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exageram impacto da doação de máquinas que produzem água

FOLHA DE SP
 

 

CHUVAS NO SERTÃO

São enganosos os posts que circulam no Facebook com uma montagem que une fotos de uma grande área de plantação e do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e a legenda “Israel doa ao Brasil 10 máquinas que produzem água potável – ‘Esse será o nosso sertão’”.

De fato, conforme verificado pelo Projeto Comprova, o governo brasileiro recebeu de uma empresa israelense, a Watergen, em fevereiro de 2019, onze máquinas que produzem água potável a partir da umidade do ar, conforme post de Marcos Pontes, ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

Dez dos aparelhos recebidos, como informa a postagem, são de médio porte, e um tem capacidade menor. Segundo o site do fabricante, a máquina mediana produz até 800 litros de água pura por dia e, com essa quantidade, é impossível irrigar grandes áreas, como a da foto dos posts verificados ou como o sertão, citado no conteúdo.

Como exemplo, de acordo com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), são necessários de 10 a 45 litros de água por dia para irrigar uma planta de bananeira no semiárido com o método da microaspersão, um dos que “exigem menor quantidade de água e energia” – a variação de consumo d’água varia segundo a idade da planta e a época do ano. Ou seja, uma máquina irrigaria de 17 a 80 pés diariamente.

Considerando o uso do gotejamento, “sistema de irrigação que reduz em até 10% o consumo de água em relação à microaspersão, no primeiro ciclo de cultivo”, conforme explica Welson Lima Simões, pesquisador da Embrapa Semiárido na área de Irrigação, usando o exemplo acima, cada máquina da Watergen irrigaria de 19 a 88 pés de banana por dia. Para efeito de comparação, um bananal menos denso tem 1.666 plantas por hectare.

Além disso, os aparelhos da Watergen funcionam “em uma ampla gama de condições climáticas: a partir de 15° C e 20% de umidade” e o sertão tem a taxa de umidade mais baixa do país, muitas vezes ficando abaixo deste limite mínimo estabelecido pelo fabricante.

COMO VERIFICAMOS?

Inicialmente, encontramos o post do ministro Marcos Pontes comentando o recebimento das máquinas da Watergen. A informação também foi encontrada no site da empresa, onde foi possível buscar dados sobre o modelo doado para o governo brasileiro.

Pesquisamos em sites oficiais, como o da Embrapa, o que é o sertão brasileiro e quais os tipos de irrigação. Para isso, também falamos com o pesquisador Gilvan Charles Cerqueira de Araújo, pós-doutorando em Geografia pela USP. Para confirmar os cálculos feitos sobre consumo hídrico, conversamos com Welson Lima Simões, pesquisador da Embrapa na área de Irrigação.

Por e-mail, tentamos contatar o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações e a Watergen, que afirmou que responderia, mas após uma semana não o fez. Via mensagem privada no Facebook, escrevemos para os autores dos posts, que também não responderam.

VERIFICAÇÃO

Máquina que produz água

O aparelho doado pela Watergen para o governo federal que aparece no post de Marcos Pontes é o Gen-M. Segundo o site da fabricante, o equipamento necessita apenas de uma fonte de eletricidade para funcionar e produzir até 800 litros de água segura para beber por dia.

“O Gen-M foi projetado para atender às necessidades de pequenos vilarejos, parques, edifícios residenciais, fazendas, escolas, universidades, equipes de primeiros socorros e outras entidades que buscam fornecer água potável pura e segura para seus usuários”, informa a Watergen. Ainda de acordo com a empresa israelense e como já informado acima, o Gen-M pode produzir água “em uma ampla gama de condições climáticas: a partir de 15°C e 20% de umidade”.

A doação das máquinas foi celebrada pelo ministro Marcos Pontes no Instagram. Segundo ele, o equipamento de menor porte seria utilizado “em atividades educacionais”. Já os de médio porte seriam testados em “escolas, hospitais e algumas comunidades com grandes desafios hídricos”. Não há menção, portanto, de seu uso para agricultura, mas o seu uso em fazendas é considerado pela empresa.

O Comprova questionou o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações se as máquinas estão sendo utilizadas e se elas levaram ao desenvolvimento de alguma política pública ampla, mas não houve resposta até a publicação deste texto.

Sertão

O sertão é um termo que assume diferentes significados na literatura, na geografia e na história. O termo já foi utilizado para se referir a qualquer região não explorada do interior do país.

“Historicamente, ele tem um significado maior, em todo o território do interior do Brasil. Estamos falando do sertão goiano, do de Minas, de Mato Grosso…”, explica Gilvan Charles Cerqueira de Araújo.

O pesquisador ressalta que autores da literatura brasileira usaram esse conceito e moldaram a nossa percepção cultural, como o mineiro Guimarães Rosa (“Grande Sertão: Veredas”) e Euclides da Cunha (“Os sertões”). Já o cantor paulista Sérgio Reis também mostra um olhar romantizado do interior em sua canção “Assim é meu sertão”.

O post fala que as máquinas trariam solução para os problemas decorrentes da seca. Por isso, é possível entender que esteja falando do sertão nordestino. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) não faz esse recorte geográfico; por isso, a reportagem utilizou a definição da Embrapa.

O sertão é uma das quatro sub-regiões do Nordeste e fica entre o agreste e o meio-norte (a outra subdivisão é a zona da mata, beirando o litoral). Segundo a Embrapa, é “a maior sub-região (do Nordeste), corta todo o oeste da Bahia, uma pequena parte de Alagoas e da Paraíba, grande parte de Pernambuco, do Rio Grande do Norte, todo o território do Ceará e o leste do Piauí” e “apresenta solos rasos e pedregosos, com chuvas escassas e mal distribuídas, o que dificulta muito as atividades agrícolas”.

Frequentemente, o sertão é confundido com o Polígono das Secas, pois ambos abrangem os mesmos estados —o Polígono se estende também por Sergipe e Minas Gerais. De qualquer forma, mesmo que os posts verificados aqui se refiram ao Polígono, a afirmação também não faria sentido, como diz o pesquisador Araújo. “A falta de chuva pode ser maior do que as outras áreas do Nordeste, podendo chegar a mais de nove, dez meses sem chuva.”

O sertão é marcado pelo clima semiárido e a vegetação típica é a caatinga.

Na rede

As duas postagens verificadas aqui foram publicadas em páginas de grupos bolsonaristas no Facebook.

Uma delas foi no perfil Bolsomito, que se define da seguinte maneira: “Este grupo é de total apoio ao presidente Bolsonaro até 31 de dezembro de 2026. Os esquerdistas que continue (sic) chorando! Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. O perfil publicou nos últimos dias conteúdos de apoio à médica Nise Yamaguchi, defensora do tratamento precoce apoiado pelo presidente, e a favor do voto impresso.

O outro perfil se chama Tarcísio G Freitas (Min Infraestrutura), mas não é o perfil oficial do ministro. Ele tem como foco “divulgar a agenda de governança do ministro da Infraestrutura, Sr. Tarcísio G de Freitas, junto com nosso presidente Jair Messias Bolsonaro e demais ministérios”. Recentemente, o perfil publicou posts desacreditando os protestos contra Bolsonaro que ocorreram em diversas cidades e reuniram milhares de manifestantes e também de apoio à Nise Yamaguchi.

POR QUE INVESTIGAMOS?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos possivelmente falsos ou enganosos sobre a pandemia ou políticas públicas do governo federal que tenham alcançado alto grau de viralização. É o caso dos posts verificados aqui, que alcançaram, juntos, 20,7 mil interações até 14 de junho.

Os conteúdos, que servem para apoiar Bolsonaro, juntam uma informação verdadeira —a doação das máquinas— com uma enganosa —que elas podem irrigar o sertão e transformá-lo em uma grande área de agricultura. O sertão vive uma situação dramática há décadas e qualquer iniciativa para alterar esse cenário deve ser saudada, mas quando é verdadeira. As máquinas da Watergen podem, sim, ajudar o sertão do Nordeste, mas não tornando-o uma área verde.

Recentemente, o Comprova publicou outra verificação que enganava para elogiar Bolsonaro sobre sua atuação nas obras da transposição do Rio São Francisco. Também checou a informação enganosa de que o presidente teria recusado uma oferta da Pfizer para conseguir mais vacinas.

Enganoso, para o Comprova, é conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações disponíveis no dia 14 de junho de 2021. ​

A investigação desse conteúdo foi feita por Folha e Estadão e publicada na segunda-feira (14) pelo Projeto Comprova, coalizão que reúne 33 veículos na checagem de conteúdos sobre coronavírus e políticas públicas. Foi verificada por UOL, Correio de Carajás, BandNews, Correio e Jornal do Commercio.

Butantan volta a ganhar ritmo e entrega mais 1 milhão de doses da Coronavac ao Ministério da Saúde

Ana Bottallo / FOLHA DE SP
SÃO PAULO

O governo de São Paulo e o Instituto Butantan entregaram um novo lote de um milhão de doses da Coronavac ao Ministério da Saúde na manhã desta segunda-feira (14).

Com isso, o governo paulista já entregou 49 milhões de doses à pasta. As doses serão encaminhadas ao PNI (Programa Nacional de Imunizações), para serem distribuídas proporcionalmente aos estados.

A entrega é a segunda a ser realizada neste mês de junho, após um hiato de quase um mês nos novos lotes devido à escassez do IFA (ingrediente farmacêutico ativo), que paralisou as atividades da fábrica de envase da Coronavac por quinze dias.

A chegada de um carregamento com matéria-prima no dia 25 de maio, com capacidade para fabricação de 5 milhões de doses, fez retomar a produção.

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), acompanhou a entrega ao lado do secretário estadual da saúde, Jean Gorinchteyn, da Regiane de Paula, coordenadora do Programa Estadual de Imunização de São Paulo, e Dimas Covas Tadeu, diretor do Instituto Butantan na manhã desta segunda.

Nesta semana, devem ser realizadas mais duas entregas. Na próxima quarta (16), o Butantan deve realizar a entrega de mais um lote de 1 milhão e, na sexta (18), mais um lote.

No último domingo (13), Doria anunciou a vacinação de toda a população adulta no estado até o dia 15 de setembro, antecipando em um mês o cronograma divulgado na última quarta-feira (9).

A expectativa é que nos próximos meses toda a população entre 18 e 59 anos, estimada em 7,45 milhões de pessoas, receba pelo menos uma dose do imunizante contra Covid-19 até a primeira quinzena de setembro.

O calendário é baseado nas perspectivas de entregas de vacina do Ministério da Saúde. Isso significa que para que o cronograma seja cumprido, o governo federal precisa entregar ao estado as remessas dos imunizantes dentro dos prazos estipulados. Além disso, a chegada de novos imunizantes acordados pela pasta, como a vacina da Janssen, permite avançar a vacinação nas faixas etárias.

Doria afirmou que a antecipação do calendário foi possível devido ao planejamento e organização do Plano Estadual de Imunizações (PEI) do estado.

O calendário é baseado nas perspectivas de entregas de vacina do Ministério da Saúde. Isso significa que para que o cronograma seja cumprido, o governo federal precisa entregar ao estado as remessas dos imunizantes dentro dos prazos estipulados. Além disso, a chegada de novos imunizantes acordados pela pasta, como a vacina da Janssen, permite avançar a vacinação nas faixas etárias.

Doria afirmou que a antecipação do calendário foi possível devido ao planejamento e organização do Plano Estadual de Imunizações (PEI) do estado.

“Nos temos uma estrutura, uma capilaridade com mais de 5.000 postos de vacinação e o trabalho dos secretários de saúde dos municípios que permite essa boa campanha e organização da vacinação contra Covid-19 em SP.”

Mas isso depende da chegada de IFA para produção das vacinas no país. A falta de matéria-prima já levou à paralisação da produção da Coronavac e do imunizante da Oxford/AstraZeneca em maio.

A escassez de vacinas fez com que a vacinação com a Coronavac ficasse travada em diversos estados e, em pelo menos 12 capitais no país ficaram sem o imunizante para segunda dose no final de abril.

O novo lote de Coronavac entregue ao Ministério da Saúde poderá nortear agora a vacinação das gestantes com primeira dose e também suprir a segunda dose para os grupos prioritários que ainda não completaram a vacinação. Reportagem da Folha mostrou que pelo menos 20% dos idosos com mais de 70 anos no país não voltou para a segunda dose.

Segundo Regiane de Paula, o estado de SP deve receber 226 mil doses da pasta, e a prioridade deve ser as gestantes que ainda não receberam o imunizante.

“Estas doses que estão chegando nesse momento parte delas é primeira dose das gestantes e puérperas no estado e parte para a segunda dose. Estamos trabalhando fortemente, em SP não paramos a vacinação, e vamos também incluir primeira dose dos novos grupos incluídos, mas as gestantes são nossa prioridade ”, disse.

Alemanha avança para suspensão do uso obrigatório de máscara

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2021 | 08h00

BERLIM - A Alemanha avança para uma suspensão gradual da obrigação do uso de máscara, após uma redução expressiva das infecções por covid-19 no país, afirmou o ministro da Saúde, Jens Spahn.

"Graças à queda da taxa de incidência, podemos atuar por etapas: um primeiro passo pode ser a suspensão do uso da máscara em áreas abertas", afirmou Spahn em uma entrevista ao grupo de imprensa Funke. 

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Uma caixa de supermercado usa márcara durante atendimento em Edeka. Foto: REUTERS / Wolfgang Rattay / Foto do arquivo GLOBAL BUSINESS WEEK AHEAD

"Nas regiões com taxa de incidência pequena e elevada taxa de vacinação, isto poderia alcançar progressivamente os espaços internos", completou.

Na Alemanha, o uso de máscara é obrigatório nos locais públicos fechados, no transporte público, estabelecimentos comerciais e algumas ruas muito movimentadas.

Mas o país, como a maioria dos vizinhos europeus, registra há várias semanas uma forte redução das infecções de covid-19, o que permite uma flexibilização das restrições.

A campanha de vacinação acelerou no país: 48,1% dos alemães receberam ao menos uma dose e 25,7% da população está completamente imunizada. 

Desde meados de maio as autoridades flexibilizaram várias medidas anticovid. Restaurantes, bares e lojas não essenciais, fechados durante vários meses, retomaram as atividades. 

A ministra da Justiça, Christine Lambrecht, pediu às regiões do país que "examinem" em que medida o uso da máscara continua sendo "apropriado" em seus territórios.

Atualmente, a Alemanha registra 3.723.295 casos confirmados da doença e 89.849 mortes em decorrência do novo coronavírus, segundo a plataforma de monitoramento da Universidade Johns Hopkins. / AFP

Os 15 minutos dos imbecis

Teria Andy Warhol vislumbrado a internet e a cultura dos conspiracionistas? Ou pensava apenas nas subcelebridades instantâneas e deu a deixa para Umberto Eco ampliar o escopo da profecia, de modo a incluir a infâmia?

A palavra “imbecil”, em sua origem, designava “o que não se aguenta de pé”. Por extensão, foi aplicada aos tolos, àqueles cujas ideias não se sustentam. Isso antes de o insustentável ganhar fama e um megafone virtual para apregoar suas elucubrações.

A verdade pode ser enunciada de forma límpida. A mentira, para convencer, precisa ser cheia de cantinhos. Daí as teorias da conspiração serem tão elaboradas: quanto mais estapafúrdias, mais poderosas. Elas consistem num sistema dotado de razoável coerência, em que se estabelece um encadeamento lógico entre (falsas) causas e (discutíveis) consequências — ou vice-versa. E são tão caras aos imbecis por lhes dar a ilusão de deter conhecimento — diferentemente do pensamento mágico, que não exige muita coordenação motora dos neurônios. O até então in bacillum (literalmente, “sem cajado”) se sente apoiado por um arremedo de razão.

Sapiens — ensinou Yuval Harari — é capaz de se unir em tribos graças à ficção partilhada. A conspiração tem o mesmo propósito: congregar os imbecis em torno de coisas “que só eles sacaram”: a Nova Ordem Mundial, a Big Pharma, os reptilianos, a existência de fascistas no armário e de comunistas embaixo da cama.

Algumas conspirações são inócuas (o terraplanismo, os teóricos dos antigos astronautas), mas é por causa dos “antivax” que sarampo e poliomielite — quase erradicados — estão voltando. E que a Covid-19 faz mais vítimas do que seria de esperar numa época em que se sabe tanto de virologia e infectologia. Negar a doença continua sendo o mecanismo de defesa preferido por quem não consegue lidar com a angústia que ela provoca.

Há hoje excesso de informação e escassez de compreensão. Sabemos que o cientista tem crenças e expectativas — por isso, experimentos precisam ser replicáveis e estudos passam por revisão. Há um método, que valida — ou não — o que a ciência produz. O imbecil tem ligação emocional com a conclusão. Tudo é arquitetado para confirmar sua hipótese. O que não convém é adulterado ou descartado.

Quem cria notícia falsa ou teoria conspiratória desconstrói os fatos e os rearranja numa narrativa que lhe seja favorável. Quem compartilha — sem verificar as fontes — tem consciência, intimamente, dessa falsidade. Acredita na mentira que é de seu interesse. Desmascarado, cria nova conspiração contra os mecanismos de checagem de conteúdo.

A internet, segundo Eco, “promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade” — do seu simulacro de verdade, agora com audiência amplificada. Resta saber quanto tempo ainda vão durar — e a que custo — esses 15 minutos de fama. 

Eduardo Affonso - assinatura

Por Eduardo Affonso / O GLOBO

STF – desprestígio e arrogância

Carlos Alberto Di Franco, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2021 | 03h00

O noticiário cotidiano, pautado pela crescente polarização da sociedade brasileira, não tem dado o devido destaque a alguns fatos de extrema gravidade. Ficamos, todos, imersos no show político de Brasília e não vamos fundo no registro e na análise de acontecimentos que, aos poucos, vão minando os pilares da democracia brasileira. Refiro-me, especificamente, aos sucessivos e preocupantes desvios do Supremo Tribunal Federal (STF).

O último deles mostrou que a Corte já não se dá ao trabalho de guardar as aparências. Tudo é feito às claras, com arrogância daqueles que se consideram estar acima de tudo. Uma decisão do STF tomada por meio do plenário virtual, sem transmissão pela TV Justiça, enterrou qualquer possibilidade de investigação contra um de seus ministros, Dias Toffoli. Como se sabe, o ministro Edson Fachin já havia negado liminarmente autorização para a Polícia Federal investigar a denúncia, feita pelo ex-governador Sérgio Cabral, de que Toffoli teria vendido sentenças quando era presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Pois bem, o plenário da Corte decidiu anular a delação toda, que Fachin, ele mesmo, havia homologado no início de 2020. O pedido de anulação veio da Procuradoria-Geral da República (PGR), que não participou do acordo de colaboração premiada.

Toffoli negou as acusações e a argumentação da PGR foi aceita por sete ministros e rejeitada por quatro. Não vou discutir aqui os malabarismos processuais e técnicos que embasaram as alegações da PGR. Destaco, com indignação e em caixa alta, o verdadeiro escândalo que, a meu ver, não recebeu o destaque devido: o de um magistrado que não se declara suspeito e vota em causa própria. Como salientou editorial do jornal Gazeta do Povo, “ao votar em um julgamento cujo resultado lhe interessava diretamente, Toffoli diz ao Brasil que os ministros do Supremo realmente consideram estar acima de tudo”.

Diz o artigo 252 do Código de Processo Penal que “o juiz não poderá exercer jurisdição no processo em que (...) IV – ele próprio ou seu cônjuge ou parente, consanguíneo ou afim em linha reta ou colateral até o terceiro grau, inclusive, for parte ou diretamente interessado no feito” – e era clamoroso o interesse de Dias Toffoli no sepultamento da delação de Cabral.

O ministro Marco Aurélio Mello criticou o colega em entrevista ao portal UOL: “No lugar dele (Toffoli), teria me declarado impedido (...). Julgar em causa própria é a pior coisa para o juiz. Eu esperava que ele saísse do processo”, afirmou o decano da Corte. “Por isso é que o Supremo hoje em dia quase não é levado a sério. Isso é péssimo em termos institucionais. Perde a instituição. Não estou atacando o colega. Estou defendendo a instituição que integro”, comentou Marco Aurélio.

A atitude de Dias Toffoli não inaugura o placar do jogo surreal. Quando há interesses em campo, suspeições viram regras abstratas e fictícias. Dias Toffoli vota pela anulação de uma delação que poderia, e deveria, levá-lo a ser alvo de investigações, assim como também votou no julgamento do mensalão, ainda que seu ex-chefe José Dirceu fosse um dos réus; da mesma forma, Gilmar Mendes já mandou soltar um empresário do setor de transportes carioca, mesmo sendo padrinho de casamento da filha do investigado. Mas a mesma Corte, de costas para os fatos e para a sociedade, declarou uma suspeição, sem base nem nos fatos nem no direito processual, contra o ex-juiz Sergio Moro. E la nave và.

Não me canso de reafirmar meu respeito pelo Supremo Tribunal Federal enquanto instituição essencial da República. No entanto, as instituições não são abstrações. Encarnam nas pessoas que as compõem. A credibilidade da Corte depende, e muito, das atitudes de seus integrantes. É a base da legitimidade. Perdida a credibilidade, queiramos ou não, abre-se perigoso atalho para o questionamento da legitimidade. O STF, infelizmente, não tem contribuído para fortalecer sua credibilidade. É hoje, lamentavelmente, uma das instituições com maior rejeição. E isso é um grave risco para a democracia. Já passou da hora de os ministros saírem da bolha da arrogância e fazerem uma séria e honesta autocrítica. A sociedade está farta de inúmeras decisões do STF. E a instituição, goste ou não, está mergulhada em gravíssima crise de imagem.

O Supremo Tribunal Federal tem ultrapassado todos os limites nas suas enviesadas leituras da Constituição, do Direito e dos fatos. Tem-se a impressão de que os ministros, protegidos pelo ambiente rarefeito da Corte, perderam a conexão com o mundo real. Vivem inebriados com o poder e seduzidos pela vaidade.

A higienização da ficha suja de Lula e a condenação de Moro configuram um sistema de governo imprevisto na Constituição republicana: a ditadura do Poder Judiciário. Como já disse neste espaço opinativo, acho difícil, muito difícil, que a imensa maioria da sociedade brasileira, honrada, trabalhadora e sacrificada, aceite viver sob uma tutela injusta e arbitrária. Cabe à sociedade, com vigor e firmeza, pressionar o Senado para o necessário e urgente realinhamento e a superação dos desvios do Supremo Tribunal.


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As doenças do coração são a principal causa de óbitos no Brasil

MARCIO ATALLA / O GLOBO

 

Eu sinto uma enorme tristeza quando acesso essas informações, essas estatísticas, porque sabemos o quanto disso poderia ser evitado: em torno de 80%. E como? Apenas melhores escolhas, um estilo de vida mais saudável, evitar o fumo, reduzir o álcool, praticar atividades físicas com regularidade, ter uma alimentação um pouco mais saudável...

Pressinto que algumas pessoas já vão escrever lá embaixo: esse cara é louco, existe o fator genético, o histórico familiar... Sim! E da fato tem um peso grande, Por isso mesmo é ainda mais importante que se tenha atenção ao estilo de vida, para aqueles que tem parentes de primeiro grau, com histórico para esse problema, já que dentre todos os fatores de risco, o genético é o único que não podemos controlar.

Ao lermos esses dados, certamente que nos vem a cabeça, imagem de pessoas idosas com problemas no coração, internados, tomando medicamento, com a saúde comprometida. E sim, nessa idade eles estão mais propensos a desenvolverem uma série de complicações na saúde, inclusive no coração. O sistema cardiovascular passa por várias alterações, como arterioesclerose, diminuição da distensibilidade da aorta e das grandes artérias, comprometimento da condução cardíaca. Até mesmo os barorreceptores, que são os detectores das variações bruscas da pressão arterial e que as transmite ao sistema nervoso central, a fim de controlar a circulação sanguínea, fica com sua funcionalidade comprometida.

Se com todos esses “facilitadores” para tornar a saúde do idoso ainda mais comprometida, somarmos anos e anos de negligencia com os próprios cuidados, com os hábitos e o estilo de vida que foi sendo construindo, a situação se agrava, claro, muito mais.

Na verdade, nem seria preciso chegar até as idades mais avançadas para se conhecer alguns estragos: 11% das mortes ligadas a doenças do coração, ocorrem em pessoas dos 30 aos 46 anos. Além de cigarro e álcool, costumam ser fatores agravantes o estresse elevado, excesso de peso, sedentarismo e colesterol alterado.

Em episódios não fatais, já há um aumento de 13% no número de infarto entre adultos de até 30 anos. E nessa idade, os sintomas são ainda mais violentos, acontecem com maior velocidade e podem ser fatais, quando não, podem deixar sequelas para o resto da vida.

O tempo entre o início dos sintomas e a desobstrução das artérias é o que vai determinar a maior ou menor chance de sequelas. A principal delas é a morte das células do miocárdio, o músculo cardíaco, que pode acarretar insuficiência cardíaca, arritmias e anginas.

Estresse, obesidade, diabetes, tabagismo, hipertensão e colesterol fora de controle são, novamente, apontados como os grandes responsáveis pelo aumento dessas estatísticas entre os mais jovens.

O jovem que sofre infarto volta pra casa em cinco dias, após os procedimentos de angioplastia ou colocação de stent, e retoma sua rotina habitual cerca de 1 mês depois. Mas, não se engane que estará livre e definitivamente curado. Terá que ser monitorado pelo resto da vida.

Bem, se havia alguma duvida quanto à mudança de estilo de vida, após um incidente como esse, creio que não haveria mais. Seria a única forma de manter a saúde em dia por mais tempo.

Se você quiser saber sobre saúde do coração, acesse meu canal no Youtube e veja o vídeo Coração e Atividade Física https://www.youtube.com/watch?v=ulyAsPNRHYk

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