'SEGUNDO TRIMESTRE FOI O PIOR DA CRISE, AGORA VEMOS UMA RETOMADA', DIZ ECONOMISTA DO SANTANDER
Patricia Valle / ÉPOCA
Para a economista-chefe do Santander e ex-secretária do Tesouro Nacional, Ana Paula Vescovi, o pior da crise do coronavírus já passou e o Brasil começa uma gradual retomada do crescimento. Mas ainda há incertezas de como a economia ficará sem os estímulos fiscais e como o país irá administrar as contas públicas para trazer a confiança do investidor.
O pior da crise já passou? Qual sua projeção para o PIB no ano? Ela mudou após os resultados do segundo trimestre?
Os números vieram em linha com o que pensamos inicialmente, que era uma queda de 10%. Depois ficamos mais otimistas e passamos para -8% para o trimestre. Então estamos pensando em uma projeção do ano para o PIB de -6,4%. Ainda iremos revisar, mas, pelo que veio, imagino que manteremos isso. Achamos que o segundo trimestre foi o pior da crise, agora vemos uma retomada.
O que acende o sinal de alerta no PIB do segundo trimestre?
O setor externo está ajudando a manter a atividade. O setor agrícola teve uma boa safra, com dólar alto, que está equilibrando e ajustando os preços. Saímos de um déficit de conta corrente na casa de 2,7% do PIB e estamos caminhando para fechar o ano com um leve superávit nas contas correntes.
O mais preocupante é que o setor de serviços não foi um colchão amortecedor, como em outras crises. Ele foi severamente impactado. Foi uma crise que fechou tudo. É uma crise muito diferente. Junta choque de oferta com choque de demanda, muito em função da perda de confiança. Como o setor de serviços é o mais representativo do PIB, essa recuperação deve ser lenta.
O auxílio emergencial ajudou, mas o que esperar do consumo das famílias à frente, com o valor do benefício reduzido à metade?
No segundo trimestre, esse conjunto de transferências chegou a aproximadamente 15% da massa de salários, ajudou a sustentar o consumo. No último trimestre, esperamos que a economia esteja praticamente aberta, com quase tudo normalizado. Com o contágio sob controle. Isso é compatível com uma redução da dose de estímulos, porque você já tem a normalização das atividades.
Mas esses efeitos são de curto prazo. Temos que ver como a economia sai da crise sem esses estímulos, pelo menos fiscais. O ano de 2021 vai revelar os impactos da crise sanitária sobre a economia.
O ministro da Economia fala que estamos diante de uma recuperação em V. Há sinais disso?
Uma característica dessa crise é a heterogeneidade. Algumas regiões foram afetadas mais cedo e outras mais tarde, umas estão em platô mais longo... alguns setores foram pouco impactados, como alimentos, e outros bem mais impactados, como turismo e lazer. Isso mostra diferentes trajetórias de recuperação. No todo, esperamos uma trajetória mais gradual. Até porque o Brasil não tem como sustentar esses estímulos econômicos por muito tempo. Estamos falando em terminar com os principais estímulos fiscais em dezembro. E, em 2021, o governo vai tentar recuperar o ajuste das contas públicas. Para melhorar a confiança, é preciso voltar à agenda de reformas.
O risco fiscal é o que mais chama a atenção do mercado hoje, nacional e estrangeiro. As semanas de discussão do Orçamento, o envio de propostas de reformas e o desenho do Renda Brasil serão muito importantes para interpretar os movimentos da política econômica e a condição de levar o Brasil para uma recuperação sustentada, que gere emprego e renda.
Diante desse cenário, qual é a expectativa do banco para a Bolsa? Alguns setores podem puxar o mercado?
Havendo esse cenário, e temos confiança de que o Brasil irá buscar o ajuste fiscal, vamos ver a convivência com juros baixos e uma migração saudável para ativos reais, e a Bolsa passa a ter cenário construtivo. Mas isso em um cenário de solvência para o Brasil.
A política monetária também está sendo usada para combater a crise. Os juros devem permanecer baixos por muito tempo?
A política monetária tem sido muito importante, porque temos ociosidade na economia e inflação controlada. Mas vemos a autoridade monetária restringida pelo cenário fiscal. Os últimos comunicados deixam claro que o fiscal impõe riscos à economia. Sustentando o fiscal, eu acredito que a taxa de juros poderá permanecer nesse patamar de 2% até o início de 2022. Isso mantendo-se o compromisso com a responsabilidade fiscal e sustentabilidade da dívida pública.
Quando veremos o impacto da queda dos juros na economia? Ele pode trazer mais investimentos?
Os impactos têm efeitos defasados e serão contidos pelo aumento de incerteza. Os juros de curto prazo caíram, de 4,25% para 2%. Mas os juros mais longos, negociados no mercado privado, aumentaram. Os juros de 10 anos no Brasil aumentaram em relação ao pré-crise. Isso inibe um pouco a eficiência desses estímulos. Os processos de investimentos, por exemplo, são pautados nos juros de longo prazo. A percepção de risco é maior. Mas (a Selic menor) ajuda no endividamento de empresas e famílias.
Isso mostra como o mercado vê o risco Brasil?
Vemos o risco crescendo pela comparação com a taxa de juros. Em 13 de fevereiro, os juros de 10 anos estavam em 6,7%, com uma Selic maior. E agora, com a Selic em 2%, subiram para 7,55% no fim de agosto. Essa é uma sinalização de que o mercado está precificando o risco fiscal e a hipótese de crescimento menor que o esperado quando forem retirados os estímulos. Por isso precisamos de reformas.
O mercado recebeu bem o anúncio do envio da reforma administrativa. Qual deve ser seu impacto? Que outras reformas são importantes?
A reforma mais esperada é a que vai sustentar a regra do teto. Se nada for feito, em 2022 o governo federal vai entrar em shutdown de novo, não vai ter dinheiro para pagar o custeio da máquina pública. A PEC Emergencial desindexa alguns gastos e assegura uma contenção das despesas obrigatórias.
A reforma administrativa é importante, mas deve só impactar novos servidores. Ou seja, só as futuras contratações, que nem sabemos quando podem acontecer, porque hoje não há espaço. O ideal seria ter um impacto já. Poder demitir por insuficiência de desempenho. Aproximar mais a realidade do setor público ao setor privado. Já a reforma tributária mexe substancialmente na produtividade da economia, aumenta o potencial de crescimento.
O cenário internacional pode ajudar na retomada do crescimento? Ou não será favorável?
Haverá vários desafios com a pandemia. Grandes economias foram muito atingidas. E com uma vacina, voltaremos aos velhos problemas. As eleições americanas precisam ser observadas, bem como as disputas comerciais entre EUA e China. Ou seja, não vamos ficar livres do que acontece na crise. Precisamos fazer o dever de casa e ganhar resiliência para lidar melhor com choques externos. Precisamos modernizar o Estado, ter um sistema educacional mais efetivo, fortalecer o SUS, que foi tão importante na pandemia.
Enquanto a pandemia não estiver controlada, que tipo de retomada podemos ter? Será sustentável?
A economia com distanciamento social tem redução de produtividade. Mas estamos bastante confiantes na produção de uma vacina já no início de 2021. E teremos uma economia com sequelas, que teremos de recuperar para ter um crescimento sustentável.

