Em 'Pachinko', Min Jin Lee trata de migração forçada, xenofobia e questiona o nacionalismo senil

Lançado em 2017, nos EUA, “Pachinko” tornou-se rapidamente um sucesso de crítica e de público. Recomendado por personalidades midiáticas como Barack Obama e Oprah Winfrey, o romance da americana de origem sul-coreana Min Jin Lee foi editado em 30 países, recebeu prêmios e, em breve, será adaptado para a Apple TV. Tamanho alvoroço é pertinente. Seguindo a linha de tantos escritores empenhados em retratar suas origens, Min Jin Lee mostrou que tem muito a contribuir com esse filão ao questionar se o antigo conceito de pátria-mãe ainda é válido.
É uma ideia curiosa. Nascida na Coreia do Sul, em 1968, Min Jin Lee e sua família foram morar nos EUA em 1976 — conhecendo a fundo a experiência de abrir mão da própria terra para criar raízes em terras estrangeiras. Assim, ao acompanhar quatro gerações de uma família de coreanos vivendo no Japão durante boa parte do século XX, “Pachinko” toca, com propriedade, em temas como migração forçada, xenofobia, paixões e outras desventuras.
Eis aí um prato cheio de conflitos, material altamente inflamável e lacrimejante. Mas o bacana é que a autora não “enfeita o sofrimento” (apud Julio Barroso), escapando da lamentação mimizenta que tem sido cometida à exaustão na literatura.
Vamos, pois, a “Pachinko”. Estamos em 1910, ano em que o Japão anexou a Coreia, após um processo histórico longo. Só que Min Jin Lee não se aprofunda em questões políticas ao pé da letra. Seu foco está nos merdunchos, como dizia João Antônio a respeito das figuras invisíveis que vivem nas sombras, e isso fica claro já na frase de abertura: “A história falhou conosco, mas não importa”. Bem sacado. Aqueles à margem da história costumam render personagens fortes, como vemos nas obras de Ana Paula Maia, Toni Morrison, James Baldwin e muitos outros.
Joan Didion:A observação da vida americana entre sonho e realidade
O fio condutor da saga chama-se Sunja. Vamos conhecê-la ainda adolescente, filha única de pais humildes de uma região costeira da Coreia. Bastante cortejada pelos hóspedes da pensão que mantém com sua mãe, sempre escapa das investidas... até que sucumbe à lábia de Hansu, um sujeito rico, bem casado e cheio de filhos. O problema é que, quando Sunja descobre essas inconveniências, é um pouco tarde demais. Ela já está grávida dele, e ele, claro, some no mundo. Clichê, decerto, mas a vida tem muitos clichês do tipo.
Máquina de triturar
Para salvar o bom nome da família e o seu próprio, Sunja aceita se casar com um pastor cristão, um bom samaritano que releva o fato de criar um filho que não é seu. É assim que a família vai viver no Japão, onde coreanos, à época, eram explorados em trabalhos humilhantes e negócios criminosos, na versão nipônica da máquina de triturar imigrantes.
Depois de um breve salto no tempo, vemos Sunja e família bem remediadas. Volta à cena, então, Hansu, aquele pilantra que a deixara grávida. Pilantra profissional, diga-se, posto que se mostra como um mafioso graúdo, herdeiro do chefe do submundo — controlando inclusive salões de pachinko, casas de jogos bastante populares no Japão.

Tudo bem que o reencontro do ex-casal de ocasião é mais um clichezinho, mas ele ocorre justamente para dar um novo rumo aos personagens. Estamos agora nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, todos sabem que o Japão será virado do avesso, e Hansu usa sua influência para garantir fuga e segurança à família de Sunja. Que, a esta altura, está viúva.
A derrota na guerra determina o fim do domínio japonês sobre a Coreia — além da divisão deste país em duas metades politicamente antagônicas. É nesse ponto que surgem novos questionamentos para Sunja e seus pares. Que destino terão os coreanos que vivem no Japão? Devem permanecer em meio aos escombros ou voltar à velha terra miserenta?
Conflitos assim vão surgindo à medida que os mais jovens ganham espaço na narrativa. É o caso de Noa, filho de Sunja e Hansu. O garoto cresce e faz fortuna sentindo-se um japonês legítimo, escondendo sua raiz coreana até mesmo da própria mulher. Essa rejeição será sua desgraça.
Com essas e outras manhas, “Pachinko” pode ser um bom contraponto a obras e discursos que cultivam um nacionalismo senil ou um patriotismo homicida. Min Jin Lee sugere que não é de hoje que o conceito de pátria-mãe está em baixa — e nada indica que ele voltará a ser respeitado. Como percebe qualquer torcedor da seleção brasileira ao ver a falta de apreço de jogadores pela camisa canarinho, a pátria-mãe que interessa agora é aquela que rende trabalho e, se possível, fortunas insanas. Parece um exemplo ao acaso, mas ilustra um comportamento que se repete em todo o planeta. As saudades da terra que tem palmeiras onde canta o sabiá estão mortas há tempos — e quem as matou não tem qualquer drama de consciência.
Nelson Vasconcelos é jornalista
Serviço
“Pachinko”
Autora: Min Jin Lee. Editora: Intrínseca. Tradução: Marina Vargas. Páginas: 528. Preço: R$ 69,90 Cotação: Bom / o globo
Violência na quarentena -
Num ano marcado por uma pandemia viral como o de 2020, em que as cidades brasileiras se viram, em maior ou menor grau, sob medidas que restringiram a circulação de pessoas e o funcionamento de bares e casas noturnas, parece lógico esperar alguma diminuição dos registros criminais.
No estado do Rio de Janeiro, por exemplo, quase todos os indicadores recuaram no ano passado quando comparados aos de 2019. No caso dos homicídios, não apenas a tendência de queda dos últimos três anos se manteve como o índice regrediu para o patamar mais baixo desde 1991.
Não foi o que se verificou em São Paulo. No estado mais rico do país, o número de assassinatos paradoxalmente cresceu durante 2020, depois de cair continuamente ao longo dos sete anos anteriores.
Os homicídios dolosos passaram de 2.778, em 2019, para 2.893, no ano passado, alta de 4,1%. Já o total de vítimas cresceu mais: 4,5%. Registraram-se 3.038 mortos em 2020, ante 2.906 no ano anterior.
O recrudescimento estadual chama ainda mais a atenção quando se observa que praticamente todos os demais indicadores recuaram. Com relação aos crimes patrimoniais, os latrocínios caíram 6,7%; roubos e furtos regrediram 14,3% e 24,8%, respectivamente. A nota dissonante foram os assaltos a bancos, que passaram de 21 para 29.
Até os estupros, que vinham subindo no estado havia quatro anos, tiveram queda de 10,9% —embora especialistas advirtam que o confinamento resultante da pandemia de Covid-19 possa ter dificultado o registro dessas ocorrências.
Verdade que, malgrado o recente aumento do número de assassinatos, São Paulo segue apresentando de longe a menor taxa de homicídios do Brasil, de 6,48 por 100 mil habitantes —um trunfo das administrações tucanas que, com interrupções pontuais, estiveram à frente do estado nos últimos 25 anos, período em que esse índice mostrou recuo expressivo.
O crescimento de 2020 figura como um acontecimento historicamente raro. Desde que tais dados começaram a ser compilados, em 2001, essa foi apenas a terceira vez que a curva de homicídios inverteu o sentido de queda.
Por essa razão, é imprescindível que as autoridades se debrucem agora sobre as estatísticas de violência. Compreender as causas do retrocesso é fundamental para que se formulem políticas adequadas de segurança e, dessa maneira, garantir que o estado preserve esse importante legado civilizacional.
Vacina contra covid-19 da Novavax tem eficácia de 89,3%
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A farmacêutica americana Novavax anunciou nesta quinta-feira, 28, que sua vacina contra o novo coronavírus se mostrou 89,3% eficaz em um estudo clínico de fase três — o último necessário antes de uma aprovação. Os testes foram realizados no Reino Unido com 15.000 pessoas.
De todos os voluntários, 62 tiveram infecções confirmadas, sendo que 56 deles foram observados no grupo de placebo e somente seis faziam parte do grupo que realmente estava tomando a vacina.
“A Novavax tem potencial de ter um papel importante nessa crise global de saúde. Estamos ansiosos para continuar o trabalho com nossos parceiros, colaboradores, investigadores e reguladores no mundo todo para tornar a vacina disponível o mais rápido possível”, afirmou o CEO da companhia, Stanley Erck, em um comunicado.
A vacina também se mostrou 85,6% eficaz contra a variante B.1.1.7 — entre os pacientes que ficaram doentes durante a fase de testes, metade foi infectada pela nova cepa.
O imunizante, no entanto, não teve a mesma eficácia com a variante encontrada na África do Sul. Em testes realizados no país, a eficácia observada foi de 49,4% entre 44 casos de covid-19, sendo que 90% deles foram causados pela nova cepa. Para driblar o problema, a Novavax afirmou que está trabalhando em uma versão modificada da vacina capaz de também evitar infecções pela nova variante. Os novos testes devem começar no segundo trimestre de 2021.
As ações da empresa subiram mais de 23% depois da divulgação dos resultados.
As fases para a aprovação de uma vacina
Para uma vacina ser aprovada, ela precisa passar por diversas fases de testes clínicos prévios e em humanos. Primeiro, ela passa por fases pré-clínicos, que incluem testes em animais como ratos ou macacos para identificar se a proteção produz resposta imunológica.
A fase 1 é a inicial, quando os laboratórios tentam comprovar a segurança de seus medicamentos em seres humanos; a fase 2 tenta estabelecer de a vacina ou o remédio produz imunidade contra um vírus.
Já a fase 3 é a última do estudo e procura demonstrar a eficácia da imunização.
Uma vacina é finalmente disponibilizada para a população quando a fase 3 é finalizada e a proteção recebe um registro sanitário.
Auxílio emergencial x desenvolvimento social: como pensar no longo prazo?
Por Regina Esteves / EXAME
Nos últimos dias temos visto na mídia uma discussão sobre um possível prolongamento do auxílio emergencial. Não há, até o momento, uma posição concreta do Governo Federal sobre o que será feito. Há disparidades inclusive entre suas principais pastas. O Ministro da Economia, Paulo Guedes, já afirmou que a continuidade do auxílio causaria uma redução de verbas para setores como Saúde, Educação e Segurança.
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No entanto, as altas taxas de desemprego incidem em sua maioria, na população mais vulnerável, a qual, o desamparo ocasionado pela falta de efetividade das políticas públicas, implicam na necessidade de políticas emergenciais, tanto nesse período, quanto no pós-pandemia. Porém, como pensar políticas emergenciais de forma estruturante e que contribuam, não só para garantir o bem-estar social, mas também o desenvolvimento econômico do Estado?
No Brasil, o governo possui uma série de programas e benefícios sociais para amparar a população mais vulnerável: Bolsa Família, FGTS Emergencial, Tarifa social de energia elétrica, Benefício de prestação continuada e outros. Ainda assim, mais do que atenuar o quadro de pobreza atual do país com verbas de programas sociais, o principal desafio é superar a pobreza em médio e longo prazo.
Uma grande referência nesse tema, Amartya Sen, Economista indiano e Prêmio Nobel de Economia (1998), traz para o debate a necessidade de analisar a pobreza não somente pela falta de renda, mas também do acesso aos direitos básicos como moradia, saúde, educação, segurança alimentar e etc.
Em situações de caos público, projetos de transferência de renda mostram-se mais necessários do que nunca, por isso, precisamos defender políticas de proteção social mais robustas, integradoras e que tenham porta de entrada e de saída, que sejam também mecanismos de fortalecimento e incentivo ao processo educacional, cuja agenda exigirá uma atenção extra.
Dentre as frentes, fortalecer a Educação é uma das principais formas de contribuir para a redução ou minimização da desigualdade social. As sequelas que a pandemia deixará só serão sentidas dentro de alguns anos, por isso, faz-se necessário que a pasta seja remediada desde já. Se por conta dos gastos governamentais com a pandemia houver escassez de recursos, precisaremos mais do que nunca que cada centavo seja investido de maneira eficiente.
Segundo estudo divulgado pela FGV Social em 2020, as desigualdades educacionais no Brasil devem aumentar. Entre os motivos, estão as dificuldades encontradas pelos estudantes, principalmente os de baixa renda, para acompanhar as aulas remotas. Dessa forma, os pesquisadores concluem que a “geração coronavírus” provavelmente será menos produtiva e mais desigual em relação a anteriores e posteriores.
A questão é que, muito tem se falado sobre o aumento da desigualdade no pós-pandemia, porém ainda não vimos caminhos serem construídos para subirmos o piso social no Brasil. No Canadá, por exemplo, foi lançado em 2020 uma agenda econômica que inclui um foco renovado na política social que sugere a criação de 1 milhão de empregos.
Precisamos realizar políticas de Estado que sejam pensadas a longo prazo e de maneira sustentável. O aprimoramento das redes de proteção focadas na população mais vulnerável deve ser algo inevitável, e deveria ser feito de modo que favorecesse a imagem do Brasil doméstica e internacionalmente. Precisamos trazer novamente a confiança no Estado, e neste caso específico, ela poderia ser medida de duas maneiras: como o governo trata a população e como traça suas estratégias de longo prazo.
Para 50%, Bolsonaro não merece ser reeleito – ainda assim, ganha em 2022
Por
A crise de saúde pública em Manaus e os desencontros em relação à compra e distribuição de vacinas contra a Covid-19 vêm impactando a percepção dos brasileiros sobre a gestão federal. Para 50,3% dos brasileiros, o presidente Jair Bolsonaro não merece ser reeleito. Para 42%, ele faz jus a exercer o novamente o cargo de líder da nação. Outros 7,7% não souberam responder.
É o que mostram os novos resultados de uma pesquisa inédita de EXAME/IDEIA, projeto que une Exame Research, braço de análise de investimentos da EXAME, e o IDEIA, instituto de pesquisa especializado em opinião pública. Clique aqui para ler o relatório completo.
A percepção de que o presidente não merece ser reeleito é maior entre os estratos de baixa escolaridade e os moradores da região Norte: entre os que não completaram o ensino fundamental, 53% dizem que Bolsonaro não faz por merecer uma nova chance na Presidência da República. Entre os moradores do Norte, região fortemente afetada pela pandemia, 69% compartilham da mesma opinião.
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No contingente daqueles que pensam de forma contrária, estão 62% dos evangélicos, uma das principais bases de apoio do governo, e a população com renda superior a cinco salários mínimos. Entre os mais endinheirados, 56% dizem que Bolsonaro merece ser reeleito.
O levantamento foi realizado por telefone, em todas as regiões do país, entre os dias 25 e 28 de janeiro. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos.
Cenário eleitoral
Apesar da alta rejeição, Bolsonaro lidera a corrida presidencial para 2022. Se as eleições fossem hoje, o presidente seria reeleito. EXAME/IDEIA testou três cenários de primeiro turno, com diferentes candidatos na disputa, nos quais as intenções de voto para Bolsonaro variam de 32% a 36%, na pesquisa estimulada.
Já o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se consolida em segundo lugar, recebendo de 15% a 17% das intenções de voto. Ciro Gomes aparece consistemente em terceiro lugar e receberia de 10% a 11% dos votos.
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Na sondagem, também aparecem nomes como o apresentador Luciano Huck ( 7,5% a 10%), o psolista Guilherme Boulos (de 5% a 8%), o governador João Doria (de 3% a 6%) e o ex-ministro Sergio Moro (7%).
“Com uma oposição desorganizada e nomes incertos ou pouco conhecidos pela opinião pública, a pesquisa de intenção de voto revela que a população se vê sem opção de candidatos”, diz Maurício Moura, fundador do IDEIA. “Por isso, muitos dizem que votariam em Bolsonaro”.
Nos cenários de segundo turno, Bolsonaro ganha de seus concorrentes. Numa disputa com o ex-presidente Lula, Bolsonaro teria 45% das intenções de voto, contra 28% do adversário petista. No embate entre o atual presidente e Ciro Gomes, Bolsonaro receberia 41% dos votos, ante 34% .
No caso de uma disputa entre Doria e Bolsonaro, o presidente ganharia com vantagem, com 45% das preferências, contra 30% do governador de São Paulo. Quem teria um melhor desempenho frente ao presidente é Huck.
Em um segundo turno com Bolsonaro, o apresentador levaria 38% dos votos, diante de 41% do presidente, percentuais que configuram que ambos estariam tecnicamente empatados. “Huck não sofre de rejeição como os nomes da esquerda e é conhecido nacionalmente”, diz Moura. “Ele também é mais admirado que Doria, por exemplo”.
A pesquisa também perguntou qual é a percepção da população a respeito dos candidatos de esquerda: 40% não votariam em Luiz Inácio Lula da Silva de jeito nenhum e 38% jamais elegeriam Boulos.
“A esquerda acabou ficando associada a casos de corrupção do Partido dos Trabalhadores, que vieram à tona com a Lava Jato, e é vista como uma ameaça a valores conservadores”, analisa Moura.
Avaliação do presidente
A aprovação ao governo federal continua estável em relação à pesquisa publicada no dia 22 de janeiro, quando a pesquisa EXAME/IDEIA revelou uma queda na popularidade do presidente. O tombo foi de 11 pontos percentuais, passando de 37% no início de janeiro para 26%. O recuo acentuado fez com que a desaprovação ao governo saltasse para 45%.
Agora, a aprovação ao governo federal é de 29%, diante de 42% de insatisfação. “Os índices estão dentro da margem de erro, indicando que houve pouca alteração de uma semana para outra, embora haja um certo viés de alta”, diz Moura.
A desaprovação ao presidente é maior entre os moradores do Nordeste e a população de baixa escolaridade: entre os nordestinos, 60% veem com maus olhos o governo federal. No grupo dos brasileiros que não terminaram o ensino fundamental, 50% compartilham da mesma opinião.
O percentual de pessoas que considera o governo ótimo ou bom também continua em um patamar semelhante ao da semana passada, quando foi registrada uma queda de 38% para 27%. Hoje, esse índice está em 30%.
O número de brasileiros que avalia a gestão federal como ruim ou péssima também não mudou muito. Hoje, é de 42%, diante de 45% na rodada anterior.
“Os problemas não mudaram”, avalia Moura. “A pandemia continua se agravando e há falta de vacinas. Ao mesmo tempo, a população se ressente do fim do auxílio emergencial e teme um cenário incerto na economia”.
Seguindo os passos de Cristo ISTOÉ

A religião é um pilar importante da sociedade contemporânea e, mesmo com a diversidade de crenças, há doutrinas e líderes que transcenderam milênios e até hoje despertam a curiosidade da ciência, como Jesus Cristo. Recentemente arqueólogos israelenses descobriram uma extensa construção subterrânea próxima da Igreja de Getsêmani, localizada na entrada do Monte das Oliveiras, região lembrada na Bíblia como o local onde Cristo foi traído por Judas Iscariotes. O achado que impressionou os especialistas é conhecido como Segundo Templo e era usado para rituais de banho dos judeus há mais de dois mil anos. Além disso, resquícios de uma igreja do Período Bizantino — 330 a 1453 d.C. — também foram escavados. Embora a Bíblia seja um livro religioso importante para o entendimento da sociedade desde os primórdios, a ciência se baseia em fatos e, portanto, os novos achados são fundamentais para aprofundar os estudos sobre Jesus. “A descoberta dos locais de banho provam que o antigo nome do lugar era Getsêmani”, diz Amit Re’em, arqueólogo das Autoridades de Antiguidades de Israel (IAA). “Provavelmente houve uma indústria agrícola aqui há dois mil anos, atuante na fabricação de óleo.”
Segundo o Evangelho de Mateus, presente no Novo Testamento, Jesus foi orar no Monte das Oliveiras com seus discípulos uma noite antes de ser crucificado. Os arqueólogos da IAA acharam inscrições feitas em grego no chão do templo escavado. “Pela memória e repouso dos amantes de Cristo, que receberam o sacrifício de Abraão, aceite a oferta de seus servos e dê-lhes a remissão dos pecados. Amém”, diz a mensagem. Ao que tudo indica, os registros são do final do Período Bizantino. “É interessante ver que a igreja estava sendo usada e talvez até tenha sido fundada no tempo em que Jerusalém estava sob o domínio muçulmano, mostrando que as peregrinações cristãs continuaram nesse período”, diz o arqueólogo David Yeger.
O descontentamento do Messias com o governo do Império Romano em Jerusalém é considerado um ponto fundamental para o surgimento da religião cristã. Os romanos se baseavam na cultura grega, como o politeísmo — culto a vários deuses — entre outros ideais. O regime escravista beneficiava as elites, que gozavam de hábitos pagãos, como luxúria e riqueza, e pouco se importavam com a condição social dos cidadãos menos abastados. Deste modo, Cristo iniciou uma “nova era” entre os plebeus. Ele pregava que havia apenas um Deus, todas as pessoas eram iguais e que a vida continuava em um paraíso depois da morte. Seus sermões ganharam força e sua fama cresceu. Suas ideias revolucionárias causaram a fúria do Império Romano, que não queria um povo rebelde e esperançoso. “O cristianismo prega a ideia de liberdade. Antes apenas deuses poderiam ir para o céu”, destaca Diego Amaro, historiador do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL). “Cristo dizia que qualquer pessoa poderia ser salva.”
Atualmente a igreja de Getsêmani é considerada uma das mais importantes para a difusão do cristianismo em Israel, principalmente por conta de sua mística. A estrutura foi construída no Monte das Oliveiras entre 1919 e 1924, e teve influência das passagens bíblicas do evangelho de Lucas e Mateus, que citam a presença de Jesus na região. Devido ao sucesso nas expedições e ao achado do Segundo Templo, a IAA intensificou as buscas de artefatos no país e se depararam com uma gravura rara em uma antiga igreja na vila de Taibe, região norte de Israel.
Gravuras
Para os especialistas, o achado pode estar relacionada com as primeiras igrejas cristãs. “A saudação aos crentes na entrada era comum em igrejas, enquanto nos mosteiros não se fazia isso”, disse Leah Di Segni, arqueóloga da Universidade Hebraica de Jerusalém. De acordo com os livros de história, a igreja Católica se tornou uma instituição a partir do ano 400 d.C e depois difundiu o cristianismo. Hoje, 2021 anos após o nascimento de seu fundador, a religião é tida como a maior do mundo, com cerca de dois bilhões de fiéis — o que ajuda a explicar a curiosidade dos escavadores com o tema. “Mesmo que a vida de Cristo seja rodeada de mistérios, a história não muda, aconteceu e pronto. O que muda é nossa visão sobre o passado”, diz Amaro.
O filho de maria
https://cdn-istoe-ssl.akamaized.net/wp-content/uploads/sites/14/2021/01/58-3-418x314.jpg 418w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" style="box-sizing: border-box; margin: 0px auto; padding: 0px; font: inherit; vertical-align: baseline; min-width: 100%; max-width: 100%; height: auto; display: block; width: 879px;">Uma pedra datada em mais de 1500 anos, encontrada em Taibe, Israel, ajudou especialistas a encontrar a primeira igreja bizantina na região. O achado confirma que o cristianismo era difundido e praticado na província. A mensagem no artefato diz: “Cristo, filho de Maria”, e era usada na entrada das igrejas como uma saudação. Estima-se que o templo tenha sido erguido quatro séculos após a morte do Messias.

