Confiança do empresário da construção cresce e ultrapassa a média histórica

Após tombo histórico em abril, quando a crise gerada pela pandemia do novo coronavírus atingiu o seu ápice, a Sondagem da Indústria da Construção de julho registra consolidação da retomada do setor. Em indicadores como a confiança e a intenção de investir estão acima da média histórica. A utilização da capacidade operacional voltou para um patamar semelhante ao observado no pré-pandemia. Recuperação também ficou caracterizada nos índices de atividade e do número de empregados.
| Após tombo histórico em abril, quando a crise gerada pela pandemia do novo coronavírus atingiu o seu ápice, a Sondagem da Indústria da Construção de julho registra consolidação da retomada do setor. Em indicadores como a confiança e a intenção de investir estão acima da média histórica. A utilização da capacidade operacional voltou para um patamar semelhante ao observado no pré-pandemia. Recuperação também ficou caracterizada nos índices de atividade e do número de empregados.
“Os índices de evolução do nível de atividade e do número de empregados apresentaram melhor evolução no mês de julho em relação a junho, a despeito da pandemia de Covid-19. As altas fizeram ainda que os índices voltassem a superar suas médias históricas, o que indica desempenho mais favorável que o usualmente refletido pelo índice”, registra o relatório técnico da sondagem.
O índice de nível de atividade alcançou 48,1 pontos em julho, uma alta de 3,8 pontos em relação ao mês anterior. O índice de evolução do número de empregados, por sua vez, passou de 43,4 pontos em junho para 46,8 pontos em julho. A melhora na indústria da construção também foi percebida na Utilização da Capacidade Operacional (UCO), que passou de 55% em junho para 58% em julho. Com a alta, o indicado recupera grande parte da queda de março e abril, fica 1 ponto percentual acima do registrado em julho de 2019 e superior à média para o mês entre 2015 e 2017. O olhar para frente mostra um cenário possível ainda melhor. O Índice de Confiança do Empresário da Construção (ICEI-Construção) aumentou 7,7 pontos, alcançando 54 pontos em agosto. É a quarta alta consecutiva do índice, após as expressivas quedas de março e, sobretudo, abril. Com o aumento de agosto, o índice fica acima da linha divisória de 50 pontos, o que confirma a retomada da confiança dos empresários desse setor, e também de sua média histórica de 53,5 pontos. Os índices de expectativa também traduzem esse cenário mais otimista. Pela primeira vez desde a queda de abril, todos superaram a linha divisória de 50 pontos, que separa perspectivas de queda das de alta. Os indicadores de expectativas de compras de insumos e matérias-primas e do número de empregados registraram 52,8 e 52,3 pontos, após crescimento de 3,3 e 2,9 pontos, respectivamente. Os índices de expectativas do nível de atividade e de novos empreendimentos e serviços, por sua vez, alcançaram 54,3 pontos e 53,2 pontos, respectivamente, após avanços de 4,2 e 5,2 pontos em agosto, respectivamente. A intenção de investimento também retrata o cenário futuro positivo. Com alta de 4,7 pontos em agosto, o indicador atingiu 39,5 pontos e se distanciou da média histórica (34,1 pontos). O patamar deste mês se aproxima dos níveis pré-pandemia, quando registrava valores acima dos 40 pontos. ISTOÉ |
Aposentadoria de presidente do TCU abre corrida entre ministros de Bolsonaro por vaga
Naira Trindade e Natáliia Portinari / O GLOBO

BRASÍLIA — A decisão do presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), José Mucio, de antecipar a aposentadoria para dezembro deu início a uma série de movimentações para a indicação ao posto que será aberto na Corte. O presidente Jair Bolsonaro quer emplacar alguém de sua confiança, preferencialmente um nome que já integre o governo federal. Neste cenário, dois ministros já despontam como os principais cotados: Wagner Rosário, atualmente à frente da Controladoria-Geral da União; e Tarcísio de Freitas, titular da Infraestrutura.
Mucio decidiu deixar o TCU ao fim de seu mandato na presidência, mesmo três anos antes da data em que a aposentadoria seria compulsória. A vaga do ministro, escolhido em 2009 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é da cota de indicações do Poder Executivo.
Em um momento em que o governo planeja ampliar despesas com obras públicas e discute internamente a ideia de extrapolar o teto de gastos, aliados de Bolsonaro se preocupam com a possibilidade de o Palácio do Planalto responder a ações no TCU e o aconselham a indicar alguém afinado com a sua política econômica. Órgão auxiliar do Congresso, o Tribunal de Contas ganhou poder nos últimos anos, especialmente após questionar as chamadas pedaladas fiscais, manobras contábeis que foram a base jurídica do impeachment de Dilma Rousseff.
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Pressão do Congresso
Wagner Rosário é o nome mais forte dentro do governo, por contar com o apoio de Jorge Oliveira, ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República e conselheiro de Bolsonaro para assuntos jurídicos. Ele estudou no Colégio Militar de Brasília com Jorge, passou 27 anos no Exército e assumiu a CGU ainda na gestão de Michel Temer, em 2017.
Tarcísio de Freitas, por outro lado, é um dos preferidos do presidente, mas é visto como um ministro indispensável, pelo seu desempenho à frente da Infraestrutura. Ele também é considerado peça-chave do Pró-Brasil, pacote de investimentos públicos e concessões prestes a ser lançado pelo governo federal. Ao lado do ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, Tarcísio é defensor do direcionamento de mais recursos para a execução de obras públicas — o lançamento do Pró-Brasil, portanto, seria um motivo para que continuasse no Executivo.
No Congresso, também haverá pressão pela indicação de um senador ou deputado para a vaga, avaliam lideranças ouvidas pelo GLOBO. A nomeação pode ser usada como moeda de troca para tirar algum parlamentar da corrida pela presidência da Câmara dos Deputados ou do Senado e, por consequência, beneficiar o candidato de preferência de Bolsonaro. Dos nove atuais ocupantes do TCU, cinco foram parlamentares.
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Antes visto mais como um tribunal para aposentadoria de políticos, o TCU ganhou visibilidade e relevância na última década ao buscar ampliar seu poder de atuação. Com uma área técnica elogiada constantemente, a Corte de Contas, além do papel no impeachment, teve várias de suas auditorias usadas nas primeiras acusações da Operação Lava-Jato contra empreiteiras acusadas de superfaturar obras públicas no esquema de corrupção da Petrobras.
— Nós somos a agência reguladora do dinheiro público. Não somos um órgão político de governo, somos um órgão de Estado. A responsabilidade do TCU é ser o contador, que diz que o que você deve fazer com o seu dinheiro. Nós fomos testemunhas de muitos desmandos no Brasil, muita corrupção, e o tribunal teve uma presença marcante — avalia Mucio.
Poder e benefícios
Além do poder político, a vaga de ministro do TCU é cobiçada em Brasília por integrantes dos três Poderes pelos benefícios, como um auxílio-mudança de R$ 100 mil, salários sempre próximos do teto constitucional de R$ 39,3 mil e diversos penduricalhos, como generosas diárias de viagem. Mucio nega que os ministros sejam privilegiados em relação ao resto do funcionalismo:
— Nós somos iguais aos outros Poderes. Não há privilégios no TCU.
A indicação precisa ser aprovada pelo Senado, mas as votações secretas para nomeações só serão retomadas quando as sessões presenciais voltarem. A expectativa do presidente Davi Alcolumbre (DEM-AP) é retomá-las em setembro, justamente para limpar a fila de nomeações que aguardam o aval dos senadores.
A evolução da Covid-19 no Distrito Federal, porém, pode atrasar os planos de Alcolumbre, inclusive porque o nome do sucessor de Mucio deverá passar por comissão antes de ir a plenário em uma votação secreta. Se as sessões forem retomadas, será usado um sistema de “drive-thru”, para que senadores em grupos de risco do coronavírus possam votar de dentro de seus carros.
O TCU é um órgão do Legislativo — distinto, portanto, do Poder Judiciário — composto por nove ministros. Seis são indicados pelo Congresso Nacional, um pelo presidente da República e dois entre os auditores e membros do Ministério Público que funciona junto ao Tribunal.
Indicações além do STF
Até o fim do mandato, o presidente Jair Bolsonaro poderá indicar pelo menos nove nomes para tribunais superiores, em Brasília. Esse número se refere à quantidade de magistrados que vão completar 75 anos, idade fixada em lei para a aposentadoria compulsória de ministros. Todas essas nomeações dependerão de aprovação do Senado.
O número poderá ser maior, caso algum ministro decida deixar o posto antes mesmo de alcançar a idade em que a saída é obrigatória. Em julho de 2014, o então ministro Joaquim Barbosa deixou o Supremo Tribunal Federal (STF), abrindo o espaço para que Dilma Rousseff, presidente à época, indicasse o nome de Edson Fachin. A indicação só foi feita, no entanto, em abril de 2015. Barbosa tinha 59 anos à época.
Só no Supremo Tribunal Federal (STF), mais alta instância do Poder Judiciário brasileiro, serão abertas duas vagas. Ainda neste ano, o presidente precisará escolher um substituto para o ministro Celso de Mello, que chega aos 75 anos em novembro. Em julho de 2021, será a vez do ministro Marco Aurélio deixar o cargo.
Bolsonaro já indicou a preferência por um ministro “terrivelmente evangélico” para a primeira vaga do Supremo, o que indicou o favoritismo do ministro da Justiça, André Mendonça. O episódio da produção de um dossiê sobre servidores públicos, por uma secretaria da pasta da Justiça, no entanto, abalou a relação de Mendonça com o STF — a Corte vetou a fabricação de documentos do tipo por nove votos a um.
No Superior Tribunal de Justiça (STJ), Napoleão Nunes se aposenta no fim deste ano, em dezembro, e Felix Fischer, em agosto de 2022.
A Corte com o maior número de ministros prestes a completar 75 anos é o Superior Tribunal Militar (STM). Ao todo, três magistrados não farão mais parte do tribunal até o fim de 2022: William de Oliveira Barros (outubro de 2020), Marcus Vinicius Oliveira dos Santos (fevereiro de 2022) e Luís Carlos Gomes Matos (julho de 2022).
No Tribunal Superior do Trabalho serão pelo menos duas vagas em decorrência de aposentadorias: uma do ministro Renato de Lacerda Paiva, em setembro de 2022, e outra de Emmanoel Pereira, em outubro de 2022.
Uma versão musical do Orçamento - FERNANDO GABEIRA / O GLOBO
No momento em que se discute um tema tão áspero como o Orçamento, lembrei-me de uma velha canção chamada “Matilda”, de um gênero antigo como o calipso, cantada por Harry Belafonte, hoje com 93 anos.
“Matilda, Matilda, Matilda, she take me money and run Venezuela” — dizia a letra. A idade atrai certas loucuras. Como essa de lembrar “Matilda” ao analisar os movimentos de Bolsonaro na articulação do Orçamento.
Bolsonaro previu uma destinação para as Forças Armadas maior do que para a Saúde e a Educação. O desejo de fazer dos militares sócios do governo é um traço comum entre o Brasil de hoje e a Venezuela bolivariana. Muita grana para a Defesa, militares em postos-chave, tudo isso revela que, ao se preparar para uma guerra imaginária, o governo tem em mente a verdadeira defesa que lhe interessa: a de si próprio contra uma eventual oposição popular.
Existe uma diferença, entretanto.
Os militares na Venezuela são acusados de corrupção por apoiar um governo do qual talvez discordem ideologicamente. No Brasil não há indícios de corrupção. O máximo que pode existir são algumas benesses que fundem salário e soldo.
Aqui há proximidade ideológica. Os militares, por uma bizarra concepção de Defesa, gostariam de ver o progresso clássico na Amazônia, como se a floresta em pé nos tornasse mais vulneráveis. E gostariam também de integrar os índios à sociedade abrangente: um só povo e um só Deus facilitam a Defesa nacional.
Bolsonaro prepara seu próprio Bolsa Família. Com a ajuda emergencial, percebeu o crescimento de sua popularidade. Pessoalmente, era contra a ajuda. No passado, acusava o PT de comprar votos com ela.
Em certos temas, esquerda e direita acham que escrevem a história e não percebem que são escritas por ela. O apoio de regiões mais carentes ao governo tem sido uma constante, uma vez que, em certa medida, dependem da ajuda oficial. Elas são as últimas a abandonar um governo decadente, mesmo no período da ditadura militar.
Se as pessoas desfavorecidas sentem que o governo alivia seu fardo, elas estão dispostas até a lutar por ele. Um governo que é sócio dos militares e cria uma fiel base popular torna-se muito forte.
Nesse sentido que canto: Bolsonaro pega a grana e foge para a Venezuela. Naturalmente, as pessoas vão dizer: não é sustentável destinar tanto dinheiro para a Defesa nem manter grandes programas assistenciais.
Não discuto isso. Por acaso a Venezuela é sustentável? No entanto, Maduro sobrevive. O que interessa a ele não é a sustentabilidade nacional, e sim a do governo.
Nem interessa às Forças armadas de lá o fato de o país, pelo crescimento da pobreza, tornar-se mais vulnerável. A sensação corporativa é a de um poder crescente.
É sempre possível argumentar que políticas como a Educação e a Saúde influem diretamente no bem-estar das pessoas mais pobres. Neste momento de pandemia, a Educação é uma resignada lacuna, e a Saúde usa um orçamento de guerra.
Meu problema não é cantar calipsos na quarentena. Mas simplesmente tentar entender alguns enigmas como o de um presidente que se torna mais popular num país que entra em recessão. Há várias saídas para a Venezuela, de avião a Caracas, por terra até Santa Elena. Não esperava encontrar uma na própria discussão do Orçamento.
Não creio que Bolsonaro tenha tomado essa decisão consciente. Apenas tento imaginar as possibilidades futuras. A sedução das Forças Armadas e uma base popular não bastam para nivelar as experiências com a Venezuela. O Congresso é conquistável por métodos historicamente consagrados. A tentativa de destruir ou simplesmente arruinar uma parte da imprensa é idêntica. Resta um Supremo que também muda, embora demande algum tempo para a reposição de ministros.
Aqueles que se deslumbram com uma pseudonormalidade deveriam, pelo menos, levar em conta o processo de reorganização da inteligência estatal voltada basicamente a julgar pelos primeiros passos, a monitorar opositores. O movimento não cessa, nós é que, às vezes, não o notamos.
Isolamento longe do cenário urbano
23 de agosto de 2020 | 05h00
É como disse Manuel Bandeira, “Vou-me embora pra Pasárgada, Lá sou amigo do rei.” Com a crise de saúde em decorrência do novo coronavírus, o ano foi marcado por inúmeras mudanças sociais, entre elas o deslocamento de uma parte mais rica da população das grandes cidades para locais mais isolados e próximos à natureza. Tal fluxo é certamente uma consequência das medidas de isolamento social que intensificaram o trabalho e estudo a distância. O movimento é uma tendência global. Nos Estados Unidos, uma pesquisa do Pew Research Center publicada em julho constatou que 22% dos entrevistados se mudou ou é próximo de alguém que se transferiu de moradia na pandemia. Desse total, 3% afirmam que a mudança é definitiva.
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Naia Ceschin é artista plástica, paulistana que passou a vida morando na capital. Mas, durante a quarentena, isolou-se no litoral com a família. “Quando começou a pandemia, alugamos uma casa na praia e ficamos morando lá um tempo. Depois, também fui para a Bahia, onde moram familiares, e fiquei um mês por lá. Essa situação toda me fez repensar a maneira como vivemos e como é importante para mim estar perto da natureza. Algo que na correria do dia eu não percebia”, revela. Designer gráfica e ilustradora, Ceschin tem a fauna e a flora como suas principais fontes de inspiração, elementos que ganham suas obras em cores e formas. Durante a quarentena, compartilhou em seu Instagram uma série de trabalhos com a hashtag Quarantine Drawings, que significa desenhos de quarentena, em tradução livre. Imagens que exploram temas relacionados ao meio ambiente e à família. “Tenho uma filha pequena e estou grávida do segundo. Vê-la correndo livre, respirando ar puro e tendo esse contato diário com a natureza não tem preço”, comenta.
“Na pandemia, voz da ciência é secundária”, afirma Luciana Borio, cientista-médica
Sonia Racy / O ESTADO DE SP
24 de agosto de 2020 | 00h56
LUCIANA BORIO – PABLO MARTINEZ MONSIVAIS/ASSOCIATED PRESS
Nestes tempos incertos, em que milhões de pessoas se tornaram especialistas em pandemia, Luciana Borio é uma voz a ser ouvida. Carioca da zona sul, vivendo desde os 17 anos nos Estados Unidos, a cientista-médica, comprometida com serviço publico, se assusta com o que chama de “desvalorização da ciência”. Luciana fez seu MD na George Washington University. Completou residência na Weill Cornell Medical Center e se especializou em doenças infecciosas na Johns Hopkins University e cursou “critical care medicine” na National Institute of Health. Sua opção foi pelo serviço público americano e hoje é vice-presidente da In-Q-Tel, empresa de investimento estratégico em tecnologia de ponta para defesa e segurança nacional.
De 2017 até março de 2019, ela atuou na Casa Branca, no Conselho de Segurança Nacional. Antes, durante o governo Obama, exerceu o cargo de cientista-chefe e diretora de contraterrorismo da temida FDA – versão americana da Anvisa. Luciana ainda trabalhava para o governo Trump quando alertou, em maio de 2018 – durante palestra para marcar os 100 anos da gripe espanhola – que uma pandemia de… gripe seria a principal ameaça à segurança sanitária nos Estados Unidos. Decidida a ficar morando no exterior, destaca que a pesquisa científica nos EUA é muito bem apoiada pelos governos. No Brasil, nem tanto.
Uma de suas aflições, no momento, é constatar que “todo mundo tem um palpite sobre o coronavírus, mas sem fundamentação científica”. A esse abuso, ela reage com duas certezas claras. Primeira, “a de que o vírus se transmite pela proximidade do ser humano”, destacou em conversa com a coluna, semana passada, direto de Washington. Segunda, é de que o mundo hoje “tem um enfrentamento difícil, mas o fim da epidemia vai ser pela ciência, não pela mágica”. Outras convicções? Não exatamente, as dúvidas são múltiplas. Aqui vão trechos da entrevista por celular.
O Brasil parece ter hoje 240 milhões de infectologistas, numa onda de informação e contrainformação. Como sairemos dessa?
Essa ‘desvalorização da ciência’ é uma coisa muito nova. Todo mundo dá palpite sobre o vírus, sobre máscaras, sobre como evitar a transmissão… Classifico de tragédia, a qualidade da informação nas redes, no Facebook. Tornou-se uma marca registrada da sociedade essa dificuldade de ter discernimento. Mesmo na imprensa, a qualidade do material é muito variável. E há lideranças de governos que não quiseram ou não souberam aderir aos fatos científicos. Acompanhamos aqui (nos Estados Unidos) um ataque muito forte à ciência, bem como no Brasil. Por exemplo, esse episódio da hidroxicloroquina.
Esse caso do remédio pode prejudicar o combate ao vírus?
Com certeza. É natural do ser humano ter uma esperança, achar que um milagre vai acontecer. Na verdade, é muito claro como se controla uma epidemia. O vírus se transmite pela proximidade do ser humano. Simples assim.
É pelas gotículas que saem da boca e do nariz das pessoas, né?
Sim. E sabemos como fazer para manter distância. Claro que há trabalhos que não permitem isso. Um motorista de ônibus não pode trabalhar de casa, com um computador. O médico tem de ficar no hospital. Mas existem maneiras de evitar aglomerações e ambientes fechados, que ajudam a propagar a epidemia. O uso de testes de diagnóstico também é imprescindível para colocar em isolamento quem está com covid-19 positivo e ajudar nas investigações de quem pode ter sido exposto ao vírus.
E quanto às vacinas?
Temos três à frente – a de Oxford, a da China e a americana da Moderna. Agora apareceu a vacina russa, que desperta enorme desconfiança entre cientistas.
Como avalia esse quadro?
Existem várias vacinas em desenvolvimento e algumas em estágios mais avançados. Varias delas são muito promissoras. Mas não há, ainda, como saber se teremos vacinas seguras e efetivas. Sequer conhecemos o suficiente sobre a covid-19. Se o vírus pode mudar, se transformar. Se a resposta imunológica das pessoas será duradoura o suficiente para combater o vírus. Temos ainda muitas perguntas sem respostas.
Estudos clínicos estão sendo conduzidos em ritmo acelerado, ainda que haja tantas perguntas… no ar.
Pois é, no ar. E olhe que vivemos num momento histórico para a ciência, com tecnologias que não existiam dez anos atrás. Aqui nos Estados Unidos, a FDA não vai autorizar a vacina se ela não se provar, em estudos clínicos, que previne de verdade a infecção ou a doença.
O que significa “de verdade”?
Muitas empresas querem que suas vacinas sejam autorizadas só porque estimulam resposta imunológica. Elas dizem: “Ah, estimulou a geração de anticorpos, vamos produzir”. Claro que não é assim. Uma vacina pode gerar anticorpos e eles não darem a necessária proteção contra a infecção. Às vezes, pode até piorar. Os anticorpos gerados podem agravar a manifestação da doença, como aconteceu com a vacina da dengue.
E aí o que acontece?
Por isso, para a FDA é muito importante que a vacina seja segura e efetiva. Não vão autorizar só baseado na resposta imunológica. Não temos como avaliar se essa resposta é suficiente para prevenir a doença.
Quanto tempo vai levar isso tudo?
Cada um desses estudos clínicos envolve mais ou menos 30 mil pessoas. São vários meses, tem de identificar os voluntários. São duas doses, quatro semanas de intervalo entre uma e outra. E ainda lidar com os casos que vão aparecer.
Um “long way” até que tudo isso fique claro, não é?
Olha, eu acho até que é um “short way”, curto. Porque, se não fizer desse jeito, não vamos resolver nunca.
Dá pra se confiar em uma vacina que saiu da China?
Até hoje os estudos publicados da China têm sido um desapontamento. Os estudos iniciais que publicaram deixaram muito a desejar. Ainda lhes falta muito para chegar ao patamar da Europa, Austrália e Estados Unidos. Não é só uma questão de tecnologia, e sim de uma cultura que valoriza acima de tudo a integridade cientifica.
O que acha de se usar plasma para ajudar na cura?
No Brasil, existem experiências positivas. Eu gostaria muito que funcionasse, mas tenho muita dúvida. Deram plasma para infectados sem estudo controlado. E aí a gente teve o caso do Remdesivir, da Gilead, que teve estudos controlados. E tem também o Dexametasona. Os dois têm estudos controlados nos EUA e na Inglaterra. O estudo do Remdesivir incluiu somente mil pessoas, mas tivemos resultados claros pelo fato de terem feito um estudo cientifico.
O FDA não recomenda a cloroquina. Ela nada resolve?
A FDA não proibiu, tirou a autorização para usar para combater a covid-19, autorização essa que nunca devia ter sido dada. A cloroquina é outra coisa maluca. Não aguento ver médicos e cientistas importantes promovendo cloroquina.
Em resumo, o que temos, contra a covid-19, de comprovação científica?
O Remdesivir e o Dexametasona. Um deles a quem está doente e outro quando a doença já está muito avançada.
Dizem que há um estoque de 60 milhões de pílulas de cloroquina nos EUA. Que farão com isso?
Não tem sentido nenhum, é mesmo uma questão política. Quanto ao estoque, nunca tivemos uma situação dessas aqui, na qual a voz da ciência é secundária.
Acha que o caso brasileiro é similar ao americano?
Pelo que aparenta, o presidente brasileiro segue muito o que faz o americano.
O FDA está imunizado contra políticos e políticas de saúde?
Não. Já houve situações em que mostraram não estar imunizados contra a política. Deram autorizações que não deviam ter sido dadas. Acho que o teste maior vai ser com esta vacina.
O Instituto Butantã, em São Paulo, atesta que a partir de janeiro o Brasil vai poder fabricar 60 milhões de doses e promover vacinação em massa. Isso lhe parece viável?
Acho que tem de ter alguma cautela no caso, porque as informações sobre vacinas disponíveis para janeiro ainda são uma possibilidade um tanto limitada.
Há quem diga que a testagem em massa é um teste burro, porque nele você gasta muito para saber pouco…
O estoque disponível para os testes é limitado. De fato, testar em massa todo mundo que quiser é uma bobagem.
Quando o estado do paciente é crítico, pode-se dar um coquetel?
Na verdade, essa é uma doença da qual a maior parte das pessoas se recupera. Essa história do “não tem nada a perder” pra mim é errada, você pode estar tirando da pessoa a chance de sobreviver.
Não tem ninguém 100% imune garantido, né?
Não. A gente ainda está aprendendo o que acontece depois de uma infecção. Alguns se recuperam com pouquíssimos anticorpos, mas as manifestações mudam de um paciente para outro.
Passou pelo Conselho de Segurança, depois o FDA. Por que saiu do governo?
Eu tinha feito tantas coisas já, depois do Conselho de Segurança Nacional. Quando saí da Casa Branca, tive a oportunidade de entrar numa companhia e aprender esse lado do business…
Demografia e políticas públicas
As mudanças demográficas observadas atualmente resultarão em sensíveis mudanças na estrutura da população que reside no Estado de São Paulo. Elas implicarão alterações nas exigências e demandas de serviços públicos pela sociedade, o que exigirá, em consequência, políticas públicas condizentes. Nos próximos anos, enquanto a população de menores de 15 anos diminuirá, a de maiores de 65 anos continuará crescendo. Assim, em menos de uma década e meia, de acordo com o mais recente estudo do Sistema Seade de Projeções Populacionais sobre o tema, esses dois contingentes populacionais serão iguais numericamente. A Fundação Seade, instituição do governo do Estado que produz estatísticas econômicas e sociais de São Paulo, prevê que isso ocorrerá em 2034. Já a população em idade de trabalhar, entre 15 e 64 anos, deve estar alcançando seu número máximo no corrente ano e deverá se manter nesse nível até 2040.
Haverá menor demanda de gastos públicos com educação básica, mas o número de jovens que demandam o primeiro emprego ainda será alto, o que tenderá a manter as pressões para a geração de oportunidades de trabalho.
Gastos com saúde preventiva e curativa, bem como com previdência e assistência social, tenderão a crescer com o aumento mais rápido do número de idosos na população. Mudanças recentes nas regras previdenciárias evitarão que o sistema entre em colapso nos próximos anos. Mas, em algum momento no futuro, o novo padrão demográfico do País, que aponta nitidamente para o envelhecimento da população, imporá novas regras para o sistema de aposentadorias e pensões.
Novas demandas por serviços de assistência social e de saúde, de sua parte, exigirão novos programas públicos. Haverá maior demanda, por exemplo, por pessoal preparado para atendimento geriátrico.
O aumento da idade média da população residente em São Paulo será notável nos próximos anos, como já vem sendo observado desde o final do século passado. Em 2000, segundo a Fundação Seade, a média de idade era de 30 anos. Hoje é estimada em 36 anos. Em 2050 chegará a 44 anos.
Nos próximos 30 anos, a participação dos jovens com até 15 anos na população total cairá pela metade, enquanto a de maiores de 65 anos será multiplicada por 3,7. Haverá mudanças significativas na participação de outras faixas etárias na população total. A de menores de 39 anos diminuirá sua participação em 20%; a de 40 a 59 anos aumentará 5%. O grupo de 60 a 79 anos dobrará e o de maiores de 80 anos triplicará. Hoje, o maior volume populacional está na faixa de 20 a 39 anos; em 2050, será o de pessoas com idade entre 40 e 59 anos.
A taxa de crescimento da população, já baixa em todo o País, continuará a diminuir em São Paulo nos próximos anos. De acordo com a Seade, entre 2020 e 2050, a população passará de 44,6 milhões para 47,2 milhões. Será um aumento de apenas 5,8%, ou de menos de 0,2% ao ano. As projeções indicam que, em algum momento entre 2040 e 2045, a população residente em São Paulo começará a diminuir (de 47,62 milhões em 2040 para 47,59 milhões em 2045 e 47,20 milhões em 2050).
Será uma evolução semelhante à projetada para a população de todo o País. Estudos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e de instituições vinculadas à Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que, depois de atingir seu pico entre 2042 e 2047, a população brasileira passará a decrescer. A população máxima do País projetada por essas instituições varia de 228,4 milhões a 238,3 milhões de pessoas.
Entre 2050 e 2060, a população brasileira deverá ser bastante próxima da de hoje (de 211,9 milhões de pessoas), mas sua estrutura será muito diferente. A população idosa terá triplicado e a de crianças terá diminuído.O ESTADÃO
São transformações que parecem ainda distantes, mas boa parte delas já vem ocorrendo, algumas podem se acelerar e todas impõem, desde já, o reconhecimento de sua importância pelas autoridades e pela sociedade, para que as futuras gerações estejam preparadas para elas.




