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Crise hídrica já ameaça negócios no entorno de reservatórios, de turismo a agricultura

Ivan Martínez-Vargas e Manoel Ventura / O GLOBO

 

SÃO PAULO E BRASÍLIA - A crise hídrica que ameaça o abastecimento de energia no Brasil já gera efeitos e prejuízos que extrapolam o setor elétrico no centro-sul do país. A decisão do governo de privilegiar o uso da água para a eletricidade tem despertado preocupação e protestos de outras atividades no entorno dos reservatórios das hidrelétricas, como navegação, turismo, piscicultura e agricultura.

Os impactos mais emblemáticos estão no lago de Furnas, em Minas Gerais, e no de Ilha Solteira, em São Paulo. A mudança na vazão de hidrelétricas na Bacia do Paraná tem impacto até em Itaipu e nas cataratas do Iguaçu.

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Prefeitos da região de Furnas apontam redução de investimentos e empregos em atividades como criação de peixes e plantações, com riscos para a irrigação e hidrovias. O governo diz que pretende compensar financeiramente os setores afetados.

Decisões sobre os níveis dos reservatórios das hidrelétricas têm, em geral, repercussões regionais. Os setores afetados têm feito pressão sobre o Congresso e pedem que a gestão dos recursos hídricos  em conta também seus interesses.

Na tentativa de evitar um apagão, o governo prioriza o acúmulo de água para as usinas, mas diz que não faltará para o consumo humano, apesar de a crise hídrica ser a pior em 91 anos.

Esvaziamento dos reservatórios

Uma das principais medidas para a gestão da crise tem sido a alteração das vazões das hidrelétricas por determinação da Agência Nacional de Águas (ANA). As regras sobre o uso da água determinam que cada reservatório precisa manter uma determinada vazão constante, mesmo que não esteja chovendo.

Quando chove pouco no período úmido, como no último verão, essa exigência gera impactos. O mais evidente é o esvaziamento dos reservatórios ao longo do ano, reduzindo a capacidade das hidrelétricas. Elas respondem por mais de 60% da geração de energia no país. O governo reserva água para as usinas, mas gera impactos em outros setores.

— Todos os conflitos pelo uso da água têm o mesmo raciocínio. Ou o setor elétrico quer poupar água para o futuro no reservatório, e isso implica não passar água a jusante (rio abaixo) e afetar os usos depois da usina, ou quer liberar água para gerar energia de uma cascata de usinas, o que também pode atrapalhar a comunidade do entorno do reservatório — explica Morganna Capodeferro, pesquisadora da FGV.

Perdas no turismo

A disputa pelo uso das águas do lago da hidrelétrica de Furnas, que envolve 34 cidades de Minas Gerais, é o exemplo mais icônico de batalhas que se multiplicam pelo país. O governo vai mexer na vazão para privilegiar o uso da água para energia e controlar a cascata hidráulica rio abaixo, onde estão outras hidrelétricas.

Furnaspark Resort, na cidade de Formiga, MG. O local é um dos negócios afetados pela seca nos lagos das hidrelétricas do país Foto: Daniel Teixeira/Diox / Agência O Globo
Furnaspark Resort, na cidade de Formiga, MG. O local é um dos negócios afetados pela seca nos lagos das hidrelétricas do país Foto: Daniel Teixeira/Diox / Agência O Globo

A maioria das cidades no entorno já sente impactos negativos da redução do nível das águas em atividades como irrigação e piscicultura. Só no turismo, já combalido pela pandemia, as perdas são de R$ 53 milhões este ano, nas contas da Associação dos Municípios do Lago de Furnas (Alago).

Com a crise hídrica, o empresário Paulo Alves viu as margens do lago ficarem mais distantes do resort Furnas Park, que inaugurou diante do espelho d’água em 2010 em Formiga (MG). E os turistas também se afastaram.

— Sem água, a gente perde a beleza da região e a possibilidade de oferecer boa parte dos passeios turísticos. Quando a represa baixa, gera risco à navegação — diz Alves.

Para manter a atratividade do empreendimento, ele precisou construir um pequeno dique para garantir alguma água por ali. Mesmo assim, o movimento refluiu. O hotel de alto padrão, que tem 59 quartos e uma pista de pouso para pequenos aviões, tem dado descontos de até 40% na diária para atrair turistas.

Pressão sobre governo de Minas

Políticos e empresários dessa região de Minas querem aumentar o volume de água represada. Fausto Costa, secretário-geral da Alago, argumenta que a redução do nível do reservatório traz prejuízos econômicos, sociais e ambientais que não estão sendo considerados pelo governo federal.

Setores da população local têm feito pressão sobre o governo de Minas e deputados federais e senadores mineiros.

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), que tem base eleitoral ali, tem defendido que o reservatório opere acima dos 762 metros, ou seja, da metade para cima, como quer a comunidade no entorno.

Hoje, o nível está abaixo de 758 metros e a previsão é que se reduza ainda mais ao longo da época de estiagem, até o fim do ano. Para Thadeu Alencar, diretor da Unelagos, que reúne empresários da região, falta planejamento.

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— A ANA e o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) querem chegar no limite do reservatório, contando que, no futuro, a condição vai melhorar, mas sem saber se isso vai ocorrer. A gestão é imediatista — critica ele, que é presidente de um clube náutico em Formiga, um dos municípios da região mais atingidos pela seca.

Em Alfenas, a cerca de 200 quilômetros de Formiga, o empresário Miguel Barbosa, de 70 anos, conta que seu filho precisou vender uma área em que criava peixes na cidade.

— Essa oscilação grande é pior do que se ficasse o nível baixo sempre porque gera imprevisibilidade e impacto ambiental — queixa-se Barbosa.

Estiagem reduziu a um quinto do normal volume das Cataratas do Iguaçu Foto: Luis Moura/WPP/16-6-2021
Estiagem reduziu a um quinto do normal volume das Cataratas do Iguaçu Foto: Luis Moura/WPP/16-6-2021

Reação em cadeia

Especialistas explicam que reter água no lago de Furnas teria impacto em todas as demais hidrelétricas da bacia do Rio Paraná, que estão abaixo da de Furnas, até Itaipu, no Paraná. Ao todo, dez usinas seriam afetadas.

Jerson Kelman, ex-presidente da ANA e da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) precifica em R$ 8,6 bilhões o valor do volume que deixaria de ser usado para a produção de energia elétrica na região.

As cataratas em Foz do Iguaçu, que já vêm chamando a atenção pela redução do volume, podem ser ainda mais afetadas, impactando o turismo naquela região.

— O volume de água que passa pela usina de Furnas gera energia também em todas as outras na cascata. Se a água não é liberada, perde-se o valor dessa água na cascata inteira. Até Foz do Iguaçu, no final, seria afetada — explica Morganna Capodeferro, da FGV.

O secretário de Turismo de Foz do Iguaçu, Paulo Angeli, afirma que a seca de fato tem reduzido o volume de água na principal atração turística da cidade e que isso pode ser uma preocupação no futuro. Hoje, porém, ele diz que o turismo na cidade segue em retomada pós-pandemia.

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Também têm sua viabilidade ligada ao lago de Furnas a navegabilidade da hidrovia Tietê-Paraná, que escoa principalmente a produção de grãos do agronegócio. A vazão do reservatório de Ilha Solteira, em São Paulo, também pode afetar a hidrovia. Trocar um comboio fluvial por caminhões pode significar um custo de transporte três vezes maior.

Impacto na pesca

O governo pretende reduzir a vazão das usinas de Jupiá e Porto Primavera para controlar melhor as vazões da Bacia do Paraná. A usina de Jupiá, por exemplo, terá sua vazão reduzida para 2.300 metros cúbicos por segundo — abaixo da média histórica.

Outra visão do lago de Furnas esvaziado: 34 cidades mineiras afetadas Foto: Agência O Globo
Outra visão do lago de Furnas esvaziado: 34 cidades mineiras afetadas Foto: Agência O Globo

A medida vai gerar lagoas, aprisionando peixes e gerando prejuízos para pescadores, além de uma eventual paralisação da hidrovia Tietê-Paraná.

Isso porque, quando o nível da água desce, a navegabilidade na região de Nova Avanhandava fica prejudicada pelas pedras no leito do rio. Uma obra para amenizar o problema chegou a ser iniciada em 2017, mas foi paralisada em 2019.

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Em Ilha Solteira, a ANA determinou em 21 de junho a manutenção de uma cota mínima de 325 metros, acatando uma proposta feita pelo governo de São Paulo e pelo Ministério da Infraestrutura. A cota visa a minimizar o impacto sobre o tráfego na hidrovia.

Um dia antes, o nível estava em 325,48 metros, 47,4% do volume útil. Em crises passadas, a comunidade local chegou a pedir na Justiça a paralisação da usina para manter o nível mais alto das águas.

O secretário de Logística e Transportes de São Paulo, João Octaviano Machado Neto, diz que a negociação com a ANA garante a manutenção da hidrovia por enquanto:

— A ANA nos respondeu de forma positiva, mas depende do agravamento da crise.

Os nossos heróis - Por Merval Pereira - O GLOBO

O Brasil sempre foi um país peculiar, de heróis improváveis, mas, da redemocratização para cá, têm se repetido situações estranhas, como a que vivemos hoje, quando heróis transformam-se em bandidos e vice-versa, com a facilidade com que os móbiles mudam de posição de acordo com os ventos.

O presidente Bolsonaro, envolvido em escândalos de corrupção que prometeu combater, desnuda-se ao vivo diante do país na transmissão televisiva da CPI.  O deputado Luis Miranda, chegado dos Estados Unidos onde montou uma série de empreendimentos suspeitos que lesaram diversos investidores, e até hoje responde a processos na Justiça de Brasília, tornou-se da noite para o dia o herói do momento ao denunciar a suspeitíssima compra da vacina indiana Covaxin.

O senador Renan Calheiros, outro que anda às voltas há anos com investigações e denúncias, é o inquisidor-mor, que leva o governo às cordas como se fosse um paladino da Justiça. O ex-deputado Roberto Jefferson, que se tornou herói nacional ao denunciar o esquema do mensalão depois de ter se sentido traído pelo então superministro José Dirceu na divisão do butim dos Correios, hoje é um tresloucado defensor de milícias e, armado, aparece dia sim, outro também, nas redes sociais defendendo a eliminação física dos adversários.

Antes, Pedro Collor já aparecera como herói denunciando seu irmão presidente por falcatruas com PC Farias das quais fora barrado pela ganância da dupla. O governo do PT que, segundo Dirceu dizia “não rouba nem deixa roubar”, viu-se metido em trapaças continuadas, do mensalão ao petrolão, que levaram a uma devastação de sua cúpula, indo a maioria para a cadeia, inclusive o ex-presidente Lula.

As mesmas manobras jurídicas que acusam terem sido responsáveis pela prisão de Lula, cinco anos depois voltaram-se a seu favor porque, por aqui, os ventos mudam com muita rapidez, auxiliados pela falta de memória nacional. Como disse o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello, o ex-juiz Sérgio Moro transformou-se de “herói nacional” em “suspeito”, num julgamento que, referendado pelo plenário do STF por maioria, acabou levando à anulação de todos os processos contra o ex-presidente Lula. Dando margem a que Bolsonaro diga que se faz hoje com Moro o que o acusam de ter feito, isto é, permitindo que Lula volte a ter condições de se candidatar à presidência da República, tentam barrar sua reeleição.

A mesma ilação os petistas fizeram, alegando que Moro só condenou Lula ( ele e mais 9 juízes do TRF-4 e do STJ) para tirá-lo da eleição presidencial de 2018, permitindo que Bolsonaro fosse eleito. Dizia Ivan Lessa que de quinze em quinze anos o brasileiro esquece o que aconteceu nos quinze anos anteriores. Nesse caso, bastaram cinco anos para que tudo virasse de cabeça para baixo, transformando bandido em herói, dependendo da opinião de cada um, para não fugir à polarização.

Não basta, porém, vencer a discussão jurídica, é preciso aniquilar o inimigo. Para tal, juristas se uniram em manifesto para impedir que o ex-juiz Moro participasse de uma mesa-redonda acadêmica no 3º Encontro Virtual do Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Direito. No manifesto, os juristas acabam revelando o cerne da questão: “... Sua atuação alterou, inclusive, o processo eleitoral, ao condenar sem provas o candidato à presidência da Republica que estava liderando francamente as pesquisas eleitorais, permitindo a vitória daquele que o alçaria ao status de ministro de Estado poucos meses depois”.

O mesmo argumento que Bolsonaro usa hoje, dizendo que só liberaram Lula para “ganhar na fraude”. Dois juristas resolveram retirar seus nomes de uma homenagem ao ministro Marco Aurélio pelos seus 31 anos de STF, que se encerram em julho, por ele ter classificado Moro de “herói nacional”, embora não tenha sido esta a primeira vez que o fez, e fosse conhecida sua posição favorável à Lava-Jato.

Nesses momentos tresloucados que vivemos, ser a favor de um ponto de vista torna imediatamente o indivíduo em um canalha personagem de Nelson Rodrigues, é ilegal a maioria que condena Lula, assim como ilegal é também a maioria que o livra da cadeia. Nessa batida, vamos para a eleição presidencial sem saída de escape.

Alívio cambial ´FOLHA DE SP

O preço do dólar passa por uma espécie de normalização. Na média da semana que passou, desceu a R$ 4,97. É valor próximo ao verificado em março de 2020, quando a epidemia chegava ao país e começava o processo de desvalorização acelerada da moeda brasileira.

Caso essa descompressão seja duradoura, é possível que produza efeitos benéficos na inflação, depois de o câmbio depreciado ter provocado grandes aumentos nos preços do atacado. Caso o real se estabilize ou se valorize, o impacto deve ser mais relevante em 2022.

A forte depreciação havia sido atribuída ao salto da já exorbitante dívida pública do país. Também se explicava por características do mercado de câmbio nacional, que muitas vezes reage de modo exagerado a tensões externas.

A moeda brasileira mantinha-se desvalorizada mesmo com a melhoria dos termos de troca —o aumento de preços das exportações brasileiras em relação ao das importações, impulsionado pela alta das commodities. Nessas situações, de costume a moeda se aprecia. Não foi o caso até há pouco.

Vários fatores parecem favorecer o movimento recente da taxa de câmbio. Arrefeceram, por ora, as expectativas de subida de juros nos Estados Unidos. A Selic, taxa básica brasileira, passou dos 2% ao ano de março para os atuais 4,25%, devendo chegar a pelo menos 6,5% em dezembro, segundo se projeta.

O saldo das contas externas melhorou. O déficit em conta corrente caiu de 3,85% do Produto Interno Bruto em maio de 2020 para 0,55% em maio passado, considerando períodos de 12 meses. Os preços das commodities permanecem altos, e voltou a haver entrada de capital externo.

Os piores prognósticos para o aumento da dívida pública não se confirmaram; ameaças mais graves ao teto de gastos parecem ora contidas. As estimativas de crescimento do PIB neste ano melhoram de modo significativo.

Ainda que o destino da epidemia seja incerto, os mercados creem que o avanço da vacinação vá atenuar os danos causados pelo vírus.

Um câmbio estável em valor adequado depende de inflação e dívida pública sob controle, além de previsibilidade razoável na política e na economia. A recente valorização do real é um alívio instável, mas ainda assim, um alívio.

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O que aprenderemos com essas lições amargas?

Jorge J. Okubaro, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2021 | 23h55

Será que 2020 termina até o ano que vem? Desde março do ano passado, nossa vida tem sido marcada pela pandemia. Tudo mudou. E está demorando para voltar ao normal. Muitos ainda tememos sair de casa. É preciso resistir a convites de autoridades irresponsáveis para desprezar a saúde pessoal e a do próximo. Na ânsia de nos vermos livres do que nos aflige, porém, todo e cada avanço parece pouco. Quando, afinal, nos sentiremos seguros? Sinais de crescimento pedem mais cautela do que celebração. Não houve investimentos suficientes para assegurar avanço duradouro. Cresce-se com o uso do que estava parado e com ajuda externa involuntária. O desemprego bate recordes, a inflação voltou. Mais uma esperança se esvai?

Nesse clima, vamos adiando o que precisa ser feito. A pandemia, que não passa, parece dar-nos a sensação de que o tempo também não passa. Quando nos dermos conta de que o tempo passou, talvez não tenhamos tempo para fazer o que deveríamos ter feito. Neste país de procrastinações, temos adiado demais coisas essenciais para nos recolocar naquilo que há muito tempo é normal no mundo que progride. Temos feito escolhas erradas com pertinácia, mas podemos começar a fazer as coisas certas agora que estamos (novamente?) à beira do precipício.

É para esse momento, de oportunidade e risco, que nos chama a atenção o economista e colaborador do Estado Gustavo Franco em seu mais recente livro, Lições Amargas (Editora História Real). Trata-se, como anuncia seu sugestivo subtítulo, de “uma história provisória da atualidade”.

Tivemos e temos tido, no ano longo da pandemia, lições que, a despeito de amargas, pois “obtidas à custa de muitos sofrimentos e privações”, têm grande valor. Embora reconheça que, no momento, “a única coisa clara é o nevoeiro”, Franco – de grande experiência na gestão pública, pois foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda antes de ocupar a Diretoria de Assuntos Internacionais e, especialmente, a presidência do Banco Central – supõe que a agudização dos problemas fez crescer o sentido de urgência na busca de soluções, assim como pode ter reduzido nossa tolerância à procrastinação. Já não era sem tempo.

Em tempo em que as pessoas escrevem textos “para durar menos que uma tarde”, talvez tenha sido uma temeridade escrever um livro sobre temais atuais. Livros comprometem, pois costumam durar mais. Mas é isso que Gustavo Franco quer: assumir compromisso com ideias mais duradouras, mesmo tratando de temas atuais. Pois por aqui questões antigas, sempre evitadas e nunca resolvidas, continuam atuais, ainda mais na pandemia.

Há décadas sabemos que educação de qualidade e disseminada é essencial para formar gerações que nos levem a posições cada vez mais avançadas entre as principais nações do mundo. O que temos feito, no entanto, é o oposto disso. Os índices internacionais nos mostram como temos perdido tempo, em relação a outros países. Talvez seja até covardia lembrar que há uns 30 anos estávamos em posição comparável à da Coreia do Sul na corrida pelo crescimento econômico, pela modernização do sistema produtivo, pelos ganhos de eficiência. O que aconteceu depois deveria deixar-nos envergonhados. Não fizemos quase nada em décadas para resolver o problema. A pandemia pode ter tornado as coisas piores. O que era difícil de resolver vai exigir ainda mais esforço, competência, visão realista e responsável de questões públicas. Teremos tudo isso num prazo previsível?

O quadro é o mesmo em outros campos. Há quanto tempo ouvimos que as reformas são indispensáveis para recolocar o Brasil no trilho da modernização, do crescimento acelerado, do ganho de competitividade, da redução das desigualdades, da melhoria da qualidade de vida de milhões de pessoas hoje excluídas do progresso? O que se fez é muito pouco perto do que precisa ser feito. Fracassamos, diz Franco. O preço é muito alto. “Não apenas continuamos emergentes, como agora a maldição que assomou a Argentina no século XX – terminar o século mais pobre do que começou – parece muito próxima do Brasil do século XXI.”

Exagero? Melhor levarmos a advertência a sério. Ainda falta muito tempo, mas temos mostrado imensa eficiência em desperdiçá-lo. A insensatez, a cretinice, a estupidez – quem poderia imaginar algo tão estúpido quanto oferecer cloroquina a uma ema? – predominam em ambientes do poder e tornam nosso futuro especialmente incerto.

A lista de problemas antigos, e persistentemente atuais, é conhecida. Um dia teremos de enfrentá-los de verdade. A pandemia será forte o bastante para nos empurrar nessa direção? Se sairmos desse ano que não termina “mais tolerantes e solidários, produtivos e criativos”, como espera Gustavo Franco, e não “mais pobres, ressentidos e machucados”, teremos aprendido pelo menos parte da lição. O ano longo demais não terá sido de todo perdido.


JORNALISTA, É AUTOR, ENTRE OUTROS, DO LIVRO ‘O SÚDITO (BANZAI, MASSATERU!)’, EDITORA TERCEIRO NOME

O último surto - J. R. Guzzo, O Estado de S.Paulo

O ministro Marco Aurélio, que se prepara para se aposentar do STF e entregar ao Brasil, com a sua saída, a melhor realização dos 31 anos que passou no cargo, parece ter guardado para essas últimas horas o pior que poderia fazer para fechar a sua carreira. Pensava-se que a chave de ouro tinha sido a sua ordem para tirar de uma cadeia de segurança máxima, tempos atrás, um dos mais notáveis criminosos que constam nas anotações da polícia, o traficante André do Rap – que sumiu do mapa e está solto até hoje. Que nada. Antes de ir para casa, o quase ex-ministro conseguiu se superar e criar uma alucinação jurídica que não existe em nenhum lugar do mundo – o “Estado de Coisas Inconstitucional”.

Essa aberração impõe uma espécie de toque de recolher, ou estado de sítio, para todo e qualquer setor da administração pública que, segundo algum dos onze ministros, esteja com problemas. Não é preciso que alguém, ali, desrespeite qualquer dos 250 artigos da Constituição; basta que o PSOL, o PT ou coisa parecida – sempre eles – queiram bloquear o que está sendo feito na área e exigir uma intervenção do STF. Uma vez decidido pelos ministros que há um “Estado de Coisas Inconstitucional” em algum pedaço da máquina do Estado, é o tribunal que passa a mandar ali, diretamente ou através de interventores nomeados por ele. Não há nenhuma sílaba na Constituição que permita uma coisa dessas.

Marco Aurelio Mello
O ministro Marco Aurélio Mello, decano do STF, com aposentadoria marcada para julho  Foto: GABRIELA BILÓ / ESTADÃO

Algumas semanas atrás, Marco Aurélio baixou o “Estado de Coisas Inconstitucional” nas penitenciárias brasileiras – todas, sem exceção, das que investem fortunas nos presídios e cumprem todos os requisitos legais em sua manutenção, como as de São Paulo, até os mais sinistros chiqueiros onde se enfiam presos por esse interiorzão afora. 

O ministro disse que é tudo igual; deu três meses para o governo apresentar um “plano” que “resolva completamente”, nos próximos “três anos”, um problema de séculos. O interventor encarregado de mandar na área é o Conselho Nacional de Justiça – uma aglomeração de burocratinhas que jamais colocaram o pé num xadrez em toda a sua vida.

Agora, com a aposentadoria roncando no calendário, Marco Aurélio inventou o “Estado de Coisas Inconstitucional” para a covid e o seu tratamento. Se o plenário do STF aceitar esse novo surto, os “entes federados”, sob “a coordenação do Executivo” ficam obrigados, entre outros disparates, a fazer “análise diária dos impactos na redução dos casos, fornecer “máscaras de pano multicamadas” para 210 milhões de pessoas, adotar “medidas de bloqueio”, orientar a população a ficar em casa e outros despropósitos que circulam entre a ignorância, a burrice e a preguiça mental. Marco Aurélio não ouviu, ao baixar essa sua bula, o Conselho Federal de Medicina ou qualquer outra entidade da área médica ou científica; apenas executou o pedido de “18 entidades de trabalhadores”.

Mergulhado na sopa ideológica que o STF cozinhou em torno da covid, o ministro acabou se metendo numa sinuca de bico. Denuncia a “inação” do governo federal mas nada diz sobre o fiasco das autoridades locais a quem o próprio STF deu autonomia plena para gerir a covid. Não foram elas que criaram o “Estado de Coisas Inconstitucional”? E agora: quem vai mandar na área? Os mesmos que fracassaram? Marco Aurélio não sabe. Também não sabe quem vai fazer, na prática, “a política concertada” que, segundo ele, é indispensável para lidar com a epidemia. O ministro diz apenas que o STF vai atuar “incentivando a formulação e a implementação de políticas públicas”. Fica reservado ao “Legislativo e ao Executivo” o “campo democrático das escolhas”. Deu para entender alguma coisa de útil?

Mentiras criminosas e mentiras amenas

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2021 | 03h00

Bem-aventurados os que nunca tiveram uma crise de enxaqueca, pois não suportaram o sofrimento por horas, ou até dias. Janelas e cortinas são fechadas: a luz e o som são inimigos da cabeça à deriva. Para este pobre paciente, é impossível pensar, amar, comer, conversar, ler. Impossível desfrutar da beleza do mar, de uma borboleta, de uma flor, do riso de uma criança. Quase impossível viver, tal é a intensidade da dor.

Planalto
Grandes e pequenas mentiras de governantes manipulam uma parte da sociedade e falsificam a realidade Foto: Pablo Valadares/Estadão

João Cabral de Melo Neto sofria desta doença crônica. Quando não queria dar entrevista ou participar de um evento, ele inventava uma enxaqueca. Essa mentira era apenas circunstancial: o grande poeta deu à nossa literatura “Num monumento à aspirina” um poema que traduz a verdade profunda daquela dor. 

E não é verdade que, em algum momento, pais e filhos probos lançam mão de mentirinhas? 

Certas mentiras plausíveis não causam danos a ninguém, ao contrário das grandes e pequenas mentiras do poder, que podem provocar tragédias avassaladoras. Em março de 2003, uma coalização comandada pelo governo norte-americano de George W. Bush bombardeou e invadiu o Iraque, causando centenas de milhares de mortes e a destruição desse país. Relatórios do serviço de inteligência britânica negaram que o Iraque do ditador Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa, e provaram que este país nada tinha a ver com os ataques de 11 de setembro de 2001 às torres gêmeas em Nova York. Além disso, em julho de 2016, o Relatório de Investigação sobre o Iraque – Relatório Chilcot – questionou os argumentos do então primeiro-ministro britânico Tony Blair, que se unira a Bush e seus falcões para bombardear o país árabe. Uma das conclusões do inquérito coordenado por sir John Chilcot é que a guerra era desnecessária. Blair foi a público para pedir desculpa. O jornalista e escritor Robert Fisk (1946-2020), o mais premiado correspondente no Oriente Médio, declarou com um humor britânico: “Se o Iraque fosse o maior exportador de batatas, não teria sido destruído”. 

No dia 6 de maio, o jornal Haaretz noticiou que mais de 185 israelenses – cientistas, professores, escritores, militares da reserva – assinaram uma carta alertando o Tribunal Penal Internacional (Haia) a não aceitar as conclusões do governo de Israel sobre supostos crimes de guerra cometidos contra a população civil palestina da Faixa de Gaza, de Jerusalém Oriental e da Cisjordânia. Esta carta – com uma dezena de signatários premiados – pede ao TPI que as organizações de direitos humanos israelenses investiguem a sistemática discriminação contra os palestinos nos territórios ocupados e examinem crimes específicos, tais como: apropriação de terras palestinas para a construção de colônias, e várias formas de injustiça sancionadas por tribunais militares de Israel. Aliás, não apenas militares, como destacou o Haaretz num editorial (8/6/21): “Por décadas, os tribunais têm se baseado num sistema legal discriminatório. Mas é um sistema difícil de defender no âmbito internacional, e não pode ser aceito como algo lógico ou moral por qualquer pessoa sensata”.

Nesse sentido, o Relatório Chilcot e ONGs como o B’Tselem (Centro de informações israelenses para os direitos humanos nos territórios ocupados) questionam as mentiras de governantes e buscam recuperar constantemente uma verdade histórica. 

Segundo o jornal The Washington Post, o ex-presidente Trump tinha divulgado mais de 16 mil notícias falsas ou enganosas até janeiro de 2020. O presidente do Brasil e seu “Gabinete do ódio” parecem inspirar-se nessas mentiras e, com frequência, as copiam e divulgam em suas redes sociais. Certamente vão continuar a divulgar outras fantasias criminosas até o fim desse primeiro e, espero, último mandato presidencial. 

Grandes e pequenas mentiras de governantes manipulam uma parte da sociedade e falsificam a realidade. Nos depoimentos de várias autoridades governamentais convocadas pela CPI da pandemia, as mentiras alternavam com falas contraditórias, como se péssimos atores e atrizes encenassem uma peça farsesca. 

O que de positivo se pode esperar de um governo movido pela mentira? Até mesmo a agenda, dita liberal, mais parece conversa fiada. Não há agenda nem projeto para o País. Há, sim, fake news em profusão e um vazio de propostas para a sociedade brasileira. O que predomina é o caos. Nesse caos, assistimos a uma desmontagem sistemática de conquistas republicanas, muitas ainda incompletas ou em gestação, pois a construção de um estado democrático sólido é árdua e incessante. Não serão quatro anos perdidos, e sim décadas. 

À frente de tudo isso, um presidente desqualificado que, desde o dia da posse, só se preocupa com sua reeleição, usando um discurso absurdamente mentiroso e cínico de que sua própria eleição em 2018 foi fraudada e de que haverá fraude em 2022. Ele diz sem rodeio que será reeleito a qualquer custo, insinuando a adesão de policiais, milicianos e extremistas à tomada do poder. Esse talvez seja o verdadeiro e único projeto do senhor Messias, de sua prole e de bajuladores interesseiros, todos sem um pingo de vergonha, mas que envergonham a muitos brasileiros e ao mundo. 

É ESCRITOR E ARQUITETO, AUTOR DE ‘DOIS IRMÃOS’ E ‘CINZAS DO NORTE’

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