Em pronunciamento no 7 de Setembro, Bolsonaro diz defender democracia, mas celebra golpe de 64
07 de setembro de 2020 | 20h37
BRASÍLIA - No dia em que o Brasil atingiu 127 mil mortos pelo novo coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro fez na noite de ontem um pronunciamento em que ignorou a pandemia, não destacou a agenda de reformas de governo e procurou dar ênfase à “liberdade dos brasileiros”. Bolsonaro afirmou ter compromisso com a democracia, mas, em cadeia nacional de rádio e TV, voltou a celebrar o golpe de 1964 – que deu início ao regime militar. Essa foi a primeira vez que o presidente se manifestou em pronunciamento desde abril. Durante a fala do Dia da Independência, foram registrados panelaços pelo País.
Sem mencionar a repressão da ditadura militar a opositores, Bolsonaro destacou que, nos anos 1960, “quando a sombra do comunismo nos ameaçou”, milhões de brasileiros foram às ruas “contra um país tomado pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada”. “O sangue dos brasileiros sempre foi derramado por liberdade”, disse o presidente.
Em tom nacionalista, afirmou que em 1822, na declaração de independência do Brasil, o País dizia ao mundo que “nunca mais aceitaria ser submisso a qualquer outra a nação”, e que os brasileiros “jamais abririam mão da sua liberdade”. Ele também fez referência à participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, quando o País “foi à Europa para ajudar o mundo a derrotar o nazismo e o fascismo”. “Vencemos ontem, estamos vencendo hoje e venceremos sempre.”
Afirmando compromisso com a Constituição, a democracia, a liberdade e a preservação da soberania, Bolsonaro disse que o País jamais abrirá mão de tais valores. “No momento em que celebramos essa data tão especial, reitero, como Presidente da República, meu amor à Pátria e meu compromisso com a Constituição e com a preservação da soberania, democracia e liberdade, valores dos quais nosso País jamais abrirá mão”, disse o presidente, que destacou a palavra democracia em seu pronunciamento. “A Independência nos deu a liberdade para decidir nossos destinos e a usamos para escolher a democracia.”
A escolha do presidente em enfatizar a defesa da democracia ocorre num momento em que Bolsonaro adota um tom mais ameno na relação com os demais Poderes. No primeiro semestre deste ano, o mandatário participou de atos antidemocráticos em Brasília e proferiu uma série de críticas a decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) que contrariaram os interesses do governo – como a suspensão da nomeação de Alexandre Ramagem para a Polícia Federal.
O presidente também usou o pronunciamento para ressaltar a miscigenação brasileira. Para Bolsonaro, o Brasil desenvolveu o “senso de tolerância”.
O cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília (UnB), avalia que Bolsonaro fez um pronunciamento "neutro". "Ele concentrou sua fala sobre a Independência do Brasil há 198 anos, um pouco sobre Império e sobre a República. Eu não chamaria exatamente de paz e amor, mas foi uma alusão à independência, sem ataques e sem ódio", avaliou.
Para Fleischer, cabia ao presidente ter feito, pelo menos, uma pequena menção de solidariedade aos familiares de vítimas da covid-19. "Ele não fala nem hoje nem nos outros dias. É totalmente omisso em relação ao coronavírus. Se comparar com o presidente argentino (Alberto Fernández), que assumiu o comando nacional contra a covid, a diferença é radical", disse.
'Mita'
Durante o dia, o presidente participou da cerimônia do Dia da Independência, realizada no Palácio da Alvorada. Sem máscara, Bolsonaro chegou no Rolls-Royce conversível da Presidência para o evento, acompanhado de um grupo de cerca de dez crianças, e cumprimentou apoiadores. Algumas usavam máscaras, outras não. A primeira-dama, Michelle Bolsonaro, foi chamada de "mita" pelo público.
Sem máscara, Bolsonaro chegou no Rolls-Royce conversível da Presidência para o evento, acompanhado de um grupo de cerca de dez crianças, e cumprimentou apoiadores. Algumas usavam máscaras, outras não. A primeira-dama, Michelle Bolsonaro, foi chamada de “mita” pelo público.
Enxuto por causa da pandemia, o evento substituiu o tradicional desfile de 7 de Setembro, realizado na Esplanada dos Ministérios. A portaria do Ministério da Defesa que cancelou o evento apresentou como motivo o risco de aglomeração. No entanto, de acordo com a Secretaria Especial de Comunicação (Secom), entre 1 mil e 1,2 mil pessoas acompanharam a solenidade.
Estavam presentes autoridades como os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, além de ministros de Estado e chefes das Forças Armadas. Assim que Toffoli chegou à solenidade, simpatizantes de Bolsonaro gritaram para o ministro: “Supremo é o povo”. Alcolumbre, por sua vez, foi hostilizado com vaias. Entre os ministros, Paulo Guedes (Economia), Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Fábio Faria (Comunicações) foram alguns dos presentes.
Com o desentendimento público entre Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Guedes, o presidente da Câmara dos Deputados optou por não comparecer à comemoração. Segundo a assessoria de Maia, o deputado não participou por estar no Rio.
Almoço
Depois da cerimônia, Bolsonaro ainda participou, junto de ministros, de uma confraternização na casa do secretário especial de Assuntos Estratégicos, almirante Flávio Rocha. O almoço contou também com a presença do presidente do STF. O convite de Rocha ocorreu justamente no momento em que o primeiro escalão diverge sobre gastos públicos na retomada econômica.
No feriado, brasileiros decretam por conta própria fim das medidas de isolamento
Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo
RIO - Os brasileiros aproveitaram o feriado da Independência para decretar por conta própria o fim das medidas de isolamento e prevenção à covid-19. Infringindo diversas regras municipais e estaduais, lotaram cidades turísticas, praias e bares, muitas vezes sem sequer usar máscara. Especialistas ouvidos pelo Estadão tentam explicar as razões neurológicas, sociológicas e econômicas que levaram parte da população a colocar em risco a própria saúde e também a de parentes e amigos mais próximos.
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Algumas circunstâncias explicam parte do movimento. Este foi o primeiro feriado prolongado em que as regras da quarentena já estavam flexibilizadas. Ou seja, a primeira chance real, desde o carnaval, em que a população poderia viajar para as cidades próximas, frequentar restaurantes e até tomar um banho de mar, depois de passar mais de seis meses com movimentos bastante restritos. Mas a flexibilização é diferente de normalização e implica o cumprimento de certas regras. Não foi isso que se viu no feriado.
"As pessoas decretaram por elas mesmas o fim do isolamento, não há nenhuma dúvida sobre isso", atesta o infectologista Alexandre Naime Barbosa, da Unifesp. "E fizeram isso sem seguir as regras da flexibilização, que é um conjunto de novas condutas, que exige a modificação de hábitos, o uso de máscara, o distanciamento social, a higiene reforçada. Então, o que fizeram, de verdade, não foi a flexibilização, mas sim a normalização, a banalização da ameaça."
De acordo com especialistas, existe um limite de tempo em que nosso cérebro consegue, de fato, prestar atenção em alguma coisa, levar a sério uma ameaça, até que aquilo começa a ser considerado normal.
"Existe um jogo dentro do cérebro humano ao analisar uma situação de risco", explica Naime. "Inicialmente, a doença era muito desconhecida, não tinha ainda chegado ao País, havia uma histeria grande, muito medo, e muita gente foi para o isolamento."
Agora que a epidemia já é uma realidade há mais de seis meses, muita gente decide que, se nada grave aconteceu consigo até agora, então não deve ser tão perigoso assim. Obviamente, o fato de a pessoa não ter contraído o vírus até hoje não significa que não possa contraí-lo amanhã mesmo numa praia ou bar lotado. E tampouco significa que não possa levá-lo a um parente ou amigo mais vulnerável.
"É um comportamento egoísta, de quem olha mais para si e menos para os outros, e faz uma avaliação equivocada de que talvez o maior risco já tenha passado", explica o neurocientista Luiz Eugênio Mello, diretor científico da Fapesp. "Um outro ponto é a fadiga da quarentena, as pessoas se cansam de ficar em casa."
Para o cientista social Renan Gonçalves Leonel da Silva, da Faculdade de Medicina da USP, o movimento visto no feriado seria, majoritariamente, da classe média, que neste ponto da epidemia tem registrado bem menos casos de covid do que as classes mais baixas.
Aglomerações em São Paulo
"Essas pessoas têm acesso à informação, elas sabem que a pandemia não acabou, mas, quando vão avaliar o risco para si mesmas, aspectos não científicos pesam mais na hora de tomar a decisão", explica Silva. "A classe média estava privada de seu papel de consumidor e agora essa bolha explodiu: 'vou voltar ao meu papel porque já deu, vou resgatar a minha posição social a despeito da minha responsabilidade com a saúde pública'."
Aglomerações no Rio de Janeiro
Outro pano de fundo importante, segundo os especialistas, é o fato de que as notícias indicando que uma vacina pode já estar disponível no fim deste ano ou no início de 2021 se intensificaram, conforme avançam os estudos para o desenvolvimento de imunizantes, e também das notícias dando conta da redução da velocidade de crescimento da epidemia.
"A tendência da população é ir atrás do que é mais fácil de entender", explica o cientista social. "Se todo dia temos 1.200 mortes e, num belo dia, temos 800, há um gatilho mental que nos faz entender que a epidemia está diminuindo, embora o número continue sendo muito alto."
Sobretudo, dizem, nunca houve um discurso uniforme entre o governo federal e as autoridades estaduais e municipais. Pelo contrário, muitas vezes eles foram até contraditórios, o que também dificulta a apreensão da mensagem e estimula a ideia de que diferentes posicionamentos são aceitáveis.
"Aqui a epidemia se transformou numa questão política", avalia a especialista em saúde pública Chrystina Barros, do grupo especial de combate à covid da UFRJ. "As autoridades não conseguem ser coerentes, muitas aglomeram sem máscara, são vários sinais trocados e maus exemplos."
O grande problema, avalia, é que a aposta individual prevalece sobre a saúde coletiva. "Isso é muito ruim, muito ruim mesmo, um crime contra a saúde pública", diz Barros. "Não há exemplo, não há fiscalização, não há coerção. E agora, mesmo quem ficou em casa está em risco."
A Guarda Civil Municipal de Santos registrou, desde sábado, 5, até as 19h desta segunda, 2.800 orientações sobre uso da faixa de areia, 1.590 instruções sobre uso obrigatório de máscara facial e seis autuações referentes à presença de cães na faixa de areia. Ao todo, 52 multas foram aplicadas pelo não uso do item de proteção ou por resistir a usá-lo. /COLABOROU GLAUCO BRAGA, ESPECIAL PARA O ESTADÃO
A Índia ultrapassa Brasil no ranking da pandemia e pode alcançar os EUA em outubro
As infecções por coronavírus na Índia alcançaram a marca de 4,2 milhões de casos nesta segunda-feira (7), ultrapassando o Brasil e se tornando o segundo país com maior número de contaminações, atrás apenas dos Estados Unidos.
Com 4.204.613 infecções, segundo dados compilados pela Universidade Johns Hopkins, a Índia está quase 70 mil casos à frente do Brasil, que chegou a 4.137.606 registros no domingo (6), de acordo com números do consórcio de imprensa do qual a Folha faz parte.
Com a segunda maior população do mundo —1,3 bilhão de pessoas—, a Índia registrou 90.802 novos casos nesta segunda. De acordo com especialistas, esse ritmo de contágio pode fazer com que o país ultrapasse também os mais de 6 milhões de casos dos EUA já no mês de outubro.
Os cálculos do centro de controle de epidemias do Imperial College, no Reino Unido, apontam que a taxa de transmissão do coronavírus na Índia é de 1,06. O número indica para quantas pessoas, em média, cada infectado transmite o vírus; quando está acima de 1, significa que a velocidade de contágio é crescente.
Isso quer dizer que cada 100 infectados por coronavírus na Índia contaminam outros 106, que, por sua vez, infectam mais 112, que contagiam 119 e assim sucessivamente, espalhando a doença de forma cada vez mais rápida.
Para comparação, a taxa do Brasil é 0,94, o que significa, de acordo com esse índice, que o ritmo de transmissão da Covid-19 no país está desacelerando.
O número de mortes provocadas pelo coronavírus na Índia, entretanto, ainda é bem menor que os registros dos dois países que ocupam o topo da lista. Os EUA seguem primeira posição, com 188.954 mortes, e o Brasil vem na sequência, com 126.650 óbitos.
Na Índia, são 71.642 mortos pelo vírus, e os números do mês de setembro apontam a manutenção da tendência de crescimento na taxa de mortes diárias. Foram mais de mil óbitos confirmados em cada um dos últimos seis dias.
Proporcionalmente ao tamanho de sua população, as mortes na Índia têm sido consideradas relativamente baixas. De acordo com especialistas ouvidos pela Folha, existem várias teorias para explicar essa aparente contradição. Alguns a atribuem à efetividade da quarentena, outros à juventude da população. Há, ainda, a possibilidade de que mortes ocorridas nos domicílios não estejam sendo devidamente contabilizadas, além de óbitos registrados com diagnósticos equivocados.
O governo do primeiro-ministro Narendra Modi, por sua vez, afirma que sua estratégia de testes, rastreamento e tratamento está funcionando, e optou por encerrar a maior parte das medidas de contenção do contágio para tentar ressuscitar a economia em apuros.
Nesta segunda, depois de mais de seis meses fechados, os metrôs de cidades como Nova Déli, capital da Índia, e Ahmedabad voltaram a funcionar.
O governo também anunciou a reabertura do Taj Mahal, um dos principais pontos turísticos do país. Embora com público limitado a 5.000 pessoas por dia —uma fração dos quase 80 mil visitantes diários que costumavam visitar o mausoléu—, o Taj Mahal voltará a receber visitas a partir de 21 de setembro.
De acordo com o jornal Times of India, Modi tem sido alvo de duras críticas feitas por parte da classe política indiana. Nesta segunda, Randeep Surjewala, porta-voz do Congresso Nacional Indiano, principal partido de oposição ao governo, acusou o primeiro-ministro de deixar a população lidar sozinha com as crises causadas pela pandemia.
"Enquanto a Índia é lançada no abismo do coronavírus, Modi está ocupado alimentando pavões", disse Surjewala, em referência a um vídeo publicado recentemente pelo premiê em que ele aparece cuidando de suas aves de estimação.
"Modi vai responder por sua liderança fracassada? Ou vai culpar Deus por isso?", questionou o opositor.
Conta a favor de Modi, porém, principalmente na comparação com outros líderes populistas como Donald Trump e Jair Bolsonaro, o fato de que o primeiro-ministro indiano nunca minimizou a gravidade da pandemia.
Em 24 de março, Modi determinou um "lockdown" para os habitantes de "todos os distritos, todas as ruas, todas as vilas". O maior confinamento do mundo foi elogiado e a reação rápida trouxe ganho de capital político ao governo.
As restrições abruptas, entretanto, causaram o desemprego de milhões de indianos e uma grave crise econômica, sentida principalmente pela população mais pobre.
"Sem qualquer economia pessoal e orientação adequada do governo, esses trabalhadores enfrentaram insegurança alimentar e dificuldades que levaram migrantes e famílias a caminhar milhares de quilômetros para chegar às suas aldeias", afirma um relatório sobre as políticas adotadas pelo governo indiano produzido pelo Instituto de Saúde Global da Universidade Duke, nos EUA.
Estima-se que entre 2 milhões e 10 milhões de trabalhadores indianos se viram nessas condições. Muitos morreram enquanto tentavam voltar para casa, e boa parte dos que conseguiram acabaram ajudando a disseminar o coronavírus em suas aldeias de origem.
As diferenças entre população urbana e rural também são um fator que agrava a crise de saúde no país. Cerca de 65 por centos dos indianos moram em áreas rurais, mas essa faixa da população acessa somente 35% dos leitos de hospital e 20% do total dos profissionais de saúde.
Além disso, autoridades de saúde temem que a alta densidade populacional das cidades indianas e a falta de saneamento básico façam a situação continuar piorando.
Índia ultrapassa Brasil no ranking da pandemia e pode alcançar os EUA em outubro
As infecções por coronavírus na Índia alcançaram a marca de 4,2 milhões de casos nesta segunda-feira (7), ultrapassando o Brasil e se tornando o segundo país com maior número de contaminações, atrás apenas dos Estados Unidos.
Com 4.204.613 infecções, segundo dados compilados pela Universidade Johns Hopkins, a Índia está quase 70 mil casos à frente do Brasil, que chegou a 4.137.606 registros no domingo (6), de acordo com números do consórcio de imprensa do qual a Folha faz parte.
Com a segunda maior população do mundo —1,3 bilhão de pessoas—, a Índia registrou 90.802 novos casos nesta segunda. De acordo com especialistas, esse ritmo de contágio pode fazer com que o país ultrapasse também os mais de 6 milhões de casos dos EUA já no mês de outubro.
Os cálculos do centro de controle de epidemias do Imperial College, no Reino Unido, apontam que a taxa de transmissão do coronavírus na Índia é de 1,06. O número indica para quantas pessoas, em média, cada infectado transmite o vírus; quando está acima de 1, significa que a velocidade de contágio é crescente.
Isso quer dizer que cada 100 infectados por coronavírus na Índia contaminam outros 106, que, por sua vez, infectam mais 112, que contagiam 119 e assim sucessivamente, espalhando a doença de forma cada vez mais rápida.
Para comparação, a taxa do Brasil é 0,94, o que significa, de acordo com esse índice, que o ritmo de transmissão da Covid-19 no país está desacelerando.
O número de mortes provocadas pelo coronavírus na Índia, entretanto, ainda é bem menor que os registros dos dois países que ocupam o topo da lista. Os EUA seguem primeira posição, com 188.954 mortes, e o Brasil vem na sequência, com 126.650 óbitos.
Na Índia, são 71.642 mortos pelo vírus, e os números do mês de setembro apontam a manutenção da tendência de crescimento na taxa de mortes diárias. Foram mais de mil óbitos confirmados em cada um dos últimos seis dias.
Proporcionalmente ao tamanho de sua população, as mortes na Índia têm sido consideradas relativamente baixas. De acordo com especialistas ouvidos pela Folha, existem várias teorias para explicar essa aparente contradição. Alguns a atribuem à efetividade da quarentena, outros à juventude da população. Há, ainda, a possibilidade de que mortes ocorridas nos domicílios não estejam sendo devidamente contabilizadas, além de óbitos registrados com diagnósticos equivocados.
O governo do primeiro-ministro Narendra Modi, por sua vez, afirma que sua estratégia de testes, rastreamento e tratamento está funcionando, e optou por encerrar a maior parte das medidas de contenção do contágio para tentar ressuscitar a economia em apuros.
Nesta segunda, depois de mais de seis meses fechados, os metrôs de cidades como Nova Déli, capital da Índia, e Ahmedabad voltaram a funcionar.
O governo também anunciou a reabertura do Taj Mahal, um dos principais pontos turísticos do país. Embora com público limitado a 5.000 pessoas por dia —uma fração dos quase 80 mil visitantes diários que costumavam visitar o mausoléu—, o Taj Mahal voltará a receber visitas a partir de 21 de setembro.
De acordo com o jornal Times of India, Modi tem sido alvo de duras críticas feitas por parte da classe política indiana. Nesta segunda, Randeep Surjewala, porta-voz do Congresso Nacional Indiano, principal partido de oposição ao governo, acusou o primeiro-ministro de deixar a população lidar sozinha com as crises causadas pela pandemia.
"Enquanto a Índia é lançada no abismo do coronavírus, Modi está ocupado alimentando pavões", disse Surjewala, em referência a um vídeo publicado recentemente pelo premiê em que ele aparece cuidando de suas aves de estimação.
"Modi vai responder por sua liderança fracassada? Ou vai culpar Deus por isso?", questionou o opositor.
A POPULARIDADE DE BOLSONARO ACENTUA DIVISÃO NA ESQUERDA
Sérgio Roxo / ÉPOCA
O crescimento da popularidade do presidente Jair Bolsorano acentuou a divisão dos partidos de esquerda e centro-esquerda sobre os caminhos da articulação da oposição ao governo federal. Enquanto o PT descarta uma ameaça ao lulismo, líderes de outras siglas enxergam um enfraquecimento do ex-presidente e acusam sua legenda de impedir a união desse campo político.
As diferentes forças concordam, porém, que as chances de impeachment, uma bandeira que vinha sendo levantada em conjunto, se tornaram remotas desde que o Datafolha mostrou no último dia 14 uma elevação do índice de ótimo e bom do governo de 32% para 37%, o melhor patamar desde o começo do mandato em janeiro do ano passado.
A pesquisa registrou uma melhora da popularidade no Nordeste, onde a aprovação passou de 27% para 33%. Desde a eleição presidencial de 2006, a região deu vitórias eleitorais robustas a Lula e candidatos do PT. O crescimento de Bolsonaro entre os nordestinos é atribuído ao pagamento do auxílio emergencial de R$ 600 desde abril.
"Bolsonaro tenta migrar de uma base unida pela questão dos costumes para uma base de necessitados. E quem é mais afetado com isso é Luiz Inácio lula da Silva. O eleitor que Bolsonaro tenta capturar nem é de esquerda", afirma Carlos Lupi, presidente do PDT.

O dirigente trabalhista diz que Lula tem hoje uma preocupação maior de cuidar de sua biografia e de seu partido, como fazia antes de ser eleito presidente.
"Isso é legítimo, mas o coloca em patamar inferior ao que já teve. Em todas as pesquisas nos estados, a queda da influencia eleitoral do Lula é impressionante. Ele preso estava muito melhor do que está hoje".
Presidente do PSB, Carlos Siqueira também avalia que a ameaça do crescimento de Bolsonaro é muito maior para o PT do que para a esquerda em si. Ele ainda classifica o Bolsa Família, implantado na gestão petista, de “assistencialista”.
"O Bolsonaro busca o tipo de eleitorado que se comporta de acordo com o nível de assistencialismo de cada governo. Isso não se pode chamar de programa social".
Siqueira vê um problema de comunicação da oposição, que permitiu ao presidente ficar com todos os louros da distribuição do auxílio emergencial, apesar de ter proposto inicialmente uma quantia de R$ 200 para o benefício. O valor foi aumentado durante a tramitação no Congresso.
FALTA DE ALIANÇAS
O dirigente do PSB entende que a dificuldade de se contrapor ao governo federal se dá também pela divisão da oposição, que, em sua visão, deveria ter programados alianças, pelo menos, nas cinco maiores cidades do país na eleição deste ano.
"Poderia se buscar uma resposta política eleitoral, mas não foi possível por causa da posição do maior partido de esquerda".
Um dirigente de uma outra sigla de esquerda acredita que, por causa das divisões, a disputa política no país hoje se dá entre a extrema direita, representada por Bolsonaro, e pela direita liberal. Siqueira não concorda que o cenário já seja esse, mas não descarta que um quadro assim em 2022.
Já a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, não vê uma ameaça consistente à influência política de Lula entre os eleitores do Nordeste.
"Temos que olhar a pesquisa com sangue frio. Não dá para se assustar. O Bolsonaro sempre esculhambou o Bolsa Família, dizia que era coisa de vagabundo. Agora viu um filão".
Gleisi argumenta que a popularidade de Lula não é fruto apenas do Bolsa Família, que deve ser substituído pelo Renda Brasil por Bolsonaro, mas também de outras políticas, como Benefício de Prestação Continuada (BPC) e o programa de cisternas. A mudança, na visão da petista, só ocorreria se Bolsonaro mudasse radicalmente a sua linha econômica, o que ela não acredita.
"A substituição do lulismo acho que não aconteceria. A não ser que ele (Bolsonaro) mude a política, parta para o desenvolvimentismo. Aí ele pode disputar bem a política na base popular", diz Gleisi.
Os presidentes do PT, PDT e PSB concordam que Bolsonaro terá dificuldade de manter, com o Renda Brasil, o pagamento de benefícios em valores elevados e isso pode reverter a melhora da avaliação registrada agora.
'SEGUNDO TRIMESTRE FOI O PIOR DA CRISE, AGORA VEMOS UMA RETOMADA', DIZ ECONOMISTA DO SANTANDER
Patricia Valle / ÉPOCA
Para a economista-chefe do Santander e ex-secretária do Tesouro Nacional, Ana Paula Vescovi, o pior da crise do coronavírus já passou e o Brasil começa uma gradual retomada do crescimento. Mas ainda há incertezas de como a economia ficará sem os estímulos fiscais e como o país irá administrar as contas públicas para trazer a confiança do investidor.
O pior da crise já passou? Qual sua projeção para o PIB no ano? Ela mudou após os resultados do segundo trimestre?
Os números vieram em linha com o que pensamos inicialmente, que era uma queda de 10%. Depois ficamos mais otimistas e passamos para -8% para o trimestre. Então estamos pensando em uma projeção do ano para o PIB de -6,4%. Ainda iremos revisar, mas, pelo que veio, imagino que manteremos isso. Achamos que o segundo trimestre foi o pior da crise, agora vemos uma retomada.
O que acende o sinal de alerta no PIB do segundo trimestre?
O setor externo está ajudando a manter a atividade. O setor agrícola teve uma boa safra, com dólar alto, que está equilibrando e ajustando os preços. Saímos de um déficit de conta corrente na casa de 2,7% do PIB e estamos caminhando para fechar o ano com um leve superávit nas contas correntes.
O mais preocupante é que o setor de serviços não foi um colchão amortecedor, como em outras crises. Ele foi severamente impactado. Foi uma crise que fechou tudo. É uma crise muito diferente. Junta choque de oferta com choque de demanda, muito em função da perda de confiança. Como o setor de serviços é o mais representativo do PIB, essa recuperação deve ser lenta.
O auxílio emergencial ajudou, mas o que esperar do consumo das famílias à frente, com o valor do benefício reduzido à metade?
No segundo trimestre, esse conjunto de transferências chegou a aproximadamente 15% da massa de salários, ajudou a sustentar o consumo. No último trimestre, esperamos que a economia esteja praticamente aberta, com quase tudo normalizado. Com o contágio sob controle. Isso é compatível com uma redução da dose de estímulos, porque você já tem a normalização das atividades.
Mas esses efeitos são de curto prazo. Temos que ver como a economia sai da crise sem esses estímulos, pelo menos fiscais. O ano de 2021 vai revelar os impactos da crise sanitária sobre a economia.
O ministro da Economia fala que estamos diante de uma recuperação em V. Há sinais disso?
Uma característica dessa crise é a heterogeneidade. Algumas regiões foram afetadas mais cedo e outras mais tarde, umas estão em platô mais longo... alguns setores foram pouco impactados, como alimentos, e outros bem mais impactados, como turismo e lazer. Isso mostra diferentes trajetórias de recuperação. No todo, esperamos uma trajetória mais gradual. Até porque o Brasil não tem como sustentar esses estímulos econômicos por muito tempo. Estamos falando em terminar com os principais estímulos fiscais em dezembro. E, em 2021, o governo vai tentar recuperar o ajuste das contas públicas. Para melhorar a confiança, é preciso voltar à agenda de reformas.
O risco fiscal é o que mais chama a atenção do mercado hoje, nacional e estrangeiro. As semanas de discussão do Orçamento, o envio de propostas de reformas e o desenho do Renda Brasil serão muito importantes para interpretar os movimentos da política econômica e a condição de levar o Brasil para uma recuperação sustentada, que gere emprego e renda.
Diante desse cenário, qual é a expectativa do banco para a Bolsa? Alguns setores podem puxar o mercado?
Havendo esse cenário, e temos confiança de que o Brasil irá buscar o ajuste fiscal, vamos ver a convivência com juros baixos e uma migração saudável para ativos reais, e a Bolsa passa a ter cenário construtivo. Mas isso em um cenário de solvência para o Brasil.
A política monetária também está sendo usada para combater a crise. Os juros devem permanecer baixos por muito tempo?
A política monetária tem sido muito importante, porque temos ociosidade na economia e inflação controlada. Mas vemos a autoridade monetária restringida pelo cenário fiscal. Os últimos comunicados deixam claro que o fiscal impõe riscos à economia. Sustentando o fiscal, eu acredito que a taxa de juros poderá permanecer nesse patamar de 2% até o início de 2022. Isso mantendo-se o compromisso com a responsabilidade fiscal e sustentabilidade da dívida pública.
Quando veremos o impacto da queda dos juros na economia? Ele pode trazer mais investimentos?
Os impactos têm efeitos defasados e serão contidos pelo aumento de incerteza. Os juros de curto prazo caíram, de 4,25% para 2%. Mas os juros mais longos, negociados no mercado privado, aumentaram. Os juros de 10 anos no Brasil aumentaram em relação ao pré-crise. Isso inibe um pouco a eficiência desses estímulos. Os processos de investimentos, por exemplo, são pautados nos juros de longo prazo. A percepção de risco é maior. Mas (a Selic menor) ajuda no endividamento de empresas e famílias.
Isso mostra como o mercado vê o risco Brasil?
Vemos o risco crescendo pela comparação com a taxa de juros. Em 13 de fevereiro, os juros de 10 anos estavam em 6,7%, com uma Selic maior. E agora, com a Selic em 2%, subiram para 7,55% no fim de agosto. Essa é uma sinalização de que o mercado está precificando o risco fiscal e a hipótese de crescimento menor que o esperado quando forem retirados os estímulos. Por isso precisamos de reformas.
O mercado recebeu bem o anúncio do envio da reforma administrativa. Qual deve ser seu impacto? Que outras reformas são importantes?
A reforma mais esperada é a que vai sustentar a regra do teto. Se nada for feito, em 2022 o governo federal vai entrar em shutdown de novo, não vai ter dinheiro para pagar o custeio da máquina pública. A PEC Emergencial desindexa alguns gastos e assegura uma contenção das despesas obrigatórias.
A reforma administrativa é importante, mas deve só impactar novos servidores. Ou seja, só as futuras contratações, que nem sabemos quando podem acontecer, porque hoje não há espaço. O ideal seria ter um impacto já. Poder demitir por insuficiência de desempenho. Aproximar mais a realidade do setor público ao setor privado. Já a reforma tributária mexe substancialmente na produtividade da economia, aumenta o potencial de crescimento.
O cenário internacional pode ajudar na retomada do crescimento? Ou não será favorável?
Haverá vários desafios com a pandemia. Grandes economias foram muito atingidas. E com uma vacina, voltaremos aos velhos problemas. As eleições americanas precisam ser observadas, bem como as disputas comerciais entre EUA e China. Ou seja, não vamos ficar livres do que acontece na crise. Precisamos fazer o dever de casa e ganhar resiliência para lidar melhor com choques externos. Precisamos modernizar o Estado, ter um sistema educacional mais efetivo, fortalecer o SUS, que foi tão importante na pandemia.
Enquanto a pandemia não estiver controlada, que tipo de retomada podemos ter? Será sustentável?
A economia com distanciamento social tem redução de produtividade. Mas estamos bastante confiantes na produção de uma vacina já no início de 2021. E teremos uma economia com sequelas, que teremos de recuperar para ter um crescimento sustentável.







