Políticos de direita têm mais que o dobro do engajamento de esquerda, centro e centrão juntos
Raphael Di Cunto / FOLHA DE SP
A direita domina as redes sociais no país, mas qual é a dimensão dessa soberania? Dados da consultoria Bites compilados pela Folha dão uma pista do tamanho do problema para o governo Lula (PT): os principais políticos de esquerda têm, somados, menos da metade dos seguidores da direita e registraram apenas um terço do engajamento obtido por eles este ano.
As publicações da direita receberam, em 2025, um engajamento (considerando números de curtidas, comentários e compartilhamentos) equivalente a 2,5 vezes o gerado pelas postagens de políticos de esquerda e de partidos de centro e centro-direita, somados. Quanto mais interações, maior o público que uma informação atinge na internet e maior sua repercussão.
O recorte feito pela Folha considera os 250 deputados federais, senadores, presidente, ex-presidente, ministros, primeiras-damas, governadores e prefeitos de capitais com maior número de seguidores. A Bites levantou a pedido da reportagem os dados das cinco principais redes sociais no país: Facebook, Instagram, YouTube, TikTok e X (ex-Twitter) de 1º de janeiro a 30 de maio.
O número de parlamentares até alcança certo equilíbrio por esse recorte: 84 são de centro ou do centrão, 88 da direita e 78 da esquerda. O engajamento dos perfis ligados à direita, no entanto, é bem maior.
De acordo com o levantamento, os políticos de direita alcançaram 1,48 bilhão de interações nos cinco primeiros meses do ano. Os de esquerda chegaram a apenas 417 milhões. Políticos de partidos de centro e do centrão tiveram resultado ainda mais tímido: 171 milhões de reações ao conteúdo postado.
A direita também apresenta um engajamento maior a cada postagem feita, com média de 12.894 interações por publicação. No caso dos aliados do presidente Lula, essa cifra cai a 4.699, em média. Já no centro e no centrão, fica em 3.900.
O diretor técnico da Bites, André Eler, afirma que um dos motivos para essa diferença numérica é que a direita é mais organizada e afinada nas redes. "É uma bolha mais ativa e mais engajada, o que acaba gerando um volume maior de interações. Tem mais gente interessada o tempo inteiro nesse conteúdo."
Já a esquerda, ressalta Eler, tem mais dificuldade de atuar em uma linha unificada. Ele dá como exemplo os deputados federais Guilherme Boulos (PSOL-SP) e Tabata Amaral (PSB-SP), que são figuras influentes desse campo político nas redes sociais, mas muitas vezes têm discursos antagônicos.
Outro problema da esquerda, aponta o diretor da Bites, é a falta de organização. Nem todos os ministros do governo possuem redes sociais, e a principal liderança do grupo, o presidente Lula, muitas vezes não entra nos embates.
Somados, os 33 ministros do petista que possuem redes sociais (cinco não têm perfis públicos) têm juntos pouco mais da metade dos seguidores que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) possui sozinho.
A lista é puxada por dois nomes que foram candidatos à Presidência em anos recentes: Fernando Haddad (Fazenda), com 7,2 milhões, e Marina Silva (Meio Ambiente), com 5,7 milhões.
Políticos de centro e do centrão, no geral, exibem menos afinidade com as redes sociais, mas têm investido nessa interação como ferramenta alternativa de conquistar votos.
O atual presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), adotou uma forma mais descontraída de se comunicar, mas ainda não atinge um público amplo. Seus perfis são seguidos por 300 mil, somadas as cinco principais redes sociais. É apenas o 210º entre os políticos, de acordo com a lista da Bites, e está bem atrás de vários dos seus colegas parlamentares.
Motta, porém, tem sido um dos políticos do centrão com maior engajamento no conteúdo que publica, com, em média, 3.624 interações por post. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que já tinha exercido o cargo em 2019 e 2020 e possui 627 mil seguidores, recebe em média 1.129 reações por publicação.
Ficam, no entanto, aquém dos números alcançados pela esquerda —que direcionou sua artilharia nas redes sociais recentemente contra o Congresso por causa da derrubada do decreto do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e de dificuldades para aprovação da pauta do governo.
As estrelas dos partidos de centro e centro-direita nas redes são pessoas de fora da política tradicional, como humoristas, influenciadores ligados à causa animal ou de pessoas com deficiência, cantores e religiosos, que muitas vezes não publicam conteúdos relacionados a seus mandatos.
É o caso do deputado federal Fábio Teruel (MDB-SP), cantor gospel que compartilha orações no YouTube. Ou do deputado Célio Studart (PSD-CE), cujo último vídeo no Instagram mostra "ator de Superman se encantando com doguinho fantasiado em evento no Brasil".
Além deles, outros políticos desse campo com relevância nas redes são prefeitos e governadores populares, como Eduardo Paes (PSD), que administra pela quarta vez a cidade do Rio de Janeiro.
Segundo Eler, da Bites, esse perfil político tem mais dificuldade de engajar em pautas por estar fora da polarização das redes.
"Na prática, são pessoas que vão depender da política mais tradicional, de emendas parlamentares e de cargos, para se destacarem. Obviamente isso funciona, e funciona bem, mas é outra forma de operar política, diferente dessa de operar nas redes", diz Eler.
Lula erra e escolhe confrontar o Congresso no IOF
A atribuição de determinar quanto a sociedade trabalhará para sustentar o Estado não cabe ao chefe do Executivo em regimes democráticos. Se quem comanda a máquina pública também puder decidir o volume dos impostos, abre-se a porta para confiscos e outros arbítrios.
O Parlamento, este sim incumbido de votar leis que elevam ou reduzem a tributação, costuma abrir exceções e autorizar o governo a ajustar tarifas quando se trata de impostos regulatórios.
O Imposto sobre Operações Financeiras —resquício de políticas ultrapassadas de controle de capitais— é dessas exceções no Brasil. Faculta-se ao Executivo alterar bases e alíquotas do tributo desde que aja para "ajustá-lo aos objetivos da política monetária".
Ao decretar a elevação do IOF em 11 de junho, a administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não fez segredo de que seu intuito era tapar o buraco de arrecadação ante a disparada do gasto e poupar o Orçamento de corte adicional de despesas. Não havia a mais remota motivação regulatória na movimentação.
O decreto foi fulminado por ampla margem no Congresso Nacional, e Lula, incapaz de convencer até mesmo partidos que compõem o seu ministério de sustentar a sua decisão, recorre agora ao Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar ganhar na corte o que perdeu no Parlamento.
A decisão reforça a percepção de que a sagacidade do petista, outrora reconhecida até por adversários, abandonou-o. A leitura correta do incidente passaria por compreender que o confronto com o Congresso, a mais de um ano da eleição, só tende a piorar a situação de Lula e do país.
Apelar ao Judiciário para corrigir a deficiência política do governo poderá até render uma vitória ao presidente, pois, como em quase todo julgamento do gênero, sempre haverá argumentos para favorecer a tese de Lula. Seria, no entanto, uma vitória de Pirro, altamente custosa pelas consequências que acarretaria.
Projetos de interesse do Planalto, como a medida provisória que eleva impostos do financiamento agrícola e da construção civil, entrariam na mira dos parlamentares. A minirreforma do Imposto de Renda, à qual Lula se apega para combater a impopularidade, correria ainda mais riscos.
Meter-se já numa disputa eleitoral daria à maioria de centro-direita do Congresso o pretexto para rasgar a fantasia e dedicar-se a sabotar quaisquer tramitações que possam render dividendos a Lula em outubro de 2026.
Sob a ótica do interesse público, desperdiça-se mais uma oportunidade de combater o moto-contínuo da gastança acionado pelo presidente da República ainda antes da sua posse. A aritmética tem sido implacável com essa escolha infeliz, sob o beneplácito de Legislativo e Judiciário.
Não há saída pelo lado da arrecadação. É preciso desligar urgentemente os mecanismos institucionais que transformam a receita extra de tributos de hoje na despesa sem lastro de amanhã.
Lulistas inundam redes sociais com m
Em sintonia com os discursos de Lula e do ministro Fernando Haddad (Fazenda), governistas têm inundado suas redes sociais com a retórica da luta entre pobres e ricos, cenário em que o presidente da República estaria entrando em choque contra poderosos interesses do status quo empresarial e financeiro.
No discurso capitaneado pelo PT, estimulado pelo Palácio do Planalto e disseminado por perfis alinhados, a campanha é formada em boa parte por vídeos produzidos por inteligência artificial e tem como mote a defesa da "taxação BBB", em referência a "bilionários, bets e bancos" —grupo que formaria um poderoso lobby em parceria com o centrão e a direita no Legislativo.
O Congresso é um dos principais alvos, em especial no varejo da rede social, onde o Legislativo aparece claramente identificado como "inimigo do povo".
O direcionamento político das redes segue o discurso e a ação de Lula, que nesta terça-feira (1º) disse enfrentar uma "rebelião" toda vez que tenta cobrar mais impostos de ricos.
A declaração foi dada pouco depois de a AGU (Advocacia-Geral da União) ingressar no STF (Supremo Tribunal Federal) para tentar resgatar o decreto presidencial que elevou alíquotas do IOF —derrubado pelo Congresso com 383 votos na Câmara, incluindo a maior parte das bancadas dos centro-esquerdistas PDT e PSB.
"Não é briga política, partidária. É a elite, junto com a direita e o centrão se unindo contra o povo brasileiro", disse em um dos vídeos postados por governistas o deputado Guilherme Boulos (PSOL-SP), cotado a ocupar a Secretaria-Geral de Lula.
Boulos e o PSOL são os que, da linha de frente lulista, mais apontam o dedo contra o Congresso. Em uma das postagens do deputado, é convocado um protesto para o dia 10 no Masp, em São Paulo, sob o mote "centrão inimigo do povo".
O PT produziu e jogou em suas redes sociais recentemente vídeos que exploram essa retórica e que foram reproduzidos nos perfis de vários políticos governistas.
Nessas peças, feitas com IA, afirma-se que Lula busca equilibrar a balança de pagamento de impostos apesar das resistências das elites econômicas.
Um dos vídeos que viralizaram é o do "boteco do Brasa", em que personagens engravatados aparecem em uma mesa ao lado de pessoas comuns querendo pagar menos na conta apesar de terem consumido champagne, caviar e lagosta. A peça já tem mais de 2 milhões de visualizações no Instagram.
Secretário de Comunicação do PT, o deputado Jilmar Tatto (SP) afirma que, semanalmente, o partido leva ao ar dois novos vídeos. Nesta quarta-feira (2), apoiadores do governo participarão de uma live com ênfase no discurso em favor da justiça tributária no Brasil.
"Finalmente, conseguimos uma coesão no governo, no PT e nos setores progressistas sobre a linha política para diálogo com a sociedade, que é fazer o andar de cima pagar impostos", disse Tatto.
Segundo um integrante do governo, essa ação mais enfática nas redes nasceu a partir de uma cobrança da ministra Gleisi Hoffmann (PT), chefe da articulação política de Lula, e conta com o apoio do ministro Sidônio Palmeira (Secom).
Já em contas alinhadas, o ataque ao centrão e ao Congresso é mais explícito. Um vídeo do perfil "brasilsatiradopoder" que circulou entre governistas, por exemplo, apresenta vídeo de IA parodiando o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).
Na peça, ele se apresenta como "Hugo nem se importa" em um jantar de luxo, fazendo piada com gastos exorbitantes e terminando bebendo uma garrafa de uísque no bico. A paródia explora o ocorrido em uma festa de São João na Paraíba, quando o presidente da Câmara aderiu a um desafio de tomar um gole de uísque direto na garrafa.
A retórica que busca colar no Legislativo o rótulo de defensor de privilégios de ricos foi um dos motivos da rebelião em que o governo foi derrotado no caso do IOF.
Na ocasião, já havia insatisfação na cúpula de Câmara e Senado com campanhas em perfis de esquerda que apontavam o Congresso como "inimigo do povo", em especial pela derrubada de vetos de Lula que devem beneficiar empresários do setor elétrico e aumentar a conta de luz.
Na segunda (30), Hugo Motta também foi às redes criticar o governo, afirmando que "quem alimenta o nós contra eles acaba governando contra todos".
O governo percebeu em junho o potencial da discussão sobre mais impostos para ricos. Naquele mês, Haddad teve um enfrentamento público com deputados bolsonaristas em torno do tema e ganhou engajamento nas redes sociais.
Nas semanas seguintes, como mostrou a Folha, Lula instruiu aliados a fazer mais contrapontos públicos ao centrão e à oposição a partir do tema dos impostos.
A propagação de posts governistas sobre taxar ricos nos últimos dias deu resultados nas plataformas abertas, como X (o antigo Twitter), Instagram e Facebook.
Levantamento da Bites, consultoria especializada em dados de ambientes digitais, mostra que ao menos os governistas da Câmara têm conseguido disputar as redes abertas com opositores de Lula.
Houve 1.120 postagens envolvendo políticos da Câmara sobre o tema desde 25 de junho, quando o Congresso derrubou o decreto do IOF. Esses posts geraram 2,3 milhões de interações –ações como compartilhamentos e curtidas.
O volume pode não ter se repetido nos grupos de mensagens. Luis Fakhouri, colunista da Folha e diretor de estratégias da Palver, empresa que também monitora redes sociais, disse que os indícios são de que o debate promovido pelo governo não está, por ora, chegando em conversas cotidianas.
A Palver analisa grupos de WhatsApp e Telegram. "Não teve uma importância muito grande a entrada do governo [na discussão] e continuou a narrativa que predominava", disse Fakhouri, se referindo a críticas de que a gestão Lula cobra impostos demais.
A explosão populista do BPC
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Há algo de muito errado quando uma política pública de combate à pobreza prevê, no longo prazo, mais do que duplicar a quantidade de seus dependentes. O objetivo prioritário de programas de redução da desigualdade social é – ou deveria ser – diminuir a pobreza e estancar o avanço da vulnerabilidade. Por isso, é frustrante a projeção de que a distribuição do Benefício de Prestação Continuada (BPC) irá crescer 111% ao longo de 34 anos, passando de 6,7 milhões de assistidos em 2026 para 14,1 milhões em 2060.
Mais preocupante ainda é saber que a estimativa parte de cálculos do próprio governo, por meio do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), responsável pela gestão do benefício. O que faz crer que ou o programa foi mal concebido, ou é mal administrado, ou seu planejamento futuro está mal direcionado, sendo que uma hipótese não exclui as outras. Uma coisa é certa: um programa cujo orçamento previsto no período passa de R$ 133,4 bilhões para R$ 1,5 trilhão definitivamente não é sustentável.
Criado pela Constituição de 1988 e previsto na Lei Orgânica de Assistência Social (Loas), o BPC começou a ser distribuído em 1996, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Substituiu o Programa Renda Mensal Vitalícia, que garantia benefício previdenciário a idosos acima de 70 anos e a pessoas vulneráveis incapacitadas de forma permanente para o trabalho. Com o passar do tempo, o limite de idade baixou duas vezes, a primeira no ano eleitoral de 1998, para 67 anos, por medida provisória convertida em lei, e a segunda em 2003, o primeiro ano da gestão petista, para 65 anos, seguindo o Estatuto do Idoso.
O conceito de pessoa com deficiência com direito ao benefício também mudou e, a partir de 2009, passou a abranger dimensão social e subjetiva, avaliada por peritos do INSS. Independentemente de idade, pessoas pobres com deficiência física ou mental podem requerer o BPC, desde que atendidos critérios como o de rendimento familiar. Havia obrigação legal de revisão na lista de beneficiários de dois em dois anos, para verificar se estavam mantidas as condições que garantiam o direito. Decreto presidencial diz agora que o benefício será revisto periodicamente, sem determinar prazos.
Pode-se deduzir que o principal problema em relação ao BPC – um benefício social justificado e com fundamento – é confundi-lo com aposentadoria vitalícia, um equívoco decerto causado pela indexação do valor do auxílio ao salário mínimo, que também rege os benefícios previdenciários. O direito à aposentadoria é concedido às pessoas com mais de 62 anos (mulheres) ou 65 anos (homens) que contribuíram para o Regime Geral de Previdência Social por, ao menos, 15 anos. Há ainda aposentadoria por tempo de contribuição (pelo menos três décadas), por invalidez e por deficiência.
Mas BPC não é aposentadoria, é um auxílio assistencial. Para recebê-lo não é necessário ter contribuído, e aí está uma questão crucial que exige uma análise realista por parte do governo e da sociedade. Ora, se uma pessoa contribui para a Previdência pelo piso ao longo de toda a vida laboral e ao se aposentar, aos 65 anos de idade, tem direito a um salário mínimo mensal, o mesmo valor de um beneficiário do BPC da mesma idade que nunca contribuiu, algo nessa conta não está certo.
O crescimento explosivo do BPC está, por óbvio, ligado a incoerências como essa. Se a “aposentadoria mínima” está garantida, mais vale atuar na informalidade, sem contribuir. Como avaliou Daniel Duque, pesquisador do FGV Ibre, ao Estadão, a indexação do BPC ao mínimo e critérios questionáveis do programa, como o que permite a concessão de mais de um BPC por família, mostram que falta foco à política pública e explicam a enorme judicialização que tem ocorrido nos pedidos do benefício.
Se frequentemente a desindexação do BPC do salário mínimo aparece em planos de corte de gastos do governo, é por pura racionalidade. Se insistentemente o presidente Lula se nega a autorizar a desvinculação, é por puro populismo.
Lula não gosta da iniciativa privada
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O incorrigível Lula da Silva demonstrou mais uma vez seu desapreço pela iniciativa privada e o proverbial cacoete de transferir para os outros a responsabilidade por seus infortúnios. Por “outros”, leiam-se os empresários, o mercado financeiro, as elites, o Ocidente e quem mais o demiurgo decidir que é inimigo do povo e do Brasil.
Vendo-se confrontado no debate público e no Congresso pela ausência de uma política fiscal previsível e crível, que o governo tenta suprir com aumento de impostos, o presidente aproveitou uma cerimônia oficial, há alguns dias, para dizer que os empresários precisam deixar seus “interesses individuais de lado” e pensar no equilíbrio econômico do País, além de “cuidar” do Brasil, em vez de, ora vejam, “jogar a responsabilidade” no Congresso ou no governo.
Dessa forma, está claro que Lula não se sente obrigado nem mesmo a fingir que era para valer a tal “frente ampla” que ele urdiu na campanha eleitoral de 2022. Dando uma banana para os empresários que o apoiaram naquela eleição porque temiam uma ruptura democrática se o então presidente Jair Bolsonaro tivesse sido reeleito, Lula determinou que quem tem dinheiro está nas hostes inimigas, que os empresários não passam de antagonistas do Brasil, que as elites sem “espírito cristão” não pensam no País, no planeta e na vida, e que o governo lulopetista é o mais legítimo – se não o único – representante do povo trabalhador. Na teoria lulocêntrica, como se sabe, Lula está biologicamente integrado aos pobres e, portanto, toda a ordem que emanar desse líder será, por princípio, uma determinação do povo; logo, é uma afronta contrariar tal líder e suas ideias, e quem o faz está a serviço das elites.
E assim chegamos ao cerne deste terceiro mandato: Lula, cujo governo está nas cordas, está determinado a ressuscitar o raivoso líder sindical da década de 1980, que nunca deixou de ser, mas que as necessidades políticas o haviam obrigado a domesticar. Aquele personagem dizia e repetia que os empresários são inimigos da “classe trabalhadora”, não escondendo sua repulsa ao setor privado. A partir do nascimento de outro personagem, o “Lulinha paz e amor”, que os marqueteiros petistas inventaram em 2002 para finalmente ganhar uma eleição presidencial, Lula tentou se passar por moderado e pragmático. Na mais recente disputa, em 2022, conseguiu os votos de eleitores de centro ao se identificar como o líder da “luta pela democracia”, malgrado seja incapaz de condenar as ditaduras companheiras.
Não foi a primeira diatribe do gênero – e quanto mais se aproxima o período eleitoral num contexto de desaprovação popular, mais o presidente dobra a aposta do seu esquerdismo avesso à iniciativa privada, em qualquer de suas expressões, e de sua busca incansável por culpados externos. No ano passado, enquanto “inaugurava” o Comperj – o complexo petroquímico que virou um dos símbolos mais vistosos da trevosa era lulopetista que arruinou o País com sua gastança e sua corrupção –, Lula produziu uma pletora de ataques, desqualificando os empresários, que em sua definição seriam simplesmente incapazes de melhorar a vida dos brasileiros. A julgar por seus discursos, o setor produtivo deveria ser vinculado ao Estado, que seria um administrador mais sensível às reais necessidades do povo.
Para Lula, empresa privada boa é aquela que abre mão do lucro em favor de projetos do Estado – e o Estado, sabemos, é Lula, o presidente Sol. E empresário companheiro é aquele que não reclama de impostos e acredita na iluminação lulista. São mistificações como essas que fazem dele um dos demagogos mais perniciosos da história nacional.
Se estivesse empenhado em buscar apoio fora da seita lulopetista para recuperar a musculatura política perdida, talvez Lula resolvesse fazer o impensável: refletir com sua patota se a ausência do desejável equilíbrio econômico é fruto dos “interesses” egoístas de empresários, ou se, ao contrário, é culpa do enorme abismo que hoje separa o Brasil das ideias e práticas do lulopetismo. Mas seria esperar demais de quem só deseja aplauso e reconhecimento e se sente infalível em sua missão de salvar o Brasil.
Governo banca ONG do sindicato do ABC para curso pós ‘golpe contra Dilma’ e ‘feira esquerda livre’
Por Vinícius Valfré / O ESTADÃO DE SP
BRASÍLIA - O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ampliou parcerias com a ONG dirigida por integrante do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC que tem sede no prédio da entidade, em São Bernardo do Campo (SP). Desde o início da gestão, os oito convênios assinados somam R$ 19,1 milhões e foram celebrados com ministérios controlados pelo PT: Trabalho, Direitos Humanos e Desenvolvimento Agrário.
O Executivo afirma que as seleções se dão a partir de análise técnica e do cumprimento de bases legais Parte das atividades para as quais a ONG Unisol (Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários do Brasil) foi contratada para desenvolver tem vínculo com a agenda ideológica do Partido dos Trabalhadores.
Uma delas consiste em formar defensores dos direitos humanos para evitar ataques à democracia e desmonte das políticas públicas como aqueles que se seguiram ao que chamou de “golpe” contra Dilma Rousseff (PT) - em referência ao impeachment da ex-presidente, em 2016. A ação, celebrada com o Ministério dos Direitos Humanos, custou R$ 400 mil, pagos por meio de emenda do deputado Vicentinho (PT-SP).
“Após o golpe sofrido pela ex-presidenta Dilma, o Brasil passou por um período de cinco anos de desmonte das políticas públicas, em especial ao que se refere aos direitos humanos e a participação social. Este período causou imenso prejuízo para a sociedade brasileira, acreditamos que apenas com organização e educação popular é possível fortalecer a sociedade civil para evitar possíveis ataques aos direitos humanos e à democracia”, justificou a ONG ao governo. O “curso de democracia” deve formar 300 pessoas, por meio de seminários e debates principalmente virtuais, sendo oito eventos de quatro horas, cada, para dez turmas.
Entre as metas da parceria que vale até 2026 estão a criação de uma “rede de defesa de direitos humanos” e a distribuição de 3 mil cartilhas para que beneficiários da capacitação “multipliquem conhecimentos adquiridos durante a formação”. No Ministério do Trabalho, outro contrato com a ONG prevê ações de “fortalecimento da rede de comercialização” para participantes da Feira Esquerda da Livre. A iniciativa se define como uma “feira colaborativa de empreendedores e artistas de esquerda, feita pela esquerda, para a esquerda”.
O projeto, com custo de R$ 200 mil, tem por objetivo “melhorar a renda e a qualidade de vida de 250 beneficiários de 30 empreendimentos”, em São Paulo. A iniciativa foi bancada com recurso designado pelo deputado Nilto Tatto (PT-SP). Também na pasta do ministro Luiz Marinho, do Trabalho, está o principal projeto da ONG Unisol com o governo federal. Por R$ 15,8 milhões a entidade ligada ao sindicato, no ABC Paulista, foi selecionada para retirar lixo da terra indígena yanomami, em Roraima.
Como informou o Estadão, o contrato foi firmado por meio da Secretaria de Economia Popular e Solidária, comandada pelo ex-ministro Gilberto Carvalho (PT), um dos mais importantes conselheiros do PT e do presidente Lula. O valor foi integralmente pago antecipadamente em 31 de dezembro, três dias após a assinatura do acordo. A ONG terá dois anos para cumprir os requisitos da parceria. A Unisol informa como sede uma sala de 40 m² no subsolo do prédio do sindicato dos metalúrgicos.
Os demais convênios da Unisol, como os firmados com o Ministério do Desenvolvimento Agrário, visam capacitar agricultores familiares para desenvolvimento sustentável. Em outra frente, com a pasta dos Direitos Humanos, pretende atuar no resgate de autoestima de pessoas em situação de rua com ações de educação e qualificação profissional.
ONG tem sindicalistas no quadro e alcançou recorde em repasses de verba
Os acordos com o governo federal na atual gestão petista fizeram a Unisol alcançar um recorde em repasses federais. Nos últimos dez anos, ela saiu de cerca de R$ 1 milhão por ano para quase R$ 18 milhões só em 2024. A Unisol tem entre seus diretores Carlos José Caramelo Duarte, que ao mesmo tempo é vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. O presidente da ONG é Arildo Mota Lopes, um ex-diretor da entidade sindical. Ambos são filiados ao PT e aliados do governo.
Procurada, a ONG afirmou estar aberta a trabalhar com qualquer setor da sociedade que compartilhe princípios do cooperativismo, do empreendedorismo social e da defesa dos direitos humanos.
Sobre a formação a ser oferecida no contexto de um “golpe”, disse que o texto apresentado “reflete o contexto político do País”. “São fatos públicos e notórios, que fazem parte da história recente do Brasil”, alegou. A Unisol não informou que ainda está “dentro do prazo de vigência”. Em relação à “Feira Esquerda Livre”, disse que o projeto foi executado e está na fase de prestação de contas. Segundo a Unisol, foram realizadas “atividades de formação em cooperativismo, empreendedorismo, trabalho coletivo e fortalecimento dos vínculos comunitários”.
“A Unisol é uma instituição séria, que há muitos anos atua no fortalecimento da economia solidária, do empreendedorismo e da geração de trabalho e renda”, afirmou ao Estadão. O Ministério dos Direitos Humanos afirmou que a Unisol foi selecionada para oferecer o projeto de formação seguindo os procedimentos estabelecidos na legislação. A entidade atendeu aos critérios legais e teve proposta aprovada com base em análise técnica da área responsável. Em nota, a pasta disse que “reafirma seu compromisso com a transparência, a integridade na gestão das parcerias e a boa aplicação dos recursos públicos”.
Sobre a “Feira Esquerda Livre”, o Ministério do Trabalho informou, “no caso de emendas impositivas, cabe à pasta verificar o cumprimento dos requisitos legais para a celebração, realizar o monitoramento da implementação e analisar a prestação de contas ao final do período do projeto”. “O Ministério do Trabalho e Emprego reitera seu compromisso com a transparência, a integridade na condução das parcerias e a adequada utilização dos recursos públicos. A execução das ações é monitorada continuamente pela equipe técnica, assegurando o pleno cumprimento das normas legais vigentes”, frisou.
Com relação à parceria com a ONG para retirar lixo na terra yanomami, o ministério informou que as ações estão previstas para o segundo semestre. O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC afirma que a Unisol “surgiu, sim, de uma iniciativa do sindicato”, mas não pertence a ele. A ONG, segundo os sindicalistas, tem “total autonomia administrativa, política e financeira”.

