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Secretário de Defesa dos EUA confirma envio de porta-aviões para a América do Sul

Por O Globo, com agências internacionais — Washington / O GLOBO

 

 

Helicóptero MH-60S Sea Hawk pousa no porta-aviões USS Gerald FordHelicóptero MH-60S Sea Hawk pousa no porta-aviões USS Gerald Ford — Foto: Reprodução/ X/ Marinha dos EUA

 

O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, anunciou nesta sexta-feira que o Pentágono está enviando o porta-aviões USS Gerald R. Ford, descrito pela Marinha americana como "a plataforma de combate mais capaz, adaptável e letal do mundo", para as águas da América do Sul, na mais recente escalada dentro da mobilização para concentração de forças militares na região. O anúncio ocorre no mesmo dia em que Hegseth confirmou o 10º ataque contra uma embarcação suspeita de transportar drogas — e um dia após Washington anunciar exercícios militares com Trinidad e Tobago, a poucos quilômetros do litoral da Venezuela.

 

"Em apoio à diretriz do presidente para desmantelar Organizações Criminosas Transnacionais (OCT) e combater o narcoterrorismo em defesa da Pátria, o secretário de Guerra comandou o Grupo de Ataque de Porta-Aviões Gerald R. Ford e embarcou uma ala aérea de porta-aviões para a área (...) do Comando Sul dos EUA (USSOUTHCOM)", escreveu o porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, na rede social X. "A presença reforçada das forças americanas na Área de Responsabilidade do USSOUTHCOM reforçará a capacidade dos EUA de detectar, monitorar e desmantelar atividades e atores ilícitos que comprometam a segurança e a prosperidade do território nacional dos Estados Unidos e nossa segurança no Hemisfério Ocidental. Essas forças aprimorarão e ampliarão as capacidades existentes para desmantelar o tráfico de narcóticos e desmantelar as OCT".

 

O porta-aviões Gerald R. Ford está incluído em um agrupamento de ataque de mesmo nome, que além do navio principal inclui três contratorpedeiros (USS Mahan, USS Bainbridge e USS Winston Churchill) e esquadrões de caça F-18 e helicópteros de combate MH-60. Eles se somam a meios militares já enviados para o Caribe, incluindo outros navios contratorpedeiros, um submarino e embarcações de desembarque anfíbio, além de jatos F-35 enviados a Porto Rico.

 

Ao todo, as Forças Armadas dos EUA já enviaram cerca de 10 mil soldados para o Caribe, metade deles em oito navios de guerra e a outra metade estacionados em Porto Rico. O porta-voz do Pentágono não informou quando o grupo de ataque seria enviado para a região, e nem qual seria sua localização.

 

A confirmação do envio ocorre em um aumento de particular tensão na região. Um novo bombardeio americano na noite de quinta-feira afundou o 10º barco supostamente ligado ao narcotráfico, elevando o número de mortos nessas operações para 43, horas após o presidente Donald Trump afirmar na Casa Branca que pretendia autorizar operações terrestres contra grupos ligados ao tráfico internacional de drogas — que ele equiparou a organizações terroristas nos primeiros dias de mandatoColômbia e Venezuela recentemente tacharam as declarações e ordens de Trump na região de ameaças de invasão.

 

"Se você é um narcoterrorista contrabandeando drogas em nosso Hemisfério, nós o trataremos como tratamos a al-Qaeda. Dia ou noite, mapearemos suas redes, rastrearemos seus homens, caçaremos você e o mataremos", escreveu Hegseth em uma publicação nesta sexta-feira, após confirmar o afundamento de uma embarcação que pertenceria ao grupo venezuelano Tren de Aragua (TdA).

Os tartufos petistas

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

“Templo é dinheiro”, dizia uma máxima, décadas atrás, que ironizava a ascensão das igrejas neopentecostais, braço evangélico que emergiu a partir dos anos 1970 e 1980 e que, liderado pela Igreja Universal do Reino de Deus e outras, notabilizou-se pela força midiática de pastores, pela teologia da prosperidade e pela organização empresarial da fé. A variação da expressão atribuída a Benjamin Franklin – “tempo é dinheiro” – era fruto em grande medida do preconceito e do choque de um país de maioria católica, onde inclusive ser católico chegou a constar como precondição para votar, e que se viu estremecido com a vertiginosa ascensão e relevância dos evangélicos. Ainda que tenha contribuído para isso o vigarismo religioso que marcou a conduta de pastores desde então, não deixa de ser chocante que, depois de tantos anos de crescimento da população evangélica, o País ainda se veja às voltas com o preconceito, a desinformação e a instrumentalização da fé para fins políticos.

 

Atribuem-se ao segmento evangélico muitos dos males do fundamentalismo bolsonarista e do radicalismo de pastores que se misturam à política. A confusão, o preconceito e os estereótipos, afinal, se ampliaram depois que pastores influentes passaram a atuar em favor de Jair Bolsonaro, que teve alta taxa de sucesso eleitoral nas disputas de 2018 e 2022. Ao mesmo tempo, as últimas campanhas presidenciais e os institutos de pesquisa mostraram a distância que separa o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT dos evangélicos. Desde então, conselheiros do presidente e estrategistas petistas não hesitam em tentar uma, vamos chamar assim, aproximação, na expectativa de fazer Lula ser visto como crente. O “aceno” petista para a população evangélica parece estar em toda parte.

 

Recentemente, o presidente abriu sua agenda para receber bispos no Palácio do Planalto. A possível indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para assumir uma cadeira no Supremo Tribunal Federal passou a incluir a condição de evangélico como atributo a ser considerado em seu favor. Com alguma frequência, Lula passou a exibir sua verve de pregador de quermesse, usando referências religiosas em discursos. Até a onipresente primeira-dama Janja da Silva tem se empenhado em participar de cultos em templos religiosos a fim de desfazer a imagem de inimiga dos evangélicos e se contrapor a Michelle Bolsonaro, a ex-primeira-dama declaradamente evangélica e conservadora. Lula e Janja também já se deixaram fotografar orando, alimentando suspeitas de que o esforço é apenas uma estratégia marqueteira. Sem contar a produção de cartilhas do PT para ensinar o comissariado e a militância a “como falar com os evangélicos”.

 

Essas e outras iniciativas são evidências de quem não parece ter intimidade com o segmento. São a certeza de que os evangélicos – hoje cada vez mais organizados e eleitoralmente fortes – representam uma massa ao mesmo tempo genérica e uniforme, composta por pastores e parlamentares populares, influentes e barulhentos, e uma população fiel, obediente e facilmente manipulável. Na falta de compreensão real, opta-se pela cooptação.

 

Esse tipo de instrumentalização da fé pela política é nociva à integridade da democracia. Primeiro, porque, quando líderes políticos se apropriam do discurso religioso para obter poder ou tentar manipular eleitores, a espiritualidade – que deveria servir à reflexão, à ética e à busca do bem comum – é reduzida a uma ferramenta de controle e persuasão. Segundo, porque, assim, o autoritarismo e o populismo se disfarçam de missão divina. Terceiro, porque a fusão entre religião e política mina o pluralismo e a liberdade de consciência, pilares fundamentais de uma sociedade democrática.

 

Por fim, ignora-se o elementar: ninguém é apenas evangélico. Todos têm aspirações e necessidades que passam tanto por suas crenças quanto por elementos reais do cotidiano. Como qualquer eleitor com distintos valores religiosos ou morais, preocupam-se com segurança, trabalho, renda, saúde, bem-estar e um futuro próspero. Simples assim. Quem olha para os evangélicos e vê apenas uma pilha de votos não está genuinamente interessado nem nos valores religiosos nem no exercício saudável do poder.

Mais de 30 líderes indígenas foram assassinados no Brasil em dez anos, aponta relatório

Por Daniel Biasetto e Luis Felipe Azevedo— Rio de Janeiro / O GLOBO

 

 

Trinta e dois líderes indígenas foram assassinados no Brasil entre 2013 e 2023, em meio a um cenário de “alto nível de violência” contra defensores dos povos originários. O levantamento faz parte do mais novo relatório sobre a Situação dos Defensores de Direitos Humanos nas Américas, elaborado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), órgão ligado à Organização dos Estados Americanos (OEA). O documento destaca que “atores privados” desempenham um “papel alarmante” no aumento da intimidação contra essas comunidades e que as ameaças envolvem “diretamente membros da força pública em aliança com fazendeiros e pistoleiros”, sustenta.

 

Destaque negativo no relatório fica para a violência desenfreada contra os Pataxó Hã-Hã-Hãe, no sul da Bahia, associada à demora na demarcação de terras. "A demora ou a falta de delimitação, demarcação e segurança jurídica de seus territórios contribui para a violência e conflitos sociais", diz o documento.

A América Latina registrou 85% dos assassinatos de defensores ambientais em nível mundial em 2023, sendo Brasil, Colômbia, Honduras e México os países à frente dessas estatísticas. Em paralelo às mortes de indígenas, há líderes da causa ambiental sendo assassinados por atuar contra a criminalidade na floresta. Um exemplo citado no documento é o assassinato dos indigenistas Bruno Pereira e Maxciel Pereira dos Santos, além do jornalista britânico Dom Phillips, no Vale do Javari.

 

Comissária do CIDH e uma das pesquisadoras responsáveis pelo levantamento, a advogada barbadiana Roberta Clarke destaca a revelação de que os ataques contra defensores "representam as formas mais extremas de violência contra o grupo e permanecem em níveis alarmantes". — O contexto atual das Américas impõe grandes desafios e dificuldades para aqueles que defendem o meio ambiente. Essa modalidade de defesa é a que registra o maior número de assassinatos e agressões na região — afirma ao GLOBO.

 

— Diversas organizações da sociedade civil concordam que a violência contra essas pessoas está intimamente relacionada à expansão de modelos econômicos extrativistas na região. Muitos desses ataques estão relacionados à indústria de mineração e extração, ao agronegócio, à exploração madeireira e à energia hidrelétrica — complementa.

 

No relatório, a comissão alerta que assassinatos contra essas lideranças indígenas acontecem, sobretudo, quando os defensores se manifestam e denunciam ações contrárias aos interesses desses terceiros. A comissão cita o caso do indígena Janildo Oliveira Guajajara, morto com um tiro nas costas em setembro de 2022 após participar de uma reunião com membros de comunidades da floresta. O objetivo do encontro era discutir informações e estratégias de proteção da região onde morava e medidas para prevenir invasões por madeireiros ilegais.

 

'Corpos jogados'

“No Brasil, defensores indígenas recebem ameaças diretas. A comissão tomou conhecimento de casos de lideranças comunitárias que foram ameaçadas com declarações como: ‘eles deveriam ser mortos e seus corpos jogados em algum lugar’”, diz o relatório. O documento também cita outros casos, nos quais defensores receberam mensagens com juramento de morte e ameaças de atear fogo em suas casas após denunciarem membros do crime organizado.

 

Diante desse cenário, os pesquisadores destacam a importância do Programa Nacional de Proteção a Defensores de Diretos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas brasileiro. O objetivo do projeto é garantir medidas para dar mais segurança àqueles em situação de risco em decorrência das atividades exercidas.

 

O programa está em vigor em todo o território nacional. A implementação dele depende da assinatura de convênios entre a União e os estados.

“Informações do país indicam que, atualmente, os estados da Paraíba, Pará, Bahia, Pernambuco, Ceará, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio Grande do Sul contam com equipes estaduais, enquanto Amazonas, Roraima, Rondônia e Mato Grosso do Sul utilizariam equipes federais regionalizadas. Os demais estados estariam sob a supervisão da Equipe Técnica Federal”, aponta o relatório.

 

Os pesquisadores destacam um aumento anual de 85% no financiamento da política de proteção brasileira, passando de quase R$ 17 milhões em 2023 para R$ 33 milhões em 2024. As últimas informações disponíveis à comissão indicam que, até março de 2022, os Programas Estaduais e o Programa Federal, juntos, apoiaram um total de 783 defensores de direitos humanos no país.

 

"Nada mudou de Bruno e Dom pra cá"

O relatório pondera, no entanto, a existência de “ineficiência” do programa na emissão de medidas de proteção “concretas e eficazes”. A comissão entende que as decisões concedidas “permanecem homogêneas e não atendem aos contextos específicos e às necessidades particulares dos defensores de direitos humanos”. Um dos casos citados é o da líder e ativista quilombola Mãe Bernadette, que apesar de fazer parte do programa de proteção desde 2017, foi assassinada em agosto de 2023.

 

“Da mesma forma, foram recebidas informações sobre a ausência de diretrizes e protocolos nacionais para análise de risco, definição de medidas e abordagens que considerem aspectos de gênero, raça, etnia e diversidade sexual dos beneficiários”, ressaltam os pesquisadores.

A presença de grupos armados ilegais e o crime organizado exacerbaram essa violência, aponta o documento, pois identificam as pessoas defensoras como um obstáculo para a realização de suas atividades ilícitas. Além disso, as empresas, em particular as relacionadas com indústrias extrativistas, também estariam ligadas aos riscos que as pessoas defensoras enfrentam quando se opõem às suas atividades.

 

O documento conclui que a "falta de resposta estatal adequada" para prevenir e proteger as pessoas defensoras, e em alguns casos sua cumplicidade ou aquiescência, permitiu que essa violência se mantivesse ao longo do tempo. Para piorar, o levantamento da CIDH aponta que esses defensores são frequentemente alvo de discursos estigmatizantes que os qualificam como "inimigos do desenvolvimento", "pseudoambientalistas" ou que buscam "sabotar avanços".

 

Falha na proteção

Em maio deste ano, a CIDH já havia condenado a situação de vulnerabilidade contínua dos povos indígenas e o cumprimento parcial das recomendações feitas ao Brasil desde 2021. Em seu relatório anual para 2024, recém-publicado, a CIDH afirma que o Brasil avançou na criação de estruturas institucionais — como o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e o aumento do orçamento da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) —, mas que ainda persistem "graves falhas na proteção efetiva dos territórios indígenas", principalmente diante de ameaças como o garimpo ilegal, a violência armada e a omissão estatal na demarcação de terras.

 

Além disso, a CIDH reafirma que os povos indígenas continuam entre os mais impactados pelas desigualdades estruturais e pela ausência de políticas públicas efetivas. A comissão sustenta em seu relatório que a criação de um ministério específico para esses grupos e mais verbas para Funai não se traduziram em proteção eficaz contra invasões de terras, violência e ameaças aos direitos dos povos originários à posse da terra.

 

Para Eliésio Marubo, procurador jurídico da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) e uma das 11 pessoas na lista de medidas cautelares de proteção da CIDH na região, houve pouco avanço no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no fortalecimento da política de segurança nos territórios.

— O cenário é ainda mais grave no Vale do Javari. Nós temos uma série de diálogos com o governo. Nós temos diálogos a partir do Judiciário, por meio de ações trazidas pela Univaja, visualizando justamente a proteção do território indígena. Mas não tivemos avanço nenhum. Continua na mesma posição em que estava quando mataram Dom e Bruno. Nada mudou desde então — afirma.

Embora deixe a desejar, novo pacote antifacção é avanço

Por  Editorial / O GLOBO

 

Num cenário em que organizações criminosas dominam vastas extensões do território nacional, expandem-se pela economia formal e infiltram-se nas instituições, faz-se essencial o conjunto de propostas legislativas apresentado pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski. O objetivo é apertar o cerco ao crime organizado, endurecendo penas e facilitando a investigação. Apesar da iniciativa meritória, porém, o pacote apresentado por Lewandowski ficou aquém do desejável e do necessário.

 

Levantamento do GLOBO mostrou que, nas 27 unidades da Federação, atuam pelo menos 64 facções criminosas, algumas com abrangência nacional. A proposta é englobar tais grupos e também milícias num novo tipo penal, a “organização criminosa qualificada”. A pena para quem tentar controlar território com “violência e ameaça” passa a ser de oito a 15 anos de prisão. No caso de homicídios atribuídos às quadrilhas, pode chegar a 30 anos.

 

Atualizar a legislação é decisão acertada. São bem-vindas também as iniciativas para asfixiar as finanças das organizações criminosas. O projeto prevê que a Justiça poderá decretar apreensão de bens e valores no curso do inquérito, sem esperar o trânsito em julgado da sentença, desde que haja suspeita de que são produto do crime. Também facilita ações contra empresas usadas em lavagem de dinheiro e permite que forças de segurança infiltrem agentes para fins de investigação. São ações essenciais, dada a diversificação das atividades do crime, de postos de gasolina e empresas de ônibus a fintechs ou até lojas de brinquedos.

 

Não menos relevante é a criação de um banco de dados nacional, com objetivo de reunir informações sobre os integrantes das facções. Embora os bandidos transitem de um estado a outro, as informações costumam ser compartimentadas, dificultando as investigações. Também é positiva a previsão de monitoramento, com autorização judicial, de conversas e reuniões de presos ligados a facções. Não é segredo que bandidos comandam atividades criminosas de dentro dos presídios, mesmo os de segurança máxima.

 

Apesar dos avanços indiscutíveis, pontos importantes ficaram de fora. A principal ideia descartada foi a agência nacional antimáfia, defendida por integrantes do Ministério Público e próceres do combate às facções. Um organismo dedicado melhoraria a integração entre as forças de segurança, sem se sobrepor a elas. Mas havia divergências no governo sobre esse ponto, e a Polícia Federal foi contra. Temia-se que a estrutura gerasse gastos e esvaziasse o poder das polícias. Também não foram contemplados crimes eleitorais envolvendo organizações criminosas, como compra de votos e caixa dois, bem como restrições à progressão de regime para integrantes de facções. É verdade que esses temas são objeto de outros projetos, mas mereciam atenção. Perdeu-se a oportunidade de apresentar um projeto de maior eficácia.

 

De modo geral, embora deixe a desejar, o projeto traz avanços. É preciso enviá-lo logo ao Congresso, onde não deverá encontrar grande resistência. Com a PEC da Segurança, que já tramita no Legislativo, o Brasil poderá dispor de uma legislação mais sólida para enfrentar o crime organizado. Não se espera que baste para resolver o problema, mas certamente ajudará. A segurança é hoje a principal preocupação dos brasileiros. Não há tempo a perder.

Eleitores estão mais à direita que partidos, dizem pesquisas

Pablo Ortellado / Professor de Gestão de Políticas Públicas na USP / O GLOBO
A emergência de uma nova direita que tensiona as salvaguardas das democracias liberais tem levado cientistas sociais a buscar explicações para sua ascensão. Há muitas hipóteses em circulação. Duas delas — muito diferentes, quase opostas — foram debatidas nos últimos dias a partir de duas reportagens na imprensa inglesa: uma no Financial Times, outra no Guardian. Ambas comentam pesquisas empíricas que tentam entender o que levou à centralidade política da direita radical: a grande presença da agenda de direita no debate público ou a ausência de alternativas de direita no sistema político.
 
primeira pesquisa foi realizada por um pesquisador da Universidade de Toulouse, Laurenz Guenther. Ele argumenta que as votações expressivas de partidos de extrema direita na Europa devem-se ao fato de serem os únicos que oferecem respostas a preocupações dos eleitores em temas como imigração.
 

A Alemanha de 2013 é um bom exemplo. Naquele ano, ainda não havia um partido populista de direita relevante. O Alternativa para a Alemanha (AfD) já existia, mas ainda não era nem populista nem fortemente anti-imigração. Ao mesmo tempo, crescia enormemente o número de imigrantes e refugiados que chegavam ao país. Muitos alemães queriam reduzir a imigração, mas nenhum dos principais partidos políticos oferecia propostas para isso. Havia, assim, grande descompasso entre os eleitores e os parlamentares. Para medir essa discordância, os pesquisadores perguntaram, em 2013, a amostras representativas de parlamentares e cidadãos comuns:

 

— Deveria ser mais fácil ou mais difícil para estrangeiros imigrar?

 

As respostas (no gráfico acima) variavam de 0 (“muito mais fácil”) a 10 (“muito mais difícil”). Enquanto parcelas grandes de eleitores (barras azuis) queriam que a imigração se tornasse mais difícil, os parlamentares dos quatro principais partidos (traços coloridos) queriam torná-la mais fácil — um desalinhamento notável. Guenther argumenta que, como os partidos tradicionais não ofereciam respostas à inquietação da população, os eleitores terminaram nos braços dos radicais de direita, os únicos a oferecê-las.

 

A segunda pesquisa foi conduzida por dois pesquisadores do Centro de Pesquisas Sociais de Berlim, Daniel Gonzatti e Teresa Völker. O estudo analisa como a extrema direita influenciou a agenda política dos partidos tradicionais na Alemanha entre 1994 e 2021, examinando mais de meio milhão de artigos de jornal. Os pesquisadores descobriram que, ao longo do tempo, os temas tratados pela extrema direita — como imigração, islamismo, integração e racismo — passaram a aparecer com mais frequência também no discurso dos partidos convencionais. De acordo com eles, ao responder às pautas da extrema direita, mesmo que para criticá-las, os partidos tradicionais reforçaram a importância desses temas e contribuíram, ainda que involuntariamente, para sua legitimação no debate político alemão.

 

Os dois artigos trazem sugestões opostas. O primeiro sugere que os partidos convencionais deveriam responder às preocupações do público, oferecendo políticas razoáveis para reduzir a imigração, para que os eleitores não se tornem reféns dos radicais. O segundo sugere o contrário: que os partidos deveriam ignorar as questões trazidas pela extrema direita para não legitimar sua agenda no debate público respeitável.

 

Uma parcela expressiva do eleitorado, em diferentes países, abriga posições mais à direita em temas como imigração ou segurança. Quando partidos de esquerda e de centro (inclusive centro-direita) se recusam a discutir essas inquietações, não negam legitimidade a elas — na prática, abrem espaço a que apenas os radicais as explorem. O resultado é o oposto do pretendido: ao evitar o debate, transfere-se aos extremos o monopólio da representação dessas demandas e, com isso, confere-se legitimidade política justamente ao radicalismo que se buscava conter.

Solução para os Correios é privatizar ou fechar

O novo esforço para salvar os Correios da bancarrota —que é para onde a estatal se encaminha há muitos anos, com maior velocidade neste mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT)— constará da extensa lista dos grandes atentados perpetrados pelo governo federal contra os pagadores de impostos.

A administração petista tenta iludir o público com a lorota de que a operação de salvamento ocorreria por meio de um empréstimo de R$ 20 bilhões, de que participariam bancos estatais e até privados. Ninguém no mercado emprestaria tanto dinheiro a uma empresa que jogou no ralo do prejuízo R$ 4,4 bilhões apenas no primeiro semestre de 2025.

Como o Tesouro Nacional será o fiador do crédito —vai pagar a conta em caso de calote— trata-se, na verdade, de mais uma doação bilionária de recursos dos contribuintes a esse saco sem fundos do estatismo brasileiro.

Os Correios, com custos inflados pelo aparelhamento partidário e processos arcaicos, não têm condições de competir com as empresas privadas de logística no Brasil. O monopólio da estatal no transporte de encomendas, que obrigava os cidadãos a pagarem caro por um serviço ruim, foi quebrado em 2009 em decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).

O privilégio ficou mantido apenas para cartas, cartões postais e malas diretas, demandas que o avanço da comunicação imediata digital se encarregou de sufocar.

Uma lei de 2023 e um decreto de Lula do ano seguinte tentaram fazer voltar o passado ao estabelecerem que os Correios detêm a preferência em licitações para prestar serviços logísticos a órgãos da administração federal.

A tentativa de golpear a livre concorrência foi questionada na Justiça por uma associação de agentes privados, mas a ação foi extinta por tecnicalidade. De todo modo, o privilégio não salvou nem salvará a finança dos Correios, que em dois anos e meio de gestão petista acumulam R$ 7,6 bilhões de prejuízo —e contando.

Diante desse quadro terminal, a mera conjectura de injetar outras dezenas de bilhões do erário na estatal deveria provocar repúdio de cidadãos e órgãos de controle. Em relatório desta quinta-feira (23), a Instituição Fiscal Independente, do Senado, alertou sobre as consequências deletérias para o equilíbrio orçamentário do galope dos déficits das estatais, com os Correios na mira.

A melhor saída para a estatal talvez tenha deixado de ser a privatização. Tudo o que os Correios fazem, com a cabeça no século 20, já é realizado pelas empresas privadas com maior eficiência e menor custo. Nada além do interesse escuso de políticos justifica a continuidade dessa situação.

Governantes responsáveis já teriam encaminhado uma solução definitiva para estancar a sangria que só faz elevar a já monstruosa dívida federal de R$ 8 trilhões. Essa solução implica privatizar a estatal, se isso ainda for possível, ou fechar as suas portas a bem do interesse público de interromper esse assalto ao contribuinte.

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