Favoritos não têm do que reclamar na Copa do Brasil
Os próximos confrontos da Copa do Brasil foram definidos nesta terça-feira (22), em sorteio, e a expectativa de vermos clássicos estaduais ou grandes duelos entre os favoritos ao título se decepcionou. Ao menos em tese, nesses primeiros instantes. Porque, ao analisarmos os jogos que vão indicar os oitos classificados, com direito a um prêmio de R$ 3,45 milhões, vemos que a história pode nos trazer bons momentos nesses confrontos.

O Santos faz o primeiro jogo em casa contra o Juazeirense, da Bahia, e esse será o primeiro encontro das equipes. Os paulistas seriam favoritos, afinal estão na Série A, enquanto os baianos disputam a D. Mas basta lembrar da terceira fase para ver que o Juazeirense não deve ser considerado batido. O Cruzeiro que o diga.
O clássico nordestino, entre CRB e Fortaleza, nunca foi realizado na Copa do Brasil. Mas nas 28 vezes em que foi disputado, o time cearense, que fará a primeira partida em casa, tem leve vantagem, de 10 vitórias contra sete dos alagoanos. As duas equipes tiveram desafios difíceis na terceira fase, mas sem dúvida que o CRB promoveu uma das maiores zebras da história da Copa do Brasil ao eliminar o Palmeiras, lá no Allianz Parque.
O jogo com mais história é São Paulo x Vasco, que será decidido no Rio de Janeiro. Neste momento, o Tricolor está na Série A; os vascaínos, na B. Mas a fase dos dois times não é boa, o que torna o duelo parelho. Na história, esse confronto já decidiu o Brasileirão de 1989, vencido pelo Vasco por 1 a 0, gol do Sorato. Os times já se enfrentaram em outras competições com mata-mata, e existe empate. Mas o São Paulo leva a melhor na Copa do Brasil: em 1998, o Vasco bateu os paulistas nas quartas de final, mas nesta mesma fase, em 2002 e 2015, deu São Paulo. Não custa lembrar que o São Paulo jamais venceu a Copa do Brasil.
Dois jogos reúnem equipes da Série A. E o que promete ser o mais equilibrado desta fase será decidido em Salvador, quando o Bahia receber o Atlético Mineiro. Até porque esse jogo terá a chance de revanche para o Tricolor baiano. Em 1999, pela segunda fase, o Bahia levou a melhor vencendo o Galo fora de casa. Mas em 2002, a eliminação foi amarga: o Atlético venceu em casa por 2 a 1 e, em Salvador, perdeu por 4 a 3, com o Bahia mandando bola na trave e perdendo gols em sequência. Levou a melhor no critério do gol qualificado, fora de casa, o que não acontece mais na atual edição da Copa. Para mim é o jogo de prognóstico mais difícil.
O outro jogo da Série A terá os Atléticos, um com H, o Paranaense, e outro sem, o Goiano, que vai decidir em casa, no jogo da volta. Mais uma vez pesou o gol qualificado, porque os mandantes venceram seus jogos, nas oitavas da competição de 2007: 3 a 1 em Goiânia e 2 a 0 em Curitiba. O Furacão seguiu em frente e, atualmente, já tem até um título, conquistado em 2019.
O Grêmio vai em busca do sexto título da competição, o que só o Cruzeiro tem. E vai decidir em casa a classificação para as quartas de final contra o Vitória. O retrospecto é bem favorável aos gaúchos, que já bateram os baianos em duas oportunidades, ambas nas quartas: em 1994, com duas vitórias, e em 1997, com vitória e empate.
Para a maioria, além de Santos x Juazeirense, outro duelo com grande favorito reúne Flamengo e ABC, que está na Série D e vai decidir a vaga em casa. Já são seis jogos entre as equipes e o melhor resultado dos potiguares foi pelo Brasileiro de 1972, empate de 0 a 0, em casa. Depois disso, cinco vitórias do Flamengo, três delas pela Copa do Brasil, sempre na segunda fase: em 2001 e em 2006.
O único duelo entre dois times campeões da Copa do Brasil terá Criciúma, campeão em 1991, e Fluminense, campeão em 2007, com o primeiro jogo em Santa Catarina. Essa será a segunda vez em que vão se enfrentar e o Tricolor carioca teve dificuldades para se classificar na terceira fase, em 2017: empate de 1 a 1 em Criciúma e vitória por 3 a 2, em Edson Passos.
A bola só vai rolar nos dias 28 de julho e 04 de agosto. Até lá deveremos ter muitas mudanças, inclusive nas equipes por conta da abertura das janelas de transferência para o exterior. Se os favoritismos serão mantidos, não temos como prever. Mas sem dúvida alguma os jogos da Copa do Brasil serão mais atrativos que os atuais do Brasileirão. E se o meu time não estiver envolvido, que os classificados sejam definidos em disputas de pênaltis.
Sergio du Bocage é apresentador do programa No Mundo da Bola, da TV Brasil
Edição: Verônica Dalcanal
Fatia do 1% mais rico no Brasil é a maior entre dez países
Por Ben Stupples e Marion Halftermeyer, da Bloomberg / EXAME
A proporção de riqueza em mãos do 1% mais rico em países como Estados Unidos, China, Brasil e Índia aumentou na esteira da pandemia, impulsionada pelas medidas para aliviar o impacto do coronavírus, segundo o Credit Suisse.
Os ricos do Brasil aumentaram sua fatia em 2,7% no ano passado e agora respondem por quase 50% da riqueza do país, a maior proporção entre as dez nações citadas no Relatório de Riqueza Global do banco suíço divulgado na terça-feira.
O 1% mais rico em oito das dez nações aumentou sua fatia de riqueza no ano passado, principalmente devido aos cortes das taxas de juro após o surto de covid-19, segundo o Credit Suisse.
O relatório destacou o rápido aumento das fortunas globais: as 500 pessoas mais ricas do mundo elevaram seu patrimônio líquido combinado em 1,8 trilhão de dólares no ano passado, de acordo com o Índice de Bilionários da Bloomberg, mas as desigualdades também aumentaram.
“Os maiores grupos de riqueza são relativamente imunes às reduções no nível geral de atividade econômica e, mais importante, também se beneficiaram do impacto das taxas de juro mais baixas sobre os preços das ações e dos imóveis”, afirmou o relatório.
O coeficiente de Gini — um indicador de desigualdade mais amplo que captura mudanças em ambas as extremidades do espectro — aumentou ao longo de 2020 em todos os dez países selecionados para o estudo, exceto nos Estados Unidos, onde o índice caiu marginalmente, disse o Credit Suisse.
A riqueza global das famílias totalizava 418 trilhões de dólares no final de 2020, aumento de 7,4% em relação aos 12 meses anteriores, segundo o banco.
A rápida criação de riqueza, a desigualdade e os déficits públicos incentivam ações ao redor do mundo para tributar os ricos.
O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, tem planos de aumentar os impostos sobre ganhos de capital e as quantias que herdeiros ricos pagam quando os ativos são transferidos.
Em dezembro, uma comissão independente do Reino Unido recomendou um imposto único sobre a riqueza para arrecadar cerca de 260 bilhões de libras (361 bilhões de dólares), enquanto outras nações, como Argentina e Bolívia, já levantaram fundos no último ano com medidas com alvo nos ricos.
EUA não conseguirão vacinar 70% da população adulta até 4 de julho e atrasam cronograma pela primeira vez
Da AFP / O GLOBO
WASHINGTON — A Casa Branca admitiu nesta terça-feira que não cumprirá a meta do presidente Joe Biden de vacinar 70% da população adulta com pelo menos uma dose até 4 de julho, feriado nacional da Independência dos Estados Unidos. O anúncio marca o primeiro atraso do cronograma de imunização do governo Biden, que adotou a aceleração da campanha de vacinação como prioridade no início de seu mandato.
A meta, entretanto, será alcançada "por adultos de 27 anos ou mais" até 4 de julho, disse Jeff Zients, coordenador do plano de ação da Casa Branca contra a Covid-19.
— Achamos que vai demorar mais algumas semanas para atingir 70% de todos os adultos com pelo menos uma dose — afirmou ele em uma entrevista, pontuando que o número definido pelo presidente no início de maio era “muito ambicioso”.
Apesar de até o momento 65,4% dos maiores de 18 anos terem recebido pelo menos uma dose de alguma das três vacinas autorizadas nos EUA, a taxa de vacinação diminuiu desde abril, quando atingiu o pico de 3,4 milhões de doses diárias. Isso não permitirá que a meta de 70% seja alcançada em menos de duas semanas.
A média mais recente é de cerca de 850 mil doses aplicadas por dia, segundo dados das autoridades de saúde. O número também inclui crianças e adolescentes com 12 anos ou mais vacinados com a Pfizer.
— Onde o país precisa fazer mais é na faixa etária de 18 a 26 anos — disse Zients. — A realidade é que muitos jovens americanos pensam que a Covid-19 não é algo que os afeta e é menos provável que eles se vacinem.
O presidente também havia afirmado que 160 milhões de americanos teriam completado a vacinação até 4 de julho. Até o momento, no entanto, faltam 10 milhões de pessoas para alcançar essa meta, que, segundo Zients, deve ser alcançada até "meados de julho".
"Deixe-me ser claro: nossa campanha de vacinação é uma 'história de sucesso' americana", defendeu Biden no Twitter logo após o anúncio. "Quando chegamos ao poder, 3 mil americanos morriam todos os dias. Hoje, as hospitalizações caíram em mais de 90%."
Disparidades entre estados
Atingir a meta de 70%, no entanto, não será "a linha de chegada, nem a última batalha", disse, nesta terça-feira, Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos e principal conselheiro da força-tarefa da Casa Branca no combate à pandemia.
— [Devemos] Ir muito mais longe depois de 4 de julho, durante o verão e além, com o objetivo final de esmagar completamente a epidemia na América — afirmou Fauci.
Sem consenso: Sobra de doses em países como EUA reaquece debate sobre vacinação obrigatória
Na sexta-feira, Biden informou que os casos e as hospitalizações não estão diminuindo em muitos lugares, com "estados com baixas taxas de vacinação".
Em 16 dos estado e na capital federal, Washington, a meta de 70% dos adultos vacinados com pelo menos uma dose foi atingida. No entanto, em alguns estados, principalmente nas duas costas do país, como Alabama, Louisiana e Wyoming, há uma relutância muito maior.
— Há um perigo real, se persistir a relutância à vacinação, de testemunharmos novos surtos localizados da epidemia — alertou Fauci.
Dólar fecha a R$ 4,96, no menor valor desde junho do ano passado
22 de junho de 2021 | 14h34
Atualizado 22 de junho de 2021 | 18h24
Pela primeira vez desde junho, o dólar fechou em queda de 1,13%, cotado a R$ 4,9661 nesta terça-feira, 22, no menor nível desde 10 de junho de 2020, quando encerrou cotada a R$ 5,93. O dia foi marcado pela fala do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell sobre o rumo da política monetária dos Estados Unidos. Apesar do desempenho da divisa americana e do bom resultado do mercado de Nova York, a Bolsa brasileira (B3) cedeu 0,38%, aos 128.767,45 pontos.
O resultado hoje veio de uma combinação de fatores internos e externos. Por aqui, a sinalização na ata do Copom de que o ritmo de elevação da Selic já poderia ter se intensificado na reunião da semana passada levou instituições - como o Itaú, o Bank of America e o ASA Investments - a aumentarem a aposta de juros mais altos pela frente no Brasil, o que torna o País mais atrativo para a entrada de capital externo. As expectativas vão de reajuste de 1% até de 1,25%.
"O Copom foi conservador na última reunião e precisará corrigir trajetória. Preços de commodities em alta, como o petróleo; extensão de auxílio emergencial, elevação de Bolsa Família, crise hídrica e bandeira vermelha 2 para os preços da energia elétrica, todos são fatores que resultam em mais pressão inflacionária", acrescenta Fabrizio Velloni, economista-chefe da Frente Corretora, que espera aumento de 1 ponto porcentual para a Selic em agosto.
A analista de moedas do alemão Commerzbank, You-Na Park-Heger, ressalta que o real vêm sendo a moeda de emergente com melhor desempenho recente no mercado internacional, conseguindo se beneficiar da abordagem mais dura do Banco Central na elevação de juros - o que já pode ser visto hoje, com o recuo do real.
Após a divulgação do documento, o Bank of America elevou a projeção da Selic de 6,5% para 7,0% para o fim de 2021. O banco americano espera duas elevações da taxa em 1 ponto porcentual, em agosto e setembro.
Lá fora, o dólar intensificou o ritmo de queda ante moedas fortes e alguns emergentes já na parte da tarde, perto do final do pregão. Em discurso no Congresso americano, Powell disse que a recuperação da economia dos Estados Unidos "ainda tem um longo caminho pela frente." Nesse cenário, ele comentou que "a crescente desigualdade de renda é um freio para a economia do país" e descartou uma alta "preventiva" dos juros, mas prometeu agir "se a inflação ficar muito elevada."
A fala vem em sintonia com comentários também moderados feitos por autoridades do Fed, como John Williams (Nova York), Robert Kaplan (Dallas) e, principalmente, James Bullard (St. Louis), que havia acendido luz amarela na sexta-feira ao mencionar a proximidade do início de retirada de estímulos - na segunda-feira, Bullard voltou atrás.
O dólar para julho fechou em queda de 1,13%, a R$ 4,9610. Ainda hoje, o índice DXY, que mede a variação do dólar ante moedas fortes, como euro e libra, recuou 0,16%, aos 91,7 pontos.
Após um reforço importante de posições contra o real no mercado futuro da B3 na sexta-feira, dia de estresse no mercado internacional por causa de declarações do Fed, este movimento se reverteu parcialmente ontem e prosseguiu hoje, de acordo com operadores. Estrangeiros reduziram posições compradas (que ganham com a valorização do dólar) em 17.565 contratos ontem, ou US$ 879 milhões. Já os fundos aumentaram posições vendidas (que apostam na queda do dólar) em US$ 725 milhões.
Bolsa
Apesar da queda do dólar, e do bom desempenho do mercado de Nova York - com o Nasdaq batendo recorde de fechamento -, o Ibovespa não conseguiu se firmar no azul. "A combinação de hoje - dólar abaixo dos famigerados R$ 5 e Bolsa em queda - é incomum, mas acredito que se deva em grande parte, hoje, à ata do Copom, onde se fala de uma inflação mais persistente, o que faz com que a expectativa de juros também suba", diz Flávio de Oliveira, head de renda variável da Zahl Investimentos.
Em outro desdobramento doméstico, que contribuiu para moderar o apetite por ações na B3, diretores e técnicos do Banco Central estão levantando cenários sobre o impacto que os problemas do setor elétrico terão sobre a inflação e a economia neste ano e em 2022. Além disso, não foi bem recebida a proposta do ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre taxar em 20% os lucros e dividendos. Em resposta, o setor bancário, que possui maior peso na composição do índice, cedeu.
"Desde a manhã, o Ibovespa brigou para se sustentar na casa dos 128 mil pontos, com o movimento comprador no setor de siderurgia e mineração, ensaiando recuperação após queda na semana passada, sendo insuficiente para levar o índice para cima", diz Stefany Oliveira, analista da Toro Investimentos. Hoje, os papéis da Vale subiram 1,17%, enquanto CSN e Gerdau PN tiveram ganhos de 1,12% e 0,23%, respectivamente. Petrobrás ON e PN avançaram 0,1% e 0,52% cada. /ALTAMIRO SILVA JÚNIOR, LUÍS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO
Lutar pela História - Jaime Pinsky, O Estado de S.Paulo
A credibilidade da História faz todos tentarem se apropriar dela. Ouvimos o tempo todo frases como “a História ensina que...”, ou sua variante mais humilde “temos de aprender com a História” e ainda “a História é a mestra da vida”. Mas, na verdade, a maioria das pessoas não quer aprender com a História, mas ensiná-la. Cada um do seu jeito. Alguns ainda se dão antes ao trabalho de estudá-la, outros nem isso. Veja-se o que acontece com as pessoas que usam o passado, real ou imaginado, para tirar e ensinar lições. E os governantes, então... Chamam suas deturpações de versões, ou narrativas, para passar mais confiança. Mas, geralmente, são deturpações mesmo.
Todo mundo sabe que governantes autoritários torturam a História para ver se ela confessa e declara o que eles querem ouvir. Governos antidemocráticos odeiam a verdade. A verdade revela coisas que eles não admitem em público, embora não tenham o menor pudor de praticá-las no dia a dia. Ditadores e candidatos a ditadores têm um esquema sólido para alimentar seus seguidores com mentiras. Atentados contra a cidadania, a ciência, a natureza, a Justiça, a educação são perpetrados a toda hora. Governos autoritários se ocupam em escondê-los e para isso contratam especialistas em marketing. Verbas astronômicas, desviadas da saúde, da educação, da habitação, do bem-estar dos cidadãos, são usadas em propaganda. E veículos sérios da imprensa são punidos com verbas insignificantes, ou nenhuma verba, por sua independência. Afinal, os cofres oficiais estão nas mãos do governo e agradecer ou punir a mídia depende apenas de sua boa vontade.
Não, ser infiel à verdade dos fatos não é algo que surgiu agora. Governantes e políticos praticam isso há muitos séculos. Hamurabi, ao codificar as leis de seu império, fez questão de se mostrar justo, generoso, operante, dinâmico, como se estivesse fazendo campanha eleitoral. Ramsés II mandava raspar o nome de dirigentes anteriores de monumentos e colocar o seu, para ficar com o crédito de obras e conquistas militares. Reis tinham seus próprios “historiadores”, cuja função era mostrar a grandeza dos soberanos a que serviam. Os nazistas até criaram um campo de concentração “de artistas”, Terezin, para mostrar como se tratavam bem os prisioneiros, particularmente os judeus. Mas nunca se fez isso de forma mais intensa e desavergonhada do que hoje em dia. Governantes se comunicam diretamente com os cidadãos pelas redes sociais, bancam a difusão de fake news, politizam questões científicas, distorcem acontecimentos para plantar versões que lhes agradem com a finalidade de favorecer sua ideologia ou seu projeto de poder.
Verdade seja dita, o ataque à verdade histórica não provém apenas de governos. Militantes organizados também se acham no direito (e, segundo suas convicções, na obrigação) de nos impingir sua versão sobre os fatos. Muitas vezes há choque frontal entre o que aconteceu e a “interpretação” que eles dão ao acontecido. Nesses casos, pior para os fatos, que saem perdendo, uma vez que o compromisso do militante – tenha ou não boas causas – é apenas com sua militância. Interpretações “convenientes” também são ataques contra a História.
Um amigo historiador conta que até sua tia, uma senhora simpática e de bom gênio, tem o péssimo hábito de receber mensagens geradas sabe-se lá onde e as pôr em circulação, como se fossem verdades. Mensagens que afrontam a ciência, que reproduzem argumentos antidemocráticos, que alertam contra supostos perigos das vacinas “demonstram” a suspeição dos nossos tribunais, explicam os motivos que nos devem levar a acabar com a Câmara dos Deputados e o Senado. Repassar informações que não informam também pode ser um atentado à verdade histórica.
A História pode e precisa ser defendida. Especialmente agora, quando as mentiras, que sempre existiram, ganham dimensão diferente, com fake news vomitadas por atacado, de forma organizada. Alguns governantes, em vários países do planeta, embora eleitos democraticamente, colocam-se em posição de negar a democracia, as eleições, o direito à palavra dos opositores. Há mesmo lugares onde opositores são sumariamente presos, aí, sim, por uma Justiça corrupta. Em outros, os governantes estabelecem um esquema paramilitar destinado a calar os que se opõem às suas decisões e ambições. E uma vez mais se usa a História para esconder, distorcer, mentir.
E há mais: querem mudar a História utilizando a técnica do negacionismo, recusando-se a admitir fatos comprovados. Repressão conduzida pelo governo militar nos anos de chumbo? “Isso nunca existiu.” O massacre dos armênios pelos turcos, no começo do século 20? Pura invenção. O Holocausto, que dizimou o judaísmo europeu, uma cultura que existia havia mais de sete séculos? “Invenção.” Negacionismo é, provavelmente, a forma mais deslavada de negar a História.
Sim, estão em guerra contra a História. Há que cerrar fileiras e combater pela História. Não merecemos viver na mentira.
HISTORIADOR, PROFESSOR TITULAR DA UNICAMP, DOUTOR E LIVRE-DOCENTE DA USP, É AUTOR, COAUTOR E ORGANIZADOR DE 30 LIVROS, INCLUÍDO ‘NOVOS COMBATES PELA HISTÓRIA’
Na fila da vacina, Randolfe bate-boca com bolsonarista e chama presidente de ‘assassino’
21 de junho de 2021 | 17h09
BRASÍLIA – O vice-presidente da CPI da Covid, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), disse que a comissão parlamentar de inquérito “vai prender Jair Bolsonaro”. A afirmação de Randolfe foi feita durante bate-boca com um apoiador do presidente em Macapá, nesta segunda-feira, 21. O senador também chamou Bolsonaro de “assassino”.
Ao tomar a primeira dose da vacina contra a covid-19, disponível para sua faixa etária, Randolfe, de 48 anos, foi abordado por um eleitor que tinha o rosto de Bolsonaro estampado em uma máscara. O homem se aproximou do parlamentar e perguntou: “Por que aquela CPI da palhaçada lá em Brasília?". Foi então que Randolfe respondeu que Bolsonaro será preso.
O vídeo foi compartilhado pela assessoria do senador. Na discussão, o apoiador declarou que Bolsonaro não irá para a cadeia porque “Deus está com ele” e que os senadores deveriam “cuidar do País, que está doente”. O vice-presidente da CPI rebateu e atribuiu ao presidente as mortes decorrentes do novo coronavírus. “Matou meio milhão de brasileiros. É um assassino. Jair Bolsonaro é um assassino”, insistiu Randolfe. Em mais de uma ocasião, Bolsonaro chamou o vice-presidente da CPI de “saltitante”.
A CPI avalia incluir Bolsonaro na lista de investigados. Assessorados por juristas, os senadores também estudam se há possibilidade legal de chamar o presidente para depor ou enviar a ele perguntas por escrito. De qualquer forma, a cúpula do colegiado diz já ter provas suficientes para responsabilizá-lo pelo descontrole da pandemia no Brasil.
Em outra gravação divulgada nas redes sociais, Randolfe comentou o episódio desta segunda-feira, 21, e disse que os senadores não serão “intimidados”. O vice-presidente da CPI classificou a abordagem como “agressão desmedida por um militante das milícias que lamentavelmente andam por todo o canto do País.” Além de Randolfe, outros integrantes da CPI já relataram ameaças de milícias digitais desde o início dos trabalhos da comissão.
“Os responsáveis por nós termos mais de meio milhão de mortos, tenham certeza, iremos fazer de tudo para que paguem pelos seus crimes. Não adianta tentativa de intimidação. Não terão êxito”, insistiu o senador.


