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Tombo na popularidade de Lula fez Nísia virar ministra 'trocável'

Bernardo Mello Franco / Um olhar sobre a política e o poder no Brasil/ O GLOBO
 
 

No sétimo mês de governo, Lula declarou que não demitiria Nísia Trindade do Ministério da Saúde. “Tem ministros que não são trocáveis. Tem pessoas e funções que são uma coisa da escolha pessoal do presidente da República”, disse. “A Nísia não é ministra do Brasil, ela é minha ministra”, acrescentou.

 

A titular da Saúde estava na mira do Centrão, que tentava derrubá-la para pegar a chave do cofre do SUS. Sem filiação partidária, ela conseguiu resistir aos torpedos disparados do Congresso. Ontem sucumbiu ao fogo amigo do Planalto.

 

Nísia passou dois anos e dois meses no cargo. Enfrentou diversas crises, mas só se tornou “trocável” quando pesquisas apontaram um tombo na popularidade do governo. Transformada em bode expiatório, ela viu sua cadeira virar alvo de cobiça no PT. Agora será substituída pelo deputado Alexandre Padilha, que deixa o abacaxi da articulação política para assumir um dos maiores orçamentos da Esplanada.

 

A escalação de ministros é prerrogativa do presidente, mas Lula deveria ter poupado sua auxiliar da fritura pública. Respeitada no meio acadêmico, Nísia foi exposta a uma demissão em câmera lenta. Na semana passada, sua pasta teve que emitir uma nota oficial para informar que ela ainda integrava o governo. A ministra acompanhou a própria queda pela imprensa, sem que o chefe se dignasse a procurá-la.

 

O constrangimento chegou ao ápice ontem, quando Nísia foi ao palácio anunciar um acordo com o Butantan para a produção de vacinas. A ministra falou em tom de despedida e foi ovacionada pela plateia. Lula permaneceu em silêncio e não leu o discurso que sua assessoria havia preparado. Horas depois, o Planalto confirmou a troca e informou que “o presidente agradeceu a ministra pelo trabalho e dedicação”. Ele poderia ter feito isso diante das câmeras, mas optou pela demissão por escrito.

 

Primeira mulher a comandar o Ministério da Saúde, Nísia herdou uma pasta arrasada pelo governo Bolsonaro. Sua gestão teve problemas, como a explosão dos casos de dengue em 2024, mas expurgou o negacionismo e tirou o país do mapa do sarampo. Já seria o suficiente para que ela tivesse direito a uma saída mais honrosa.

 

Lula e Nísia Trindade em cerimônia no Planalto, horas antes da demissão da ministra

 

Lula e Nísia Trindade em cerimônia no Planalto, horas antes da demissão da ministra — Foto: Cristiano Mariz / O Globo

Lula precisa de seu próprio 'Desenrola'

Por Vera Magalhães / O GLOBO

 

 

Num momento em que atira para vários lados em busca de uma bala de prata que lhe devolva a popularidade ainda em queda, o presidente Lula carece, neste terceiro mandato, de seu próprio Desenrola, pois vem se esmerando em dificultar ainda mais as coisas para si.

 

A demissão de Nísia Trindade da Saúde, que cravei no site do GLOBO ainda no início da tarde de sábado, só foi confirmada nesta terça-feira, mesmo assim de forma oblíqua, que expôs uma cientista respeitada no meio acadêmico a um desgaste desnecessário e imerecido. Sim, porque uma coisa é reconhecer que Nísia padecia de problemas de gestão, que venho apontando nesta coluna há pelo menos um ano e que nada tinham a ver com a cobiça do Centrão por sua cadeira, aqui repudiada. Outra, completamente diferente, é submeter uma auxiliar a humilhação pública.

 

De nada adianta culpar a imprensa por cumprir sua obrigação de informar conversas, movimentos e decisões do presidente da República e de seus auxiliares mais próximos. Buscar bodes expiatórios para a forma atabalhoada como Lula vem conduzindo os processos nessa sua volta ao Planalto só dificultará que ele encontre a saída do labirinto de popularidade em que está metido.

 

Se a reforma ministerial está anunciada pelo menos desde o segundo turno, e se já começou torta com a demissão, também em capítulos, do responsável pela comunicação do governo, Paulo Pimenta, era de esperar que ela fosse feita de forma racional e ordenada, com diagnóstico mais claro do que se quer — e que a mudança na maneira de comunicar as coisas (para fora e para dentro) já começasse a surtir efeito.

 

É inútil investir em vídeos simpáticos de Lula e Janja nas redes sociais para tentar aumentar a aprovação do petista quando os problemas de fundo seguem tratados na base da tentativa e erro, e mesmo a configuração do primeiro escalão atende a critérios tão pouco claros e a um cronograma tão atabalhoado.

 

Lula quer baixar a inflação com um estalar de dedos e, se não for possível, quer dar um jeito de anestesiar a população insatisfeita com a alta dos preços baixando medidas no varejo, como a ainda não detalhada liberação do saldo congelado do FGTS daqueles que optaram pelo saque-aniversário, mas foram demitidos depois e não puderam acessar o valor remanescente.

 

O casuísmo da medida fica evidente por um contexto óbvio: ainda em janeiro, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, disse na reunião ministerial que “sonhava” em acabar com essa modalidade de saque-aniversário, uma criação do governo de Jair Bolsonaro.

 

Não só não acabará, como o saque-aniversário parece ter passado a ser visto como uma forma de injetar dinheiro nas contas de quem compra menos com o salário. Qual a duração da medida? E, mais que isso, qual a chance de algo tão pontual levar quem acha o governo ruim a mudar de ideia?

 

Ainda no afã de melhorar sua avaliação, Lula parece aflito por marcas de gestão. Como o próprio Desenrola, aqui citado, não decolou, e o Pé-de-Meia, apontam ministros e especialistas em educação, tem alcance tão restrito que também não consegue emplacar, voltou suas baterias para o programa Mais Acesso a Especialistas.

 

Mas, de novo, quem é da área da Saúde diz que não será essa a salvação da lavoura e que os velhos mutirões conseguem resultados mais rápidos e mais facilmente associáveis ao governo federal por parte da população.

 

Se o presidente desenrolar seus processos decisórios, de preferência sem queimar aliados na fogueira da desorganização, passar a ouvir mais, retomar a ideia de frente ampla que o elegeu e deixar seu time saber o projeto para estes dois anos de mandato — não um slogan, mas um propósito —, deixará de criar mais dificuldades para a própria recuperação.

Congresso promete ao STF individualizar autor de emenda e votá-las em comissões

Raphael Di Cunto / FOLHA DE SP

 

 

As Mesas Diretoras da Câmara dos Deputados e do Senado Federal prometeram nesta terça-feira (25) ao STF (Supremo Tribunal Federal) individualizar o nome dos autores das emendas de relator e de comissão para tentar destravar a execução desses recursos.

Essas emendas são alvo de críticas por não identificarem o parlamentar responsável por decidir como seria gasto o dinheiro público.

Em resposta encaminhada ao STF, o Congresso listou medidas que serão adotadas para dar mais transparência e rastreabilidade a esses recursos, como a padronização de atas com as decisões das bancadas estaduais e comissões temáticas sobre a escolha de como serão gastas as verbas e planilhas para que deputados e senadores indiquem o beneficiário.

O Legislativo ainda se compromete a aprovar um projeto de resolução com essas normativas e determinar que as comissões votem, até 31 de março, se concordam com a forma como foram distribuídas as emendas de 2024 ou se querem modificá-las.

O pagamento das emendas de comissão se tornou alvo até de investigação pela Polícia Federal, por determinação do ministro Flávio Dino, porque os líderes partidários enviaram ofício ao governo assinando, conjuntamente, a autoria de todas as emendas, na tentativa de mantê-las sob sigilo. Agora, eles prometem votar as indicações e individualizar o autor.

A promessa ocorreu em resposta aos questionamentos do ministro Flávio Dino sobre as ações adotadas para garantir a rastreabilidade das emendas parlamentares ao Orçamento. A iniciativa marca uma tentativa de distensionar as relações do Congresso com o Judiciário após a eleição dos novos presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

"Ao longo de todo esse processo, o Senado Federal e a Câmara dos Deputados têm participado com seriedade, lealdade processual e boa-fé, assumindo as responsabilidades que lhes competem e procurando cumprir as determinações desta Suprema Corte e deste eminente relator", afirmou a advocacia das duas Casas no processo.

Uma audiência de conciliação entre a cúpula do Congresso e Dino está marcada para quinta-feira (27) e a expectativa do Legislativo é sair da reunião com a liberação das emendas parlamentares. A distribuição das comissões da Câmara e a votação do projeto da LOA (Lei Orçamentária Anual) de 2025 estão dependendo dessa decisão.

Na petição ao STF, o Congresso também anexou um plano de trabalho negociado com o Poder Executivo com os prazos e informações necessárias para adaptar o portal da transparência às novas regras de divulgação dos autores e apoiadores das emendas.

A discussão sobre o assunto se arrasta desde agosto passado, quando Flávio Dino determinou a suspensão de pagamentos enquanto não houvesse medidas para garantir mais transparência a esses recursos.

HUGO MOTA E ALCOLUMBRE

Inflação, discurso velho, petróleo novo e golpe de Bolsonaro, nada ajuda Lula

Vinicius Torres Freire / Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA) FOLHA DE SP

 

Luiz Inácio Lula da Silva tem feito campanha para que se explore petróleo na bacia da Foz do Amazonas, no mar que fica diante do Amapá e da Ilha de Marajó, no Pará. Quase metade dos brasileiros (49,7%) é contra, 16,5% são indiferentes, 20,8% pensam como o presidente.

E daí? Nem nesse assunto, em tese lateral em termos políticos, o discurso de Lula está colando. Não quer dizer que iniciativas de governo devam se curvar, ponto a ponto, a desejos imediatos ou ideias circunstanciais da população.

Apenas se observa que nem aí Lula faz pontos na pesquisa MDA para a Confederação Nacional do Transporte (CNT). O presidente tem procurado falar ainda mais nas escolas, nas ruas, campos, construções, em rede nacional ou em rádios locais. Vai colar?

Para 60,1%, os discursos de Lula são "desatualizados e repetitivos" (para 32%, "atualizados e propositivos"). Não parece ser assim porque Lula tenha muitos anos de vida. Para 43,6%, a idade do presidente não é relevante; para 17,3%, dá a vantagem da experiência (quase 61% contra o "etarismo", pois). Tem algo mais aí.

 

Para 64,8%, Lula "não merece" um quarto mandato. Para 62%, o governo está "no rumo errado". Para 44,5%, o governo "está pior" do que o de Jair Bolsonaro (para 36,4%, "está melhor").

Na pesquisa MDA/CNT de novembro de 2024, o governo Lula era melhor do que o do capitão das trevas para 41% (ante 36% dos que preferiam os tempos de Bolsonaro). Em janeiro de 2024, Lula ganhava por 48% a 29%.

O que houve de tão desastroso em um ano? Inflação apenas não explica. A pesquisa MDA/CNT foi feita entre 19 e 23 de fevereiro, com 2.002 entrevistas e margem de erro de mais ou menos 2,2 pontos percentuais.

Lula ou seu governo são culpados pela inflação por 41% do eleitorado (ou estão entre os responsáveis para mais de 51%). Comerciantes são responsáveis para 5,3% —na semana passada, Lula culpou "intermediários" que "assaltam" o povo pela carestia dos combustíveis. As expectativas quanto a emprego, renda, segurança e até saúde, serviço que muda devagar, pioraram.

O Datafolha havia revelado o desmoronamento da popularidade presidencial. A pesquisa MDA/CNT mostra detalhes das ruínas. Lula é "ruim/péssimo" para 44% (31% em novembro) e "ótimo/bom" para 29% (35% em novembro). Chegou aos níveis de desprestígio de Bolsonaro.

Por falar na personagem, talvez o processo do golpe não cause tanto estrago assim no capitão da extrema direita: 31,7% dizem nunca ter ouvido falar da denúncia por acusação de golpe etc. Outros 39,7% ouviram falar "superficialmente" do assunto.

O caso não parece ter causado muito interesse ou escândalo. Ainda assim, 63,4% são contrários à mudança na Lei da Ficha Lima, uma tentativa de livrar Bolsonaro das penas de seus crimes.

Já houve reviravoltas grandes nas taxas de aprovação de governos. Fernando Henrique Cardoso saiu de 8% de "ótimo/bom" em outubro de 1999, depois da grande desvalorização do real, para 33,3% em março de 2001.

A marca mais baixa de Lula na pesquisa MDA/CNT havia sido em junho de 2004 (29,4% de "ótimo/bom"). Em agosto de 2006, com mensalão, com tudo, foi a 43,6%, na boca da campanha eleitoral.

Sim, não havia desgastes de três mandatos, envelhecimento de ideias, palavras ou ações, redes sociais e onda mundial de direita ou "polarização".

Lula premia a fidelidade em vez da competência, em um governo sem convicções

Por Carlos Andreazza / O ESTADÃO DE SP

 

Preocupada com o Orçamento ainda não aprovado pelo Parlamento, a Fazenda suspendera a concessão de crédito rural subsidiado. Não havia dinheiro – a alta dos juros tornara caríssima a subvenção. Decisão correta, inexistente a grana para cobrir o buraco arrombado pela disparidade entre as taxas – escassez agravada pela restrição adicional aos gastos, incerta a Lei Orçamentária de 2025.

 

 

O cronista elogiou. Elogiou o que – logo se saberia – já era nova corrente de telefone sem fio. Não se pode elogiar. Nunca se deve elogiar ato de quem não tem convicção. Baterá muito a cabeça quem, não tendo convicção, tampouco se comunica. Batata.

A gritaria do agronegócio fez o governo – o Palácio não sabia – recuar e abrir nova frente de puxadinhos. Quem não chora, não mama. Quem não se comunica, se trumbica. E Lula – sempre pego de surpresa – pediu solução imediata; donde a medida provisória liberadora de créditos extraordinários. A solução previsível – gastadora – do governo desarticulado que, sempre assustado, reage com improvisos.

 

Serão R$ 4 bilhões para assegurar as linhas do Plano Safra. Haddad explicou: “É como se tivesse sido aprovado dentro do Orçamento, com os limites do arcabouço.” O ministro nos convidando ao teatro – também desafio à fé – em que dinheiros não submetidos à regra fiscal o serão adiante. Até lá, deveremos fingir que está tudo certo. “Vamos depois acomodar dentro dos limites do arcabouço fiscal”. Acomodarão depois igualmente os bilhões do Pé-de-Meia. E do Auxílio-Gás 

 

Acomodada mesmo é a situação do fiscalista É-Como-Se Haddad, colaborador cuja competência se verificaria pelo número de barbaridades que terá evitado. Métrica de aferição impossível. Privilégio que não teve a ministra da Saúde, a ser demitida – sem qualquer crise do Pix na conta – por administração insuficiente. Lula já informou que ela cairá.

 

Cairá por incompetência. É o que se planta. Teve muitas chances. Foi avisada várias vezes. Não entregou. Cairá – eis a versão que prospera – por não ter conseguido tocar programas que o Planalto considera obras-primas, incapaz de implementar a contento o tal “Mais acesso a especialistas”. O nome é esse mesmo – o que só agora parece incomodar os sidônios mais atentos.

 

O presidente estaria ainda insatisfeito – quase março de 2025 – com o ritmo da campanha de combate à dengue. Mas incompetente, desprovida de senso de urgência, é a ex-ministra em atividade. Para cujo lugar virá Alexandre Padilha – a ser de repente gestor do terceiro maior orçamento da União, depois de passar quase dois anos sendo chamado, sobretudo dentro do governo, de incompetente.

 

A mensagem é clara. Lula premia a fidelidade. Para resolver um problema de incompetência na Saúde, promove um ministro considerado incompetente na articulação política. Premiação ousada.

 

 

 

Foto do autor

Opinião por Carlos Andreazza

Andreazza foi colunista do jornal O Globo e âncora da Rádio CBN Rio, além de ter colaborado com a Rádio BandNews e com o Grupo Jovem Pan. Formado em jornalismo pela PUC-Rio, escreve às segundas e sextas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ventos conservadores

Merval Pereira /Uma análise multimídia dos fatos mais importantes do dia / O GLOBO
A vitória da centro-direita na Alemanha é um ponto importante na onda conservadora que vai dominando os principais países do mundo. A centro-direita está tomando conta da política europeia. Há uma convergência de pensamento e objetivos com Donald Trump nos Estados Unidos que isola a esquerda, mesmo a não radical. A direita ganhou a Europa quase inteira. É um dos resultados mais acachapantes desde a fundação da União Europeia: Grécia — Nova Democracia (centro-direita); Bulgária — GERB (direita); Hungria — Fidesz (direita); Finlândia — KOK (direita); França — RN (direita); Áustria — FPO (direita); Alemanha — CDU (centro-direita). Anteriormente, já ganhara na Polônia, na Hungria e na Itália.
 

Venceu noutros países, como Nova Zelândia, e na América do Sul, no Uruguai, no Paraguai, no Equador e na Argentina. A social-democracia, que já teve momentos de domínio em toda a Europa, hoje está em decadência. Centro-direita e direita são responsáveis pela nova visão geopolítica do mundo. O grave é que a extrema direita obteve votação histórica na Alemanha. A tendência para o centro é crucial para frear esse avanço. Principalmente se o governo eleito não precisar fazer coligação com a extrema direita, isolando-a num nicho eleitoral. A União Democrata-Cristã (CDU) terá de formar um governo mais amplo, que impeça o radicalismo de chegar realmente ao poder. Do jeito como vai, a extrema direita prosseguirá com vitórias eleitorais.

 

Com a ascensão da direita, o Ocidente está em modo de sobrevivência e a Pax Americana, em dissolução, analisa um conhecedor da cena internacional. As democracias parecem estar em busca de lideranças fora do establishment da esquerda hegemônica. Isso pode ser definido como uma onda conservadora contra o establishment social-democrata, que prevalecia tanto na Europa quanto na América Latina. Os liberais-democratas e sociais-democratas deveriam ter adensado o centro, evitando a polarização contra socialistas. A geopolítica parece guiar a sociedade. Não é mais a política econômica, mas a economia política que prevalece.

 

A vitória do candidato de ultradireita na Argentina, Javier Milei, trouxe à tona a onda direitista que chega não apenas na América do Sul, mas no mundo. Esse estado de espírito, que ameaça superar a “onda vermelha”, ou pelo menos “cor de rosa”, que parecia ter se iniciado com a vitória de Lula há dois anos, poderá influenciar os movimentos no Brasil — apesar das inúmeras denúncias de que o ex-presidente Bolsonaro é o cabeça dos movimentos golpistas do 8 de Janeiro, segundo a Procuradoria-Geral da República.

 

Na Alemanha, o avanço do Alternativa para a Alemanha (AfD) na antiga Alemanha Oriental vai se ampliando pelo país, e o partido de ultradireita ficou em segundo lugar, superando o Partido Social-Democrata (SPD), do atual chanceler Olaf Scholz, com a CDU mantendo o primeiro. Na Espanha, a direita venceu as recentes eleições, embora o PP não tenha obtido maioria para formar um novo governo, mesmo se unindo ao Vox, que se declara herdeiro do ditador Francisco Franco e dos Cavaleiros Templários da Idade Média. Na Finlândia, a extrema direita passou a integrar o governo e, na Suécia, dá apoio decisivo ao novo governo conservador. Na Grécia, os conservadores conseguiram expressiva vitória, com três partidos de extrema direita entrando no Parlamento Nacional.

 

A principal exceção à onda direitista é a Inglaterra, onde o Partido Trabalhista voltou ao poder. A base desse movimento parece ser o aparente declínio econômico do Ocidente, embora a China dê sinais de esgotamento de seu modelo. Com a exaustão com o establishment, e os prejudicados pela decadência econômica em busca de uma saída, a disputa volta a ser entre uma base de precarizados e a elite. Forma-se um ambiente político propício ao populismo de direita, caso os atuais governantes de esquerda não mostrem resultados. O espírito do tempo parece ser conservador.

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