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38% das empresas voltarão ao trabalho presencial só em 2021, diz pesquisa

Marina Dayrell / O ESTDÃO

08 de setembro de 2020 | 11h04 

Uma pesquisa realizada pela Spring Professional – braço de recrutamento sênior do grupo Adecco – com 200 empresas, aponta que 38% delas voltarão aos escritórios presenciais apenas em 2021 ou ainda não possuem definição sobre a volta. Do restante, 30% planejam o retorno no último trimestre de 2020 e outras 32% já voltaram.

Os dados mostram que a retomada varia em relação ao setor de atuação da empresa. Em áreas mais tradicionais, como bens de consumo, indústria e farmácia, metade das entrevistadas já voltaram com ao menos uma parte da equipe. Já nos setores de tecnologia e serviços, menos de 25% retornaram ao trabalho presencial.

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Das 200 empresas, 159 já adotaram mudanças de algum tipo durante a pandemia do novo coronavírus. Entre elas, 28% mudaram os benefícios oferecidos aos funcionários, como possibilidade de modelo híbrido de trabalho no futuro (home office e presencial), troca de vale-refeição por vale-alimentação ou garantia de auxílio home-office (verbas para que o funcionário compre materiais de escritório).

Em relação aos processos internos, 40% fizeram ou farão adaptações, como onboarding digital e recrutamento e admissão online. Já no âmbito estrutural, 66% das empresas fizeram ou estão planejando fazer mudanças físicas de acordo com as recomendações dos órgãos de saúde. Entre elas, 8% disseram que irão devolver seus espaços físicos ou reduzir os escritórios.

Escritório da Omie em São Paulo. Foto: Daniel Teixeira/Estadão-7/4/2020

Como base em suas decisões, apenas 15% das empresas fizeram pesquisas internas com os funcionários para definir o esquema de retorno; 21% estão criando normas baseadas nas determinações do governo e 65% seguem as diretrizes corporativas, seja da matriz ou local.

Foram ouvidos presidentes, diretores e gerentes de áreas de negócios ou recursos humanos de empresas de diferentes setores de mercado entre os dias 1º e 20 de agosto.

Após salvarem vidas, hospitais de campanha viram impasse para o pós-pandemia

Mateus Vargas e Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

 

BRASÍLIA - A expansão da rede do Sistema Único de Saúde (SUS) durante a pandemia da covid-19, marcada pela aposta em hospitais de campanha, levanta preocupações em gestores de saúde e especialistas sobre como atender a população após a crise sanitária. Segundo dados de Estados e municípios, ao menos 79 unidades foram abertas no País e 19 já foram fechadas. Algumas tiveram papel relevante no enfrentamento da doença, especialmente no começo do surto. Em outros locais, porém, os hospitais estão vazios ou desativados antes mesmo de receber pacientes.

 

Com ajuda dos novos hospitais temporários, o número de leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTI) na rede pública do País saltou de 22,8 mil, em janeiro, para 33,7 mil, em julho. A expectativa de gestores públicos e entidades médicas, porém, é de um forte recuo na oferta - ainda desconhecido -- nos próximos meses. A dúvida de secretários de saúde e especialistas é sobre como dar conta da demanda reprimida por exames, operações e tratamentos interrompidos na pandemia. Além disso, não há garantias sobre quando a covid-19, ainda descontrolada no País, irá deixar de exigir esforços do SUS.  

Hospital de campanha no Maracanã, no Rio
Hospital de campanha no Maracanã, no Rio Foto: EFE/Rogerio Santana

Uma das falhas reconhecidas pelos próprios gestores foi a construção descoordenada de hospitais de campanha, estruturas, na maioria dos casos, com prazo para serem desmontadas.  Além disso, a contratação de alguns deles acabou virando motivo de suspeitas de irregularidades.

A construção de unidades no Rio faz parte da investigação que culminou no afastamento do governador Wilson Witzel (PSC). No Estado que se tornou símbolo da má gestão na pandemia, a proposta era montar sete hospitais de campanha por R$ 770 milhões, em contratos questionados com uma organização social (OS). Dois foram entregues, com desembolso de R$ 256 milhões. Outros dois foram montados com apoio da Rede D’or. Mesmo sem pacientes desde o fim de julho, unidades do Maracanã e Nova Iguaçu seguem abertas por decisão judicial. Já leitos instalados em São Gonçalo atenderam apenas 37 pessoas e foram desativados.

O ideal era expandir a rede já estabelecida de atendimentos ou requisitar espaços da rede privada, na avaliação do pesquisador Daniel Soranz, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Ele afirmou que o Estado abriu mão de prover recursos humanos para locais que já possuíam leitos e focou em hospitais provisórios sem qualquer base científica para a estratégia. “Nunca foi mais rápido e mais barato montar uma estrutura em tenda, sendo que você tem uma estrutura em um hospital que só precisava de recursos humanos para ser ativada. Nunca na história do SUS tinham feito hospital de campanha de alta complexidade em estruturas temporárias”, disse.

 O Ministério da Saúde aponta que 25,86 mil leitos de UTI ficaram à disposição de pacientes da covid-19 na crise. O número considera, além de espaços construídos, as enfermarias que passaram por adaptações e unidades da rede privada somadas ao SUS, entre outros casos. Não há uma conta exata de quantos leitos estão em hospitais de campanha.

Pacaembu virou hospital de campanha
Pacaembu virou hospital de campanha, mas unidade já foi desativada pela Prefeitura Foto: Governo do Estado de São Paulo

Responsável por coordenar o sistema único, a pasta também não estima quantos destes espaços devem seguir na rede de atendimento após a crise. A pasta afirma que o assunto ainda é debatido em grupo de trabalho que reúne União, Estados e municípios.  Em alguns locais os leitos criados na pandemia ficaram vazios. O governo de Minas concluiu em abril um hospital de campanha em Belo Horizonte. A inauguração foi em julho, mas até hoje nenhum paciente foi atendido. Em Toledo (PR), o hospital, pronto também em abril, fechou as portas em 31 de agosto, sem ter recebido paciente algum. Uma unidade deste tipo em Cascavel (PR) foi desativada após cerca de três semanas de atividade. Nos três casos, os motivos foram questões burocráticas ou simplesmente falta de demanda.

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Índice de isolamento no Ceará está abaixo de 50% há três meses

O último dia em que o Ceará ficou com índice de isolamento social acima de 50% foi em 7 de junho, quando atingiu a marca de 51,2%, de acordo com a empresa de geolocalização In Loco. Desde então, os valores variam entre 36% e 48%. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a taxa ideal para a prevenção e combate à Covid-19 é de 70% das pessoas em casa. No entanto, com o feriadão da Independência, lotações foram registradas em diversos pontos turísticos do Estado, principalmente no litoral.

As Praias do Futuro, Cumbuco, Jericoacoara e Canoa Quebrada, por exemplo, registraram grandes aglomerações desde o sábado. No domingo (6), o Ceará ficou em 12º lugar na lista de Estados em adesão ao isolamento social, com índice de 44,4%; no sábado, ele foi de 38,1%. Em meses anteriores, o Estado figurava em primeiro lugar no levantamento, conforme a In Loco.

Até o fim da tarde desta segunda-feira (7), o Ceará registrou 222.473 casos confirmados e 8.567 mortes por Covid-19, desde o início da pandemia. Outros 86,4 mil casos da doença estão sendo investigados, segundo o IntegraSUS, plataforma da Secretaria da Saúde (Sesa). Por outro lado, 197.105 pessoas já se recuperaram da doença. Outros 599 óbitos passam por análise.

O governador Camilo Santana considera que as imagens vistas na orla "preocupam muito", principalmente pela circulação de pessoas sem o uso de máscaras.

"Para que não tenhamos uma nova onda de casos, é fundamental que haja a colaboração de todos. É inadmissível o que temos visto aqui e em vários locais do país. Por mais que equipes de fiscalização tentem agir, se não houver a colaboração das pessoas, fica tudo mais difícil", apela.

Camilo lembrou que, desde junho, o Governo do Estado busca garantir o retorno de atividades econômicas - incluindo setores como barracas de praia e restaurantes -, "sempre com muito critério e responsabilidade". Conforme o plano de retomada responsável, atualmente, 139 municípios do Estado estão na Fase 4, ainda que em semanas diferentes. Apenas 45 cidades incluídas na região do Cariri passam pela Fase 3.

Para a infectologista Mônica Façanha, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), o cenário é "preocupante" porque a transmissão do coronavírus continua ocorrendo. "Quanto mais aglomeradas as pessoas estão, mais fácil ela se torna. Essas pessoas também podem levar para casa, para outras que estão isoladas e que acabam sofrendo por conta das que estão se expondo. Temos risco de voltar a aumentar casos e óbitos com essa quantidade de gente saindo e achando que tudo voltou ao normal", observa.

Descumprimento

O aterrinho da Praia de Iracema e a Praia dos Crush, em Fortaleza, registraram intensa movimentação no domingo, repletas de frequentadores sem máscaras - o uso é obrigatório em todo o Estado - e desrespeitando o distanciamento social, na faixa de areia e no calçadão. A Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis) informou que "intensificou as ações neste fim de semana no Centro da cidade e na Avenida Beira Mar, contemplando faixa de areia e calçadão, do Mercado dos Peixes à Praia de Iracema", informa.

A praia do Cumbuco, em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza, também recebeu um grande número de frequentadores nas barracas. No geral, quase ninguém utilizava máscaras, e o distanciamento entre as mesas era pequeno. Provas da aglomeração foram os extensos engarrafamentos que se formaram nas estradas de ida e volta do local, principalmente na CE-085.

Ainda que recebam famílias e pessoas mais velhas, a maior parte do público das áreas de lazer é formada por jovens adultos. A psicóloga e analista do comportamento, Carolina Ramos, explica que essa faixa etária costuma buscar recompensas imediatas dentro dos grupos que participam para evitar solidão e rejeição.

"Como eles também têm uma crença de que sabem o que é melhor para si, questionam algumas regras e se engajam em comportamentos que podem colocá-los em risco", analisa.

Outros municípios da orla cearense tiveram intensa movimentação no feriadão. As ruas da Vila de Jericoacoara, no Litoral Oeste, foram tomadas por turistas e frequentadores na noite do sábado. Muitos visitantes não usavam máscaras de proteção contra a Covid-19 e não mantinham o distanciamento social. Com todos os leitos ocupados, a rede hoteleira operou com capacidade máxima.

A Prefeitura declarou que, desde a reabertura em 8 de agosto, realiza fiscalizações com apoio do Batalhão de Policiamento Turístico (BPTur).

A praia de Canoa Quebrada, em Aracati, no Litoral Leste, também foi palco de uma série de desrespeitos às normas de segurança sanitárias impostas para conter o avanço da pandemia. Nas noites de sábado e domingo, foram flagradas aglomerações na orla e na Avenida Broadway, que atrai turistas de diversas regiões do Ceará e de fora do Estado.

A Prefeitura de Aracati informou que fiscalizações diárias são realizadas pela Vigilância Sanitária, Guarda Municipal e Polícia Militar do Ceará (PMCE), em todos os horários. Até um toque de recolher foi imposto na região por segurança: às 22h, estabelecimentos comerciais devem fechar, e, os turistas precisam voltar para suas acomodações.

Desrespeitos

Outro local de aglomerações no Interior do Estado foi o açude de Orós, que recebeu dezenas de carros, caixas de som e pessoas consumindo bebida alcoólica. A secretária de Saúde do município, Zuila Maciel, lamentou o ocorrido em entrevista ao Sistema Verdes Mares. Ela reconheceu que o número de agentes de fiscalização é pequeno, mas que uma equipe iria ao local para tentar inibir a situação. Em Guaramiranga, as ruas do centro da cidade também ficaram lotadas na noite do domingo.

Segundo a infectologista Mônica Façanha, em praias e ambientes arejados, o risco de contágio é bem menor do que em ambientes fechados - contudo, ele não é zero, como alguns podem pensar. "Num lugar mais aberto, com mais ventilação, essa secreção de quem tosse, espirra ou fala mais alto pode ser desviada. Se tem muita gente próxima, ela pode ir não para quem está à frente, mas ao lado. O grande problema da aglomeração é que a secreção expelida por um possível portador do coronavírus vai alcançar alguém porque tem muita gente disponível", explica. DIARIONORDESTE

Privilégios e impunidade - JOSÉ CASADO / O GLOBO

Judiciário e Ministério Público perderam a bússola em disputas pelo foro privilegiado —mecanismo institucional que, para muitos, simplifica a rota da impunidade para poucos. Tem tribunal estadual anulando decisão do Supremo e procurador em luta contra procuradores, para garantir tratamento especial a políticos suspeitos de crimes comuns.

 

Há 55 mil agentes públicos nesse cercadinho judicial. Rio, Bahia e Piauí abrigam 11 mil privilegiados. A lista vai do presidente da República a vereador; de senador a reitor de universidade; de juiz a delegado.

Semanas atrás, o Tribunal de Justiça do Rio deu a regalia a um filho do presidente, Flávio Bolsonaro, político notório pelo talento para lucrar muito, várias vezes e rapidamente.

Era deputado estadual quando comprou uma quitinete na Prado Júnior, em Copacabana. Revendeu-a 60 semanas depois com o extraordinário lucro de 292%. A valorização na área havia sido de 11% (índice FipeZap). Fez mais 18 negócios assim na Barra, Botafogo e Laranjeiras.

Personagem do inquérito sobre rachadinhas e lavagem de dinheiro na Assembleia do Rio, o ex-deputado reivindicou no STF o foro privilegiado de senador. O juiz Marco Aurélio Mello rejeitou. Ele apelou ao tribunal estadual, que inovou. Deu-lhe o privilégio e transformou em letra morta a decisão do Supremo.

Procuradores do Rio recorreram contra a inovação da Justiça fluminense. Entrou em campo o procurador-geral, Augusto Aras, como relatou a repórter Bela Megale. Aras acha que o filho do presidente merece ficar longe do juízo de primeira instância. Agora, o procurador-geral batalha para derrotar os procuradores do Rio no Supremo. Quer ver rejeitada a decisão de Mello, que foi baseada na jurisprudência do próprio STF.

Há uma lógica de poder nessa aparente anarquia institucional — a de que alguns são mais iguais que outros. A disputa pelo foro privilegiado reflete o espírito de casta no serviço público: 80% dos beneficiários estão no Judiciário e no Ministério Público, mostra estudo de João Cavalcante Filho e Frederico Lima, consultores legislativos.

Inquérito no STF expõe fragilidade do controle interno no Congresso

O Supremo Tribunal Federal autorizou um inquérito sigiloso contra dois senadores, nove deputados federais e 18 ex-deputados e ex-senadores. Todos são suspeitos de peculato, desvios de verbas transferidas pelo Congresso para custear despesas inerentes ao exercício do mandato.

O caso se refere à legislatura passada (2014-2018) e envolve somente 1,8% dos atuais 594 congressistas. A Cota Parlamentar, objeto da investigação, funciona como caixa para financiar despesas como passagens aéreas ou aluguel de veículos. Varia entre R$ 35 mil e R$ 44 mil, conforme o estado do deputado ou senador.

A ministra Rosa Weber justificou a decisão, que divulgou na semana passada, com base nos indícios apresentados pelo Ministério Público Federal a partir de “relatórios técnicos de investigação, documentos e áudios obtidos em diligências de busca e apreensão, quebras de sigilo telefônico, bancário e fiscal”. Citou especificamente o artigo 312 do Código Penal, que pune com dois a 12 anos de prisão, além de multa, os servidores que se apropriam ou desviam dinheiro público entregue em razão do cargo.

A reação inicial foi o previsível protesto contra a “criminalização da política”, repetido desde 2014, quando líderes de partidos de esquerda começaram a ser expostos em episódios de corrupção. É um argumento pueril, como atesta a ministra Weber. Os fatos sugerem o desvio de dinheiro público por uma minoria parlamentar e precisam ser apurados.

O problema está na recorrência de fraudes nas verbas legislativas e no financiamento partidário e eleitoral. Senado e Câmara operam com orçamento de R$ 10,5 bilhões. Os 33 partidos custam R$ 1 bilhão aos cofres públicos anualmente, além de R$ 3 bilhões extras em anos eleitorais como este. A soma (R$ 14,5 bilhões) representa gastos exclusivamente com estrutura política no âmbito federal, não inclui estados e municípios.

Fiscalização e controle são rarefeitos. Recentemente o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), citou um contingente de 400 funcionários dedicados à análise das prestações de contas dos 513 deputados. A ineficiência também é visível na Justiça Eleitoral. Até julho, mais da metade dos 100 mil diretórios partidários nem sequer havia apresentado sua contabilidade, como manda a lei.

Câmara e Senado precisam promover reformas administrativas próprias para reduzir gastos e ganhar eficiência no manejo do dinheiro público. Deveriam ser simultâneas a mudanças no financiamento partidário e eleitoral. É o mínimo, em respeito a quem paga as contas. O GLOBO

 

Pandemia congela tradições e esquenta rivalidade entre Lula e Bolsonaro no sertão

David Lucena / FOLHA DE SP
BAHIA, CEARÁ E PERNAMBUCO

Josefa Camilo de Almeida, 72, mora na avenida Coronel Chico Romão, principal via de Serrita, município de 19 mil habitantes no sertão pernambucano. Mesmo em meio à pandemia do novo coronavírus, ela mantém um hábito comum em cidades do interior: sentar à porta de casa e olhar o movimento.

Em uma cadeira de plástico sob a sombra de uma árvore frondosa, que aplaca o calor sertanejo de 32°C, ela diz ter medo de contrair a Covid-19, apesar de dispensar o uso de máscara para conversar com a vizinha, também sem máscara, acomodada em uma cadeira apenas meio metro ao seu lado.

Dona Josefa é aposentada desde os 56 anos e por isso não teve dificuldades financeiras quando a pandemia forçou um isolamento social e reduziu drasticamente a renda de milhões de brasileiros. Apesar disso, elogia o governo de Jair Bolsonaro pelo auxílio emergencial aos que perderam renda em decorrência da pandemia.

Em Serrita, 39% da população são beneficiados diretamente pelo benefício, segundo o governo. “Ele [Bolsonaro] não é uma pessoa má, porque quem não está trabalhando também está recebendo”, diz, em referência às parcelas de R$ 600 pagas pelo Estado.

Questionada sobre como avalia o presidente em relação a governos anteriores, ela diz ainda preferir o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Por quê? Ela sorri e diz: “Porque ele dava valor aos pobres”.

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A opinião de dona Josefa reflete um pensamento cada vez mais comum no sertão nordestino.

Pesquisa Datafolha realizada em agosto mostrou que Bolsonaro está no auge de sua popularidade no país, com 37% dos brasileiros considerando seu governo ótimo ou bom, contra 32% na pesquisa anterior, em junho. Nos estados do Nordeste, a aprovação do presidente subiu de 27% para 33% no mesmo período.​

Boa parte dessa melhora de imagem é atribuída ao pagamento do auxílio emergencial, embora a paternidade do benefício seja motivo de embate entre governo e Congresso.

Folha percorreu municípios do sertão nordestino, passando por Bahia, Ceará e Pernambuco. Em vários deles, embora a lembrança do ex-presidente Lula ainda seja muito forte, boa parte da população tem aprovado Bolsonaro, a quem atribuem a concessão do auxílio.

Em Serrita, o baque econômico causado pela pandemia teve um agravante: uma parcela significativa da economia da cidade gira em torno de um evento anual, que foi realizado sem público em 2020: a tradicional missa do vaqueiro, que em julho costumava levar até 60 mil pessoas ao parque João Câncio, na zona rural do município.

A celebração, que reúne vaqueiros de todo o Nordeste, surgiu como uma homenagem a Raimundo Jacó, vaqueiro assassinado ali em 1954. Na entrada da cidade, a estátua de Raimundo Jacó montado em seu cavalo está diferente: apesar de tocar o berrante, o vaqueiro agora usa máscara.

A fim de conscientizar a população para essa e outras medidas de prevenção contra o coronavírus, a cena se repete em monumentos de todo o sertão. Na entrada de Exu (PE), por exemplo, um enorme Luiz Gonzaga traz, além da sanfona aos pés, uma máscara no rosto.

Também usa a proteção facial o Padre Cícero de 30 metros que fica em Juazeiro do Norte (CE).

Na maior cidade do Cariri, onde a economia depende fortemente do turismo religioso, a pandemia suspendeu todas as romarias. Igrejas, monumentos, museus, comércios e restaurantes foram fechados. Segundo o governo federal, 37% dos 276 mil habitantes do município são beneficiados pelo auxílio emergencial.

Anderson Ribeiro Karam, 44, tem uma mercearia na subida para a colina do Horto, onde fica a estátua do Padre Cícero. Sem os milhares de romeiros que passavam diariamente pelo local, as vendas despencaram. Como recebe auxílio-doença, não pôde solicitar a verba emergencial do governo, mas outros membros da família o fizeram.

Ele diz aprovar a postura de Bolsonaro de incentivar a reabertura dos comércios. Apesar de não ter votado no presidente em 2018, avalia como razoável a gestão dele até aqui. Mas nada que se deva comparar aos anos Lula, diz. "Antigamente, era muita pobreza. O povo aqui tinha no máximo uma bicicleta. Hoje em dia todo mundo tem sua 'motinha'."

Todos os demais municípios da região do Cariri têm uma grande parcela da população recebendo o auxílio. No Crato, esse percentual fica nos 36%; em Barbalha, 39%; Missão Velha chega aos 45%.

Do outro lado da Chapada do Araripe, em Exu, terra natal de Luiz Gonzaga, 49% dos habitantes recebem a verba. Em Granito e Trindade (PE), essa taxa chega a 45% e 43%, respectivamente.

No outro extremo do sertão pernambucano, na divisa com a Bahia, está Petrolina (distante 712 km do Recife), uma das maiores cidades de todo o semiárido brasileiro, com 354 mil habitantes, segundo estimativa do IBGE. Lá, a situação não difere do resto da região: 34% da população são beneficiados diretamente pelo auxílio.

Entre elas está Joana Salú Barbosa, 66. Há 36 anos ela vende tapioca na feira da Areia Branca, que chegou a ser suspensa. Sem poder vender seus produtos, vários feirantes tiveram que recorrer ao auxílio emergencial. "Sem esse benefício, o povo ia morrer de fome", diz Joana.

Entre as dezenas de outdoors espalhados por Petrolina e Juazeiro (BA) para exaltar a imagem de Bolsonaro e promover a Aliança Pelo Brasil, legenda que bolsonaristas tentam criar, um deles diz o seguinte: “Obrigado, presidente! Mais de 80 milhões de pessoas receberam o auxílio emergencial”.

É nesta onda de aprovação do auxílio emergencial que devem surfar vários candidatos bolsonaristas nas eleições municipais de novembro.

O impacto econômico causado pela crise do coronavírus, o alívio temporário gerado pelo auxílio emergencial e a consequente melhora de imagem do presidente devem ter forte influência na campanha em cidades pequenas e médias da região, nas quais até metade da população recebe a verba do governo.

O prefeito de Petrolina, Miguel Coelho (MDB), pré-candidato à reeleição, ressalta a importância do auxílio emergencial e de outros projetos do governo federal e indica que gostaria de ter o presidente em seu palanque. Ele, contudo, evita criticar as gestões petistas.

"Eu acho que a gente tem que separar a história, o trabalho feito, da questão política. Não sou militante da esquerda, mas reconheço o governo Lula como sendo bastante exitoso, em especial para a nossa região Nordeste", diz à reportagem. "Mas o presidente Bolsonaro vem trabalhando para poder também se inserir."

Filho do líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), o prefeito diz que o auxílio emergencial é apenas uma das obras do governo federal que justificam a alta na aprovação do presidente. Ele menciona ainda o programa de manutenção de emprego e a continuidade de projetos como a transposição do rio São Francisco.

"É óbvio que [o auxílio emergencial] é o mais tangível e o que chegou mais rápido nas classes sociais mais vulneráveis. Você fala da obra da transposição, por exemplo, ou qualquer outra obra física, é uma obra emblemática, importante, fundamental para o desenvolvimento, mas o efeito prático no pai de família, no grupo familiar, leva um tempo para se consolidar. Já o auxílio emergencial é na conta, é na veia."

No segundo turno de 2018, o candidato petista Fernando Haddad teve mais do que o dobro de votos alcançados por Bolsonaro em Petrolina. Coelho, no entanto, minimiza o resultado e afirma que é natural que o militar tenha tido menos votos no Nordeste, uma vez que ele "foi a vida inteira um político do estado do Rio de Janeiro".

Ele vê, portanto, como algo natural a consolidação da imagem do governo e a valorização do "ativo chamado Bolsonaro, do político chamado Bolsonaro", o que deve ter consequências nas eleições. "Como a gente já vem vendo muita gente querendo pegar essa onda dele", afirma.

 

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