Gincana da vacina - O ESTADO DE SP
24 de junho de 2021 | 03h00
A suspensão da vacinação contra covid-19 em São Paulo na terça-feira, por falta de imunizantes, expôs uma inaceitável confusão a respeito de um dos mais delicados aspectos da pandemia. Seja qual for a razão do contratempo enfrentado pelos paulistas, fica claro que autoridades municipais, estaduais e federais alimentaram as expectativas dos maltratados cidadãos a respeito da tão necessária vacinação sem que suas promessas tivessem total respaldo na realidade. Não é assim que se faz política pública, ainda mais num momento grave como esse, em que é preciso conquistar a confiança da população para convencê-la a aderir à campanha para conter uma pandemia mortal.
Nas últimas semanas, governos de diversos Estados, como São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Maranhão, anunciaram sucessivas antecipações na vacinação. O governo paulista, por exemplo, chegou a informar que esperava vacinar todos os adultos até setembro, e não mais até o fim do ano, como anteriormente previsto.
Tudo isso ajudou a criar um clima de otimismo, depois de mais de um ano de sofrimento e sacrifício, com mais de meio milhão de mortos, um sistema de saúde estressado e uma economia abalada. O problema é que nada autorizava esse otimismo.
O Ministério da Saúde, que compra e distribui as vacinas, vem há tempos alterando, para menos, a quantidade de imunizantes que promete entregar, seja por atraso de laboratórios, seja pela falta de insumos para a produção local. Já deveria estar claro que os números do cronograma divulgado pelo Ministério da Saúde são, no mínimo, duvidosos.
Por isso, é imprudente não somente acreditar nesses números, como anunciar a antecipação da vacinação, como se os imunizantes prometidos pelo Ministério da Saúde estivessem garantidos.
Sabe-se que há uma disputa política feroz entre alguns Estados e o governo federal, provocada pela percepção do presidente Jair Bolsonaro de que os governadores são seus inimigos, e essa disputa tem contaminado dramaticamente o planejamento do combate à pandemia em todas as esferas da administração pública.
O presidente Bolsonaro tudo fez e faz para sabotar os esforços dos Estados e municípios para conter a pandemia, jogando governadores e prefeitos contra a população ao responsabilizá-los por todas as suas agruras. Ademais, Bolsonaro trabalhou com afinco para adiar o quanto pôde a aquisição de vacinas, e só as aceitou após forte pressão do comando do Congresso. Mesmo assim, continua a disseminar dúvidas sobre os imunizantes.
Enquanto isso, os governadores tiveram que lidar não somente com a pandemia, mas com a crescente impaciência de seus governados com as restrições de movimento e com a falta de vacinas. Por isso, quando a vacina surgiu e estava ao alcance, sobretudo graças aos esforços do Instituto Butantan e do governo paulista, tornou-se naturalmente uma arma política, usada por governadores para mostrar serviço, como contraponto à inércia criminosa do governo federal.
Assim, a “gincana da vacina” que se verificou nas últimas semanas em vários Estados, numa disputa para ver quem imunizava mais, pode muito bem fazer parte desse embate político, pois pressiona o Ministério da Saúde a entregar os imunizantes conforme seu cronograma – aquele que muda a cada dia, quase sempre para pior.
Diante disso, parece claro que o calendário de vacinação foi transformado em ativo eleitoral contra Bolsonaro, pois é óbvio que a sensação de alívio com a imunização tem grande potencial de gerar votos. Nesse embalo, São Paulo relaxou parte das medidas de restrição – e depois voltou atrás – e o Rio de Janeiro anunciou que pretende fazer o carnaval no ano que vem, como se o País estivesse se encaminhando alegremente para a normalidade.
Não está. A média móvel de casos subiu 26%, atingindo o maior nível desde março. A média móvel de óbitos continua em torno de 2 mil por dia, um número que deveria envergonhar todos. No Estado de São Paulo, a ocupação de leitos de UTI para covid-19 ainda é de quase 80%.
Diante disso, seria muito bom que o calendário de vacinação pudesse ser antecipado. Mas, até agora, o único calendário antecipado, de fato, foi o eleitoral.
Planalto faz dossiê contra Miranda, que já postou mensagem de ‘tiro, porrada e bomba’ na Câmara
24 de junho de 2021 | 15h05
Caro leitor,
O Palácio do Planalto está fazendo um dossiê sobre o deputado Luis Miranda (DEM-DF) e seu irmão, o servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Fernandes, os dois homens que agora ameaçam “explodir” a República ao denunciar um esquema de corrupção na compra da vacina indiana Covaxin. Antes aliado do governo, o deputado que andava de moto com o presidente fez acusações que levaram o inquilino do Planalto para o centro da investigação da CPI da Covid num momento em que crescem os gritos de “Fora Bolsonaro”.
Além de escarafunchar processos contra o deputado, que já foi acusado de estelionato, a Casa Civil e a Secretaria Geral da Presidência também levantam o seu “histórico” parlamentar, com a ajuda do presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL). Em 6 de outubro do ano passado, por exemplo, Miranda publicou no Instagram uma mensagem que causou confusão e serviu como argumento para adiar, mais uma vez, a instalação da Comissão Mista de Orçamento (CMO).
“Hoje o pau quebra, mas os corruptos não levam! Quando não tem acordo na democracia, o assunto se resolve no voto, não com emendas, cargos e corrupção! Será tiro, porrada e bomba! Estou chegando...”, dizia a postagem postada no stories da rede social.
Naquele dia, Miranda registrou presença na Câmara às 8h29. À época, ele apoiava a candidatura do deputado Elmar Nascimento (DEM-BA) para a presidência da CMO contra o Centrão de Lira, que respaldava Flávia Arruda (PL), hoje ministra da Secretaria de Governo. A queda de braço tinha como pano de fundo a disputa entre Lira e o então presidente da Câmara, Rodrigo Maia – à época no DEM – pelo comando da Casa.
Desafeto de Lira, Miranda disse depois que havia feito apenas uma “brincadeira”, pois “tiro, porrada e bomba” é uma expressão popular contida na música “Beijinho no Ombro”, de Valesca Popuzuda. Na prática, nenhuma bomba estourou nem houve soco, sopapo e bofetão, mas o fato é que a sessão de instalação da CMO teve de ser remarcada.
De lá para cá, as peças do jogo se inverteram. Adversários viraram aliados, como é o caso de Lira e Elmar, e Maia foi expulso do DEM. Com pretensão de ser o relator da reforma tributária, Miranda também se aproximou de Lira, mas agora se tornou o inimigo número 1 de Bolsonaro.
O presidente diz que a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU) vão investigar Miranda e o servidor Luis Ricardo, chefe de importação do Departamento de Logística do Ministério da Saúde e autor de denúncias de irregularidades na compra da Covaxin. Mas não é só: o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, hoje na Secretaria de Assuntos Estratégicos, foi acionado para auxiliar na busca de “podres” do deputado do DEM e do servidor, que é concursado. Após conversar com Pazuello, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Onyx Lorenzoni, afirmou haver indícios de que a dupla adulterou documentos.
No figurino de candidato à reeleição, Bolsonaro tentou mostrar que não está acuado e de novo não usou máscara. “Para a tristeza de alguns poucos, o governo está completando dois anos e meio sem uma acusação sequer de corrupção”, discursou o presidente nesta quinta-feira, 24, ao participar de cerimônia em Jucurutu, no interior do Rio Grande do Norte, como se não houvesse qualquer crise. “Não adianta inventar vacina, porque não recebemos uma dose sequer dessa aí que entrou na ordem do dia da imprensa ontem”, emendou ele, numa referência à Covaxin.
Um outdoor com a inscrição “Cemitérios cheiros. Geladeiras vazias” e o aviso “Pau dos Ferros é Fora Bolsonaro” chegou a ser instalado no trajeto da comitiva do presidente, mas foi retirado por ordem do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).
“O Brasil vai conhecer a verdade. Não teve nenhuma compra da vacina porque meu irmão e eu não deixamos acontecer. Nós não somos os bandidos dessa história”, disse o deputado Miranda, que acompanhará o irmão nesta sexta-feira, 25, em depoimento à CPI da Covid.
Em áudio postado nas redes sociais, Miranda afirmou não ter medo de ameaças nem de chantagens. “Todos os documentos serão entregues à CPI, comprovando que o contrato (de compra da Covaxin) estava em nome de uma empresa e a ‘invoice’ de pagamento (termo usado para se referir à fatura), em nome de outra”, destacou o parlamentar, ao negar todas as acusações dizer ser vítima de “armação”. “Vocês estão se metendo com as pessoas erradas”.
Desde o início do ano, as negociações envolvendo a compra da vacina indiana contra covid-19, produzida pelo laboratório Bharat Biotech, são cercadas de suspeitas. Além do preço alto, como mostrou o Estadão, a Covaxin foi alvo de polêmica até mesmo em seu país de origem.
Os resultados finais dos testes da fase 3 da Covaxin – a última etapa do estudo de eficácia – foram enviados ao órgão controlador daquele país (a Anvisa de lá) somente nesta segunda-feira, 21, quando a vacina já era aplicada em larga escala.
Além disso, a imprensa internacional publicou reportagens relatando que muitos indianos da cidade de Bhopal participaram do teste sem ter conhecimento disso, pois achavam estar tomando a vacina. O laboratório nega. Foi em Bhopal que, em dezembro de 1984, toneladas de um gás venenoso da Union Carbide mataram cerca de 2 mil pessoas e deixaram milhares com lesões permanentes.
E, por falar em meio ambiente, impossível deixar de registrar que o ministro Ricardo Salles – desgastado por suspeitas de envolvimento num esquema ilegal de retirada e venda de madeira – pediu demissão no mesmo dia em que a crise política se agravou no Brasil. Seria apenas coincidência ou uma tentativa do Planalto de desviar os holofotes das denúncias contra Bolsonaro? Enquanto isso, a boiada vai passando...
‘Vai ter que provar o que diz ou estará em maus lençóis', diz Eduardo Bolsonaro sobre servidor que citou presidente no caso Covaxin
Paulo Cappelli / O GLOBO
BRASÍLIA — O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) afirmou nesta quarta-feira que o servidor que citou o presidente Jair Bolsonaro na suspeita de irregularidades na compra da Covaxin, caso investigado pela CPI da Covid, terá que “provar o que diz ou estará em maus lençóis”. Eduardo Bolsonaro disse não se lembrar de foi alertado sobre o assunto pelo deputado Luís Miranda (DEM-DF), colega de parlamento e irmão do servidor da Saúde que fez as revelações.
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— Ele (servidor) vai ter que provar o que diz ou estará em maus lençóis. É uma acusação muito grave — disse Eduardo BolsonIndagado se chegou a ser avisado sobre a suspeita de irregularidade pelo deputado Luís Miranda, Eduardo Bolsonaro respondeu que não se lembra se recebeu algum alerta.
— Tenho um zilhão de grupos de WhatsApp. Se ele mandou alguma coisa aqui, pode dizer depois que me alertou e eu não me lembro.
Em seguida, o deputado pegou o celular para mostrar ao GLOBO o registro de mensagens com Miranda no aplicativo, mas não havia qualquer comunicação. O parlamentar, em seguida, afirmou que costuma apagar as mensagens com frequência.
O caso Covaxin e o fim do fim da mamata
Diga-se que não terão sido poucos os patriotas da cepa robertojefferson que “derrubaram a República”. Faço tal prevenção porque a credibilidade deste deputado Luiz Miranda não resiste a quinze segundos de pesquisa; este sujeito que ora se apresenta como paladino da luta contra a corrupção. Ademais, a título de advertência: trata-se de um bolsonarista. De um enrolado e bolsonarista. De um enrolado bolsonarista, do tipo – é impressionante – que tem acesso fácil, preferencial mesmo, ao gabinete do presidente da República. Um conjunto a nos demandar prudência.
Daí por que me seja impossível não considerar a hipótese de que seu surgimento súbito – cheio de verdades – decorra não somente do óbvio interesse em proteger o irmão, a quem se refere como “garoto”; mas também da intenção de blindar Jair Bolsonaro e Eduardo Pazuello. Desconfio.
Para que fique claro: não tenho dúvida de que o deputado deva ser ouvido na CPI. Ele decerto tem muito a dizer. Já demonstrou que tem; inclusive para nos iluminar sobre o grau de prevaricação em xeque. Vai longe... E alto. Mas me parece deletério que o faça – que fale – em sessão conjunta com o irmão, Luiz Ricardo Miranda, o servidor do Ministério da Saúde que teria sofrido carga de superiores para facilitar a vida da Covaxin; ou melhor: da intermediária Precisa, a representante do laboratório Bharat Biotech no Brasil.
Mais: o deputado deveria ser ouvido necessariamente depois de Luiz Ricardo. São dois depoimentos relevantes; mas que tratam de matérias diferentes – complementares por confronto.
Juntos, planta o ceticismo, Luiz Miranda, o bolsonarista, tende – desconfio – a operar como filtro do irmão, o “garoto”; uma espécie de apara a que Luiz Ricardo talvez se limitasse a responsabilizar escalões menores do ministério pela forma excepcional com que foi abraçada a vacina Covaxin.
Aliás, por que o deputado seria útil – porta-voz? – ao depoimento de alguém que, afinal, sofreu diretamente as supostas pressões? Luiz Miranda não estava lá. Ele ouviu do irmão os relatos sobre o que se teria passado. O peso do que o deputado tem a apresentar está no que fez – com quem falou a respeito – e no que colheu detendo aquelas informações. (Colheu, por exemplo, a manutenção do irmão no cargo.) Uma outra inquirição, de natureza diversa, tão importante quanto a de Luiz Guilherme, a merecer mesmo exclusividade.
Em suma. Luiz Guilherme tem a relatar sobre o submundo do Ministério da Saúde – não obrigatoriamente um universo distante do primeiro escalão da pasta. E Luiz Miranda, sobre como levou as notícias daquele submundo ministerial ao gabinete do presidente da República. Chegaremos lá.
Ao Ministério Público Federal, em 31 de março, Luiz Guilherme citou o tenente-coronel do Exército – ah, Exército! – Alex Lial Marinho como um dos responsáveis pelas gestões excêntricas para que se liberasse açodadamente a importação da Covaxin. Marinho era coordenador-geral de Logística de Insumos Estratégicos para Saúde, integrava o grupo de auxiliares próximos, gente de confiança, de Pazuello – e só seria demitido do ministério sob Marcelo Queiroga.
Antes, houve a demissão do próprio Luiz Guilherme – derrubado, segundo o deputado, por denunciar internamente o esquema de corrupção. Informou-nos Luiz Miranda que, ao saber da exoneração do irmão, procurara Pazuello, contara-lhe sobre os desvios e ameaçara “explodir” o caso na mídia – o que faz agora – caso “o garoto” fosse prejudicado. Teve sucesso. Luiz Guilherme se manteve no posto, como chefe da divisão de importação do Ministério da Saúde. E o deputado segurou a bomba. (Por que a detona agora?)
A bola, então, ficava com Pazuello, o ministro de Estado: não apenas para reverter, como reverteu, uma injustiça; mas para – não prevaricando – avançar na apuração da grave denúncia. Avançou? Ou prevaricou? Ou – há fios narrativos para se proteger assim – teria sido vítima daquela cultura dos pixulecos, de um Ministério da Saúde profundo e obscuro, contra o qual resistia e que afinal o derrubaria? O deputado Luiz Miranda, bolsonarista, parece armar a embocadura para poupar o ex-ministro. Desconfio.
O grau de possível prevaricação, porém, sobe. Porque Luiz Miranda – segundo Luiz Miranda – teria relatado a existência do esquema, pessoalmente, a Bolsonaro; e ainda, por escrito, via mensagem, a um assessor direto do presidente. O deputado dá detalhes. No encontro com Bolsonaro, diante do relato e ante documentos, teria ouvido que o Planalto acionaria a Polícia Federal imediatamente. Era 20 de março. Naquela altura, contudo, o contrato para aquisição da Covaxin já fora assinado, em 25 de fevereiro. Nada impedia, dada a gravidade do acusado, a revogação – registre-se.
Ocorre – atenção a isto – que Miranda também estivera com Bolsonaro bem antes, nos dias 29 e 30 de janeiro; e, segundo o site O Antagonista, teria detalhado ao presidente a situação relativa à contratação da Covaxin, mui provavelmente mais preocupado em proteger o irmão.
Naquela altura, o governo já estava mais do que engajado na aquisição da vacina indiana. E sem se importar com o histórico da Precisa; ou não teria sido uma empresa sócia, a Global, aquela que, em 2017, dera um calote de R$ 20 milhões no Ministério da Saúde do então ministro Ricardo Barros, hoje líder de Bolsonaro na Câmara?
Somente isso já bastaria a que se impusesse – ao governo que acabaria com a mamata – a pergunta: como se pôde fechar, frente ao que valera uma ação de improbidade contra Barros, contrato de intermediação com a Precisa? (Aliás: legislando em causa própria, a Câmara tenta forjar uma nova lei de improbidade que seria um presente para o líder do governo; né?)
Voltemos a janeiro de 2021, quando o Parlamento passou a tratar de uma medida provisória que permitiria que a Anvisa concedesse “autorização para importação e distribuição de quaisquer vacinas” sem registro na agência desde que aprovadas por algumas autoridades sanitárias internacionais específicas e restritas. A MP, para fins de uso emergencial de imunizantes, fora editada pelo Planalto a 5 de janeiro – precisamente. E listava as agências admitidas: dos EUA, da União Europeia, do Reino Unido, do Japão e da China.
Em 7 de janeiro, agentes da Precisa – em viagem à Índia para cuidar da representação da Covaxin – tiveram reunião na Embaixada brasileira em Nova Déli. No dia seguinte, 8 de janeiro, com a Precisa se movendo na Índia, Bolsonaro escreveria ao primeiro-ministro indiano informando que a Covaxin – ainda não contratada, e descoberta para qualquer uso emergencial – integraria o Plano Nacional de Imunização do Brasil.
Sim. O mesmo Bolsonaro para quem a falta de chancela da Anvisa fora grave impeditivo para que se firmasse contratos diretos com Coronavac (U$10,30 a dose) e Pfizer (U$10); este – o mesmo Bolsonaro – que então corria, ele mesmo em campo, para assinar, via intermediário, por uma vacina (U$15) não apenas não avalizada pela agência como ainda em estágio de testes anterior. Estava certo. Aprovação de autoridade sanitária é para aplicar imunizante no braço do povo. Não para se firmar contratos que colocariam o país bem na fila dos recebimentos. Estaria o presidente aprendendo? Não. O governo começava a fazer a coisa certa – tudo indica – por interesses errados.
No Brasil, a MP tramitava. Lembremos: Bolsonaro teria sido informado sobre o caso de corrupção – por Luiz Miranda – ao fim de janeiro; e teria se comprometido a agir. Em 3 de fevereiro, olha ele aí, Ricardo Barros, antigo conhecido da turma da Precisa, propôs emenda à medida provisória; ajuste que incluía a agência sanitária indiana à lista das autoridades cujo aval serviria para a importação e distribuição emergencial de vacinas – o que, claro, contemplava a Covaxin. A emenda seria aprovada com louvor.
Neste mesmo início de fevereiro, em entrevista ao Estadão, Barros declarou: “Estou trabalhando. Eu opero com formação de maioria. O que eu apresentar para enquadrar a Anvisa passa aqui [na Câmara] feito um rojão”. (...) “Eu vou tomar providências, vou agir contra a falta de percepção da Anvisa sobre o momento de emergência que nós vivemos. O problema não está na Saúde, está na Anvisa. Nós vamos enquadrar.”
E, no fim de abril, desde a tribuna, à parte os delírios sobre um governo vacinador, bradou: “Muitos bilhões de reais foram disponibilizados para o combate à Covid, vacinas compradas, contratadas, ainda com poucas vacinas autorizadas pela Anvisa e, portanto, atrasando o nosso cronograma de vacinação. Mas o governo fez e assinou os contratos. Nós temos 500 milhões de doses de vacinas contratadas. E contratará mais, porque, como estamos vendo a programação de entrega de vacinas não pôde ser cumprida porque não houve liberação da Anvisa nem da Covaxin, nem da Sputnik, nem de outras vacinas que estão lá com pedido de uso emergencial.”
Fim.
Fim do fim da mamata. O GLOBO
Universidade de Oxford anuncia novo teste de ivermectina como tratamento para Covid-19
Universidade de Oxford anuncia novo teste de ivermectina como tratamento para Covid-19 / O GLOBO
LONDRES - A Universidade de Oxford informou nesta quarta-feira que incluiu o antiparasitário ivermectina na lista de drogas a serem testadas contra a Covid-19 como parte de um estudo apoiado pelo governo britânico. O medicamento será testado em ambientes não hospitalares.
A ivermectina resultou em uma redução da replicação do vírus em estudos de laboratório, disse Oxford, acrescentando que um pequeno piloto mostrou que a administração precoce do medicamento pode reduzir a carga viral e a duração dos sintomas em alguns pacientes com COVID-19 leve.
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Batizado de Principle, o projeto britânico revelou em janeiro que os antibióticos azitromicina e doxiciclina foram ineficazes contra a Covid-19 em estágios iniciais.
Apesar de a Organização Mundial da Saúde (OMS) e agências reguladoras dos EUA e da Europa recomendaram contra o uso da ivermectina em pacientes de Covid-19, ela está sendo usada para tratar a doença em alguns países, incluindo a Índia, Argentina e o Brasil.
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— Ao incluir a ivermectina em um ensaio clínico de grande escala como o Principle, o que esperamos é gerar evidências robustas para determinar quão eficaz esse tratamento contra a Covid-19 é e se há benefícios ou danos associados ao seu uso — afirmou o vice-chefe do projeto, Chris Butler.
Segundo a universidade, não serão recrutados para o teste voluntários que tenham problemas hepáticos graves, que estejam tomando varfarina (medicamento para afinar o sangue) ou outros fármacos para os quais já se sabe que há interação medicamentosa com a ivermectina.
A ivermectina é o sétimo tratamento a ser investigado no projeto Principle e atualmente está sendo avaliada juntamente com o antiviral favipiravir, informou a universidade.
Empresário que negociou Covaxin por valor 1.000% mais caro tem histórico de investigações
23 de junho de 2021 | 05h00
No centro das apurações sobre o processo de aquisição das vacinas indianas Covaxin pelo governo Jair Bolsonaro, o empresário Francisco Emerson Maximiano atua no setor farmacêutico há mais de uma década. Nome tido como próximo do líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (Progressistas-PR), ele é dono de empresas que tiveram contratos contestados por órgãos de investigação em gestões do MDB e do PT, além de uma série de processos judiciais de cobranças de dívidas.
Maximiano era esperado nesta quarta-feira, 23, na CPI da Covid, mas sua defesa alegou que ele não poderia prestar depoimento porque está em quarentena após voltar de uma viagem à Índia.
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Uma das empresas de Maximiano é a Precisa, que em janeiro deste ano havia se tornado a única representante no País da Bharat Biotech, fabricante indiana da Covaxin. Na ocasião, o empresário brasileiro viu grande oportunidade de negócios e, de posse do contrato de representação, procurou a Associação Brasileira de Clínicas de Vacina (ABCVAC), que organizou uma comitiva ao país asiático.
O trunfo de Maximiano, segundo um integrante da associação, era o fato de a Bharat se apresentar como única empresa no mundo disposta a vender vacinas para o setor privado – embora ela tivesse dito, no comunicado, que a preferência seria a venda para o governo federal.
Os termos da aproximação entre a Precisa e a Bharat ainda não são claros para a CPI. A reunião que selou a parceria teve presença, virtual, do embaixador do Brasil na Índia, André Aranha Corrêa do Lago, segundo informações do fabricante indiano.
A Precisa é uma empresa que Maximiano adquiriu em 2014, vendida pela Orizon – empresa do grupo Bradesco. Desde 2012, ele era sócio de outra companhia do setor, a Global Gestão em Saúde. Atualmente, além das duas empresas, ele é sócio de outras nove companhias, sendo quatro do ramo da saúde.
A Global já teve contratos com o governo federal, conforme o Estadão publicou em fevereiro. Enquanto Ricardo Barros era ministro da Saúde, a empresa vendeu, mas não entregou, remédios de alto custo ao ministério, um prejuízo estimado em R$ 20 milhões aos cofres públicos. O Ministério Público Federal move uma ação contra a empresa e, contando os danos coletivos, cobra R$ 119 milhões da Global na Justiça.
Em março, a revista Veja publicou que a empresa também havia sido multada em R$ 2,3 milhões pela Petrobrás por não cumprir contrato de fornecimento de medicamentos para funcionários da estatal. O contrato havia sido assinado em 2015, durante o governo Dilma Rousseff (PT). O contrato havia sido encerrado no mesmo ano, após constatação de fraudes na execução do acordo.
A própria Precisa também já era investigada pelo Ministério Público Federal antes de obter o contrato com a Bharat. Ela é um dos alvos da operação Falso Negativo, que desde o ano passado apura a venda de testes rápidos contra a covid-19 com valores superfaturados e qualidade inferior ao recomendado na gestão de Ibaneis Rocha (MDB). O contrato foi de R$ 20 milhões.
Débitos
Em São Paulo, Maximiano e suas empresas são alvo de ações de cobrança por atraso no pagamento de impostos e dívidas trabalhistas. Em uma das companhias, a Interfarmácia, ele é cobrado por antigos sócios que alegam que tiveram de assumir dívidas trabalhistas que ele deixou de arcar, segundo processo no Tribunal de Justiça. Ele também chegou a ser acionado por não pagamento do aluguel de uma cobertura, no bairro do Campo Belo, que contratou em parceria de um empresário e da modelo Marthina Brandt, Miss Brasil de 2015.
O empresário, entretanto, tem um padrão low profile. Não há fotos dele nas redes sociais e mesmo agentes do mercado e do setor farmacêutico o desconheciam antes do contrato com a Bharat.
A reportagem esteve nesta terça, 22, no endereço indicado em documentos enviados à CPI como domicílio de Maximiano, mas não o encontrou. O local na verdade é a sede da Precisa Medicamentos, em Barueri, na Grande São Paulo. A empresa informou que ele cumpria quarentena em casa. A Precisa não se pronunciou. A reportagem também tentou contato com Barros, mas ele não atendeu às ligações nem retornou as mensagens. O Estadão não conseguiu localizar Marthina Brandt. / BRUNO RIBEIRO, FERNANDA GUIMARÃES, ISADORA RUPP e TULIO KRUSE




