Assassinos! - Denis Lerrer Rosenfield*, O Estado de S.Paulo
Foi esse o grito da turba ensandecida diante de um hospital, no Recife, encarregado da interrupção da gravidez de uma menina de 10 anos, estuprada sistematicamente pelo tio. A manifestação seguiu um ritual de perseguição a todos os que se colocam, voluntariamente ou não, contra as convicções de um grupo de fanáticos que procuram impor de qualquer maneira suas ideias. O evento tornou-se ainda mais dramático por mostrar a falta de sensibilidade moral, para não dizer psicológica, diante de uma criança desprotegida. Onde fica o amor ao próximo?
Uma operação que deveria ser sigilosa, para a proteção da vítima, foi publicamente escancarada, tendo ela de entrar escondida no hospital. A ativista radical de extrema direita Sara Giromini, dita Sara Winter, já bem conhecida por seu acampamento anterior na Esplanada dos Ministérios, com a complacência de autoridades, divulgou em suas redes o endereço onde seria realizada a interrupção da gravidez. Acontece que há um problema da maior gravidade aqui envolvido. Onde ela obteve as informações sobre o hospital? Quem as forneceu? Tem contatos com autoridades? Sua responsabilidade é flagrante! Urge uma investigação minuciosa que produza resultados, visto que o ocorrido é intolerável jurídica e moralmente!
A história é aterradora. Essa criança foi abusada sistematicamente por seu tio desde os 6 anos de idade, ficando à mercê dele, com ameaças de que se não consentisse ele mataria seu avô, a quem é muito afeiçoada. Não se sabe exatamente o que acontecia naquela “família”, porém salta aos olhos que estamos diante de uma menina desprotegida. Não tinha nenhum domínio de si mesma.
Estritamente falando, não tinha liberdade de escolha, seu corpo era usado e abusado. Assim transcorreram anos até que o inevitável numa situação dessas terminou por se consumar: a gravidez. Imaginem-se os tormentos dela ao tomar progressivamente consciência do que lhe estava a acontecer, até conseguir verbalizá-lo para sua avó. Foi então que ambas recorreram às autoridades. O sofrimento e a angústia eram crescentes.
Tiveram a sorte de encontrar no secretário da Saúde do Espírito Santo uma pessoa compreensiva, que soube corretamente avaliar a relevância do caso, atento à condição humana dessa criança. Note-se que o secretário é médico e pertence à Igreja Batista. Faço essa observação para que não se faça indevidamente a identificação entre conservadorismo e insensibilidade moral com essa criança, havendo casos em que, por mais distintas que sejam as convicções religiosas, a interrupção da gravidez é necessária. Quero dizer com isso que estamos diante de um caso, previsto em lei, que se situa para além das oposições entre “abortistas” e “não abortistas”. A interrupção da gravidez, dependendo dos casos, e não necessariamente apenas os hoje previstos em lei, é necessária por afetar irremediavelmente a mãe.
O secretário, ademais, alertou para o problema de alguns conselhos tutelares que postergam sua decisão para tornar irreversível a gravidez, de modo que a interrupção caia fora do que está temporalmente contemplado em lei. Seria uma postergação voltada para afetar a vítima em proveito de convicções religiosas que procuram se impor de qualquer maneira, até mesmo à revelia da lei. Em nome da moralidade e da religião, o desamor à vítima é patente, numa assombrosa expressão de insensibilidade, para além da irresponsabilidade no cumprimento de suas funções.
Decisão tomada, a criança foi removida rapidamente para o Estado de Pernambuco por ter condições hospitalares propícias para esse tipo de operação. Foi quando irrompeu o grito de “assassinos!”, mormente endereçado, no ato, àqueles que iriam realizar a intervenção. O comportamento de médicos e enfermeiros foi exemplar, cumprindo a lei, imunes aos ataques daqueles fanáticos. O mesmo não se pode dizer de um médico que, na noite anterior, foi ao quarto da menina para dissuadi-la de realizar a interrupção. Não tinha nenhum mandato para isso, invadiu a privacidade de uma pessoa desprotegida e procurou arbitrariamente impor suas convicções. É propriamente intolerável que uma pessoa dessas exerça a medicina. O que farão os responsáveis das entidades médicas? Segundo se soube, há uma investigação sigilosa em curso. Espera-se, em nome da dignidade humana, que ela produza resultados!
A menina com a girafa, bichinho que trouxe consigo, símbolo precisamente da infância, de uma infância ultrajada, violada, não teve nem direito ao sossego, porque algumas autoridades religiosas resolveram rezar pela “criança abortada”. A reza mudou de lugar, numa inversão completa de valores morais. De repente, opera-se um deslocamento, deixando ainda mais desprotegido aquele ser, que carece de compaixão. O que pretendiam? Que ela tivesse um bebê fruto do incesto, da violência? Deus deu aos homens a liberdade, e não a ignomínia de uma espécie de “fatalidade”, como se tudo o que acontece fosse fruto da vontade Dele, pois assim chegaríamos a justificar os piores atos de maldade cometidos no mundo como se fossem divinos, o que seria uma blasfêmia.
*PROFESSOR DE FILOSOFIA NA UFRGS. E-MAIL: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.
Atlas da Violência: assassinatos de negros crescem 11,5% em 10 anos
Publicado em 27/08/2020 - 15:08 Por Letycia Bond - Repórter da Agência Brasil - São Paulo
No Brasil, os casos de homicídio de pessoas negras (pretas e pardas) aumentaram 11,5% em uma década, de acordo com o Atlas da Violência 2020, divulgado hoje (27), em São Paulo, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Ao mesmo tempo, entre 2008 e 2018, período avaliado, a taxa entre não negros (brancos, amarelos e indígenas) fez o caminho inverso, apresentando queda de 12,9%.

Feito com base no Sistema de Informação sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde, o relatório evidencia ainda que, para cada pessoa não negra assassinada em 2018, 2,7 negros foram mortos, estes últimos representando 75,7% das vítimas. Enquanto a taxa de homicídio a cada 100 mil habitantes foi de 13,9 casos entre não negros, a atingida entre negros chegou a 37,8.
Na avaliação dos especialistas que produziram o documento, os números deixam transparecer o racismo estrutural que ainda perdura no país. "Um elemento central para a gente entender a violência letal no Brasil é a desigualdade racial. Se alguém tem alguma dúvida sobre o racismo no país, é só olhar os números da violência porque traduzem muito bem o racismo nosso de cada dia", diz a diretora executiva do FBSP, Samira Bueno.
"Todas essas ações [do poder público] que, de algum modo, atuam na prevenção à violência, têm sido capazes, apesar da magnitude do fenômeno [da violência], de prevenir a morte de pessoas não negras, de proteger as vidas de não negros. Porém, quando a gente olha especificamente para a taxa de homicídio da população negra, no mesmo período, no mesmo país, cresceu 11,5%. É como se a gente estivesse falando de países diferentes, territórios diferentes, tamanha a disparidade quando a gente olha para o fenômeno da violência, segmentando entre negros e não negros", complementa ela. "Isso nos ajuda a entender o quanto estamos completamente dessensibilizados por isso."
Recorte de gênero
Outro número que justifica a afirmação em torno do racismo diz respeito aos homicídios de mulheres. Na década examinada, constatou-se uma redução de 11,7% na taxa de vítimas não negras, ao mesmo tempo em que a relativa a negras subiu 12,4%.
No período, os estados que tiveram as mais altas taxas de homicídios entre a população negra estão localizados nas regiões Norte e Nordeste, com destaque para Roraima (87,5 mortos para cada 100 mil habitantes), Rio Grande do Norte (71,6), Ceará (69,5), Sergipe (59,4) e Amapá (58,3).
"Então, que políticas são essas que a gente está implementando, que protegem as mulheres não negras e não são capazes de proteger as negras?", questiona Samira.
No total, somente em 2018, 4.519 mulheres foram assassinadas em todo o país. Nesse quantitativo, estão incluídas as ocorrências de feminicídio, embora não estejam especificadas. O índice nacional foi de 4,3 homicídios para cada 100 mil habitantes do sexo feminino, o que indica que uma mulher foi assassinada no Brasil a cada duas horas. Em comparação ao ano anterior, o que se viu foi a uma redução de 9,3% entre 2017 e 2018 na taxa geral, acompanhada por queda em 19 das 27 unidades federativas.
Segundo a diretora, particularidades referentes ao dado vêm sendo constatadas ao longo do tempo. Como exemplo, ela cita o envolvimento de mulheres com membros de facções criminosas e que acabam sendo executadas. Para ela, a situação consiste em "uma nova gramática das facções", que precisa ser assimilada.
Morte entre jovens
O relatório também chama a atenção para a preponderância de jovens entre as vítimas de homicídios ocorridos em 2018. Ao todo, 30.873 jovens na faixa etária entre 15 e 29 anos foram mortos, quantidade que equivale a 53,3% dos registros.
No intervalo de 2008 a 2018, observou-se um aumento de 13,3% na taxa de jovens mortos, que passou de 53,3 homicídios a cada 100 mil jovens para 60,4. Os homicídios foram a principal causa dos óbitos da juventude masculina, representando 55,6% das mortes de jovens entre 15 e 19 anos; 52,3% entre o grupo com faixa etária de 20 a 24 anos; e 43,7% daqueles com idade entre 25 e 29 anos.
Quando se observam as taxas de mulheres e homens, identifica-se uma diferença importante. No caso delas, as proporções de homicídio são de 16,2% entre aquelas que têm entre 15 e 19 anos; 14% na parcela de 20 a 24 anos; e de 11,7% entre jovens com faixa etária de 25 a 29 anos.
Em 2018, 16 unidades federativas apresentaram taxas de mortalidade violenta juvenil acima da taxa nacional, que é de 60,4 por 100 mil. No topo da lista, aparecem Roraima (142,5), Rio Grande do Norte (119,3) e Ceará (118,4). As menores taxas foram de São Paulo (13,8), Santa Catarina (22,6) e Minas Gerais (32,6).
"É uma geração inteira que a gente está matando e é algo que não nos sensibiliza, infelizmente, que vai passando. [As vítimas] São sujeitos [considerados] descartáveis", afirma Samira.
Políticas públicas
Sobre a morte prematura de jovens brasileiros, o pesquisador Daniel Cerqueira, que também assina a publicação, ressalta que a efetividade do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) depende de como são conduzidas as políticas públicas. Os dados apresentados mostram que o conjunto de normas fez com que a taxa de homicídios entre crianças e adolescentes caísse para 3,1%, a cada ano, entre 1991 e 2018, revertendo o crescimento anual de 7,8%, registrado entre 1980 e 1991.
"De 1980 a 2018, foram 265 mil crianças assassinadas no Brasil. É uma barbárie, é muito chocante, é um número que nos leva a repensar o país. Tem algo errado aí. Duas coisas que ajudaram a frear essa barbárie foram o ECA e o Estatuto do Desarmamento. Antes do ECA, quando a gente vai olhar violência armada, a taxa de homicídio anual crescia a incríveis 9,4% a cada ano. Depois do ECA e antes do Estatuto do Desarmamento, de 1991 a 2003, o ritmo de crescimento dos homicídios de crianças diminuiu para 4,9% e, depois do Estatuto do Desarmamento, o ritmo foi de 1,7%. Ou seja, quando a gente compara antes e depois dos estatutos, a morte por violência armada de nossas crianças caiu a um quinto e, no entanto, nós estamos desconstruindo parte dessa peça agora, com o desmantelamento do Estatuto do Desarmamento e com um debate que começou a surgir na sociedade, com preconceitos contra o ECA", explica Cerqueira, acrescentando que, desde 2009, foram promovidas mudanças na legislação brasileira que permitiram uma circulação maior de porte de armas de fogo e dificultaram o rastreamento de munições e armas, muitas delas usadas por grupos criminosos, incluindo milícias.
O FBSP e o Ipea destacam, ainda, que, antes de 2003, quando o Estatuto do Desarmamento passou a vigorar, a velocidade de crescimento das mortes era cerca de 6,5 vezes maior do que a observada depois da sanção presidencial. Caso o número de homicídios se multiplicasse da mesma forma como acontecia antes do Estatuto do Desarmamento, o total poderia ultrapassar 80 mil, em 2018.
Naquele ano, a quantidade já foi elevada: foram notificados 41.179 assassinatos por arma de fogo no país, que correspondem a 71,1% de todos os homicídios do país.
"É uma geração inteira que a gente está matando e é algo que não nos sensibiliza, infelizmente, que vai passando. [As vítimas] São sujeitos [considerados] descartáveis", afirma Samira.
Edição: Kleber Sampaio / AGÊNCIA BRASIL
Brasil tem 49 municípios com mais de 500 mil habitantes, diz IBGE
Com 776 habitantes, o município de Serra da Saudade, em Minas Gerais, é a cidade brasileira que registra a menor população. Em seguida, vem Borá, em São Paulo, com 838 habitantes; Araguainha, no Mato Grosso, onde há 946 habitantes; e Engenho Velho, no Rio Grande do Sul, com 982 habitantes.

Os dados fazem parte da pesquisa Estimativas da População dos Municípios 2019, divulgada hoje (27) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A última década registrou um aumento na quantidade de grandes municípios no país. No Censo de 2010, apenas 38 municípios registravam população superior a 500 mil habitantes. Dentre eles, apenas 15 tinham mais de 1 milhão de moradores. Já em 2020, o país tem 49 municípios brasileiros com mais de 500 mil habitantes. Em 17 deles, a população é superior a 1 milhão de moradores.
Para o gerente de Estimativas e Projeções de População do IBGE, Márcio Mitsuo Minamiguchi, esse resultado indica uma tendência verificada em períodos recentes. “Os números acompanham uma tendência já percebida nos últimos anos, evidenciando a emergência de polos regionais, que apresentam crescimento populacional acima de 1% ao ano”, disse.
Dos 49 municípios com mais de 500 mil pessoas, 23 são capitais. Os outros 26 municípios estão distribuídos nos estados de São Paulo (8), do Rio de Janeiro (6), de Minas Gerais (3), do Espírito Santo (2), Pernambuco, Bahia, Santa Catarina, Goiás, Paraná, Pará e Rio Grande do Sul (com 1 município, cada). Quatro capitais: Vitória, Palmas, Rio Branco e Boa Vista têm menos de 500 mil habitantes.
Na outra ponta, há 30 municípios com população inferior a 1,5 mil habitantes, sendo que, em quatro deles, há menos de 1 mil moradores.
As 27 capitais concentram 50 milhões de habitantes, o equivalente a 23,86% da população total do país em 2020.
Crescimento anual
De acordo com o IBGE, Boa Vista, em Roraima, registrou a maior taxa de crescimento (5,12%) no período 2019-2020. A menor foi Porto Alegre, no Rio Grande do Sul (0,30%). A taxa de crescimento anual (0,84%) do conjunto dos municípios das capitais ficou acima da taxa do país (0,77%).
A região metropolitana mais populosa do Brasil ainda é a São Paulo, com 21,9 milhões de habitantes, seguida pelo Rio de Janeiro (13,1 milhões), Belo Horizonte (6,0 milhões) e também a Região Integrada de Desenvolvimento (RIDE) do Distrito Federal e Entorno (4,7 milhões).
Segundo o IBGE, as taxas de crescimento das maiores regiões metropolitanas (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Fortaleza, Recife e Salvador) ficaram ligeiramente abaixo da média do país. “Nessas metrópoles, o crescimento do município sede é, na maioria dos casos, mais baixo do que o verificado nos municípios restantes”, informou.
Redução populacional
A pesquisa indica redução populacional em 28,1% dos municípios do país, ou seja, 1.565 cidades onde as taxas de crescimento foram negativas. Em pouco mais da metade dos municípios brasileiros (52,1%), a alta no número de habitantes foi entre zero e 1%. Em 3,7% deles, 205 municípios, tiveram crescimento igual ou superior a 2%.
O grupo que, proporcionalmente, apresentou maior número de municípios com redução populacional é o de até 20 mil habitantes. Já o grupo dos municípios entre 100 mil e 1 milhão de habitantes é o que, na proporção, tem mais municípios com crescimento superior a 1%. As cidades com mais de 1 milhão de habitantes registraram crescimento entre 0 e 1% ao ano.
As regiões Norte e Centro-Oeste tem o maior número de municípios com crescimento acima de 1%. Na Região Sul, 45,6% dos municípios tiveram redução de população.
Estados
Com 46,3 milhões de habitantes, o estado de São Paulo permanece como o mais populoso do país e concentra 21,9% da população total do Brasil. Minas Gerais vem em seguida com 21,3 milhões de habitantes, e o Rio de Janeiro, com 17,4 milhões de habitantes. Os cinco estados menos populosos somam cerca de 5,7 milhões de pessoas: Roraima, Amapá, Acre, Tocantins e Rondônia, todos na região norte.
Entre os municípios, o de São Paulo também se mantém como o de maior população. Lá são 12,3 milhões de habitantes. Depois estão Rio de Janeiro (6,75 milhões), Brasília (3,05 milhões) e Salvador (2,88 milhões). Os 17 municípios do país com população superior a 1 milhão de habitantes concentram 21,9% da população nacional e 14 deles são capitais estaduais.
TCU
Segundo o IBGE, as estimativas populacionais municipais são um dos parâmetros utilizados pelo Tribunal de Contas da União (TCU) para calcular o Fundo de Participação de Estados e Municípios. Elas servem também de referência para vários indicadores sociais, econômicos e demográficos. A divulgação é anual e atende ao artigo 102 da Lei nº 8.443/1992 e à Lei complementar nº 143/2013. A tabela com a população estimada para cada município foi publicada na edição de hoje do Diário Oficial da União.
Edição: Lílian Beraldo / AGÊNCIA BRASIL
Auxílio emergencial: TCU estima R$ 42 bilhões em pagamentos indevidos
Gabriel Shinohara e Geralda Doca / O GLOBO
BRASÍLIA — Em meio a discussões sobre a prorrogação do auxílio emergencial, uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) estimou que os pagamentos indevidos do benefício podem chegar a R$ 42,1 bilhões. O relatório deve ser votado nesta quarta-feira pelo plenário do tribunal.]
Desse total pago indevidamente, R$ 23,7 bilhões foram para 6,4 milhões de pessoas que estariam recebendo sem ter direito. Os outros R$ 18,4 bilhões são de mães que foram indevidamente cadastradas como chefes de domicílio, o que garante o recebimento dobrado do benefício, de R$ 1,2 mil.
Além dos pagamentos indevidos, a auditoria concluiu que o govenro não fez estudos técnicos para basear a prorrogação de duas parcelas no valor de R$ 600 em julho e agosto.
“A decisão pela primeira prorrogação do auxílio no formato original teve como fundamento a continuidade da crise sanitária. Porém, não foi apresentado estudo sobre dados da pandemia que possam, por exemplo, oferecer cenários otimista, realista e pessimista sobre como a pandemia continuará impactando a atividade econômica. Como consequência, o ritmo de recuperação econômica poderá impactar na transição entre o auxílio emergencial e uma política permanente, efetiva e sustentável de proteção da renda”.
Outro problema encontrado pelo órgão é que o Ministério da Cidadania não está fazendo a avaliação periódica para verificar se os beneficiários ainda se encaixam nos requisitos do programa.
O relatório destaca que mais de 2 milhões de pessoas entraram no mercado de trabalho formal no período da pandemia e, por conta disso, podem ter deixado de atender aos requisitos do auxílio. O órgão sugere que essa verificação seja feita mensalmente.
Sem requisitos mínimos
A análise do TCU se baseou nos dados da Pnad contínua de 2019 que mostrava que a quantidade de beneficiários elegíveis ao Auxílio Emergencial deveria ser de 60,5 milhões de pessoas. O tribunal comparou esse número com os 66,9 milhões atualmente contemplados e estimou que 9,6% dessas pessoas não preenchem os requisitos mínimos
Em uma projeção para o pagamento de cinco parcelas, o TCU estimou que os pagamentos indevidos nesse caso são da ordem de R$ 23,7 bilhões.
“É importante considerar que se trata de uma estimativa conservadora de possíveis inclusões indevidas, na medida em que reconhece ter havido queda de renda durante a pandemia, mas pressupõe que essa queda foi generalizada”, diz o relatório.
Na análise das mães chefes de família, o TCU comparou a estimativa de famílias que chefiadas por mães com os dados do governo sobre quem está recebendo o benefício sob essa condição.
A diferença encontrada pelo tribunal foi de 6,1 milhões de beneficiárias a mais do que o previsto. Isso significa, com o pagamento das cinco parcelas, um montante de R$ 18,4 milhões.
“As prováveis concessões indevidas de cotas duplas têm como causa a baixa integração e governança entre as bases de dados do governo associadas às dificuldades para a identificação da real composição familiar nos domicílios e a impossibilidade de se comprovar a existência ou não de uniões conjugais com a coabitação dos casais”.
A estimativa de pagamento indevidos pode ser ainda maior se considerar duas regras que apresentam dificuldade de verificação de cumprimento pelo governo, a renda per capita por família e o limite de dois membros por família.
O TCU calculou que o valor total de pagamento indevidos nessas duas regras pode ser de R$ 14,4 bilhões, mas ressaltou que é preciso ter cautela nesse cálculo.
“Constatou-se 8,5 milhões de domicílios com renda per capita acima de ½ salário mínimo receberam o auxílio emergencial. Contudo, esse dado deve ser analisado com cautela, pois há um critério de renda alternativa que adota a renda familiar total de três salários mínimos. Também foi possível calcular estimativa conservadora de que 4,8 milhões de pessoas receberam o auxílio descumprindo a regra de dois membros por família”.
Recomendações
O relatório diz que o Ministério da Cidadania, responsável pelo programa, poderia melhorar os mecanismos de identificação da composição familiar de cada casa a fim de evitar pagamentos indevidos.
O relatório também estima que 3,3 milhões de pessoas que estão no Cadastro Único e fora do Bolsa Família atendem aos requisitos para receber o auxílio emergencial, mas não estão entre os beneficiários.
Endividamento
O TCU também alertou para os efeitos dos gastos extras causados pela pandemia no endividamento do país. Segundo o relatório, os créditos extraordinários abertos no valor de R$ 130 bilhões utilizaram como fonte a emissão de títulos de dívida, que deve ter um custo adicional de R$ 6,5 bilhões por ano.
“Considerando o desafio para equilibrar a proteção social necessária no período da crise e manutenção de padrões mínimos de responsabilidade fiscal, foram propostas recomendações ao Governo Federal para a elaboração de estudos integrados com cenários que abranjam evidências sanitárias, econômicas e sociais”.
Pandemia de Covid-19 desacelera em quase todo o mundo II
Enquanto os EUA acumulam 5,7 milhões de casos e mais de 177.000 óbitos, o Brasil soma 3,66 milhões de casos (47.134 nas últimas 24 horas) e 116.580 mortes (1.271 novos óbitos desde a véspera).
Apesar da relativa melhora na região, vários países e territórios do Caribe reportaram um forte aumento no número de casos e mortes nos últimos sete dias. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), isto pode ser explicado pela retomada do turismo.
Carissa Etienne, diretora da Organização Pan-americana da Saúde (Opas), agência regional da OMS, manifestou nesta terça-feira preocupação com a “incidência desproporcional” da COVID-19 entre os jovens, o que indica que “são os principais impulsionadores da propagação da doença na nossa região”.
A especialista afirmou que os casos se concentram no grupo de pessoas entre 20 e 59 anos, mas 70% das mortes ocorrem entre os maiores de 60 anos.
Enquanto isso, o sudeste asiático, a segunda região mais afetada do planeta, foi apontado pela OMS como uma exceção à desaceleração. Ali foi registrado um aumento de 4% de novos casos e mortes na semana passada, com a Índia à frente, totalizando 3,1 milhões de casos.
No Mediterrâneo oriental, o número de novos casos também aumentou 4%, mas o de óbitos caiu (-5%).
E enquanto a organização acredita que a África poderia ter superado o pico da pandemia, ao ver uma redução na contagem de casos diários, na Europa se percebe uma desaceleração após um preocupante aumento dos contágios.
O vai e vem do vírus ocorre em um momento em que o mundo chora mais de 814.000 mortes e soma quase 24 milhões de contágios, segundo uma contagem da AFP, feita com base em números oficiais.
– Uma “oportunidade” para a América Latina –
A América Latina atravessa um momento crítico. No entanto, Luis Felipe López-Calva, diretor para a região do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, avaliou em uma entrevista à AFP que a situação pode representar também uma oportunidade.
“Temos que trabalhar com os governos para evitar que a pandemia também tenha um efeito destrutivo nas instituições e, ao contrário, encará-la como uma oportunidade para reconstruir a confiança entre cidadãos e governos, para reconstruir instituições eficazes para uma normalidade que não seja apenas nova, mas melhor”, disse.
Assim, o Chile, que superou nesta terça-feira os 400.000 contágios do novo coronavírus desde março, se aproxima do início, na quarta-feira, da campanha para o plebiscito de 25 de outubro, que definirá se a Constituição herdada da ditadura de Pinochet (1973-1990) será ou não alterada.
A data da consulta, prevista inicialmente para 26 de abril, foi adiada por causa da pandemia, que parece estar controlada há mais de um mês. Embora o temor de um novo adiamento continue dando voltas frente a uma possível recidiva.
No Brasil, onde a popularidade de Jair Bolsonaro aumentou, seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro, anunciou nesta terça que está com a COVID-19.
Assintomático, o quarto membro do núcleo familiar do presidente diagnosticado com o vírus, iniciou o tratamento à base de cloroquina e azitromicina, que não contam com um aval científico unânime.
Centenas de comerciantes, agricultores, profissionais dos transportes, empresários de turismo e pescadores da Costa Rica marcharam na capital, San José, para exigir maior abertura das atividades econômicas, expondo as dificuldades de muitos setores com as restrições impostas para conter a disseminação do vírus.
No Peru, que já superou os 600.000 casos e tem quase 28.000 mortos, a taxa de mortalidade é a pior da região e aumentou para 843 por milhão de habitantes.
As milongas, onde tradicionalmente se dança tango, estão fechadas há meses e este ano terão que se conformar com “cliques” no lugar dos aplausos.
Nesta terça, o Uruguai, que celebra os 195 anos de sua independência, recebeu elogios dos Estados Unidos. “O Uruguai mostrou uma grande liderança na gestão da pandemia, servindo de modelo para a região”, declarou o chefe da diplomacia americana, Mike Pompeo, em um comunicado dirigido ao país de 3,4 milhões de habitantes, que tem 1.533 casos e 42 mortes. O governo do México, que tem mais de 60.480 mortes por COVID-19, anunciou que vai participar dos estudos clínicos de uma vacina desenvolvida pela Itália.
Pandemia de Covid-19 desacelera em quase todo o mundo
A pandemia desacelera na maioria das regiões do mundo, sobretudo no continente americano, onde a COVID-19 estabeleceu seu epicentro há meses, embora os repiques na Europa multipliquem as preocupações com a falta de uma vacina.
Na semana entre 17 e 23 de agosto foram registrados mais de 1,7 milhão de novos casos de COVID-19 e 39.000 mortes, o que representa uma queda de 5% nos contágios e de 12% dos óbitos com relação aos sete dias anteriores.
O continente americano, onde o novo coronavírus tem seu epicentro desde maio, particularmente na América Latina, é a região onde a pandemia teve a maior desaceleração, com uma queda de 11% nos novos casos e de 17% nos óbitos.
Nesta região, a COVID-19 causou até agora 261.180 mortes e 6,7 milhões de contágios, as cifras mais elevadas do planeta.
Mas, segundo a OMS, o impacto diminuiu em parte pela difusão mais lenta do coronavírus nos Estados Unidos e no Brasil, os dois países mais castigados do mundo pela pandemia. ISTOÉ

