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COP-30 tem tentativa de invasão e crítica de governador da Califórnia a Trump

Por Redação / O ESTADÃO DE SP

 

 

COP-30: manifestantes tentam invadir área da ONU e espaço é isolado após tumulto. O segundo dia da Cúpula do Clima das Nações Unidas (COP-30), em Belém, nesta terça-feira, 11, foi marcado por quebra-quebra e tentativa de invasão à Zona Azul. Vídeos obtidos pela reportagem do Estadão mostram os manifestantes gritando palavras de ordem em defesa da taxação de grandes fortunas, enquanto seguranças tentam retirá-los da Zona Azul. Alguns manifestantes subiram em mesas com faixas de protesto. Outros empunhavam bandeiras, bastões, megafones, arcos e flechas.

 

Antes, os holofotes estavam voltados para o governador da Califórnia, Gavin Newsom. Ele criticou a ausência dos Estados Unidos das discussões climáticas e classificou a postura do governo Donald Trump como “burra”. O dia também foi marcado pelo anúncio de Bradesco e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em parceria com as empresas Ecogreen e Aecom, de uma nova certificadora de crédito de carbono, batizada de Ecora.

 

Manifestantes tentam invadir área da ONU

 

Uma confusão terminou em quebra-quebra no acesso à Zona Azul da Cúpula do Clima das Nações Unidas (COP-30), em Belém, nesta terça-feira, 11.

Um grupo de indígenas tentou acessar a área restrita a pessoas credenciadas e foi contido pela segurança. Os manifestantes conseguiram ultrapassar o sistema de Raio-X, mas foram parados por um bloqueio de segurança antes de acessarem o local. Portas da entrada foram quebradas. Ao menos um segurança ficou ferido durante o incidente.

 

Governador da Califórnia chama de ‘burra’ postura dos EUA em relação às mudanças climáticas

 

O governador da Califórnia, Gavin Newsom, criticou a ausência dos Estados Unidos das discussões climáticas e classificou a postura do governo Donald Trump como “burra”. “A China está invadindo a área e vai dominar a próxima grande indústria global. Portanto, estou aqui também por um prisma econômico. Os Estados Unidos da América estão sendo tão burros quanto querem ser sobre este tópico. Mas o Estado da Califórnia não está”, disse. Sob Trump, os EUA deixaram o Acordo de Paris e, pela primeira vez na história, não enviaram uma delegação oficial à Cúpula do Clima das Nações Unidas (COP). 

 

Bradesco e BNDES anunciam criação de certificadora brasileira de crédito de carbono

 

Bradesco e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em parceria com as empresas Ecogreen e Aecom, anunciaram nesta terça-feira, 11, uma certificadora de crédito de carbono, batizada de Ecora. A informação havia sido antecipada pelo Estadão/Broadcast. O valor investido no projeto não foi divulgado. Segundo o presidente do Bradesco, Marcelo Noronha, outros dois parceiros devem entrar na empresa. Apenas depois disso, o aporte será anunciado. Também não foram divulgadas as participações de cada sócio no projeto. Os fundadores são o Bradesco e a Ecogreen, que assinaram um memorando de entendimento com o BNDES. 

 

 

Obituário de um ‘campeão nacional’

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

A Justiça decretou a falência da Oi a pedido da própria empresa, dando fim ao longo processo de decadência de uma companhia criada para ser uma das maiores do País na área de telecomunicações. Era um epílogo previsível, depois de duas recuperações judiciais nos últimos nove anos, mas nem por isso menos melancólico, haja vista o esforço hercúleo que diferentes governos fizeram para tentar salvar a empresa desde sua origem.

 

Diz o ditado popular que “pau que nasce torto nunca se endireita”, e assim foi com a antiga Telemar, nome que a empresa utilizou logo após a privatização da telefonia fixa, em 1998. Embora o edital do leilão estabelecesse que os consórcios fossem compostos por empresas com expertise em telecomunicações, o governo Fernando Henrique Cardoso abriu exceção para a Telemar ao perceber que não haveria outros interessados em adquirir o lote formado por Estados do Norte, Nordeste e Sudeste, com exceção de São Paulo.

 

Havia um bom motivo para ninguém mais se interessar pelo bloco. Era, de fato, a área de cobertura mais desafiadora em termos de universalização dos serviços, havia uma enorme demanda reprimida pelos serviços e cumprir os compromissos exigiria investimentos vultosos no curto prazo para obter retornos no longo prazo.

 

Com o tempo, ficou claro que os acionistas não tinham essa intenção. Nem por isso eles deixaram de contar com a benevolência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e de fundos de pensão de funcionários de estatais para se financiar e se envolver em negócios que nada tinham a ver com telecomunicações. Em 2008, mesmo com passivos consideráveis, a empresa convenceu o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, então em seu segundo mandato, a mudar a legislação para permitir que ela se fundisse com a Brasil Telecom, também em dificuldades financeiras.

A promessa era de que a união das operações faria da empresa uma “campeã nacional” com condições de assumir a liderança no mercado brasileiro. O resultado foi uma empresa gigante, com dívidas bilionárias e sem capacidade de honrar suas obrigações como concessionária de serviços públicos, que incluíam a manutenção de anacrônicos orelhões enquanto o número de linhas de telefone celular já superava o da população.

 

O governo de Dilma Rousseff dobrou a aposta ao ajudar na operação que permitiu a união entre a Portugal Telecom e a Oi, desta vez para fazer da empresa um player internacional. O controverso negócio fez com que dívidas de negócios escusos da empresa portuguesa recaíssem sobre a operação brasileira, e o sinal amarelo acendeu em 2014, quando a Oi foi a única tele a não participar do leilão do 4G.

 

Em 2016, quando acumulava quase R$ 65 bilhões em dívidas – um terço delas com o próprio governo –, a Oi entrou em recuperação judicial. À época, ela era a única empresa a operar em centenas de municípios, o que lhe conferiu o status de ser grande demais para quebrar. O governo de Michel Temer oscilou entre intervir na empresa e renegociar as dívidas, mas, sem amparo legal e jurídico, optou por deixar que a empresa seguisse seu caminho na expectativa de que um novo investidor se interessasse por ela. Anos se passaram sem que isso acontecesse.

 

Nos últimos tempos, a empresa vendeu praticamente todas as operações que poderiam lhe render alguma receita no futuro, inclusive redes de fibra óptica e a operação de telefonia móvel. Saiu da primeira recuperação judicial no fim de 2022 apenas para entrar na segunda menos de três meses depois, alegando fatores “imprevisíveis e alheios”. Mais recentemente, teve a diretoria e o conselho de administração afastados, acusados de esvaziar o patrimônio da companhia.

Foi assim que a empresa prolongou sua agonia por nove anos, até o fatídico 10 de novembro passado, quando a Justiça aceitou o pedido do interventor e decretou sua falência. Ao longo de 27 anos, pode-se dizer que não faltou boa vontade com a Oi, mas sobraram benevolência e conivência de diferentes governos com seus erros.

 

A Oi teve chances para se recuperar, mas desperdiçou todas – levando consigo bilhões de reais investidos pelo BNDES, dentro do delirante projeto de Lula e Dilma de criar, por mágica, empresas associadas ao Estado capazes de ganhar mercado internacional. Assim, só as carpideiras petistas vão chorar no enterro dessa “campeã nacional”.

O perigo do jornalismo militante

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

O escândalo que derrubou o diretor-geral da BBC (British Broadcasting Corporation), Tim Davie, foi mais que um tropeço editorial. A emissora manipulou falas do presidente americano, Donald Trump, num documentário para fazê-las parecer um apelo direto à violência. O episódio somou-se à revelação de que um programa sobre a guerra em Gaza fora narrado, sem aviso ao público, pelo filho de um ministro do Hamas. A BBC, criada há mais de um século para ser sinônimo de imparcialidade, violou a sua razão de ser: a credibilidade. O erro, grave em qualquer redação, é duas vezes pior em uma custeada pelos cidadãos. Quando uma emissora pública mente, o cidadão paga em dobro – com a confiança e com o bolso. E quando a mentira vem de quem se proclama modelo de excelência, ela contamina todo o ecossistema informativo.

 

O memorando interno do ex-conselheiro editorial da BBC Michael Prescott, divulgado pelo jornal inglês The Telegraph, expôs a anatomia do vício: uma cultura de resistência à crítica, de autocensura e vetos condicionados a tabus progressistas sobre gênero ou raça. A redação tomou o partido da virtude e esqueceu o dever da verdade. A neutralidade é vista como omissão, e a objetividade, como conformismo. A reportagem virou proselitismo. A pauta ambiental virou cruzada, a economia é narrada como denúncia e o noticiário internacional opera sob a convicção de que o Ocidente é sempre o culpado. Da cobertura de Gaza ao aquecimento global, a BBC já não descreve o mundo – evangeliza o público.

 

Seria reconfortante tratar o episódio como desvio isolado. Mas ele só expõe, em escala nacional, um tumor que vem degenerando o jornalismo no Ocidente. Redações se notabilizam cada vez mais como trincheiras morais onde alguns repórteres atuam como militantes e editores, como curadores da pureza ideológica. O resultado é um jornalismo menos interessado em compreender o mundo e mais empenhado em doutriná-lo. Em amplas camadas, o jornalismo deixou de ser uma busca compartilhada da verdade para se tornar uma catequese da tribo ilustrada.

 

Há veículos grosseiramente enviesados à direita. Mas a assimetria é gritante. A hegemonia progressista nas redações se disfarça de consciência coletiva. Segundo pesquisa do Reuters Institute, no Reino Unido 77% dos jornalistas se identificam como de esquerda e apenas 11% de direita. No Brasil, segundo pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina, a desproporção é ainda maior: 80,7% à esquerda, ante 4% à direita. Um levantamento da The Economist revelou que 17 dos 20 principais veículos dos EUA mimetizam predominantemente o vocabulário do Partido Democrata. A nova ortodoxia editorial não é imposta por governos, é cultivada nas redações.

 

Quando a imprensa se imagina consciência moral da sociedade, deixa de ser seu espelho e age como seu juiz. Ao invés de serem cronistas do real, muitos jornalistas tornaram-se missionários de suas idealizações. E quanto mais pregam, menos convencem. Em todo o Ocidente, cresce o abismo entre elites midiáticas e público. Uma democracia sem uma imprensa confiável é um corpo sem sistema nervoso. Se a sociedade não confia no jornalismo, torna-se incapaz de distinguir verdade de ruído, informação de propaganda.

 

Dia após dia, o jornalismo profissional é desafiado a manter seu papel de guardião da verdade factual em meio à torrente de distorções que capturam a atenção no mundo inteiro. Com seu exemplo de antijornalismo, a BBC ajudou a minar a confiança na imprensa, tal como desejam os inimigos das sociedades abertas.

 

Para recuperar a confiança e cumprir sua missão, o jornalismo precisa de humildade – isto é, precisa voltar a duvidar de si mesmo, e não apenas dos outros. A tarefa da imprensa independente não é salvar o mundo, é apenas descrevê-lo com honestidade. A verdade não pertence a um partido nem a uma causa, pertence ao público. E o jornalismo só o serve enquanto se lembra disso. Porque uma imprensa livre não se degrada quando é atacada por governos, mas quando blinda suas próprias certezas. Não morre quando é silenciada, mas quando deixa de escutar.

Avaliando um ensino superior transformado e desigual

Embora se mantenha a liderança de um pequeno grupo de instituições públicas no Ranking Universitário Folha (RUF), que chega a sua 11ª edição, a educação superior passou por modificações profundas nos últimos anos e décadas no Brasil.

O que mais chama a atenção é a forte expansão das vagas. Entre 2000 e 2022, a proporção dos habitantes com 25 anos ou mais que concluiu um curso superior passou de 6,8% para 18,4%, segundo os censos do IBGE.

A grande maioria das novas matrículas foi feita em estabelecimentos privados, ainda que também tenha havido expansão no setor público. Outra mudança vertiginosa se deu na modalidade de ensino. Em 2012, ano de estreia do RUF, o EAD (ensino a distância) representava apenas 16% das matrículas; hoje, são 51%, vale dizer, mais da metade.

Como não poderia deixar de ser, é enorme a heterogeneidade do setor. Há desde cursos extremamente concorridos, disputados palmo a palmo pela elite dos estudantes, até escolas que oferecem mais vagas do que as que conseguem ocupar. Por vezes, uma mesma instituição tem alguns cursos com alta procura e outros com vagas ociosas.

Há muito mais por vir. Ainda é cedo para estimar o impacto que a inteligência artificial terá na sociedade, mas já se pode dizer que ela, a exemplo de outros grandes avanços tecnológicos, abalará o mercado de trabalho —criando novas demandas, tornando certas funções obsoletas e redimensionando as necessidades de empresas por profissionais.

Nessa profusão de opções, um jovem que acaba de concluir o ensino médio e tem de lidar com as inseguranças naturais quanto à escolha de carreira pode facilmente se perder. O RUF pretende ser uma ferramenta para que ele tome suas decisões, que têm repercussões de longo prazo, de modo mais informado.

Embora um diploma universitário ainda seja uma poderosa ferramenta de ascensão social, não são poucos os problemas do do ensino superior no país. Entre as instituições públicas, que ocupam as 20 primeiras colocações no RUF, há deficiências de financiamento que não serão sanadas sem revisão do modelo atual.

Governos deficitários, que já lidam com pressões por mais gastos em previdência e saúde decorrentes do envelhecimento da população, terão cada vez mais dificuldades em arcar sozinhos com os custos de universidades. O país está gravemente atrasado no debate sobre a contribuição dos alunos mais abonados.

Do lado privado, sobretudo no EAD, preocupações quanto à qualidade do aprendizado apenas começaram a motivar novas normas do Ministério da Educação (MEC).

Com uma avaliação que leva em conta ensino, pesquisa, mercado, inovação e internacionalização, o RUF também pode contribuir para diagnósticos sobre o setor. Como costumam dizer os físicos, só conhecemos aquilo que conseguimos medir, mesmo que as medidas não sejam perfeitas.

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COP30 busca relevância em contexto desfavorável

EDITORIAL DA FOLHA DE SP

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), aberta nesta segunda (10) em Belém, é mais uma oportunidade diplomática para conter o efeito estufa. Mas, levando em conta as estatísticas e as últimas edições da reunião, nota-se que a mobilização global está aquém do desafio e que acordos sobre pontos controversos parecem distantes.

O Acordo de Paris (2015) instituiu a meta de manter o aumento da temperatura média global abaixo de 2ºC até o final deste século —preferencialmente limitá-lo a 1,5°C— e reduzir emissões de carbono provenientes da queima de combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural).

As emissões, porém, só crescem. Segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) divulgado na terça (4), elas subiram 2,3% em 2024, chegando ao recorde de 57,7 gigatoneladas de CO² .

Para conter o aquecimento em 2°C no fim do século, as emissões em 2030 teriam de cair 25% em relação ao registrado em 2019, e 40% para atingir a marca de 1,5°C.

O Acordo de Paris estabeleceu que os 196 signatários devem apresentar contribuições nacionalmente determinadas (NDCs), planos para reduzir emissões renovados a cada cinco anos.

Até setembro, prazo estabelecido pela ONU, só 64 países haviam entregado suas NDCs. No primeiro dia da COP30 o número chegou a 110 —e faltam grandes poluidores como ÍndiaIrã e Arábia Saudita, sem contar a retirada dos EUA do acordo por Donald Trump em janeiro.

A UNFCCC (braço climático da ONU) analisou 86 dessas NDCs e, segundo a entidade, elas reduziriam as emissões verificadas em 2019 em só 12% até 2035. Assim, estima-se que o mundo chegará a 2100 com aquecimento de 2,8°C.

A pauta obrigatória da COP30 é a definição de indicadores para medir o progresso das ações de adaptação climática, importante para manter o pragmatismo.

Os principais entraves são a lucratividade do setor de combustíveis fósseis e o financiamento para adaptação a mudanças climáticas em países em desenvolvimento por nações ricas, que fica debilitado num contexto de conflitos globais e ascensão de protecionismos econômicos.

As três COPs anteriores foram sediadas por nações petrolíferas: Azerbaijão (2024), Emirados Árabes Unidos (2023) e Egito (2022).

Na do ano passado, foi estabelecido financiamento anual US$ 300 bilhões, pífio diante do US$ 1,3 trilhão ao ano almejado.

Apesar das dificuldades, o multilateralismo é a melhor forma de conter o aquecimento global. Sem as conferências da ONU, o mundo estaria ainda mais distante da meta do Acordo de Paris —sem contar seu papel indutor de articulação de setores privados e da sociedade civil.

Espera-se que a edição na maior floresta tropical do planeta consiga superar obstáculos e o contexto adverso para ao menos limitar a escalada da temperatura global e seus efeitos deletérios.

 

Demagogia e excessos tiram debate da segurança do eixo

Pelos primeiros indicativos, a Comissão Parlamentar de Inquérito instalada no Senado para investigar o crime organizado vai coroar uma quadra de intervenções populistas e infelizes de autoridades com e sem mandato nesse tópico.

Sob a presidência do governista Fabiano Contarato (PT-ES) e a relatoria de Alessandro Vieira (MDB-SE), a comissão já se vê engolfada pelo palavrório inconsequente da direita à esquerda.

Para a gestão Luiz Inácio Lula da Silva (PT), todo problema deveria ser explicado pela batalha mítica entre ricos desalmados e pobres indefesos. A retórica se repete para o crime organizado. Governistas querem prender os supostos barões da bandidagem, que estariam desfrutando da boa vida nas coberturas dos bairros chiques, e não nas favelas.

Uma análise das pilhas de inquéritos produzidos pelos investigadores derruba essa visão estereotipada. O líder do Comando Vermelho, riquíssimo, é um migrante paraibano, cruel a mais não poder, que responde por cem homicídios, tortura, extorsão, entre outras várias delinquências.

Do lado dos radicais de direita, a irresponsabilidade apenas muda de forma. Quem ilude a população com a ideia de que matar suspeitos vai produzir alguma melhora na situação agora pretende adotar a terminologia "narcoterrorista" para denominar as facções criminosas brasileiras.

Narcomilícias não são organizações terroristas. Não têm propósito político-ideológico, e a violência que praticam objetiva manter ou ampliar a lucratividade na sua operação ilegal, não destruir ou abalar regimes.

A escolha do ex-secretário de Segurança de São Paulo Guilherme Derrite (PP-SP) para relatar na Câmar o projeto de lei antifacções eleva o risco de a insânia terminar gravada nos códigos.

Se ocorrer, daria ao presidente dos EUA, Donald Trump, pretexto para incluir o Brasil na sua cruzada bélica contra cartéis de drogas na América do Sul. Nessa hipótese, Trump, que apoiou o governador do Rio de Janeiro pela operação que matou 121 no último dia 28, seguiria o conselho explícito do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Os Bolsonaros e governadores de direita que os apoiam na parolagem do "narcoterrorismo" se especializam no entreguismo. Não bastou terem na prática incentivado o tarifaço contra o Brasil. Surgem agora como patrocinadores de uma demagogia inútil contra o crime organizado, mas com consequências potenciais danosas à soberania nacional.

Outra nota de preocupação diz respeito à participação crescente do ministro Alexandre de Moraes nesse assunto. Ele é o relator de uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) que versa sobre operações policiais em favelas. Suas movimentações recentes com o governador do Rio, o presidente do Senado e a Polícia Federal requerem atenção redobrada.

Não se deveria repetir, na segurança pública, a heterodoxia que se viu na condução dos inquéritos sobre manifestações políticas.

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