Vitória de Lira atrapalha construção de alternativa de centro para 2022, diz presidente do Cidadania
04 de fevereiro de 2021 | 14h15
O ex-deputado Roberto Freire, presidente nacional do Cidadania, admitiu ao Estadão que a eleição de Arthur Lira (PP-AL) para a presidência da Câmara – em uma derrota de Baleia Rossi (MDB-SP) e do ex-presidente da casa Rodrigo Maia (DEM-RJ), que não conseguiu eleger o emedebista como seu sucessor – causou um desarranjo na articulação de centro que vem sendo formada tendo em vista a disputa presidencial de 2022. O bloco conta com a hipótese da candidatura do apresentador Luciano Huck, possivelmente pelo Cidadania.
"Esse processo que estava existindo do ponto de vista de 2022 – discussões sobre alternativas, que tipo de articulação e de aliança que estava surgindo – isso mudou, sofreu um retrocesso, claro. O que ocorreu com o DEM e com o PSDB gerou problemas para o PSDB, para o DEM, para a articulação do Huck, para setores da esquerda que também tiveram problema", afirmou. "Foi desconstruído um pouco do que você já tinha acumulado, vai ter que ser retomado."
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Como que o sr. avalia o episódio de segunda-feira no Congresso?
O episódio dessa eleição (para as presidências da Câmara e do Senado) foi superdimensionado, com uma certa razão porque se assumiu uma disputa da oposição com o Bolsonaro. Muda uma correlação de forças do Congresso – é verdade. Da uma sinalização de que o Executivo e o presidente Bolsonaro rearticularam forças políticas. Mas não tem o dom de mudar a realidade e o processo que estamos vivenciando. Continuamos tendo um presidente negacionista no combate à pandemia. Temos um presidente e um ministro da Fazenda ineptos e incompetentes no enfrentamento da crise econômica produzida pela pandemia. E não muda toda a expectativa que começa a surgir na sociedade de que talvez seja melhor um impeachment encurtando o mandato de Bolsonaro.
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A executiva do Cidadania aprovou apoio ao impeachment. Há mais etapas?
Vamos ter uma reunião do diretório nacional para confirmar essa posição de que a luta pelo impeachment é uma luta correta e que devemos implementá-la. Os dados e os sinais são evidentes: para o Brasil, é melhor encerrar esse governo do Bolsonaro do que continuarmos com ele porque os prejuízos para a sociedade são muito maiores. Para decidir uma posição dessas, a executiva resolveu submeter ao diretório, para envolver o conjunto partidário. O mesmo aconteceu com Dilma, foi uma decisão do diretório nacional. Desde Collor. A gente saiu na frente propondo o impeachment quando foi publicado na Revista Veja a denúncia do irmão. Foi até instalada uma CPI que ajudou.
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A oposição afirma que, por mais que um impeachment seja traumático, é o menor dos males.
Só há impeachment quando a sociedade começa a ter o sentimento de que é melhor parar o governo. E qual o sentimento que foi transmitido para essa nova geração que está no País? É o sentimento de que, com Itamar Franco e com Michel Temer (vices que assumiram após processos de impeachment), houve uma melhora para o Brasil em relação a Fernando Collor e Dilma Rousseff (presidentes que perderam o cargo). Se a gente tivesse tido desastres dos governos Itamar e Temer, talvez não estivéssemos hoje pensando que é melhor deixar um vice assumir no lugar de um governo irresponsável, negacionista e charlatão.
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Charlatão?
Sim, Porque vendeu para o País o absurdo da cloroquina e se despreocupou com a vacina. Até nos EUA, que não teve grande quantidade de imunização ainda, já mostra sinais de que diminuiu a contaminação e a hospitalização. O presidente brasileiro negou a ciência, negou a vacina, obstacularizou o Instituto Butantan e as relações do Brasil com o mundo. Tem a questão criminosa de ter conhecimento (de que iria faltar oxigênio no Amazonas) e não tomar atitude. Então você vê brasileiros morrerem por falta de oxigênio em hospital e ele ainda diz: "Não é responsabilidade minha". Então para que é presidente? "Ah, é (culpa) do corrupto do governador do Amazonas". O governador corrupto que vá para a cadeia, mas você, como presidente, sabendo que faltava, que tinha que tomar atitude. A discussão do impeachment se impõe. Mas não é para agora e não é para ser feita no Congresso, até porque a resposta que a gente pode ver é que o Congresso agora está vinculado ao Bolsonaro. Mas a sociedade pode discutir isso e, depois, o Congresso muda de posição.
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A pandemia não dificulta manifestações de rua?
Sim, claro. Mas por outro lado, se não tivesse pandemia, não teríamos o desastre que é esse governo Bolsonaro. Se tem esse efeito de provocar a indignação, traz a dificuldade de você expressar isso nas ruas. É um obstáculo e para isso existe a luta. As manifestações são pequenas e algumas problemáticas porque seria uma irresponsabilidade convocar aglomeração, mas já começa a ter carretas. O problema é que aqueles que são à favor (do impeachment) ficam achando que tem que fazer aqui e agora. Tem que ter calma. Ninguém sabe como vai acontecer esse processo, mas que ele está sendo discutido, não tenha dúvida. Grande parte de toda essa articulação que o Bolsonaro fez – inclusive com esse toma lá, da cá absurdo de quase R$ 3 bilhões prometidos para ganhar a presidência da Câmara e do Senado – foi porque isso é um ensaio para quando ele for impedir que um impeachment ocorra, mesmo com a sociedade se manifestando. Ele está na luta.
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O Cidadania aguarda a filiação do Huck?
Esse processo que estava existindo do ponto de vista de 2022 – discussões sobre alternativas, que tipo de articulação e de aliança que estava surgindo – isso mudou, sofreu um retrocesso, claro. O que ocorreu com o DEM e com o PSDB gerou problemas para o PSDB, para o DEM, para a articulação do Huck, para setores da esquerda que também tiveram problema. Alguns partidos com dissidências internas (na votação para a presidência da Câmara), tudo isso. Você teve aí uma certa desconstrução. Foi desconstruído um pouco do que você já tinha acumulado, vai ter que ser retomado. Precisa ver o rescaldo desse episódio para começar a saber como você vai retomar. Há algumas questões muito complicadas, inclusive no DEM, com o processo que você teve de um certo constrangimento em relação a Rodrigo Maia, que era um dos líderes dessa articulação. Então como isso vai ficar?
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Como vai ficar?
Tem que dar tempo ao tempo para ver. Vai ter que refazer alguns contatos, algumas articulações. Mas não vamos ficar imaginando que seja bicho de sete cabeças e que acabou. Me vem à cabeça o tempo de luta do MBD contra a ditadura. De vez em quando, quando você sofria uma grave derrota, alguns entravam em processo de desespero, falavam em dissolver o partido ou até em ir para a luta armada. Quando acontecia esse tipo de derrota, era necessário ter um esforço maior ainda para se manter na luta. Agora a oposição a Bolsonaro tem que dizer: "Temos que continuar a luta pelo impeachment".
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E especificamente do Huck?
A luta para construir essa alternativa para 2022 é paralela. Não se luta em uma frente não, são várias: crise ecocômica, pessoas contrárias à vacina… Junta a isso a luta de discutir candidaturas e a luta do impeachment.
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Mas o Huck não tem um prazo para dizer à emissora dele se vai ser candidato ou não?
Mas isso não é para agora não, tem tempo. Ele tem tempo para analisar tudo isso. Para analisar, depois desse desarranjo ocorrido, como que a gente vai arranjar de novo.
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Mas o Huck não tem até março para avisar à emissora?
Não. Não tem prazo decidido, não. Ele que vai dar o prazo dele, eu tenho a impressão. O Prazo foi dado, mas ele tem o prazo dele. Até porque ele tem que analisar, não é imposição do seu empregador não. Aquilo ali é um prazo limite que foi dado pela empresa, mas quem define o seu prazo é ele. Dentro disso ele vai decidir se é agora, se é mais adiante. É o problema de análise que vai ter que fazer. Esse episódio exige que a gente faça uma avaliação de que precisamos rearranjar alguma coisa, porque houve um certo desarranjo. Mas o processo continua também nessa hipótese da candidatura do Luciano Huck e o Cidadania continua firme imaginando que essa pode vir a ser a grande alternativa para derrotar tanto o Bolsonaro quanto qualquer retrocesso de uma volta ao lulismo.
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Depois do que aconteceu essa semana, nem se fala da possibilidade de o Huck ir para o DEM, certo?
Olha, nem se falava antes. Isso era muita especulação da imprensa. Posso reafirmar, não tinha nenhuma discussão sobre partido, foi pura especulação. A única especulação correta era que ele ainda não tinha decidido. Com o que ocorreu essa semana com o DEM, tem que reavaliar qual é a posição dele. O DEM demonstrou que tem várias alternativas para ele... O DEM, com essa postura que adotou, você pode até admitir que ele tenha uma relação com Bolsonaro. E nós somos oposição a Bolsonaro. E Huck é. Não vamos ficar pensando que o episódio tenha apenas efeito interno (do partido), não. Tem impacto na política em geral. Mas isso não muda a realidade de um dia para o outro. A oposição continua firme contra o governo.
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Como vê o papel de Maia na articulação para 2022?
Não tenho dúvida que ele vai estar nessa articulação. Não será aliado nem do Bolsonarismo e nem do Lulismo. Vai estar no campo que se opõe a esses dois polos, criando um outro polo que agregue forças, social-democrata, de esquerda democrática, liberais e direita democrática – que diminuiu de tamanho com essa desorganização que aconteceu no DEM. Mas temos que discutir (a alternativa de centro) e Rodrigo Maia estará nessa articulação. Agora, para onde ele vai, se permanece (no DEM) ou não, é com ele mesmo. Ele tem várias alternativas.
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Paulo Hartung afirma que Huck é de centro-esquerda. É?
Com essa confusão hoje por conta do processo de transição do processo industrual para digital, todas essas referências políticas de direita, esquerda e centro estão um pouco confusas. Você tem forças de esquerda que na sociedade industrial eram vanguarda e que hoje passam a ser reacionárias. Todas as mudanças estão exigindo novas instituições, nova regulação... E, no Brasil, há um setor da esquerda que é contra (a nova regulação). Contra um mundo que se globaliza, contra o multilateralismo. E eles se confundem inclusive com a extrema direita. Então dizer que fulano é isso ou aquilo… Ele pode se auto-referenciar, mas as referências são perdidas. Nós temos que nos preocupar com os empregos que vêm, não com os que estão acabando. Eu digo que Huck é uma pessoa que está olhando para o futuro. Ele pensa em uma sociedade em que o Brasil precisa voltar a ter relevância no mundo globalizado, digital, do futuro. Não pode ser candidato pensando em relações do passado, em ser esquerda ou direita do passado. Ele tem que ser um progressista, sem dúvida alguma, alguém que tem que combater a desigualdade, mas tem que olhar para o futuro. Não pode ficar prisioneiro de contradições do passado, como faz Bolsonaro, que transforma o Brasil em pária nesse mundo global.
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Huck está no campo progressista, então?
Claro, sem dúvida alguma. Por isso que estamos com ele. Hoje, se fizermos o que fazíamos no passado ou pensarmos como pensávamos no passado, somos reacionários. Esse entendimento o Huck tem por causa de sua geração e sua compreensão de mundo.
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Há espaço para Sérgio Moro e João Doria no centro?
Olha, tem. Como tem espaço para a esquerda democrática. Não tenho dúvidas de que, qualquer um desses que chegar ao segundo turno (nas eleições presidenciais de 2022) contra o bolsonarismo e o lulismo, você terá todos eles juntos.
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Como que avalia que ficará a situação do Fernando Cury?
O que ele praticou, não tem ninguém que o absolva. Foi um ato que merece repúdio geral. Agora, a punição vai caber ao diretório nacional nos termos do estatuto. Estamos aguardando derrubar uma liminar que ele conseguiu (segundo a qual Cury estava sendo impedido de se defender) tentando impedir que nós tomássemos a nossa decisão, como se nós fossemos um tribunal. Nós somos um partido político. A nossa função não é julgá-lo e condená-lo, isso cabe ao tribunal. O que cabe a nós é julgar um atentado aos princípios do partido e tomar as suas medidas previstas no estatuto. Não estamos prendendo ninguém, não. Então, nesse momento, a Justiça está impedindo o partido de tomar uma decisão política que lhe cabe. É um incômodo nós ainda não termos conseguido resolver esse problema. O partido foi maculado e precisa ter formas de agir que estão paralisadas. Não é a Justiça que tem que decidir o que é que politicamente a gente tem que fazer.
Estados têm perda de R$ 34 bilhões em arrecadação no 2020 da pandemia
No ano marcado pela grave crise econômica decorrente da pandemia do novo coronavírus, os estados brasileiros registraram uma perda de R$ 34,6 bilhões em arrecadação própria comparado ao ano anterior.
Levantamento da Folha com base nos relatórios de execução orçamentária aponta que 18 estados, além do Distrito Federal, registraram queda na arrecadação própria em 2020 na comparação com 2019.
Ao todo, os estados tiveram uma receita com impostos, taxas e contribuições de R$ 571,6 bilhões entre janeiro e dezembro de 2020 contra R$ 537 bilhões no mesmo período de 2019, em valores atualizados pela inflação. Trata-se de uma queda de 6%.
Em geral, a retração na arrecadação foi compensada pelas medidas de suspensão temporária de dívidas e pelo auxílio financeiro aos estados concedidos pelo governo federal no pacote de enfrentamento à crise da pandemia.
De acordo com levantamento do economista do Insper e colunista da Folha Marcos Mendes, o socorro às 27 unidades da Federação chegou a R$ 68 bilhões até setembro de 2020, sendo R$ 16,1 bilhões em suspensão do pagamento de dívidas à União e R$ 51,9 bilhões em repasses diretos.
A perda da receita das unidades da federação foi resultado direto da queda da atividade econômica. O pico das perdas se concentrou em abril, maio e junho de 2020, meses em que a maioria dos estados adotou medidas restritivas para evitar a disseminação do novo coronavírus.
Neste período, foi registrada forte perda de ICMS (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços) em comparação com o mesmo mês no ano anterior. Foi o que ocorreu, por exemplo, no Ceará, que teve uma perda de 38% no ICMS em maio de 2020 na comparação com maio de 2019.
Em alguns estados, além da redução da atividade econômica, medidas como o parcelamento e descontos de tributos dados para alguns setores mais atingidos pela pandemia também impactaram a arrecadação, mas de maneira pontual.
Dentre as 27 unidades da federação, o Ceará foi o estado que teve a maior queda de receita própria em 2020, registrando uma perda real de 6,8% da sua arrecadação.
O estado possui cerca de 70% da sua matriz econômica baseada no comércio, serviços e turismo, setores que foram os mais impactados pelo isolamento social.
Dois fatores tornaram o cenário no Ceará ainda mais complicado: o primeiro foi o motim dos policiais, em fevereiro de 2020, que também impactou a atividade econômica. O segundo foi o colapso no sistema de saúde, em abril e maio de 2020, que forçou o estado a adotar medidas restritivas duras.
“A pandemia da Covid-19 foi bastante agressiva no Ceará. As medidas adotadas limitaram a atividade empresarial porque houve a necessidade de colocar as pessoas em isolamento. O impacto no comércio e serviços foi enorme”, explica a secretária da Fazenda do Ceará, Fernanda Pacobahyba.
Ela ainda afirma que o estado vinha de uma base alta de arrecadação em 2019, ano em que registrou um desempenho acima do previsto. E destaca que, mesmo com as perdas, o Ceará conseguiu manter o nível de investimento em um patamar alto –foram investidos R$ 1,8 bilhão em 2020.
A Bahia enfrentou um cenário semelhante, registrando uma queda real da arrecadação de 3,56% em 2020. O mês de maio foi o mais crítico, com uma redução de 30% na arrecadação do ICMS.
A recuperação veio no segundo semestre, puxada principalmente pelo dinheiro injetado na economia do com o auxílio emergencial. O benefício refletiu no desempenho do comércio baiano, setor cuja arrecadação com ICMS fechou o ano com um crescimento de 10,6%
Por outro lado, houve perda na arrecadação em setores como serviços e indústria. A arrecadação com a indústria caiu 4,5%, sendo que os principais recuos aconteceram nos segmentos de açúcar, álcool e petróleo.
O secretário da Fazenda da Bahia, Manoel Vitório, diz estar preocupado com o cenário econômico previsto para este ano, já que há incerteza quanto à continuidade do auxílio emergencial e de mecanismos de proteção do emprego. Para completar, o estado sofreu um baque na sua economia com o fechamento da fábrica da Ford em Camaçari.
“O ano de 2021 será ainda mais desafiador, já que o cenário econômico e social no país tende a se agravar, assim como permanece crescente a demanda por despesas de combate à pandemia, com forte impacto nos cofres estaduais”, diz.
Em Goiás, a queda real na arrecadação de tributos em 2020 foi de 4,52%, valor equivalente à inflação do ano anterior. Com os repasses de cerca de R$ 2 bilhões do governo federal para o estado, além de cortes nas despesas, as finanças se mantiveram equilibradas. Os recursos que sobraram foram usados para quitar parte do déficit da Previdência em janeiro deste ano.
“Ficamos no zero a zero. Não tivemos um desempenho maravilhoso, mas também não tivermos perdas horríveis”, afirma a secretária da Economia de Goiás, Cristiane Schmidt, que destaca o papel do governo federal como determinante para melhoria da situação fiscal.
Para Schmidt, a vacinação deve ser encarada como prioridade máxima em 2021 para garantir a retomada da economia. Ela também defende a prorrogação do auxílio emergencial para a população mais vulnerável, mas de uma forma que seja fiscalmente responsável. “Ninguém quer que a União vá à bancarrota."
Na contramão da maioria das unidades da Federação, oito estados brasileiros registraram crescimento real na arrecadação de tributos em 2020 na comparação com 2019. São eles Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Tocantins, Pará, Amazonas, Rondônia, Roraima e Alagoas.
Estados que têm a agropecuária como protagonista da economia tiveram melhor desempenho. Mato Grosso do Sul, por exemplo, teve um incremento de 10,7% na arrecadação de tributos em 2020.
O desempenho foi puxado por uma alta de 41% na arrecadação de ICMS na agropecuária e agroindústria. A pecuária, soja, milho, madeira e cana de açúcar são os carros-chefe da produção local.
“Esses segmentos tiveram um desempenho muito favorável no ano passado. Houve aumento no preço dos produtos, crescimento da área plantada e maior eficiência na produção” afirma Felipe Mattos, secretário da Fazenda de Mato Grosso do Sul.
A alta na arrecadação fez com que o estado mantivesse o ritmo dos investimentos mesmo em meio à pandemia. Ao todo, foram investidos R$ 901 milhões em obras e equipamentos no ano passado. Para 2021 e 2022, governo estadual preparou um pacote de R$ 3 bilhões em obras públicas.
Ibama vê novas falhas em estudo de Belo Monte e deve manter liberação máxima de água
03 de fevereiro de 2021 | 17h48
BRASÍLIA - A equipe técnica do Ibama que analisa os danos causados pela retenção de água na hidrelétrica de Belo Monte rejeitou um “estudo complementar” apresentado pela concessionária Norte Energia, dona da usina, e deve manter a determinação para que a companhia faça a liberação máxima de água no rio Xingu, ao longo da próxima semana.
Na prática, a Norte Energia deverá ser obrigada a liberar, entre os dias 8 e 14 de fevereiro, o mesmo volume de água que tem vertido nesta semana: 10.900 metros cúbicos de água por segundo, conforme prevê o cronograma provisório estabelecido pelo Ibama. A empresa, que contou com intervenção direta do Ministério de Minas e Energia (MME), de toda a cúpula do setor elétrico e do Ministério da Economia para derrubar a decisão do órgão ambiental, queria que essa vazão se limitasse a 1.600 m³ por segundo ao longo de fevereiro.
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O Estadão teve acesso a um parecer técnico do Ibama concluído nesta segunda-feira, 1º, o qual analisa, ponto a ponto, os estudos complementares apresentados no fim do ano passado pela Norte Energia, com o propósito detalhar a situação causada pela hidrelétrica em um trecho de 130 quilômetros de extensão do Rio Xingu, a chamada Volta Grande do Xingu. O trecho do rio tenta sobreviver desde que a usina fechou seu reservatório principal e passou a liberar um volume ínfimo de água, quando comparado às condições naturais do rio.
Após analisar cada informação enviada pela concessionária, os técnicos concluem que “o estudo continua falho, sem dar condições ao Ibama de obter respostas razoáveis e seguras em colaboração ao processo de tomada de decisão sobre a viabilidade do hidrograma de teste” da usina, ou seja, não há como comprovar qualquer viabilidade do que a empresa propõe, dado que dezenas de outros estudos já comprovaram os danos causados ao meio ambiente em toda a região e às milhares de pessoas que vivem na área.
“O que se observou de maneira geral foi que o denominado estudo complementar esteve mais amarrado ao processo comparativo entre resultados recentes com aqueles do EIA (Estudo de Impacto Ambiental) com fins nítidos de referendar resultados pretéritos, que buscar independência e isonomia técnica”, afirma o Ibama. “Se gastou mais tempo em explicar o EIA que gerar uma base de dados mais segura e mais bem explorada, capaz de eliminar as fragilidades das informações.”
O órgão ambiental também faz uma crítica direta ao que a Norte Energia definiu como “hidrograma de consenso”, para deixar claro que não existe nenhum “consenso”, uma vez que foi a própria empresa que estabeleceu as programações mensais de liberação de água que iria fazer. A operação da usina se baseia em duas propostas anuais de vazão, usadas de forma alternada, os chamados “hidrogramas A e B”, que preveem vazões em quantidades distintas durante alguns meses. Ocorre que nenhuma das duas opções já aplicadas pela empresa têm mantido condições mínimas de vida na região.
“Consideradas as evidências documentais de que os Hidrogramas A e B NÃO foram oriundos de discussão técnicas envolvendo o Ibama, mas de uma decisão unilateral por parte do empreendedor, este parecer se restringe a referir aos mesmos como hidrogramas de teste, e não de consenso”, afirmam os técnicos.
Em sua conclusão, o órgão ambiental alerta que “as condições de degradação ambiental podem piorar com a implementação definitiva das vazões alternadas do hidrograma de teste” e que, por isso, o “parecer não considera adequada a abordagem dada pelo relatório técnico, sugerindo sua devolução e readequação”.
O Ministério de Minas e Energia e membros do setor elétrico alegam que, ao liberar mais água para o rio, haverá uma redução no volume de energia que estava previsto pela casa de força principal de Belo Monte. Com essa frustração de geração, é preciso comprar essa energia de outras fontes, como usinas térmicas, que são mais caras e poluentes. O custo dessa aquisição, considerando apenas as vazões determinadas para janeiro e fevereiro, chegariam a cerca de R$ 1,3 bilhão, pelos cálculos da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A fatura deve ser dividida entre todos os consumidores na conta de luz.
Procurados, a Norte Energia e o Ministério de Minas e Energia não quiseram se manifestar sobre a decisão do Ibama em manter a vazão do Xingu em seu nível máximo, como previsto no hidrograma provisório elaborado pelo órgão.
Especialistas
O Ministério Público Federal também solicitou uma análise técnica aprofundada dos estudos complementares apresentados pela Norte Energia. O pedido foi feito pela procuradora da República em Altamira (PA) Thais Santi, para elaboração de uma “avaliação técnica independente das informações prestadas pela concessionária”.
As conclusões deste segundo parecer técnico confirmam o posicionamento dos analistas do Ibama. Entre os apontamentos do relatório está o alto risco de extinção de espécies que dependem do pulso natural do rio e suas áreas alagáveis. “O alagamento permanente causa a mortalidade em massa da vegetação, que não têm mais fases terrestres disponíveis. Sendo assim, a degradação gradual dos ambientes alagáveis na Volta Grande tornará ainda mais grave a perda de conectividade para a fauna especialista em ambientes alagáveis”, afirmam.
Os especialistas alertam ainda que “oscilações abruptas e irregulares/imprevisíveis na descarga/vazão, e consequentemente na cota, significam uma ameaça e a possibilidade de que os animais aquáticos fiquem presos em poças, lagoas e canais”. Dessa forma, avaliam, “a tendência é que os animais abandonem as áreas alagáveis e se abriguem nos canais de onde vieram, interrompendo sua alimentação e, mais grave ainda, os ciclos reprodutivos”. “Estas oscilações muito possivelmente irão impedir o recrutamento populacional da maioria dos peixes que se reproduzem durante o inverno amazônico (período de chuvas) nas áreas inundáveis.”
O material é assinado por 12 especialistas, entre eles André Oliveira Sawakuchi, do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo, especialista em Sedimentologia, Geologia do Quaternário e mudanças ambientais na Amazônia e sua relação com a biodiversidade; Camila Ribas, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, especialista em biogeografia e evolução da biodiversidade na Amazônia; Eder Mileno Silva De Paula, da Universidade Federal do Pará, especialista em Geografia Física, Hidrogeografia, Geoprocessamento e Sensoriamento Remoto; e Jansen Zuanon, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, especialista em ecologia de peixes amazônicos.
A definição sobre o volume de água obedece a uma programação mensal, que varia fortemente conforme a época do ano, por causa dos meses de cheia e de seca. Neste mês de janeiro, por exemplo, a Norte Energia queria liberar apenas 1.100 metros cúbicos de água por segundo para a Volta Grande, conforme previsto em seu próprio hidrograma. O Ibama, porém, determinou que a concessionária fizesse a liberação de 3.100 m³/s.
Para fevereiro, a empresa pretendia liberar apenas 1.600 m³/s, mas o Ibama cobrou que esse volume chegue a 10.900 metros cúbicos, quase sete vezes o pretendido pela concessionária.
'O mundo político funciona no modo crise', diz Murillo de Aragão
03 de fevereiro de 2021 | 05h00
O período por que passa hoje o Brasil, com idas, vindas e incertezas no trato da pandemia, pode ser entendido como uma espécie de “terceira guerra mundial”, concorda o cientista político, consultor e advogado Murillo de Aragão*, da Arko Advice. “O País nunca enfrentou um desafio dessa magnitude”, que “não afeta apenas a saúde, mas também o comércio, o entretenimento, a educação, os hábitos da sociedade”. Mas o pano de fundo, adverte, é “um mundo político que funciona no modo crise”: só quando a coisa fica muito grave, é que se consegue um consenso e uma saída.
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Aragão segue de perto esse circo de acertos e conchavos há cerca de 30 anos, como consultor de bancos e empresas, em contato frequente com a área de investimentos, aqui e no exterior, além de atuar como palestrante. Sobre a vitória política do presidente Jair Bolsonaro, anteontem, com a eleição de Arthur Lira e Rodrigo Pacheco como presidentes de Câmara e Senado, ele pondera, nesta entrevista para Cenários: “Não significa que a coordenação política esteja feita, ela está só começando. E vai ser afetada pela reforma ministerial que vem por aí.” A seguir, vão os principais trechos da conversa.
A Câmara acaba de eleger, como presidente, Arthur Lira, preferido de Bolsonaro. Como vê essa mudança?
O Arthur Lira venceu pela força do governo e também pelo poder de articulação dele, do Ricardo Barros e do Ciro Nogueira dentro do Congresso. É um conforto para o governo, e também para as agendas da equipe econômica. Mas isso não significa que a coordenação política do governo está feita. Ela está apenas começando.
E em que consiste essa nova coordenação? O que vai mudar?
É uma nova etapa, onde a presença de um aliado dará ao presidente a tranquilidade para enfrentar os ataques políticos que o governo vem sofrendo no caso da pandemia. Mas essa tranquilidade terá de ser mantida e reforçada por uma coordenação eficiente. E esta vai ser afetada pela reforma ministerial que deve ocorrer em breve.
E no médio e longo prazo? Como vê as eleições de 2022?
Considerando a máquina pública e a popularidade do presidente, ele é um forte candidato a estar no segundo turno. E até agora não temos uma candidatura forte no outro campo. Aí, existem desafios, e o maior desafio de Bolsonaro é ele mesmo. Porque existe uma narrativa antipolítica e, agora, ele se volta para o mundo político. Mas há outros dois problemas intimamente ligados – a pandemia e a economia.
Como vê a politização da pandemia, a briga entre governos e vacinas?
Olha, na área científica existe uma vaidade enorme... Eu tenho uma passagem pela academia, onde fiz meu doutorado, dou aula, e conheço o universo científico, onde há muita competição. E tem a questão geopolítica da vacina. Podemos fazer um paralelo com a guerra: quem tiver a vacina terá uma arma mais moderna...
Pode-se encarar o atual desafio como uma espécie de terceira guerra mundial, contra um inimigo invisível?
Sim, é como eu vejo. Olha, um ano atrás postei na minha coluna na (revista) Veja um alerta sobre a pandemia, e tudo o que eu mencionei lá atrás mais ou menos se realizou. O País nunca enfrentou um problema dessa magnitude. Ela afeta a todos no Planeta, igualmente. E mais: não afeta apenas a saúde. Afeta os hábitos da sociedade, o comércio, o entretenimento. No livro Ano Zero, que escrevi no ano passado, comparei alguns efeitos da guerra na sociedade. Por exemplo, o número de abortos na Alemanha foi gigantesco, depois da Grande Guerra. Nos Estados Unidos, depois do crash de 1929, famílias foram destruídas, centenas de milhares de pessoas vagavam pelo país como vagabundos... A pandemia pode ter esse mesmo efeito.
Como isso poderia ser resolvido?
O Brasil é um País que funciona no modo crise. Quando a situação piora muito, aí se chega a um consenso. A gente vai marchando entre conchavos e acertos, veja aí a eleição de agora na Câmara e no Senado. Partidos têm um pé no governo e outro fora do governo, a ambiguidade é parte do sistema. Só haveria união se a situação piorasse muito.
O ministro Paulo Guedes condicionou a volta do auxílio emergencial a um corte de custos que depende do Congresso. Acha isso possível?
Essa questão tem uma complexidade e uma simplicidade enorme. Vou falar da simplicidade. O Estado aqui é mais forte que a sociedade e o aumento da despesa acaba sendo financiado pelo aumento da arrecadação. Alguém dirá que o teto de gastos cria limites. Mas se a pandemia se tornar mais dramática, ele será flexibilizado, talvez por uma PEC, e acaba caindo na conta do cidadão. Num imposto sobre transações digitais, uma CPMF, uma contribuição social sobre lucro dos bancos, um Bolsa Família vindo de outras fontes.
Acha possível a união de forças políticas se a pandemia se agravar ainda mais? Acredita num impeachment?
A única razão que me pareceria capaz de unir as forças políticas seria para derrubar o presidente. Mas não vejo nada disso acontecendo. Porque o impeachment tem uma forma. Na Arko Advice a gente fez uma fórmula que foi aplicada no caso Collor, lá de 1992. Você tem de avaliar três fatores. O primeiro é o motivo, e esse é o que menos importa. Segundo, e este importa bastante, é a popularidade. Presidente popular segura um impeachment. Bolsonaro tem hoje popularidade (somando ótima, boa e regular) acima dos 50% e militância muito aguerrida.
Ele é um político que tem estratégia?
Eu o vejo mais tático do que estratégico. Bolsonaro foi competente ao criar sua candidatura, num momento de descrédito do centro político e da esquerda. Criou uma estratégia para se eleger, mas no governo ele não tem estratégia. O governo foi montado, desmontado, e aí chegou a pandemia. O hiperpresidencialismo deixou de existir e Bolsonaro aprendeu isso na marra. Quando diz “eu não consigo fazer nada, a Justiça não deixa fazer”, é verdade. E isso é o que protege a nossa democracia – e talvez paralise alguns dos nossos avanços.
Muito se fala num poder exacerbado do STF. Isso é bom para a democracia?
O Judiciário foi por muito tempo um Poder opaco, quase chapa branca. De certo modo, continua sendo. Mas o que tivemos desde o mensalão em 2005, com Joaquim Barbosa, foi um crescente protagonismo do Judiciário. O STF virou tribunal recursal da política, toda polêmica termina lá.
Fala-se a toda hora em governo de esquerda, de direita. Diria que o atual governo é de direita?
Às vezes, o governo é politicamente de direita e economicamente de esquerda.. O atual é politicamente de direita, sim, e economicamente liberal, mas não deixa de ter traços do tenentismo, surgido nos anos 20, e que é intervencionista. Foi o tenentismo que criou a Petrobrás, a Eletrobrás. Então, há traços de direita, de esquerda... O Brasil é assim.
Tem uma frase muito boa do Nizan Guanaes, publicitário, mas que só faz sentido em inglês: não existem mais “left” ou “right”, existem “right” ou “wrong”, certo ou errado...
É uma realidade. O pragmatismo se impõe sobre os fatos e as crenças. Uma vez, meu filho Tiago foi com um grupo à China e, numa palestra que assistiram, na Juventude Comunista do PC Chinês, alguém disse: “Vocês sabem por que a América do Sul não dá certo? É porque vocês não respeitam o mercado!” Os mais esquerdistas, na sala, ficaram horrorizados. O conferencista explicou: “Nós respeitamos o mercado, produzimos o que ele quer”. Esse é o pragmatismo que nós deveríamos ter.
O Fernando Gabeira me disse anos atrás uma frase sobre capitalismo. “Não adianta você mandar o capitalismo para o inferno, que ele há de fazer um bom negócio por lá.” Mas, voltando ao tema, qual seria a reação se o Paulo Guedes pedisse o chapéu?
Em uma ou duas ocasiões, houve rumores de que ele iria embora. Acho que todo ministro deveria ter, não digo uma carta de demissão na gaveta, mas estar preparado para uma eventualidade. Foi mais ou menos o que aconteceu com o Wilson Ferreira, na Eletrobrás, quando sentiu que não ia fazer diferença no processo. E ele fez um belíssimo trabalho de reorganização na Eletrobrás.
Você acredita num programa de privatização do atual governo?
Acredito sim, principalmente naqueles itens já colocados nas PPIs, que são uma herança do Uma Ponte para o Futuro, projeto do Michel Temer, que deu as bases do programa do ministro Tarcísio de Freitas, na Infraestrutura.
Que recado, enfim, você daria aqui sobre o futuro do País?
Estou há 40 anos em Brasília e diria que o País melhorou muito, sobretudo porque a sociedade se interessou mais pela política. Há hoje uma presença maior das elites empresariais e culturais debatendo o Estado e seu funcionamento. Outro avanço importante é a redução do corporativismo. A reforma política vem sendo feito em fatias. E temos US$ 350 bilhões em reservas, um sistema financeiro saudável e taxas de juros mais realistas.
Pelo que você diz, continuamos, então, a ser o País do futuro?
Estamos construindo o futuro, ainda que a passo de tartaruga. E acho que vamos continuar avançando. Os embates que tivemos nestes dois anos de governo Bolsonaro revelam uma sociedade democrática e a existência de instituições fortes. Isso é muito importante.
*CEO DA ARKO ADVICE, SÓCIO FUNDADOR DA ADVOCACIA MURILLO DE ARAGÃO, PROFESSOR ADJUNTO DA COLUMBIA UNIVERSITY (NOVA YORK), AUTOR DE REFORMA POLÍTICA – O DEBATE INADIÁVEL.
República de bananas podres é de poucos - José Nêumanne , O Estado de S.Paulo
Desde 21 de abril o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), mandou a Polícia Federal (PF) investigar para descobrir financiadores e participantes de atos antidemocráticos que pregavam intervenção militar com Bolsonaro no poder. E o fechamento do Congresso e do “excelso pretório”. Na semana passada, a delegada encarregada, Denisse Dias Rosas Ribeiro, declarou-se incapaz de denunciar quem participou da subversão às portas do Quartel-General do Exército e quem pagou os fogos de artifício com que os fascistoides fingiram bombardear a sede do STF.
O ministro da Justiça do primeiro governo Lula, o criminalista Márcio Thomaz Bastos, tentou cobrir o sol com a peneira quando foi revelado que a PF fez escutas telefônicas não autorizadas pela Justiça de ministros do STF e do filho do ex-presidente. “É uma polícia republicana”, mentiu. Mas a PF não era guiada pela hierarquia funcional, e, sim, por petistas, liderados por Paulo Lacerda, que foi seu diretor, bem como da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), tucanos e viúvas do xerife Romeu Tuma. Há algum tempo, quem manda é Bolsonaro. Na sua facção milita o federal não identificado que delatou, segundo o empresário Paulo Marinho, ao então deputado estadual Flávio Bolsonaro que a Operação Furna da Onça fora adiada para evitar prejuízos à chapa de seu pai no segundo turno da eleição. E que o factótum do gabinete dele na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Fabrício Queiroz, teve pilhadas em sua conta pessoal “movimentações atípicas” pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
O Grupo de Atualização Especializada em Combate à Corrupção (Gaecc) do Ministério Público do Rio (MP-RJ) reuniu provas de quatro crimes praticados pelo primogênito do presidente: peculato (uso de dinheiro público em benefício próprio), corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Dos 22 membros, uma foi nomeada pelo atual procurador-geral do Rio, Luciano Matos. E as outras 21 nomeações estão no freezer. Cláudio Castro, governador de plantão no Rio, é íntimo da famiglia Bolsonaro, em especial do filhote 001. O novo chefe do MP-RJ foi o mais votado entre os colegas, liderando a lista tríplice que foi encaminhada a Castro. Não se sabe como será conduzido o inquérito, que sofre bombardeio pesado de órgãos da Presidência da República. O pai em pessoa chefiou uma reunião da Abin e o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), para, no mínimo, apresentar queixumes das advogadas de defesa do acusado, que nunca apresentou um argumento documentado contra o libelo dos procuradores, sempre recorreu a órgãos superiores do Judiciário para paralisar e obstruir seu trabalho.
Esse não foi o caso do inquérito da delegada federal Ribeiro, que ignorou o princípio fundamental do Código de Processo Penal (artigo 197), segundo o qual fatos públicos e notórios dispensam provas. E ignorou atentados à democracia, tais como o bombardeio com fogos de artifício da sede do STF e o passeio do helicóptero de Bolsonaro com seu ministro da Defesa, general Fernando Azevedo (de óculos escuros, tradicional figurino dos tiranetes latino-americanos), em apoio a golpistas munidos de cartazes, faixas e gritos de ódio à cidadania. Idêntica foi a atitude do juiz Ney Bello, do Tribunal Regional Federal da 1.ª Região (TRF-1), ao encerrar inquérito sobre Frederick Wassef, ex-advogado de Flávio e lobista assíduo da intimidade palaciana, dispensado de explicar a presença do presidiário Queiroz em seu falso escritório de causídico de ocasião em Atibaia. Na decisão, ele foi acompanhado por Maria do Carmo, amiga de Flávio Bolsonaro e dada no STJ como madrinha de Kassio Marques, recente indicação do pai Jair ao STF. Dos bastidores brasilienses consta que Bello também é o favorito de Gilmar Mendes para o lugar de Napoleão Maia, recém-aposentado no STJ.
Essa dança macabra de cadeiras é rotineira em substituições de aposentados nos tribunais superiores. Da mesma forma, as emendas bilionárias de parlamentares foram assinadas pelo chefe do Executivo. Elas representam, contudo, muito mais o poder do Centrão do que a força do capitão artilheiro. O buraco, no caso, é mais embaixo: a garantia de impunidade para condenados, denunciados, acusados e suspeitos de corrupção. Isso confirma o que descreveu o desembargador paulista Fausto De Sanctis na série Nêumanne Entrevista em meu blog no portal do Estadão. Mais do que uma derrota das operações do tipo Lava Jato, trata-se de um retrocesso para as priscas eras a elas anteriores. Bolsonaro assume o aparente comando da operação “solta todos” porque ele, e não apenas os filhos, sabe o que fez no verão passado. É o que acusou, explicitamente, o deputado Kim Kataguiri, em outra entrevista dessa série.
Os ratos fugiram dos porões e subiram à torre de comando, onde o suposto capitão da nave a conduz para cruzeiro confortável, o mais distante possível das tempestades armadas pelas operações de combate à corrupção e às ações policiais contra o crime nesta república de bananas podres.
JORNALISTA, POETA E ESCRITOR
Vacina russa Sputnik V tem 91,6% de eficácia contra a covid-19, diz estudo publicado na 'The Lancet'
02 de fevereiro de 2021 | 09h56
Atualizado 02 de fevereiro de 2021 | 16h06
A Sputnik V, vacina produzida pelo Instituto Gamaleya, da Rússia, tem eficácia de 91,6% contra casos sintomáticos da covid-19. Os dados, avaliados por pesquisadores independentes, foram publicados nesta terça-feira, 2, na revista científica The Lancet. A vacina já está sendo aplicada na Rússia e em outros países, como Argentina e Argélia.
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Os resultados preliminares consideram que a vacina, administrada em duas doses, mostrou "grande eficácia" e foi bem tolerada entre os voluntários que participaram da última etapa dos ensaios clínicos. A proteção do imunizante se mostrou consistente entre todas as faixas etárias - dos mais jovens, acima de 18 anos, até participantes acima de 60 anos.
A pesquisa, que envolveu cerca de 20 mil voluntários, mostrou que a vacina ajuda a prevenir as formas mais graves da covid-19. Os participantes do estudo, realizado entre setembro e novembro, foram divididos em dois grupos: um recebeu duas doses da vacina e o outro, duas doses de placebo, com três semanas de intervalo. No total, foram confirmados 78 casos de covid-19 entre os participantes a partir do 21º dia após a primeira dose: 62 entre os 4,9 mil participantes que receberam placebo e 16 casos entre os 14,9 mil que receberam o imunizante. Nenhum evento adverso grave relacionado à vacina foi registrado.
De acordo com os dados preliminares, os vacinados que desenvolveram a covid-19 tiveram formas mais leves da doença, o que sugere que a severidade do quadro pode diminuir com a imunidade conferida pela vacina. Nenhum caso grave ou moderado da doença foi registrado entre os participantes que receberam o imunizante, enquanto 20 casos foram registrados no grupo que recebeu placebo. Os dados equivalem a uma eficácia de 100% contra as formas moderada e grave da covid-19.
Cientistas independentes reconheceram que a vacina produzida pela Rússia, criticada pela velocidade do desenvolvimento e pela falta de transparência na divulgação preliminar dos estudos, teve resultado claro. “O desenvolvimento da vacina foi criticado pela precipitação, por pular etapas e pela ausência de transparência. Mas os resultados mostrados são claros e o princípio científico desta vacina foi mostrado”, disseram os especialistas britânicos Ian Jones e Polly Roy, em um comentário publicado junto do estudo. "
Esses resultados corroboram as afirmações iniciais da Rússia, feitas em novembro. Com os dados, a Sputnik V se junta às vacinas mais eficazes, como as da Pfizer/BioNTech e Moderna, que têm acima de 90% de eficácia.
Os autores indicam a necessidade de realizar mais pesquisas incluindo adolescentes, crianças e gestantes. Os estudos clínicos ainda estão em andamento e pretendem incluir um total de 40 mil participantes.
A vacina já foi autorizada em outros países, como Hungria, Sérvia, Bolívia, Venezuela, Paraguai, Belarus e Irã.
Tecnologia
A vacina tem como base dois tipos de adenovírus (Ad26 e Ad5), um tipo de vírus que causa resfriados, que recebeu o gene da proteína spike do novo coronavírus. Os cientistas modificaram os adenovírus para que pudessem invadir as células, mas não conseguissem se replicar, tornando-os incapazes de causar a doença. De acordo com a The Lancet, o uso de dois adenovírus diferentes - administrados nas duas doses aplicadas com 21 dias de intervalo - é o que distancia a Sputnik V de outras vacinas. As vacinas Sputnik V e de Oxford usam a mesma tecnologia de fator viral, mas com composições diferentes - a de Oxford usa adenovírus de chimpanzé, e a vacina russa usa adenovírus de humanos. Já a Coronavac é produzida a partir de um vírus inativado do novo coronavírus.
Segundo os pesquisadores, o uso de um vetor de adenovírus diferente na segunda dose pode ajudar a criar uma resposta imune mais potente, já que minimiza o risco do sistema imunológico desenvolver resistência ao primeiro vetor administrado.
Estes imunizantes são mais resistentes que os desenvolvidos pela Pfizer e Moderna, por exemplo, baseados na tecnologia do RNA mensageiro. O DNA não é tão frágil quanto o RNA, e o revestimento de proteína resistente do adenovírus ajuda a proteger o material genético interno. Por isso, a vacina Sputnik V pode ser refrigerada e não requer temperaturas de armazenamento muito baixas.
Negociação no Brasil
O imunizante russo é visto como um dos mais promissores por interlocutores do presidente Jair Bolsonaro e do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, mas ainda esbarra na falta de dados para a aprovação na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O Estadão mostrou, em reportagem publicada na sexta-feira, 30, que defensores dizem, nos bastidores, que a Sputnik poderia se tornar “a vacina de Bolsonaro".
No dia 15 de janeiro, o laboratório brasileiro União Química, que produz a vacina no País, e o Fundo de Investimentos Diretos da Rússia (RDIF) fizeram o pedido de uso emergencial para 10 milhões de doses da Sputnik V à Anvisa. O pedido foi rejeitado no dia seguinte por não cumprir requisitos mínimos para a aplicação emergencial das doses, como a vacina ter estudos de fase 3 em andamento no Brasil. As vacinas que tiveram uso emergencial aprovado - Coronavac, do Instituto Butantan em parceria com a chinesa Sinovac, e Covishield, da Universidade de Oxford e AstraZeneca - realizaram testes clínicos no Brasil.
A Anvisa informou por meio de nota nesta terça-feira, 2, que tem realizado reuniões com técnicos da União Química, mas desde a rejeição do pedido não houve mudança de status. Também acrescentou que o estudo publicado no Lancet é com a vacina em forma líquida, armazenada a -18ºC. "A União Química quer comercializar no Brasil a vacina em outras condições de temperatura e conservação, diferentes do produto que trata o artigo. Dessa forma é necessário saber se os resultados encontrados são extrapoláveis, ou seja, se os resultados da vacina líquida a -18ºC vale também para a vacina que a União Química quer trazer para o Brasil. Para este tipo de avaliação é necessário estudo de comparabilidade entre os produtos."
Bolsonaro se reuniu na quarta-feira, 27, com o presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, e um dos temas tratados, segundo apurou o Estadão, foi a aprovação da Sputnik V. Como mostrou a Coluna do Estadão, o Ministério da Saúde disse à União Química que está “disposto a formalizar as tratativas comerciais para eventual aquisição dos lotes do imunizante”, caso a empresa receba aval para o estudo de fase 3 e peça novamente o uso emergencial à Anvisa.
A União Química já começou a produzir doses da vacina em território nacional. De acordo com Rogério Rosso, diretor de negócios internacionais do laboratório, a produção foi iniciada com um lote piloto de Insumo Farmacêutico Ativo (IFA), o princípio ativo do imunizante. Ele afirma que é possível produzir 8 milhões de doses por mês no País, assim que sua planta em Brasília, a Bthek, estiver operando em capacidade máxima./Com AFP e Associated Press









