COP30 começa com apenas 79 metas climáticas entregues e baixa adesão presencial
Jéssica Maes / FOLHA DE SP
Três anos depois do recém-eleito presidente Lula anunciar que queria trazer a COP30 para o Brasil, começa nesta segunda-feira (10) a 30ª edição da conferência das Nações Unidas sobre mudança climática, em Belém. As negociações, que se estenderão por duas semanas, começam em clima de incerteza.
Dos 195 signatários do Acordo de Paris, apenas 79 entregaram suas novas metas climáticas nacionais, representando 64% das emissões de gases de efeito estufa globais, segundo levantamento da plataforma Climate Watch.
Entre os planos atrasados estão o da Índia, deixando os diplomatas no escuro sobre o que pretende um dos maiores poluidores do mundo. A União Europeia, outro grande emissor, só entregou sua meta no último dia 5.
Conhecido como NDC (sigla em inglês para contribuição nacionalmente determinada), é esse documento que deve nortear as políticas de combate à crise do clima em cada país. Metas atualizadas e mais ambiciosas devem ser divulgadas a cada cinco anos, mas só uma minoria dos governos cumpriu o prazo original da ONU, de fevereiro, e nem mesmo a extensão da data limite até setembro foi o suficiente.
Com isso, o relatório-síntese feito pela UNFCCC (braço das Nações Unidas para mudanças climáticas) sobre as NDCs foi inconclusivo e não conseguiu apontar com precisão para qual cenário de aquecimento global o mundo está caminhando.
Em estimativas paralelas, considerando promessas aventadas pelo grupo europeu e pela China, a agência indicou que as emissões globais iriam cair cerca de 10% até 2035. Porém, para cumprir o objetivo mais ambicioso do Acordo de Paris —até o final do século, ficar abaixo de 1,5°C de aumento de temperatura global em comparação com os níveis anteriores à Revolução Industrial— essa redução teria que ser de 60%.
"Fechar essa vergonhosa lacuna [entre o corte de emissões necessário e o prometido] é uma condição absolutamente fundamental", afirma Claudio Angelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima.
"Para isso, não há outra opção senão lidar com o fim dos combustíveis fósseis, que é um tema do qual ninguém quer tratar. Mesmo diante dessas circunstâncias desfavoráveis, espero que a COP30 possa ser o início da resolução desse assunto."
O acordo adotado na COP28, em Dubai, citou pela primeira vez uma redução no uso mundial de combustíveis fósseis, mudando os sistemas energéticos de "forma justa, ordenada e equitativa". Desde então, porém, as nações produtoras de petróleo, gás e carvão conseguiram impedir que o tema voltasse à mesa.
Desfecho da crise de hospedagem
Além da indefinição sobre as NDCs, os preços exorbitantes para hospedagem na capital paraense durante o evento dificultaram a vinda de muitas delegações, principalmente de nações mais pobres. O quórum mínimo para legitimar decisões das COP é de dois terços dos signatários, ou seja, 132 partes, índice que foi atingido há menos de um mês.
A crise só foi amenizada após uma série de medidas tomadas pelo governo federal, como o apelo à ONU para que a organização aumentasse a verba concedida aos países menos desenvolvidos e o apoio de bancos de desenvolvimento e entidades filantrópicas.
Às vésperas do evento, os preços de hotéis e imóveis em Belém despencaram, com uma redução de mais de 60%, de acordo com a Abih-PA (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Pará), o Creci-PA (Conselho dos Corretores de Imóveis do Pará) e a plataforma AirbnB.
Até a última sexta-feira (7), 160 países tinham acomodação confirmada, enquanto 27 ainda estavam incertos quanto à hospedagem. As últimas três cúpulas, de 2024 a 2022, tiveram adesão quase total dos integrantes do Acordo de Paris. A COP29, sediada no Azerbaijão, registrou a participação de 193 partes. Em 2023, 196 nações estiveram na COP28, nos Emirados Árabes Unidos. E a COP27, no Egito, contou com 195 países.
Adaptação climática no centro do debate
Com o número mínimo de participantes garantido, a principal decisão a ser tomada nesta COP deve ser a definição de indicadores que possibilitem medir o progresso de ações de adaptação climática —mecanismo chamado de Meta Global de Adaptação (GGA, na sigla em inglês).
Após anos de discussões sobre o tema, o número de critérios passou de mais de 5.000 para cerca de 100, que seguirão em debate nos próximos dias. Aspectos como medidas para mobilizar financiamento, transferência de tecnologia e capacitação (conhecidos como "meios de implementação") devem ser o ponto mais contencioso dos debates.
Um relatório do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), divulgado no último dia 29, revelou que o mundo precisa preencher uma lacuna de US$ 284 bilhões (cerca de R$ 1,5 trilhão) a US$ 339 bilhões anuais (R$ 1,8 trilhão) em financiamento para adaptação às mudanças climáticas nos países em desenvolvimento até 2035.
"Espero que a COP30 consiga mostrar três coisas. Primeiro, que adaptar-se não é desistir, mas insistir em bem viver", diz Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa.
"Segundo, que a transição [energética] é resiliente e imparável —e que temos o compromisso de dar força a ela, mesmo com os ventos contrários dos populistas e protecionistas. E, por fim, a resiliência do próprio regime internacional, que neste momento precisa se provar relevante."
Questionamentos sobre a eficácia do sistema multilateralista, exacerbados em situações de conflitos globais, também ficam evidentes no debate climático. A frustração com a lentidão dos países desenvolvidos, os grandes responsáveis pelas emissões que aquecem o planeta, em cumprir compromissos assumidos no Acordo de Paris vem crescendo.
Da mesma forma, a cobrança para que eles paguem a maior parte da conta da crise climática tem se intensificado nas últimas COPs. Os mais ricos, por outro lado, insistem cada vez mais para que nações emergentes e muito poluentes, como a China e a Índia, passem a integrar o grupo de financiadores, o que tende a dificultar as negociações também em Belém.
Uma alternativa à dificuldade de obtenção de recursos públicos é apelar ao setor privado. Visando fortalecer acordos e iniciativas voluntárias de empresas e filantropias, além de entes subnacionais, a presidência brasileira da COP criou a chamada Agenda de Ação. Ainda que possa ser promissor, contudo, esse tipo de compromisso não é vinculativo nem tem força de lei, ao contrário das medidas acordadas sob a chancela da UNFCCC.
Relatório da PM mostra que CV atua em 70 das 92 cidades do estado do Rio; mais de mil comunidades estão sob domínio da facção
Por Roberta de Souza e Selma Schmidt — Rio de Janeiro / O GLOBO
Um empresário tenta driblar o baque da perda de 20 mil assinantes em uma só cidade da Região Metropolitana para o que diz ser o maior provedor de internet do estado: o CVNet. No Rio, vizinha do Morro dos Macacos, uma aposentada constata o aumento dos viciados em crack dormindo nas calçadas de Vila Isabel este ano, desde que a facção mais antiga do Rio se impôs na área. A megaoperação da polícia, deflagrada no fim do mês passado, escancarou a dimensão do poder armado do Comando Vermelho em um dos principais QGs da facção. Os complexos do Alemão e da Penha, no entanto, representam uma pequena fatia do domínio da quadrilha. Esse grupo criminoso já está disseminado em 70 dos 92 municípios fluminenses (76%), segundo relatório reservado do setor de inteligência da Polícia Militar.
Na ação de 28 de outubro, os policiais enfrentaram forte resistência dos traficantes. O contra-ataque respigou no asfalto, com ônibus servindo de barricada e a população tendo o seu direito de ir e vir cerceado. Essa influência do grupo criminoso — e até um controle — não se restringe a comunidades, sub-bairros e condomínios dominados por bandidos, estendendo-se para o entorno.
Isolado em 36 municípios
O levantamento feito pela PM aponta todas as comunidades em que há atuação de grupos criminosos no estado de forma estruturada. Em 36 cidades, o CV atua isoladamente, sem a presença de outra facção. E só 15 municípios não têm o domínio consolidado de uma grupo criminoso.
Dos 1.648 locais mapeados, 1.036 (62,8%) são controlados pelo CV; 340 (20,6% ) pelo TCP; 229 (13,9%) pela milícia; e 43 (2,6%) pelo ADA. Mas, como há muitas disputas territoriais, esses dados precisam ser constantemente atualizados e, de acordo com o subsecretário de Inteligência da Secretaria de Polícia Militar, coronel Uirá do Nascimento Ferreira, só são inseridos no documento após o grupo se consolidar no local. A Carobinha, em Campo Grande, por exemplo, ocupada na semana passada, ainda não consta nessa estatística.
De acordo com o secretário de Polícia Civil do Rio, Felipe Curi, foram as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) que contribuíram para a expansão da atuação de facções do tráfico, antes concentrado na capital fluminense:
— O que aconteceu após as UPPs foi o espalhamento dos traficantes por todo o estado. Paralelamente, o CV entendeu que a droga não é mais o negócio mais rentável. Hoje, o tráfico representa de 10% a 15% do faturamento da facção. Eles passaram a explorar economicamente os territórios, replicando atividades típicas das milícias. A prioridade passou a ser gerar receita com gás, luz, água, internet, transporte alternativo e extorsão, impondo o terror à população local.
Mas o CV também se espalhou pelo país: já está em 25 dos 27 estados. Embora considere o combate à facção um desafio, o coronel Uirá acha possível a retomada desses territórios pelo governo, com inteligência e estratégia. Ele tem explicações para o crescimento da facção: — O CV é a primeira facção do Brasil e influenciou praticamente todas as facções no território nacional.
'Nossos apartamentos não valem mais nada'
Depois de um ano de confrontos que deixaram os moradores do Morro dos Macacos, em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio, sob fogo cruzado, o CV conseguiu se consolidar na comunidade. Uma moradora da Rua Silva Pinto, no entorno dos Macacos, não vê saída a não ser conviver com o medo:
— No Dia das Mães, eu e meus filhos tivemos que almoçar dentro do meu quarto, único lugar seguro quando há tiroteio. Na garagem do meu prédio, sempre há balas no chão. Penso em sair todos os dias daqui. Mas meu apartamento é próprio. Como vou vender? Quem vai querer comprar? Nossos apartamentos não valem nada hoje.
Este ano, além dos Macacos, o CV tomou do TCP (mesmo que ainda o controle não esteja consolidado) o Campinho e o Fubá (Cascadura), o Morro do Divino (Praça Seca), o Gogó da Ema (Belford Roxo), Maria Joaquina (Búzios); e Fazenda da Barra 2 (Resende). Em 2024, na Zona Sudoeste, deixaram de ser controladas por milícia e viraram CV: Gardênia azul (Jacarepaguá), Cesar Maia (Vargem Pequena), Coroado (Vargem Pequena) e Fontela (Vargem pequena) e Jardim Bangu.
Uma moradora do Itanhangá diz que a atuação do CV em comunidades da região assusta e desvaloriza os imóveis do bairro conhecido por residências de alto padrão em meio ao verde. Ela relata que a facção tenta se apropriar do fornecimento de alguns serviços para além das favelas:
— Eles estão tentando vender gás de cozinha deles nos condomínios que ficam foras das favelas, inclusive atuam para impedir que outros façam esse serviço. O mesmo com a questão de internet. Teve até uma vez, meses atrás, que um batalhão da PM precisou dar cobertura para a companhia atuar — contou ela.
Em Ramos, na vizinhança do Morro do Adeus — última área do Alemão que passou do TCP para o CV — um morador diz que precisou se render a internet do tráfico:
— O meu prédio ainda tem uma opção de internet legalizada, mas a maioria não tem. Hoje, tenho duas “internets”. Instalei a deles, porque a legalizada ficou quase duas semanas inoperante. Até pensei que não iria voltar mais — contou.
Ainda segundo o secretário de Polícia Civil, o foco do CV na exploração econômica dos territórios fez com que a facção investisse ainda mais na expansão de suas áreas de atuação nos últimos quatro anos, o que resultou no aumento da receita e da renda do grupo.
— Com essa mudança de tática, voltada ao domínio territorial e econômico, é natural que o poderio financeiro da facção tenha crescido de forma expressiva. Não à toa, eles investiram fortemente na tomada de áreas na região da Grande Jacarepaguá, na Zona Oeste. Eles perceberam o potencial econômico da região — completou o secretário.
Uma moradora do Itanhangá, que não quis se identificar, contou que a atuação do CV em comunidades da região assusta os moradores e desvaloriza os imóveis do bairro de classe alta, que é conhecido por residências de alto padrão em meio ao verde. Ela também relatou que constantemente integrantes da facção tentam se apropriar do fornecimento de alguns serviços para além das favelas.
Barricadas: 50% a mais de relatos
Um retrato da ousadia dos bandidos são as barricadas que instalam nos acessos e dentro de comunidades sob seu domínio. De acordo com a PM, este ano, até outubro, foram 4.400 toneladas retiradas e 2.300 ruas desobstruídas.
Os relatos sobre barricadas ao serviço Disque Denúncia cresceram 50,5% de janeiro a outubro deste ano em relação a igual período de 2024: passaram de 6.908 para 10.393. São Gonçalo, majoritariamente controlada pelo CV, teve 34,12% das denúncias feitas em 2025, seguida de Rio e São João de Meriti. Hoje campeã, a cidade de São Gonçalo era terceira colocada em 2024, perdendo para Rio e São João de Meriti.
É em São Gonçalo que o representante de um provedor de internet relatou, sob condição de anonimato, que a empresa consegue atender, sem sofrer represálias, apenas 25% do território municipal. A vizinha Niterói também enfrenta um problema semelhante. Segundo o empresário, em aproximadamente 45% do território os funcionários não podem realizar atividades.
Falta de profissionais
Em ofício enviado ao comando-geral da PM, o setor jurídico da empresa informou que, somente em uma cidade do Leste Fluminense, sua área de atuação caiu de 90% para 30%, incluindo locais onde os veículos da companhia não podem sequer transitar. O advogado do provedor também relatou a perda de quase 20 mil assinantes para “provedores ligados diretamente ao Comando Vermelho”.
— Eu não perdi assinantes para a concorrência, perdi todos para o maior provedor do Rio, que é o CVNet. Além disso, lido constantemente com a falta de profissionais, porque toda vez que ocorre um episódio de violência, perco técnicos. Já tive funcionário ameaçado de morte em casa, com arma apontada para a cabeça, afastado depois de ser cercado por traficantes e desenvolver estresse pós-traumático
Além do risco aos profissionais, ele ressalta outros fatores que dificultam o trabalho, especialmente por causa da extensão dos territórios conflagrados no Estado do Rio. As dificuldades vão desde a resistência dos próprios funcionários em registrar denúncias — por morarem em áreas dominadas — até a escolha de rotas de manutenção e questões para contratar seguro. Ele contou que a empresa dispõe de um programa de inteligência que define as melhores rotas de serviço, economizando cerca de 20% de combustível, mas que essa funcionalidade não pode ser utilizada no Rio.
— Esse software, no Rio de Janeiro, não serve para nada porque os carros não podem passar por diversos bairros. A principal função dele se torna inútil. E há outro agravante: tenho funcionário que mora em área do Terceiro Comando e não pode atender na área do CV, ou vice-versa. Essa é a realidade do Rio de Janeiro. Ela retira nossa competitividade num nível difícil de explicar. — pontua.
Rumo ao interior pacato
Na pacata cidade de Paulo de Frontin, na Região Centro-Sul Fluminense, policiais já identificaram a influência do CV em alguns territórios. Porém, o município ainda consta entre os poucos onde não há controle de grupos criminosos, conforme o mapa da PM.
Com uma população de pouco mais de 7 mil habitantes, segundo o IBGE, Paulo de Frontin faz divisa com Paracambi e Miguel Pereira, onde a facção possui uma estrutura consolidada. De acordo com uma moradora, criminosos saem dessas cidades e tentam se estabelecer em Paulo de Frontin. Ela contou que os habitantes sempre viveram tranquilos, dormindo com janelas e portas abertas, mas que já não se sentem seguros para isso:
— Nós percebemos que começaram a aparecer pessoas diferentes na cidade, sempre se instalando em bairros mais afastados do centro, como Morro Azul, Sossego e Sacra Família. Depois disso, alguns locais passaram a ser conhecidos como áreas de “difícil acesso” e ter registros de furtos, venda de drogas e uso de armas. Isso não existia aqui.
De acordo com outro morador, os criminosos não possuem o controle territorial de regiões do município, mas alguns traficantes já foram presos ao tentar se estabelecer em determinadas áreas:
— Eles ainda não ocupam nenhuma região, mas já tentaram se fixar. Como o município é pequeno e parte dos policiais reside nas proximidades, eles conseguem agir rapidamente para evitar que elementos de fora se estabeleçam aqui. Eles até atuam na venda de drogas, mas ainda não há domínio territorial. Não exploram gás nem internet.
'Crescimento contínuo do CV'
Para Daniel Hirata, coordenador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF), que acompanha o avanço dos grupos criminosos há anos, o Leste Fluminense é a região do estado onde o Comando Vermelho tem mais tem influência sobre o entorno das comunidades.
Hirata lembra que 2023 foi o ano em que o CV passou a controlar mais áreas no estado desde 2017. No Mapa dos Grupos Armados de 2024 (Geni/Fogo Cruzado, com base em 2023), o CV já dominava 51,9% dos territórios controlados por criminosos na Região Metropolitana do Rio. Um crescimento que continuou ao longo de 2024.
— O Comando Vermelho, ao contrário das milícias, tem um crescimento que é contínuo ao longo de todo o período — diz Hirata, que prefere não arriscar sobre o futuro da Zona Oeste, majoritariamente controlada por milícias: — Os dois grupos são poderosos. E difícil prever o futuro, não são favas contadas o CV controlar a Zona Oeste. As milícias se instalaram lá há muito tempo, muitas vezes desde o início de alguns bairros. Não é simples para o CV tomar a Zona Oeste. No caso da Zona Sudoeste, foi construído pouco a pouco um corredor que juntava vários morros sob o controle do CV. Existe uma logística necessária para fazer isso tudo.
Juiz não é árbitro de luta política
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O juiz Wagner Pessoa Vieira, da 5.ª Vara Cível de Brasília, cometeu um grave erro ao determinar que a rede social X removesse uma publicação do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) na qual o parlamentar se refere ao Partido dos Trabalhadores (PT) como “Partido dos Traficantes”. Por óbvio, Nikolas explorou politicamente o fato de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter dito que “traficantes são vítimas dos usuários” de drogas.
Ao intervir em uma lide essencialmente retórica, o Judiciário ultrapassou as fronteiras de sua competência constitucional e invadiu o terreno próprio da política. A democracia implica confronto de discursos, ainda que sejam ásperos, exagerados, injustos ou mesmo mentirosos. Na arena política, respostas a palavras como as do deputado mineiro são dadas com palavras, não com decisões judiciais. A Justiça não tem o papel de policiar o discurso de deputados eleitos pelo voto popular, muito menos de higienizar o debate público.
A disputa político-partidária no Brasil é notoriamente ácida, por vezes agressiva. O próprio PT, ao longo de sua trajetória, produziu ataques e slogans muito mais duros contra seus adversários. Não causaria espanto se algum de seus parlamentares, reagindo à provocação, se referisse ao PL, partido de Nikolas, como “Partido dos Ladrões” – lembrando que o presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, já foi condenado a sete anos e dez meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Membros do clã Bolsonaro, filiados à mesma sigla, são suspeitos de praticar a chamada “rachadinha” em seus gabinetes parlamentares. Por mais rudes que sejam tais trocas de ofensas, isso faz parte do jogo político e deve ser enfrentado dentro dele, e não sob a tutela de um Judiciário censor.
Na decisão, o juiz Wagner Vieira argumentou que não há que se falar em imunidade parlamentar quando houver propagação de “notícias falsas” ou “discurso de ódio”, citando a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF), segundo a qual essa proteção não pode servir de “escudo para atividades ilícitas”. Eis o dano que o STF causou à liberdade de expressão no País. A tese estapafúrdia conferiu a todos os juízes brasileiros o enorme poder de definir, ora vejam, o que é “verdade” e o que é “ódio”.
A Constituição é cristalina ao estabelecer que deputados e senadores são “invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos”. Essa imunidade existe justamente para proteger o livre exercício do mandato e assegurar que o debate político, por mais lamentável que seja, ocorra sem medo de represálias judiciais. É um instrumento de defesa da democracia representativa, não um privilégio. Quando um juiz passa a decidir quais opiniões ou discursos de parlamentares são aceitáveis, sobrepõe-se à vontade popular às raias do arbítrio.
O conceito expansivo de “discurso de ódio” e o uso indiscriminado da noção de “fake news” têm servido, cada vez mais, como muleta para limitar a liberdade de expressão no Brasil. O STF e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vêm construindo uma jurisprudência que, sob o pretexto de proteger a sociedade de si mesma, concede ao Estado o enorme poder de censurar conteúdos publicados nas redes sociais. Às vezes, nem isso, exercendo censura prévia ao ordenar a suspensão de perfis. Como o exemplo vem de cima, o ânimo censório agora se reproduz nas instâncias inferiores, com juízes assumindo o papel de árbitros do debate político.
Em uma sociedade aberta, o preço da liberdade de expressão é conviver com o que desagrada. A democracia não exige que todos os discursos sejam elegantes ou verdadeiros, mas que todos possam ser expressos e contestados. Os que constituírem crime, evidentemente, têm de ser penalizados. Mas não era o caso julgado. O que o magistrado fez foi decidir o que pode ou não ser dito sobre um partido político – e isso tem nome: censura.
A intervenção judicial em temas políticos deseduca o eleitorado. Quando um juiz se arvora em tutor das discussões políticas, usurpa uma prerrogativa que pertence aos eleitores.
A batata quente das bets
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O presidente da Caixa Econômica Federal, Carlos Vieira, anunciou recentemente que o banco estatal iria lançar uma bet esportiva, com a expectativa de gerar uma arrecadação anual de até R$ 2,5 bilhões. A tal bet da Caixa já havia até recebido a autorização de funcionamento do Ministério da Fazenda. Mas eis que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou suspender o projeto.
O caso mostra como as bets, como são chamadas as onipresentes casas de apostas online, se tornaram uma batata quente para o governo. Primeiro, como se não fossem suficientemente claros os inúmeros problemas relacionados às bets, o governo se empenhou em aprová-las, de olho na promissora arrecadação de impostos. Depois, quando ficaram evidentes os efeitos danosos das bets, seja na saúde mental e financeira dos jogadores, seja pela avenida de oportunidades que esse negócio traz para o crime organizado, o presidente Lula passou a ameaçar as bets.
Agora, quando a Caixa Econômica Federal anuncia que pretende entrar nesse lucrativo negócio, Lula, aparentemente sem ter sido informado desses planos, mandou suspender tudo assim que soube. Não se conhecem exatamente as razões objetivas da ordem, mas pode-se especular que se trata de uma tentativa de reduzir os danos à imagem do governo, porque a incoerência é gritante: ou bem Lula considera que as bets são nocivas e devem ser restritas ao máximo, pagando impostos mais altos, ou entende que essas casas de aposta vieram mesmo para ficar e, nesse caso, que o governo aufira algum lucro com isso, por meio da bet da Caixa.
Não é de hoje que Lula se embanana com essa questão. Recorde-se, por exemplo, que o governo mandou restringir as apostas feitas por beneficiários do Bolsa Família, como se estes não fossem capazes de gerenciar suas contas. Ora, se o governo considera que brasileiros possam deixar de comer para apostar em bets, que as proíba. Uma vez que as liberou, não pode definir como os cidadãos se comportarão. É assim que funciona numa democracia liberal, como é supostamente a nossa.
Como Lula resolverá os dilemas acima expostos, é lá com ele. No que diz respeito ao País, é compreensível que a Caixa queira explorar o negócio, que está perfeitamente legalizado, a despeito de seus inúmeros problemas. E que o governo aguente o tranco da oposição, que não perdeu tempo. Na tribuna do Senado, Damares Alves (Republicanos-DF) afirmou que é inaceitável que a Caixa queira “explorar o vício e a vulnerabilidade econômica da população mais pobre”. Mas as críticas não vieram só à direita. À esquerda, houve quem dissesse, nas redes sociais, que oferecer bet na Caixa seria o mesmo que o Ministério da Saúde alertar sobre os efeitos prejudiciais do cigarro e ainda assim vender maços por aí.
Ou seja, enquanto uma ala do governo diz elaborar ações para aumentar a fiscalização e o controle sobre as bets e assim reduzir os danos causados pela jogatina, uma outra pretende usar a credibilidade da Caixa Econômica Federal e sua longa relação com a população, sobretudo a mais vulnerável em razão dos inúmeros serviços de assistência social realizados pela instituição, para transformá-la numa espécie de casa de apostas oficial.
Soberania não é moeda eleitoral
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Um funcionário do governo americano enviou uma carta ao governo do Rio lamentando a morte de quatro policiais durante a operação que deixou 121 mortos nos Complexos da Penha e do Alemão, no dia 28 passado. O documento, assinado por James Sparks, que representa a DEA (a agência antidrogas dos EUA) no consulado americano no Rio de Janeiro, diz que o governo daquele país está “à disposição para qualquer apoio necessário”, seja lá o que esse apoio signifique. A missiva, vinda de um burocrata de quinto escalão do governo de Donald Trump, foi recebida pelas autoridades fluminenses como uma espécie de endosso moral à política de segurança do governador Cláudio Castro (PL) e, ademais, serviu para acirrar a disputa política entre ele e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Castro tem exercido uma espécie de “diplomacia paralela” junto aos EUA. Como revelou o jornal O Globo, o governador do Rio encaminhou à embaixada americana documentos sobre o Comando Vermelho (CV), pedindo o apoio do país à classificação das facções criminosas brasileiras como “organizações terroristas”. Além disso, Castro entregou pessoalmente à DEA, durante viagem recente aos EUA, um dossiê sobre o CV. Tais ações abrem espaço para uma ingerência estrangeira que agride frontalmente a soberania nacional.
Por alinhamento ideológico e interesse eleitoral, políticos brasileiros vêm banalizando o envolvimento de Washington em assuntos domésticos. A iniciativa de Castro são só as mais recentes de um processo perturbador. O deputado Danilo Forte (União-CE), autor do projeto de lei que classifica as facções criminosas como grupos “terroristas”, chegou a citar Trump expressamente na justificação da proposta. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi ainda mais longe: sugeriu que o secretário da Guerra dos EUA, Pete Hegseth, bombardeasse barcos suspeitos de transportar drogas na Baía de Guanabara, nada menos.
Desde que Trump passou a tratar os cartéis de drogas do México e da Colômbia como “organizações terroristas”, o que tem levado os EUA a atacar embarcações que o governo alega servirem ao tráfico no mar do Caribe, parte da direita brasileira passou a copiar a retórica norte-americana, como se a adesão acrítica ao trumpismo fosse um selo de firmeza moral e correção política. O que se vê, no entanto, é uma perigosa subserviência de oportunistas que não veem problema em sacrificar a soberania nacional sob o altar das conveniências eleitorais de ocasião.
A ideia de classificar as facções criminosas como grupos terroristas, como já sublinhamos nesta página, além de conceitualmente errada, é institucional, política e economicamente temerária. O terrorismo é um crime de natureza extraterritorial, o que significa que qualquer indivíduo, empresa ou instituição minimamente suspeita de relação com as facções poderia ser alvo de sanções internacionais, em especial dos EUA. Bastaria uma denúncia, ainda que infundada, para que empresas nacionais fossem banidas de negociações comerciais, investimentos fossem congelados e contratos suspensos.
Tudo isso revela mais a teatralidade com que o problema da violência tem sido tratado no Brasil do que responsabilidade das autoridades políticas. O que políticos como Castro, Flávio Bolsonaro e Danilo Forte, entre outros, realmente buscam é o capital simbólico da “chancela” de Trump e a imagem de líderes implacáveis contra o crime organizado. Ao recorrerem aos EUA como se o país fosse um irmão mais velho valentão, não sinalizam força, mas dependência – e com alarmante desprezo pelas instituições pátrias.
A sabujice também dificulta a integração entre governo e oposição para resolver um problema que aflige todos os brasileiros, independentemente de suas afinidades políticas. A representação contra Castro feita pelo líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (PT-RJ), ao Supremo Tribunal Federal, acusando-o de “traição”, além de juridicamente equivocada – a competência para julgar governadores por crimes comuns é do Superior Tribunal de Justiça –, não é mais do que uma bravata que reforça a polarização permanente, em detrimento da cooperação federativa que a sociedade exige de seus representantes.
Projeto potiguar de retomada territorial pode servir de inspiração ao Rio
Por Editorial / O GLOBO
Barricada erguida por facção no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo/28/10/2025
Faz sentido a ideia do secretário nacional de Segurança Pública, Mario Sarrubbo, de oferecer ao governo do Rio o projeto-piloto de retomada de territórios testado numa área conflagrada do Rio Grande do Norte. Em entrevista ao GLOBO, Sarrubbo disse que conversará sobre o assunto com o governador fluminense, Cláudio Castro (PL). Trata-se de um protótipo elaborado pelo governo federal para levar policiamento e serviços públicos a áreas dominadas por facções criminosas. A depender dos resultados, poderá ser estendido a outras regiões.
Desenvolvido em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), o projeto prevê num primeiro momento ações policiais para prender lideranças de facções e retomar o território sequestrado pelos criminosos. A primeira operação ocorreu no mês passado, reunindo polícias Militar, Civil, Rodoviária Federal e o Ministério Público estadual. “A polícia entra, satura, depois entram os serviços públicos, e a polícia vai saindo aos poucos”, disse Sarrubbo. A iniciativa prevê serviços como Defensoria, mediação de conflitos, iluminação, urbanismo, saúde e educação. Os primeiros resultados deverão ser divulgados no mês que vem.
Um dos desafios está na relação conturbada entre Planalto e Palácio Guanabara. Após a operação nos complexos do Alemão e da Penha, Castro se queixou da falta de cooperação federal. O ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, veio ao Rio anunciar a criação de um escritório conjunto de enfrentamento ao crime organizado, mas a relação voltou a se deteriorar quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou a operação como “matança”. Outro desafio é a desconfiança de ingerência nos estados. Por uma visão equivocada, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança, que prevê maior participação federal no combate ao crime, tem enfrentado resistência do Congresso e de governadores oposicionistas.
O avanço das facções criminosas pelo Brasil exige resposta firme e urgente de todos os níveis de governo. O combate à violência só será bem-sucedido se houver um trabalho integrado entre todas as forças de segurança. Os estados isoladamente não conseguem enfrentar organizações criminosas que atuam em diferentes estados e fora do país. Seria saudável, portanto, que os governos federal e fluminense se unissem para retomar territórios das facções. É verdade que o projeto testado no Nordeste ainda é embrionário, mas vai na direção correta ao conjugar policiamento com a oferta de serviços públicos, seguindo experiências internacionais bem-sucedidas. É certo também que não se conseguirá reverter de uma hora para outra uma situação grave como a atual. Mas é preciso começar. Quanto mais forças se juntarem nesse esforço, maiores as chances de sucesso.

