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Reprovação a Lula traduz deficiências de seu governo

Por Editorial / O GLOBO

 

 

A pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira mostra que a reprovação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva supera 60% nos três maiores colégios eleitorais do país, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Nos oito estados pesquisados, violência e saúde são as maiores preocupações. A violência é o maior problema para moradores de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. A saúde é o que mais aflige cidadãos de Minas, Paraná, Rio Grande do Sul e Goiás. Trata-se de mais um recado para Lula. Em ambos os temas, o governo federal não tem conseguido dar respostas minimamente satisfatórias à angústia dos brasileiros.

 

Na segurança, os sinais de que a situação saiu de controle estão por toda parte. Porções significativas do território são dominadas por organizações criminosas que achacam moradores, cobram taxas por serviços essenciais, impõem leis marciais e têm a audácia de impedir a entrada do Estado em seus domínios, como mostram as barricadas na entrada de comunidades do Rio. Facções do Sudeste, como a paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) ou a fluminense Comando Vermelho (CV), atuam em diferentes regiões do país e até no exterior, disseminando a violência. O problema não é novo, mas precisa ser enfrentado.

 

Disputas sangrentas entre traficantes ou milicianos se traduzem em assassinatos, tiroteios, balas perdidas, prejuízos a aulas e serviços de saúde, quando não em ataques a ônibus e prédios públicos. Nas ruas das metrópoles brasileiras, cidadãos andam com medo, em meio à explosão de furtos e roubos, muitas vezes com desfecho trágico. É óbvio que tudo isso afeta a percepção sobre o governo.

Diante do poder assustador que ganharam as organizações criminosas, os estados não conseguem combatê-las sozinhos. O ônus recai também sobre a esfera federal. É verdade que o Ministério da Justiça elaborou uma Proposta de Emenda à Constituição sensata para a área de segurança, prevendo maior participação federal e melhor integração entre as forças da lei. Mas lá se vão dois anos de mandato, e até agora tudo o que existe é uma proposta que enfrenta dificuldades para avançar.

 

Na saúde, a situação também é deficiente. O próprio Lula passou recibo, ao demitir a ministra Nísia Trindade. Embora motivos políticos tenham influenciado a decisão, são indisfarçáveis os problemas. Na gestão Jair Bolsonaro, a saúde errática foi alvo preferencial dos petistas. Mas o governo que assumiu vacilou na logística de vacinação, comprou produtos desatualizados, jogou no lixo frascos com validade expirada, hesitou diante da crise dos hospitais federais do Rio e fracassou diante da maior epidemia de dengue já registrada, responsável por 6,6 milhões de casos e 6.230 mortes no ano passado. Não se sabe se o novo ministro, Alexandre Padilha, chega ao ministério para resolver as mazelas da pasta ou apenas para atender aos desígnios de Lula, que parece encarar todas as deficiências de seu governo apenas como “problema de comunicação”.

 

A realidade das ruas é outra, como mostra a pesquisa Quaest. O cidadão que pena nas filas do SUS para conseguir consulta, exame ou cirurgia, que enfrenta a alta dos preços na feira e no supermercado ou que é obrigado a entregar o celular ao ladrão, muitas vezes sob a mira de uma arma, já se cansou. O receituário de Lula podia convencê-lo há 20 anos, mas não convence mais.

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Ministério da Saúde precisa correr atrás do prejuízo

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Luiz Inácio Lula da Silva (PT) demitiu Nísia Trindade, agora ex-ministra da Saúde. Mesmo que a pasta tenha cometido erros de gestão, a longa demora na exoneração —que a deixou exposta a críticas públicas de congressistas e até do presidente— denota não apenas pouco caso do petista, mas um governo atabalhoado.

Após o desastre sob Jair Bolsonaro (PL), a chegada de Nísia foi bem recebida por ser um nome técnico com credibilidade.

 

Formada em ciências sociais pela UERJ, suas pesquisas abordam a relação entre ciência, saúde e desigualdades. Em 2017, foi a primeira mulher a presidir a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), posto que ocupou até 2022.

No entanto, em quase 14 meses de ministério, não conseguiu deixar uma marca, melhorar de modo significativo indicadores do SUS, como filas para consultas e cirurgia eletivas, nem enfrentar de forma eficaz a tragédia anunciada da epidemia de dengue.

 

Em 2024, mais pessoas morreram pela doença no país (5.873) do que a soma dos oito anos anteriores (4.992). Em dois alertas no início de 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) havia projetado os riscos de crise sanitária em regiões como a América do Sul devido às mudanças climáticas. Contudo o Ministério da Saúde não preparou a rede básica de atendimento e protelou a autorização para a vacina Qdenga. Nísia foi demitida justamente no dia em que anunciou um acordo para a produção do imunizante do Instituto Butantan.

 

A calamidade da dengue foi usada por parlamentares para tentar avançar sobre a pasta, que movimenta verba gigantesca —a saúde pública consome 4% do PIB brasileiro, o que representa mais de R$ 450 bilhões por ano.

 

Com a hipertrofia do Congresso Nacional nos últimos anos, que gera anomalias como o uso opaco das famigeradas emendas, aumenta a pressão sobre o Executivo por nacos do poder.

 

Isso somado à queda de popularidade de Lula pavimentou o caminho para uma reforma ministerial, iniciada com a troca de Paulo Pimenta na Secom da presidência por Sidônio Palmeira. Especula-se que o vice Geraldo Alckmin (PSB) também cairá da pasta de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços para dar mais espaço ao centrão.

 

Quem ocupará o lugar de Nísia é Alexandre Padilha, que comandou a pasta da Saúde de Dilma Rousseff (PT) e é ministro de Relações Institucionais. Sua principal marca foi o Programa Mais Médicos, que teve impacto limitado nos resultados almejados.

 

Por óbvio, disputas por poder e acordos com o Congresso fazem parte, para o bem e para o mal, do presidencialismo de coalização tradicional no Brasil.

Espera-se, porém, que Lula não pense só na governabilidade e, sobretudo, na sua popularidade e na eleição de 2026 —ainda mais em áreas essenciais. Que a busca por resolver os problemas crônicos do país, missão para a qual foi eleito, seja priorizada na reforma.

 

O pior da inflação está por vir

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

O surto inflacionário, que atinge com especial intensidade os alimentos, ainda vai piorar antes de começar a apresentar alguma melhora, trazendo desafios extras para os próximos meses. Essa foi a principal mensagem do sucessor de Gabriel Galípolo na Diretoria de Política Monetária do Banco Central (BC), Nilton David, em recente evento com representantes do mercado financeiro. David assumiu o cargo em janeiro, quando Galípolo passou a presidir o BC.

 

A preleção do novo diretor do BC não difere dos prognósticos recentes do Comitê de Política Monetária (Copom) de que a inflação encerrará o primeiro semestre acima do teto da meta e somente a partir daí tenderá a se estabilizar e baixar. David salientou que até o terceiro trimestre de 2026 passará a convergir para a meta. Apesar da previsão ruim, a declaração indica disposição da autoridade monetária de manter a mira voltada à meta de 3% ao ano para o IPCA, com tolerância de 1,5 ponto porcentual (p.p.).

 

Com 4,56% no acumulado em 12 meses, a taxa continuou a estourar a meta em janeiro, mesmo com queda suave de 0,27 p.p. em relação a dezembro. Como janeiro foi um ponto fora da curva, devido à redução no custo da energia elétrica, as estimativas são de que o índice tenha voltado a subir em fevereiro. Considerando efetivos os discursos recentes de David e Galípolo, e não simples retórica, o BC continuará a subir os juros para frear a inflação. A taxa de março está desde dezembro pactuada pelo Copom: 14,25% ao ano, 1 p.p. acima do nível atual, mantidas as circunstâncias observadas no fim de 2024.

 

Nilton David não deu pistas sobre a reunião de maio, mas será esse o teste decisivo da gestão Galípolo, depois das duas decisões do Copom de certa forma antecipadas em dezembro. Até agora Lula da Silva, que durante dois anos torpedeou o BC sob a gestão de Roberto Campos Neto, tem mantido, ao menos em público, atitude condescendente com seu indicado para o comando do banco. Já disse que não esperava “milagres”, que “não é possível dar um cavalo de pau num navio como o Brasil” e que Galípolo precisa de tempo para “consertar os juros”.

 

Não tardará para Lula agir como Lula e retomar a pressão e a “briga eterna”, segundo sua própria definição, pela queda de juros mesmo diante da insegurança do cenário macroeconômico e fiscal. Nilton David lembrou, no evento, da defasagem nos efeitos de uma política monetária contracionista. Pode-se acrescentar, sem receio de errar, que a atuação solitária do BC, sem o respaldo do Executivo no necessário equilíbrio fiscal, torna a missão ainda mais árdua.

 

O Banco Central tem a perspectiva de controlar a inflação até o terceiro trimestre de 2026. É o que o banco chama de “horizonte relevante” para fazer com que a taxa se mantenha abaixo de 4,5%, limite máximo permitido para a meta de 3% ao ano. O diretor do BC afirmou que a política monetária pode estabilizar o IPCA “ao redor” de 4%. Difícil imaginar que o Planalto acompanhe com paciência o processo. Do mercado vêm sinais de confiança: o último relatório Focus trouxe leve recuo na projeção da Selic, de 15,25% para 15% neste ano, embora a mediana para o IPCA tenha subido pela 19.ª semana consecutiva, para 5,65%. Já de Lula, é quase certo que haverá mais pressão.l

‘Tudo de graça’

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

No pronunciamento que fez em rede nacional de rádio e televisão anteontem, o presidente Lula da Silva exibiu mais um elemento do manual de marketing adotado pelo novo ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência, Sidônio Palmeira. Nessa cartilha da comunicação presidencial, produzida sob a lógica de comitê eleitoral, revogam-se todas as disposições legais, morais ou políticas em desfavor de uma comunicação pública, republicana, impessoal e apartidária. O mundo mágico de Lula da Silva e de Sidônio Palmeira é outro.

 

Em pouco mais de dois minutos, o presidente leu o roteiro do seu marqueteiro não como chefe de Estado, mas como candidato; fez um comunicado não como uma prestação de contas ou informação de interesse público destinada à população, mas como uma peça de propaganda eleitoral; apresentou dois programas de seu mandato não como novidade ou celebração de um marco digno de tal, mas como uma das patranhas tipicamente lulopetistas que servem de louvação aos poderes sobrenaturais de Lula da Silva.

 

“Uma dupla que não é sertaneja, mas que está mexendo com o Brasil: o Pé-de-Meia e o novo Farmácia Popular”, anunciou o presidente, numa fala permeada com imagens de cortes e cenas de atores reproduzindo momentos dos dois programas. Sobre o primeiro, informou-se o pagamento da poupança para os jovens do ensino médio – represado em parte pela marotagem do governo de destinar recursos do programa fora da previsão orçamentária – e descreveu-se uma “ação extraordinária” que “está ajudando 4 milhões de jovens a permanecerem na escola”. A segunda notícia já fora anunciada pela agora ex-ministra da Saúde, Nísia Trindade, isto é, a gratuidade de 100% dos medicamentos do programa, além da oferta de fraldas geriátricas. “Tudo de graça”, resumiu Lula da Silva.

 

É da graça marqueteira, concentrada num presidente em campanha permanente, que se sustenta a cartilha do seu ministro da Propaganda. Na realidade onírica do lulopetismo, “tudo de graça” não se resume apenas a uma informação literal ou a uma frase de efeito, mas se revela uma ideia-força por meio da qual funciona o modo petista de governar: num País “reconstruído” por Lula da Silva, ao Estado convém dar dinheiro e medicamentos “a quem mais precisa”. Nesse esforço de um presidente convicto de que é o pai dos pobres, ignora-se que, a despeito dos méritos de tais iniciativas, nada, na prática, é de graça – o País paga a conta de qualquer benefício concedido pelo governo, legítimo ou ilegítimo.

 

Pelo que diz, como diz e quando diz, o pronunciamento é tudo menos um comunicado tradicional ao País, como os brasileiros se acostumaram a ver sempre que um presidente ou algum de seus ministros recorre à rede nacional de rádio e TV. É evidente que, em nome da boa comunicação pública, instituições e autoridades devem modernizar o formato de seus informes. Mas o que está em curso é de outra natureza: trata-se de campanha eleitoral antecipada. Não havia nenhuma urgência que demandasse um pronunciamento oficial do presidente da República. A única urgência óbvia é a queda acentuada da popularidade de Lula.

 

O ministro da Propaganda mostrou a Lula da Silva que os tempos são outros. Engolfado pelo mau momento nas pesquisas, balançado por uma coalizão instável e hostil e pressionado pela proximidade cada vez maior do ciclo eleitoral de 2026, o governo resolveu agir – do modo lulopetista, claro. Não à toa, a peça publicitária mirou em dinheiro no bolso e medicamento de graça, com foco no brasileiro pobre, aquele que passou a engrossar o índice de desaprovação ao presidente e ao governo.

 

À certa altura do pronunciamento-comício, Lula da Silva diz algo que trai suas aspirações: “Seguimos ao lado de cada brasileiro e de cada brasileira: para levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima”. A frase completa mostra que o presidente se referia à “reconstrução de um País que estava destruído”. Mas, na cosmologia lulopetista, trata-se, no fundo, de uma tentativa de fazer o governo, esse sim, sacudir a poeira e tentar dar a volta por cima.

Lula está à espera de um milagre que não virá para reverter baixa popularidade

Por Fabiano Lana / O ESTADÃO DE SP

 

 

Para quem costuma fazer associações entre a popularidade e economia, a rápida erosão da aprovação do presidente Lula é ainda um mistério. Se por um lado há sinais de paralisia na atividade econômica no ar, por outro um crescimento de cerca de 3,5% do PIB em 2024 e menores taxas de desemprego da história sugeririam números mais generosos para a atual gestão. A rejeição ao Lula tem facetas conhecidas, mas também possui elementos enigmáticos.

 

Mas a questão não para por aí. O ponto seguinte é: como reverter essa popularidade hoje no vermelho? Inclusive, uma espécie de rubicão foi atravessado. Além do ex-presidente Bolsonaro - provavelmente um futuro presidiário pela tentativa de golpe de Estado - figurar na frente das intenções de voto, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, já se encontra em empate técnico segundo sondagem da CNT/MDA. A maré está antipetista.

 

Em 2005, há 20 anos, Lula também enfrentou um inferno astral. Seu partido ficou seriamente abalado e companheiros de vida tiveram carreiras políticas exterminadas por causa do escândalo do mensalão. Mas no ano seguinte, 2006, Lula sagrou-se vencedor nas eleições derrotando o então fascista, então privatista, então fanático religioso Opus Dei, o ex-governador tucano Geraldo Alckmin – que atende neste momento como vice-presidente da República.

 

Há duas décadas Lula foi dado como morto politicamente. Decidiram “deixá-lo sangrar” até as eleições do ano seguinte, conforme expressão tão usada na época, para conquistarem novamente o Palácio do Planalto. Ficou fora do radar uma retomada surpreendente da economia a partir do chamado boom das commodities, processo que fez a arrecadação do Estado crescer e o otimismo e a sensação de bem-estar dos eleitores ser bem maior do que eventual reservas populares contra o PT. Um detalhe crucial, em seu primeiro mandato Lula se concentrou em ajustar as contas públicas e depois em distribuir benesses.

 

Mas o que o presidente tem hoje a apresentar? O que tem a esperar? Será que os programas “Pé-de-Meia” e “Farmácia Popular”, incensados ontem em rede nacional de TV, podem ter um papel semelhante ao poder eleitoral de um programa Bolsa Família? Sem chances. A sociedade é outra, os mais jovens não assistem mais televisão, e a oposição também lembra muito o PT dos anos 90: é implacável com o governo, só quer o seu pior. Há algum outro boom de commodities à vista? Não é o que dizem os especialistas. Pelo jeito, só um milagre – que não parece provável quando se examinam as circunstâncias.

 

Aliás, a pensar no programa oficial de televisão de ontem, os anúncios veiculados são páreo para correntes de WhatsApp que, verdadeiramente, mostram a primeira-dama Janja da Silva em viagem de classe-executiva para Roma, num valor acima de R$ 30 mil, mesmo sem ter direito legal a esse privilégio? São páreo para o ex-ministro Antonio Palocci, mesmo após tantas confissões públicas, estar livre das garras da lei? Que tipo de informação corre mais rápido, a oficial ou a das correntes anárquicas das redes? Será que alguém acredita de verdade que o governo é ótimo, mas prejudicado pelas fake news que embaçam a capacidade da sociedade de avaliá-lo? A ilusão é uma droga poderosa.

 

Há aquele dito de Maquiavel de que o mal se faz de uma vez e o bem aos poucos. Lula, que se acha o sabe tudo geral da humanidade, fez ao contrário. Optou pelo populismo e começou com o “bem”, ao estender o aumento do Bolsa Família no seu mandato. Agora, com inflação, déficit persistente, juros altos e certa paralisia econômica pela frente, parece só ter o mau aos poucos a mostrar. Talvez deveria ter ficado mais atento ao que dizia o pensador florentino da política real. Agora é tarde e a outra opção é o milagre ou uma divisão bizarra dentro da direita.

Foto do autor
Opinião por Fabiano Lana

Fabiano Lana é formado em Comunicação Social pela UFMG e em Filosofia pela UnB, onde também tem mestrado na área. Foi repórter do Jornal do Brasil, entre outros veículos. Atua como consultor de comunicação. É autor do livro “Riobaldo agarra sua morte”, em que discute interseções entre jornalismo, política e ética.

Mudar ministros requer etiqueta

Elio Gaspari / Jornalista e escritor / O GLOBO

Lula troca alguns de seus ministros numa humilhante fritura pública que desqualifica o próprio governo. Em setembro de 2023, sem uma só palavra de agradecimento, ele demitiu a atleta Ana Moser do Ministério dos Esportes, colocando em seu lugar o deputado André Fufuca (PP-MA). Tratava-se de trocar competência na equipe por votos do Centrão na Câmara.

 

Numa operação semelhante, em 1996, o presidente Fernando Henrique Cardoso viu-se obrigado a dispensar a ministra Dorothea Werneck, da Indústria e Comércio. Visitou-a, comoveu-se e registrou em seu Diário: — Fui ficando com raiva de mim mesmo. O cavalheirismo foi uma das marcas da presidência de FH.

 

Depois da dispensa de Ana Moser, a descortesia mudou de patamar. Em janeiro passado, Lula trocou o ministro da Secretaria de Comunicação, Paulo Pimenta, submetendo-o a fritura pública, desqualificando seu trabalho. Como Pimenta é um velho companheiro do PT, seria um tipo especial de jogo jogado.

 

Num novo lance, fritou a ministra Nísia Trindade. Há mais de uma semana ela dava expediente enquanto circulavam rumores de que seria substituída pelo colega Alexandre Padilha. Há dias, em Itaguaí, Lula disse que “de vez em quando a gente erra, mas na maioria das vezes a gente acerta e escolhe um ministro de qualidade”. A gente quem, cara-pálida? Quem escolhe os ministros é o presidente da República.

 

Esse tipo de tratamento para os ministros que serão dispensados ofende também os que permanecem e inibe eventuais postulantes. Chegar ao ministério pode ser uma ambição de pessoas qualificadas, mas o risco de uma dispensa humilhante não vale a pena correr. Para um candidato desqualificado, tanto faz, pois seus interesses são outros.

 

Há algo imperial nos maus modos de Lula. Na segunda-feira, ele revelou que, numa conversa com um presidente da Petrobras, soube que a empresa pretendia comprar uma sonda coreana e disse-lhe:

 

— Não vai comprar. Se você comprar, a mesma caneta que te colocou na presidência vai te tirar da presidência. Nós vamos fazer aqui.

 

Lula não revelou quando ocorreu esse diálogo, mas falava de corda em palácio de enforcado. A construção de sondas para explorar petróleo gerou a Sete Brasil, empresa que faliu em dezembro passado, deixando um espeto de R$ 36 bilhões e recordações de uma tenebrosa caixinha, revelada na colaboração do ex-ministro Antonio Palocci, designado para administrá-la.

 

A postura imperial de Lula espelha a conduta de dois presidentes excêntricos: João Figueiredo (1979-1985) e Jair Bolsonaro (2019-2022).

Dispensar ministro é coisa que exige alguma etiqueta dos presidentes e de suas vítimas. Lula tem sido brindado com a elegância dos colaboradores que demitiu. Nenhum deles saiu atirando.

 

Em 1953, Getúlio Vargas demitiu por telegrama o ministro da Educação, Ernesto Simões Filho, que estava na Europa. O governo começava a ir mal das pernas, e Simões recusou-se a reclamar, com uma frase que vale tanto para quem sai, como para quem tira: — Perdi a pasta, mas não perdi a educação.

 

Lula ao lado de Nísia TrindadeLula ao lado de Nísia Trindade — Foto: Evaristo Sá/AFP/20-03-2023

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