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Bolsopetismo, o pior dos pesadelos - ISTOÉ

Em um Brasil à deriva, assolado pelo buraco negro da falta de vacinas, abismo vertiginoso que a tudo consome, parece que o ruim pode ficar ainda pior. Todos viram: o primeiro quadrilheiro do mal afamado Mensalão, o chefão da gangue, despojado por um lance monocrático das acusações que lhe pesavam. De volta à disputa! Não há como resistir ao comentário diante da situação.

Muitos enxergam racionalmente os lances em andamento e sabem, o jogo do poder é um labirinto. Quem nos espera ao cabo dos caudalosos meandros da transição em curso? A democracia ou o Minotauro? A julgar pelo que dizem da polarização extrema e radical, garantida entre Lula e Bolsonaro, estamos na galeria dos belzebus. Há, naturalmente, uma hierarquia dos demônios, ao sabor da vertente ideológica. Mas com a tirania em andamento, não existe nada que supere o poder libertário de um país mergulhado nos últimos anos em sombras.

Aos oráculos deuses das urnas caberá o veredicto. Nessa guerra de insanos, à direita e à esquerda, não existe Asmodeu menor. Tome-se o caso daquele hoje aboletado na cadeira de controle do Planalto. Monstro meio touro e meio homem, pulou do labirinto e tomou o coração dos incautos como símbolo de um poder capaz de impor sacrifícios humanos sem precedentes. É o que conta a mitologia e verifica-se na prática cotidiana de uma certa vereda tropical. O nosso Minotauro Bolsonaro apresenta a inconfundível fisionomia do Brasil populista, retocada por maquiadores treinados nos salões da prepotência, que vêm desde a ditadura. O fenômeno tem o seu lado assustador.

Que estranha força é essa que junta o negacionismo doentio da pandemia aos golpes assustadores de controle do Estado e ao horror do vazio calculado de ações para salvar o País? Que futuro aguardar na ribalta eleitoral com alguém que não mostra coisa alguma, salvo o projeto totalitário e tenebroso, desejoso de cassar os direitos individuais mais elementares e “venezuelizar” uma Nação inteira, enquanto se disfarça na pele de liberal que nunca lhe caiu bem? E o que dizer de seu antípoda? Lula, o camaleão político capaz de adequar o figurino “paz e amor” enquanto saqueia as entranhas e os tesouros estatais, aparelhando a máquina, expert em promover chicanas legais para se safar do patíbulo? Dois monstros de um mesmo labirinto.

Precisavam estar enclausurados no mais remoto esquecimento, relegados ao chiqueiro malcheiroso do que há de pior e medíocre na humanidade. Lula não deixou de ser moralmente e na letra da Lei o ficha-suja que sempre se mostrou. Nem Bolsonaro conseguirá apagar a mácula autoritária e xucra de seus vitupérios. Não há mais como negar, a combinação putrefata do Bolsopetismo se concretizou na prática. Estão presentes e pendentes essas forças antagônicas, de hordas de seguidores tão alienados como veneradores de semideuses das trevas. Amantes da patifaria se reaglutinam em torno de cada líder na busca de um novo esquema de controle, capaz de mantê-los na sela do privilégio e da hegemonia de pregações alucinadas.

A promover o pérfido embate, colocando na encruzilhada das decisões dois Minotauros tão temidos como adorados, encontram-se (quem diria!) os paladinos da Justiça, bastiões da moralidade pública, senhores do universo e da lei no Supremo Tribunal. A eles legada a culpa pela algazarra de decisões inexplicáveis. Ou alguém entende? Invocam questões processuais para libertar de acusações o endiabrado barbudo, embora reiterem seus crimes de corrupção, fartura de benesses ilegais e arranjos sorrateiros da marginalidade mais hedionda. A materialidade das transgressões monumentais de Lula é do conhecimento até do mundo mineral. Tal como a série infindável de crimes de responsabilidade do Messias Bolsonaro, mito que bota pra quebrar, faz e acontece à revelia da Lei, no sobranceiro atrevimento de quem se considera inimputável.

E os senhores magistrados relevam os abusos dos dois! Destamparam o bolor e liberaram o odor fétido de uma contenda sem sentido. Não há leigo ou conhecedor de causa que endosse tais práticas e mirabolantes saídas. Estaríamos irremediavelmente condenados ao desfecho fatídico de escolher entre o péssimo e o pior? Talvez não. Claro, a maioria dos cidadãos está plenamente convencida de que o Brasil não se encontra hoje como a Inglaterra do imediato pós-guerra, vivendo a vigília de um fatídico embate eleitoral entre Winston Churchill e Clement Attlee.

Quem nos dera! Optar entre o ótimo e o bom. Naturalmente, o Brasil não é a Inglaterra; e não é, também, sequer a Itália, recém-saída da treva fascista, indo às urnas para viver o dia luminoso da democracia reconquistada. A próxima eleição majoritária, por aqui, nos reserva desafios inigualáveis. Uma batalha travada entre os dois prepostos de Minotauro, de democrática não tem coisa alguma. O candidato Bolsonaro tem o respaldo do sonho continuísta de um grupo de senhores, alguns feudais, que não querem largar o poder aviltado por eles mesmos. Tem o respaldo da sua própria obstinação, da sua empáfia, da sua clamorosa falta de senso de correção, da sua peculiar capacidade de conceber a coisa pública como privada — quer dizer, de sua exclusiva e plenipotenciária propriedade, dos filhos e mais chegados. Tem o respaldo de uma fatia exígua da sociedade que supõe ser a vida uma espécie de assalto diário aos interesses da maioria desvalida. Tem o respaldo de certas zonas de ignorância e dos recalques pequeno-burgueses, esses que, em outros tempos e em outros cantos, geraram o fascismo.

O candidato Lula, por sua vez, tem o respaldo de tudo mais dos crentes na impunidade, sem contar — e isso pesando inexpugnavelmente contra — a habilidade administrativa em maquiar desvios. O demiurgo de Garanhuns representa o sistema velho de guerra do assistencialismo, do clientelismo tolo e perverso, do mau humor nas ruas, do fracasso rotundo de 16 anos de prepotência petista, um governante venal que sobressai dos escombros de um pseudopartido dos trabalhadores. É preciso a busca incessante e coletiva por uma opção de centro, equilibrada e sensata, separando o joio do trigo, que nos livre do turbilhão de incertezas desses salvadores da pátria, messiânicos, aloprados.

É vital a reintrodução no teorema eleitoral de uma alternativa civilizatória contra o caos imoral dos arrivistas de plantão. A disputa, como se vê, é desigual e ambígua. Não se pode pender tanto nem a um lado, nem ao outro. O desequilíbrio pode levar a ameaças distintas, ao ralo do obscurantismo em ambas as direções.

Aqui, no Brasil, sobreleva a forte impressão de que as prioridades reais foram deixadas, lamentavelmente, de lado. O País encanta-se e mergulha na rinha animalesca do Bolsopetismo, enquanto milhares morrem — mais de dois mil ao dia — em uma pandemia implacável que lateja como dor dilacerante entre vítimas, familiares e conhecidos, a lembrar que nenhum desses Minotauros está nem aí para a sobrevivência de cada um. Encaram os brasileiros como meras presas, inebriadas, facilmente seduzidas por lorotas, que deveriam estar atrás do único antídoto eficiente para todo esse mal: as vacinas redentoras. Brasileiros, acordem do estupor político! Sem imunizantes, no futuro, como diria o Lord John Maynard Keynes, estaremos todos mortos. 

Carlos José Marques é diretor editorial da Editora Três

 

Racha no Novo vai além de conflitos por impeachment e oposição a Bolsonaro

José Fucs, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2021 | 05h00

O dia 12 de fevereiro de 2021 tinha tudo para ser comemorado com pompa pelo partido Novo. Fundado pelo financista João Amoêdo e por mais 180 apoiadores sem experiência política, para lutar pelo liberalismo econômico e pela moralização da vida pública, o Novo completava 10 anos de vida.

Mesmo com um desempenho que deixou a desejar no pleito municipal de 2020, no qual elegeu apenas 29 vereadores e um prefeito (Joinville-SC) em todo o País, e com uma queda de 15% no número de filiados no ano passado, de 48.429 para 41.218, não faltavam motivos para celebrar a data.

Único partido a não usar recursos dos pagadores de impostos para sobreviver e financiar as suas campanhas, o Novo tem, hoje, além dos representantes municipais, o governador de Minas Gerais, 8 deputados federais, 12 deputados estaduais e um deputado distrital.

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Ex-presidente do Partido Novo, João Amoêdo. Foto: João Allbert/ Futura Press (26/06/2019)

Em 2018, nas eleições para a Presidência, as primeiras que o Novo disputou, Amoêdo ficou em quinto lugar, com quase 2,7 milhões de votos, o equivalente a 2,5% do total, à frente de nomes tarimbados, como o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles (MDB), a ex-senadora Marina Silva (Rede), o senador Álvaro Dias (Podemos) e o ativista Guilherme Boulos (PSOL).

Mas, exceto por um comunicado oficial no site do partido e algumas manifestações acanhadas nas redes sociais, o aniversário que marcava sua primeira década de atividade passou praticamente em branco – e não só por causa das restrições impostas pela pandemia. O Novo vive uma guerra fratricida e a sua maior crise desde a fundação, em 2011. "O partido passa por um momento delicado, muito delicado", diz um dos principais doadores do Novo, que prefere se manter na sombra.

Leia mais:Racha no Novo vai além de conflitos por impeachment e oposição a Bolsonaro

EXAME/IDEIA: Bolsonaro seria reeleito com ao menos 7 pontos de vantagem contra Lula ou Huck em 2022

Por Gilson Garrett Jr. / EXAME

 

Se a eleição presidencial fosse hoje no Brasil, Jair Bolsonaro (sem partido) seria reeleito para mais quatro anos de mandato. No primeiro turno, ele tem vantagem de 12 pontos percentuais em relação ao segundo colocado, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

 

Já em um eventual segundo turno, o atual presidente aparece com pelo menos sete pontos de vantagem contra Lula e contra o apresentador Luciano Huck (sem partido), os candidatos que mais rivalizam com Bolsonaro.

Os dados são da mais recente pesquisa EXAME/IDEIA, projeto que une Exame Invest Pro, braço de análise de investimentos da EXAME, e o IDEIA, instituto de pesquisa especializado em opinião pública. O levantamento ouviu 1.000 pessoas entre os dias 10 e 11 de março. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos. Clique aqui para ler o relatório completo.

A sondagem é a primeira feita após decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, que anulou todas as condenações de Lula na Lava Jato de Curitiba. Entre os entrevistados, 73% disseram que tiveram conhecimento do julgamento do ministro do STF.

A decisão tornou o ex-presidente apto a concorrer novamente ao Palácio do Planalto. Mesmo dizendo que não sabe se será candidato, Lula fez um discurso, na quarta-feira, 10, em tom de disputa.

“Jair Bolsonaro segue favorito, mas não será simples nem para ele nem para o ex-presidente Lula. Há uma demanda evidente de opinião pública por uma terceira via. Maior mesmo se comparada aos tempos da polarização PT-PSDB. Só falta a oferta”, avalia Maurício Moura, fundador do IDEIA.

A pesquisa EXAME/IDEIA testou três cenários de primeiro turno, todos incluindo Bolsonaro e Lula. Nas sondagens, os dois são os que mais têm chances de irem a um eventual segundo turno. A pesquisa também perguntou se ambos merecem mais um mandato no comando do Brasil. Para 48%, Bolsonaro não merece um segundo mandato, enquanto 46% acham que Lula é quem não merece um terceiro mandato.

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 (Arte/Exame)

Na sondagem de segundo turno, foram testados quatro possíveis cenários. Em uma disputa entre Bolsonaro e Lula, o cenário é de 44% a 37%, respectivamente. Já contra Huck, Bolsonaro tem 46% e o apresentador, 37%. Quando o nome do ex-governador do Ceará, Ciro Gomes (PDT) aparece, ele recebe 34% das intenções de voto e o presidente, 45%. Contra o governador de São Paulo (PSDB), Bolsonaro tem 47%, e João Doria, 26%.

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 (Arte/Exame)

Maurício Moura destaca que, para crescer nas pesquisas, o ex-presidente Lula precisa conquistar a população com maior renda. “Além disso, para 54% dos brasileiros a anulação da sentença de Lula foi injusta. O consenso no imaginário da opinião pública sobre sua inocência é minoritário. O PT e Lula terão de reconquistar a classe média”, afirma.

 

Entrada de Lula projeta eleição menos pulverizada

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2021 | 05h00

O restabelecimento dos direitos políticos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva impactou as estratégias e alterou a projeção que líderes políticos envolvidos com a sucessão presidencial vinham fazendo do cenário de 2022. De imediato, além de acelerar o processo de articulação de futuras candidaturas, a entrada de Lula no jogo eleitoral estreitou o espaço para candidatos. Por dois motivos: por um lado porque o ex-presidente cria uma expectativa de aliança na esquerda e por outro porque fica mais restrita a viabilidade de candidaturas que queiram se oferecer como alternativa à polarização.

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Ciro Gomes, Luciano Huck, João Doria e Sérgio Moro Foto: ABA BENEDICTO, FELIPE RAU, NILTON FUKUDA/ESTADÃO E MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL

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No contexto atual, há três nomes que se apresentam no chamado “centro expandido” da política nacional: Ciro Gomes (PDT), Luciano Huck e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Como mostrou o Estadão, em meio à novidade Lula, Doria admitiu pela primeira vez que pode deixar de lado o projeto presidencial e optar por disputar a reeleição no ano que vem.

A raia mais estreita da corrida eleitoral afeta também as articulações de Huck e Ciro. O ex-ministro e presidenciável do PDT terá agora de partir para negociações mais efetivas no campo do centro, já que a esquerda passa a gravitar na órbita de Lula. No caso do empresário e apresentador da TV Globo, as tratativas com o PSB ficam mais incertas e um dos pilares de sua retórica – o combate à desigualdade social – passa a ter forte concorrência.

“A entrada de Lula acelerou o processo sucessório e também acelerou para o Huck. A pressão agora não é mais só profissional”, disse o ex-deputado Roberto Freire, presidente do Cidadania. “Lula força uma discussão mais profunda sobre a criação de um polo alternativo.”

Freire tem conversado com Ciro e dirigentes do PDT não descartam que o Cidadania se alie ao ex-ministro caso Huck decida não concorrer.

Huck deverá, até meados do ano, tomar a decisão de renovar ou não o contrato com a Globo, indicando sua disposição de manter ou não o projeto eleitoral para 2022. Ele voltou a conversar com o DEM e abriu diálogo com emedebistas – a senadora Simone Tebet (MDB-MS) jantou recentemente na casa do apresentador. Seu grupo político, porém, agora tem dúvidas se o PSB vai caminhar para um convite formal e público a Huck.

A interlocução entre Huck e os pessebistas tem sido feita pelo prefeito do Recife, João Campos. A avaliação é que o rumo do partido em 2022 será ditado justamente pelo arranjo que melhor favorecer os interesses eleitorais da ala dominante do PSB, concentrada em Pernambuco – onde Lula é forte catalisador de votos (mais informações na página ao lado).

“Já estamos conversando com o centro. O Ciro tem aprofundado o diálogo com o PSD, DEM, PV e Rede”, afirmou o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, para quem Huck “perde base popular” com a volta de Lula. Ciro tem, prioritariamente, investido na construção de uma ponte mais sólida na ala nordestina do DEM – um dos seus interlocutores mais frequentes é o ex-prefeito de Salvador ACM Neto, presidente nacional do partido.

Caso mantenha os direitos políticos até a eleição do ano que vem, Lula também impacta o projeto do PSOL. O apoio ao petista ainda sofre resistências internas, especialmente dos líderes da legenda que foram expulsos do PT, mas o debate ganha volume na sigla. O presidente nacional do PSOLJuliano Medeiros, disse ao Estadão que “a presença de Lula no debate público reforça a luta da oposição contra Bolsonaro”. “Queremos criar um espaço formal para discutir a unidade com os partidos.”

Moro

Analistas e líderes partidários ainda avaliam, e também divergem, a respeito do impacto que o fato da última semana tem sobre o ex-ministro Sérgio Moro. Apesar da decisão do ministro Edson Fachin de anular as condenações de Lula na Lava Jato em Curitiba, a Segunda Turma da Corte manteve o julgamento que analisa a suspeição do ex-juiz titular da operação.

Recolhido desde que deixou o governo federal, Moro se tornou sócio-diretor da consultoria americana Alvarez & Marsal no ano passado. Mantém conversas com Huck e Doria, mas sem indicar pretensão de ser protagonista no ano que vem. Diante do fator Lula, o ex-juiz é visto por dois ângulos: um cenário em que é considerado parcial e perde capital político para uma investida eleitoral e outro em que a presença do ex-presidente revitaliza também o antipetismo e abre uma “estrada” para Moro.

Seus apoiadores confiam na segunda hipótese e reforçaram a pressão para que ele tome o mais rápido possível uma decisão sobre 2022. “Moro está sendo convocado à luta para defender a causa do combate à corrupção, que se enfraquece. Esta é uma decisão muito pessoal: aceitar a convocação para o enfrentamento ou se acomodar. A Lava Jato está sendo golpeada de forma fatal. Vejo como uma convocação ao enfrentamento”, disse o senador Alvaro Dias (PR), principal interlocutor entre o ex-ministro e o Podemos.

No campo governista, parte dos aliados de Jair Bolsonaro admite que o retorno de Lula pode dividir o apoio que o presidente tem hoje dos partidos que integram o Centrão. Aliados articulam a volta dele ao PSL e pregam que, para enfrentar Lula, é preciso entrar na disputa com uma sigla bem estruturada – ou seja, com dinheiro em caixa e tempo de televisão.

“O tsunami que elegeu Bolsonaro em 2018 não vai se repetir em 2022. Vai voltar o jogo da estrutura partidária”, disse ao Estadão o deputado bolsonarista Luiz Philippe de Orleans e Bragança (SP), que integra o círculo político mais próximo da família Bolsonaro. As conversas entre o PSL e o presidente foram retomadas e o partido isolou a ala de oposição ao governo no Congresso.

Polarização não significa disputa entre extremos, diz Cláudio Couto

Por Bernardo Mello Franco / O GLOBO

 

Polarização eleitoral não é sinônimo de disputa entre extremos, afirma o cientista político Cláudio Couto, da Fundação Getulio Vargas (FGV) de São Paulo.

Ele diz que o presidente Jair Bolsonaro deverá ser o único radical no páreo em 2022. E aposta que o ex-presidente Lula buscará uma aliança “além da esquerda” para enfrentá-lo.

O professor avalia que a volta do petista reduz o espaço para pré-candidatos que tentam se apresentar como alternativas de centro.

Para Couto, o país vive um processo de “deterioração democrática”, marcado pela hostilidade do governo à cultura, à imprensa, às universidades e às organizações da sociedade civil.

Leia a seguir trechos da entrevista:

O que muda com Lula livre para disputar eleições?

É um movimento muito importante no cenário de 2022. Lula fez um discurso mais amplo, falou em conversar com setores conservadores. Buscou mostrar que não é extremista, que é diferente do atual presidente. Foi um discurso de candidato, sem dúvida.

Para o governo, a volta de Lula é um abalo sísmico. Ele já obrigou Bolsonaro a usar máscara e botar um globo terrestre na mesa (em transmissão ao vivo na quinta). Isso mostra que o presidente acusou o golpe.

Como seria uma candidatura Lula em 2022?

Lula está claramente em busca de uma aliança que vá além da esquerda. Isso significa que ele tentará atrair partidos da base do governo, como o PSD. Muita gente que está com Bolsonaro hoje não vai acompanhá-lo até o cadafalso.

O discurso mostrou uma estratégia eleitoral clara. Havia um debate sobre a construção de uma candidatura de centro, alternativa a Lula e Bolsonaro. O que Lula quis dizer foi: "O candidato de centro sou eu". Isso muda o cenário, e vai tornar a vida do Ciro Gomes particularmente difícil.

Lula ainda é eleitoralmente viável após a prisão na Lava-Jato? 

Lula não voltará a ser o que era em 2010, quando deixou o governo. No entanto, não estamos mais em 2016, quando o Congresso aprovou o impeachment de Dilma Rousseff e o PT perdeu 60% das prefeituras na eleição municipal. O antipetismo ainda é forte, mas mas passou a ser contrastado pelo antibolsonarismo.

Em 2018, candidatos ditos de centro somaram menos de 10% dos votos. Como fica este campo numa disputa com Lula e Bolsonaro?

Já está claro que não vai haver espaço para todo mundo. Alguns pré-candidatos correm o risco de repetir o que aconteceu com a Marina Silva, que encolheu de 20% para 1% em 2018.

Os candidatos à esquerda de Bolsonaro e à direita de Lula deverão lutar por cerca de um terço do eleitorado. Se houver dois candidatos nessa faixa, a coisa já complica.

Entre os pré-candidatos, quem parece ser mais viável?

Não creio que João Doria tenha potencial para se expandir além das fronteiras de São Paulo. O governador paulista sempre é visto como um candidato forte, mas o último a chegar à Presidência foi Jânio Quadros, em 1960.

Não sabemos se Luciano Huck quer ser presidente ou substituto do Faustão. Se eu fosse fazer uma aposta hoje, apostaria no Luiz Henrique Mandetta. Ele pode se apresentar como uma voz de sensatez na direita moderada.

E o ex-ministro Sergio Moro?

Moro sofreu muito desgaste e perdeu fôlego como fenômeno de massa. Ele parece não levar jeito para a coisa. Talvez seu momento tenha passado. 

É correto dizer que o país pode se polarizar entre dois extremos em 2022?

Na literatura de ciência política, polarização é um confronto entre alternativas claras. É uma disputa entre dois polos, não necessariamente entre dois extremos. Por muitos anos, as eleições presidenciais foram polarizadas por PT e PSDB, e nenhum deles era extremista.

Não creio que Bolsonaro e Lula sejam comparáveis. Dizer que Lula é um extremista não só é uma rematada bobagem, como pode levar a uma escolha desastrosa. Em 2018, esse discurso levou a uma falsa simetria entre Bolsonaro e Fernando Haddad.

Depois de dois anos de governo, Bolsonaro pode ser classificado como um extremista?

Sem a menor dúvida. O Brasil está sofrendo um processo de deterioração democrática. Bolsonaro enxerga quem não se curva a ele como um inimigo a ser destruído. E reproduz essa lógica na relação com a cultura, a educação, as universidades, as organizações da sociedade civil.

O extremismo também está claramente configurado na negação da ciência, na ideia de que é preciso pegar em armas contra os governadores e prefeitos que não se alinham a ele.

Chamo Bolsonaro de fascista subletrado. O culto a morte e à violência, que está presente no discurso dele, é uma características do fascismo. A frase do general franquista Millán-Astray, "Abajo la inteligencia, viva la muerte!", caberia neste governo.

Como o presidente chegará a 2022?

Ele tende a sofrer uma corrosão, como já disse o senador Tasso Jereissati. A questão é que o bolsonarismo tem raízes profundas no nosso modo de ser. Por isso ele mantém o apoio firme de parte do eleitorado, por mais barbaridades que diga.

Em caso de derrota, Bolsonaro vai aceitar o resultado das urnas?

O cenário é muito preocupante. Nós vimos o que aconteceu nos EUA com a invasão do Capitólio após a derrota de Donald Trump.

A principal variável é saber o tamanho do desgaste de Bolsonaro, se ele sairá da eleição com apoio significativo ou não. Se ele sair muito frágil, terá dificuldade para mobilizar os grupos radicalizados que o apoiam.

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