Silêncio ensurdecedor sobre a educação .
Sou fruto de um Brasil que poderia ter dado certo. Estrangeiros enxergavam o País como uma terra de oportunidades. A julgar pelas amplas evidências empíricas sobre as razões para as diferentes performances dos países, nosso maior erro histórico foi a atenção tardia e insuficiente à educação básica. Universalizamos o ensino, mas insistimos no erro da baixa qualidade de gestão.
Meus avós eram quase analfabetos. Do lado materno, chegaram ao Brasil como mão de obra braçal no interior longínquo de São Paulo. Os imigrantes valorizavam o estudo mais do que os brasileiros de renda equivalente, além de muitos deles terem maior capital humano.
Assim contribuíram para o investimento estatal na educação, no Chile e na Argentina, e também em algumas regiões do Brasil, como São Paulo e Rio Grande do Sul.
Analisando as imigrações patrocinadas por São Paulo entre o final do século 18 e o início do 19, Rudi Rocha, Claudio Ferraz e Rodrigo Soares encontraram relação entre cidades que receberam estrangeiros e o maior avanço da escolaridade, com benefícios de longo prazo para suas economias.
Na Primeira República, São Paulo tornou-se um dos líderes da educação primária do país, aponta Renato Colistete. Houve reforma no ensino e criação de grupos escolares, favorecidos pela receita orçamentária gerada com a valorização do café – mas não na mesma proporção -, em meio a pressões sociais e ao reconhecimento entre políticos e intelectuais do atraso educacional e suas consequências.
Os indicadores de escolaridade evoluíram bastante, ainda que não o suficiente para equipará-los aos da Argentina, por exemplo, e a evasão era elevada, pois muitas crianças trabalhavam na lavoura de café.
Minha mãe beneficiou-se dos avanços no ensino e escapou da armadilha que reservava às classes populares o trabalho manual – visto ainda hoje com preconceito. Bem formada, pôde ingressar na Universidade de São Paulo (USP). Prestou concorrido concurso para o magistério na rede pública e tornou-se professora do ensino médio em 1961.
Professores eram relativamente bem remunerados, mas a cobrança era grande. Exigia-se dedicação e desempenho em sala. Atrasos, aulas e provas mal elaboradas ou turmas indisciplinadas, por exemplo, eram repreendidos e dificultavam promoções na carreira. Havia concorrência entre diretores de escolas por performance.
Ilustra o grau de engajamento dos docentes o grupo de professoras, do qual Dona Arminda participava, que voluntariamente se reuniu para estudar genética - matéria recém introduzida no ensino universitário com a descoberta e pesquisas do DNA -, e inseriu o tema no currículo do ensino médio nas escolas de Campinas.
O governo militar contribuiu para a extensão da escolaridade obrigatória de 4 para 8 anos e isso implicava a ampliação da rede, mas junto veio a piora paulatina na qualidade de ensino. Minha mãe lamentava as menores exigências a cada concurso público e sofreu o achatamento salarial ao longo dos anos, agravado pela crise econômica e facilitado pela inflação galopante.
Martelava a frase do governador Paulo Maluf, em 1981, “professora não é mal paga, é mal casada". As prioridades dos militares eram outras, não só o ensino universitário, que se revoltava, mas certamente o impulso artificial à economia. Duplo erro e grande oportunidade perdida.
Na transição democrática, ela se preocupava com a politização nas escolas que comprometia o ensino. As sequelas do regime militar se estendiam à rede pública. Os ressentimentos por conta de perseguições políticas e a desvalorização da carreira alimentaram a sindicalização, enquanto desapareciam as cobranças por desempenho e a meritocracia nas promoções e nas indicações de postos mais elevados na hierarquia.
Salários têm sido recuperados nos últimos anos, mas seguem os problemas de qualidade de ensino, exposto na fraca performance dos alunos.
O desastre da educação está escancarado nos muitos Jacarezinhos espalhados pelo país e a pandemia agrava o quadro seriamente. É necessário corrigir o atraso no ensino e as sequelas da interrupção das aulas, e viabilizar o uso de novas tecnologias.
A adesão das empresas a princípios ESG – o S é de social - precisa se traduzir em oportunidades para a educação básica e para o treinamento e inserção produtiva dos jovens, com envolvimento da comunidade. Enquanto isso, nem uma palavra do governo federal.
ZEINA LATIF / O GLOBO
Senado aprova recriação do Pronampe e matéria vai à sanção presidencial
11 de maio de 2021 | 18h54
BRASÍLIA – O Senado aprovou uma nova rodada do programa de crédito a micro e pequenas empresas, o Pronampe. O texto segue agora para sanção do presidente Jair Bolsonaro. Apesar do sinal verde do Congresso, a divergência em torno do valor a ser aportado para dar garantia às novas operações ainda é um impasse central para o relançamento da medida.
A senadora Kátia Abreu (PP-TO), relatora do projeto, fez um apelo durante a sessão do Senado para que o governo destine R$ 10 bilhões à nova rodada do Pronampe, embora a equipe econômica queira destinar metade disso, R$ 5 bilhões.
O projeto, de autoria do senador Jorginho Mello (PL-SC), torna o programa uma política oficial permanente de crédito do governo, para além da pandemia da covid-19. Pelo desenho que vigorou até o fim do ano passado, o custo do financiamento para o tomador era de 1,25% mais a taxa básica de juros, a Selic. Agora, o texto prevê cobrança de Selic mais 6%.
O aumento dos juros foi colocado para atrair bancos à nova rodada, uma vez que o porcentual da carteira que será garantido pelo fundo público em caso de inadimplência será menor. Como isso eleva o risco para a instituição financeira, a remuneração precisa ser maior.
O juro maior já foi aprovado pelos parlamentares, mas há insistência no volume maior de recursos. Cabe ao governo abrir o crédito extraordinário que liberará o dinheiro. O Ministério da Economia autorizou a liberação de R$ 5 bilhões, mas lideranças do Congresso e empresas querem o dobro.
“Eu pretendo e peço ajuda ao líder do governo no Senado, ao presidente Rodrigo Pacheco (DEM-MG)”, disse a senadora Kátia Abreu durante a sessão. “Esses R$ 5 bilhões não dão nem para começo de conversa”, afirmou.
Segundo a relatora, caso seja mantida a média de crédito de R$ 72 mil contratado pelas empresas, como em 2020, apenas 69 mil companhias terão acesso a novos financiamentos este ano. Ela observou ainda que R$ 1 bilhão do total previsto deve, pela lei, ser destinado a empresas de setor de eventos e turismo. Esse ponto foi negociado com aval do presidente Jair Bolsonaro.
Para defender a ampliação dos recursos, a relator mencionou que o número total de empresas é bem maior. “Temos 247.230 empresas que são de eventos. Se somar de economia criativa, 1,5 milhão. Há 300 mil bares e restaurantes”, citou. “Quero pedir atenção de todos ao volume de recursos que o governo deverá disponibilizar nessa nova etapa.”
Kátia Abreu fez questão de destacar que a ampliação dos recursos pela equipe econômica não representaria nenhum risco de crime de responsabilidade de Bolsonaro ou do ministro da Economia, Paulo Guedes. Ela lembrou que o crédito extraordinário não fere o teto de gastos, regra que limita o avanço das despesas à inflação.
Uma mudança na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) também retirou o gasto com o Pronampe da contabilidade da meta fiscal, que permite déficit de até R$ 247,1 bilhões. Na prática, o governo pode fazer o rombo maior sem ser punido, caso o gasto extra seja voltado às medidas excepcionalizadas. Além do Pronampe, estão fora da meta e do teto o auxílio emergencial a vulneráveis e os gastos com o benefício emergencial (BEm), pago a trabalhadores que fazem acordos para reduzir jornada e salário ou suspender contrato.
Chove em 51 municípios e Ceará continua com previsão favorável para os próximos três dias

Para os próximos três dias, o Ceará segue com quadro favorável a ocorrência de chuvas em todas as regiões. A previsão é da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), que registrou entre as 7 horas deste domingo (9) e 7 horas desta segunda-feira (10), chuva em 51 municípios.
As dez maiores chuvas das últimas 24 horas foram observadas em Cruz (47mm), Bela Cruz (36mm), Granja (33.8mm), Ocara (30mm), Acaraú (28.1mm), Moraújo (28mm), Iracema (27mm), Senador Sá (23mm), Morada Nova (20mm) e Horizonte (17mm).
A gerente de meteorologia da Funceme, Meiry Sakamoto, observou que o “Ceará segue com condições favoráveis à ocorrência de chuva nos próximos dias, principalmente no Centro-Norte do Estado e isso ocorre por causa de áreas de instabilidade oriundas do Leste do Nordeste brasileiro, associada à disponibilidade de calor e umidade na atmosfera e feitos locais como relevo que contribuem para a formação de nuvens de chuva”.
Para os próximos três dias, a Funceme prevê tempo com nebulosidade variável em todas as macrorregiões e maior chance de chuva isolada no Vale do Jaguaribe. Já na faixa litorânea, Ibiapaba e no Maciço de Baturité, há também possibilidade de chuva.
O mês de maio começou com o Ceará registrando boas chuvas, que favorecem o desenvolvimento das culturas agrícolas de grãos – arroz, milho e feijão.
A primeira semana de maio registrou volume médio acumulado de chuva de 44,1 milímetros, conforme balanço parcial da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme). O índice representa quase 50% da normal climatológica para o mês, que é de 90,6 mm. Os dados podem sofrer atualização.
Maio é o último mês da quadra chuvosa no Ceará, período iniciado em fevereiro. Neste ano, o trimestre fevereiro-abril fechou com pluviometria abaixo da média. O acumulo médio no referido trimestre foi de 433 milímetros, o que representa 13,2% abaixo da normal climatológica (510,1 mm).
Para o diretor do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Iguatu, Evanilson Saraiva, neste ano, “o plantio de arroz na bacia do açude Orós chega a ser três vezes mais do que nos anos anteriores”. Ele justificou a decisão dos produtores rurais de ampliar a área de cultivo, afirmando que “a maioria confiou que teríamos boas chuvas e até agora está dando certo, pois temos um inverno favorável para o arroz e o feijão, mas já o milho sentiu um pouco o veranico ocorrido em abril último”.
Na região Centro-Sul o Açude Ubaldinho, em Cedro, está transbordando desde a semana passada e o reservatório Trussu – responsável pelo abastecimento das cidades de Iguatu e Acopiara chegou ao volume de 30%, ou seja, 11,5% a mais do que em 1º de janeiro deste ano. DIARIONORDESTE
Primeira semana de maio registra quase a metade de todo volume médio de chuva para o mês, no Ceará

A primeira semana de maio registrou volume médio acumulado de chuva de 44,1 milímetros, conforme balanço parcial da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme). O índice representa quase 50% da normal climatológica para o mês, que é de 90,6 mm. Os dados podem sofrer atualização.
Maio é o último mês da quadra chuvosa no Ceará, período iniciado em fevereiro. Neste ano, o trimestre fevereiro-abril fechou com pluviometria abaixo da média. O acumulo médio no referido trimestre foi de 433 milímetros, o que representa 13,2% abaixo da normal climatológica (510,1 mm).
As precipitações neste início de mês estão dentro da previsão dos especialistas. No final de abril, Meiry Sakamoto, gerente de meteorologia da Funceme, havia projetado que "na primeira semana de maio os volumes podiam alcançar volumes entre 30 a 60 milímetros em boa parte do Estado".
LITORAL SE DESTACA
Entre os dias 1º a 8 de maio, a região do Litoral de Fortaleza foi a que recebeu o maior volume de chuva. Ela, inclusive, é a única cuja pluviometria já ultrapassou a normal climatológica para todo o mês. Ainda segundo dados da Funceme, o acumulado até a agora é de 166,1 milímetros, o que representa 11,9% acima da média (148,4).
Em Fortaleza, a última semana foi marcada por chuvas constantes e, em alguns dias, com intensa pluviometria, causando alagamentos e inundações em alguns bairros da cidade.
Em seguida, as regiões com maiores volumes acumulados são Maciço de Baturité (109 mm), Jaguaribana (89,4 mm) e Litoral Norte (84,8%).
O Cariri é a região com menor volume acumulado, com apenas 19 milímetros. A normal climatológica para a região, em maio, é de 63,6 mm. Ou seja, até agora, choveu pouco menos de 30% da média.
Confira os números:
- Litoral de Fortaleza: 166,1 mm (11,9% acima da média mensal)
- Maciço de Baturité: 109 mm (20,2% abaixo da média mensal)
- Jaguaribana: 89,4 mm (10,9% abaixo da média mensal)
- Litoral Norte: 84,8 (28,9% abaixo da média mensal)
- Ibiapaba: 68,9 mm (27,9% abaixo da média mensal)
- Litoral de Pecém: 64,8 (41,7% abaixo da média mensal)
- Sertão Central e Inhamuns: 69,6 mm (33,2% abaixo da média mensal)
- Cariri: 19 mm (70,2% abaixo da média mensal)
MAIO TEM HISTÓRICO DE CHUVAS REDUZIDAS
Dentre os quatro meses que compõem a quadra chuvosa, maio é o que possui menor média pluviométrica, atrás de fevereiro (118,6 mm), março (203,4 mm) e abril (188 mm). Além disso, nos últimos dez anos, apenas em uma oportunidade o mês encerrou com chuvas acima da média: no ano de 2013.
Em todos os outros anos deste recorte temporal, a normal climatológica para o mês não foi alcançada. Em 2012, 2015 e 2016 choveu menos do que o já registrado neste ano de 2021. Veja o volume, para o mês de maio, da última década:
- 2021: 44,1 mm (*até o dia 8 de maio)
- 2020: 82,7 mm (- 8.7%)
- 2019: 76,6 mm (- 15.4%)
- 2018: 58,6 mm (- 35.3 %)
- 2017: 64,2 mm (- 29.1 %)
- 2016: 43,6 mm (- 51.9 %)
- 2015: 36,7 mm (- 59.5%)
- 2014: 85,1 mm (- 6.1%)
- 2013: 92,2 mm (+ 1.8%)
- 2012: 18,6 mm (- 79.5%)
PREVISÃO PARA OS PRÓXIMOS DIAS
Conforme prognóstico da Funceme, a semana deve iniciar com tendência de chuva no Centro-Norte do Estado. "De um modo geral, as precipitações deverão ser com intensidade de fraca a moderada, de caráter passageira e pontuais", detalhou o órgão.
Já a faixa litorânea a chuva deverá ocorrer no período da madrugada e manhã, enquanto nas demais regiões acontecerão ao longo do dia. Para a terça-feira (11), a previsão é mesma, isto é, nebulosidade variável com chuva isolada na faixa litorânea, no Maciço de Baturité e na Ibiapaba. Na região Jaguaribana, possibilidade de chuva.
No Ceará, há nuvens associadas a chuva no norte do estado em razão da presença de áreas de instabilidade que se formam no oceano Atlântico e se deslocam em direção ao continente.FUNCEME / DIARIONORDESTE
BRASIL RETRÓGRADO - Paradoxos da regressão
O formidável Tim Maia eternizou uma máxima brasileira que demonstra como, entre nós, o paradoxal acaba sendo normalizado, às vezes em decorrência de uma afabilidade presumida. “Prostituta tem orgasmo, traficante cheira e cafetão se apaixona”, repetia às gargalhadas. Eram tempos outros, em que ainda se acreditava que o país era abençoado por Deus. Bonito por natureza continua sendo, mas com um governo que não sossega enquanto não torná-lo feio, degradado, desesperançado.
André Trigueiro, meu colega da Globonews especialista em meio-ambiente, cunhou uma dessas frases que refletem o estado das coisas, com a amargura que a frase de Tim Maia não tinha. “Funai intimida indígenas. Fundação Palmares rechaça movimento negro. Ministério do Meio Ambiente intimida fiscais do Ibama”. É um retrato do país hoje, quando se distorce a função na medida dos interesses regressivos de setores da sociedade que não querem se enquadrar nos códigos modernizantes que regem o mundo ocidental.
No caso do desmatamento, o país, que já teve voz importante na questão, hoje é tido como vilão contra o meio-ambiente, a ponto de as exportações brasileiras estarem em xeque. Delegado da Polícia Federal no Amazonas, Alexandre Saraiva, que apreendeu toneladas de troncos arrancados ilegalmente, acabou sendo afastado da função, e a carga liberada.
Teve que recorrer ao Supremo Tribunal Federal com uma notícia-crime contra o ministro do Meio-Ambiente, Ricardo Salles, e presidente do Ibama Eduardo Bim, e o senador de Roraima Telmário Mota que, juntamente com outros deputados e senadores da região, pressionaram o ministério do Meio-Ambiente a favor dos madeireiros.
Já o presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, um negro racista, desde que assumiu o cargo, vem dando declarações contra os movimentos negros, que seriam “uma escória maldita”, e classificou Zumbi como “um filho da puta que escravizava negros”. Tomou decisões polêmicas, como mandar retirar da lista de “personalidades negras” da Fundação nomes como Marina Silva, Benedita da Silva, Gilberto Gil, Madame Satã, Martinho da Vila, Milton Nascimento, Elza Soares.
Sérgio Camargo foi considerado “inapto” para a função pela ONU, que enviou uma carta ao governo brasileiro questionando ações da Fundação, como a redução das áreas quilombolas. Já a Funai tem na sua origem o Serviço de Proteção ao Índio, criado pelo Marechal Rondon mas, no governo Bolsonaro, começou a ser desmontada.
Um dos primeiros atos do novo governo foi passar a demarcação de terras indígenas e de quilombolas para o ministério da Agricultura, o que não aconteceu porque o Congresso mudou a medida provisória para manter o controle no ministério da Justiça. A ação da Funai, porém, vem sendo muito criticada, inclusive nessa pandemia, por não ter lutado para que os indígenas e quilombolas tivessem prioridade para a vacinação.
Para completar, a própria Funai pediu à Polícia Federal que abrisse um inquérito contra a líder indígena Sônia Guajajara, que foi intimada a prestar depoimento sobre as críticas feitas contra o Governo federal em um documentário da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, que ela coordena.
O documentário “Maracá” retrata, em episódios, a maneira como os índios estão sendo tratados nessa pandemia, e foi considerado pela Funai uma ação de “calúnia e difamação”, e não um protesto daqueles que deveria proteger. O juiz Frederico Botelho, de Brasília, mandou arquivar o inquérito e disse que houve uma tentativa de usar a Lei de Segurança Nacional contra a líder indígena.
Esses paradoxos regressivos têm provocado até mesmo problemas familiares. O pai de Sérgio Camargo, Oswaldo de Camargo, é um tradicional e importante líder negro e, embora não o critique, diz que tem uma “distância de ideias, um valor bastante fundo”. A filha de Regina Duarte, a também atriz Gabriela Duarte, deixa claro que não compartilha as mesmas bandeiras ideológicas da mãe. E o embaixador aposentado Luiz Felipe Seixas Correa considerava que, à política externa que seu genro Ernesto Araújo comandava, faltava clareza.
Essa distorção dos organismos institucionais existentes tem provocado uma regressão cultural marcante nesses dois anos e meio de governo Bolsonaro, fazendo com que o país perca o papel de destaque que já teve nessas e em outras áreas, como a da cultura, cujo secretário, Mario Frias, diz que o governo não tem obrigação de “bancar marmanjo”, referindo-se à Lei Rouanet.
Por quem os sinos dobram
08 de maio de 2021 | 23h55
Em seu fascínio por metáforas, Jorge Luís Borges escreveu: “Se não me engano, os chineses chamam o mundo de as dez mil coisas ou – e isso depende do gosto e da fantasia do tradutor – os dez mil seres”. Segundo uma extensão dessa metáfora, atribuída a Lao-tsé, “a natureza trata a miríade de seres como cães vadios”. Podem ser cruéis com “os seres” não só os movimentos das águas, dos ventos, da terra e do clima, como vem demonstrando ao mundo a covid-19.
Tem sido extraordinária a resposta da ciência aplicada a desenvolver vacinas eficazes, que reduzem mortes e a disseminação do vírus. Ainda assim, as consequências econômicas, sociais e políticas da pandemia estarão conosco por anos à frente, com particular relevância para países em desenvolvimento, como o Brasil, nas áreas de saúde pública e de educação. Desta trata este artigo, dadas suas relevância e urgência para evitar que nosso futuro seja, mais uma vez, adiado.
Em imperdível palestra (TEDx – Todos pela Educação), Priscila Cruz relata a frase, dura e entristecedora, que ouviu quando, como voluntária, ajudava alunos do ensino fundamental com dificuldades na aprendizagem: “Tia, estou indo embora, educação não é para mim”. A frase não surpreenderá quem tenha tomado conhecimento dos resultados da Avaliação Nacional de Alfabetização ou do Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional; ou dos testes do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), ou ainda do desempenho de alunos brasileiros nos testes do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) da OCDE.
Houve avanços, mas o quadro resta dramático. Na faixa etária de 15 a 17 anos, cerca de 38% dos alunos que deveriam estar cursando o ensino médio (EM) não o fazem, porque ou ainda cursam o ensino fundamental (EF), ou abandonaram o EF antes de terminá-lo, ou concluíram o EF mas desistiram de ingressar no EM, ou ainda porque ingressaram no EM mas o abandonaram no 1.º ou no 2.º ano.
Em 2019, 30% dos “jovens” de 25 anos de idade não haviam conseguido completar o EM. A maioria dos 70% que o fizeram se colocam no mercado de trabalho sem adquirir as competências adequadas. Apenas cerca de 20% dos jovens com EM completo conseguem entrar em curso superior. Nas universidades federais, 30% dos que ingressam abandonam os estudos entre o primeiro e o terceiro ano. Nas grandes universidades privadas, o porcentual é de 60%. Grande número das pessoas com educação superior no Brasil trabalha em atividades que só requerem competências de um razoável nível médio. E enquanto entre nós 11% das matrículas de EM são de educação profissional e tecnológica, na OCDE são 42%.
A essas deficiências preexistentes se somam os efeitos da pandemia, que as exacerbou. Serão cicatrizes traumáticas, em particular para o futuro do número expressivo de alunos que já estavam ficando para trás antes da pandemia. Não se trata mais de saber se a desigualdade educacional e de renda se vai ampliar, mas, sim, como mitigar sua extensão.
Na raiz de nossos problemas de pobreza e desigualdade de renda e riqueza está a questão fundamental a ser atacada: a desigualdade de oportunidades, que surge já no nascimento. É função de políticas públicas nas áreas de educação (e de saúde) procurar reduzir esses diferenciais nos anos iniciais de vida das crianças. Como é hoje amplamente reconhecido por especialistas em educação no Brasil e no mundo.
Barack Obama afirmou repetidas vezes que educação de qualidade mundial era pré-requisito para o sucesso de qualquer país. “Countries that out-educate us today will out-compete us tomorrow”, explicava. Joe Biden, em discurso proferido por ocasião de seus primeiros cem dias de governo, adiciona algo relevante para um país como o Brasil. Estudos conduzidos ao longo dos últimos dez anos por grandes universidades do seu país, aponta Biden, mostram que acrescer dois anos de educação de alta qualidade para cada criança de 3 e de 4 anos de idade, não importa de que background, torna-as capazes de competir ao longo dos 12 anos subsequentes e melhora exponencialmente suas perspectivas de graduação posterior.
Pena que educação e saúde não pareçam constituir áreas de interesse construtivo da atual liderança política do País. Talvez o debate público em 2022 possa levar candidatos a procurar, em prazo hábil, agregar equipes competentes nessas áreas. E a promover discussão apta a permitir diagnóstico sobre a situação atual, como a ela chegamos e, principalmente, a descortinar como avançar com a necessária visão de longo prazo sobre nosso futuro.
Não são propriamente temas para sound bites, memes e tuítes. Trata-se de tentar explicar como chegamos à quadra em que nos encontramos – por falta de liderança esclarecida, empatia e capacidade de coordenação; como resultado do negacionismo ante as evidências e recomendações baseadas em ciência. Quadra em que quase meio milhão de brasileiros já se foi e milhões são tratados – não apenas pelo vírus da natureza, mas por ações e omissões de política pública – quase como a miríade de seres das metáforas que abrem este artigo.
Mães: Pensemos nas que perderam os seus, nas perdidas pelos seus e nas que lutam pelo futuro.
ECONOMISTA, FOI MINISTRO DA FAZENDA NO GOVERNO FHC
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