A primeira-dama que não tem nada de primeira-dama
Por Ruth de Aquino / o globo
Rama Duwagi, 28 anos, tem personalidade e não quis aparecer na campanha do prefeito eleito de NYC — Foto: Reprodução Instagram
Sim, ela atuou nos bastidores para eleger Zohran Mamdani o prefeito de NYC. Mas Rama Duwaji está muito longe da figura convencional de primeira-dama. Se eu já estava totalmente surpresa com a eleição, nos EUA, do primeiro prefeito muçulmano, socialista e imigrante africano, quando vi sua mulher fiquei embasbacada.
É uma lufada de renovação na cena política. Rama é ilustradora, fez mestrado na School of Visual Arts de Nova York. Geração Z. Tem só 28 anos e se veste como a garota estilosa das cidades cosmopolitas. Muito preto. Botas cowboy na altura do joelho. Shorts boxer. Calças retas. Sem decotes. Anéis de prata. Brincos de argola. Nada de tubinho justo no corpo. Já a chamam de it girl.
Nunca a veremos com o chapéu tapa-olho da Melania. Nem com os saltos altíssimos que desequilibram tantas primeiras-damas. Na festa da vitória, usou um top bordado do estilista palestino-jordaniano Zeid Hijazi. E uma saia de veludo e renda da designer nova-iorquina Ulla Johnson, que veste os jovens afluentes do Brooklyn. Écharpe transparente, preta.
A moda é, queiram ou não, uma expressão política, como discorre Michelle Obama em seu livro “The look”. O que vestimos é uma extensão de nossa personalidade, nossa atuação na vida.
Os desenhos de Rama são, na maioria, em preto e branco. As ilustrações, animações e cerâmica remetem à diáspora árabe e ao ativismo feminino. “O dever de um artista”, diz, citando Nina Simone, “é refletir a sua época”.
Seu perfil no Instagram está perto de 800 mil seguidores. O do marido, quase 8 milhões. Ela não aparece nas redes dele. Discreta nos comentários sobre o marido. Escreveu apenas quando ele ganhou as primárias. “Não poderia estar mais orgulhosa”. Nada de emoji nem declaração pública de amor.
Rama se concentra, nas redes, em disseminar arte, escultura, pintura, livros, decoração, estilos de cabelo, tipografias, fachadas esculpidas, desfile de marca jamaicana. Fotos de trans, por Nan Goldin, em seu livro “The other side”. Mês a mês, ela exibe listas de “coisas que me fizeram querer fazer Arte”. Ela escolhe e divulga suas inspirações.
A nova primeira-dama de NYC nasceu no Texas, mas seus imensos olhos escuros, puxados para cima com delineador, e o nariz árabe não deixam dúvida sobre as raízes sírias. Sua beleza não é comum. A moça é original. E sabe disso. Morou em Dubai com os pais. Eles continuam lá, nos Emirados.
O casal se conheceu num aplicativo em 2021. “Encontrei minha mulher no Hinge, então ainda há esperança para os apps de romance”, disse o prefeito de 34 anos.
Rama e Zohran se casaram este ano no cartório e posaram no metrô. Lua de mel foi a campanha fervilhante do marido. “Ela não é só minha esposa. É uma artista incrível que merece ser reconhecida por seus próprios méritos”. Zohran se referiu a ela em árabe: hayati (minha vida).
Ter casado com uma mulher como Rama Duwaji é ponto positivo para Zohran Mamdani. E não é um ponto fora da curva. O novo prefeito escolheu uma equipe de transição só de mulheres. E sua mãe, Mira Nair, é cineasta, formou-se em Harvard, foi premiada em Cannes e Veneza, e indicada ao Oscar.
Tudo muito auspicioso. Um homem que genuinamente admira mulheres, em vez de invejar e relegar a um segundo plano conhecido por nós. A vitória de Mamdani assombrou. NYC mostrou que a democracia americana está viva. Espero que ele consiga superar as chantagens de Trump e honrar suas promessas de campanha.
Enquanto isso, Rama Duwaji se torna a namoradinha dos EUA, revoluciona o conceito de primeira-dama e detona a ideia de ser apenas uma grande mulher por trás do prefeito de Nova York. Tomara que seu estilo e sua personalidade resistam ao assédio.
Ciência de ponta para salvar amazônia e clima
O Brasil é uma terra de contrastes. Às vésperas da COP30, o mesmo país flagelado por narcomilícias completa a instalação do maior experimento científico do mundo numa floresta tropical, precisamente para desvendar o enigma de seu futuro na crise do clima.
A 80 km de Manaus, o projeto AmazonFace está pronto, como mostrou a Folha. São 96 torres de 35 metros de altura, dispostas em seis círculos com 30 metros de diâmetro. Três dos círculos injetarão, por meio de dois tubos sustentados pelas torres, dióxido de carbono (CO²) na parcela da mata ao longo de dez anos.
Os outros servirão como controle do experimento, injetando só o ar ambiente, para que se possa medir a variável do teste —aumento da concentração do gás de efeito estufa no lote.
O gasto de de R$ 260 milhões dos governos brasileiro e britânico em tamanha infraestrutura se explica pela necessidade de elucidar mistérios que cercam a interação complexa entre o bioma amazônico e a atmosfera submetida ao aquecimento global.
Especula-se que a preservação e a destruição da maior floresta tropical do planeta teriam papel decisivo nessa espiral alarmante. A amazônia estoca quantidade gigantesca de carbono na biomassa e no solo. Com desmatamento, ele atinge a atmosfera como CO², agravando o efeito estufa.
Mas há um efeito paradoxal na alta concentração desse gás, já que ele favorece o crescimento da vegetação por ser matéria-prima da fotossíntese. Quanto mais CO² na atmosfera, mais se expande a floresta, que retira mais carbono do ar e o fixa em sua biomassa. Contrabalança-se, assim, parte da tendência do aquecimento.
É o conhecido efeito de fertilização por CO², que não se sabe por quanto tempo prosseguirá. Tal sumidouro de carbono vinha compensando parte significativa das emissões mundiais, mas há indícios de que o ritmo de fixação esteja desacelerando.
Não se exclui que pare de vez e torne o bioma um emissor líquido, um cenário preocupante. Elevando a concentração de CO² em 50%, a valores que se projetam para as próximas décadas, o AmazonFace vai monitorar o comportamento da floresta para desfazer dúvidas sobre a hipótese de colapso, na qual decairia para uma mata mais seca e armazenaria menos carbono.
Há algo de admirável na capacidade de instituições nacionais como Unicamp e UFPA, em parceria com o MetOffice do Reino Unido, de erguer um portento científico como esse. Trata-se da melhor face do país, em que tudo o mais deveria espelhar-se.
'Primeiro, conquistamos Manhattan'
Demétrio Magnoli / Sociólogo, autor de “Uma Gota de Sangue: História do Pensamento Racial”. É doutor em geografia humana pela USP / folha de sp
"Condenaram-me a vinte anos de tédio/ por tentar mudar o sistema por dentro/ Estou chegando agora, estou chegando para recompensá-los/ Primeiro, conquistamos Manhattan, depois conquistamos Berlim". O compositor Leonard Cohen escreveu o verso em 1987, para uma canção que definiu como tributo a "nossos terroristas, Jesus, Freud, Marx, Einstein". Zohran Mamdani nasceria apenas quatro anos depois, mas seu triunfo em Nova York parece a muitos uma confirmação: só o radicalismo salva.
Trump colheu derrotas em série na terça passada, um reflexo da queda livre de sua aprovação desde a posse (de +18% a -1% entre brancos, de -8% a – 37% entre hispânicos e de -37% a -76% entre negros). As vitórias democratas na Virginia e em Nova Jersey inscrevem-se na equação das pesquisas. Nova York, porém, descortinou a opção estratégica que divide os democratas: Cuomo, o pragmatismo centrista, ou Mamdani, o giro à esquerda. Interpreta-se, febrilmente, o resultado como lição.
Um ano atrás, Trump obteve na cidade a maior votação de um candidato presidencial republicano desde 1988, alcançando 30% dos votos. Às vésperas da eleição municipal, o presidente abandonou o candidato de seu partido para endossar Cuomo, contra o "lunático esquerdista" Mamdani.
Numa leitura superficial, pretendia ajudar a eleger o "mal menor". Uma segunda leitura sugere manobra mais sofisticada: como seu apoio é visto como kriptonita pela maioria dos eleitores democratas, a intenção seria incinerar o centrista a fim de exibir o rosto de Mamdani como a face do conjunto do Partido Democrata.
Mamdani descreve-se como um "democrata socialista". Em 2020, no rastro dos protestos de rua contra o assassinato de George Floyd, qualificou a polícia de Nova York como "racista, anti-queer e uma ameaça à segurança pública", clamando pelo "desfinanciamento" do departamento policial municipal. De lá para cá, desculpou-se e assegurou que repudia aquelas opiniões. Os democratas, centristas ou esquerdistas, concluíram corretamente que suas políticas identitárias fracassaram, traçando a via do retorno de Trump à Casa Branca. Mas o consenso termina aí.
O populismo nacionalista e reacionário de Trump recuperou uma classe trabalhadora desprezada pela "nova esquerda" pós-marxista. Bernie Sanders, o pretendente democrata batido por Hillary Clinton, não se cansa de propor a restauração da "velha esquerda": a luta por direitos sociais e econômicos. A campanha de Mamdani, embalada pelo colorido dos filmes de Bollywood e impulsionada por bandos de jovens engajados nas redes sociais, ofereceu uma embalagem contemporânea a um conceito antigo: populismo econômico.
Congelamento dos aluguéis de um milhão de apartamentos, gratuidade nos transportes e creches municipais, mercados públicos subsidiados –as promessas configuram um programa tão ousado quanto arriscado. Seus custos, Mamdani não escondeu, serão cobertos por forte elevação de impostos. À memória de não poucos democratas terá emergido a imagem de Jeremy Corbyn, o socialista britânico que encantou o Partido Trabalhista até levá-lo, em 2019, à mais humilhante derrota eleitoral desde 1935.
Mamdani não pode candidatar-se a presidente, mas lançou o desafio a Trump: "aumente o volume do som". Manhattan, primeiro, depois os EUA. A esquerda democrata dobra sua aposta.
Impacto de eventos climáticos extremos na educação é pior que a pandemia
Por Priscila Cruz / O GLOBO
Escola Moinhos, em Estrela: devastação causada por temporais no Rio Grande do Sul — Foto: Secretaria de Educação do RS
Estamos até hoje tentando reduzir os efeitos da pandemia de Covid-19 na educação devido ao fechamento das escolas. Sem a presença coletiva no espaço escolar, a aprendizagem se enfraquece muito e outras dimensões essenciais do desenvolvimento se tornam inviáveis.
A pandemia passou, mas outras circunstâncias continuam afastando alunos e professores da escola durante o período letivo, como a violência, greves e eventos climáticos extremos. Neste mês da COP30, focarei nas razões climáticas.
Segundo dados do Banco Mundial, alunos brasileiros já deixam de ir à escola por volta de 10 dias por ano devido ao clima (enchentes, queimadas, calor excessivo, etc.), correspondendo a 5% do ano letivo de 200 dias, com efeitos diretos na aprendizagem. Um exemplo dramático foi a enchente no Rio Grande do Sul em 2024: o estado despencou 19 pontos percentuais no indicador de crianças alfabetizadas após a tragédia. E a recuperação posterior sofre com o pânico que os alunos têm até hoje quando começa a chover, pois muitos deles acabam não saindo de casa para ir à escola, aumentando a ausência mesmo nos períodos em que há normalidade no clima. Sem falar na ansiedade e até mesmo no luto climático.
Estamos avançando muito lentamente na aprendizagem dos alunos em todas as etapas. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) no Ensino Fundamental I, indicador que mais melhorou na última década, avançou a uma taxa média de quase 3% por ano. Não podemos perder força de políticas públicas essenciais, como a ampliação da educação integral e a formação de professores, com escolas fechadas e perda de frequência escolar de alunos e professores. Com muita razão, o novo Plano Nacional de Educação (PNE) traz um objetivo que não existia nos PNEs anteriores, de “enfrentamento das mudanças do clima em todos os estabelecimentos de ensino”.
Nada leva a crer que os eventos climáticos extremos vão diminuir em quantidade e em intensidade, e não há como desvincular clima e educação. Não haverá melhora sustentada da aprendizagem se nossas escolas continuarem sendo paralisadas por chuvas torrenciais, calor insuportável ou desconforto térmico – ou até mesmo se escolas forem sempre a primeira opção de abrigo. Não haverá equidade se estudantes em áreas de risco perderem mais dias letivos do que aqueles em regiões protegidas.
Não podemos continuar a reagir pontualmente em cada nova tragédia. É com este senso de responsabilidade que o Todos Pela Educação elaborou um novo material, com o Vozes da Educação, apoio da B3 Social e contribuições de 14 organizações, apresentando um conjunto de recomendações para tornar as redes escolares e escolas mais preparadas.
Entre as medidas propostas estão a criação de diretrizes nacionais de governança para situações de emergência, a instituição de planos de contingência escolares, alternativas à escola como abrigo e a formação de comissões intersetoriais permanentes. Há também recomendações para o financiamento, como a criação de um Fundo Nacional para Escolas Resilientes.
Na dimensão da justiça climática, o documento propõe direcionar recursos prioritariamente para as escolas mais vulneráveis e garantir a continuidade da aprendizagem — com transporte emergencial, bolsas de permanência e apoio psicossocial. E na dimensão pedagógica, destaca-se a importância de incluir educação climática e gestão de riscos na formação de professores, além do envolvimento de toda a comunidade.
“O impacto dos eventos climáticos extremos é pior que o da pandemia” é uma frase da secretária de Educação do Rio Grande do Sul, a Raquel Teixeira, que viveu as duas crises. Ela conta que a gestão da educação em uma crise climática é lidar com situações mais heterogêneas entre os estudantes; é ter que descobrir em qual abrigo cada um deles está; é lidar com a dor de famílias que perderam tudo o que construíram a vida toda; é lidar, assim como na pandemia, com vidas perdidas.
O futuro do planeta e o futuro da educação são o mesmo futuro. Legamos do século 20 um planeta mais instável e alunos que ainda não têm seus direitos educacionais assegurados. Agora teremos que lutar muito mais para deixar um mundo melhor para as pessoas do século 21, que já nasceram.
Novo impulso à impunidade
O processo de desmonte da responsabilização por corrupção no Brasil ganhou novo impulso. No dia 1.º de novembro, o juiz Antonio Claudio Macedo da Silva, da 10.ª Vara Federal Criminal do Distrito Federal, acolheu uma ação revisional movida pela J&F contra o Ministério Público Federal (MPF) e anulou a multa de R$ 10,3 bilhões fixada como contrapartida no acordo de leniência firmado pela holding dos irmãos Joesley e Wesley Batista em 2017. A decisão contraria os fatos, afronta a inteligência alheia e insulta o bom senso ao admitir que os donos de um dos maiores conglomerados empresariais do mundo teriam assinado “sob coação” um acordo que eles próprios buscaram para escapar de punições mais severas para os crimes que confessaram ter cometido.
Em uma palavra, a tese da coação é estapafúrdia. Os irmãos Joesley e Wesley Batista não são empresários ingênuos, muito menos desassistidos. Quando firmaram o acordo de leniência, estavam acompanhados por alguns dos mais preparados e bem pagos advogados do País, com pleno acesso a todas as informações e recursos necessários para avaliar as condições propostas pelo MPF. Beira o escárnio supor que teria havido desequilíbrio de forças, intimidação ou constrangimento na assinatura daquele pacto. O que houve, isso sim, foi uma escolha livre e racional diante de um conjunto robusto de provas de corrupção ativa, muitas delas fornecidas pelos próprios colaboradores.
Em maio de 2017, convém lembrar, Joesley Batista prestou um dos depoimentos mais estarrecedores no âmbito da Operação Lava Jato. Ele confessou, com espantoso nível de detalhes, que empresas da J&F, como a gigante do setor alimentício JBS, pagavam propina a políticos de diferentes partidos em troca de favores e oportunidades para expansão de seus negócios. “Tem pagamento via oficial, caixa um, via campanha, tem via caixa dois, tem dinheiro em espécie, essa era a forma de pagar”, disse Joesley aos procuradores da República. “Os pagamentos são feitos das mais diversas maneiras, nota fiscal fria, seja dinheiro, caixa dois, até mesmo doação política oficial”, detalhou o empresário.
À luz de confissões tão explícitas e da documentação abundante reunida pela força-tarefa da Lava Jato à época, não havia margem para interpretações benevolentes sobre o papel central da J&F no maior escândalo de corrupção de que o Brasil já teve notícia. O acordo de leniência, que resultou na liberdade para os irmãos Batista e na multa de R$ 10,3 bilhões para a holding – a ser paga em suaves prestações ao longo de 25 anos – foi uma solução negociada que, ao fim e ao cabo, saiu barato. Ainda assim, oito anos depois, a J&F busca rever o compromisso, alegando, ora vejam, ter sido “coagida” pelo MPF. Pior do que a desfaçatez dessa tese, só o fato de ter encontrado guarida no Judiciário.
A sentença do juiz Antonio Macedo, que determina a revisão do valor da multa, subverte completamente a lógica da responsabilidade jurídica. Disse o magistrado que o MPF “explorou a vulnerabilidade sistêmica da empresa” e que a escolha da J&F teria sido entre “um acordo com cláusulas ilegais e a virtual aniquilação corporativa”. Ora, é difícil acreditar que uma corporação que movimenta quase meio trilhão de reais por ano e com operações em dezenas de países pudesse ser reduzida a uma vítima indefesa de supostos abusos de poder de meia dúzia de procuradores da República. É ainda mais inacreditável que a Justiça Federal tenha chancelado essa fábula. Se delatores que se beneficiaram de acordos vantajosos podem reescrever o passado e escapar de suas obrigações, nenhum acordo de leniência ou de colaboração premiada está a salvo de um reposicionamento estratégico, chamemos assim, no futuro.
O caso da J&F, desafortunadamente, não é isolado. O País assiste a uma sequência de decisões do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli que reescrevem a história da Operação Lava Jato. Não há dúvida de que excessos ocorreram na condução da operação. O combate à corrupção não pode se sobrepor à ordem jurídica vigente. Mas uma coisa é corrigir abusos pontuais; outra é a tentativa, agora escancarada, de apagar crimes confessos e benefícios ilícitos acumulados durante anos por empresários e políticos, como se a Nação tivesse experimentado um surto coletivo.
COP-30: Príncipe William é surpreendido por chuva repentina, ganha perfume de ervas e conhece fã
Por Felipe Frazão / O ESTADÃO DE SP
COP-30: Príncipe William é surpreendido por chuva repentina, ganha perfume de ervas e conhece fã.
ENVIADO ESPECIAL A BELÉM - A cena era quase britânica, exceto pelo local. O príncipe de Gales, William, protegido por um guarda-chuva preto, no meio da tarde desta quinta-feira, dia 6, ao lado do premiê Keir Starmer. Não em Londres.
Em Belém (PA) para a Cúpula de Líderes da COP-30, ambos foram surpreendidos por uma repentina chuva tropical, que se anunciou como de costume por volta das 15h30, pelo ruído estrondoso das gotas grossas caindo sobre a copa de castanheiras, embaúbas, sumaúmas e guajarás.
O herdeiro do trono e o primeiro-ministro britânicos passaram a tarde em conversas com jovens lideranças amazônicas, no Museu Paraense Emílio Goeldi. A chuva interrompeu o circuito da visita na área de bosques, com aves e mamíferos soltos. Tudo cuidadosamente calculado pela monarquia, com passos e paradas ensaiadas, para fotografias e imagens.
O Estadão acompanhou a visita. Com a passagem da chuva, ele voltou a circular e a conversar com jovens como Paula Tanscheit, da Alianza Socioambiental Fondos del Sur, e Regilon Matos, do Fundo Casa Socioambiental.
Em meio ao canto de aves, como papagaios e gaviões da coleção do museu, William quis saber quais eram os desafios para obtenção de recursos para ações ambientais locais. Ele se mostrou preocupado com o desmatamento e a seca e seus efeitos sobre as comunidades amazônidas.
“Logisticamente, deve ser muito difícil fazer os recursos chegarem ao redor da Bacia Amazônica. Como vocês fazem isso?”, perguntou o príncipe a Regilon Matos, engenheiro civil e gestor de programas do Fundo Casa Socioambiental. “É um desafio logístico e tanto”.
“Temos parceiros nos territórios indígenas, quilombolas, no campo e na cidade. Garantimos que os recursos cheguem às comunidades de base, quando um incêndio e uma inundação acontecem, precisamos do recurso disponível de forma rápida. Já apoiamos mais de 160 etnias e fazemos a ponte entre eles e as grandes instituições filantrópicas”, afirmou Matos. “É fácil para um engenheiro”, respondeu William.
Perfume de priprioca e patchouli
Durante a visita, William também interagiu com Carla Braga, de 28 anos, e Pedro Mota, de 27, da entidade local paraense CoJovem. Eles pediram apoio com recursos para a juventude e presentearam o monarca com um perfume típico das erveiras do Mercado Ver-o-Peso, que vendem “banho de cheiro” com ervas paraenses para todo tipo de causa.
No caso deles, o objetivo era atrair “os direitos da juventude” e o “aumento de orçamento”. E o perfume, um frasquinho com essência de priprioca e patchouli.
“Aqui em Belém, usamos o cheirinho do Pará para fazer as coisas boas chegarem. Desejamos investimentos para a Juventude”, disse Pedro Mota. “Quero ver como vai se desenrolar em ações”, disse Carla Braga.
Frustração com Fundo Florestal
Antes, William e Starmer tinham conversado em reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e discursado na abertura da Cúpula do Clima de Belém.
William elogiou o Fundo Florestas Tropicais Para Sempre (TFFF), idealizado e lançado pelo governo brasileiro para angariar dinheiro, na forma de investimentos, e remunerar países que preservam suas florestas - US$ 4 por hectare.
“A proposta do Brasil para o Fundo Florestas Tropicais para Sempre é um passo visionário em direção a valorizar o papel da natureza na estabilidade climática. É por isso que ela foi finalista do Earthshot Prize este ano”, relatou o príncipe. Mas houve um anticlímax. O fundo perdeu o prêmio e ficou sem o esperado aporte britânico.
O governo do Reino Unido alegou dificuldade orçamentária para adiar os planos de participar como investidor da iniciativa, da qual havia sido entusiasta e ajudado a desenvolver.
“No momento, o crescimento interno e a elevação do padrão de vida são o foco principal deste governo”, diz um comunicado obtido pelo Estadão. “Exploraremos maneiras de mobilizar todo o peso do setor financeiro privado do Reino Unido para apoiar este programa – por exemplo, por meio da City de Londres.“
Em 2025, o herdeiro William, de certa forma, repetiu o pai, o rei Carlos III. Em 1978 e 2009, também como príncipe de Gales, ele visitou a Amazônia brasileira. Mas foi a Manaus (AM). Em 1991, também esteve no Pará - e no mesmo Museu Emílio Goeldi, em Belém, além de Carajás.
Mini príncipe
Ao fim da visita, William teve um encontro surpresa com um fã. Vestido com uma fantasia de príncipe azul, com capa e adornos dourados, e calça branca, o estudante Rafael de Sousa Nogueira, de 7 anos, entregou uma carta escolar ao príncipe sobre a Amazônia, escrita com ajuda da mãe.
“Vai ter a feira da Cultura, e meu tema é sobre o aquecimento global, a floresta e a Amazônia”, disse o menino. A economista Kattyanne de Sousa, mãe do menino, disse que eles esperaram quase dez horas para o encontro. Saíram de casa por volta das 7 horas da manhã na esperança de uma foto na sede da COP-30, mas não conseguiram furar o bloqueio de segurança.
Então, descobriram que ele iria passar a tarde no Museu Paraense Emílio Goeldi. E decidiram ir para a porta. Eram 16h30 quando conseguiram o encontro na porta do museu, pegando a alteza na saída. Foi o príncipe, de gravata verde, em sintonia com o ambiente, quem se ajoelhou para tirar foto com o garoto.

