, localizada na cidade do Eusébio, iniciou oficialmente suas operações nesta segunda-feira (24). O equipamento da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) terá capacidade para liberar, por dia, até 10 mil resultados de testes RT-PCR, considerados os mais confiáveis para o diagnóstico da doença. As amostras serão encaminhadas pelo Ministério da Saúde.
O lançamento da Unidade - que teve um minuto de silêncio em respeito às quase 115 mil vítimas da doença em todo o Brasil - foi acompanhado pelo ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello. Ele destaca que o aparelho vai ampliar a capacidade nacional de processamento de testes moleculares para detecção da Covid-19. Segundo a Fiocruz, os resultados devem ser liberados em, no máximo, 48 horas.
“A testagem ampara um diagnóstico quando necessário, mas ela é muito mais importante para a avaliação de estratégias de Governo. Por isso, os números precisam ser altíssimos, e essa capacidade de processamento, desde captar o material até ter o resultado na ponta da linha, vem sendo construída a muitas mãos, públicas e privadas”, avalia Pazuello.
O governador do Ceará, Camilo Santana, ressaltou que o Sistema Único de Saúde (SUS) precisa ser fortalecido, cooperado e integrado. “Essa unidade é um exemplo de que há um esforço conjunto com o único objetivo de ajudar a mitigar e investir em algo fundamental. Ela vai permitir o que há de mais moderno e fazer mais de 10 mil testagens por dia, não só para o Ceará, mas para outros estados do Nordeste”, informa.
Atualmente, de acordo com a plataforma IntegraSUS, da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), 13.035 exames seguem em análise no Ceará. A secretária-executiva de Vigilância e Regulação da Pasta, Magda Almeida, destacou que a nova unidade deve aumentar em cinco vezes a capacidade atual de testagem no Estado, que é de cerca de 2,5 mil testes ao dia.
Dos 593.230 exames de detecção já realizados no Ceará, 163.130 utilizaram o método RT-PCR. O número representa 27% do total. A maioria (70%) foi de testes rápidos, com 415.211 aplicações. Conforme o IntegraSUS, a média é de 69 testes realizados para cada grupo de mil habitantes.
Expansão
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"O Brasil precisará avançar, sem dúvida, no campo da vigilância e da preparação para emergências sanitárias”, aponta Nísia.
Para o coordenador da Fiocruz Ceará, Carlile Lavor, o equipamento “representa uma grande contribuição na luta contra a Covid-19”, sobretudo no Nordeste brasileiro.
O Ceará foi o quarto Estado, após Rio de Janeiro, Paraná e São Paulo, a receber infraestrutura tecnológica disponível na implantação de Unidades de Apoio ao Diagnóstico da Covid-19 da Fiocruz. Juntas, elas podem processar até 1 milhão de testes por mês, segundo estimativa da Fundação. DIARIONORDESTE

