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Professores que não sabem ensinar

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

No Brasil, concursos públicos voltados à contratação de professores praticamente não avaliam a capacidade dos docentes de dar aula, aponta estudo recém-divulgado pelo Todos Pela Educação. De acordo com a ONG, que analisou concursos de 23 Estados e 19 capitais, apenas 3% das questões das provas de seleção avaliam a capacidade dos candidatos de ensinar temas específicos, o chamado Conhecimento Pedagógico de Conteúdo. Essa habilidade fundamental não é cobrada nos concursos de seleção de docentes para os anos finais (6.º ao 9.º) do ensino fundamental.

 

Os dados são preocupantes porque a principal função do professor é, obviamente, saber ensinar – o que presume não apenas o domínio do conteúdo, mas a capacidade de estimular os alunos a refletir sobre o conhecimento transmitido. Quando falham em aferir esta competência, os concursos acabam funcionando mais como um mero vestibular, como bem definiu Ivan Gontijo, gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação.

 

 

Grandes especialistas em suas áreas nem sempre são capazes de explicar as ideias que tão bem conhecem, os conceitos que formularam ou os mistérios que destrincharam, o que só reforça a necessidade de que o professor, ao contrário do vestibulando, não se limite a repetir conceitos consagrados.

 

Ao examinar 76 provas de diferentes bancas de avaliação e cerca de 5 mil questões objetivas, o Todos pela Educação chegou à conclusão de que tanto nas redes estaduais (66%) quanto nas municipais (70,2%) predominam questões que testam os aspectos teóricos das disciplinas. Provas que cobram o aspecto prático do ensino são aplicadas em apenas quatro redes estaduais e cinco municipais.

 

Diante deste cenário, é urgente que o processo de seleção de professores seja aprimorado. O ministro da Educação, Camilo Santana, defendeu há poucos dias, em evento promovido pelo Estadão, a criação de uma prova nacional de ingresso na carreira docente, medida que, se implementada, pode aperfeiçoar o processo de seleção de professores e racionalizar custos.

De acordo com Gontijo, é muito mais fácil produzir uma única prova que sirva como um filtro nacional de seleção do que aprimorar 5 mil concursos diferentes Brasil afora. Um teste nacional também permitiria que Estados e municípios passassem a ministrar provas para avaliar a capacidade de dar aulas daqueles professores que já tivessem passado pelo filtro do conteúdo no teste nacional, o que, além de garantir que os professores contratados saibam ensinar, ainda permitiria a economia de recursos públicos.

 

Nessa fase de avaliação prática, sugere o Todos pela Educação, o professor poderia, por exemplo, simular uma aula, permitindo aos examinadores uma análise da capacidade de planejar atividades pedagógicas e da gestão do ambiente de aprendizagem.

 

A avaliação do “saber dar aula” também é necessária para que cursos de Pedagogia aperfeiçoem suas próprias práticas de ensino. Não faltam indícios de que a formação dos professores brasileiros é deficiente, sendo o mais trágico deles o desempenho dos alunos do País em exames nacionais e internacionais de aprendizagem, como o Ideb e o Pisa, no qual o Brasil tem desempenho vexatório.

 

A falta de prática em cursos de formação de professores, por sinal, já havia sido demonstrada pela pesquisadora Bernardete Gatti há mais de 15 anos. Tempos depois, em 2018, em entrevista à revista da Fapesp, ela chamava a atenção para o fato de que “os professores de futuros professores” ou não tinham formação pedagógica ou a receberam em condições bastante genéricas.

 

Os estudos do Todos Pela Educação e da professora Gatti deixam claro que há um círculo vicioso: professores não recebem formação para dar aulas, realidade mascarada pelo fato de que esta habilidade não é testada nos concursos.

 

Para o bem de alunos, de professores e do sistema de ensino brasileiro, é preciso que os processos de seleção sejam urgentemente aperfeiçoados. O País já dispõe de estudos suficientes para saber qual é o problema e tomar providências.

Gasto público: despesa ou investimento?

Por Fernando Dal-Ri Murcia / O ESTADÃO DE SP

 

No âmbito das recentes discussões envolvendo a revisão dos gastos públicos com o objetivo de equilibrar o resultado fiscal do Brasil, os conceitos de despesa e investimento ainda causam confusão entre políticos e a população como um todo. De maneira geral, os gastos representam um sacrifício financeiro (desembolso de recursos) por parte do governo, os quais podem ser divididos de forma simplificada em duas grandes espécies: despesa e investimento. O fator discriminante é justamente o prazo, o período no qual o gasto irá gerar benefícios econômicos futuros para o Estado ou, mais precisamente, para a população.

 

 

A despesa, que também engloba o conceito de custo – que se refere ao gasto diretamente relacionado ao processo produtivo e/ou ao processo de venda de mercadoria ou prestação de serviços –, é um recurso que é consumido de forma imediata. Exemplos clássicos são as despesas de salário dos funcionários públicos e os benefícios sociais. Note-se que os benefícios gerados são correntes, isto é, os recursos são consumidos de forma imediata. No jargão contábil das empresas privadas, tais gastos são chamados de despesas operacionais ou Opex (operating expenses).

 

Os investimentos, por sua vez, geram benefícios por período maiores – em geral por vários anos. Por esse motivo, são denominados contabilmente de ativos. Ao longo do tempo, com raras exceções, os investimentos também se tornarão despesas através do processo de depreciação, amortização ou exaustão. Essas despesas refletem justamente o consumo dos ativos ao longo do tempo em razão de fatores como desgaste, obsolescência, etc. Exemplos clássicos de investimentos públicos envolvem a construção dos chamados ativos imobilizados como hospitais e escolas. Nas sociedades empresárias, tais gastos são chamados de investimentos de capital ou Capex (capital expenditures).

 

Registre-se que os investimentos também podem sofrer baixas em razão da não recuperabilidade dos montantes investidos. Em outras palavras, um gasto originalmente tratado como investimento também é alvo de perdas contábeis (impairment) quando a expectativa de benefício futuro não se materializa conforme planejado. Isso pode acontecer, por exemplo, quando uma obra não é finalizada e/ou quando o valor gasto é muito superior ao orçado – o que faz com que o ativo fique “inchado” ou “supervalorizado”. Nesse caso, tem-se o registro de uma despesa para reduzir o valor do investimento (ativo) para seu valor de recuperação.

 

No contexto das entidades com finalidade lucrativa, tanto as despesas quanto os investimentos são incorridos com o objetivo de gerar receitas e, por consequência, de ingressos de recursos (caixa) para a sociedade. Já no caso do Estado, a finalidade é justamente atender às necessidades da população.

 

Sob essa ótica, portanto, os investimentos deveriam ser privilegiados em detrimento das despesas correntes, pois eles trazem benefícios para períodos mais longos. Novamente, a título comparativo, uma empresa que investe em uma nova planta industrial, em um novo centro de distribuição, em uma nova tecnologia para aumento de produtividade busca justamente incrementar sua capacidade de geração de receita no médio e longo prazo.

 

Contudo, é preciso ter cautela na comparação entre despesas e investimentos. Primeiro, porque algum nível de gasto com despesa corrente é essencial para a manutenção da atividade econômica, do serviço público. Não adianta um hospital sem médicos ou uma escola sem professores. Do mesmo modo, o mero fato de um gasto ser classificado como investimento não significa necessariamente que ele trará benefícios econômicos futuros; ao contrário, o que existe no momento da realização de dispêndios são expectativas, projeções que poderão ou não se confirmar.

 

Nesse cenário, torna-se extremamente relevante a análise da “qualidade” dos gastos públicos, sejam eles despesas ou investimentos. Gastos que não geram quaisquer benefícios irão se traduzir invariavelmente em perdas – no limite, dinheiro jogado fora. De fato, faz-se necessária uma análise compreensiva de cada espécie de gasto que compõe as contas públicas, em uma espécie de orçamento “base zero”. Assim como o cidadão comum – em especial aquele endividado – revisa detalhadamente seus dispêndios visando a cortar o não essencial, cabe ao Estado uma análise pormenorizada dos benefícios esperados com os gastos públicos.

 

Parece-nos que a discussão da qualidade é tão ou mais importante do que aquela relacionada à quantidade. Assim como as empresas buscam obter os maiores retornos sobre os seus dispêndios, o Estado precisa avaliar a eficiência dos seus gastos, o que implica invariavelmente na discussão da qualidade das nossas políticas públicas. Os recursos são escassos, haja vista que a capacidade de imprimir dinheiro, se endividar e/ou de tributar do Estado é limitada. Nesse contexto, portanto, a decisão mais importante do ponto de vista da gestão da máquina pública acaba sendo justamente a escolha de onde alocar os recursos, de onde gastar.

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É PROFESSOR DA FEA-USP

Opinião por Fernando Dal-Ri Murcia

É professor da FEA-USP

BC faz o que é preciso, mas sozinho não impedirá crise

Banco Central autônomo, mais uma vez, precisa carregar nas costas a política econômica sob Luiz Inácio Inácio Lula da Silva (PT). Com a decisão contundente de promover um choque de juros, o Comitê de Política Monetária enfrenta uma onda de incerteza gerada pela política fiscal insustentável do governo, que lançou a cotação do dólar acima dos R$ 6.

A taxa Selic foi elevada em 1 ponto percentual, de 11,25% para 12,25% ao ano, e o comunicado do Copom indicou que haverá altas dessa magnitude em suas próximas duas reuniões —que ocorrerão em janeiro e março sob o comando de Gabriel Galípolo, indicado ao posto por Lula.

Até poucos dias atrás, a expectativa predominante era de um aumento de 0,75 ponto, que já significaria uma aceleração. Em setembro, a taxa básica subira 0,25, e em novembro, 0,5 ponto. Diante da disparada do dólar após o pífio pacote de contenção de gastos do governo, o BC teve de optar por uma medida mais drástica.

De acordo com o comunicado oficial, todos os nove membros do Copom votaram juntos —a ata da reunião deverá esclarecer na próxima semana se houve alguma divergência durante as discussões. De todo modo, trata-se de um passo importante para reforçar a credibilidade do novo comando da política monetária.

Mais controverso foi o anúncio de que haveria vendas de até US$ 4 bilhões no mercado. Afinal, num regime de câmbio flutuante como o brasileiro, não é papel do BC controlar cotações, e eventuais intervenções devem ser pontuais e destinadas a resolver problemas momentâneos de oferta.

Nas palavras do próprio Galípolo, a instituição "não segura no peito" o dólar —que, neste momento de tensão, varia até ao sabor das notícias sobre a saúde do presidente da República.

Fato é que nada afastará o risco de uma crise econômica enquanto o governo não conseguir restabelecer a confiança em suas contas. Apontar que o déficit orçamentário caiu neste ano é de pouca valia quando a base de comparação é o rombo exorbitante produzido no ano passado.

Há que indicar providências efetivas capazes de sustar, num horizonte visível, a escalada da dívida pública, que desde o ano passado saltou de 71,7% para 78,6% do Produto Interno Bruto.

A política fiscal, ademais, precisa ajudar o BC na dura missão de levar a inflação de 2025, ora projetada em 4,6%, para a meta de 3%. Hoje, a alta contínua dos gastos públicos, com a qual a administração petista impulsiona um crescimento econômico de duração duvidosa, pressiona também o consumo e os preços.

Se toda a tarefa ficar com os juros, a Selic nas alturas arruinará ainda mais as contas do Tesouro Nacional; dúvidas quanto à solvência do Estado manterão o dólar em alta, e com ele mais inflação e juros, até o ponto em que empregos serão destruídos e a pobreza voltará a crescer. Essas são as contas que todos fazem, ou deveriam fazer, no momento.

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Ceará tem mais de 1,8 mil casos de Covid em crianças e 223 mil delas sem nenhuma dose de vacina

Theyse Viana / DIARIONORDESTE

 

O cenário se agrava diante de outro dado: cerca de 223 mil crianças cearenses ainda não tomaram nenhuma dose da vacina contra o coronavírus, e outras 300 mil estão com o esquema vacinal incompleto. O alerta é de Ana Karine Borges, coordenadora de Imunização da Sesa. 

A gestora lembra que os pequenos que ainda não se vacinaram contra a Covid devem iniciar o esquema com o imunizante da Moderna, que tem esquema de duas doses; ou o da Pfizer, com esquema de três doses. No dia 29 de novembro, o Ceará recebeu apenas 8 mil doses dessas vacinas.

Para o alto número de crianças ainda não imunizadas, o quantitativo é insuficiente, e ainda não há previsão de quando chegarão novos lotes. “Mas a perspectiva é que o Ministério da Saúde possa regularizar esses envios de forma rotineira e mensal pra que a gente possa ampliar nos municípios”, reforça Ana Karine.

Na última sexta-feira (6), o Ceará recebeu 15 mil doses de vacina contra a Covid, todas do laboratório Serum, destinadas apenas ao público acima de 12 anos – 3.870 delas ficaram em Fortaleza, e o restante foi distribuído ao Interior.

Para todo o Brasil, foram 1,5 milhão de doses. Segundo o órgão federal, o lote integra um montante de 8 milhões de vacinas já compradas para reabastecer o estoque brasileiro por 6 meses.

Diário do Nordeste questionou o MS se já existem novos lotes de vacina contra a Covid previstos para o Ceará, quantas doses virão, quantas delas contemplam o público infantil e qual a previsão de chegada. Não houve resposta até esta publicação.

A reportagem também buscou a Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza (SMS) para saber se:

  • Houve repasse recente de doses de vacina contra a Covid ao município e, se sim, quando e quantas doses;
  • A SMS tem o dimensionamento de quantas pessoas compõem o público-alvo e precisam tomar uma nova dose na capital;
  • Há previsão de chegada de novos lotes e como está o diálogo com Sesa e MS sobre isso;
  • Há previsão de ampliação dos locais de vacinação na cidade.

A SMS confirmou o recebimento de 3,8 mil doses de vacina, e informou que ampliou o número de locais de vacinação na cidade. Em publicação oficial, a coordenadora de imunização de Fortaleza, Vanessa Soldatelli, destacou que "estamos vivenciando um aumento de casos da doença em diversos estados do País. Por isso, é preciso continuar tomando os cuidados necessários para evitar um cenário negativo, e a imunização é o melhor caminho para isso".

A vacinação ocorre de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 18h30, e aos finais de semana, em duas unidades de referência, nos postos Pio XII (no São João do Tauape) e Mattos Dourado (no Edson Queiroz), das 8h às 16h30.

A vacina contra a Covid foi incluída pelo Ministério da Saúde no calendário de rotina de crianças de 6 meses a 5 anos de idade. “Além deles, continuamos a vacinação dos grupos prioritários, que são os de maior risco pra adoecimento, complicações e hospitalizações, e precisam fazer doses de reforço anual ou semestral”, destaca a gestora da Sesa.

“É importante destacar que a vacinação confere proteção depois do esquema básico completo. Somente com uma dose não podemos garantir, principalmente em crianças. Também tem o tempo em que a vacina, após ser administrada, vai ter o efeito. Por isso, é muito importante adotar medidas de proteção individual e coletiva diante do aumento de casos”, alerta Ana Karine.

Casos de Covid no Ceará

O Ceará já registra, em 2024, mais de 17,3 mil casos confirmados de Covid. Outros 3,6 mil seguem em investigação pela Sesa. Nos últimos sete dias, a cada dez testes realizados, quase quatro deram positivo (a taxa de positividade é de 39%).

O aumento súbito de casos da doença ocorreu na última semana de novembro: entre os dias 24 e 30 do mês foram confirmadas 3.491 infecções pela doença, quase cinco vezes mais do que na semana anterior.

Já na primeira semana de dezembro, os testes positivos escalaram: entre os dias 1º e 7, já foram 4.452 casos confirmados. Todos os números são atualizados à medida que os resultados dos exames são consolidados.

O que fazer se tiver sintomas

Os atuais sintomas mais comuns de Covid são os de um quadro gripal, como febre, dor de garganta, coriza e tosse. De acordo com a Sesa, o paciente que apresentar esses quadros deve procurar um posto de saúde.

Caso as manifestações sejam mais graves, como falta de ar, dor no peito ou alterações decorrentes de doenças crônicas (diabetes ou pressão alta, por exemplo), a recomendação é buscar uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), que atende urgências e emergências mais complexas.

Ao apresentar sinais de Covid, o paciente deve esperar até o terceiro dia de sintomas para realizar o teste. Nas UPAs, segundo publicação da Sesa, os testes são realizados em pacientes hospitalizados.

Onde tomar vacina da Covid-19

Crianças com menos de 5 anos em Fortaleza podem se vacinar nos seguintes locais:

  • Posto de saúde Mattos Dourado: R. Des. Floriano Benevides Magalhães, 391 - Edson Queiroz
  • Posto de Saúde Rita Lemos: R. Geci Freitas Monteiro - Canindezinho

Para os demais grupos prioritários, a SMS disponibiliza 19 locais:

Regional de Saúde I

Posto de Saúde Paulo de Melo: Rua Bernardo Porto, 497 - Monte Castelo
Posto de Saúde Francisco Domingos da Silva: Avenida Castelo Branco, 4707 - Barra do Ceará
Posto de Saúde Lineu Jucá: Rua Vila Velha II, 101 - Barra do Ceará

Regional de Saúde II

Posto de Saúde Pio XII: Rua Belizário Távora, s/n - Pio XII
Posto de Saúde Aida Santos e Silva: Rua Trajano de Medeiros, 813 - Vicente Pinzón
Posto de Saúde Liduína Maria Araújo: Rua Ramos Botelho, 601 - Papicu

Regional de Saúde III

Posto de Saúde Gilmário Mourão Teixeira (CDFAM): Rua Pernambuco, 1674 - Panamericano
Posto de Saúde Francisco Pereira de Almeida: Rua Paraguai, 351 - Bela Vista
Posto de Saúde Meton de Alencar: Rua Perdigão Sampaio, 820 - Antônio Bezerra

Regional de Saúde IV

Posto de Saúde Dom José Bezerra Coutinho: Rua Primeiro de janeiro, s/n - Parangaba
Posto de Saúde Roberto Bruno: Av. Borges de Melo, 910 - Fátima
Posto de Saúde Oliveira Pombo: Rua Rio Grande do Sul, s/n - Couto Fernandes

Regional de Saúde V

Posto de Saúde Rita Maria Lemos Coelho: Rua Geci Freitas Monteiro (em frente ao número 67) - Parque Santa Rosa
Posto de Saúde Dr. Pontes Neto: Rua 541, 150 - 2ª etapa - Conjunto Ceará
Posto de Saúde Luiza Távora: Travessa São José, 940 - Mondubim
Posto de Saúde Luciano Torres de Melo: Rua Delta, 365 - Manoel Sátiro

Regional de Saúde VI

Posto de Saúde Mattos Dourado: Av. Des. Floriano Benevides, 391 - Edson Queiroz
Posto de Saúde Lúcia de Sousa Belém (Messejana): Rua Coronel Guilherme Alencar, s/n - Messejana
Posto de Saúde Melo Jaborandi: Rua 315, 80 – Jangurussu

 

Debate sobre dominância fiscal serve de alerta

Por Editorial / O GLOBO

 

O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), aumentou a taxa básica de juros de 11,25% ao ano para 12,25%. Diante das expectativas de inflação acima do teto da meta em 2025, não havia outra alternativa senão aumentar o custo do crédito, para deter o crescimento da demanda e a alta dos preços. Foi o maior aumento nos juros desde fevereiro de 2022 e o maior do atual governo. A medida — necessária para deter a escalada inflacionária — ocorre num momento de intenso debate entre economistas sobre o risco de o Brasil chegar a um ponto em que subir os juros não adiantará mais para deter a inflação, situação conhecida tecnicamente como “dominância fiscal”.

 

Essa anomalia acontece quando a dívida pública sai de controle, e o aumento dos juros acaba contribuindo para aumentá-la ainda mais, deteriora a percepção de risco, alimenta a alta do dólar e repercute negativamente na própria inflação. Quando um país chega a tal ponto, a alta dos juros pode até surtir o efeito oposto ao desejado. É consenso que o Brasil ainda está muito longe dele, mas o simples fato de que a questão seja debatida revela até que ponto se deteriorou a credibilidade do governo para manter as contas públicas sob controle.

 

Os analistas projetam para o ano que vem mais aumento dos juros, acompanhado de subsequente queda da inflação. Persiste, portanto, a confiança na força da política monetária para deter a alta dos preços, ainda que enfraquecida. Tal constatação não torna a situação fiscal menos preocupante. Governo e Congresso precisam estar alertas para a gravidade do momento. Devem deixar de lado o cacoete infantil e estéril de demonizar o mercado e tratar de tomar medidas críveis para conter a escalada da dívida pública.

 

As taxas de crescimento acima das expectativas em 2023 e 2024, assim como a queda do desemprego, da pobreza e da miséria, merecem ser celebradas. Mas vale lembrar que a obrigação do governo não é promover melhoras passageiras sob o efeito de anabolizantes. Desde a transição entre os governos Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, o gasto público cresceu R$ 345 bilhões. Entre 2023 e 2026, a relação entre a dívida pública e o PIB deverá aumentar entre 12 e 14 pontos percentuais, segundo as projeções. Nessas horas, uma análise do passado é pedagógica. O crescimento econômico alimentado por uma política fiscal irresponsável já se provou insustentável mais de uma vez.

 

O momento, portanto, exige ação. O Congresso deveria votar com urgência o pacote fiscal apresentado pelo governo no mês passado. Mesmo tímido, ele será melhor que nada. Feito isso, a equipe econômica, com o apoio do presidente Lula, precisará promover um novo pacote de controle de gastos, desta vez com medidas de maior efeito e duradouras. Para estancar o aumento da dívida, o país precisará de ajustes anuais da ordem de R$ 300 bilhões, não dos R$ 30 bilhões ou R$ 40 bilhões dos dois primeiros anos de mandato. Cortes sempre causarão insatisfação entre os atingidos.

 

Diante da gritaria, o Congresso precisará priorizar o bem comum. Se o governo e o Parlamento precisavam de um alarme para ter noção do perigo diante do país, difícil pensar em outro mais estridente que a dúvida se o Brasil caminha para um estado em que a alta de juros se tornará ineficaz contra a inflação.

Avanço do crime organizado sobre a Amazônia exige ação estadual e federal

Por Editorial / O GLOBO

 

É preocupante a constatação de que organizações criminosas atuam em um terço dos municípios da Amazônia Legal. No ano passado, 260 das 772 cidades amazônicas abrigavam ao menos uma facção do crime organizado, 46% mais que em 2022, segundo a terceira edição do estudo “Cartografias da violência na Amazônia”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em parceria com o Instituto Mãe Crioula (IMC). Em 84 dessas cidades, havia mais de uma facção.

 

Entre as 19 organizações criminosas que atuam nos nove estados da região, a hegemônica, segundo o estudo, é o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, que controla o tráfico em 130 municípios. O Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, atua em 28. Grupos locais completam a lista. O CV passou a marcar presença no Norte a partir de 2017, quando perdeu rotas na fronteira com o Paraguai. “Boa parte do dinheiro que circula na região hoje é do crime”, diz Renato Sérgio de Lima, presidente do FBSP. “Em termos etnográficos, é possível dizer que o crime organizado é o principal empregador na Região Amazônica.”

 

Embora os assassinatos tenham caído 6,2% na Amazônia em 2023 — como resultado de políticas públicas bem-sucedidas, mas também da hegemonia do CV —, o quadro ainda é dramático. O índice da região supera a média brasileira (32,3 ante 22,8 mortes por 100 mil habitantes). A ação das facções ocupa lugar central. Não só pelo narcotráfico, mas também pela conexão com desmatamento e garimpo ilegal. O entrelaçamento das atividades criminosas ficou patente no assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips em junho de 2022, por quadrilhas que, segundo as investigações, praticavam tráfico de drogas e pesca ilegal.

 

O combate a esses grupos se torna mais desafiador diante das conexões do crime com a política. Em outubro, a Polícia Federal deflagrou uma operação em Parintins (AM) para investigar a associação de agentes públicos e uma facção para favorecer uma candidatura à prefeitura. Reportagens especiais do GLOBO mostraram que municípios com altas taxas de desmatamento elegeram prefeitos acusados de infrações ambientais. Revelaram ainda a influência do garimpo ilegal nas eleições.

 

A Amazônia é estratégica para o tráfico por fazer fronteira com Colômbia, Bolívia e Peru, grandes produtores de drogas. Mas o que acontece lá não é muito diferente do que ocorre noutras regiões acossadas pelo poder das facções e pelas disputas sangrentas por território. O estudo torna evidente que o enfrentamento ao crime organizado não pode ficar restrito a forças e instituições locais.

 

O problema do Norte é o mesmo do Sudeste, do Nordeste, do Sul e do Centro-Oeste. Precisa ser tratado por inteiro. Durante décadas, o Brasil se preocupou com a soberania da Amazônia. Não há soberania num território dominado pelo crime. Ou o governo federal se une aos estados num plano de segurança robusto para atacar as organizações criminosas, ou os próximos diagnósticos trarão dados ainda mais desalentadores.

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