Brasil fora do radar internacional e Trump amado por empresas; veja 5 conclusões do Fórum de Davos
Luciana Coelho / FOLHA DE SP
O encontro anual do Fórum Econômico Mundial em Davos terminou nesta sexta-feira (24) com um tom mais otimista do que o do início da semana. Embora o evento já não tenha o mesmo impacto do passado, ele continua a atrair donos do poder pelo mundo —seja ele político, financeiro ou intelectual.
Aqui estão cinco conclusões tiradas dos cinco dias da reunião, que costuma servir de "teaser" do que movimentará a geopolítica e a economia global nos próximos 12 meses.
1. NINGUÉM FALA DE BRASIL EM DAVOS, RELATAM EXECUTIVOS
"Sinceramente, ninguém fala do Brasil hoje em Davos. O Brasil não é o foco de ninguém. A gente não está no radar de ninguém", resumiu David Velez, o fundador e CEO do Nubank, em conversa com jornalistas. Outro alto executivo que há anos frequenta o fórum respondeu que o Brasil "é muito menos visível do que a gente pensa que ele é", apontando a necessidade de o país fazer um esforço para se apresentar ao mundo.
Embora apareça em menções sobre ambiente e transição energética, o Brasil não é um destino cobiçado por empresas. Mário Mesquita, economista-chefe do Itaú Unibanco, pondera que embora numa multinacional não seja difícil convencer os gestores a investir no Brasil, tampouco alguém será cobrado para ter uma estratégia para o país.
As apreensões em relação ao Brasil, por causa do front fiscal e da percepção de que o déficit do país aumentará, freiam a entrada de dinheiro novo. Com o cenário internacional enevoado ao longo da semana pela promessa do americano Donald Trump de sobretaxar importações aos EUA, os investidores ficam mais cautelosos em relação a onde aplicam o dinheiro —e, com isso, mais longe do Brasil.
"Há alguns anos o Brasil estava no radar, a América Latina estava no radar. Porque tem a população, tem um grande mercado, tem energia, mas especialmente com essa preocupação fiscal… ninguém acha que o Brasil tem muita preocupação, e muitos investidores já perderam a confiança", disse Vélez. "Uma vez que essa confiança é perdida, é difícil recobrar."
Pouco ajudou, também, o fato de o país ter mandado sua menor delegação oficial em anos, com o ministro Alexandre Silveira (Minas e Energia) como único representante do Planalto. Após adiar sua viagem, acabou fora dos painéis oficiais. Manteve encontros com alguns pares, ouviu empresários, reforçou que o país é um destino natural para quem quer produzir com energia limpa, mas não saiu de Davos com nenhum grande aporte novo para anunciar.
"Acho que o governo brasileiro está fazendo opções, e se você não participa das discussões, você obviamente perde o espaço", aponta Erasmo Battistella, CEO da Be8, empresa de biocombustíveis e energia renovável. "Por exemplo, se essas empresas [brasileiras] todas não estivessem aqui, elas não teriam esse espaço, a Casa Brasil [onde ocorreram debates e eventos sobre o país promovidos por um pool de empresas nacionais]. Então, eu acho que é uma boa oportunidade do Brasil estar aqui, sabe?"
No tradicional jantar do Fórum para tratar de América Latina, nenhuma autoridade brasileira esteve presente.
2. ANALISTAS NÃO GOSTAM DE TRUMP, MAS EMPRESÁRIOS GOSTAM
O presidente americano, recém-empossado, foi o elefante em todas as salas de Davos e adjacências, até fazer seu discurso por telão no fim da quinta-feira (23) e trazer algum alento para quem temia um salto nos atritos entre Estados Unidos e China.
Nos diversos painéis acompanhados pela reportagem, ficou latente uma divisão: enquanto os economistas e analistas advertem que a política econômica trumpista é inflacionária e pode causar um problema nos mercados de trabalho com a expulsão dos imigrantes ilegais, sobretudo para pequenas empresas, e analistas políticos se horrorizam com o discurso social do republicano, os empresários em geral estão otimistas com a promessa de desregulamentação e aceleração de processos.
James, Quincey, CEO da Coca-Cola, amenizou os temores: "Por que eu vou torcer contra [o novo governo]? Preciso olhar para a totalidade das medidas. Tudo ainda é muito hipotético, mas no conjunto ainda estou otimista."
Rich Lesser, presidente global do Bonton Consulting Group, disse também estar otimista com o conjunto da obra (ou das promessas), mas advertiu: "Se ele começar a fazer tudo aquilo que ele passou a campanha gritando que iria fazer, a coisa pode ficar preocupante".
Quando o discurso de Trump veio, sua abertura a trabalhar em conjunto com a China —que no dia seguinte virou um aceno para um eventual acordo comercial— animou a todos.
3. A TRANSIÇÃO ENERGÉTICA É PARA VALER
A posição de Trump de desmantelar os incentivos econômicos à adoção de tecnologias e produtos mais amigáveis ao ambiente, e em vez disso investir na prospecção de combustíveis fósseis, surpreendeu zero pessoas.
"As grandes empresas se dão conta de que esse navio zarpou e não vai voltar. A agenda ambiental e sustentável veio para ficar. Vai ter momentos de turbulência, as metas vão se alterar, mas o sentido geral de que temos que caminhar para uma economia mais eficiente, que gere menos resíduos e que seja mais descarbonizada, está bem assimilado pelo setor privado e não vai mudar", afirmou Roberto Azevêdo, presidente de operação globais da Ambipar e ex-diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio).
Outro alto executivo brasileiro comentou que a pauta ambiental simplesmente era a correta para sua empresa, e que o carbono se tornou um risco de negócio para quem quer criar uma companhia vencedora no médio e longo prazo. Afinal, disse ele, governos vão e vêm, e as empresas pretendem continuar existindo pelas próximas décadas.
Os próprios especialistas do Fórum, que foi criticado não só por Trump como pelo argentino Javier Milei por sua ênfase na transição energética e na preocupação ambiental, disseram que sua pauta não mudará.
Pode haver avanços pendulares em termos de velocidade, pode haver, eventualmente, algum soluço de financiamento, como ponderou um CEO. Mas seja nos painéis ou nos corredores, a decisão de fazer a transição para matrizes energéticas limpas se mantem inconteste. Ela é econômica, não apenas ambiental.
Outra constatação: a energia nuclear tem ganho enorme adesão como motor para a transição energética. Bill Gates, o governo argentino, o ministro Alexandre Silveira e o próprio Fórum —o leque de apoiadores dessa tecnologia é mais amplo do que nunca.
4. O DISCURSO MONOLÍTICO MORREU
O WEF, sigla em inglês para a entidade que criou e mantém o Fórum, sempre defendeu políticas econômicas liberais e bandeiras sociais progressistas. Com Trump e Milei vigorosamente aplaudidos nos palcos, contudo, esse binômio deixou de ser um consenso.
Pouca gente é banida do Fórum —os russos, por causa da guerra contra a Ucrânia, e a Venezuela, sob a ditadura do Maduro, estão nessa situação, Mas os governos de Israel e da Autoridade Nacional Palestina continuam sendo convidados, assim como como os de países como mais diversos matizes econômicos e sociais. Quem merece holofotes, contudo, é escolhido a dedo.
Embora o discurso de Milei tenha causado perplexidade de boa parte da plateia quando adentrou por críticas a orientação de gênero, ambientalismo, feminismo e outros temas caros a organização, houve também quem tenha concordado e aplaudido. As "guerras culturais" também estão em Davos, ainda que de maneira mais comedida. Nenhum tema é banido, e há entusiastas para tudo.
5. NÃO HÁ NOVAS GRANDES CRISES
A reunião de Davos já lidou com a pandemia, com a recessão, com perspectivas sombrias para a economia e com guerras crescentes. Hoje, como definiu uma pessoa familiarizada com a pauta, há várias pequenas crises, mas nada realmente avassalador. E isso aparece nas discussões.
Há preocupações com as guerras em cursos —notadamente a da Ucrânia. Mas mesmo o presidente ucraniano, Volodimyr Zelensky, não foi recebido com a mesma expectativa da plateia que o aguardava em outros anos. Há urgência em relação à crise climática, e os incêndios na Califórnia foram evocados com frequência. Há temores de uma onda global de inflação, e há alguma apreensão diante da rapidez da evolução tecnológica.
Mas nenhum desses problemas é novo, e isso, certamente, tira parte da vibração do Fórum, que pulveriza as discussões e dissolve a possibilidade de ações mais enfáticas.
Uma mulher foi vítima de crime sexual a cada 5 horas, no Ceará, no ano de 2024
Messias Borges / DIARIONORDESTE
Um estupro ocorrido em Fortaleza, no último domingo (19), cometido por um motorista de aplicativo contra uma passageira, assustou a população cearense. No ano de 2024, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS) registrou 2.044 crimes sexuais (entre estupros, estupros de vulneráveis e exploração sexual de menor). Dentre as vítimas, 1.771 eram pessoas do sexo feminino - o que resulta em uma média de uma mulher vítima de crime sexual a cada 5 horas.
foi a diminuição de crimes sexuais, no Ceará, em 2024, na comparação com o ano de 2023 - que teve 2.154 registros. Apesar da queda no índice, o número de crimes computados no ano passado foi o segundo maior em um ano, na série histórica contabilizada pela SSPDS, desde 2015.
Entre as pessoas do sexo feminino vítimas de crimes sexuais, o índice diminuiu 5,4% em um ano: foram 1.873 crimes em 2023 e 1.771, no ano passado. Entre os homens, o número foi quase igual: 264 vítimas em 2023 e 263 vítimas, em 2024.
A diretora adjunta do Departamento de Proteção aos Grupos Vulneráveis (DGP) da Polícia Civil do Ceará (PCCE), delegada Rebeca Cruz, afirma que a maioria das vítimas de crimes sexuais é do sexo feminino devido ao "machismo estrutural". "É algo que acontece com as mulheres há muito tempo. Os homens também são vítimas, mas, como os dados mostram, as mulheres de fato são as maiores vítimas desses crimes, por conta dessa questão do machismo, do agressor ver a mulher como propriedade. O crime sexual tem uma questão de poder", explica.
Uma mulher de 35 anos foi uma das vítimas de estupro, no Ceará. O crime ocorreu na saída de uma festa, no bairro Edson Queiroz, em Fortaleza, na madrugada do último domingo (19), e teve grande repercussão nas redes sociais. O suspeito, um motorista de aplicativo que aceitou levar a vítima para casa, foi preso em flagrante pela Polícia Militar. Ele já foi lutador profissional de MMA (sigla em inglês para "artes marciais mistas").
Crianças e adolescentes são as principais vítimas
Os dados coletados pela Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp) - órgão vinculado à SSPDS - mostram ainda que as crianças e adolescentes (até 17 anos) são as principais vítimas de crimes sexuais no Ceará, no comparativo entre faixas etárias, durante a série histórica entre 2015 e 2024.
das vítimas de crimes sexuais no Estado têm entre 0 e 17 anos. As crianças de 0 a 5 anos são 15,41% das vítimas; as crianças de 6 a 11 anos, 26,71%; e os adolescentes entre 12 e 17 anos estão na faixa etária mais atingida: eles são 36,06% das vítimas.
A delegada Rebeca Cruz ressalta que os crimes sexuais ocorridos contra pessoas de 0 a 14 anos são classificados como estupro de vulnerável. "A maioria desses casos acontece em casa, com pessoas próximas", detalha. Segundo a delegada, "devido ao ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e à proteção de crianças e adolescentes, a lei e a Polícia estão reprimindo esses crimes. Quanto mais canais de denúncias, mais vão acontecer essas denúncias".
A punição dos agressores precisa da colaboração de toda a sociedade. Os crimes são investigados pela Polícia, mas há uma responsabilização de todos os órgãos. Então, órgãos de saúde e de assistência social têm que incentivar a denúncia e a prevenção. As crianças e adolescentes têm que ter conhecimento sobre esses crimes."
As pessoas com 18 a 23 anos representam 5,82% das vítimas de crimes sexuais, nos últimos 10 anos, no Ceará. O índice cai a cada faixa etária, segundo os dados da Supesp, até chegar às vítimas de 66 a 71 anos, que são 0,1% das vítimas. Entretanto, o número volta a subir para 0,49%, para pessoas com mais de 72 anos. Enquanto 5,19% das vítimas não tiveram a idade identificada.
Rebeca Cruz destaca a importância da denúncia dos crimes sexuais: "A gente orienta que seja acionada a Polícia Militar e o 190 (número do Disque-Denúncia). Para a gente punir esses agressores, é muito importante que as vítimas, no caso das mulheres, procurem a Delegacia de Defesa da Mulher ou outra delegacia. Para registrar o BO e para fazer o exame de corpo de delito, porque a prova material tem muita importância nesses crimes. Na Casa da Mulher Brasileira, existe o atendimento psicossocial, porque a vítima se sente muito abalada, quando acontece esse tipo de crime. A gente orienta também que as pessoas denunciem crimes contra outras vítimas".
Respeitar o Orçamento não é opcional
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O plenário do Tribunal de Contas da União (TCU) tomou a correta decisão de bloquear os recursos do Pé-de-Meia por entender que o modelo de financiamento do programa do Ministério da Educação (MEC) viola o processo orçamentário. Em outras palavras: para tentar cumprir suas metas fiscais, o governo Lula da Silva tem custeado o Pé-de-Meia por meio de uma gambiarra financeira, à margem do devido escrutínio do Congresso.
Criado no ano passado, o Pé-de-Meia consiste na formação de uma poupança para os alunos do ensino médio da rede pública que sejam beneficiários do Cadastro Único para Programas Sociais. O objetivo do MEC é incentivar a permanência desses estudantes em sala de aula durante toda essa fase da aprendizagem. Comprovadas matrícula e frequência escolar, o aluno recebe um pagamento mensal de R$ 200. Ao final de cada ano letivo concluído, recebe mais R$ 1 mil de bônus, além de um adicional de R$ 200 por participação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Como se vê, é um programa de interesse público, razão pela qual o governo, se crê em seu valor, como se supõe, deveria ser o primeiro a lutar por sua inclusão no Orçamento, negociando no Congresso a priorização do Pé-de-Meia sobre outros gastos públicos.
Instituído pela Lei no 14.818/24, o Pé-de-Meia tem sido financiado com recursos do Fundo de Custeio da Poupança de Incentivo à Permanência e Conclusão Escolar para Estudantes do Ensino Médio (Fipem), que por sua vez é composto por aportes administrados pela Caixa Econômica Federal, sendo os da União os mais vultosos. Em boa hora, o Ministério Público junto ao TCU advertiu que “a legislação que criou o programa permite à União transferir recursos a esse fundo, porém ela não permite que o pagamento dos incentivos aos estudantes com recursos depositados no Fipem se dê à margem do Orçamento”. O procurador Lucas Furtado ainda alertou que “essa prática está travestida de um fundo privado a fim de se manter tangente às regras das finanças públicas”, vale dizer, insubmissas ao controle republicano dos gastos do governo pelo Poder Legislativo.
Eis a essência da democracia. Recursos públicos, oriundos da tributação de cidadãos e empresas, devem ser destinados ao financiamento de políticas voltadas ao progresso humano, social e econômico de uma nação. Em suma, ao bem comum. O debate em torno de quais políticas atendem ou não a esse imperativo – e, portanto, são dignas dos recursos dos contribuintes – deve ser travado pela sociedade por meio de seus representantes eleitos, com absoluta transparência, espírito público e senso de prioridade, pois dinheiro não dá em árvore. Quando governos buscam meios exóticos para financiar suas ações, sem submetê-las a esse crivo republicano, acabam por mascarar o real estado dos gastos públicos e por abastardar a própria democracia representativa.
Em justiça ao atual governo, deve-se registrar que Lula da Silva não é o único que tem o cacoete de driblar o Orçamento quando lhe convém. Jair Bolsonaro fez letra morta de decisões judiciais definitivas ao dar calote no pagamento dos precatórios e furou o teto de gastos ao menos duas vezes em um ano para aumentar o pagamento do Auxílio Brasil e da ajuda financeira a caminhoneiros e taxistas, para citar apenas dois outros exemplos recentes de desrespeito gritante à peça orçamentária. Não é assim que se governa uma República democrática.
O TCU teve o cuidado de não se imiscuir no mérito do programa Pé-de-Meia, haja vista que a formulação de políticas públicas, evidentemente, é prerrogativa dos Poderes Executivo e Legislativo. Mas a Corte de Contas lançou luz sobre mais uma manobra sub-reptícia que, ao fim e ao cabo, rebaixa o Orçamento a uma burocracia qualquer.
Se o governo Lula da Silva trata o cumprimento do Orçamento como mera formalidade que, a depender de suas conveniências, pode ser ignorada, alguém haveria de lembrá-lo do contrário. E que bom para o País que o TCU o tenha feito, resguardando não apenas a higidez das finanças públicas, como também a própria materialização da democracia consubstanciada na peça orçamentária.
Cabral debocha do Brasil
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
É difícil imaginar cena mais emblemática de deboche ao que ainda resta de decência neste país do que o vídeo do notório Sérgio Cabral Filho, publicado por ele há poucos dias, relaxando à beira de uma piscina enquanto dá dicas de filmes para seus milhares de seguidores nas redes sociais. Depois de gabaritar a seção do Código Penal que trata dos crimes contra a administração pública, o que lhe impôs condenações a mais de 400 anos de cadeia, Cabral parece empenhado em fazer de sua condição de criminoso uma caricatura cínica do político “injustiçado” pela Operação Lava Jato.
Solto em dezembro de 2022 por ordem do Supremo Tribunal Federal e liberado de cumprir prisão domiciliar desde fevereiro de 2023 pelo Tribunal Regional Federal da 2.ª Região, o ex-governador do Rio “viciado em dinheiro”, como ele mesmo admitiu à Justiça, resolveu fazer um rebranding, ou um “reposicionamento de marca”, no jargão do marketing. Captando o espírito destes tempos estranhos, nos quais a delinquência pode ser um ativo na era da chamada “economia da atenção”, Cabral tem se firmado como influencer nas redes sociais, onde, além das dicas culturais, tece comentários políticos e oferece opções de turismo no Rio à sua audiência. Nesse mundo reverso, no qual a imoralidade parece ser a nova moral, Cabral tem feito sucesso.
Enquanto aguarda o julgamento de recursos nos mais de 20 processos em que foi condenado por organização criminosa, corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, entre outros crimes, Cabral se diverte nas redes – e na vida real – como um bonachão, um bon vivant com leveza de alma inversamente proporcional à pesadíssima carga penal que carrega nas costas.
Aqui não se trata, é óbvio, de ignorar o direito de qualquer apenado de recorrer de condenações por meio dos instrumentos que as leis e a Constituição lhe dão. Mas, no caso de Cabral, o figurino do “injustiçado”, haja vista sua confissão e a devolução de milhões de reais recebidos como propina, é puro escárnio, pois totalmente desprovido de base factual, que dirá de traço de arrependimento genuíno ou de reparo à população prejudicada pelos crimes que este senhor cometeu.
Essa atitude não desvela só a soberba que, a bem da verdade, sempre notabilizou o ex-governador fluminense. Ela ilumina a forma como políticos e empresários graúdos apanhados em malfeitos podem explorar brechas legais, apelos midiáticos e, não menos importante, certa complacência dos tribunais para reescrever suas biografias, não raro retorcendo os fatos que lhes são inconvenientes. Aquele homem que, autorizado pela Justiça, desfruta do dolce far niente em uma piscina emoldurada pelo Pão de Açúcar é o mesmo que quase levou o Rio à falência e, certamente, levou à decadência moral, política e institucional da qual o Estado, até hoje, peleja para se reerguer.
O País, não de agora, passa por um momento em que a credibilidade das instituições tem sido colocada à prova. Portanto, permitir que criminosos como Sérgio Cabral Filho continuem a debochar do Brasil honesto é um duro golpe nos esforços para restaurar a confiança dos cidadãos na política e no sistema de Justiça, sem a qual a democracia fica vulnerável.
Agora, o ataque à alta da comida
Por Celso Ming / O ESTADÃO DE SP
Na sua primeira reunião ministerial deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva avisou que seu principal inimigo a derrotar, de modo a garantir algum sucesso nas eleições de 2026, é a inflação dos alimentos.
Esta não deixa de ser uma novidade, porque, até agora, o governo dizia que tratava de garantir o crescimento econômico e a criação de empregos. Viu que mais PIB e contratações não vêm ajudando na imagem. O aumento dos preços da comida pesa na popularidade do governo.
Em 2024, os preços dos alimentos subiram 7,69%, segundo dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo. Entre os maiores impactos estão a alcatra, 21,1%; café, 39,6%; óleo de soja, 29,2%; e o leite longa vida, 18,8%. Ou seja, na percepção do consumidor, que não come PIB, como advertia a economista Maria da Conceição Tavares, a vida ficou muito mais difícil. Por aí se vê que, por vias transversas, o governo Lula passa a admitir que a fonte de insatisfação do eleitor não está na má divulgação dos sucessos na administração econômica do governo; está na corrosão do salário pela inflação. Ou seja, não está em algum problema de comunicação; está na maneira como o governo vem lidando com o aumento do custo de vida.
Nesse ponto, o governo incorre no risco de outro erro de diagnóstico. O de achar que a inflação da comida se deveu apenas a eventos climáticos – chuvas demais e inundações no Sul ou seca em algumas regiões – que produziram escassez e carestia.
Tende a esquecer ou a não levar em conta dois outros fatores: o aumento artificial da demanda em consequência do forte despejo de dinheiro no mercado pela gastança do governo, não acompanhada pelo aumento da produção (hiato do produto); e a escalada do câmbio, ou a alta do dólar de 27,3% em 2024. Essa desvalorização do real tem a ver com o fator já apontado: o do aumento do rombo fiscal que, por sua vez, derrubou a confiança na política econômica e empurrou o mercado à compra de moeda estrangeira.
Se o presidente Lula tivesse chegado às verdadeiras causas da alta dos alimentos, teria feito mais para reequilibrar as contas públicas, conter a dívida e recuperar a confiança do brasileiro na administração da economia. Ao contrário, o presidente Lula vem corroendo o prestígio do ministro Fernando Haddad, quando não aceita suas ponderações em direção à responsabilidade fiscal e o culpa por trapalhadas na condução da economia, como ficou demonstrado no último episódio das notícias fake sobre a taxação do Pix.
De nada adiantará o combate à inflação na base do gogó e das novas técnicas a serem usadas pelo novo secretário das Comunicações, o marqueteiro Sidônio Palmeira, se o governo não enfrentar sua causa mais profunda: o rombo fiscal.
Governo só exibe despreparo ao mirar preço de alimento
O Brasil viveu em 2024 uma grande seca e incêndios disseminados, além de enchentes que destruíram parte do Rio Grande do Sul. Um dos resultados desses desastres foi perda na produção de carnes, leite, arroz, café, açúcar e laranja, por exemplo, afora danos na horticultura. Houve problemas climáticos no mundo, fora a demanda elevada por certos produtos.
Além do mais, a moeda brasileira passou por aguda desvalorização —em grande parte, pelo descrédito da política econômica do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que impulsionou o crescimento do PIB por meio de expansão insustentável do gasto e da dívida pública. Isso teve impacto na inflação, particularmente na de alimentos.
O país ainda convive com grau elevado de inércia inflacionária —vale dizer, o encarecimento de algumas mercadorias tende a afetar outras; o consumo, ademais, está em nível alto, dado o desempenho robusto da atividade econômica, o que facilita o repasse de custos para os consumidores.
Esse é o cenário da elevação recente dos preços da comida, que suscitou reações desencontradas de um governo ora obcecado por críticas nas redes sociais.
O presidente da República pediu a seus ministros que tomem providências rápidas a respeito do tema—dando mostras de que a gestão petista não tem consciência das causas da inflação, imagina que possa tomar medidas relevantes no curto prazo e, de quebra, arrisca-se a comprometer ainda mais seu prestígio.
O custo dos alimentos consumidos em domicílio aumentou ao longo do ano passado, com alta de 8,2%. O fenômeno teve dois efeitos na percepção da carestia.
Primeiro, atingiu itens essenciais: carnes, óleo de soja, café, arroz, laticínios. Segundo, agravou um problema que persiste desde a epidemia de Covid-19: embora o avanço do valor médio dos rendimentos do trabalho supere o da inflação, o nível do preço da comida continua acima do normal.
Houve grande descolamento desse segmento em relação a salários, o que é muito evidente a partir do terço final de 2020. De fins de 2019 até agora, registrou-se encarecimento de mais de 60% dos alimentos que se consomem em casa, ante expansão média de cerca de 40% dos rendimentos do trabalho. A distância voltou a crescer a partir de agosto do ano passado.
Um governo, em tese, pode tomar medidas para tornar mais eficientes a produção e a distribuição de alimentos: estudos sobre localização de lavouras, mitigação da crise climática, crédito, assistência técnica, seguros, transportes melhores, diminuição do poder de mercado de firmas, tributação comedida. Em uma perspectiva otimista, isso tem efeito no médio prazo.
Salvo algum milagre, Lula não conseguirá conter preços de imediato —sendo mais prováveis intervenções desastradas ou novas polêmicas inúteis, como ao aventar a flexibilização de prazos de validade de alimentos.


