Uma usina de corrupção
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
No dia 10 passado, uma força-tarefa da Polícia Federal (PF), do Ministério Público e da Controladoria-Geral da União (CGU) deflagrou uma operação para desarticular um suposto esquema de fraudes licitatórias e desvios de recursos relacionado ao Departamento Nacional de Obras contra as Secas. Segundo a PF, a organização criminosa sob suspeita movimentou cerca de R$ 1,4 bilhão, incluindo R$ 825 milhões em contratos com órgãos públicos só em 2024. Foram cumpridos mandados de prisão preventiva e busca e apreensão em cinco Estados. As investigações apontam superfaturamento em obras para empresas e indivíduos ligados a administrações municipais. Para a surpresa de rigorosamente ninguém, os recursos são oriundos de emendas parlamentares.
As emendas, ou seja, recursos do Orçamento público manejados por parlamentares, são um instrumento legítimo empregado nas democracias e previsto na Constituição Federal com o objetivo de atender a demandas das comunidades representadas pelos congressistas. No Brasil, contudo, desde 2015 seu volume vem crescendo para níveis exorbitantes, sem paralelo no mundo, ao mesmo tempo que mecanismos de alocação técnica, transparente e equânime foram desmantelados.
Utilizadas pelos congressistas para atender à sua clientela paroquial, as emendas corroem a democracia e a coisa pública de diversas maneiras, seja distorcendo a competição eleitoral, seja pulverizando gastos sem eficiência nem isonomia. Mas, além dessa corrupção em sentido amplo, a falta de transparência e controle incentiva a corrupção em sentido estrito, de desvio de recursos públicos para enriquecimento privado.
A corrupção patrocinada com emendas não é novidade. Já em 1993, estourou o escândalo dos Anões do Orçamento, que desviavam recursos para organizações sociais fantasmas e empreiteiras. A diferença é que à época as emendas constituíam uma fração marginal do Orçamento.
Só entre 2020 e 2024 as chamadas “transferências especiais”, criadas em 2019, cresceram de R$ 600 milhões para R$ 8,2 bilhões. Apelidadas de “emendas Pix”, na prática funcionam como doações aos Estados e municípios, que podem empregá-las como bem entenderem, sem que a União tenha qualquer controle sobre a sua execução. Ou seja, um verdadeiro convite à corrupção. Operações como a da PF oferecem uma pequena brecha para vislumbrar uma estrutura que tem tudo para ser uma usina de escândalos pronta a explodir.
Auditorias recentes realizadas pela CGU com pequenas amostragens de municípios beneficiados com esses repasses indicam toda sorte de irregularidades: ONGs sem capacidade para realizar os serviços contratados, obras paradas ou nem iniciadas e muitas vezes supérfluas, indícios de superfaturamento, concentração de recursos em algumas localidades enquanto outras restam completamente desatendidas, suspeitas de propinas e extorsão, incapacidade dos municípios de prestar contas e mais um longo et cetera.
Sanear este estado de coisas calamitoso exigiria mecanismos que responsabilizassem os congressistas que fizeram os repasses, ampliassem a transparência na execução orçamentária, exigissem garantias de governança por parte dos receptores e garantissem aos órgãos da União, como o Tribunal de Contas, prerrogativas de fiscalização sobre os gastos.
Após o Supremo Tribunal Federal suspender o pagamento das emendas até que atendessem a “critérios técnicos de eficiência, transparência e rastreabilidade”, os chefes dos Três Poderes fizeram um acordo prevendo uma série de determinações que se orientavam para a implementação de mecanismos como esses. Para as emendas Pix, por exemplo, previram-se critérios técnicos de priorização, seleção e execução dos projetos, apresentação prévia de plano de trabalho ou prestação de contas a órgãos de fiscalização da União. Mas nada disso foi satisfatoriamente atendido na Lei Complementar aprovada pelo Congresso.
À base de chantagens e arranjos improvisados, congressistas tentam forçar a liberação das emendas, enquanto se negam a prestar informações sobre repasses passados e se esforçam por manter os futuros na penumbra. Operações como as realizadas pela CGU ou pela PF mostram a razão disso.
O gabinete petista da desinformação
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Incapaz de reconhecer o real motivo da crise de confiança no Brasil e tomar providências para reduzir as incertezas com as contas públicas do País, o governo do presidente Lula da Silva recorreu a uma operação tipicamente lulopetista para explicar a escalada do dólar e as turbulências no mercado financeiro: de maneira claramente organizada, liderada de dentro do Palácio do Planalto, difundiu a “narrativa” de que tudo não passa de um ataque especulativo contra a moeda brasileira, contra o governo e contra o Brasil. Segundo tal lógica, usada por porta-vozes do governo e do Partido dos Trabalhadores (PT) como quem enfrenta inimigos do povo, os recordes sucessivos da cotação do dólar, cuja disparada só arrefeceu depois da injeção de bilhões de dólares pelo Banco Central (BC), foram resultado de uma espécie de complô malévolo em escala internacional. Os especuladores, representados pela “Faria Lima”, estariam mobilizados para arruinar Lula e, por extensão, o povo brasileiro.
A tese, evidentemente, não se sustenta – como, aliás, afirmou o futuro presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, nome indicado por Lula para suceder a Roberto Campos Neto. Galípolo demonstrou discordar da ideia de que o País está sob ataque especulativo e lembrou o óbvio: o mercado não é “algo monolítico, tem compra e venda, vencedores e perdedores”. Para ele, “ataque especulativo como algo coordenado não representa bem”. Lula e seus sabujos não pensam da mesma forma. Apesar dessa clareza solar de Galípolo, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, mais uma vez reafirmou suas teses persecutórias, seguida de nomes como o deputado federal Zeca Dirceu (PT-PR) – que pediu à Polícia Federal para abrir um inquérito contra a “Faria Lima” –; o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA); o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE); e o presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Ricardo Cappelli.
Ficou indisfarçável a ideia de que a estratégia foi forjada não apenas nas hostes do partido – que, como se sabe, se impôs à equipe econômica do governo e quer mandar mais na economia do que o ministro Fernando Haddad –, e sim do Palácio do Planalto. A artimanha ficou patente quando o ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom), Paulo Pimenta, foi às redes sociais na quarta-feira (18/12) para difundir a tese, com a ênfase de quem denuncia um golpe de Estado. Definindo o tal “ataque especulativo” como “crime de lesa-pátria”, Pimenta afirmou que “a indústria das fake news está trabalhando mais uma vez contra o Brasil, e nós precisamos agir”, informando que o governo acionou autoridades para identificar autores de frases mentirosas atribuídas a Galípolo – e que tais frases espalhadas pelo mundo livre da internet, e não as lambanças do governo no plano fiscal, teriam produzido as oscilações no câmbio. É o estado da arte do lulopetismo.
O Brasil ainda tem fresca na memória a atuação do chamado “gabinete do ódio” dos tempos bolsonaristas – quando havia uma estrutura de comunicação dentro do governo de Jair Bolsonaro destinada a difundir mentiras e atacar opositores na internet. Mas esse gabinete do ódio, malgrado muito competente em seu mister, foi apenas um aprendiz dos infames “blogs sujos”, que nos primeiros governos petistas recebiam generoso financiamento público para atacar sistematicamente os desafetos do partido. Ou seja, os petistas são a vanguarda veterana na arte de destruir reputações e inventar conspirações e estão sempre a postos para agir quando a coisa aperta, o que costuma acontecer com frequência.
Os atuais inquilinos do Palácio do Planalto, portanto, estão fazendo exatamente o que deles se esperava: contaminam o debate público com bobagens paranoicas que desviam a atenção do País do que realmente importa, difundindo teorias conspiratórias e apontando o dedo para inimigos ocultos sem resolver nenhum dos problemas reais. São métodos característicos de governos populistas e autoritários.
PEC da Segurança tem novo impasse entre governo Lula e Estados
Por Guilherme Caetano / O ESTADÃO DE SP
BRASÍLIA – Elaborada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como promessa de ajudar a resolver a gestão da segurança pública, a proposta de emenda à Constituição (PEC) sobre o tema virou um cabo de guerra. Enquanto o Palácio do Planalto quer maior autonomia para enfrentar o crime organizado, governadores tentam manter as atribuições das polícias federais e aumentar o controle sobre recursos da União.
A reação de Estados fez com que o texto voltasse para o gabinete do ministro Ricardo Lewandowski (Justiça e Segurança Pública) após passar por uma rodada de reuniões e recepção de propostas de entidades estaduais, municipais e setoriais, desde a reunião convocada pelo presidente Lula com os governadores no fim de outubro. O ministério tenta chegar a um consenso entre as ideias sugeridas para tirar a proposta da gaveta. Procurado para comentar o impasse vivido pela PEC, o MJSP não respondeu.
Na semana passada, os governadores de 26 unidades da federação entregaram a Lewandowski um documento elaborado pelo Conselho Nacional de Secretários de Segurança Pública (Consesp), sugerindo uma série de alterações na PEC. O único a discordar foi o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União), que entregou uma versão própria do projeto.
Entre as mudanças substanciais sugeridas pelos governadores estão a de priorizar a atuação conjunta e coordenada das polícias estaduais no enfrentamento a milícias, em detrimento da ideia de Lewandowski de fortalecer a atuação da Polícia Federal (PF). O plano do MJSP também passa por turbinar as competências da Polícia Rodoviária Federal (PRF), tornando-a uma corporação de caráter mais ostensivo, tal como as polícias militares – mas sem diminuir o poder estadual de policiamento, o que é motivo de desentendimento com os chefes estaduais.
Os governadores querem garantir aportes mínimos nos dois fundos de financiamento da segurança pública (o Fundo Nacional de Segurança Pública e o Fundo Penitenciário Nacional) e participação paritária dos Estados e Distrito Federal nos comitês gestores desses recursos – que hoje funcionam no âmbito do MJSP. Eles também pedem subsídios fiscais aos entes que contribuírem com o Sistema Único de Segurança Pública (Susp).
Integrantes do MJSP são contra conferir aos governos estaduais poder de gestão sobre os repasses federais, uma vez que o diretor do fundo é quem se responsabiliza perante o Tribunal de Contas da União (TCU), a Controladoria-Geral da União (CGU) e o Ministério Público Federal (MPF). Eles alegam ser “juridicamente inviável” dividir a gestão do fundo, mas veem com bons olhos uma participação paritária em âmbito opinativo.
O Conselho Nacional de Segurança Pública, que formula diretrizes para políticas públicas, também entrou na mira dos governadores, que querem maior espaço no colegiado. Hoje, dos 40 membros do conselho, o governo federal tem 13 cadeiras, enquanto Polícias Civis e Militares, Corpos de Bombeiros e secretários estaduais somam quatro lugares.
Secretário-executivo do Conselho da Federação, colegiado criado pelo governo Lula para fortalecer o diálogo com Estados e municípios e que funciona no âmbito da Secretaria de Relações Institucionais, Rafael Bruxellas diz existir hoje um consenso na discussão da PEC: a necessidade de se constitucionalizar o Susp. Para ele, o maior nó a ser desatado hoje é decidir quais pontos podem ser protelados para serem regulamentados após uma eventual aprovação da proposta.
“Tem uma disposição exacerbada de tentar resolver todo o problema da segurança pública (na PEC). Ainda tem para dirimir o que de fato faz sentido ir para a Constituição Federal e o que é infraconstitucional. Tem Estado que acha que a forma de financiamento dos fundos tem que ser constitucional, tem Estado que acha que não”, diz Bruxellas, incumbido de se reunir com entidades diferentes nos últimos dois meses para receber propostas.
Após uma participação ácida na reunião com Lula e os demais governadores no Palácio do Planalto, Caiado é quem mais se coloca como opositor à PEC de Lewandowski. O governador, para quem a proposta usurpa o poder dos Estados de atuarem em segurança pública, tem reiteradamente criticado o projeto. Ele vem se posicionando como possível candidato à presidência da República em 2026, em que pese ter sido condenado nos últimos dias na Justiça Eleitoral e se encontrar inelegível, o que pode ser revertido em instâncias superiores.
A minuta paralela da PEC entregue por Caiado ao governo Lula enaltece estatísticas criminais de Goiás, critica o que considera ser uma inaptidão da União para combater o crime organizado e pede mais dinheiro para construir e melhorar a infraestrutura prisional.
“É possível afirmar que a almejada reforma constitucional proposta pelo governo federal institui verdadeira relação de subordinação dos Estados e municípios à União em matéria de segurança pública, quando o contrário é que deve ocorrer, em nome da descentralização, eficiência e, logo, mais democracia”, critica o texto enviado pelo goiano.
Mário Sarrubbo, secretário nacional de Segurança Pública no MJSP, defende a aprovação da PEC para traçar diretrizes gerais e avançar com medidas como a padronização de dados criminais, cujos critérios variam em cada Estado. Sem um banco de dados unificado de estatísticas, especialistas dizem ser mais difícil traçar estratégias para o combate à criminalidade.
“O que se percebe é uma preocupação muito grande (dos governadores) com algo que, na nossa visão, não deveria ser preocupação, que é a (suposta) invasão da autonomia dos Estados. A PEC, na verdade, quer apenas a possibilidade de coordenação no sentido que se possa traçar diretrizes genéricas, que seriam construídas no Conselho Nacional de Segurança Pública, para que o Brasil pudesse ter um pouco mais de unidade em seus projetos de segurança pública”, afirmou em entrevista à GloboNews na última sexta-feira, 20.
51% dos brasileiros dizem ter mais medo da polícia do que confiança nela, segundo Datafolha
Isabella Menon / FOLHA DE SP
Um total de 51% dos brasileiros acima de 16 anos disseram ter mais medo do que confiança na polícia, segundo pesquisa Datafolha divulgada neste domingo (21).
O dado supera por pouco o de pessoas que afirmaram mais confiar na polícia do que temê-la: são 46%.
O instituto entrevistou 2.002 pessoas, de 16 anos ou mais, em 113 municípios de todo o país em 12 e 13 de dezembro deste ano. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
O resultado é semelhante ao aferido na pesquisa anterior em que a mesma pergunta foi feita, em abril de 2019, em meio a gestão de Jair Bolsonaro (PL). Na época, 51% afirmaram ter mais medo, enquanto 47% tinham mais confiança.
O pesquisador Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, afirmou que o resultado do levantamento deve servir de alerta para os agentes de segurança mudarem sua forma de atuação.
"A população não se sente segura em relação à forma de trabalho da polícia, mas não é de hoje", disse ele. "Há aqui um reconhecimento de que a forma com que elas têm atuado historicamente tem incomodado, porque não é uma forma que vê a segurança e o direito social para todos."
Para Carolina Diniz, coordenadora de enfrentamento à violência institucional da Conectas Direitos Humanos, o medo da polícia é um fenômeno cíclico. "Não se trata de uma situação que acontece agora. Em São Paulo, a situação está longe do controle, mas temos visto dados alarmantes ao longo da história do Brasil."
A pesquisa do Datafolha aponta que o temor tem dado parecido entre gêneros (56% entre mulheres 52% entre homens). Há, no entanto, diferenças entre pretos (59%, ante 45% entre brancos) e entre eleitores de Lula e de Bolsonaro no segundo turno de 2022 (58% no caso do primeiro e 40% no do segundo). As margens de erro nesses segmentos variam de 3 a 5 cinco pontos percentuais.
Segundo Diniz, os homens, geralmente, são os principais alvos da violência policial, mas são elas que cuidam dessas vítimas. "São as mulheres que sofrem essa violência, que não sabem se os filhos vão voltar para casa."
No caso de quem tem mais confiança os agentes de segurança do que medo, as taxas mais altas estão entre homens (52%, ante 40% entre as mulheres), moradores da região Sul (57%), brancos (53%, ante 38% entre os pretos), e os eleitores de Bolsonaro no 2º turno da eleição presidencial de 2022 (58%, ante 38% entre os eleitores de Lula). As margens de erro nesses segmentos variam de três a seis pontos.
Nas últimas semanas, o estado de São Paulo enfrenta uma crise na segurança pública com casos em sequência de violência policial.
Em um deles, um soldado foi filmado jogando um homem em um córrego em Cidade Ademar, na zona sul da capital paulista. Em outro, um estudante de medicina foi morto com um tiro disparado por um PM dentro de um hotel na Vila Mariana, também na zona sul.
Noutro episódio, um soldado, que estava de folga, matou um rapaz de 26 anos com 11 tiros no Jardim Prudência, na zona sul. Ele foi atingido ao tentar fugir com produtos de limpeza furtados de um mercado.
O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) disse durante entrevista coletiva, no último dia 18, que o estado tem uma excelente polícia. "Infelizmente, há desvios de conduta que serão severamente punidos. Não vamos passar pano em nada. Tolerância zero de desvio de conduta."
O Datafolha mostrou também que a maioria da população (63%) disse ter tomado conhecimento sobre os casos de violência policial em São Paulo, sendo que 34% responderam estar bem informados sobre o tema, 25%, mais ou menos informados, e 4%, mal informados. Uma parcela de 37% declarou não ter conhecimento acerca dos casos –entre os que têm 16 a 24 anos, o índice sobe para 56%.
Entre aqueles que tiveram conhecimento dos recentes casos, 55% afirmaram ter mais medo que confiança na polícia, e 42%, mais confiança que medo.
Para Lima, do Fórum, a falta de segurança em geral no país contribui para que parte da população se sinta compelida a apoiar discursos que acabam por apoiar a violência policial.
Ele cita como exemplo o atual secretário de Segurança Pública paulista, Guilherme Derrite. Capitão reformado, Derrite foi questionado em um podcast, em maio de 2021, sobre os motivos que o levaram a deixar a Rota. "A real? Porque eu matei muito ladrão", disse na ocasião.
Ainda segundo Lima, a pesquisa mostra que declarações desse tipo "vão afetando esse outro lado que é a legitimidade da polícia enquanto instituição reconhecida e responsável pelo provimento de segurança pública e ordem".
Como as investigações que envolvem o prefeito eleito de Choró podem impactar outros municípios e deputado do Ceará
O processo que investiga a participação do prefeito eleito de Choró, Bebeto Queiroz (PSB), e o entorno em esquema de corrupção eleitoral está longe de encontrar um desfecho. Além dele ainda estar foragido da Justiça após 19 dias, na última quinta-feira (19), o caso foi remetido ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Isso porque a 3ª Zona Eleitoral de Fortaleza constatou que um dos suspeitos tem foro privilegiado, após indicação de relatório da Polícia Federal (PF). Esse mecanismo garante a tribunais específicos a competência de processar e julgar ocupantes de cargos políticos e funcionais.
No caso do STF, a jurisdição recai sobre o presidente da República, vice-presidente, ministros, integrantes dos tribunais superiores, do Tribunal de Contas da União, embaixadores, senadores e deputados federais – que é o caso em questão.
Uma reclamação com partes sigilosas entrou na extrapauta do Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE) na quinta-feira. O documento, segundo o procurador regional eleitoral, Samuel Miranda Arruda, tratava sobre um requerimento de declínio de competência de instâncias inferiores sobre o caso. Com isso, o relator Wilker Macedo Lima retirou o processo de mesa no Tribunal.
Na última terça-feira (17), o Ministério Público do Ceará (MPCE) pediu a cassação e inelegibilidade de Professor Jardel (PSB) e Ilomar Vasconcelos (PSB) – chapa eleita à Prefeitura de Canindé – e o vereador Professor Evelton (PRD) por supostamente ter recebido R$ 200 mil reais para apoiar a dupla na cidade, além de Bebeto.
A irmã do vencedor em Choró, Cleidiane Queiroz, também foi alvo de pedido de inelegibilidade.
Se os pedidos forem aceitos, tanto Canindé quanto Choró podem viver reviravoltas políticas, com troca no comando das prefeituras e incerteza sobre o destino da cidade.
Investigação
A Polícia Federal instaurou inquérito em 30 de setembro para apurar possível esquema eleitoral envolvendo um grupo criminoso supostamente liderado por Carlos Alberto Queiroz, conhecido como Bebeto do Choró. Ele teria articulado compra de voto em Canindé com o apoio de Cleide Queiroz, adotando práticas de lavagem de dinheiro, corrupção eleitoral e associação criminosa.
A PF também colheu indícios de que um tenente da Polícia Militar do Ceará (PMCE) cometeu crimes no exercício da função. As informações foram enviadas para a Controladoria Geral de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública e Sistema Penitenciário (CGD), para investigar o caso.
Em operação conjunta deflagrada no início do mês, PF, o Ministério Público Eleitoral (MPE) e a Força Integrada de Combate ao Crime Organizado no Ceará (Ficco/CE) cumpriram sete mandados de busca e apreensão e medidas cautelares contra cinco investigados - como o recolhimento domiciliar noturno e o uso de tornozeleira eletrônica. Também foram recolhidos os aparelhos celulares dos envolvidos para verificação de provas.
Além disso, Bebeto foi alvo de operação sobre irregularidades em documentos de prestação de serviço de abastecimento de veículos da Prefeitura de Choró, que era comandada até então pelo aliado dele, Marcondes Jucá. Este foi preso preventivamente e liberado posteriormente, mas o vice-prefeito "Cimar" assumiu a gestão interinamente.
No âmbito do Ministério Público, as investigações também seguem. Segundo fonte ouvida pelo PontoPoder, é possível que haja envolvimento de outros municípios.
A denúncia foi protocolada no órgão ministerial pela atual prefeita de Canindé, Rosário Ximenes (Republicanos). Ela relatou o recebimento de insultos e ameaças por Bebeto e aliados, compra de votos pela campanha adversária com ajuda dele e influência financeira em mais 50 municípios, entre outras queixas.
A suposta participação de um deputado federal também acontecia, segundo o relato, com a concessão de apoio financeiro no interior, tendo como procedimento posterior a lavagem desse dinheiro por empresas ligadas a Bebeto.
Segundo o MP, com a apreensão dos celulares na operação é possível “constatar situações de grande relevância relacionadas ao abuso de poder econômico, não apenas quanto às eleições municipais no âmbito da 33ª Zona Eleitoral, no município de Canindé, mas em outras cidades”.
A reportagem não conseguiu localizar a defesa dos envolvidos.
Prefeito eleito foragido
Conforme consta no Banco Nacional de Medidas Penais e Prisões (BNMP), Bebeto segue foragido da Justiça às vésperas da posse como prefeito. Ele, inclusive, foi diplomado prefeito de Choró no último dia 14 por procuração, representado legalmente pelo filho, Daniel Queiroz, na cerimônia. Já o vice-prefeito eleito, Bruno Jucá (PRD), e os vereadores do próximo mandato compareceram à diplomação.
Com o risco dele não estar presente na posse do cargo na Câmara Municipal, o rito adotado na Casa deve ser aquele previsto pela Lei Orgânica de Choró.
A legislação prevê que a posse deve ocorrer em 1º de janeiro do ano subsequente à eleição, em sessão solene na Câmara ou, “se esta não estiver reunida, perante a autoridade judiciária competente”. Na ocasião, prefeito e vice prestarão o seguinte compromisso:
Prometo cumprir a Constituição Federal, a Constituição Estadual e a Lei Orgânica Municipal, observar as leis, promover o bem-estar geral do município e exercer o cargo sob inspiração de democracia, da legitimidade e da legalidade
Se esse procedimento não ocorrer até o dia 10 de janeiro, salve motivo de força maior devidamente comprovado e aceito pela Câmara, o cargo será considerado vago. Enquanto não ocorrer a posse do prefeito, assumirá a função o vice-prefeito ou, em sequência, o presidente da Casa.
O fogo avança no Brasil
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A área queimada no Brasil chegou a mais de 29 milhões de hectares se contabilizado o período de janeiro a novembro deste ano. É quase o dobro em relação ao mesmo período de 2023 e a maior extensão desde 2019, segundo o Monitor do Fogo, do projeto MapBiomas. Quase 60% da área queimada em 2024 fica na Amazônia, com a liderança indesejável do Estado do Pará – sede da COP-30, no ano que vem – e um patamar inédito de florestas alagáveis afetadas, acima inclusive das áreas de pastagem. No Cerrado, cresceu o volume de queimadas em vegetação nativa. O Pantanal não exibe cenário melhor.
Isso significa não só que o Brasil viu 14 milhões de hectares a mais (o equivalente ao Estado do Amapá) sofrerem o impacto de queimadas, na comparação com o ano passado, como também registrou duas situações igualmente complexas: tornou anual o que parecia ser um ápice sazonal e encerrou a tendência histórica que combinava o nível das queimadas com o ritmo de desmatamento. Até aqui havia um consenso de que a temporada de incêndios florestais se concentrava entre os meses de agosto e outubro, e que os incêndios em geral acompanhavam o ritmo de desmatamento. Os dados deste ano desmontam os dois consensos.
O aumento desproporcional da área queimada, sobretudo a área de floresta, serve de alerta para a necessidade de o País conciliar a redução do desmatamento com o controle do uso de fogo, como sublinhou a coordenadora do MapBiomas, Ane Alencar. Com um problema adicional: o governo do presidente Lula da Silva vem conseguindo reduzir o desmatamento com razoável sucesso nos últimos dois anos, sobretudo quando comparado ao legado de leniência com a destruição deixado pelo antecessor Jair Bolsonaro, mas se mostrou até aqui incapaz de conter o alastramento do fogo nos principais biomas. Dentro dos órgãos ambientais, incapacidade ou deficiência de estrutura; fora deles, letargia e negligência diante dos alertas emitidos.
Fruto da ação humana, intencional ou não, ou das mudanças climáticas, o fato é que o fogo passou a se incorporar terrivelmente à paisagem brasileira. É um dano permanente para o solo, a qualidade dos ecossistemas, a saúde humana e os negócios do País. Não só afeta a vida nas florestas e nas cidades, como danifica plantações e pastagens, ampliando custos de produção, reduzindo a oferta de produtos agrícolas, comprometendo a segurança alimentar e aumentando os preços dos alimentos.
Só isso já seria suficiente para um grande esforço que una governos em todos os níveis e o setor privado para monitoramento contínuo das áreas de risco e resposta rápida a incêndios. O Brasil avançou nesse terreno, mas ainda derrapa nos resultados. Não dá para terceirizar ao bolsonarismo a culpa exclusiva pelo desmonte ambiental nem debitar tudo na conta apenas do crime organizado e das mudanças climáticas. São todos fatores a considerar, incluindo o fato de o Brasil ter enfrentado em 2024 a pior seca da história e o aumento drástico da temperatura.
A mão humana, ao mesmo tempo que tem peso considerável no risco de queimadas, é também indispensável para enfrentar igualmente o desmatamento e o controle do fogo.

