Com saúde em colapso, Amazonas tem custo de R$ 1 milhão por mês em estádio sem uso
Em contraste com o cenário caótico que Manaus enfrenta desde o mês passado por causa da escalada de casos de Covid-19, a Arena da Amazônia se destaca na paisagem como uma estrutura ociosa a poucos metros de duas unidades hospitalares da capital.
O estádio foi construído para a Copa do Mundo de 2014, da qual Manaus foi uma das sedes, com investimentos de R$ 669 milhões, pagos pelo governo do Amazonas e com financiamento do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social).
Os custos milionários das obras para o Mundial levaram a protestos em todo o país em 2013 e 2014. Na época, Ronaldo, ex-atacante da seleção brasileira, defendeu os gastos e disse que "não se faz Copa com hospitais".
Hoje, a Arena da Amazônia está fechada e os jogos foram transferidos para outros estados em virtude das restrições de circulação no estado e da falta de leitos para atender atletas. Um decreto estadual em vigor desde 4 de janeiro suspende a realização de eventos no Amazonas.
Segundo a Fundação Amazonas de Alto Rendimento, órgão estadual que administra os espaços esportivos do estado, os gastos com a manutenção do estádio são de cerca de R$ 1 milhão por mês.
O principal estádio manauara luta contra a fama de "elefante branco". Antes do fechamento, recebia jogos do campeonato amazonense, de competições nacionais e de um campeonato local de futebol amador, além de partidas de outros esportes como rúgbi e futebol americano.
O uso mais frequente da Arena, no entanto, está no seu espaço multifuncional, que recebe eventos como feiras, exposições, bazares, festas, shows e até mesmo blocos de Carnaval.
Com área de 84 mil metros quadrados e capacidade para 44,8 mil pessoas, a Arena teve seu recorde de público em agosto de 2019, quando o Manaus FC enfrentou o Brusque na final da série D do Campeonato Brasileiro e levou 44.896 pagantes ao estádio.
Procurada, a Fundação Amazonas de Alto Rendimento não deu detalhes sobre o faturamento da Arena da Amazônia.
No início da pandemia, o deputado federal José Ricardo (PT-AM) defendeu a instalação de um hospital de campanha na Arena da Amazônia. No fim de dezembro, com o recrudescimento da pandemia, voltou a pedir a implantação da estrutura médica, o que ele classificou como uma medida urgente.
Ele avalia que a implantação do hospital no espaço iria desafogar o sistema de saúde e destacou a localização central do estádio, em uma das principais avenidas de Manaus, o que, segundo ele, facilitaria o acesso.
"Tem muito espaço nas áreas laterais, espaços que são utilizados para eventos, num local amplo e adequado para a implantação de um hospital de campanha", destacou o deputado.
A medida foi adotada em outras capitais, onde estádios foram adaptados para atender a demanda pela ampliação de leitos durante a pandemia. Em São Paulo, o estádio do Pacaembu foi um dos primeiros a receber estrutura hospitalar para acolher pacientes com Covid-19.
O mesmo aconteceu em estádios como a Arena Fonte Nova, em Salvador, o Presidente Vargas, em Fortaleza, o Mané Garrincha, em Brasília, e o Canarinho, em Boa Vista.
Em dezembro do ano passado, o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), anunciou a reativação do hospital de campanha estadual, erguido em um hospital universitário desativado. Na ocasião, ele disse que estava fazendo "a maior ampliação da capacidade da saúde pública na história do estado".
O esforço, no entanto, não foi suficiente para evitar o colapso no sistema de saúde. Com a alta nas internações por Covid-19, no dia 14 de janeiro a capital entrou em crise com a falta de leitos e de oxigênio na rede pública e privada.
A taxa de ocupação dos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) é de 94,3% e médicos relataram à Folha que precisam escolher quais pacientes receberão atendimento.
Em nota, o governo afirmou que o plano estadual de contingência da Covid-19 já prevê a implantação de estruturas de retaguarda no sistema de saúde e que a unidade está sendo montada, sem detalhar como e quando o hospital começará a receber pacientes.
A gestão estadual também não falou sobre as possibilidades de uso para a Arena da Amazônia, que, sem jogos e sem hospital de campanha, segue fechada.
A impositiva e desafiante agenda da educação
02 de fevereiro de 2021 | 03h00
O enfrentamento da pandemia do novo coronavírus impôs sacrifícios, em maior ou menor escala, planeta afora, a um âmbito vital de nossa existência: a educação. Em nações com melhores índices de inclusão e letramento digital, o fechamento das escolas e o ensino remoto causaram bem menos danos do que se verificam em nosso país.
No Brasil há ainda longa travessia para uma migração inclusiva e equitativa rumo ao mundo dos bytes. Pesquisas apontam graves desafios quanto a acesso, analfabetismo digital, infraestrutura de telecomunicações, assistência técnica, equipamentos precários ou tecnologicamente ultrapassados, custos envolvidos e qualidade de conexão.
A inclusão digital configura, assim, uma das principais demandas da pauta da educação que se coloca para os prefeitos que acabaram de tomar posse e neste fevereiro se confrontam com as questões mais urgentes impostas pela pandemia e com as determinantes estruturantes da formação educacional brasileira.
Entre as urgências, estão as definições sobre oferta segura de aulas presenciais, efetividade das atividades virtuais, fixação de modelos híbridos, ajustes de calendários, suporte psicológico à comunidade escolar, ações de reforço e recuperação, entre outros.
O incremento da digitalidade é de interesse mais que imediato neste momento, mas também se coloca no rol das questões estruturantes. Nesse caminho, o Todos pela Educação propõe às novas lideranças municipais um consistente estudo para a melhoria duradoura do ensino infantil e do fundamental. A agenda contempla quatro eixos: alunos, professores, escolas e quadro técnico qualificado para suporte às atividades escolares.
Preconiza-se, entre outros, “oferta de vagas para atender todos em idade escolar obrigatória e suprir a demanda de creche do município”, garantir a frequência e as devidas condições de aprendizagem, “assegurar uma rotina de trabalho docente que favoreça uma atuação de qualidade”, apoiar o “desenvolvimento profissional contínuo dos professores”, e “oferecer suporte pedagógico de alta qualidade a partir do currículo local”.
Recomenda-se também “valorizar e profissionalizar a gestão escolar”, “garantir infraestrutura apropriada nas escolas”, “apoiar o processo de melhorias na proposta pedagógica, buscando, inclusive, aumentar o tempo da jornada escolar”, “constituir um quadro técnico de profissionais com competências e perfis adequados para a gestão educacional”, “assegurar que os processos de gestão sejam conduzidos de forma eficiente, permitindo uma melhoria da qualidade do gasto” e “estabelecer, sempre que possível, estratégias de colaboração com outros entes federativos”.
Para além dessas acertadas proposições, resta dizer que o Brasil tem experiências de sucesso, aptas a inspirar a ampla reinvenção da educação nacional. No documento do Todos pela Educação, aliás, há vários exemplos. À frente do governo capixaba (2015-2018), entre várias medidas para tornar contemporânea a educação básica, instituímos o Pacto pela Aprendizagem no Espírito Santo (Paes).
Derivado do Programa Ler, Escrever e Contar, por nós implementado entre 2003 e 2010 e inspirado nas experiências do Ceará, o Paes instituiu o regime de colaboração entre as redes estadual e municipais, com vista a fortalecer a aprendizagem da educação infantil até as séries finais do ensino fundamental. As ações previam fortalecer a gestão, melhorar a aprendizagem via ações pedagógicas específicas e subvenção e suporte às redes.
Há também organizações da sociedade civil que acumulam capacidades e conhecimentos em boas práticas que podem guiar-nos na qualificação e atualização da educação no Brasil. Além do Todos pela Educação, podemos citar a Fundação Lemann e os Institutos de Corresponsabilidade pela Educação (ICE), Ayrton Senna, Unibanco, Itaú Social, Natura e Sonho Grande.
Ou seja, definitivamente não é preciso reinventar a roda, basta não descontinuar políticas públicas bem-sucedidas e buscar aprender com quem já encontrou o caminho, ajustando experiências que deram certo às peculiaridades de cada cidade.
Em meio à nebulosidade virótica que ainda ofusca nossos olhares de longo prazo, é preciso ter clareza de que, além de enfrentar as demandas do dia a dia pandêmico, precisamos pensar no futuro já. Isso porque toda crise tem fim e recomeça melhor quem estiver mais bem preparado para tal.
Antigamente, a educação era luz a iluminar a escuridão da ignorância. Hoje, na sociedade da informação, é também essencial para o êxito no mundo produtivo, plenamente conectado à tecnologia, ao conhecimento, à inovação, à produtividade e à competitividade, entre outros marcos indissociáveis da educação de qualidade.
Lembrando o professor italiano Nuccio Ordine, a educação é uma das principais constituintes “do líquido amniótico ideal no qual podem se desenvolver vigorosamente as ideias de democracia, liberdade, justiça, laicidade, igualdade, direito à crítica, tolerância, solidariedade e bem comum”.
ECONOMISTA, PRESIDENTE EXECUTIVO DA INDÚSTRIA BRASILEIRA DE ÁRVORES (IBÁ), MEMBRO DO CONSELHO DO TODOS PELA EDUCAÇÃO, FOI GOVERNADOR DO ESPÍRITO SANTO (2003-2010 E 2015-2018)
Toque de recolher reduz a propagação do coronavírus?
02 de fevereiro de 2021 | 05h00
Com o aumento dos casos de coronavírus e com uma nova cepa contagiosa ameaçando acelerar a pandemia, a França adotou um rigoroso toque de recolher das 6 da tarde às 6 da manhã. Os franceses são mantidos dentro de casa e o comércio deve ficar fechado.
Em Quebec, as autoridades canadenses impuseram uma restrição semelhante no início deste mês, das 8 da tarde às 5 da manhã. Os nervos estão em frangalhos. Uma mulher que caminhava com o namorado às 9 da noite afirmou que isto era permitido durante o toque de recolher, seguramente um dos momentos mais inesperados da pandemia.
LEIA TAMBÉM
O futuro do coronavírus? Uma irritante infecção infantil
A pergunta para os cientistas é: acaso o toque de recolher funciona para conter a transmissão do vírus? Se sim, em que circunstâncias? E em quanto? O toque de recolher exige que as pessoas permaneçam em casa ou em ambientes fechados, durante um determinado numero de horas. Frequentemente é usado para reprimir os distúrbios sociais - muitas cidades o impuseram durante os protestos contra o assassinato de George Floyd, em meados do ano passado - e depois de desastres naturais ou em emergências de saúde pública.
Mas a medida também foi usada como instrumentos de repressão política e racismo sistêmico. Há dezenas de anos, nas chamadas cidades do pôr do sol dos Estados Unidos, à população negra não era permitido circular pelas ruas após o escurecer, e muitas vezes as pessoas eram obrigadas a sair.
Como o avanço da pandemia, a Austrália e muitos países europeus impuseram o toque de recolher baseados na teoria de que manter as pessoas em casa após uma determinada hora reduziria a transmissão viral. Em geral, a medida era implementada juntamente com outras, como o fechamento das lojas e das escolas, o que dificultava a avaliação da sua eficácia.
A evidência científica do toque de recolher está longe de ser ideal. Há um século, não ocorria uma pandemia desta magnitude. Embora a medida tenha sentido em termos intuitivos, é muito difícil perceber os seus efeitos precisos sobre a transmissão viral. E muito menos sobre a transmissão deste coronavírus.
Ira Longini, bioestatístico da Universidade da Flórida, acredita que o toque de recolher é, em geral, um método eficiente para diminuir a velocidade da infecção. Mas ele admitiu que a sua visão se baseia na intuição.
“A intuição científica nos diz alguma coisa.”, afirmou. “É que não conseguimos quantificá-la muito bem”.
Maria Polyakova, economista da Universidade Stanford, estudou os efeitos da pandemia para a economia americana.
“Em geral”, afirmou, “esperamos que permanecer em casa reduza mecanicamente a pandemia, por reduzir o número de interações entre as pessoas”.
“Ocorre, por outro lado, que a redução da atividade econômica principalmente afeta muitos trabalhadores e suas famílias no amplo setor de serviços da economia”, acrescentou.
Então, o toque de recolher valerá a pena?
Ela não consegue compreender a lógica.
“Pressupondo que as boates e estabelecimentos semelhantes já estejam fechados de qualquer maneira, por exemplo, proibindo as pessoas de sair para dar uma volta no quarteirão com a família à noite, é improvável que isto reduza as interações,” disse Polyakova.
Além disso, o vírus prolifera em ambientes fechados e as contaminações em grupo são comuns nas famílias e nas casas. Portanto, uma indagação preocupante é se a presença de pessoas estranhas nestes ambientes por períodos prolongados desaceleraria a transmissão - ou a aceleraria.
“Podemos pensar a coisa do seguinte modo”, disse William Hanage, pesquisador de saúde pública da Harvard T.H. Chan School of Public Health, “que proporção de eventos de transmissão ocorre durante o período em questão? E como o toque de recolher poderia detê-los?”
Um estudo, publicado recentemente na revista Science, analisou dados da província chinesa de Hunan no início da pandemia. O toque de recolher e os fechamentos, concluíram os pesquisadores, tiveram um efeito paradoxal: Estas restrições reduziram a disseminação na comunidade, mas aumentaram o risco de infecção nas casas, concluiu Kaiyuan Sun, um pesquisador em pós-doutorado dos Institutos Nacionais de Saúde e colegas.
Longini e seus colaboradores incorporaram os fechamentos e o toque de recolher em modelos da pandemia nos Estados Unidos, e concluíram que podem constituir uma maneira eficiente de reduzir a transmissão.
Mas, advertiu, os modelos levam em conta uma quantidade de pressupostos a respeito da população e de como o vírus de propaga.
“O fato de você acreditar que esta é uma justificativa científica, depende de você acreditar no modelo”, afirmou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA / o estadão
The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times
Para voltar às aulas, é preciso superar desconfianças
O ano letivo começa nesta ou nas próximas semanas com a comunidade educacional ainda mobilizada em torno da mesma dúvida desde o início da pandemia: já devemos reabrir escolas para receberem presencialmente os alunos? Debates não se restringem ao Brasil, mas aqui temos como agravante a falta de confiança em nossas instituições.
Esse sentimento não surge do nada. Ao longo do ano passado, foram vários sinais contraditórios. Enquanto bares, academias, shoppings centers e afins eram autorizados a funcionar, escolas permaneceram fechadas, fazendo do Brasil um dos países por mais tempo sem aulas presenciais. Tampouco nos ajudou o negacionismo e a omissão do governo federal e o vai-e-vem de liminares da Justiça.
Nossos governantes têm sem dúvida enorme responsabilidade, mas expiar a culpa jogando-a toda sobre os ombros dos políticos é um dos esportes nacionais preferidos. Somos também responsáveis, com nossos atos e escolhas cotidianas, pelo quadro em que nos encontramos. No caso do fechamento presencial das escolas, sequer podemos atribuir apenas aos governantes essa decisão, pois as pesquisas de opinião mostraram ao longo do ano passado que ela era respaldada por três em cada quatro brasileiros.
A decisão pelo retorno ou não sempre foi cheia de nuances e complexidades, com argumentos válidos de ambos os lados. De início, quando quase nada sabíamos a respeito a respeito da Covid, poucos discordavam de que o mais prudente era interromper as atividades presenciais. Aos poucos, estudos em países desenvolvidos foram indicando que crianças tinham papel menor na transmissão do vírus e que as escolas, quando preparadas para cumprir adequadamente protocolos sanitários, não contribuíam para o aumento geral de casos.
O mais recente desses estudos foi divulgado no mês passado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês). A boa notícia do artigo – publicado no Jornal da Associação Americana de Medicina – foi a constatação de que, mesmo em locais onde a contaminação estava crescendo, não foram registrados casos significativos de transmissão em escolas que seguiram os protocolos recomendados. Os relatos mais graves por lá aconteceram em colégios que fizeram eventos esportivos – como torneios de Luta Olímpica – que geraram aglomerações.
É claro que a interpretação desses resultados para o contexto brasileiro precisa considerar nossa realidade. Um dado da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, do IBGE, mostrou que 43% dos alunos da rede pública não tinham sabão na escola. O percentual é referente a 2015, e não necessariamente retrata a realidade hoje, mas a capacidade de nossas escolas de se adequarem aos protocolos é uma das questões que alimentam a insegurança sobre o retorno. (Aliás, sobre escolas sem sabão, cabe aqui a reflexão de como fomos capazes de aceitar algo tão indigno).
Além da adequação sanitária e das estratégias pedagógicas, uma parte fundamental do trabalho dos responsáveis pela rede pública de ensino hoje é convencer a sociedade de que as escolas estão realmente preparadas para o retorno. E, além disso, ajudaria bastante também colocar professores entre os grupos prioritários de vacinação. Seria uma mensagem importante de que, neste ano, educação será realmente prioridade.
Sem margem de erro - folha de sp
Com os gastos de combate à pandemia e a queda da receita ocasionada pela contração da atividade econômica, houve inédita piora das condições orçamentárias do governo. Pôr as finanças em ordem e reverter a descrença na política fiscal exigirá esforço ainda mais hercúleo nos próximos anos.
O rombo nas contas do Tesouro Nacional ficou em R$ 743,1 bilhões em 2020, sem considerar despesas com juros. O legado da crise é a dívida pública equivalente a 89,3% do Produto Interno Bruto, alta de 15 pontos percentuais em um ano.
Trata-se do maior patamar já registrado pelas estatísticas disponíveis e uma das piores posições entre os países emergentes.
As consequências são evidentes. A moeda brasileira teve um dos piores desempenhos no mundo desde o surgimento da pandemia, as taxas de juros de longo prazo permanecem elevadas e vão se agravando os riscos inflacionários que já levam o Banco Central a sugerir que poderá elevar os juros.
Se não há uma fronteira a partir da qual a insolvência se torna inevitável, na medida em que o financiamento do governo depende da confiança de agentes privados, é inegável que essa confiança vai escasseando. O governo paralisou as reformas destinadas a reduzir despesas e tampouco mostra ações de curto prazo.
No momento em que se discute a volta do auxílio emergencial, tema que poderá se tornar inevitável apesar das declarações em contrário do presidente Jair Bolsonaro e de seu ministro da Economia, será necessário indicar de onde poderá vir o dinheiro.
Qualquer irresponsabilidade, como simplesmente flertar com o abandono do teto constitucional para os gastos, levará a uma crise de descrédito ainda maior.
Também é necessário avançar na agenda de crescimento econômico, sem o qual será impossível equilibrar as contas a médio prazo. A reforma tributária, por exemplo, tem o potencial de simplificar os impostos, destravar a produtividade e aproximar o país das cadeias internacionais de valor.
Pode-se reverter a desconfiança atual com sinais claros na direção de uma política econômica mais consistente. Acreditar numa agenda ampla, contudo, não é realista. Mas não há como fugir do básico para carregar o país até a eleição de 2022 sem uma nova crise fiscal, que a esta altura seria calamitosa.
A tempestade perfeita - O Estado de S.Paulo
O Brasil se encontra em um ponto muito perigoso da trajetória da pandemia de covid-19, talvez o mais perigoso desde julho do ano passado. Está em formação uma tempestade perfeita que poderá levar o País a experimentar um dramático aumento do número de casos e mortes em decorrência da doença nos próximos meses.
Não se pretende aqui alarmar a população, já angustiada o bastante, mas sim exortar as chamadas autoridades, em especial do governo federal, a cumprirem seu dever constitucional de zelar pela saúde pública e despertar a consciência cidadã para evitar o recrudescimento de uma tragédia que voltou a matar mais de 1,2 mil brasileiros por dia. É inaceitável conviver com isso. Achar normal um patamar de letalidade como esse é aceitar nossa morte como nação.
Três fatos concomitantes compõem a tal tempestade perfeita: 1) circula no País uma nova cepa do coronavírus que é potencialmente mais infecciosa, a variante P.1, identificada pela primeira vez em Manaus (AM); 2) a atuação tíbia do Ministério da Saúde, sob as ordens do presidente Jair Bolsonaro, sabotador de primeira hora de todos os esforços para frear o avanço da doença no Brasil; 3) a irresponsabilidade de muitos cidadãos, que a cada dia parecem mais convencidos de que, se a pandemia não acabou, também já passou o tempo das medidas restritivas e é hora de “voltar a viver a vida”.
Cientistas do Centro Brasil-Reino Unido de Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (Cadde), que conta com pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), publicaram um estudo no dia 16 passado que revela que a variante P.1 do novo coronavírus tem maior potencial de transmissão.
No dia 27, outro grupo de pesquisadores, oriundos da Universidade de Oxford, do King’s College de Londres, da Universidade Harvard e do Instituto de Medicina Tropical da USP, publicou um artigo apontando a variante P.1 como uma das causas mais prováveis do vertiginoso aumento de casos de covid-19 na capital amazonense, o que contribuiu para levar o sistema de saúde da cidade ao colapso.
A precariedade da testagem e rastreamento de casos no Brasil impede a identificação de outros casos da variante P.1 no País. Sabe-se que apenas em São Paulo, Estado com a melhor infraestrutura para diagnóstico, houve ao menos três casos. Não é improvável que a nova cepa já esteja em circulação em outros Estados.
Em entrevista à TV Cultura, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta alertou que o País corre um sério risco de ter uma “megaepidemia” de covid-19 nos próximos dois meses por conta da circulação da variante P.1, que já está presente em 90% dos casos da doença em Manaus. “O mundo inteiro está fechando os voos para o Brasil e o Brasil está não só aberto normalmente, como está retirando pacientes de Manaus e mandando para Goiás, para a Bahia, mandando para outros lugares sem os bloqueios de biossegurança”, disse Mandetta.
Enquanto isso, aprisionado pelas grades de seus interesses particulares, o presidente Jair Bolsonaro segue imperturbável diante das aflições dos brasileiros. Na última edição de sua live semanal, Bolsonaro recomendou que a sociedade precisa “aprender a conviver com a covid-19”. “Eu lamento as mortes, antes que falem que eu sou insensível”, disse, “mas temos que conviver com esse problema.” Até a quinta-feira passada, quando a famigerada live foi ao ar, o “problema” já tinha causado a morte de 221.676 brasileiros. O que se pode esperar de um governo encabeçado por alguém com esta índole?
É justamente diante da incúria e da brutal insensibilidade de agentes do Estado – muitos dos quais ainda haverão de responder pelos crimes que estão cometendo contra a saúde pública – que deve prevalecer a responsabilidade individual dos cidadãos. Aproxima-se o carnaval e teme-se pela falta de cuidado de muitas pessoas dispostas a ignorar as medidas de prevenção, o que já tem ocorrido em boa medida.
Jair Bolsonaro já basta como embaixador da morte.



