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O horror se reúne em festa nacional

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2021 | 03h00

Há momentos em que os absurdos brotam reunindo maldade e horror para atingir a todos. De um lado, a pandemia se propaga com fúria e ataca com novas cepas, fazendo da tétrica “média móvel de mortes” um hábito diário. De outro, o tumor cresce por atos dos que deveriam ser guardiães da ética, mas se portam como autores ou partícipes da balbúrdia, tal qual a decisão da Segunda Turma do Supremo Tribunal (STF) declarando o então juiz Sergio Moro “parcial” ao condenar o ex-presidente Lula da Silva. É como se o halo de justa justiça que a Lava Jato nos trouxe (ao desnudar o sórdido conluio dos intocáveis da política com os intocáveis do grande empresariado) fosse só devaneio.

Fomos sonâmbulos ao crer que a luz havia iluminado a longa noite de falcatruas do nosso bizarro capitalismo montado no assalto ao Estado nacional. O ministro Gilmar Mendes, relator do caso no STF, preparou o caminho, mas inexplicável mesmo foi a mudança de voto da ministra Cármen Lúcia, que desfez o que fizera e, de repente, entendeu que o juiz Moro foi “parcial”.

O novo entendimento do Supremo abre portas para invalidar o cerne da Operação Lava Jato. Começou anulando, de fato, o já apurado sobre Lula e pode chegar ao absurdo de que os tais “delatores premiados” reivindiquem receber o que devolveram dos milhões roubados à Petrobrás.

Sim, pois se o juiz “foi parcial” com Lula, terá sido, também, com os demais…

A decisão do STF nem sequer alega que Moro tenha cerceado os direitos do réu ou dos advogados. No fundo, o STF baseou-se em ilações e concluiu a partir delas.

Os processos sobre o triplex no Guarujá passarão à Justiça de Brasília, mas nada do já apurado vai valer. No lento recomeçar do zero, os processos prescreverão e Lula se beneficiará das prescrições.

Assim, a pandemia penetra na política e na Justiça como efeito colateral da suspeição de Sergio Moro.

A festança nacional do horror, porém, vai além da destruição da Lava Jato. O Brasil sofre o impacto da covid-19, mas o Orçamento proposto pelo governo para 2021 (e aprovado pelo Congresso) não dá maior atenção à “gripezinha” de Bolsonaro, que a cada dia mata mais.

Em vez disso, o Orçamento destina para gastos militares um quinto do total a ser aplicado em todos os demais ministérios. As verbas de defesa irão a R$ 8,3 bilhões e, além da manutenção das Forças Armadas, destinam-se a construir submarinos e comprar aviões de caça e blindados. É como se nos preparássemos para a guerra iminente, mas que não combate o inimigo real, a pandemia...

Os funcionários civis estão com salários congelados, mas o Orçamento prevê aumentos para os militares, a consumir outros bilhões de reais. Em contraste, as verbas das universidades se “reajustam’ para menos.

Nada disso, porém, foi mais absurdo e perigoso do que a demissão do ministro da Defesa e, logo, a dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, sob o pretexto de “realinhá-los” com os propósitos do presidente.

O demitido ministro da Defesa (um general) lembrou que “preservou as Forças Armadas como instituições do Estado”, forma elegante de revelar que evitou transformá-las em serviçais de Bolsonaro e saiu por isso. Impõe-se perguntar: o presidente estaria desejando o apoio (ou conivência) das Forças Armadas numa espécie de “autogolpe” que lhe desse poderes absolutos?

Terá sido simples coincidência que no mesmo dia o deputado Major Vítor Hugo, que foi líder do governo até 2020 (e íntimo de Bolsonaro), tenha proposto uma lei que, de fato, faz do presidente um ditador durante a pandemia? O projeto de lei terá sido só uma engrenagem na máquina do rei absolutista instalada no Palácio do Planalto?

Tudo é difuso ou oculto nos atos do presidente, nos quais o fundamental vira desprezível acessório e o remotamente acessório passa a essencial. Nada explica a tardia vacinação (que expandiu a covid-19) nem a insistência charlatanesca de Bolsonaro sobre o “uso curativo” da cloroquina e similares, que acabaram desmobilizando até parte do setor médico.

O combate à pandemia confundiu-se com a trapaça e em Minas e Espírito Santo houve “ofertas” de 200 mil doses falsas de vacina. A investigação da Polícia Federal evitou a consumação da fraude, mas o fato em si já revela o grotesco a que Bolsonaro nos levou desmobilizando a vigilância da população.

Só isso explica que, em São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais, distintos grupos se aglomerem em festas e a peste avance.

Vivemos a tempestade da pandemia como se, num temporal, a “solução” fosse amarrar os galhos das árvores porque, ao se moverem, causariam a ventania…

Para onde nos leva o estilo difuso do governo Bolsonaro, que, quanto mais opina, menos sabemos aonde quer chegar? No fundo, será ele um simulador nato e absoluto?

Tudo isso se acumula como se o horror reunisse suas variantes em festiva convenção nacional.


JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

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