PSDB não deve fazer oposição sistemática a Bolsonaro, diz Eduardo Leite, governador do RS

Na semana em que se consolidou dentro do PSDB como alternativa a João Doria (PSDB) para candidatura presidencial no ano que vem, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), 35, fez questão de demarcar suas diferenças em relação ao governador paulista.
Em entrevista à Folha, Leite defendeu seu estilo moderado em contraposição a ataques, disse não fazer política ao sabor dos ventos e nem como aspiração pessoal, e ainda lembrou que Doria fez campanha para o presidente Jair Bolsonaro em 2018.
Há também uma distância em relação a oposição a Bolsonaro. Doria pretende adotá-la como regra no partido, enquanto Leite vê na oposição sistemática custos para a sociedade e ressalta alinhamento com o governo federal no plano da economia.
Nesta sexta-feira (12), os tucanos impuseram uma derrota a Doria ao reconduzir Bruno Araújo para a presidência do partido. Aécio Neves (PSDB-MG) também propôs que a sigla realize prévias, o que fortalece Leite, embora o gaúcho rejeite qualquer aproximação com o deputado.
Atendendo a deputados, o sr. deu início a um processo quase de pré-candidatura à Presidência. Quer isso e se sente preparado? Por mais que insistam em falar em pré-candidatura, se trata de discutir um projeto para o país. Nesse sentido, estou preparado. O que os deputados me pediram foi que eu compartilhasse a experiência, que dialogasse com pessoas de forma a construir um projeto de centro, de moderação. Quero cumprir minha parte. Mas candidaturas vão ser definidas no momento apropriado.
Doria tem uma candidatura desenhada para a Presidência. Sua postura não o confronta e as prévias não trazem o risco de separar o partido? Eu não acho que prévias sejam um problema. Elas podem significar bons debates para a construção não só de uma candidatura, mas de uma visão de programa partidário. Nos EUA, há essa tradição. Há um sentimento de que o país precisa ter alternativas em contraponto ao que a gente observa do presidente da República.
E o contraponto é exatamente a moderação, a ponderação, a sensatez, a sobriedade. Quem tem disposição de fazer o contraponto com esses valores não tem que temer fazer um processo de prévias. Tem que se analisar quem tem capacidade de gestão, capacidade política de aglutinação e capacidade eleitoral de fazer o projeto prosperar nas urnas. Mas a capacidade eleitoral não é determinada apenas pela capacidade individual, carismática, ela é também determinada pelas circunstâncias e estamos ainda a um ano e meio da eleição.
O sr. defende o contraponto ao presidente pela ponderação. Quando diz isso, está criticando o estilo mais enfático de ataques de Doria? A postura do presidente da República é muito clara, sempre foi de ataques, de agressões, de radicalismo, que fazem se desperdiçar uma energia que deveria estar aplicada em fazer prosperar agendas que poderiam transformar o país. O que a gente tem que apresentar de contraponto não é devolver radicalismo com radicalismo, devolver ataques com outros ataques e agressões.
O contraponto tem que ser feito insistindo na ponderação e na moderação, esse é o meu jeito. Cada um tem sua forma de fazer política. São estilos, que poderão ser comparados pela população assim como já são comparados no partido.
Pátria mal amada, pátria maltratada
13 de fevereiro de 2021 | 03h00
Nelson Rodrigues disse que somos “narcisos ao inverso” e temos complexo de “vira-lata”. Ele nos comparou a essa espécie de cão possivelmente porque ela não constitui uma raça, tal como o povo brasileiro, que é a junção de várias raças, não provem de uma única.
Quanto à mitologia de Narciso, posta ao inverso, significa que não apreciamos a nossa figura quando refletida nas águas ou no espelho. Ao contrário de Narciso, não nos aceitamos e chegamos a nos rejeitar.
Na base dessas duas afirmações há duas realidades: não sabemos, ainda, com precisão quem somos e como somos, assim como nos acompanha historicamente um sentimento de autodepreciação. O desconhecimento leva muitos segmentos a serem carentes de autoestima, autoconsideração, apego ao nosso modo de ser e ignorância quanto às nossas qualidades. A não aceitação, por parte das elites, da multiplicidade de raças, o racismo, a desigualdade e a discriminação sociais, as carências no campo da educação e da cultura, entre outros fatores, têm impedido um mergulho profundo nas nossas raízes.
Houve um esforço da parte de intelectuais para nos decifrar. Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Celso Furtado, Raymundo Faoro, Gilberto Freire e outros empreenderam estudos nesse sentido, mas não foram acompanhados pela elite, que jamais se preocupou com a própria origem, mas sim com a que gostaria de ter tido.
Uma das questões que mais intrigam os estudiosos da sociedade brasileira é o chamado “fenômeno patológico da psicologia brasileira”, representativo da nossa tendência a adotar padrões culturais e estéticos de outros povos. E até uma tendência clara a sair do País e viver em outras plagas.
Em sua obra O Elogio do Vira-Lata e Outros Ensaios, obra indispensável para uma avaliação realista e desprovida de preconceitos do nosso povo, e especialmente de suas potencialidades, Eduardo Giannetti analisa as origens dessa crônica visão depreciativa que a sociedade brasileira tem de si mesma, acentuadamente parte das elites. Extrai-se dessa obra que estamos aptos a solucionar problemas, a superar obstáculos em razão de nossa criatividade, inteligência criativa, facilidade de percepção e outros dons, que poderiam estar sendo utilizados para a supressão de nossas carências e o aprimoramento da sociedade, em vez de copiarmos modelos e soluções que não se amoldam a nós.
A analogia, para Giannetti, ao contrário do dramaturgo, se justifica porque no seu mundo o vira-lata é dotado também de grande habilidade para ultrapassar dificuldade e sobreviver, tal como nós. O autor mostra que a raiz do nosso complexo de inferioridade está nos filhos aqui nascidos dos primeiros portugueses que vieram para o Brasil. Passaram a ser denominados mazombos, designação de iletrado, bruto, grosseiro. Esses primeiros brasileiros deploravam ter nascido fora de Portugal e almejavam ir para lá. Segundo afirma Giannetti, a característica dos mazombos era a falta do “senso de pertencimento”
O mesmo acontece com o que chamo de “brasileiros envergonhados”, que tal como seus antecessores são estranhos ao país de nascimento, resistem a assimilar sua cultura e a desprezam. Portadores de um individualismo que os impede de participar dos projetos coletivos, não admitem nenhuma responsabilidade, mas apontam o dedo acusador contra terceiros pelas nossas dificuldades.
Ao mal da pátria mal amada junta-se o mal da pátria maltratada. Talvez esses males decorram um do outro e se completem.
A malquerença levou as elites dirigentes a não empreenderem os esforços necessários para nos governarem, prevalecendo os interesses pessoais em detrimento do coletivo. As consequências dessa incúria histórica são pontualmente bem identificadas.
Assim, após a libertação os escravos foram deixados ao léu e a República foi proclamada sem a participação do povo; antes de 1988 as instituições estavam fragilizadas, resultando como decorrência duas ditaduras em curto tempo. O desprezo pela educação, o adesismo, o clientelismo, a corrupção maculam a atividade política. E atualmente há o exemplo patente de um governo que chega às raias da desumanidade, por seu total desleixo com a saúde pública e a pandemia do novo coronavírus.
Talvez nunca como na atualidade a pátria tenha sido tão maltratada. O desprezo, a arrogância e a autossuficiência no trato dos problemas sociais, o desrespeito aos direitos humanos, à cultura, à educação e à imagem do País, e outras mazelas, têm uma origem: o poder pelo poder, desvinculado dos interesses e das necessidades nacionais. O poder para o desempenho do mando, sem nenhuma consideração pelos anseios e aspirações do povo. Mando refletido numa retórica irreal, falaciosa e odienta.
A catástrofe conta com o beneplácito de políticos interesseiros uns e omissos outros, assim como de parcelas da sociedade cujo apoio ao desgoverno, para mim, constitui um grande enigma.
Está na hora de substituir o desamor pelo amor ao Brasil, que é o nosso país. E na hora de removermos os entulhos que impedem a construção da pátria dos nossos sonhos.
ADVOGADO CRIMINALISTA
O realismo oportunista do Centrão e a distopia bolsonarista
13 de fevereiro de 2021 | 03h00
O saldo da primeira metade da Presidência de Jair Bolsonaro é muito ruim. Mas pior do que os resultados é o espírito que preside à gestão do governo em seu conjunto. A sua marca é o ânimo destrutivo.
Nada é mais simbólico desse fato do que a genuína paixão do presidente pelas armas. Bolsonaro banaliza a vida (“a morte é o destino de todos nós”), dá de ombros para as vítimas da covid-19 (“eu não sou coveiro”) e duvida dos benefícios da vacina (“se virar jacaré, não vem reclamar”), mas não esconde seu entusiasmo com o grande aumento do número de armas nas mãos da população civil, objetivo que vem perseguindo desde o início de seu mandato. Segundo reportagem do jornal O Globo publicada em 31 de janeiro, já são mais de 1 milhão de armas, um aumento de 65% em comparação com 2018.
A paixão pelas armas é correspondida pelo desprezo à cultura, outro traço de Bolsonaro, visível nas escolhas feitas por ele para essa área em seu governo. O elo que une a paixão pelas armas e o desprezo pela cultura é a intolerância, pois a cultura reclama pluralidade e valorização da diferença. “Quando ouço falar em cultura, puxo o meu revólver”, diz um personagem da peça Schlageter, do dramaturgo e poeta nazista Hanns Johst, escrita em 1933, logo após a chegada de Hitler ao poder. Bolsonaro não é nazista, mas compartilha com o personagem a mesma ojeriza à transgressão criativa, que é própria da criação cultural.
O uso do polegar e do indicador para simular uma arma é a marca registrada do presidente. Do gesto derivam dois discursos, que não são exatamente iguais, mas convergem no enaltecimento de virtudes viris. Um deles apela ao instinto de autodefesa do cidadão amedrontado: defenda-se você mesmo, pois o Estado não é capaz de fazê-lo (por suposta culpa da “turma dos direitos humanos”, que amarraria as mãos da polícia). O outro aponta para o uso da violência contra adversários políticos. No início deste mês ele mais uma vez voltou a bater nessa tecla ao anunciar novos decretos para facilitar a compra de armas: “Eu não tenho medo do povo armado, me sinto muito bem ao lado de um povo armado, isso evita que o governante se torne um ditador”.
O alvo real da suposta preocupação democrática do presidente não é, obviamente, ele próprio, mas os seus adversários. Não há como esquecer a reunião ministerial de 22 de abril, em que, alterado, disse que “um povo armado” não acataria as medidas de restrição ao comércio adotadas por prefeitos e governadores.
A distopia bolsonarista projeta na tela do imaginário nacional uma espécie de faroeste caboclo, protagonizado por homens rudes, incultos e indomáveis, um mundo onde a saliva cedeu definitivamente lugar à pólvora e no qual manda quem tem a maior pistola.
A referência do presidente não é Adam Smith e A Riqueza das Nações. Não é a mão invisível do mercado que faz Bolsonaro sonhar à noite e despertar com energia na manhã seguinte para desincumbir-se do seu ofício do presidente. Uma economia de mercado requer uma rede complexa de instituições que regule, contenha, sem sufocar, o espírito animal dos empreendedores. Supõe regras estáveis e agentes estatais “neutros” com capacidade jurídica e operacional para fazê-las valer. Exige também o reconhecimento da ciência como parâmetro fundamental da ação reguladora do Estado, a começar pelas questões elementares do que é ou não nocivo à saúde humana. Exige ainda, como ensina Smith na Teoria dos Sentimentos Morais, uma ética da solidariedade, baseada na empatia. Nada disso é compatível com a distopia do “povo armado” e do “negacionismo científico”. Só se for para um liberalismo de fancaria, mero véu para encobrir interesses mesquinhos e grandes preconceitos.
A distopia bolsonarista é também inconciliável com a ordem e o progresso, lema de inspiração positivista inscrito em nossa bandeira com o advento da República e no espírito das Forças Armadas desde então. Não pode haver ordem sem monopólio estatal da violência exercido por forças armadas e policiais regidas pelos princípios da hierarquia e da disciplina e, no Estado Democrático de Direito, submetidas ao império de direitos e garantias individuais. E não pode haver progresso sem reconhecimento da importância da ciência para o desenvolvimento econômico e social. O que já era uma verdade inquestionável no século 19, quando o positivismo desembarcou no Brasil e fez escola entre os militares, é hoje ainda mais verdadeiro.
A distopia bolsonarista não é inconciliável, porém, com a realidade de um Estado patrimonialista, tomado pelos interesses de corporações e clientelas políticas e gerenciado por profissionais da intermediação política cujo principal propósito é maximizar o poder e a renda que a intermediação lhes permite extrair. O impulso destrutivo do bolsonarismo e o oportunismo do Centrão podem se acomodar mutuamente, à custa do que resta de republicano no Estado brasileiro.
A violência, a boçalidade e o patrimonialismo têm um passado vistoso no país. Terão um futuro promissor?
DIRETOR-GERAL DA FUNDAÇÃO FHC, É MEMBRO DO GACINT-USP
A piada do escorpião e os ‘partidos Jay-Z’
13 de fevereiro de 2021 | 03h00
O eleitor do DEM confia no DEM? A cantora pop Beyoncé confia no marido, o rapper Jay-Z? “Minhas suspeitas se multiplicaram depois que você mentiu”, canta Beyoncé ao som de guitarra acústica na música Resentment. Da mesma maneira, o eleitor do DEM tem todos os motivos para se sentir ressabiado depois do racha do partido em praça pública ao longo da semana.
O episódio reflete, de certa forma, o cisma mundial das direitas – “liberais” de um lado, “populistas” do outro, na nomenclatura utilizada pelos cientistas políticos. O ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia queria fazer do DEM um partido de centro direita estilo europeu, como o Democrata Cristão de Angela Merkel – ideológico e defensor da democracia. Para isso, afastou-se da estridência populista do bolsonarismo.
Na eleição para presidente da Câmara, no entanto, vários deputados do partido votaram em Arthur Lira, o candidato de Bolsonaro. O eleitor ficou desconcertado: o DEM, afinal, é oposição ou situação? Em crise de identidade, o partido rachou. Maia afirmou, em entrevista ao jornal Valor na segunda-feira, que o presidente do partido, ACM Neto, não tinha “coluna vertebral”. Na terça-feira, ACM acusou Maia de “descontrole” e atribuiu o cavalo de pau de vários deputados de seu Estado, a Bahia, às vicissitudes da política.
É um jeito, digamos, “pragmático” de ver as coisas – mas que banaliza o nobre papel dos partidos nas democracias. Eles são instituições-chave nos regimes de liberdade. E vêm perdendo credibilidade no mundo inteiro por mudar de opinião nas barbas do eleitor. É o caso do DEM, que buscava uma pegada ideológica e sucumbiu ao fisiologismo – o Estadão revelou quanto dinheiro foi destinado às bases de cada deputado que mudou de voto. O partido se portou como na velha piada do escorpião e do sapo. O escorpião ferroou o sapo que lhe dava carona para atravessar o rio, quebrando a promessa de não atacá-lo. Antes que os dois morressem afogados, o escorpião disse: “Não pude evitar, é da minha natureza”.
Maria Díez-Garrido, doutora em comunicação política pela Universidade de Valladolid e personagem do minipodcast da semana, estuda partidos políticos e o que eles podem fazer para recuperar a credibilidade. Uma das palavras-chave é transparência – não ceder à “natureza” entre mãos-bobas no escurinho do Parlamento. Além de transparência – de ideias e financiamento –, Díez-Garrido propõe a criação de ferramentas que facilitem a participação dos eleitores e a construção de propostas junto com os cidadãos e com a sociedade civil.
Um estudo ainda inédito, apresentado por Díez-Garrido em seminário na Universidade de Lisboa, avalia partidos da Península Ibérica segundo esses critérios. Na Espanha o vencedor foi o PSOE, de centro esquerda. Em Portugal, apenas uma sigla foi “aprovada” com média superior a 50 pontos: o PSD, uma centro direita ideológica – parecida com o que o DEM se esforçava para ser.
O título do trabalho – “Da opacidade à abertura: a jornada necessária dos partidos políticos” – sugere que as siglas têm uma lição de casa a fazer para recuperar a confiança dos eleitores. A tarefa começa nos próprios sites, mas não se restringe a eles. Os “partidos Jay-Z” às vezes têm boas páginas (a do DEM traz até uma carta programática, que inclui uma rejeição veemente ao “populismo”). Não adianta, no entanto, ser moderno na web e uma piada velha no mundo real.
Para saber mais:
Minipodcast de Maria Díez-Garrido
Estudo de Maria Díez-Garrido sobre partidos políticos abertos
Site com boas práticas para partidos políticos
Seminário de Maria Díez-Garrido sobre partidos políticos na Espanha e em Portugal
Artigo de Marco Aurélio Nogueira sobre o racha do DEM
Reportagem do Estadão sobre verbas para as bases de deputados
Beyoncé em “Resentment”
* ESCRITOR, PROFESSOR DA FAAP E DOUTORANDO EM CIÊNCIA POLÍTICA NA UNIVERSIDADE DE LISBOA
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No menu das Forças Armadas, dinheiro público pagou de lombo de bacalhau a uísque 12 anos
13 de fevereiro de 2021 | 05h00
O cardápio de iguarias consumidas pelas Forças Armadas não se limitou à aquisição de milhares de quilos de picanha e garrafas de cerveja ao longo de 2020. Os dados oficiais mostram que a dieta verde oliva também incluiu, no ano passado, a compra de itens como milhares de quilos de lombo de bacalhau – lombo, não o peixe desfiado, que é bem mais em conta –, além de uísques 12 anos e garrafas de conhaque.
As novas informações reunidas pelos deputados do PSB serão anexadas à representação que o partido fez à Procuradoria-Geral da República (PGR), para pedir esclarecimentos sobre os gastos alimentares das Forças Armadas, os quais incluíram a compra de mais de 700 mil quilos de picanha e 80 mil cervejas.
Os dados oficiais, obtidos a partir de informações que são repassadas pelos próprios militares ao Painel de Preços do Ministério da Economia, mostram que, no ano passado, foram aprovados processos de compra de 140 mil quilos de lombo de bacalhau, além de outros 9,7 mil quilos de filé do peixe salgado.
Em uma das compras registradas pelos militares, consta um pedido homologado pelo Comando da Aeronáutica, para aquisição de 500 quilos de lombo de bacalhau, em que o preço de referência usado pelo órgão público foi de nada menos que R$ 150 o quilo. Esses pedidos, uma vez homologados, ficam à disposição dos órgãos, para que façam suas compras com os fornecedores aprovados.
Muitos copos de uísques e conhaques também foram brindados com o uso do dinheiro público. O 38.º Batalhão de Infantaria, por exemplo, comprou dez garrafas do uísque Ballantine’s, mas desde que fosse com 12 anos de envelhecimento. O preço da garrafa proposto foi de R$ 144,13.
Já o Comando da Marinha preferiu adquirir 15 garrafas de Johnnie Walker, também com 12 anos de envelhecimento, o chamado “Black Label”. O valor que se dispôs a pagar para cada unidade foi de R$ 164,18.
Conhaques mais populares também entraram na lista do Batalhão Naval da Marinha. Em setembro do ano passado, o órgão aprovou o registro para compra de até 660 garrafas de conhaque das marcas “Presidente” e “Palhinha”, com preço unitário proposto de R$ 27,06.
“É um poço sem fundo. Quanto mais investigamos, mais absurdos e irregularidades encontramos. Se não bastasse o governo comprar picanha e cerveja, ainda tem o corte mais caro do bacalhau, uísque e conhaque e com indícios de superfaturamento”, diz o deputado Elias Vaz de Andrade (PSB-GO), que está entre aqueles que assinam a representação enviada ao procurador-geral da República, Augusto Aras, para que investigue os gastos militares. “Além da PGR, eu e mais nove deputados do PSB vamos levar essas informações ao Tribunal de Contas da União. Também estamos discutindo propor a instalação da CPI das compras do governo na Câmara Federal.”
Defesa
A reportagem questionou o Ministério da Defesa sobre cada uma das novas informações. A pasta, no entanto, não se manifestou sobre esses dados até a conclusão desta reportagem. Na quinta-feira, por meio de nota, o ministério afirmou que “reitera seu compromisso com a transparência e a seriedade com o interesse e a administração dos bens públicos” e que “eventuais irregularidades são apuradas com rigor”.
Segundo o Ministério da Defesa, “existe sempre uma significativa diferença entre processos de licitação e a compra efetivamente realizada, cuja efetiva aquisição é concretizada conforme a real necessidade da administração”.
Assim, “é imprescindível que se faça essa segmentação adequada, quando se faz a totalização dos valores, interpretação e principalmente a divulgação pública destes dados, de modo a evitar a desinformação”, afirma o ministério.
De acordo com a pasta, “apresentar valores totais de processos licitatórios homologados como sendo valores efetivamente gastos constitui grave equívoco”, afirma a nota, referindo-se aos dados incluídos na representação. No documento apresentado à PGR, entretanto, os deputados exibem dados detalhados com a identificação da compra realizada e seu referido fornecedor.
Elias Vaz afirmou que se trata de processos já concluídos e com fornecedores escolhidos pelos militares. “Estamos denunciando esses processos licitatórios. Essas empresas tiveram suas propostas aprovadas, por esses valores. Há processos de compra concluídos e, inclusive, já efetivamente pagos. Todos eles foram homologados pelas Forças Armadas”, disse o deputado.
obseervação pessoal: estão cutucando a onça com vara curta. será que estão endendo que não tem como derrubar o presidente Bolsonaro e agora partem, a midia nacional para ataques diarios contra as nossas FORÇÃS ARMADAS. SERÁ QUE UMA ALIMENTAÇÃO DEIGNA É SÓ PARA CORRUPTOS?
EXAME/IDEIA: Para 73%, aprovação do governo depende de uma vacinação mais rápida
Por Gilson Garrett Jr. / exame
Aumentar a velocidade da vacinação contra a covid-19 é o item mais importante para 73% dos brasileiros na hora de avaliar positivamente o governo do presidente Jair Bolsonaro. Para 27%, a volta do pagamento do auxílio emergencial é decisiva para analisar a qualidade do trabalho do chefe do Executivo.
Os dados são da pesquisa inédita EXAME/IDEIA, projeto que une Exame Research, braço de análise de investimentos da EXAME, e o IDEIA, instituto de pesquisa especializado em opinião pública. O levantamento ouviu 1.200 pessoas entre os dias 9 e 11 de fevereiro. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos.
Do total de entrevistados, 65% consideram que a aplicação da vacina está atrasada, 19% acham que está dentro do prazo, e somente 4% consideram que o processo está adiantado. Sobre a perspectiva de imunização, 42% acreditam que serão vacinados até o meio do ano, 18% acham que só no próximo semestre, e 17% somente em 2022. Há ainda uma parcela, de 24%, que não sabe quando será vacinada.
“Um tema unifica o país: a sensação de atraso da vacinação contra a covid-19. Entre os que desaprovam o presidente Bolsonaro, esse número alcança 78%. Podemos inferir que a vacinação seguirá como a variável-chave de avaliação presidencial”, explica Maurício Moura, fundador do IDEIA.
Moura ainda pontua que a necessidade de que a vacinação seja célere é mais pertinente que a volta do auxílio emergencial nos estrados de escolaridade e de classe social altas. Das pessoas com ensino superior, 84% entendem que a velocidade da vacina é mais importante para avaliar Bolsonaro. Para 54% das classes D e E, a volta do auxílio seria mais decisivo para aprovar a gestão do presidente.
“Nas classes de renda mais baixa, os respondentes se dividem estatisticamente entre o auxílio e a vacina. Obviamente é uma simulação de preferências. Na vida real ambos podem andar em paralelo, mas dá a exata percepção da relevância de acelerar a vacinação”, explica.
A primeira pessoa imunizada contra o coronavírus no Brasil recebeu a dose no dia 17 de janeiro. De lá para cá, o país vacinou mais de 4,3 milhões de pessoas. Este valor equivale a 2,04% da população brasileira. Israel é o país que mais vacinou no mundo, com 42% da população imune, seguido do Reino Unido (19%), Bahrein (12%), e Estados Unidos (10%). Os dados são de um levantamento feito pela Universidade de Oxford.
Aprovação de Bolsonaro
Com o ritmo lento de vacinação e sem uma definição clara se o auxílio emergencial irá voltar, a avaliação do presidente Jair Bolsonaro está em 27%. O percentual indica uma ligeira queda desde a última pesquisa EXAME/IDEIA do fim de janeiro, quando estava em 29%. A oscilação é dentro da margem de erro da pesquisa, que é de três pontos percentuais, portanto é considerada estável.
A desaprovação passou de 42% para 44%. Aqueles que nem aprovam nem desaprovam eram 24% na última pesquisa, e agora somam 26%.
“A avaliação do presidente Jair Bolsonaro segue estável, oscilando na margem de erro. É importante notar a vulnerabilidade que se apresenta no Nordeste, com 21% de aprovação e 46% de desaprovação. O efeito do fim do auxílio certamente já foi sentido nesta região”, diz Maurício Moura.
Em uma outra questão da pesquisa, em que é abordado o auxílio emergencial, 48% acreditam que o benefício será concedido novamente. Entre os entrevistados, 66% esperam que o pagamento volte neste semestre.
Na quinta-feira, 11, o presidente Bolsonaro disse, em um evento em Alcântara (MA), que o governo estuda renovar o auxílio emergencial. O pagamento poderia começar a partir de março e seria feito em três ou quatro parcelas. Mas para isso, ele disse que é preciso “responsabilidade fiscal”.
Pela primeira vez, a pesquisa também fez uma comparação da avaliação do presidente em regiões metropolitanas de capitais, interior e litoral. A aprovação é maior no interior, chegando a 31%. Nas regiões das capitais, a avaliação positiva é de 24%. Já nas cidades litorâneas, a aprovação fica em 13%.
Eleição da presidência do Congresso
A pesquisa EXAME/IDEIA também questionou os brasileiros sobre a eleição para a presidência do Congresso Nacional, realizada na semana passada. Mais da metade dos entrevistados, 53%, não sabem que o deputado Arthur Lira (PP-AL) e o senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG) são os novos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, respectivamente.
Os entrevistados foram questionados se esta troca no comando do poder Legislativo vai mudar a situação do país. Para 31%, a situação vai continuar igual, 33% acham que vai ficar melhor, e 24% acham que vai piorar.
Todos os resultados da pesquisa EXAME/IDEIA serão debatidos por um grupo de especialistas nesta sexta-feira, 12, a partir do meio-dia, em uma sala da plataforma Clubhouse. Clique aqui para acessar.



