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'Golpe militar' vira 'reforma militar' em letra de música do Blues Etílicos alterada na internet

Macedo Rodrigues /  o globo

 

O fantasma em torno do golpe de 1964  aparece até onde menos se espera. Na música "Safra 63", do grupo Blues Etílicos, uma espécie de coautor invisível resolveu modificar a letra na internet. Onde se lia "golpe militar", hoje se lê "reforma militar", em grande parte dos sites de músicas, cifras e letras. A descoberta, feita por acaso, foi do autor da canção, Claudio Bedran, que se espantou com a parceria forçada. E a situação é ainda pior, ele se deu conta, quando constatou que a mudança foi feita também em sites dos Estados Unidos e da Europa.

Música de Blues Etílicos alterada Foto: Reprodução
Música de Blues Etílicos alterada Foto: Reprodução

— Fiquei indignado. Isto é uma vergonha inominável. E não sou imbecil. É uma pena, mas eu nunca vou descobrir quem é este esse sujeito, porque muitos sites de música funcionam assim: há liberdade para escrever, sem se identificar.

Claudio se pergunta qual o alcance do mecanismo de atualização que, do país de origem da música, envia mudanças que reverberam internacionalmente. Os sites letras.mus.br e vagalume.com.br não responderam à reportagem até a publicação. No Letras, a reportagem verificou que basta se inscrever que qualquer um pode editar a música que quiser, e a letra de "Safra 63" já voltou à versão original. No site, a obra vem acompanhada da informação: "Enviada por Fernando. Revisão por Rogerio. Viu algum erro? Envie uma revisão." Já, no Vagalume, não é possível que assinantes façam revisões facilmente — e, lá, a letra segue com a expressão "reforma militar".

A música, lançada em meados dos anos 80,  passou incólume à Censura da época.

— E veio se tornar polêmica justamente agora, com o Brasil dominado pela ultradireita. Talvez, até hoje, existam apenas umas três músicas com "golpe militar" nas letras — acredita Claudio, que achou o problema em sua letra em mais de uma dúzia de sites e tem tentado entrar em contato com administradores fora do Brasil para fazer a correção em todos os registros. — Não posso me conformar com uma coisa dessas. Imagina se esses caras resolvem se meter na obra de um Chico Buarque.

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